Tomou logo á mão ElRei D. Manoel a deliberação de hum ponto, que então

cursava em todas as práticas, e que entre os do seu mesmo Conselho

foi altamente controverso. Era a Consulta, se os Judeos já expulsos

pelos Reis de Castella e moradores em Portugal, tinhão de ser (como

no Reinado do Senhor D. João II. fora decretado) logo despedidos, ou

se lhes permittiria ElRei por sua benignidade ficarem nos lugares

deste Reino, que lhes forão consignados. Requerião as Cartas d’ElRei

de Castella a D. Manoel, que não consentisse morarem no seu Reino tão

malvada gente, a Deos e aos homens mal querida. Materia foi esta, que

ElRei teve por mui digno ponderalla; e achou em seu Conselho muitos,

que sentião não nos devermos descartar d’hum povo, que o mesmo Papa

não desdenhava acolher em muitas Cidades da Igreja Romana, exemplo,

que muitas Cidades de Castella, que muitos Principes Catholicos não

só de Italia, mas ainda na Alemanha, e na Hungria, e em outras muitas

regiões da Europa tem abraçado, concedendo aos Judeos a faculdade

de alli morarem, e exercerem sua industria. Que com lançallos da

terra, nem por isso os desvestião da ingenita perfidia, que onde quer

que os pés pozessem, deixarião pégadas de maldade: nem algum homem

assizado se inquietava mais com a maldade feita antes neste sitio,

que naquelle. Passados os Judeos em Africa (o que ninguem duvidava,

apenas os lançassemos do Reino) eiscortadas todas as esperanças de sua

conversão. Em quanto entre Catholicos, com a conversação e exemplo

dos Christãos, e acareados de seu bom ensino, muitos abordavão á

Christandade o que (huma vez entre homens eivados dos erros de Mafoma)

lhe ficava desesperado. Além de ser grande desconto para a Republica

trasladar esta gente aos Mouros o dinheiro, em que erão muitos delles

opulentos, e as Artes, que de nós tomárão, e em que doutrinarião nossos

inimigos, para depois com ellas nos talharem grandes prejuizos. Outros

contrariamente discorrião, que não sem causa forão de França e varias

partes da Alemanha, dos Reinos de Aragão e de Castella despejados

os Judeos; mas sim porque se inteirárão aquelles Principes menos

affeiçoados ao avultado das alcavallas, que á puridade da fé, que lhes

hião abalando a religião da gente simples, marcando com indignissimo

desacato o sacrosanto Nome de Jesu Christo, estragando com pestiferas

opiniões muitos entendimentos dos que com elles communicavão, cujo

contagio até lavrava já por entre os camponezes. Que nunca pessoa

de juizo se confiaria de homens inimigos da Lei christã, que nenhum

escrupulo fazem de passar a nossos adversarios, quantos segredos

podem investigar, nem detrahir por peitas o nosso salvamento. Se de

nossos uteis se ventilava, nada mais util occorria, que pôr longe de

nós huma relé nascida para fraudes, antes que manosearem as entranhas

de nossas rendas; e antes levassem fazenda, que ora possuião, que as

bolsas attestadas da pública fortuna, se lha deixassem abarcar a si.

Que levassem o que d’aliás trouxerão, antes que (de mais tempo ficassem

no Reino) com dólos e com embustes, em que são mui mestres, arruinassem

os haveres de muitas familias. Este conselho agradou a D. Manoel, que

decretou logo a todos os Judeos e Mouros, que não se baptizassem,

sahissem da arraia do Reino; e os que passado tal dia alli se achassem,

perderião a liberdade.

Entrado o anno seguinte de 1497 ElRei D. Fernando e D. Isabel,

que trazião guerra acerrima com ElRei Carlos de França, mandárão

Embaixadores a Portugal a confirmar a alliança d’antes pacteada com o

Senhor D. João, e lhe requerer soccorro contra ElRei Carlos. Com muito

gosto de D. Manoel e de todos os que presentes erão no Conselho, se

confirmárão os pactos; mas em quanto ao pedido soccorro, respondeo:

Que estando em paz com Carlos, e não tendo de França recebido algum

aggravo, seria mui deshonroso violar antigas allianças, quando mórmente

se tratava a guerra em Paiz remoto, e nenhumas armas molestavão a

Hespanha. Que no caso que o Francez viesse accommetter Hespanha, então

pelo parentesco que entre elles havia, metteria todo o peito a reprimir

a aggressão Franceza; resposta, que os Monarcas de Castella demostrárão

ter-lhes sido muito acceita. Assomava em tanto o dia, em que os Judeos,

que adversassem o baptismo, tinhão de exiliar-se. Já todos á porfia se

davão prestes para a viagem, quando D. Manoel, que se lhe cortava o

animo de correrem ás penas eternas tantos milhares de homens, traçou

de dar atalho a lhes salvar se quer os filhos. Foi injusta, foi iniqua

a traça, bem que nascida de louvavel presupposto. Deo ordem, que

todo o filho de Judeo, que não raiasse além de quatorze annos, fosse

tirado do poder do pai, para arredado de sua vista ser doutrinado na

religião christã; mas não o conseguio sem grande alteração de animos.

