III

Desde aquella madrugada

Que Adozinda em seu balcão

Fallou c’o velho ermitão,

De noite á grutta fadada

Sempre vai. Sibille o vento

No bosque medonho e feio,

Ás nuvens o pardo seio

Rasgue horrisono trovão,

Nada teme; a passo lento,

Só, para alli se incaminha

E em rezas, em penitencia

Horas longas jaz sosinha.

Talvez d’aquelle romeiro,

Por salutar providencia,

Seu fado lhe foi preditto;

Talvez lhe fôsse prescritto

Por tam sancto conselheiro

Que passasse em oração

N’aquellas medonhas fragas

Certas horas aziagas

Em que a fatal conjuncção

D’um astro seu inimigo

Maior fizesse o perigo

Da terrivel maldicção

Que a persegue,—ella inocente!—

Que tam injusta cahiu

N’aquella votada frente...

Mas diz que não ha condão

Peior que o da maldicção!

E quantas não attrahiu

Sôbre a familia inculpada

A suberba despiedada

D’esse orgulhoso Sisnando?

Quantas vezes o infeliz,

C’os filhinhos expirando,

Á porta do seu castello

Se viu gemendo e chorando,

E o desalmado senhor

Essa gentalha atrevida

Escorrassar a mandou!

Taes peccados não guardou

Para os punir na outra vida

O supremo Arbitrador.

Romanceiro I: Romances da Renascença · 第 47 / 209 题