IV

Mas ja despontava o dia,

Que tam alegre hoje vem,

Tam risonho parecia,

Que não dissera ninguem

Senão que traz alegria:

—E tantas, tam negras mágoas,

Nunca as trouxe o sol nascente

Desde que assoma no oriente

E se sepulta nas aguas.

Toda a noite longa, immensa,

Auzenda velou chorando,

De suas lagrymas regando

O leito viuvo e só;

A ninguem sua dor intensa

A desgraçada confia:

Ninguem da triste houve dó,

Que do espôso em companhia

Todo o castello a julgou.

Porêm a noite passou,

E porfim, do novo dia

Ja o alvor vinha raiando,

Sem apparecer Sisnando.

V

É manhan;—tenue inda a luz,

Mas ve-se que é madrugada.

Auzenda ainda acordada

Sente abrirem-lhe com tento

A porta do aposento,

E entrar...—‘Será elle?... Oh vem!

És tu, suspirado espôso?!

Disse ella em timida voz:

Não lhe responde ninguem.

Um suspiro doloroso

Lhe dissipou a illusão.

Oh! quem se hade inganar

Com aquelle suspirar!

É Adozinda,—voaram

Do maternal coração

Toda a mágoa e dissabores;

E os sentidos que ficaram

Foi para amargar as dores

Que n’aquelle _ai_ a assaltaram.

Romanceiro I: Romances da Renascença · 第 48 / 209 题