Era cousa piedosa ver arrancar os filhos do seio das mãis, arrastar,

e ainda abordoar, e avergoar os pais, que estreitavão os filhinhos

em seus braços: levantavão-se estendidos alaridos, e tremião os ares

com as lastimas, e prantos das mulheres. Delles houve, que, turvados

de indignação, os filhos nos póços affogavão: delles entrárão em tal

loucura, que se derão a si mesmos morte. Aggravava-se mais a calamidade

destes miseraveis, que ansiosos de Sestras passar a Africa, fartos

de tanta injúria, lhes negavão os meios todos. Que ardia ElRei em

tanto affogo de reduzir estas ovelhas ao redil da Igreja, que mettia

premios para os attrahir, e insultos para obrigallos: até a licença

mesma que para o embarque lhes fora dada, lha prolongavão d’hum dia a

outro, para intermeiar-lhe tempo de mudar de aviso; e de tres portos,

que lhe tinhão nomeado para a navegação, tolheo os dous, para que só

de Lisboa se embarcassem, de modo que foi innumeravel o concurso de

Judeos, que nella desaguou. Passou-se o dia decretado, e já era forçoso

esbulhar da liberdade os Judeos, que não podérão navegar-se. Vencidos

de tamanho infortunio, quizerão muitos professar de grado a Religião

Christã, ou antes bem fingillo, que estirar a vida em tal crueza.

Logo que instruidos na doutrina de Christo, forão purificados nas

sagradas fontes, seus filhos lhes forão entregues, ElRei os convidou

com largos premios, e huma vida assás commoda passaráõ em Portugal.

Mas nem legitimo foi este procedimento, nem foi Christão. Como

assim? Tu animos rebeldes, e não adjurados a isso por algum vínculo

de Religião, obríga-los a crer o que affincadamente menos prézão e

rejeitão? Tomares sobre ti de pôr impeço á liberdade do alvedrio, e

deitar peias a desbocados entendimentos? O que nem he possivel, nem o

consente o Santissimo Numen de Jesu Christo, que dos homens só requer

voluntario sacrificio, não obrigado, nem de força: que nunca mandou

violentar animos, mas affeiçoar vontades, e convidallas ao trato do

véro Christianismo. E quem ha hi que se arrogue obrar nas consciencias

o que o Espirito Santo só faz naquellas que não teimão resistir-lhe

até o derradeiro arquejo da vida? Que elle he só quem allumia, quem

acarêa, quem convida, e em fim quem traz ao gremio e confissão de

Jesu Christo quantos não rejeitão tamanhos dons com desagradecida

pertinacia de animo. Em conclusão, não vêdes vós quão indigno que he

confiar de homens suspeitos no trato da Christandade tantos mysterios,

tantas sacrosantas cousas, e symbolos tão divinos? Dar ansa de maldade

inconsideradamente a quem faz jogo e mófa da disciplina christã, e

macular indignamente a essencia da Religião com huma mascara que a

arreméda? Todavia muitos louvárão Sua Alteza, allegando em suas razões

que tomára por motivo a Religião, para que aquella gente Hebraica

entrasse na vereda de salvação, tomando por abono, que se escorava,

para o assim fazer, na opinião de pessoas mui acreditadas em sabedoria

e christandade, e no exemplo de muitos Principes Catholicos: que nunca

falta, nem faltará jámais quem ageite suas fallas, e com ellas arme á

graça dos Principes. E com quanto fosse pouco justa esta acção d’ElRei,

della vemos cada dia accumulados fructos, pois que os filhos desses

Judeos muito enviscados e suspeitos de terem simulado a fé, hoje com

nosso trato, familiaridade e disciplina, e talvez deslembramento da

paternal nequicia, cultivão santamente a Religião de Jesu Christo,

e pelos preceitos que elle deixou, moldão suas vidas. Assim que

aconteceo, que huns dos Judeos passárão em Africa, e os outros que

ficárão, perdêrão esse nome: mas os Mouros, que se não quizerão

affastar da superstição pestifera de Mafoma, os levárão a Barberia,

sem lhes ser inferida a menor molestia, como se usára com os Judeos;

de modo que os Christãos, que em Africa ou em Asia estavão em poder de

Sarracenos, não soffressem mais aggravo.

