[Illustration]
DA VIDA E FEITOS
D’EL REI D. MANOEL,
XII. LIVROS
DEDICADOS
AO
CARDEAL D. HENRIQUE
SEU FILHO
POR
JERONYMO OSORIO,
_BISPO DE SYLVES_:
VERTIDOS EM PORTUGUEZ
PELO PADRE
FRANCISCO MANOEL DO NASCIMENTO.
TOMO I.
[Illustration]
LISBOA. M.DCCC.IV.
NA IMPRESSÃO REGIA,
_POR ORDEM SUPERIOR_.
INDICE
Pag.
LIVRO I. 3
LIVRO II. 100
LIVRO III. 212
LIVRO IV. 329
DA VIDA E FEITOS
D’ELREI D. MANOEL.
LIVRO I.
BEM que eu seja do animo, integerrimo Principe D. Henrique, de que nada
ha mais proveitoso que a Historia para adquirir prudencia, nem mais
poderoso que ella para despertar virtudes, mais saudavel para sanear as
feridas da Republica, nem mais aprazivel para o deleitamento da vida;
e bem que me admoestassem meus amigos que désse com a lingua Latina
lustre as façanhas dos nossos Portuguezes, muito longe me desviava
deste seu desejo. Dous motivos deste meu desvio mórmente me pezavão a
difficuldade de abonar o que dissesse, e o risco de ter a muitos por
offendido. Que se me não acreditasse, passaria pela nota de leviano;
e não contentando a ambição de muitos, me acarearia malquerenças
acerbas e crueis. E vemos (segundo os homens forão sempre) que não
crêm nunca feitos, que sahem além de seu engenho e posses: nem ha
meio que admittão o que sobrepuja os termos de trivial esforço, e
usada industria. Aquelles porém que á sua ambição não encravão baliza
alguma, soffrem pezadamente que lhes não illustrem os seus maiores com
desmesurados elogios. O que sendo já de vóga nas outras Nações, mette
entre os Lusitanos em tanto perigo ás vezes o emprego de Historiador,
que a tanto se arroja, quanto he o dar-se por alvo a todas as lanças.
Já mais que muito o experimentou na Historia, que em vulgar compoz
Damião de Góes, das cousas que com a virtude, auspicio, e increivel
felicidade de teu invictissimo Pai D. Manoel se obrárão; porque dizia
hum: _Não adornou os merecimentos de meus Antepassados, como delles
se requeria. Salpicou com manchas o lustre_, dizia outro, _de
nosso antigo solar_. Este em fim: _Passou em silencio este ou
aquelle feito, que fora brazão insigne para nosso appellido_. E
se de homem sizudo he avisar-se com o perigo alheio, este exemplo só
bastára para, descorçoado de escrever, me assustar com o successo.
Achegava-se outro obstaculo, que applicado, como me pedia o meu Estado,
a tratar e explicar quanto em mim fosse divinas materias, não tinha
por acerto desfitar do Ceo os olhos, para os abaixar á terra com tanto
desvelo, que sobrestasse nas divinas, em quanto lidasse em illustrar as
humanas cousas.
Mas quanto mais empeços me atalhavão de emprehender o encargo
historico, mais claro se mostra o animo, que sempre se me abrazou
em ardentissimo obsequio de teu nome, e tua grandeza. Que quando
por cartas, e não com mandos (que muito bem te coubera empregar) me
obrigasses; antes, como he de tua excellente, e quasi divina brandura,
amigamente me pedisses e admoestasses que de ElRei teu Pai escrevesse
os feitos, e com latino modo os vingasse do esquecimento entre as
estrangeiras Nações, não pude conter o animo, que esse emprego não
abraçasse logo.
Muitas razões me convidavão a tanto. Primeira, que sem crime de
despiedade não podia ter em pouco a tua vontade; e depois que tinha
indignissimo que o nome de D. Manoel, tão grande entre os Lusitanos,
não se estendesse com universo espanto por todas as Nações da fé
christã.
Tambem me movia com agudo estímulo ver que não só tomava nesta Obra
o pezo a feitos de homens, mas tambem a divinos. Que assim como por
divino aceno foi D. Manoel alçado á real grandeza; assim tambem quanto
delineou, quanto prefez, quantas façanhas a seu mando se cumprírão, á
benignidade de Deos se tem de referir; e em muitas cousas admiraveis he
tão visivel a Mão divina que as administrou, que entrára em suspeita de
ímpio e perfido quem lhes refusasse crença.
Para maior facilidade minha servio muito ter já d’antes Damião de
Góes tirado com muita industria, desvelo e fadiga de muitas Cartas e
Memorias o que me deixou escrito, que sem vagar sobejo me fora improbo
de averiguar. Tenho além disso muitas apostillas, que tirei de algumas
escrituras; outras que ouvi, as quaes não deixarei em silencio.
E como pelos Livros achei, que dão aos nossos conterraneos ou já o
nome de Portuguezes, ou já de Lusitanos, quero dar a razão dessa
differença. Portugal, como abertamente mostra André de Rezende, homem
doutissimo, vem do porto de Cale (que _Cale_ se chamava outrora
hum lugarejo ignobil, que sobre-estava ao rio Douro) como situado na
emposta d’huma, e em baixo o porto de pescadores frequentado. E como
para alli concorressem pelo commodo infinidade de homens, veio ao ponto
de ser Cidade opulentissima, e dalli lhe veio o nome de Portugallia,
que abrangeo o Reino todo.
E o Reino de Portugal contém não (como quer Paulo Jovis) pequena parte
da Lusitania, mas muito grande; porque a que della cabe a Portugal, se
encerra entre o Douro e Guadiana por longitude de 320$000 passos de
área. Ajuntai-lhe pelo Norte a Galliza Bracarense, que limitão o Minho
e Douro; e algumas Cidades além do Guadiana, que o Reino de Portugal
comprehende: que não menos se achegou aos confins de Portugal, tirado á
Betica e á Galliza, que o que da antiga Lusitania perdeo. Que se d’hum
lugar com o progresso do tempo se derivou por todo o Reino o nome,
que muito que de tão grande parte da Lusitania que lhe ficou, ficasse
tambem o nome? Pelo que não me creio vedado usar de ambos. Mas isto de
pouco monta.
