suspendeu-se a discussão por um bom quarto de hora, e por muito tempo,
por muito tempo ainda, se fallou nos Estados Unidos da America da
proposta formulada, com tanta energia pelo secretario perpetuo do
Gun-Club.
CAPITULO XX
ATAQUE E REPLICA
Parecia que aquelle incidente devia pôr termo á discussão. Estava dita
«a ultima palavra» e a melhor não poder ser. Todavia, quando acalmou a
agitação, ouviram-se as seguintes palavras, pronunciadas por uma voz
forte e severa:
«Agora que o orador já deu mais do que devêra dar á phantasia, por certo
não se negará a entrar de novo no assumpto, construindo menos theorias,
e discutindo a parte pratica da expedição que intenta?»
Volveram-se todos os olhares para o personagem que fallava d'aquella
fórma. Era um homem magro, secco, de physionomia energica, com
abundantes barbas, talhadas á americana, que lhe saíam debaixo do queixo
inferior. Conseguira pouco e pouco collocar-se nas primeiras filas, á
sombra dos diversos movimentos que se tinham realisado na assembléa.
Ali, cruzados os braços, com o olhar ousado e scintillante, fixava-o
imperturbavelmente no heroe do meeting. Depois de ter formulado a
pergunta, calou-se sem parecer impressionado pelos milheiros de olhares
que para elle convergiam, nem pelo murmurio desapprovador, que
suscitaram as palavras que pronunciára. E como a resposta se ía fazendo
esperar, repetiu de novo a pergunta, com a mesma accentuação precisa e
terminante, e acrescentando:
«Estamos aqui para tratar da Lua, que não da Terra.
--Tendes rasão, senhor, respondeu Miguel Ardan, a discussão desviou-se
um tanto do caminho regular. Volvamos á Lua.
--Senhor, replicou o desconhecido, affirmaes que o nosso satellite é
habitado. Bem. Mas se existem selenitas, certamente essa especie de
gente vive sem respirar, porque--e por interesse vosso é que vos vou
prevenindo--não ha uma unica mollecula de ar á superficie da Lua.»
Ao ouvir tal asserção, sacudiu Ardan a fulva juba: comprehendeu que com
aquelle homem é que a luta ía engajar-se a serio e na parte mais
melindrosa do assumpto.
Olhou tambem fixo para elle e disse:
«Ah! Então não ha ar na Lua! E, se me dá licença, quem é que o affirma?
--Os homens da sciencia.
--Na verdade?
--Na verdade.
--Senhor, replicou Miguel Ardan, fóra de qualquer brincadeira, tenho
profunda estima pelos homens de sciencia que sabem, mas tambem profundo
desdem pelos sabios que nada sabem.
--E conheceis alguns que pertençam á ultima categoria?
--Muito particularmente. Em França ha um que sustenta que
«mathematicamente» as aves não podem voar, e outro cujas theorias
demonstram que os peixes não foram feitos para viver na agua.
--Não é d'esses que trato, senhor, e para apoiar a minha asserção
poderia citar-vos nomes que de certo não havieis de recusar.
--N'esse caso, senhor, muito havieis de embaraçar um pobre ignorante,
que, aliás, nada deseja tanto como instruir-se!
--Então, se não estudastes as questões scientificas, porque é que vos
abalançaes a discuti-las? perguntou com bastante rudeza o desconhecido.
--Porque? respondeu Ardan. Pela simples rasão que é sempre arrojado
aquelle que nem suspeita tem dos perigos! Nada sei, é verdade, mas é
exactamente n'esta fraqueza que consiste a minha força.
[Figura: Arrancaram o estrado de repente (pag. 184).]
--A vossa fraqueza chega a ser loucura, exclamou o desconhecido com
intonação de mau humor.
[Figura: Irrompeu Maston pelo quarto dentro (pag. 187).]
--Sim!? Tanto melhor, replicou o francez, se essa loucura me levar até á
Lua!
