caudaloso rio, cujas margens se ensombravão com enlaçados troncos de
copadas arvores, vergando de fructos: a terra era hervosa e aprazivel.
Aqui lançárão ancoras para indagarem no dia seguinte (porque hia em
gráo declive o Sol) o theor daquelles sitios. Vírão pela manhã muitos
dos da terra, quasi da mesma côr e traje, virem em bateis demandar
as náos; e logo que as abordárão, sobirem sem a menor desconfiança;
com o que os nossos os acolhêrão liberalmente com manjares e bebidas.
Nenhum porém dos nossos lhes comprehendia o idioma: com acenos sómente
denotavão o que quizerão exprimir. Tres dias passados, vierão quatro
homens principaes daquelle Povo saudar Vasco da Gama e contemplarem
a nossa Armada, e vinhão elles mais decentemente cubertos: assim
Vasco da Gama os convidou com iguarias, que lhes mandou servir, e
os presenteou com roupas de seda, com o que elles parecêrão não
mediocremente satisfeitos. Mas nem ainda destes se pôde colher indicio
algum, por onde suspeitassemos quão perto, ou quanto distantes ainda
estivessemos da India. Hum todavia nos disse em máo Arabigo, que
ás praias, d’onde elle viera poucos dias antes, e que não erão por
longo trato arredadas daquelle porto, aportavão frequentemente iguaes
navios em grandeza e feitio ao que nos nossos via. Os nossos tanto
que tal lhe ouvírão, entrárão em esperanças de que em breve computo
de dias darião vista da India: com o que se moveo Vasco da Gama a dar
a este rio o nome dos Bons Sinaes, e n’huma das ribanceiras delle
cravou huma columna de pedra com huma Cruz gravada e com a insignia
d’ElRei D. Manoel. O que elle fazia assim em todos os Portos, que mais
opportunos imaginava, para mais diuturnamente conservarem a gloria do
nome Christão, e os padrões do preclarissimo Soberano: para o que lhe
forão carregadas nos navios muitas destas columnas. Mandou porém que
aquella terra fosse illustrada com o nome de S. Rafael; e nella deixou
tambem dous daquelles condemnados, que, como dissemos, remírão a vida
com o desterro. Daqui, logo que adobou as náos, e tratou os enfermos,
mandou pôr de verga d’alto, levar ancoras, e fazer-se á véla aos 24
de Fevereiro. No primeiro de Março descubrírão quatro ilhas nem muito
longe delles, nem por largos mares entre ellas separadas. D’huma dellas
vio Nicoláo Coelho arrancar sete caravélas, e vir direitas a elles;
e os que nellas vinhão conhecendo pela bandeira do mastro grande a
Capitanea, voltão a ella as prôas; e feitos mais ao perto, erguendo
grandes alaridos, saudárão os nossos em Arabigo. Alli mandou Vasco
da Gama a Nicoláo Coelho, cuja náo era a mais pequena, que fosse em
direitura da ilha, d’onde vírão largar as caravélas. Partio Coelho
diante, sondando sempre, e bem examinado o fundo do ancoradouro,
vierão pouco a pouco seguindo-o as outras. Entretanto as caravélas
ladeão as nossas náos, e com a consonancia de seus anafins e outros
musicos instrumentos, regalão os nossos mareantes, e a grandes vozes
lhes dão os prolfaças de sua chegada a aquellas praias. Erão estes
homens de côr baça, mas mui bem apessoados, trajavão opas de seda,
ornavão as cabeças com toucas foteadas de finissimo algodão listado
de ouro: cingião alfanjes ao lado, e arrodelavão-se de broqueis. Ao
entrar pelas nossas náos nos saudárão em Arabigo, a que cortezmente
respondêrão os que esta lingua bem sabião. Vasco da Gama lhes mandou
pôr banquete, cujas iguarias elles não rejeitárão; e em quanto se
refazem, lhes pergunta o nosso Capitão, que nome tinha a ilha, qual
era sua Religião e seu governo. Ao que respondem, que a ilha tinha por
