os Reis de Castella tinhão prompto com a competente dignidade quanto
se requeria para as nupcias da Princeza D. Isabel: pelo que de Cintra,
Villa situada nas fraldas do Monte da Lua, sua residencia então, se
põe de partida para Evora, onde manda lhe venhão fazer comitiva muitos
fidalgos principaes, em quanto a Rainha D. Isabel vem com sua filha
D. Isabel a Valença de Alcantara, Villa que entésta com os limites
de Portugal. Não pôde ElRei D. Fernando achar-se alli presente, que
lho tolhia a enfermidade de seu filho o Principe D. João, que tinha a
deshumano então desamparallo; por tanto repartírão os deveres entre si,
vindo ella acompanhar a noiva, e elle ficando em Salamanca velando
no Principe molesto. Foi porém acordado entre ambos, que logo que ao
Principe D. João apontassem melhoras, partiria ElRei D. Fernando para
Valença a condecorar a voda; e por quanto a tardança della hia além do
que podia facilmente comportar a ansiedade d’ElRei D. Manoel, escreveo
este á Rainha de Castella, que com muito gosto, se a ella lhe aprazia,
passaria a Valença para receber a sua Esposa: disto deo a Rainha aviso
a D. Fernando, que lhe respondeo não poder despartir-se do lado de seu
filho, cuja vida pela gravidade da doença laborava em ultimo discrime:
que se D. Manoel queria vir a Valença; lho não impedisse; que lhe
insinuasse todavia de trazer pouco sequito, e differir para tempos mais
faustos toda a demonstração de grandes regozijos. Deo logo a Rainha a
saber a D. Manoel, que viesse quando bem lhe fosse do agrado: nem elle
poz demora em se pôr a caminho para Valença, onde a Rainha encerrou no
peito a nova que lhe veio da morte de seu filho, por evitar pezadume
ao genro. Este com tudo veio a sabello, e foi pedir á Rainha sua sogra
lhe permittisse partir para Portugal, e levar comsigo a sua nova
Esposa, antes que nos ouvidos lhe tocasse a triste noticia: e logo se
foi a Evora, onde lhe deo parte da morte do Principe seu irmão, que
ella mui agramente deplorou. Toda a Hespanha com esta morte trajou
luto e nojo, principalmente os Póvos de Aragão e Castella, vendo sem
prole masculina os Reis, e sem esperança della: só lhes ficava com
sinaes de prenhez a Princeza viuva D. Margarida, filha do Imperador
Maximiliano, então Soberano da Pannonia superior, que hoje intitulão
Austria. Mas ainda a tenue esperança que lhes ficava de que com o
parto da Princeza viuva não passaria o Reino a Principes estranhos,
dentro de poucos dias (mal parindo esta) lhes foi cortada: o que foi
causa de recahir em D. Isabel por direito a herança do Principe D.
João seu irmão, que de todas as irmans era a mais alta em annos. Não
cessava em tanto D. Manoel com grão desvelo de cuidar na governança
do seu Reino, applicando-se a restabelecer os foraes, direitos e
immunidades, cuja posse fora com certas condições outorgada aos Póvos;
e em abalizar os confins das Provincias, das Cidades e Lugares para
atalhar demandas e assentar os fóros de cada Cidade, porque soubesse
cada huma ao justo seus limites. Achando-se a Rainha pejada, vierão
Suas Altezas a Lisboa, onde recebêrão Cartas dos Reis de Castella, em
que lhes significavão o abortivo de sua nora, e lhes insinuavão de
se pôrem á estrada para a Hespanha, para receberem a obediencia dos
Póvos, como legitimos herdeiros da Monarquia; e ElRei que via quão
necessária lhe era aquella jornada, convocou novamente as Cortes, e
nellas instituio varias Leis, que lhe parecêrão acertadas. Logo no
anno seguinte, que foi o de 1498, partírão de Lisboa no primeiro de
Abril, acompanhados sómente de 300 de cavallo, porque lhes pedírão
os Monarcas Hespanhoes, que cerceassem de sua comitiva, para evitar
dissensões, que entre Castelhanos e Portuguezes de levissimas causas
trivialmente se levantão em semelhantes congressos de seus Reis.