Começou ElRei neste anno a tratar de seu tão desejado casamento com a

Princeza D. Isabel, viuva que era do Principe D. Affonso, filho d’ElRei

D. João, casamento que muito cobiçava, pela grande affeição que lhe

penhoravão a prudencia, e bons costumes daquella Senhora. Communicou

seus intentos a D. Alvaro, irmão do Duque, que muito valia com os Reis

de Castella; e que depois de lhe afiançar todos os seus serviços,

partio para Hespanha, d’onde lhe escreveo, significando-lhe que os dous

Monarcas não hião muito alheios de consentir no Matrimonio, que tanto

appetecia: com cuja Carta se animou D. Manoel a enviar aos Soberanos

Hespanhoes D. João Manoel, seu Camareiro Mór, Fidalgo de rara

intelligencia. Foi sua enviatura mui grata aos Reis, e os concertos de

tal conjugio forão devidamente confirmados: sómente a Senhora D. Isabel

resistia com pervicacia a estes pactos, ora pela entranhavel saudade

do seu fallecido Affonso, mágoa tão corrente nella, que desconfiava de

melhora; ora pelo desabono, que se afigurava em tratar segundas vodas;

em cujos termos, não havia acabar com ella que fizesse a vontade a

seus Pais, ácerca deste casamento. Tanto porém forão calando os avisos

e rogativas paternaes, as exhortações de homens religiosos, que lhe

insinuavão cimentar-se com tal consorcio a paz de toda a Hespanha, que

em fim lhes obedeceo. No entanto que ordenavão quanto cumpria para

a vinda da Senhora D. Isabel em Portugal, emprehendia D. Manoel hum

feito illustre por sua grandeza, e digno de sempre duradoura fama: para

explicação do qual prenderemos o fio de mais longe.