O que porém aconselho e admoesto a todos que folhearem estes meus
escritos, he que ponderem em seu animo quão várias, e quão fortemente
admirandas cousas se concluírão no ambito de 26 annos (que he quanto
ou pouco mais o que esta historia abarca): que mares, que paragens,
que regiões não descubrírão: que guerras contra Reis potentissimos não
acabárão com invicto esforço: que sustos não desprezárão intrepidos,
para que de lá entendão, que não aos homens compete o louvor de tão
grandes obras, mas (e com summa razão) a Deos, cuja presença foi clara
aos nossos. E com mais clareza ainda, quando os Lusitanos de muito
confiados em si, forão vencidos desses mesmos inimigos, para que
advertissem que são vãos os poderes humanos, quando no adjutorio do Ceo
se não escórão.
Para que pois daqui, Eminentissimo Principe, tomemos o exordio, que
requer a ordem dos successos:
D. João, Rei de Portugal, segundo do nome, que languia de diuturna e
lenta enfermidade, se transportou aos confins da Lusitania para a
banda do Sul, que o Oceano limita, e tem hoje o nome Algarve, para com
suas mui saudaveis caldas se restaurar da molestia. Rebentão estas
aguas de viva pedreneira sobre hum valle, seis ou sete milhas ao mais
arredadas do mar; e pelo acorde parecer de todos, são preferidas a
quantos banhos surgem na Lusitania. Remedio, que tentado em vão, não
impedio a doença de aggravar d’hum dia ao outro; não sem suspeita, que
ElRei se hia minando de peçonha lenta[1], que impróvido bebêra.
Sentindo que appropinquava a morte, fez em Alvor Villa do Algarve
(que muitos dão pelo Porto de Annibal) testamento, em que instituio
D. Manoel seu Primo, herdeiro do Reino, que ainda quando D. João
morrêra intestado, lhe caberia de direito, por ser D. Manoel filho
de D. Fernando, que era irmão de D. Affonso V, e este Pai d’ElRei D.
João. Como porém de sua mulher legitima não obteve D. João filhos (que
morrêra em Scalabis, hoje Villa Santarem, despenhado de fogoso cavallo,
o unico filho de D. Leonor, D. Affonso na flor da adolescencia), a
D. Manoel tocava de necessidade a herança do Reino. Por quanto Jorge
filho de D. João, dado que filho de mulher mui nobre, pelas Leis, e
Ordenanças do Reino não podia, por bastardo, ser herdeiro.
E com summa vontade approvou D. João o que a D. Manoel por direito era
devido: que o amava elle muito não tanto pela proximidade do sangue,
quanto pelas virtudes, e o amar com estreita brandura, e indole régia
que nelle via, e pela qual lhe accrescentava a dignidade com quanto
lustre podia; além de ser irmã de D. Manoel a Rainha D. Leonor, mulher
de extremada piedade, virtudes, e religião.
Acabado o testamento, e recebidos, como he dado, todos os Sacramentos,
que servem a purificar o espirito, deixou D. João de modo o mundo, que
naquella ultima função da vida deo claras mostras de innata virtude e
piedade.
Foi varão excelso e claro, infesto aos mãos, e aos bons propicio;
amante da justiça, e admiravel em todo o genero de virtudes: era
arrojado e forte, e deo nas guerras não poucos exemplos de sua
desteridade e egregia fortaleza: e tanta era a amplidão de seu animo,
que com o corpo na patria, peregrinava com o entendimento pelo mundo
universo, e muitas emprezas revolvia a miudo em seu desejo, que se
immatura morte no-lo não roubára, illustrarião muito a sua fama.
Gostava tanto de homens valerosos, que muitos com o lustre de militar
esforço apagavão manchas preteritas; e aos fracos e apoucados com tal
desprezo os via, que nem por homens os tinha. Acabou que lhe temessem
a severidade da vingança aquelles homens, que mui ricos passão a
insolentes e ferozes; com o que vierão com este seu amparo a viver vida
segura os que por seu baixo estado erão alvo das suas injurias. Sim foi
author da morte de muitos Fidalgos; e a Principes seus parentes matou,
por entender que lhe erão pouco sujeitos, ou porque lhe maquinavão
ruina; que não pudéra, a não ter obrado assim, soster a real dignidade,
nem conservar-se a vida.
Foi dotado de muito engenho, e pelas agudezas que delle contão, se dá
bem a conhecer de que quilate era o seu: sobre modo sagaz em penetrar
os interiores dos Soberanos, que tinha por suspeitos; mui grandioso em
remunerar homens de porte, que muito affeitos a elle, tinha em varias
terras, para lhe servirem de entremeio de noticias, pelos quaes colhia
quanto traçavão contra elle os Reis; ao que anteparava prevenido, de
maneira que nunca chegassem a prejudicallo. Pelo que os Póvos mais
o amavão como a Pai, do que como a Rei o respeitavão: que Pai lhes
era na vontade, com que em pró delles delineava tudo. Assim he mui
celebrado este seu proloquio: _Que punha menos o fito em trabalhar
os homens para haver ouro, que em se servir deste para alliviar os
homens ao trabalho_. E por ter ouvido que ha hum pássaro, que
com o bico rasga o peito para resgatar com seu sangue a vida a seus
filhinhos, mordidos mortalmente pelas cobras, mandou pôr no brazão de
suas Armas hum Pelicano, que inculcasse que pela sua grei estava elle
todo devotado a dar o sangue. De todas as virtudes porém, de que o
dão por adornado, nenhuma foi mais admiravel que o zelo e piedade, em
que ardia pela Religião Christã; pois que nem turbulentos negocios,
nem tramadas conjurações contra elle, nem vicissitudes de esquivos
tempos o arredárão nunca de vagar ás cousas de Deos com activo animo.
Principe foi elle, que deixou seu nome benemerito a celebrar por
sempre-duradoura fama.