Barbicane e os collegas devoravam com o olhar o intruso, que com tanto
arrojo vinha apresentar-se em opposição á empreza. Ninguem o conhecia, e
o presidente pouco seguro ácerca das consequencias da discussão tão
francamente posta, olhava com tal ou qual apprehensão para o seu novo
amigo. A assembléa mostrava-se attenta e seriamente inquieta, porque a
disputa tivera como resultado chamar-lhe a attenção para os perigos, ou
talvez verdadeiras impossibilidades da expedição.
«Senhor, proseguiu o adversario de Miguel Ardan, são numerosas e
indiscutiveis as rasões que provam a ausencia completa de atmosphera em
volta da Lua. Até _a priori_ póde affirmar-se que se alguma vez existiu
essa atmosphera da Lua, deve ter-lhe sido subtrahida pela Terra. Prefiro
entretanto objectar-vos factos irrecusaveis.
--Objectae, senhor, respondeu Miguel Ardan com perfeita cortezania,
objectae á vossa vontade!
--Sabeis, disse o desconhecido, que quando os raios luminosos atravessam
um meio qualquer tal como o ar, são desviados da linha recta, ou, por
outras palavras, que experimentam uma refracção. Pois bem! quando a Lua
occulta alguma estrella, os raios luminosos que emanam d'esta, mesmo
quando são tangentes á peripheria do disco lunar, nunca experimentam o
menor desvio nem dão o mais leve indicio de refracção. D'ahi flue como
consequencia evidente que a Lua não está circumdada por uma atmosphera.»
Olharam todos para o francez, porque admittida que fosse a observação,
as consequencias tiradas eram perfeitamente rigorosas.
«Em verdade, respondeu Miguel Ardan, é esse o vosso mais valioso, por
não dizer o unico, argumento, e qualquer homem de sciencia havia de
ver-se extremamente embaraçado para responder-lhe; eu cá direi sómente
que tal argumento não tem valor absoluto, porque suppõe que o diametro
angular da Lua está perfeitamente determinado, o que não é exacto. Mas
passemos adiante, e dizei-me, meu caro senhor, se admittis a existencia
de vulcões á superficie da Lua.
--De vulcões extinctos, sim; inflammados, não.
--Deixar-me-heis comtudo acreditar, e sem transpor de certo os limites
da logica, que esses vulcões estiveram em actividade em outra epocha?
--Isso é positivo, mas como tambem era possivel que os proprios vulcões
fornecessem o oxygenio necessario para a combustão, o facto das erupções
não prova de modo algum a existencia de atmosphera lunar.
--Passemos adiante, respondeu Miguel Ardan, e ponhâmos de parte tal
genero de argumentos para chegarmos ás observações directas. Previno-vos
porém que vou citar os nomes proprios.
--Pois citae.
--É o que farei. Em 1715, os astronomos Louville e Halley, na observação
do eclipse de 3 de maio, notaram certas fulminações de natureza
singular. Essa especie de relampagos, rapidos e a miudo repetidos, foi
por estes observadores attribuida a tempestades que se desencadeavam na
atmosphera da Lua.
Em 1715, replicou o desconhecido, tomaram os astronomos Louville e
Halley por phenomenos lunares phenomenos que eram puramente terrestres,
taes como bolidos, aerolithos ou outros similhantes, e que se realisaram
na nossa atmosphera. É isto o que responderam os homens da sciencia á
enunciação de taes factos, e é o que eu com elles responderei tambem.
--Adiante pois, respondeu Ardan, sem se perturbar com a replica.
E Herschel, em 1787, não observou um grande numero de pontos luminosos
na superficie da Lua?
--É certo, mas o proprio Herschel, que aliás não deu explicação alguma
ácerca da origem d'esses pontos luminosos, não tirou por conclusão do
que observára a forçada existencia de uma atmosphera lunar.
--Bem respondido, disse Miguel Ardan cumprimentando o antagonista, vejo
que sois muito entendido em selenographia.
--Verdade é que sou bastante entendido no assumpto, senhor; devo porém
acrescentar, que os mais habeis observadores, os que mais a fundo têem
estudado o astro das noites, os srs. Beer e Moedler, estão commigo de
accordo ácerca da falta absoluta de ar na superficie d'elle.»
