VI

Soa a nova no castello,

Vai correndo em derredor,

De que porfim fôra ouvido

Aquelle anjo soffredor

Soltar queixoso gemido,

Piedade emfim suppllicar.

Só a Auzenda, que expirando

No leito da morte jaz,

Para que morresse em paz

Vão a noticia occultando.

Mas soube tudo Sisnando,

E no duro coração

Ja vacilla a crueldade,

Ja vislumbra a compaixão:

Dos seccos olhos covados,

Que inspiravam medo e espanto,

Como que da mão tocados

D’algum anjo punidor,

Salta repentino o pranto,

Qual onda que estalla em flor

Sôbre o penedo ourissado.

Todo em lagrymas sanguineas

O infeliz debulhado,

Para aquella infausta tôrre

Com incerto passo corre

Em altos gritos bradando:

—‘Agua! trazei agua, vinde,

Accudi á desgraçada,

A uma filha malfadada

Que por mãos de seu pae morre!’

Romanceiro I: Romances da Renascença · 第 67 / 209 题