Logo que morreo, trouxe hum pressuroso Correio a D. Manoel a nova, que
elle recebeo com tão desfeitas lagrimas, que bem se denotava nellas
com quanta maior tristura recebia a morte de tão optimo Principe,
tão conjuncto com elle pelo sangue, do que a ancia de lhe herdar a
realeza. Achava-se então D. Manoel com 26 annos de idade, de morada em
Alcacer do Sal, com a Rainha D. Leonor sua irmã, mulher do fallecido
Monarca: dalli foi logo, conforme a usança de nossos Maiores, e unanime
consenso, solemnemente acclamado Rei, cujas funções a seu juizo (que
o tinha mui applicado, zeloso de ordem, e vigilantissimo) não erão
para cumpridas com descuido. Assim encetou o seu reinado, instituindo
mui saudaveis Leis, empenhando seu maior desvelo em convocar a Cortes
os tres Estados do Reino. Pelo que partio de Alcacer do Sal, e veio
a Monte-Mór, Villa d’Além-Téjo, situada n’huma altura distante de
Evora, obra de vinte mil passos, donde mandou Cartas de convocação aos
Grandes, aos Prelados, e Procuradores das Camaras. Alli lhe trouxerão
a D. Jorge, filho, como já disse, d’ElRei defunto, que tinha então
quatorze annos, a quem D. Manoel abraçou com tanta affeição, e tantas
lagrimas, que facilmente dellas se via o muito amor e lealdade, que
sempre consagrára a D. João. Distinguia-se na comitiva de D. Jorge,
entre todos pela fama de seu esforço, e pela sua urbanidade D. Diogo
de Almeida, Prior da Ordem dos Hospitaleiros em Portugal, que muito
privára com ElRei defunto em authoridade e em favores. Elle o dera
a seu filho para olhar por suas inclinações, e para que com tal Aio
aprendesse as Artes, que convinhão a seu alto nascimento. Ajoelhando-se
pois com o seu Alumno, a quem tinha pela mão, ambos cubertos de
arrojado nojo, assim fallou ao novo Monarca: “ElRei D. João, vosso
Irmão por affecto, se Primo por parentesco, me significou morrendo,
que posto se despedia mui resignado deste mundo, hum só cuidado o
magoava, que era deixar orfão e desamparado este filho seu: e que
este desamparo sómente lho adoçava de ordinario a consideração de quão
benigno Vós éreis, Senhor, quão cordialmente agradecido, e quanta quéda
tinheis, quanto desejo e zelo para com todas as virtudes louvaveis em
hum Rei: por tanto me ordenou que em seu nome vos pedisse e requeresse,
que em pago de vos ter amado como filho, e accumulado em Vós quantas
dadivas pôde, e não ter perdido huma só conjunctura de vos fazer
honra, conservasseis a lembrança de tão extremada vontade, e igual
a trasladasseis para com seu filho, que desvalido de todo o esteio
para a vida, vos deixava encommendado, pondo bem em vosso animo o que
elle houvera feito por vossos filhos, se os tivesseis, acontecendo
que Vós fosseis da vida antes que elle. E tambem me deixou mandado,
que a este filho seu inculcasse a miudo de sempre a V. Alteza amar e
respeitar, obedecendo-lhe em tudo, e esmerando-se em que na lealdade,
amor e zelo para comvosco, ninguem se lhe avantajasse. Que por quanto
vos era mais proximo pelo sangue, mais lhe cabia sobrepujar a todos em
affeição vossa, e em vosso acatamento, e que em nenhum acto tendente
á amplidão de vossa dignidade, se deixasse de alguem vencer. Aqui
concluo com o que elle me mandou que executasse; mas para cumprir
com o meu emprego, resta entregar-vos em nome delle este filho seu,
de annos como vêdes, tão acerbos, orfão de tão qualificado Pai, pelo
parentesco do sangue tão chegado vosso, por infortunio seu pupillo,
por seu desejo e condição vosso pedidor e servo, para que acolhendo-o
á vossa sombra, pelas honras com que o accrescentardes, conheção
todos quão apurado em corresponder favores, e em conservar lembrança
delles he vosso animo real. O que fareis, que tal he nossa confiança,
e por fazello grangeareis de todos o elogio de Principe agradecido e
grandioso, e com tão insigne demonstração de probidade, prendereis a
Vós com mais estreito vínculo as vontades todas.” D. Diogo de Almeida
despertou com esta prática saudades taes em D. Manoel, que a resposta
que se apercebia a dar-lhe, sahia entallada entre soluços, e orvalhada
de lagrimas; e assim em breve substancia lhe tornou: “Que D. Jorge
tomaria em seu animo o lugar de filho, e que o tinha de o honrar com
mercês tantas, que dellas se entendesse quanto desejo era o seu de
estender e perpetuar a memoria e nome do Senhor D. João II.” Todos os
fidalgos que alli se achárão, satisfeitos do que lhe ouvírão, vierão
a seus pés agradecer-lho, e lhe beijárão a mão. Temos estas cousas
por não desmerecedoras de lembrança, como podendo denunciar quanta
era a probidade de ElRei D. João; pois que a saudade que delle ficou
ao seu successor, não a pôde abrandar a amplidão de taes dominios; e
ao mesmo tempo quão excellente era a indole de D. Manoel, que tantas
e tão improvisas riquezas, com que o brindou a herança, não podérão
ensoberbecello, nem olvidallo da humana brandura. Que acaba com muitos
a estranhada cobiça (entrando na indubitavel posse dos bens, que por
morte de Pais lhes vierão) possão mal disfarçar com affectada tristeza
o contentamento de seu animo. O qual he ainda menos refreado nas
heranças de Reinos, onde maiores rendas, e poder mais amplo mettem
mais vigor a derribar o animo do seu assento, se lhe não acode o
reforço da virtude. Sobre tudo, quando sobrevem sceptro e coroa a quem
a não espera, tão longe vai ás vezes o abalo da alma, que descahe em
desamparo de razão e de sentido. Nem a D. Manoel cabião leves suspeitas
de ser Monarca, que tinha diante de si os Irmãos de ElRei mais idosos
que elle, tinha o Principe Affonso, que ainda então vivia, e ElRei D.
João seu Pai em quadra de gerar outros, pois tinha (quando morreo)
só quarenta annos. Mas todos, por altos juizos de Deos (como se
persuadírão muitos) passárão da vida, para lhe legar o Reinado.