Levavão todavia mui fidalgas pessoas comsigo, e entre ellas a D. Jorge,
filho d’ElRei D. João, em quem (posto que menino) se cravavão os olhos
de toda a gente, que despertada com a parecensa do filho, celebravão o
nome de seu Pai com gratos elogios. Todos hião de luto, para denotar
naquelle traje lugubre a tristeza, que pela morte do Principe nos
animos lhes morava. Apenas entrárão nos confins de Castella, lhes veio
ao encontro o Duque de Medina Sidonia, cuberto tambem de nojo, que
logo que os avistou, se apeou do cavallo, e lhes foi beijar as mãos:
o mesmo fazião os mais Principes, e quantos vinhão distintos por sua
nobreza ou dignidades. Por todas as Cidades e Villas era pasmoso o
concurso e celebridade dos que vinhão a vêllos, e com vivas e parabens
denunciavão a alegria, que de sua vinda concebião; nem attentavão os
homens ricos e poderosos nos sumptuosos gastos, que a seu respeito
prodigavão. Chegados a Toledo, sahio-lhes ao encontro D. Fernando, e
a ambos muito amorosamente abraçou, como o pedia a razão de tamanho
parentesco. Os mais principaes da Cidade os aguardávão á porta, para
com respeitosas palavras e profundas reverencias, e mais demonstrações
usadas em Hespanha, lhes renderem sujeição e homenagem. E como hia já
entardecendo, os conduzírão ao Templo debaixo d’hum palio de ouro:
dalli depois de terem feito oração, se partírão aos Paços, onde D.
Isabel os recebeo com tanto contentamento, que demostrava ter com a
vinda delle, despedido de seu animo toda a pena, que pela morte de seu
filho nelle entrára. ElRei D. Fernando tendo fallado com agrado a todos
os nossos, fez a D. Jorge o mais honrado acolhimento. E não tolerando
os Reis de Castella interpôr muitos dias, derão-se o cuidado de atalhar
demoras ao cumprimento da obra, para que forão as Cortes convocadas,
e seu Genro e Filha alli chegados. Pelo que no Domingo seguinte forão
D. Manoel e sua Esposa encaminhados á Sé, e o mesmo Duque de Medina
Sidonia á ilharga delle a pé com a mão nas rédeas do cavallo, e á
esquerda delle o Senhor de Frias, exercitava igual emprego á Rainha
Portugueza; e do mesmo modo servia a D. Fernando o Condestavel, e á sua
Esposa o Duque de Alva. Disse a Missa o Arcebispo de Toledo com rara
devoção e ceremonia; e logo que acabou o Officio da Igreja, se ergueo
D. Fernando e sua Mulher, ElRei tomando o Genro pela mão, e D. Isabel
a Filha, e vão sentallos em riquissimas e mui altas cadeiras para este
acto preparadas, tomando para si outras de ilharga. Os Procuradores das
Cidades tomárão tambem assento, pelo termo d’ha longas eras determinado
na Hespanha: os Grandes forão occupando seus lugares á ventura, sem
offensa de direitos particulares, porque os tinha amigavelmente
admoestado D. Fernando, que não altercassem precedencias; porque lhe
seria de muito pezadume, que fosse alterado, por intempestivas disputas
de assentos, hum acto, em que elle desejava a maior harmonia de animos.
Estando todos em silencio, se levantou hum muito erudito Jurisconsulto,
reputado bom Orador, o qual fez huma falla mui esclarecida, que
expunha as avantajens da paz, o ocio e remanso de toda a Hespanha,
dilatação do Imperio, e outros uteis, que daquella união de Reinos
denunciavão provir. Exhortou depois os Grandes, e as Cidades, a que
amassem á porfia os Senhores D. Manoel, e sua Esposa, que como vião
erão os herdeiros de seus Soberanos; que como a taes os respeitassem
e servissem em tudo com eximia lealdade; esperando muito, que sendo
(como sabião) tão extremados em reaes virtudes, não dissemelharião dos
Reis, a quem tinhão de succeder, no tempo que o supremo Senhor lhes
tinha lá talhado. Depois voltando-se a D. Manoel e sua Esposa, lhes
advertia que fittassem o espirito no encargo de que se incumbião; pois
era de seu dever attentar pelo Povo, amparar a innocencia, tolher a
maldade, ter salvo o Reino, desviallo de perigos, conservallo inteiro,
e ainda accrescentallo em proveitos e abastanças. Tanto que assim
perorou, veio hum Bispo com hum Missal, e aberto lhe assentou no meio
huma Cruz de ouro, e apresentou-a aos Principes herdeiros, dizendo-lhes
que pozessem nella as mãos; e seguindo com palavras as que o Bispo lhes
hia adiantando, se obrigárão com santissimo Juramento a administrarem
justiça aos Póvos, conservarem as franquezas da Republica, e pôrem
todo o seu desvelo no bem commum. Logo tomou o Condestavel das mãos
do Prelado o livro, e sobre elle jurou reconhecer D. Manoel e D.