nome Moçambique, que o Povo adorava os idolos, que boa parte della era
habitada de mercadores Sarracenos: que pertencia a ilha a ElRei de
Quiloá, que nella tinha hum Xeque mui authorizado de sua pessoa, e que
apenas se acharia por aquellas partes mais frequentado emporio. Que
dalli sahião náos a mercadejar na Arabia, na India, e outras partes do
Universo, d’onde tornavão com innumeraveis carregações. Dizem-lhe, que
por aquella altura demorava Sofála, diante quem os nossos perpassárão,
terra mui abundosa de ouro: e por ultimo, que distancia hia dalli a
Calecut. Erguião as mãos ao Ceo os nossos, quando isto ouvião, davão
graças ao Omnipotente, imaginando ter já vencido mui grande parte de
seus trabalhos. Jaz esta ilha na região, que antigamente appellidavão
Egesimba, 16 gráos além da linha para a banda do Sul. São negros os que
a habitão, e a terra he insalubre, em razão de apaulada: as casas em
que morão, são de terra, cubertas com palha enfeixada: a opportunidade
porém que ella abre ao commercio, faz que venhão alli de toda a
parte fazer tráfico os navios. Os Arabios erão quem nella então mais
florecião em riquezas e poder. Servião-se de paráos não juntos com
prégos de ferro, mas com grossos tórnos de páo, passados nos buracos
da madeira, calefetando-lhes as juntas com estôpa, que tirão de cordas
feitas de folhas de Palmeira. São estas palmas, ou coqueiros arvores
altissimas, copadas de mui largos abanos de folhas agudissimas e mui
longas, com que seus extensos ramos bem cubertos, causão amenissima
sombra: dão humas nozes de grandeza desmesurada, a que chamamos cocos;
e para a navegação se valião de certos instrumentos maritimos, que os
Pilotos nomeão Agulhas, cuja fórma não julgo desacertado descrevella,
para clareza dos que não cursão as bordas do mar.
He huma como boceta de madeira redonda e plana, de dous ou tres dedos
de altura: tem no centro hum espigão fixo agudissimo na ponta, menos
alto que o vaso. Põe-se-lhe em cima huma regra de ferro primorosamente
fabricada, delgada e estreita, compassada com a grandeza do vaso,
de sorte porém que não iguale com o diametro delle. No meio desta
regra entra a ponta do espigão n’hum concavo, ou funil fechado que a
acapélla, e de tal modo nelle suspensa se balança em movimentos iguaes,
que todos os angulos que faz são semelhantes. Cobre-se esta boceta
com hum vidro, que hum fio de arame segura em redondo, e impede a
regra de sacodir-se do espigão e cahir fóra. Ora sendo tal a virtude
do iman, que não só tire a si o ferro, mas faça ainda que huma parte
delle busque o Norte, outra dê contra o Sul, e assim communique ao
ferro a sua mesma virtude: daqui vem, que quando as farpas desta regra
ou flécha, que hão de fitar o Norte, forão tocadas e esfregadas com
o iman, concebão a mesma direcção, e ficando suspensas de modo que
possão mover-se em todo o sentido, sempre pela propensão que o iman
lhe deo, apontará o pólo arctico. Succedia daqui, que os mareantes
advertidos por este instrumento, ainda mesmo quando mais alto se
emmaravão, e quando mais ennuveado e brusco estava o Ceo, sabião pelo
theor do Septentrião marcar o rumo. A esta regra ou flécha, pela
parecensa que com huma agulha tem, chamárão Agulha de marear. E como
depois he muito facil ao engenho humano ajuntar ao que com agudeza se
inventou, imaginárão outra fórma para mais ao justo saberem tomar
rumo no decurso da navegação. De humas varinhas de ferro compõem huma
figura equilátera, mas de angulos dissemelhantes á maneira de rhombo.