Logo que as Cortes forão congregadas, por acordo unanime dos que
presentes erão, instituio ElRei varias Ordenações necessarias ao
Reino. Tambem mandou participar a ElRei Fernando, e á Rainha Isabel,
que então com summa dignidade e reputação dominavão nos Reinos de
Castella e Aragão, a noticia de ter sobido ao throno. Andava por
esse tempo em Castella, e cabia muito com os Monarcas desse Reino,
D. Alvaro, irmão de D. Fernando de Bragança, que suspeitado de
traidor, perdêra a cabeça n’hum cadafalso; e bem que não abrangesse
a D. Alvaro suspeita alguma facinorosa, mal que deo fé da ignominia
e morte de seu irmão, se salvou de terras de Portugal com toda a sua
fazenda. Nem devêra (segundo ElRei D. João lhe comminára) assentar de
modo nenhum casa em Castella; mas levado da bondade e larguezas dos
Reis D. Fernando e D. Isabel, pelo muito agasalho, que a seu esforço
fizerão e á sua prudencia, seus Reinos escolheo para sitio de seu
voluntario degredo, soltando-se da obediencia, que devia ao rigor
de ElRei D. João, com lhe deixar á sua disposição as terras, que em
Lusitania possuia. Este D. Alvaro, e os filhos do Duque degollado,
que depois espontaneos se lançárão em desterro, pelo mesmo Embaixador
os convidou amorosamente ElRei D. Manoel a tornar á Patria, para que
com mór franqueza, assim tornando, os podésse empregar com honra.
Outro Embaixador mandou tambem ao Papa Alexandre VI., a tão summa
dignidade proximamente erguido, que lhe prestasse rendimento por si,
e que todo o Reino de Portugal (como a Christão Principe que elle era
competia) sujeitasse ás Pontificias determinações. E para mais abono
dar-lhe, pedio por Cartas ao Cardeal Portuguez Jorge da Costa, pessoa
mui authorizada, que deste dever em seu nome se incumbisse: cuja fé
em nome d’ElRei D. Manoel prestou publicamente em Roma o Cardeal,
dando acatamento perennal ao Padre Santo, mui desvelada lealdade á
Santa Igreja Romana, offerecido a combater pela pureza della cada vez
que assim cumprisse. Foi mui entranhavel ao Papa este leal testemunho
de Sua Alteza, a quem mandou em resposta huma Carta amabilissima, em
que lhe dava os parabens de ter succedido no Reinado. Applicava-se em
tanto D. Manoel a expedir os negocios do Reino, e os primeiros forão
as doações, que D. João por sua morte a muitos fez, as quaes o novo
Rei benignamente confirmou, bem que muitos dos que com ellas erão
galardoados, mais castigo merecessem que mercês. Que mui verosimil he,
que nunca da lealdade cuidárão ao Principe devida, mas sim do interesse
proprio todos aquelles, que quando ElRei estava a despedir-se da vida
o importunavão por obter porfiados, a que elle nunca outorgára em seu
juizo são, e saude inteira. Que perfidia ha hi tão feia como esperar
que as amarguras da morte opprimão a mente do Principe, para com este
auso armar ao seu desfalecimento! e de quem com mercês os cumulára,
extorquirem para a avareza o que á fidelidade era devido! Que homens
tão deshumanos, que affiançados á voraz cubiça, nem della os arreda
o convulso rosto do Monarca moribundo, nem justissimos estimulos da
pena, nem sentimento algum da humanidade! E mais ainda quando o Rei,
que em tal tribulação nada refusa, por mais injustas que sejão as
demandas, já não parece que do seu dá, mas sim do alheio! Faz larguezas
do que usar já lhe he vedado, deixando mais estreita ao Successor a
administração da Regia munificencia, com lhe estancar a fonte, que
he a real riqueza. Dá os favores, quando he incapaz de tomar o pezo
ao merecimento, e de os passar á usada fieira da justiça. Qual he
o homem, que na enleiada escuridez da vista, no arquejo e amiudado
soluço, no suor frio dos membros, na intercadencia do angustiado
espirito, póde ponderar o de que cada hum he digno? De odio crédores
são, e não de taes favores esses, que quando a alma do Principe pede na
agonia orações que a fortaleção, lhe applicão tão grave enfadamento,
instão, apertão, e em certo modo o empuxão a que com rotas moribundas
vozes estrague os cabedaes do Reino. E todavia ElRei D. Manoel, por
não parecer invalidar a vontade do seu optimo Antecessor, não só os
dons judiciosamente conferidos por D. João ratificou, más ainda
os astuciosamente subtrahidos. O que concluido, se entregou todo á
administração da Justiça, castigando acerbamente os Juizes, que á má fé
recebêrão peitas, proporcionando mais leves penas a quem mais levemente
delinquíra. Aquelles porém que sãmente, e sem sobornos exercião seus
cargos, segundo seus meritos lhes deo o galardão. Tambem augmentou
em numero os Julgadores, para que mais facilmente fossem as causas
sentenceadas, engrossando-lhes os salarios, para que a pobreza não os
necessitasse a resvallar da inteireza. Dahi mandou por todo o Reino
alçadas, e homens mui reputados e justos, com larguissimos poderes para
vindicarem máos feitos, e extirparem, quanto coubesse no possivel, a
raiz de todos os flagicios. Passou depois ao apuramento e maneio dos
tributos; porque percebeo, que por negligencia dos Almoxarifes se
esvahia a substancia do Reino; que ou pela avareza dos Thesoureiros
desfalcada, ou em gastos superfluos consumida, embaraçava o estado do
Reino em tomar assento. Que nem se póde emprehender guerra, nem bem
fundar a paz, e administrar folgadamente a justiça, onde o patrimonio
real, que ha de ser o instrumento da pública bonança, particulares o
trasvião, ou ElRei o estraga sem proveito.