Houve certa sensação entre os circumstantes, que pareceram
impressionados pelos argumentos do singular personagem.
«Continuemos a passar adiante, respondeu Miguel Ardan com a maior
placidez, que chegaremos a final a um facto importante. Um habil
astronomo francez, M. Laussedat, na observação do eclipse de 18 de julho
de 1860, verificou que as extremidades do crescente solar estavam
arredondadas e truncadas. Ora tal phenomeno só podia ser produzido por
um desvio dos raios solares que atravessassem uma atmosphera da Lua;
outra explicação admissivel não ha.
--E esse facto é positivo? perguntou com vivacidade o desconhecido.
--Absolutamente positivo!»
Realisou-se então na assembléa um movimento inverso do anterior, e que
fez de novo pender os espiritos para o heroe favorito, cujo antagonista
ficára silencioso. Ardan retomou a palavra, e sem se ufanar com a
decidida vantagem que acabava de obter, disse com simpleza:
Vêdes por consequencia, meu caro senhor, que não devemos pronunciar-nos
de uma fórma absoluta contra a existencia de atmosphera á superficie da
Lua; essa atmosphera é provavelmente pouco densa, muito subtil, mas na
actualidade a sciencia admitte geralmente a existencia d'ella.
--Não nas montanhas, em que vos peze, replicou o desconhecido, que não
queria dar o braço a torcer.
Não, mas no fundo dos valles, e sem que a sua altura passe de alguns
centos de pés.
--Em todo o caso, não será mau que tomeis todas as precauções, porque
esse ar ha de estar terrivelmente rarefeito.
--Oh! meu estimavel senhor, sempre ha de haver que farte para um homem
só; e demais, depois de lá estar em cima, eu tratarei de o economisar o
melhor que podér; não respirarei senão nas grandes occasiões!»
Retumbou uma estrepitosa gargalhada aos ouvidos do mysterioso
interlocutor, que estendeu a vista por toda a assembléa, como que
desafiando-a, altivo.
«Consequentemente, proseguiu Miguel Ardan, visto como estamos de accordo
ácerca da existencia de tal ou qual atmosphera, somos forçados a
admittir tambem a presença de tal ou qual quantidade de agua. E é uma
consequencia esta com que, pela minha parte, me alegro em extremo. Alem
d'isto permittirá o meu amavel contradictor que lhe submetta ainda mais
outra observação. Nós só conhecemos uma das faces do disco da Lua, e se
pouco ar póde haver na face que olha para nós, é possível que haja muito
na face opposta.
--E porque rasão?
--Porque a Lua, em virtude da attracção terrestre é que tomou a fórma de
um ovo, que nós vemos pelo lado da ponta mais achatada; e d'ahi vem a
consequencia obtida pelos calculos de Houven, que o centro de gravidade
da Lua está situado no outro hemispherio. E d'ahi tambem por conclusão,
que todas as massas aereas e aquosas devem ter sido arrastados para a
outra face do nosso satellite nos primeiros tempos da sua creação.
--Puras phantasias! exclamou o desconhecido.
--Isso não! mas sim puras theorias, aliás fundadas nas leis da
mechanica, e que me parecem de difficil refutação. Appello portanto para
o juizo da assembléa, e ponho á votação a questão de saber se a vida,
tal como existe na Terra, é ou não possivel na superficie da Lua?»
Trezentos mil auditores applaudiram simultaneamente a proposição. O
adversario de Miguel Ardan ainda quiz fallar, mas nem podia fazer-se
ouvir. Caíu-lhe em cima como uma saraivada de gritos e ameaças.
«Basta! Basta! diziam uns.
--Fóra o intruso! repetiam outros.
--Fóra! Fóra! clamava a multidão irritada.
O desconhecido porém, firme, agarrado e bem seguro ao estrado, não
arredou pé e deixou passar a tormenta, que teria assumido proporções
formidaveis se Miguel Ardan não a tivera apaziguado com um gesto. Ardan
era muito cavalheiro para abandonar um adversario em taes extremos.
«Desejaes acrescentar mais algumas palavras? perguntou Ardan com a mais
graciosa intonação.
