IV

A todos se commoveu

O mais intimo do peito,

Mas não ousam a affrontar

Do pae o sevo despeito.

—‘Tem paciencia, anjo do ceo!’

Com lagrymas responderam,

‘Que ja não póde tardar

O pae que te vem soltar.

Os sette annos decorreram,

O dia está a acabar;

Soffre mais este momento,

Que hoje acaba o teu tormento.’

V

—‘Oh! como heide eu supportar,

Amigos meus da minha alma,

Se a vida sinto acabar,

Sinto abrasar-me da calma?

Sette annos me accudiu Deus,

Que por milagre vivi,

Dava-me orvalho dos ceos,

De que sette annos bebi.

Do estio ardentes queimores

No meu corpo os não senti,

Do hinverno os frios rigores

Tambem esses não tremi.

Mas ha tres dias que a mão

Do Senhor me abandonou.

Tudo, tudo me faltou...

Oh! tende de mim piedade!

Uma sêde, uma só d’agua,

Uma só por compaixão,

Que me abraso n’esta fragua,

Que me estalla o coração!’

—De novo alto chôro ergueram,

Lastimado pranto gemem;

Mas de seu tyranno tremem,

Só a chorar se atreveram.

Romanceiro I: Romances da Renascença · 第 66 / 209 题