VIII

Agreste, não feio é o sitio,

Medonho, horrivel de ver;

Porêm tem a natureza

Horrores que são belleza,

Tristezas que dão prazer,

Mão d’arte alli não chegou;

A virginal aspereza

Ficou em toda a rudeza

Que a creação lhe deixou.

De um lado, choupos anciãos

Seus ramos lobregos pendem,

E o vivo seixo fendem

Crespas raizes nodosas

Das sovereiras annosas

Que as cortiças remendadas

Têem dos estios lascadas

A pedaços a cahir.

—Do outro, altivos rochedos,

Como do ceo pendurados,

Diffundem pallidos medos

Que em funda gruta acoitados

De espectros a povoaram.

—Di-lo toda a vizinhança,

Que ou são sombras de finados,

Ou de negras bruxas más

Alli ha nocturna dança.

—Redobra ao sítio o pavor

Um jôrro alto que despenha

Saltando de penha em penha,

E os echos em deredor

Vai temeroso acordando.

Este unico som d’horror

Á callada solidão

Da mudez quebra o condão.

—Sisnando, o ardido Sisnando,

O do forte coração,

Sentiu soçobrar-lhe o ânimo:

Uma voz dentro do peito

Lhe diz que não passe ávante;

Mas outra voz mais possante,

Outra voz que é voz do fado,

Voz que ao mortal desgraçado

Não deixa fôrça ou razão,

Lhe brada: _Persiste, segue_...

—Ai do que a ella se intregue,

Que se intrega á perdição!

Romanceiro I: Romances da Renascença · 第 35 / 209 题