Para que o seu animo humano abrangesse a todos, vindicou os Judeos á
liberdade. Tomaremos de mais alto (e não será alheio do que himos
tratando) o como elles cahírão na servidão, para melhor clareza deste
ponto. Os Reis de Castella Fernando e Isabel, mui bem inteirados das
maldades inauditas perpetradas em toda a Monarquia pelos Judeos, em
odio da nossa santissima Religião, despejárão delles os seus Reinos
pelos annos de 1482. Houverão alguns, que allumiados da graça do
Espirito Santo, abraçárão o culto e a Fé de Christo: outros, que por
não desamparar casas, terras, e outros interesses, ou vendellos a
perdimento e descaso, simularão confessar a Religião Christã. Todos os
mais forão expulsos e desterrados: assim dispersos, pedírão a maior
quantidade delles a D. João II. acolhimento em Portugal por hum tempo
limitado e requisitas condições. As principaes dellas forão, que cada
Judeo pagasse a ElRei oito escudos de ouro, e dentro de certo prazo se
sahirião do Reino; e que se nelle ficassem, depois de findo o aprazado
tempo, perderião suas liberdades; e que ElRei a todos os que partir
quizessem, lhes daria toda a franqueza de se embarcarem. Por este meio
juntou ElRei D. João immenso cabedal, que tinha a summo resguardo
para a passagem em Africa, e guerra acerrima, que meditava fazer aos
Mouros, não tanto por ganhar renome, quanto por dilatar a Religião, e a
gloria de Jesu Christo. Impedírão-lhe esta tenção varios acontecimentos
desabridos, com que muito a fio lutou, e por ultimo a morte, que todos
estes anhelos lhe soffocou. Em quanto porém viveo, se esmerou muito
em soster lealmente a promessa feita aos Judeos, mandando aos que
governavão nos portos de mar se houvessem de tal maneira com os Mestres
dos navios, que fizessem boa passagem aos Judeos, até os desembarcar
nas terras, que elles lhes designassem, não lhes fazendo, nem
consentindo lhes fosse feita injúria alguma; o que muito em contrario
aconteceo. Porque os Mercadores, e Arrais, que em seus navios recebião
Judeos, com muitas tyrannias mui desabridamente os avexavão na viagem;
e não contentes c’o preço convindo da passagem, buscavão motivos para,
mal grado delles, lhes tirar mais dinheiro, e de proposito alongavão
com rodeios a viagem, em ludibrio destes miseros passageiros, para lhes
dar fim dos comestiveis, e os forçar a comprar-lhes o sustento, o qual
a tão exorbitante custo lhes vendião, que os Judeos para o pagarem,
ficavão despejados e nús, sobre os carregarem de incomportaveis
affrontas, e se lograrem por força de suas mulheres e filhas; com
descuido do nome Christão, que tão vilmente professavão, davão largas
á brutalidade e á aleivosia. Os Judeos que tinhão ficado em Portugal,
tomados de espanto de tão atrozes injúrias [que não forão tão cubertas,
que por algum lado não soasse em seus ouvidos o voato dellas] muitos
por pobreza atalhados de comprar o que relevava para a navegação no
tempo prefixo, logo que este foi passado, cahírão em cativeiro; e quem
queria num escravo Judeo, hia pedillo a ElRei, que, outorgando-lho, o
avisava de mostrarem piedosa e branda condição; porque os Judeos não
sentissem mais duro do que convinha o senhorio. Ora aconteceo isto
pouco antes da morte de ElRei D. João, que [se não fora tão temporã]
a opinião de todos, que a indole sua bem conhecião, era, que traçaria
sua benignidade algum recurso, para todos os descativar. Nestes eixos
versava a condição dos Judeos, quando ElRei D. Manoel entrou a reinar;
e instruido que não de seu grado ficárão em Portugal, contra o pacto
convindo, além do tempo aprazado pelo Senhor D. João, a todos deo por
livres. De cuja mercê movidos os Judeos, lhe offerecêrão grande quantia
de dinheiro, que elle não quiz acceitar, porque tinha assentado acarear
aquella gente á devoção da Christandade com paulatinos favores.
Despachados, com muita sabedoria e uteis, estes e outros muitos
negocios, applicou logo o animo á guerra de Africa. Por quanto desde
que D.João I. de feliz memoria, a muito esforço e custo expugnou a
mui reforçada Cidade Ceuta, assentada na orla maritima do estreito
de Gibraltar, não consentírão nunca os Reis, que lhe succedêrão,
interpolar a guerra contra os Mouriscos encetada. Já ElRei Affonso
V. neto de D. João I. e Pai de D. João II. lhe tinha tomado com suas
armas Tanger Cidade, e tambem Arzilla, que não longe de Tanger demóra:
e morto Affonso, sempre D. João, dado que o trabalhasse mui rigorosa
fortuna, e muitos e diversos cuidados o enredassem, persistio com
invencivel animo a querer a guerra. Tomando estas pizadas, abraçou
com igual empenho a guerra Moura: pelo que accrescentou as despezas
a respeito das fortalezas e presidios Portuguezes, que proveo de
guarnições mais abastadas, de vitualhas e petrechos bellicos:
augmentou a paga dos soldados, deo grossas ajudas de custo aos Cabos,
espertando-os com taes beneficios a peleijarem com mais valor e mais
porfia. E porque estimava que na vera Christandade jaz o segredo de
guerrear bem succedido [pois que Deos he quem dá o entendimento e
valentia, com que as victorias se ganhão, e quem tira juizo, e força
aos que determinou destruir]: além de outras recompensas, decretou que
aos Sacerdotes e mais Capellães dos terços de Africa fossem applicados
os dizimos de todas as páreas, que os Mouros tributarios cada anno lhe
pagavão. Em quanto nestas cousas se occupava, chegão Embaixadores, que
D. Fernando e D. Isabel lhe enviavão com os parabens de ter herdado
o Reino, e para pedirem quizesse juntar-se com a Princeza Maria sua
filha em matrimonio; e com muita mais instancia acabarem com elle de
recolher na patria e nos despossuidos bens os filhos de D. Fernando,
Duque de Bragança, que ainda vagavão no desterro. Mostrou D. Manoel aos
Embaixadores ser-lhe muito acceita sua legação, e lhes disse: Que nada
lhe podia ser mais grato, que tão affectuosos desejos de preclarissimos
Monarcas: que sómente no que resguardava a matrimonio estava do animo a
não acceitar esposa, que não tivesse antes concertado o estado de seu
Reino. Isto dizia, não porque a affinidade com os Reis de Castella se
lhe não affigurasse muito vantajosa, mas porque tinha grande vontade
de se desposar com a Princeza D. Isabel, viuva que era do Principe
D. Affonso, á qual todavia não tinha ainda descuberto o seu intento.
Ácerca porém dos filhos de D. Fernando tomaria a seu cuidado dar aos
Senhores Reis todo o contento. Tambem lhe foi confirmada então a nova
de que D. João de Menezes, Capitão Mór de Arzilla, ganhára aos Mouros
assinalada victoria.
