IX

No seixo cavada grutta

Tem escassa entrada aberta,

Quasi de todo cuberta

De festões d’hera lustrosa

Que cingindo a rocha bruta

Pende em grinalda ramosa.

Entre as folhas, que meneia

Ligeiro sôpro de vento,

Viu Sisnando—e alma lhe anceia—

Um lampejar vago, incerto

De luz fraca,—ouve um accento

De voz doce mas gemente,

Voz que se ouve que está perto,

Que intoa suavemente

Uma angelica harmonia,

Tam triste que faz chorar!

E ésta voz assim dizia

Em seu languido cantar:

—‘Anjos do ceo, acudi-me,

Valei-me, sanctos do ceo,

Que me rouba mais que a vida

Quem só a vida me deu.

‘Sancto ermitão, que me deste

Aquella esperança ainda

Que a desgraçada Adozinda

Viria a ser venturosa

Apóz de longo penar...

Sorte que vieste

Sôbre mim deitar,

Sorte desastrosa

Vem ver começar.

‘Anjos do ceo, acudi-me,

Valei-me, sanctos do ceo,

Que me rouba mais que a vida

Quem só a vida me deu.

Mas ah! tam negro crime,

Tam horrida paixão

D’um pae no coração...

D’um pae...—Como é possivel!

Não, não, não hade entrar.’

X

—‘Pois treme, infeliz, e sabe

Que essa horrorosa paixão

Aqui n’este coração...’

Sisnando, a quem ja não cabe

No peito a angústia, o tormento

De tam criminoso amor,

N’estas vozes de terror

Rompendo, a caverna entrou.

Romanceiro I: Romances da Renascença · 第 36 / 209 题