Pela parte superior lhe grudão huma carta redonda, e outra igual pela
inferior; e dando-lhe a hum dos angulos agudos toda a força do iman, o
armão de sorte, que hum indica o Septentrião, e o angulo contrario o
Meio-dia: hum dos dous obtusos lhes fica ao Levante, e outro ao Poente.
O diametro da Carta não sobra ao diametro da figura. A Carta tem no
centro hum como-embigo de bronze afunilado, tal como o que, dissemos
se fabríca no meio da flécha da outra agulha de marear. Passa por este
embigo a ponta do espigão, e tem a Carta suspendida; e assim não só faz
as vezes da flécha que mencionamos, mas expõe tambem á vista todos e
quantos rumos de ventos investem com o navio: porque na Carta de cima
ha o Septentrião, o Austro, o Oriente, e o Occidente, e entre estes
quatro todos os mais ventos intermedios mui apuradamente decifrados.
Ficava-lhe hum senão a este instrumento. Quando, alvorotadas as ondas,
a náo arfava da prôa á pôpa, ou jogava de bombordo a estibordo,
cozia-se a agulha com o fundo, e não tinha franca a pontaria ao Norte.
Engenhosamente atinárão com o atalho do mal. Cingírão c’hum nastro de
bronze o vaso pela soborda: sahem-lhe do cinto dous pólos de aço, que
se enfião em dous buracos d’outro círculo maior externo, mas pouco
distante do círculo interior. Ora são estes dous eixos dispostos de
geito, que se se prolongassem por dentro do vaso, lhe servirião de
diametro, e vão servir de pólos ao círculo exterior, para que em torno
delles libre. Deste círculo exterior sahem em igual distancia duas
outras pontas, que entrão no âmago da circumferencia interna da caixa
que encerra todo este engenho. São tambem contra postas as duas pontas,
que prolongadas como as outras, se cortarião no centro em angulos
rectos. Como esta máquina tem o fundo de grosso bronze, o pezo faz
que em nada toque; e por mais embatida que seja, não muda de sitio.
Suspensa e móbil a hum tempo, firme em seu proprio pendor, por tal
theor de engenho, que entre os mais desamparados balanços do navio se
conserva sempre em seu dever. Assim conseguem, que nenhum lance tolha
a este instrumento o fito, com que sempre derrota para o Septentrião.
Destas agulhas de marear se valião já aquelles Arabes, e tambem de
cartas, por cujas linhas alli bem traçadas, conhecessem apuradamente
as paragens daquellas maritimas regiões. Tinhão tambem Quadrantes, com
que observavão a altura do Sol, e quanto cada paragem dista do círculo
equinocial. Tão adiantados estavão em muitos segredos da navegação, que
pouco premio cedião aos Portuguezes, na intelligencia e meneio das
cousas maritimas. Conversavão mui graciosamente com os nossos, porque
os crião Mahometanos dos que demorão lá para a Mauritania. Vasco da
Gama os prendeo com dadivas, e os encarregou de alguns mimos em nome
seu para o Xeque da ilha, que tinha por nome Zacoeja: que logo que se
inteirou dos seus de com quanta affabilidade tinhão sido recebidos,
e vio os presentes que lhe erão mandados, teve por seu mui cumprido
dever ir visitallos. Pelo que sem demora se lançou huma cabaia floreada
de ouro, e poz no cinto hum mui luzido e bem gemmado alfanje, e hum
precioso e esplendido punhal, e com boa comitiva de homens armados,
se pôz em caminho das náos, e em tanto resoavão por toda a parte os
timbales e os anafins. Mas antes que elle as abordasse, tinha Vasco da
Gama mandado retirar, e não ser vistos todos os doentes, vestir-se e
armar-se á nossa usança todos os sadios e bem dispostos, e derramallos