Governava em Arzilla D. Vasco Coutinho, Conde de Borba, que accusado
perante ElRei D. João, necessitou vir a Portugal justificar-se, e
deixou em seu lugar a D. Rodrigo Coutinho por Capitão Mór de Arzilla
em sua ausencia. Pacteava D. João II, treguas com ElRei de Fés, nas
quaes como não entrassem Barraxa nem Almandarim, que entre os Mouros
tinhão muito poderio, e não pertencião ainda ao dominio de ElRei de
Fés; com as muitas lanças, que juntado tinhão, derão sobre os suburbios
de Arzilla, e commettêrão sobejo estrago. Acodio D. Rodrigo com as
trópas que tinha, e a peleija foi de ambas as partes bem renhida; mas
mal findada para D. Rodrigo, que com muitos dos seus acabou nella,
assoberbado da grande soma de inimigos. Logo que ElRei D. João teve
nova desta perda, mandou a Arzilla D. João de Menezes, varão de
extremada valentia, tomar o governo da Praça, e levantar com a sua
presença os brios dos nossos. E ora como alguns Mouros tributarios já
revéis com o nosso desastre, rejeitavão pagar o tributo, que pelos
concertos com ElRei D. João lhe era devido, propoz D. João de Menezes,
antes que tudo, visitar com esforçadas armas estes alterados Mouros.
E para mais facil o conseguir, escreveo a Lopo de Azevedo, que então
governava a Cidade Tanger, pedindo lhe mandasse alguns Cavalleiros
de reforço: mandou-lhe este 50, e por Cabo delles a Pedro Leitão seu
Adail, que se deo préssa a chegar naquella mesma noite ao sitio, que
D. João de Menezes lhe aportava. Este, que ao sahir de Arzilla com
150 de cavallo, se unio logo com Pedro Leitão, partio em direitura
contra a Aldêa, que dera a primeira nota de rebellião: e para evitar
de serem presentidos, passou ordem aos Cavalleiros de enfiarem hum
após outro a estrada em não quebrada linha; e que essa longuissima
fila [tal nome tem entre soldados] caminhasse em boa ordem, precatada,
e com silencio; com o que de madrugada chegou á Aldêa, para dar de
sobresalto nos inimigos. Ora veio a succeder, que nessa mesma occasião
Barraxa, e Almandarim com dous mui poderosos Mouros Muça e Acob vinhão
accommetter armados algumas Aldêas Mouras, que erão do nosso partido:
trazião sob seus pendões 2000 de cavallo, e 800 peões. D. João de
Menezes para mais se inteirar desta noticia, mandou alguns Mouros dos
que comsigo trazia para espias, que lhe colhessem de cilada algum dos
inimigos, d’onde tirasse lingua da verdade: o que elles despejadamente
fizerão, trazendo-lhe tres Mouros, que abonárão quanto elle já sabia.
Por tanto decidio investir com os inimigos, dado que muitos fossem
summamente adversos a esta sua resolução; porque em tal ponto libravão
as cousas, que sem grande perigo de salvamento, e menoscabo de seu
credito não podião recuar. Com o que teve por mais brioso ir dar
assalto a gente desapercebida, que rechaçallos, quando lhe viessem
ferozes no alcance; e valia mais espavorillos c’hum atrevimento, que
animallos, e embravecellos c’huma retirada. Dividio subito em tres
terços a sua gente, de que deo o primeiro a Pedro Leitão, composto dos
50 Cavalleiros que trouxera; o segundo com 30 Cavalleiros a D. João
de Menezes, filho de D. Pedro, Conde de Cantanhede; e para si tomou o
resto: e exhortando-os, e avisando-os do que devião fazer, guiou em
busca dos Alcaides Mouros, que admirando a nossa audacia, zombavão da
pouquidade. Formárão-se logo em tres corpos; mas mudando de opinião,
se juntárão n’hum, para cahir de pezo sobre nós, e nos assoberbarem.
Já chegão; e apenas o nosso primeiro terço vio assás de espaço para a
investida, correm co’as lanças feitas ao inimigo, que tambem se não
descuida. Os nossos encetárão bem o jogo; mas apertados da multidão,
começavão a descahir: eis-que o sobrinho de D. João de Menezes os
accommette pelo lado, e tornão a cobrar animo os nossos, mettendo o
melhor de seus brios na contenda. Então julgou o Capitão Mór, que não
havia mais reter-se, manda abalar as bandeiras, e com o grosso da tropa
que comsigo tinha, cahe sobre os Mouros, que mal sostem o embate;
depois recuão, e por fim desatão em arrancada fuga. Vão-lhe no couce os
nossos, e em oito milhas de alcance fizerão nelles sobejo estrago, até
que, voltárão a saquear-lhes os arraiaes. Forão muitos os cativos, que
tomárão na batalha, muitos mais os mortos, grandissimo o despojo; dos
nossos não faltou hum só. Foi depois D. João de Menezes com o exercito
dar huma passada ás Aldêas rebeldes, que ajoelhadas lhe pedião perdão,
e pagavão quanto pela fé dos tratados era devido: e tendo a tudo dado
bom meio, voltou a Arzilla, d’onde despedio a Pedro Leitão com bom
quinhão da preza. Já ElRei D. Manoel reinava, quando se commetteo esta
peleija, e acertou que ganhava D. João de Menezes esta victoria ao
mesmo prazo que elle mandava dar os dizimos aos Clerigos da Africa;
e disso muitos ajuizárão, que mais concorrêra para vencimento della
a religião de D. Manoel, que a valentia dos Portuguezes. Não tinha
ElRei ainda despedido as Cortes, que na Cidade, em que as juntára, se
declarou huma peste, que deo causa a lançar para outro ensejo muitos
presuppostos para o bem do Reino.
No anno seguinte de 1496 do Nascimento de Jesu Christo, partio para
Setuval nas vesperas da Quaresma, que já alli esperavão por elle D.
Leonor, mulher de D. João II. e D. Isabel, viuva do Duque D. Fernando.