D. João primeiro deste nome, Rei de Portugal, que com grande gloria

resgatou o Reino da invasão dos inimigos, ganhando-lhes muitas

victorias, e a quem nem a mesma velhice afrouxára d’hum só ponto o

alcance de honrado nome, aprestou huma grande armada para expugnar a

Cidade Ceuta, mui grande, mui opulenta, mui fortificada entre as da

Mauritania, situada nas margens do Estreito de Gibraltar. Daqui nasceo

occasião aos Lusitanos, que alli ficárão de presidio, de se irem por

meio de armas estendendo; e o Infante D. Henrique seu filho, que na

tomada de Ceuta mostrára insigne esforço, poz mais longe o fito das

conquistas, mandando construir esquadras, que infestassem as praias

Africanas, e outras barbaras regiões, que os Mouros possuem fóra

do Estreito para a méta meridiana. Indo-se accendendo no desejo de

explorar terras não sabidas, traçou que os Capitães de suas Armadas

picassem terra sempre no mais distante; com o que veio a acontecer, que

em parte pela industria de esforçados homens, parte por varios lanços e

tormentas, não só bom trato de Africa da banda da Ethiopia, mas ainda

immensas Ilhas do Oceano se juntárão ao imperio Lusitano. E ora quanto

mais remotas erão as terras, em que abordavão as nossas náos, quanto

mais maravilhas lhe dizião lá versarem, tanto mais se inflammava o

animo do optimo Principe na ansia de investigar inda mais longe. Por

quanto era D. Henrique varão de altos espiritos e muito assinalado nas

virtudes christans, e que não trabalhava tanto em dar lustre a seu

nome, quanto a divulgar a Religião de Christo, para o que nada entendeo

mais proveitoso que esta navegação, com a qual podia manifestar para

salvação de todos o Nome de Jesu Christo entre barbaras nações tão

despegadas deste assento nosso. Para mais commodamente o praticar,

foi residir naquella parte da Lusitania, que chamão os Algarves, na

Villa de Sagres, arredada 4000 passos do Cabo de S. Vicente, e de lá

mandar navios, que rompessem estradas para as terras que demorão ao

Sol nascente: a morte o atalhou de tocar na méta de seu presupposto

no anno de 1460, tendo de idade 67, sem deixar filhos, que nem foi

casado, nem em todo o curso de sua vida cahio em torpezas. Depois de

sua morte D. Affonso seu sobrinho, filho d’ElRei D. Duarte, pelas

gravissimas guerras que o occupárão, não adiantou os descobrimentos

além do que D. Henrique já explorára: mas quando o sceptro cahio nas

mãos de D. João, filho de D. Affonso, tanto empenho e tantos cabedaes

metteo na empreza, que discorrêrão sob seu auspicio nossas armadas

grande lanço da Ethiopia, e forão abicar onde homens doutissimos

duvidárão antigamente se podésse penetrar. E não satisfeito ainda com a

noticia das regiões subjacentes ao círculo Equinocial (que assim chamão

os Astrologos áquella méta da celeste plaga, que divide o Zodiaco

em duas partes iguaes, pela razão que quando o Sol beija aquella

Zona, ha equinocio) fez que procedendo avante, perpassassem a terras

incognitas, muito além dessa região, onde o Sol dobra sobre a ultima

baliza do Sul. Pelo que lhes foi forçoso, vendo-se muito affastados

do Septentrião, marcarem no Ceo outras estrellas oppostas á guia do

Norte, que lhes servissem de rumo: e levantando-se daqui émula porfia

de transpôr a raia dos primeiros, os que depois delles navegavão,

sempre alongando de mais em mais a mira, vierão a arrostar com o maior

promontorio que no mundo se descobrio. Pois que o lado contraposto

ao pôr do Sol, desde onde faz ponta até onde mais se arreda da plaga

equinocial para a banda do Sul, differe hum tracto tão comprido, que

orça por 35 gráos. Chamão gráo os Astrologos Latinos a huma das 360

partes, em que dividem toda esta redondeza de Ceo e terra; e para o

Septentrião, tirando da Equinocial até ao seio, em que começa o Cabo,

faz quasi 4 gráos, que com os 35 do outro lado, sommão ao redor de 2000

legoas. Tanta he a longura de terra, que compõe aquelle Cabo muito mais

comprido da banda do Oriente. Ora forão tão cruas as tempestades, que

os nossos padecêrão em dobrar o Promontorio, que a cada passo despião

toda a esperança do salvamento: d’onde veio pôrem-lhe o nome de Cabo

das tormentas, porque tormenta entre nós vale o mesmo que adversa

tempestade. Desque dobrárão o Cabo, e bem o assinalárão, fizerão-se

na volta. Logo que ao Senhor Rei D. João foi explicado o assento e

longitude daquelle Promontorio, tomou dalli tanto alvoroço, que dava já

por aberta e franca a estrada para a India; e commovido do feliz agouro

deste acontecimento, lhe impoz o brazão de Boa esperança, mandando em

tanto homens Hebreos e ainda Christãos, em quem conhecêra sagacidade,

passar a Alexandria, e de lá á Ethiopia sobre Egypto, d’onde navegassem

até á India, e tomassem lingua de homens intelligentes dos meios

mais commodos de instituirem, depois de dobrado o Cabo, sua carreira

para a India. E mandou outro sim apparelhar huma Armada, que fosse

encetar aquella via, que tão ansioso quizera investigada; mas todos

estes commettimentos lhe affogou a morte: a D. Manoel porém, que lhe

havia de herdar o Reino, encommendou juntamente com o patrimonio da

Realeza esta navegação a descobrir, e o Lusitano imperio a propagar.

Muitos houve dos que Sua Alteza usava admittir em seu Conselho, que

forcejárão dissuadillo deste pensamento, dizendo-lhe que a esperança

era duvidosa, quando os perigos erão grandes e seguros, a navegação

difficillima, e a India remotissima de nossos climas, pelo entremeio

immensuravel de tão distantes regiões: que não havia ahi uteis, que

equivalessem aos riscos e incomportaveis lidas de tão arriscadas

viagens. Que considerasse que tinha de combater com o Imperador do

Egypto, cognominado Sultão, poderosissimo naquellas partes do Oriente;

e que quando lhe procedesse tudo a sabor de seu animo, a que encargo de

inveja dos outros Principes Christãos, não hia com incrivel discrime

sobmetter-se. Que se hia em busca de renome, ahi estava a guerra de

Africa, onde o ganharia com cúmulo, se nella quizesse empenhar suas

forças todas: se os lucros lhe penhoravão a vontade, quem melhor que a

Ethiopia lhe acuderia com innumeraveis uteis, tirados do que já nella

subjugára, ou dos alliados que já lá tinha? Estas e outras mais razões

lhe davão os Conselheiros, sem podello desviar de seu proposito, que

bem sabia que taes conselhos tinhão já dado a D. Henrique e a D. João

II. sem lhes demover a mente de talhar pelas ondas aquella via, de que

tão grandes lucros entravão depois na Lusitania, sobre estar de acordo

que a desconfiança anda de parelhas c’os animos estreitos e apoucados,

e que sempre grandiosas esperanças se travão de mão com magnanimas

altivezes e extremadas virtudes. Pelo que prezou seguir antes o exemplo

de alentados Principes, que dar assenso a homens mais que muito

acautelados, receosos de quantos perigos ha. Tambem muito o movia o

bom agouro, que tirava do conselho e designio de D. João II., quando

antes de sua morte lhe intimava, que ás suas Armas Reaes juntasse por

divisa a Esfera, em que se assinalão os círculos da região Celeste;