pela tolda e ao portaló. Por quanto estava mui de acordo a se não
confiar em fé de Mouros, e prevenir acautelado e com dissimulo quantas
ciladas lhe pudessem urdir. Veio depois esperar Zacoeja ao portaló,
para alli o receber; e tanto que elle com os seus teve sobido, o nosso
Capitão o saudou, a que elle respondeo c’hum benevolo abraço. Sentados
todos, seguio-se agradavel conversação, e depois manjares e vinho, que
Vasco da Gama lhes mandou pôr diante, que elles com festivo semblante
comem, e não ha hi superstição de Mafoma, que lhes tolha esgotarem com
desafogo as taças. Zacoeja perguntava se erão Mouros, ou Turcos; bem
capacitado que seguião as leis de Mahomet. Tambem quiz saber de que
armas usavão nas peleijas, e se trazião comsigo alguns livros da seita
Mafamede, que com gosto os verião, se alli fossem. Vasco da Gama lhes
respondeo, que do ultimo Occidente vinhão buscar aquellas paragens, e
usavão taes armas como via carregados os que em roda delle estavão, que
além dessas, empregavão tambem aquellas peças de artilheria, capazes
não só de desbaratar legiões de homens, mas de demolir e arrazar
segurrissimos Castellos. Que de bom grado lhe mostraria os livros da
Religião que seguia, quando tivesse tomado alguns dias de repouso. Que
levava o fito na India, pelo que lhe pedia alguns homens entendidos
naquella navegação, para lhe servirem de guias até Calecut. Que assim
fazendo, elle Vasco da Gama tal cuidado se daria, que a Zacoeja lhe não
pezasse da mercê que lhe fizesse. Zacoeja lho prometteo assim, e no dia
seguinte veio visitar o nosso Capitão, trazendo comsigo dous Pilotos,
com quem Vasco da Gama se concertou por certa quantia de ouro, que o
levarião a Calecut. E ora parecia naquellas occasiões tão bem assentada
a familiaridade entre huns e outros com reciprocos presentes, que a
não crião perturbavel a successo algum que interviesse. Acertou porém
que Zacoeja rastreou ser o Gama Christão e os Companheiros, com cujo
alcance toda aquella amizade se converteo em odio acerbo. Desde logo
lhe começou a traçar perfidias, a maquinar-lhe perdição, e a excogitar
por todos os cabos de que geito lhe poderia tomar as náos, ou dar-lhas
ao fogo. Já obravão de máo modo com os nossos, augmentando-lhes tudo
de preço, assanhando á mão tenente em arruidos os indigenas contra os
nossos. Finalmente hum dos Pilotos, que Zacoeja trouxera, descubrio
ao Capitão as ciladas, que Zacoeja lhe tecia, e o outro, que tinha
ido a terra, nunca mais se deixou avistar dos Lusitanos. Aconteceo
tambem que alguns dos nossos, indo a terra fazer aguada e lenha, forão
accommettidos de sete almadias, a que logo os nossos acodírão; e dando
impetuosamente nelles, a tiros de bésta os derrotárão. Fez este caso
com que os nossos se passassem logo a huma ilha, que 4$000 passos
lhe fica defronte, e de lá á ilha de Quilôa, d’onde não podendo ir
avante, porque os forçavão a recuar os tempos contrarios, recorrêrão
á primeira ilha, onde com receio de insidias se transpassárão. Alli
accorreo a elles hum Arabio com hum filho, pedindo encarecidamente a
Vasco da Gama os recolhesse na sua náo, para os desembarcar em alguma
paragem, d’onde mais facilmente tornassem á Méca, patria de ambos:
e Vasco da Gama lhes perguntou, que mister exercitavão, Mareantes,
lhe respondêrão. Logo que isto lhe ouvio, de mui boa sombra o recebeo
o Gama, e com dous Pilotos taes, bem abonado se dava de ir com sua
carreira a cabo. Além de que n’huma das sedições de Moçambique contra