Tendo desempenhado o dever de Christão, em quanto ao jejum sagrado,
e celebrado a Resurreição de Nosso Senhor, tornou a empregar-se
no desvelo dos negocios da Monarquia: começando por reintegrar na
Patria, e nas perdidas honras a D. Jaime, filho de D. Fernando, que,
como dissemos, pela morte padecida por seu pai, se passou a desterro
voluntario, e com elle seu irmão D. Diniz, e seu tio D. Alvaro, e a D.
Sancho seu primo, filho de D. Affonso, Conde de Faro, e irmão do Duque
D. Fernando. E quiz ElRei que D. Sancho trocasse o titulo de Conde de
Faro pelo de Conde de Odemira. Depois mandou vir do degredo todos os
que em tempo de ElRei D. João tinhão sido suspeitos de traição, e foi
insigne a liberalidade que usou com elles, e mais ainda com os que
acima memorei. E por quanto D. João II. fizera a certas pessoas, que
bem tinhão merecido do Estado, mercê de certos feudos dos desterrados,
o Senhor Rei D. Manoel, porque não tivessem de queixar-se de injúria
que lhes fosse infligida, com tantas mercês e dadivas os consolou, que
de bom grado consentírão em serem esbulhados da possessão dos ditos
bens. Magnificencia foi esta, em que muitos achárão que arguir; nem
faltou quem dissesse, que era indigno honrar inconsideradamente com
tantas mercês, e restituir por inteiro os bens aos filhos dos que forão
enviscados da infamia de traidores. Outros havia, que não deslouvavão
a liberalidade de ElRei, mas que quizerão mais modo nella. Que não
era a avantajem da Republica esperdiçar em larguezas sobejas, e d’hum
só momento o patrimonio real, que he a segurança dos Estados. Mas
Sua Alteza não se deixou abalar com quanto lhe vinha aos ouvidos, a
sobrestar nas graças que instituíra liberalizar; porque considerava que
alguns dos que forão justiçados, não erão tão mareados de crimes, que
seus nomes incorressem eterno aborrecimento dos homens: além de ser
injusto pagarem os filhos os delictos de seus pais; além do muito que
a esta benignidade o inclinava a incessante tristura de sua irmã D.
Isabel. Que bem via elle que esta muito boa e mui prestante Senhora,
depois da morte de seu marido, e exilio de seus filhos, nada vio que
lhe alliviasse a saudade e pezadumes. E para mais urgencia a Senhora D.
Beatriz, sua mãi, com rogos, como a Monarca, e com authoridade, como
a filho, lhe instava quizesse deseliminar e fazer mercês a parentes
tão conjunctos: cousa impossivel, se os não sobisse antes ao gráo
de que tinhão cahido. “Não a ti só (dizia)” sobreveio a herança da
Monarquia, mas a tua mãi, e a tuas irmans tambem, e a teus parentes, e
a quantos em fim tinhão depositado em ti suas esperanças. E se estas
nos fallecem, a quem temos de recorrer? Quem será nosso amparo? Se a
nosso desejo te não inclinas, forca nos será vermos de máo grado a
tua sobida ao cume da Realeza. Se nos sómente coube em quanto eras
ainda homem privado deplorar nossa adversidade, agora aos queixumes
daquella crueza accrescerá a injúria, que a tua mãi e mais parentes
inferiste. Se pois tens em pundonor a tua pia reputação, se te move
ainda a lembrança da que em seu ventre te deo vida, a seus peitos te
deo leite, e com tanto carinho te amou sempre, toma-nos todos em teu
seio, restaura a tua mãi a filha, os filhos a tua irmã, a mim meus
netos, que será a mim mesma restaurar-me por inteiro: com o que tão
longe escaparás á suspeita de avareza, quão precioso será o fructo
da tua magnifica piedade. “Estas e outras mais razões a este sentido
sua mãi dizia, com lagrimas lhas abonava a irmã, por Cartas, e por
Embaixadores urgentemente lhas rogavão os Monarcas de Castella; pelo
que era impossivel a ElRei já mui bom de sua natureza, não pender
para a vontade de sua mãi, perpassar o peditorio de sua irmã, ou ter
em pouco as rogativas de tão prestantes Soberanos. Engrandeceo tambem
com dadivas, com honras muitos homens nobres, como forão D. Diogo da
Silva, pessoa de extremada prudencia, e que tinha sido seu Aio. Mandou
depois Pedro Correa, reputado prudentissimo na opinião geral, ao Papa
Alexandre, para menear certos negocios tocantes ao estado do Reino, e
trazer comsigo a Portugal o Cardeal Jorge da Costa, que, bem que de
humilde familia, foi dotado de preclaro engenho, e de animo grande.
Foi muito acceito á Senhora D. Catharina, filha de ElRei D. Duarte,
tão virtuosa Senhora, que com ninguem quiz casamento; em cujo serviço
tendo entrado por acontecimento, tanto a cativou sua probidade, e bom
juizo, que poz o peito a accrescentallo com mais pingues beneficios,
nos quaes se comportou com egregio e virtuoso descargo. Derão-lhe
depois hum Bispado, e por varios lanços foi sobindo em honras, até que
o Pontifice com summo agrado dos Cardeaes o recebeo no Sacro Collegio,
dignidade que desempenhou com singular aviso, e em que privou e acabou
muito com os Santissimos Papas. Cahio no desagrado de D. João II.
logo que entrou a reinar, por lhe ser suspeito de o empecer em varios
negocios, o que não impedio com tudo ao Cardeal de conservar a pezar
de Sua Alteza muito authorizadamente a sua dignidade. Logo que D. João
morreo, lhe pedio o Senhor D. Manoel por Cartas, que tornasse para o
Reino, pela necessidade que delle tinha para a feliz administração da
Monarquia; tendo-o por de tão cabal saber, e madurez de conselho. D.