Isabel por véros e legitimos herdeiros de seus Reis e Senhores, a quem
e a cujo mando guardaria inteira obediencia, e por cuja grandeza e
dignidade com animo leal peleijaria; e foi seguindo a tomar o mesmo
juramento aos demais Senhores e Procuradores das Cidades, que todos
por sua ordem vinhão chegando a beijar as mãos dos Principes, a quem
juravão lealdade. Sómente os Cidadãos de Toledo se negárão a esta
homenagem: e não será fóra de razão contar o porque faltárão a este
dever os Toletanos; que daqui se colherá por quão leves incidentes, se
o mal se não atalha logo com prudencia, se costumão levantar nos Reinos
turbulentos disturbios.
Houve de antigas eras em Hespanha entre Burgos e Toledo (duas Cidades,
que demostravão preferir-se a todas as mais) summa altercação,
asseverando os de Burgos de firmeza ser a sua Cidade a Metropole de
Castella: e reclamando os de Toledo para esta o principado da Hespanha.
Foi demanda esta, que nunca pôde ser julgada, nem acabar-se por algum
meio com huma dellas, que remittisse á outra hum átomo do seu direito;
e era muito arriscado cada vez que os Reis tinhão de ajuntar as Cortes,
não se tomassem de mãos os que dessas Cidades vinhão punir por seus
direitos. Pelo que Affonso XI. quando as convocou em Compostella, para
arredar esta dissensão, disse ao Congresso (antes que houvesse menção
de tal debate): “Sei que os Toletanos de mui boa mente cumprírão com
as ordens: fallem os de Burgos.” Este dito de Monarca os socegou,
tendo-se huns e outros por preferidos: os Toletanos porque ElRei os
nomeou primeiro; e os de Burgos porque derão o primeiro parecer.
Maxima foi esta, que os Reis de Castella continuárão a seguir, cada
vez que juntárão Cortes. Todavia os de Toledo por evitar debate, o
não quizerão fazer naquelle acto; mas apenas sahírão da Igreja, e
antes que entrassem os Reis nos Paços do Arcebispo, onde lhes estava
adereçado o banquete, vindo alli mesmo na rua a encontrar-se com D.
Manoel e com a Rainha sua Esposa, lhes beijárão submissamente as mãos.
Despedidas as Cortes, D. Fernando se dispoz a partir para Aragão com
sua mulher, seu genro, e sua filha, para que como em Castella tinhão
feito, prestassem os Grandes daquelle Reino obediencia e fé. A jornada
que fizerão foi ella tal, que lhes vinha ao encontro, por onde quer que
passavão, immensa gente em bandos, desmostradoras de incrivel alegria,
os Donatarios, e Camaras bastantes os provião de quanto relevava para
a régia pompa e vitualha. Chegárão a Çaragoça no primeiro de Junho,
onde forão recebidos pelos usos daquella Cidade com solemnissimo fausto
e sobejas ceremonias: e tanto que derão alguns dias ao repouso da
jornada, fez D. Fernando que sem demora déssem os de Çaragoça como a
Castelhanos, juramento de fidelidade a D. Manoel e á nova Rainha, o
que os Çaragoçanos recusárão, se primeiro não viessem os de Valença e
Barcelona, em cumprimento dos fóros de suas Cidades. Instou D. Fernando
todavia, que não havia que esperar por elles, quando estavão certos,
que em seu tempo e lugar compririão com o seu dever; que era escusada
a demora em ponto tão arredado de dúvida; mas respondêrão-lhe, que
não era elle de tão facil solução, que não compadecesse consultallo.