os nossos açuladas, tinha Paulo da Gama tomado á força hum homem, que
não parecia lerdo na arte nautica. Nem nesse lance tinhão os nossos
além de tres náos, porque a quarta que trazia as vitualhas, como estas
erão gastas, mandára Vasco da Gama queimalla poucos dias antes. Dalli
pois, logo que o vento lhes foi favoravel, levárão ancoras, disferírão
vélas em demanda de Quilôa, onde todavia não foi possivel ás náos de
entrar, ou já que os ventos os repellissem da ilha, ou que houvesse
erro na derrota; ou bem que o Piloto de Moçambique, que se aprestava a
acabar-lhes as vidas, por dolo lhes commettia nova carreira. Já lhes
dizia, que tomassem Mombaça, Cidade onde (com grande aleive) lhes
persuadia serem pela maior parte Christãos os moradores, onde mais que
em nenhuma acertaria com sitio opportuno para guarecer e restaurar os
seus doentes. Que muita parte dos que com Vasco da Gama se embarcárão,
erão naquelle tempo mortos de differentes molestias, e os poucos que
escapárão, attenuados de grave quebrantamento. Assenta-se Mombaça
n’huma alta e descuberta rócha, no seio d’huma abra, onde as ondas vão
bater fronteiras, quando na fóz entrão a alterar-se, e de lá quando
recuão, se partem em dous esteiros, com que abração ambos os lados da
Cidade, e como a Peninsula a despégão do continente. Tinha no porto
huma fortaleza bem fornida, crespa de artilheria, lanças e outras
armas, valentissimo presidio dentro, e vigiada de desvelada sentinéla.
He o terreno grosso em hortaliças, fructos e searas, rebanhos de gado
miudo e armentio, e aguas saborosas: e he alli o Ceo mui temperado.
Os homens alli vivem muito ao polido, e edificão suas moradas a nosso
modo, rebocando-lhes as paredes com estuques de varias cores. Aqui veio
pois Vasco da Gama na intenção de passar alguns dias no seu porto, em
que regalasse os seus doentes com os fructos e refrescos da terra.
Ainda as náos não tinhão bem lançado ferro, que vírão huma grande
barca abordar a Capitanea, e trazia obra de cem pessoas, vestidas á
Turquesca, com seus alfanjes e rodéllas, e entre elles quatro, que
pela apparente dignidade e trajo de suas personagens, se avantajavão
aos outros; e como todos pretendessem subir, lho vedou Vasco da Gama,
menos a aquelles quatro, e ainda quiz que depozessem antes suas armas.
Subírão estes, e qualificárão muito a prudencia do nosso Capitão, em
não consentir se lhe chegassem de perto com armas, homens que elle
não conhecia; e convidados grandiosamente a comer, elles o fizerão
e tratárão de se affeiçoar os nossos com muitas mostras de amizade,
concluindo com dizer-lhes, tivera ElRei por aquelles dias novas seguras
da sua vinda, e estava mui alvoroçado de concertar intimidade com
elles. Ao que Vasco da Gama deo respostas de graciosa benevolencia,
e egregia cortezanía. No dia seguinte lhe mandou ElRei Embaixadores,
que em seu nome comprimentassem a Vasco da Gama, e em dom lhe levassem
refrescos para os soldados, trabalhados da viagem. E mais lhe dizião,
ser a Cidade mui opulenta, e mui abastecida de todas aquellas cousas,
em busca das quaes navegavão muitos á India: que de sua vontade lhes
era ElRei muito inclinado, e que nada havia ahi tão difficil, que a
seu respeito não promettesse fazer. Pedião tambem a Vasco da Gama se
avisinhasse da Cidade, entranhando-se mais no seio do porto, para que
mais facil fosse vir ElRei a vê-los, como muito desejava: aqui Vasco da
Gama denotou assim cumprir, e lhes deo em refens dous dos degredados,