Jorge deo mostras de que assim o faria; mas depois que Pedro Correa
entrou em Roma, mudou de sentimento, desculpando-se com a falta de
forças, e co’a velhice: allegando mais que lhe não consentia o Summo
Pontifice emprehender tão longa estrada. Os negocios porém de Sua
Alteza concluio com presteza e lealdade summa. Lavrava em tanto pelo
Reino acerrimo contagio, que era forçoso a ElRei mudar de ares, e de
pousada; e como se achasse então em Torres Vedras, veio o Embaixador
de Veneza dar-lhe em nome da Republica os parabens do Reino, que lhe
coubera em successão, e offerecer-se-lhe para executar muito de grado
quanto delle requeresse. Embaixada que lhe foi tão graciosa, que por
suas mãos armou Cavalleiro a quem a trouxe, e com tantos presentes o
despedio, que a Senhoria ora pelo reclamo de Embaixador, e ora pelo
muito affecto, que as Cartas de ElRei continhão, se entregou com mais
vontade a seu favor. Entrou depois D. Manoel n’huma empreza, que
muitos Reis tinhão tentado antes, e por mais vezes, mas sempre em
vão. He de saber, que quando a maior parte da Hespanha curvava sob
o imperio e poderio dos Arabes, laborava entre elles e os Christãos
guerra contínua, pullullando sempre esta da pouca fé de treguas mal
travadas e mal assentes. Houve pois Varões nobres não menos prestantes
em valentia, que em christandade, que fazião voto de peleijar com
rematado brio pela gloria de Nosso Senhor, em quanto as forças lho
consentissem; e para mais despejadamente o prefazerem, e mais folgada
estrada lavrarem para o Ceo, se abstinhão do Matrimonio, despendendo a
vida já em obras de religião, e já no meneio das armas, em cujo ardor
tanto andavão seus animos influidos, que tinhão por bemaventuradissimos
os que a morte tomava com as armas nas mãos em pró da Republica e da
santissima fé de Christo. Como seguissem muitos este exemplo, varias
Ordens de Cavalleiros se creárão, que os Reis dotárão de grossas
rendas, e os Papas approvárão: dellas sahírão mui esforçados Varões,
com cujas cavallerias forão os Mouros muitissimas vezes com ampla
gloria do nome Christão desfeitos e affugentados. Trazião sobre o
peito assinalada a Cruz de panno vermelho ou verde cozida no vestido.
Florecião tambem na Hespanha ao mesmo tempo as Ordens dos Templarios
e Hospitaleiros, que em Jerusalem, já tomada pelos Christãos, tinhão
vindo de fundamentos iguaes. E bem que differentes fossem os Institutos
e insignias destas Ordens, convinhão todas em proferir votos solemnes,
e prometter publicamente a Deos de se não macular de torpeza alguma,
nunca desobedecer ao Grão Mestre, nem çujar suas mãos no lodo da
avareza. Ora ElRei D. Diniz (depois que Filippe formoso fez tanto,
que acabou com a Ordem dos Templarios) tomou o alvitre de instituir,
além das mais Ordens que já havia em Portugal, outra Ordem Militar,
na qual entrassem todos os Templarios Portuguezes (que nesta Ordem
dos Templarios entravão facilmente quaesquer Cavalleiros esforçados
e de porte, com quanto fossem Christãos) sem perderem seus bens e
suas dignidades: em conseguinte do que ordenou, que as rendas que a
Ordem dos Templarios possuia em Portugal, os Templarios Portuguezes
alistados em nova Milicia, as conservassem, e aos desta Milicia deo
o nome de Cavalleiros de Christo; e para os differenciar das mais
Ordens Cavalleiras, lhes mandou trazer huma Cruz branca embutida em
Cruz vermelha; pedindo ao Summo Pontifice, que com a sua authoridade
a confirmasse, desde então se accrescentou em bens esta Ordem, e
medrou amplamente. E porque via D. Manoel quão imminente estava o
perigo aos Cavalleiros desta e mais Ordens, (se contra o voto feito
a Jesu Christo não enfreassem a concupiscencia, quão grande era o
peccado, em que cahião, quão profundo o ferrete gravado nos provindos
destes religiosos Cavalleiros; que embora fossem nobilissimos os que
os gerárão, não lhes cabia menos a nota de bastardos) pedio ao Papa
Alexandre desligasse os Cavalleiros Portuguezes todos do vinculo de
castidade perpétua, quantos doravante se sobmettestem ao sacramento
da religiosa Milicia; porque os que já estavão estreitos a voto em
alguma Ordem, impossivel era relaxar-lhes o juramento com Alvarás nem
Bullas. Outorgou-lho o Pontifice, e foi dalli em diante permittido
aos que se alistavão nas Ordens Militares o casarem-se, menos aos
Hospitaleiros de S. João, que por onde quer que vão, comsigo levão o
nó da jurada castidade. Foi de muitos applaudida esta providencia, com
que ElRei [ao parecer] atalhava os ruins feitos, e salvava os seus de
grandes precalços de incontinencia. Quanto a mim vacillo muito, se
ella não dá mais livres azos para as culpas, que com tanto desvelo
quiz arredar: primeiramente, porque relaxações nunca forão saudaveis.
Tanto mais, que mui severos nós se hão de dar a fios que deslizão, e
trazellos ao seio de que fogem, se queremos que os louvaveis Institutos
vinguem sempre o mesmo fructo e mesma utilidade. E tambem porque já
vemos, que com os cuidados do Matrimonio vai quebrantando em grande
parte aquelle antigo ardor guerreiro, que nos religiosos soldados bem
lavrava. Menos despejados, e menos alegres vão, e mais cedo, e com mais
ansia do que he dado se acolhem ao repouso, mal que huns apressados,
e curtos dias guerreárão. E ora vimos, que quando lhes era defezo o
Matrimonio, crivel he que não poucos entravão nas Ordens de Cavalleria
com mais presupposto de Christandade, que sofreguidões de póstos e
Commendas. Mas agora depois que as Religiões alizárão o que a muitos
parecia escabrosissimo, podemos, sem sermos temerarios, suspeitar, que
quantos lidão em matricular-se nestas Ordens, cobiças, e ambições os
arrojão na carreira da Milicia; que tanto se colhe do desprezo da fé,
que a Jesu Christo promettêrão, da violação das sagradas pertenças,
homens arrojados e facinorosos apossar-se dos bens Ecclesiasticos,
arrotar riquezas [destinadas a divinos empregos] e abusar dellas
descomedidamente em luxurias e faustos deste mundo, homens que nunca
vírão o rosto aos inimigos. Mas desistamos de lastimar o que remediar
nos he vedado.”