--Um cento! ou um milheiro! respondeu iracundo o desconhecido. Ou, para
melhor dizer, não, basta só uma! Se perseveraes na empreza, é porque
sois...
--Imprudente! E com que fundamento me trataes vós por similhante fórma,
a mim, que até pedi ao meu amigo Barbicane que a bala fosse
cylindro-conica, só para não andar á roda no caminho como qualquer
esquilo?
--Mas, desgraçado, logo á partida ha de fazer-vos em estilhas a
horrorosa repercussão do tiro!
--Meu caro contradictor, agora sim, agora é que pozestes o dedo na
chaga, na verdadeira e unica difficuldade; entretanto o conceito que
formo do engenho industrial dos americanos é muito elevado para que me
permitta acreditar que não hão de conseguir resolve-la.
--E o calor desenvolvido pela velocidade do projectil ao atravessar as
camadas da atmosphera?
--Oh! as paredes do projectil são espessas, e depois tanto é o tempo que
eu hei de levar a atravessar a atmosphera!?
--Mas viveres e agua?
--Já calculei que podia levar commigo provisões para um anno, e a viagem
dura só quatro dias!
--E ar para respirar no caminho?
--Hei de fabrica-lo por processos chimicos.
--Mas a quéda na Lua, dado mesmo que consigaes lá chegar?
--Ha de ser seis vezes menos rapida do que o seria na superficie da
Terra, visto como a gravidade é seis vezes menor na superficie da Lua.
--Ainda assim ha de ser mais do que sufficiente para vos fazer em
pedaços como a um bocado de vidro!
--E quem é que me ha de impedir de retardar a queda por meio de foguetes
convenientemente dispostos e inflammados em occasião opportuna.
--Mas, emfim, demos que estão resolvidas todas as difficuldades,
aplanados todos os obstaculos, e que se juntam ainda a vosso favor todas
as probabilidades, admittamos que chegaes á Lua são e salvo, como é que
haveis de voltar?
--Não volto!»
Ao ouvir tal resposta sublime em sua mesma simplicidade, a assembléa
ficou muda. Mas aquelle silencio era mais eloquente do que quaesquer
clamores de enthusiasmo. D'elle se aproveitou o desconhecido para lavrar
o seu ultimo protesto.
--É um suicidio infallivel, exclamou, e a vossa morte, que será apenas a
morte de um insensato, nem ao menos servirá de proveito á sciencia!
--Continuae, generoso desconhecido, prognosticaes, na verdade, por modo
tão agradavel!
--Ah! isto é de mais! exclamou o adversario de Miguel Ardan, nem sei
porque tenho estado a perder o meu tempo em discussão tão pouco seria!
Prosegui á vontade n'essa empreza louca. A culpa não é a vós que se deve
tornar!
--Oh! não faça ceremonia!
--Não! a outrem cabe a responsabilidade inteira dos vossos actos.
--Então a quem, se me faz favor? perguntou Miguel Ardan com voz
imperiosa.
--Ao ignorante que organisou essa tentativa tão impossivel como
ridicula.»
O ataque era directo. Barbicane que desde que o desconhecido interviera
na discussão fazia esforços violentos para se conter, e «queimar o
proprio fumo» como as fornalhas fumivoras de certas caldeiras, vendo-se
agora claramente designado e com tamanha affronta, levantou-se
precipitadamente e ía já sobre o adversario que o desafiava cara a cara,
quando de subito se viu separado d'elle.
Cem braços vigorosos arrancaram n'um momento o estrado, e o presidente
do Gun-Club teve que partilhar com Miguel Ardan as honras do triumpho. O
broquel era pesado, mas os que o levavam revezavam-se de continuo,
disputando, lutando todos e combatendo para prestarem com os proprios
hombros decidido apoio á manifestação.
E todavia o desconhecido não se aproveitára do tumulto para se escapar.
E porventura teria podido faze-lo, rodeado como estava por aquella
multidão compacta? Por certo que não.
Caso é que se conservára na primeira fila, e de braços cruzados devorava
com os olhos o presidente Barbicane.
