No seixo cavada grutta
Tem escassa entrada aberta,
Quasi de todo cuberta
De festões d’hera lustrosa
Que cingindo a rocha bruta
Pende em grinalda ramosa.
Entre as folhas, que meneia
Ligeiro sôpro de vento,
Viu Sisnando—e alma lhe anceia—
Um lampejar vago, incerto
De luz fraca,—ouve um accento
De voz doce mas gemente,
Voz que se ouve que está perto,
Que intoa suavemente
Uma angelica harmonia,
Tam triste que faz chorar!
E ésta voz assim dizia
Em seu languido cantar:
—‘Anjos do ceo, acudi-me,
Valei-me, sanctos do ceo,
Que me rouba mais que a vida
Quem só a vida me deu.
‘Sancto ermitão, que me deste
Aquella esperança ainda
Que a desgraçada Adozinda
Viria a ser venturosa
Apóz de longo penar...
Sorte que vieste
Sôbre mim deitar,
Sorte desastrosa
Vem ver começar.
‘Anjos do ceo, acudi-me,
Valei-me, sanctos do ceo,
Que me rouba mais que a vida
Quem só a vida me deu.
Mas ah! tam negro crime,
Tam horrida paixão
D’um pae no coração...
D’um pae...—Como é possivel!
Não, não, não hade entrar.’
X
—‘Pois treme, infeliz, e sabe
Que essa horrorosa paixão
Aqui n’este coração...’
Sisnando, a quem ja não cabe
No peito a angústia, o tormento
De tam criminoso amor,
N’estas vozes de terror
Rompendo, a caverna entrou.