de que acima fallamos, com recado para ElRei. Este lhes fez gracioso
e festivo acolhimento, e deo ordem a seus criados, que lhes fossem
mostrar a situação e formosura da Cidade, e á volta lhes faz alarde
de quantas sortes de aromas se vem fazer emprego na India, e de tudo
o que alli vírão, lhes faz mimo, para que o possão mostrar a Vasco
da Gama, e encarecer-lhe quão util lhe era mais tratar com hum Rei
amigo, que confiar a vida a tão perigosa navegação. Com este recado
tornárão os degredados aos navios; e Vasco da Gama tão pasmosa alegria
dalli cobrou, que no dia seguinte mandára içar as ancoras e fazer-se
á véla para a Cidade. Como porém a sua náo corresse mais ligeira
compellida do tezo da maré, e hia mais avante do que era acertado,
elle que se receava de algum baixo, em que viesse a soffrer, mandou
colher as vélas logo, e deitar ancoras ao fundo; e fez sinal aos mais
navios que fizessem o mesmo, e sem demora. De cuja acção tomados de
repentino susto os Pilotos de Moçambique, se arrojão precipitados ao
mar; e fugindo, e nadando, se acolhem em certas barcas, que não longe
delles erão. Que suspeitárão das ancoras, que contra seu conceito
lançadas vírão, ser descuberta a sua trama: e (como logo foi sabido)
tinha ajustado ElRei com os que frequentemente vinhão da sua parte com
recados, engasgassem em tal paragem as nossas náos, onde facilmente
fossem espedaçadas ou cativas. Em tanto vociferava o Gama aos das
barcas, que lhe restituissem os seus Pilotos; mas elles com pouco caso
de seus gritos, puzerão os Pilotos em terra. Então o nosso Capitão,
que de sua conjectura, de alguns indicios do Piloto Arabio, e muitos
outros sinaes, deo fé do grandissimo perigo, de que tinha por divino
amparo sido livre, ergueo suas mãos ao Ceo. Todavia mandava ElRei de
noite e muito ao callado, em barcas e bateis, homens, que com machadas
lhe cortassem as amarras; e sem o muito desvelo, que o Gama punha nas
vigias, e em obviar as insidias daquelle Rei preverso, alli correrião
os nossos extremado risco em suas vidas. Derão dalli á véla depois
de dous dias serem passados (que não lhes foi dado despachar-se mais
presto); e dirigindo sua carreira para Melinde, cativárão hum Zambuco
de Mouros, quatorze dos quaes sómente conservou prezos o Gama, dando
liberdade a todos os mais. E como percebesse no Arrais, que era hum
delles, visos de gravidade, que denotavão hum homem authorizado, lhe
fez varias perguntas, ás quaes todas, como varão sizudo, respondeo com
verdade e com prudencia.
Indo assim navegando a Lusitana Armada, no dia em que a familia
Christã celebra a Resurreição do Salvador, surgio ante Melinde. Jaz
situada esta Cidade n’huma planice; cingem-na em roda jardins e hortas
de multiplice verdura: abunda em arvoredos, e entre elles muitos
limoeiros, cujas flores espargem de mui longe suavissimo cheiro.
São seus contornos ferteis e abastados não sómente em gados, mas em
toda a caça de pé e de altaneria: as casas de mui boa cantaria bem
assoalhadas, bem rebocadas, bem artezoadas. A gente adora os idolos, e
são em o culto delles miudamente supersticiosos: os habitantes negros
e de pello retorcido; são quanto a seus corpos mui bem apessoados;
involvem as cabeças com turbantes de tecidos algodões; nús pelo demais
corpo até o embigo; lanção delle até meia perna certos saiotes de seda.
Na guerra usão de cimitarras e broqueis, de lanças, de arco e settas:
incrivelmente se pavoneão de os terem por esforçados e guerreiros.
