Soa a nova no castello,
Vai correndo em derredor,
De que porfim fôra ouvido
Aquelle anjo soffredor
Soltar queixoso gemido,
Piedade emfim suppllicar.
Só a Auzenda, que expirando
No leito da morte jaz,
Para que morresse em paz
Vão a noticia occultando.
Mas soube tudo Sisnando,
E no duro coração
Ja vacilla a crueldade,
Ja vislumbra a compaixão:
Dos seccos olhos covados,
Que inspiravam medo e espanto,
Como que da mão tocados
D’algum anjo punidor,
Salta repentino o pranto,
Qual onda que estalla em flor
Sôbre o penedo ourissado.
Todo em lagrymas sanguineas
O infeliz debulhado,
Para aquella infausta tôrre
Com incerto passo corre
Em altos gritos bradando:
—‘Agua! trazei agua, vinde,
Accudi á desgraçada,
A uma filha malfadada
Que por mãos de seu pae morre!’