Que nada vacillavão em dar sua homenagem, mas que só a maneira e
condição della os retrahia. Que para mais commodamente consultarem,
carecião da vinda dos outros deputados; porque a causa commum, communs
avisos a sostivessem. Que se porém levava em gosto, que desde logo
jurassem fé e homenagem, o farião de vontade, se D. Manoel e sua
Esposa acceitassem a condição, que apenas entrassem na posse do Reino,
lhes restituirião sem demora as immunidades e fóros, que aos Póvos de
Aragão retirára D. Fernando. Ao que este respondeo, que nenhum caso o
dobraria a remittir-lhes o que por seus demeritos exorbitantes lhes
fora subtrahido, quando mórmente delle tão aveza e injuriosamente
abusado tinhão. Nestas alterações, e não com tenue desagrado dos Reis,
tres mezes se consumírão. Entre as muitas causas, que mediavão no
dissentimento, não abalava pouco os animos dos Monarcas o dizerem os
Çaragoçanos, que sempre fora brazão dos Aragonenezes não serem sujeitos
a feminil imperio; e que se ElRei morria sem prole masculina, lhes era
franco nomear em Cortes hum Rei, que por suas virtudes merecesse o
throno. E ora os Çaragoçanos desvelados pela liberdade, passavão armas
de encuberto em certas casas, se fortalecião de todos os lados, tinhão
conferencias entre si ácerca da commum utilidade, e nada trascuravão,
por melhor se assegurar de seus direitos. Mas estes desasocegos todos
applacou-os a Senhora D. Isabel, dando á luz hum filho no dia 25 de
Agosto, a quem derão o nome de Miguel, com cujo nascimento entrou o
Avô em tão desmesurado contentamento, que lhe trasbordava em gritos,
com que se dava os parabens, e a todos de ter hum Neto, herdeiro de
todas as Hespanhas. Como porém todas as cousas humanas sejão mudaveis
e transitorias, e summas alegrias disparão em tristissimo acabamento,
este eximio regozijo dos Reis, estas congratulações dos Principes,
estes applausos dos Cidadãos fenecêrão em acerbissimo nojo. Que a
Senhora D. Isabel enfermava d’ha muito antes do parto; e quanto mais
se este avisinhava, maiores symptomas indicava de molestias: e logo
que allumiada foi de seu filho varão, em tanta copia lhe sobreveio
hum fluxo de sangue, e tanto com elle lhe desfallecêrão as forças,
que nos braços de seu Pai entregou o ultimo alento. Foi Princeza, em
quem lustrou singular denotação de modestia, probidade, religião e
prudencia, de que em aquelle ultimo acto da vida nos deixou claros
abonos, dizendo e testemunhando cousas, de que bem colher se póde
quão pouco desta miseravel vida, e quão muito da eterna cogitava.
Seu enterramento foi com muitas lagrimas de todos acompanhado. ElRei
D. Manoel logo que prefez suas exequias, e deo cumprimento a seus
legados testamentarios, se partio para Portugal, despedindo-se, e como
arrancando-se com muita dor de D. Fernando e D. Isabel. Nem podia a
aquelle despedimento faltar renovação de acerbo pranto, quando a huns
sobia ao animo, que filha tinhão perdido, e memorava D. Manoel ser
viuvo d’huma Esposa ornadissima de todas as virtudes. Muitos Grandes o
acompanhárão até Portugal.
E ora como de jornada pousasse na Villa de Aranda, que o Douro banha,
mandou ao Papa Alexandre Embaixadores, que o exhortassem a attentar
pelas cousas da Igreja: que andavão os costumes estragados, apagada a
ansia da Religião, solto o despejo dos flagicios, e vendidas a indignos
as cousas mais sagradas: que na Cidade, onde morárão a santidade
e o Christianismo, tinhão levantado officinas á preversidade e á
insolencia: que ardia a Igreja Romana em descarada infamia, e vergava
para o despenho o pondonor Catholico. Por tanto lhe pedia e instava,
e pelo Sangue de Jesu Christo lhe requeria pozesse atalho á maldade,
decepasse a devassidão, reprimisse a avareza, ungisse os relaxados
costumes com mais severa disciplina, désse honra a seu tão digno posto,
reduzisse com exemplos, de suas virtudes o Rebanho Christão, que tão
desgarrado hia do trilho da santidade. Mandava por Embaixadores a D.