o que já lhe denunciava no futuro, que por intervenção de D. Manoel,

a quem já considerava como a herdeiro seu, alcançarião os homens com

grandes utilidades e sempiterno renome o conhecimento de incognitas

estrellas e das desviadas terras, que o Sol vê ao seu nascente e seu

occaso. E finalmente o summo zelo, que tinha de dilatar a fé Catholica,

não lhe consentia dar attenção alguma a esses pusillanimes: assim que

chama Fernão Lourenço, pessoa desembaraçada e de não mediana conta, a

quem ordena lhe aperceba, quanto antes possa, huma Armada provída de

todo o necessario. Depois manda escrever a Vasco da Gama, nobre e mui

esforçado Varão, de quem fiava muito ElRei; e tendo-lhe dado parte do

que delle requeria, e exhortado com huma longa falla a se comportar com

muita prudencia e valentia naquelle feito, lhe commetteo o governo da

Armada. Encarregou-se da empreza Vasco da Gama; e depois de render a D.

Manoel extremados agradecimentos, lhe pedio que nella o acompanhasse

seu irmão Paulo da Gama, a quem summamente amava por suas infinitas

virtudes; o que Sua Alteza mui facilmente lhe permittio. Em pouco tempo

se poz de verga d’alto a Armada, fornecida de todo o necessario para

tão longa viagem; e como hia mais a tomar noticias do Oriente, que a

combatello, continha pouco numerosa lotação de homens. Compunha-se

de quatro náos, das quaes huma hia só carregada dos bastimentos; na

Capitanea entrou Vasco da Gama, seu irmão Paulo na segunda, Nicoláo

Coelho na terceira, e do navio que levava os mantimentos hia por

Capitão Gonçalo Nunes. Distava de Lisboa quatro mil passos hum Templo

religioso e santo, que em honra da Santissima Virgem edificára D.

Henrique, que depois perdeo o nome com a visinhança de outro mais amplo

e mais magnifico, que D. Manoel mandou construir desde os alicesses á

mesma immaculada Senhora. Nelle se recolheo Vasco da Gama na vespera

do dia de seu embarque, empregando a noite inteira em orações e votos

na companhia dos Religiosos do proximo Convento: e no dia seguinte com

quantos tinhão vindo para despedir-se delle e de seus companheiros,

foi com grande sequito acompanhado até aos bateis. E então não sómente

os Religiosos, mas todos os mais em altas vozes e os olhos cheios de

lagrimas pedião a Deos, que tão perigosa navegação lhes fosse a todos

próspera e boa; e que tendo dado bom acabamento a aquelle feito,

voltassem todos á Patria com salvamento; e já mesmo entre muitos se

levantava tal pranto e taes lamentos, que disseras os levavão ao

moimento, prorompendo nestas lastimas: “Ah miseros mortaes, onde nos

arrojou tal ambição e tal cobiça! Que mais horridas justiças farião

nestes coitados a terem n’algum facinoroso crime descahido! Tão longos

e desmesurados mares que tem de perpassar, tão despiedadas montanhas de

ondas, que tem de atravessar, e os riscos que em tantas paragens lhes

estão a vida ameaçando! Não lhes fora mais comportavel acaballos com

qualquer feição de morte, que lançallos em tal desvio da Patria n’huma

campa de salgadas ondas!” Estas e outras muitas vozes a este sabor

dizião, quando ainda no peito lhas representava mais maviosas o receio,

em quanto o Gama, ainda que algumas lagrimas dava á sua saudade,

confiado todavia no bom rosto da esperança, sobio mui despegado á

Capitanea com feliz auspicio n’hum sabbado 8 de Julho do anno de 1497.

Nem se quizerão arredar da praia os que assistírão á partida, que não

perdessem de vista as náos, a quem próspero vento enfunava em cheio as

vélas.

Da vida e feitos d'El Rei D. Manoel · 第 2 / 22 段