Não fica perto da Cidade o ancoradouro, porque toda aquella costa he
espinhada de rochedos, e exposta a frequentes trovoadas e ventanias, o
que obrigou Vasco da Gama a surgir hum tanto longe da Cidade. O Mouro
Piloto cativo no Zambuco, mal que entendeo que pelo perigo ameaçado em
Mombaça, desconfiava o nosso Capitão d’ElRei de Melinde, se offereceo
a ir por enviado e tirar indicios de seu animo; e instou mais com
lhe dizer, que havia naquelle porto quatro náos das partes da India,
em que vinhão passageiros Christãos do Oriente, que abraçarião com
ansia partirem com elle para a India, tendo dado boa conclusão a seus
negocios; companhia esta, que lhe facilitaria summamente a sua derrota.
Vasco da Gama, que lhe não dava muita fé, considerando todavia o pouco
que se perdia em palpar aquella venida, mandou deitar o Mouro n’huma
ilhasinha fronteira de Melinde, d’onde este se passou n’hum barquinho,
que de lá veio á Cidade; e posto ante ElRei, dá grandes louvores
á nossa gente, quanto erão humanos e fieis: quanto desejo tinha o
Capitão e mais companha de entrar em sua amizade; e que era muito de
seu engrandecimento ferir pacto de amiga alliança com taes homens. Era
ElRei já idoso, e mui clemente e pacifico de sua compleição, pelo que
mandou a Officiaes de sua casa, que em seu nome fossem saudar Vasco da
Gama, e lhe levassem dadivas de cousas comestiveis, como carneiros,
e frutas de toda a casta. Com reciprocos presentes os remunerou o
Gama, esmerando-se em lhes não ceder em bizarria e trato. Mandou
tambem encostar os navios mais á terra, e vir a elles os Christãos
Indianos, que com ver-nos concebêrão incrivel contentamento, e nos
advertírão de muitas cousas mui proveitosas á conservação da vida,
e segurança da viagem. Posto que ElRei tinha extremo desejo de ver
as nossas náos, os incommodos da molestia e dos muitos annos lhe
tolhêrão o conseguillo; assim veio seu filho, que em vez delle regía
já seu Reino, e o acompanhou até ás náos grande sequito de homens
nobres: e vinha elle custosamente adornado de todas as insignias
Reaes, resoando em toda a comitiva os anafins e os atabales. Para mais
cortezmente o receber, desceo Vasco da Gama a huma bem toldada lancha,
á qual, para o prevenir, com despejado salto se lançou o Principe,
dando-lhe estreitissimos abraços, como se de longa amizade, e familiar
conhecimento se tratárão. Sentados todos, começárão gostosissima
prática, e em toda ella o Principe nenhum resabio demostrou de homem
inculto, antes representava engenho e prudencia digna da sua qualidade.
Olhava para o Gama com hum certo assombro; contemplava o feitio das
nossas náos, e com muitos sinaes dava a entender quanta affeição o
penhorava pelos nossos. Então he que Vasco da Gama lhe fez presente
de todos os Mouros que cativára; o que o Principe acceitou em grande
mercê, e o animou a pedir-lhe que viesse visitar seu Pai, que elle
lhe deixaria em refens dous filhos seus. E como negasse o Gama poder
cumprir com sua vontade, lhe pedio ao menos deixasse vir com elle dous
de sua companhia. Facilmente lhe forão outorgados; e no dia seguinte na
mesma lancha se aproximou mais da praia para contemplar a formosura da
Cidade; e nesta segunda visita o Principe se não descuidou de obsequio
algum, que podésse demostrar quão summamente nos era inclinado, até
que por ultimo nos fez mimo d’hum peritissimo Piloto Guzarate, cuja
patria banha o Rio Indo, requerendo sómente por graça a promessa de que
quando por alli voltasse, receberia a bordo hum Embaixador, que fosse a
Portugal tratar santissimo concerto de amizade com o seu preclarissimo
Soberano.