Rodrigo de Castro, D. Henrique Coutinho e D. Fernando Coutinho, pessoas
de mui nobre qualidade, e mui qualificada prudencia, a quem deo ordem
que se communicassem com o Embaixador, que ElRei D. Fernando pelo mesmo
motivo mandava a Roma, segundo com elle D. Manoel o tinha concertado em
Çaragoça. Logo que despedio os Embaixadores a jornadas contadas, voltou
a Portugal, entrando em Lisboa no dia 13 de Outubro, onde foi inteirado
pelas Cartas de D. Fernando e D. Isabel, que com summo consentimento
dos Reinos de Aragão e de Castella fora seu filho D. Miguel declarado
Principe legitimo e herdeiro de ambos aquelles Estados, e lhe fora
prestada universal e pública fidelidade; e que assim lhe pedião, pelo
muito que convinha á tranquillidade daquelles Reinos, semelhantemente
o fizesse D. Manoel em Portugal. No anno seguinte, que foi o de 1499,
para romper demoras, chamou a Cortes, que sem difficuldade se juntárão.
Então requer de todos, que promettão obediencia e fé a seu unico filho
D. Miguel para todo sempre, ora que Deos como a seu legitimo successor
o suba ao throno daquelle Reino. E todavia as Cortes, antes de prestar
homenagem, requerêrão de D. Manoel, que em nome de seu filho, e com
juramento o abonasse, que nunca os Almoxarifados, nem Governos, nem
Capitanías de Fortalezas d’aquém e d’além mar pertencentes ao dominio
de Portugal, em nenhum tempo, nem sob condição alguma, serião dadas a
quem não fosse Portuguez nativo: o que facilmente lhes concedeo D.
Manoel. Neste presupposto prestárão fé a D. Miguel, dado que ausente, e
D. Manoel assinou de sua propria letra o acto de promessa, confirmando
este instrumento público de sempiterna memoria. Nisto conclue o que por
este anno se passou na Lusitania. Quanto ao de fóra, os Embaixadores
que D. Manoel mandára a Roma, tanto que lá entrárão, communicão, como
lhes fora incumbido, com Garci-Lasso, Embaixador de D. Fernando, todo
o amago da Embaixada; e depois de o terem bem deliberado, vão ter com
o Pontifice, a quem em nome dos dous Monarcas humildemente pedem,
rogão, instão queira com a applicação ao Christianismo, e severidade
de castigos apagar o incendio de tantos flagicios. Nem só huma vez
com vozes francas o requerem delle, mas a miudo lhe instão e urgem, e
até com actos públicos abonão seu requerimento, para que fosse claro
a todos que nada omittírão os Reis de Hespanha do que relevava para
esteio da resvalante Igreja. E algum tanto fructificárão no Papa
estes avisos, que dalli em diante governou menos devassamente os seus
Estados, dando demonstração que lhe não fora desabrida a advertencia.
Nem passárão muitos dias, que não mandasse a D. Manoel hum Nuncio
com ricos presentes, por elle bentos com muita solemnidade; e estes
dons consistião n’huma espada, e n’huma gorra, que ElRei recebeo com
mui grata vontade, e despedio o Nuncio grandiosamente satisfeito,
declarando por Carta ao Pontifice, que seria (como delle o dever da
Religião lho requeria) mui fervoroso em seu obsequio. Nos 11 de Julho
desse mesmo anno recebeo as primeiras novas da exploração das Indias,
sob seus auspicios encetada: á qual tornaremos de seu principio, para
dar clareza ao feito.
Logo que desancorou de Lisboa, poz Vasco da Gama o rumo nas Ilhas
fortunadas: depois tomou para a de Sant-Iago, que he na face da
Ethiopia, e de lá (como vinha nos prégos) poz a prôa no Oriente, ao
qual mandou chegar as náos de sua conserva; e entradas que forão
n’huma grande enseada, mandou colher as vélas e deitar ancoras ao
fundo. Depois disse a Nicoláo Coelho, que cozendo-se mais com a terra,
descobrisse algum rio, onde podessem fazer aguada: pois havia já tres
mezes de consumidos na viagem pelo rigor das tormentas, pelo que hião
mui faltos de agua. Foi o Coelho, em seguimento das ordens, inquirindo
a praia, até que acertou com a fóz d’hum rio, cujas aguas erão doces,
e as ribanceiras de mui verde arreio; do que deo parte a Vasco da
Gama, que sem demora fez sinal de velejar para aquelle sitio, e nelle
se prover de agua e de lenha: tambem alli pescárão grandes fócas, que
são lá mui bastos, e sua carne lhes foi refresco. E ora tinha o Gama
por documento, que em qualquer terra que aportasse, tirasse nota dos
costumes e instituições da gente della: pelo que encommendou a certos
homens, que por força, ou manha lhe houvessem á mão algum daquelles
moradores, para delle tirar lingua do que desejava descortinar. Estes
lhe trouxerão dos naturaes da terra de vária côr, crespo e curto o
cabello, e de tal linguagem, que nenhum da companha instructos em
muitas linguas da Ethiopia, lha comprehendeo. Nada menos o Gama os
acolheo com boa sombra, os vestio, e prendeo, com os dons que mais
parecêrão contentar-lhes, por ver se assim convidavão outros tambem a
vir. Erão estes dons cascaveis, alguns velorios e outros deste jaêz.
