Desde aquella madrugada
Que Adozinda em seu balcão
Fallou c’o velho ermitão,
De noite á grutta fadada
Sempre vai. Sibille o vento
No bosque medonho e feio,
Ás nuvens o pardo seio
Rasgue horrisono trovão,
Nada teme; a passo lento,
Só, para alli se incaminha
E em rezas, em penitencia
Horas longas jaz sosinha.
Talvez d’aquelle romeiro,
Por salutar providencia,
Seu fado lhe foi preditto;
Talvez lhe fôsse prescritto
Por tam sancto conselheiro
Que passasse em oração
N’aquellas medonhas fragas
Certas horas aziagas
Em que a fatal conjuncção
D’um astro seu inimigo
Maior fizesse o perigo
Da terrivel maldicção
Que a persegue,—ella inocente!—
Que tam injusta cahiu
N’aquella votada frente...
Mas diz que não ha condão
Peior que o da maldicção!
E quantas não attrahiu
Sôbre a familia inculpada
A suberba despiedada
D’esse orgulhoso Sisnando?
Quantas vezes o infeliz,
C’os filhinhos expirando,
Á porta do seu castello
Se viu gemendo e chorando,
E o desalmado senhor
Essa gentalha atrevida
Escorrassar a mandou!
Taes peccados não guardou
Para os punir na outra vida
O supremo Arbitrador.