Seguio-se grande privança entre esta gente e os nossos, trazendo
os Ethiopes dos fructos e carnes, com que a terra lhes acodio, bem
necessarias para o sustento, que os nossos resgatavão com fatos de
mui vil preço e tenuissimas zarandalhas, que estes homens tinhão por
de gran valia; mas destruia toda esta convivencia o desatino de hum
só homem. Que como se houvesse entranhado muito em familiaridade com
elles, pedio licença a Vasco da Gama de adentrar até suas intimas
pousadas; e como elles o levasssem comsigo, lhe matárão hum grande fóca
para (a seu juizo) o regalarem lauta e opulentamente; mas elle que de
taes carnes de banquete tomava enjôo, voltou logo e vinha recolhendo-se
ás náos. Elles porém mui humanamente o vinhão acompanhando; e o
nosso que vacillava se o tiravão ao supplicio, ou se tanto cerco de
comitiva vinha por cortezia e honra [antes o susto lhe pintava o animo
dos lances mais tristonhos]; tanto que avisinhou com a praia, pedio
soccorro a grandes gritos aos nossos, que corrêrão a acodir-lhe; o que
vendo os da terra, derão a fogir. Tinha o Gama desembarcado com os mais
Capitães, para mais seguramente tomar naquellas paragens da linha a
altura do Sol; e como os que fugírão, não sabião qual era a intenção
dos nossos em vir áquellas regiões, se amparárão nos bosques, onde
tinhão deposto as suas armas. E ora as armas de que muito se servião,
erão chuças com pontas de corno tão aguçadas, que despedidas com
rijeza de braço, não abrião menos ferida, que agudissimos arremessões
bem sacudidos. Discorrendo pois os nossos pela praia sem suspeita do
menor risco, arrancão os outros do enfurnado mato, cahem de impeto
nos nossos, ferem muitos e entre elles a Vasco da Gama n’huma perna.
Retirárão-se os nossos mais rapidos do que cuidavão, com cujo feito
ficou infesta aquella aguada, pela temeridade d’hum imprudente. Pozerão
a aquella enseada o nome de Santa Helena, e ao rio o de Sant-Iago,
porque era de uso dos nossos descubridores dar ás terras, ilhas, e
ribeiras desconhecidas os nomes dos Santos, que erão célebres nos
dias que as avistavão. Levárão ancoras dalli e corrêrão para o Sul,
porfiados a montar o Cabo de boa esperança: porfia, em que realçou
muito o esforço do Capitão Vasco da Gama, porque erão cruelissimos
os mares, frigidissimos e contrarios os ventos, as brumas e os
temporaes continuos, sendo sempre naquellas partes em tempos certos
muito horriveis e muito para temer, quando o Sol allumia a quadra
Septentrional; e mais para quem nunca palpára aquellas ondas, do que
concebêrão tal susto, que toda a confiança de salvamento rejeitavão.
Que taes hião as vagas assomadas, que ora parecião as náos romper as
nuvens, ora roçar no leito do profundo. Accrescia a este mal, que não
podião canjar avante. Deixavão-se ir com as vélas ferradas á mercê dos
ventos, fazendo bordos, por não perder caminho, esperando entre embates
de maré o fim das tempestades. A cada sóta que dava o tempo, vinhão
todos pôr-se á roda do Gama a pedir-lhe, e requerer-lhe não quizesse
dar acabamento com tão horrendo genero de morte a si e a tantos, a
seu credito encommendados. Que não cabia em suas forças lutar contra
taes ondas: que cedesse á tormenta, e antes que a sorvesse o mar,
deixasse a Armada tornar á Patria. E como elle recusasse com segurança
de animo o requerido, conjurárão alguns de lhe dar morte. Soube-o elle
por indicios de seu irmão Paulo da Gama; e pondo toda a cautela no
desvio, poz a ferros Mestres e Pilotos, encarregando-se elle mesmo
da incumbencia do Piloto Mór. Depois de ter em fim por muitos dias
sostido com valor sem québra o pezo dos temporaes, e o da perfidia,
virou o tempo, tomou com os mais Capitães a ponta do Cabo, que com
summa alegria começárão a dobrar em 20 de Novembro, pelo conceito em
que estavão que huma vez vencido, vencidos erão todos os obstaculos
de chegarem felizmente aonde pretendião. Hião navegando sempre terra
terra, para melhor se deleitarem com a vista de sua situação e
fertilidade, extensos e abastecidos matos, innumeraveis rebanhos de
gado miudo, e armentios, e a cada passo vagarem copiosas Cafilas de
gente. Ora são mui semelhantes em côr e especie estes homens aos que na
enseada de Santa Helena vimos: o seu fallar he como de soluços; andão
nús, e trazem n’hum estojo de páo as partes naturaes; usão de flautas,
em que modulão não mui fóra de consonancia. Construem choças com adôbes
cozidos ao Sol, ou tambem de simples terra, que cobrem depois com
colmo, ou com enfileiradas leivas. Gastárão cinco dias em vingar até á
testeira do Promontorio, que deixão de ré em 25 de Novembro, encurvando
a carreira para o Norte. Do ultimo seio do Cabo, que jaz contra o
Levante, demora a 220$000 passos huma angra, que os nossos dizem
aguada de S. Braz: são terras grossas, que sustentão corpulentissimos
elefantes, muitos e mui nedios touros, de que os moradores usão
como de jumentos, impondo-lhes ceirões. No centro da angra está hum
ilheo, onde os nossos abicárão para fazer aguada; e alli vírão huma
desmesurada copia de fócas em cardumes; e erão elles tão ferozes e tão
sanhudos, que arremetião c’os mareantes. Tambem vírão certos passaros,
que os indigenas daquelles sitios chamão sotilicarios, do tamanho de
adens, implumes por todo o corpo, e as azas como as dos morcegos: não
voão, que não podem; mas abrindo ao vento as azas como de pergaminho,
disferem velocissima carreira. Alli comprárão carnes; e feita boa
aguada, partírão della. Cahio sobre elles no dia 8 de Dezembro
horroroso vendaval inopinado, que os arredou mui longe da vista de
terra, á qual se vierão apropinquando, logo que a borrasca amainou;
que não estando ainda assás descuberto aos nossos o theor de navegar
naquelles mares, cuidavão muito em não se discingirem della. Vírão
então humas ilhetas, que pouco mais de 230$000 passos se desvião da em
que fizerão sua derradeira aguada: e erão ellas amenissimas, altissimos
os arvoredos, viçosissimas as campinas, sem quantia os gados, que
erravão por seus pastios. Tudo estava em remanso, o ancoradouro tão
profundo, que podião quasi as náos beijar em terra, e do alto dellas
gozar de contemplalla. Torneando pois toda aquella praia, avistárão
em dez de Janeiro do anno seguinte grandissimo concurso de homens e
mulheres, que por alli versavão: elles erão todos fulos de côr como
quantos em aquellas terras morão, de boa estatura, e formoso talhe.
Assim mandou logo Vasco da Gama pôr em terra as prôas; e a hum que bem
sabia as linguas, que em seu nome fosse cortezmente saudar e presentear
o Regedor daquelle Povo. Foi elle mais graciosamente agasalhado, e com
os bens que dá o clima despedido. Era esta gente mais tratavel que as
outras, vivendo mais ao abastado: ornavão os pulsos com braceletes de
bronze, e de bronze erão os cintos das cabeças. Trazião punhaes com
guardas de estanho, não mui toscamente lavrados, e as bainhas erão de
marfim. Aqui deixou Vasco da Gama dous degradados, que tomassem fé dos
costumes e culto dos habitantes. Que levava na Armada dez sentenceados,
a quem commutárão a pena de morte em desparzillos o General pelos póvos
que bem julgasse, para se inquirirem daquellas terras e tomarem prática
de seus costumes e instituições.