Este por sua parte não o perdia de vista; os olhares d'aquelles dois
homens estavam em cruzamento permanente como duas espadas frementes.
Os clamores da multidão immensa mantiveram-se no _maximum_ de
intensidade durante todo o tempo que durou a marcha triumphal. Miguel
Ardan deixava-se levar com evidente satisfação ao sabor das turbas.
Irradiava-lhe do rosto a alegria. Por vezes o estrado parecia jogar de
pôpa a proa, e de bombordo a estibordo como um navio batido pelas ondas.
Mas os dois heroes do _meeting_ que tinham pé de marinheiro, nem
vacillavam; e chegou-lhes a nave sem avaria ao porto de Tampa-Town.
Miguel Ardan conseguiu, por fortuna, escapar-se aos ultimos amplexos e
apertos de mão dos seus vigorosos admiradores; safou-se para o hotel
_Franklin_, subiu com presteza para o quarto, e metteu-se rapidamente na
cama, emquanto um exercito de cem mil homens velava debaixo das
janellas.
N'aquella mesma hora passava-se entre o personagem mysterioso e o
presidente do Gun-Club uma scena curta, porém grave e decisiva.
Barbicane apenas se vira livre, caminhára direito ao adversario.
«Vinde!» lhe disse com voz breve.
O outro seguiu-o para o caes e, dentro em pouco, acharam-se a sós á
entrada de um _Warfe_ que deitava para Jone's-Fall. Chegados áquelle
logar miraram-se os dois inimigos ainda então desconhecidos um para o
outro.
«Quem sois vós?» perguntou Barbicane.
--Sou o capitão Nicholl.
--Já o suspeitava. Até este momento nunca o acaso nos proporcionára
occasião de nos vermos frente a frente...
--Busquei-a eu!
--Insultastes-me!
--E em publico.
--Haveis de dar-me satisfação do insulto!
--Já.
--Não. Desejo que se passe tudo secretamente e só entre nós. Ha um
bosque situado a tres milhas de Tampa-Town, o bosque de Skersnow.
Conheceis-lo?
--Conheço.
--Será do vosso agrado entrar lá ámanhã ás cinco da manhã por
determinado lado?...
--Sim, se á mesma hora lá entrardes pelo outro.
--E que não esqueça o _rifle_? disse Barbicane.
--«Tanto como vós haveis de esquecer o vosso», respondeu Nicholl.
Pronunciadas friamente estas palavras, o presidente do Gun-Club e o
capitão separaram-se. Barbicane voltou para casa, mas em vez de
descansar por algumas horas, passou a noite a buscar meios de evitar a
repercussão do tiro dentro do projectil, a resolver o difficil problema
que Miguel Ardan apresentára na discussão do _meeting_.
CAPITULO XXI
COMO UM FRANCEZ ARRANJA UMA PENDENCIA DE HONRA
Emquanto entre o presidente e o capitão se discutiam as convenções do
duello, duello terrivel e selvagem, em que cada um dos adversarios se
transforma em caçador de outro homem, repousava Miguel Ardan das fadigas
do triumpho.
Repousar não é na realidade o termo adequado, porque as camas na America
podem disputar primazias em dureza com qualquer mesa de marmore ou de
granito. Dormia por consequencia Ardan, mas mal, dava voltas e voltas
entre os dois guardanapos que lhe serviam de lençoes, sonhando que
installava dentro do seu projectil uma camasinha mais _comfortable_,
quando um estrepito violento veio arranca-lo da região dos sonhos.
Empurravam-lhe a porta com pancadas desordenadas, que pareciam dadas com
instrumento de ferro. De envolta com aquelle tumulto excessivamente
matutino, ouviam-se formidaveis berros.
«Abre! abre, pelo amor de Deus!
Ardan não tinha motivo algum para annuir a um pedido feito com tanto
arruido. Não obstante levantou-se, e foi abrir a porta, no instante em
que ella estava para ceder aos esforços do teimoso visitante.
Irrompeu pelo quarto dentro o secretario do Gun-Club, que nem uma bomba
teria entrado com maior semcerimonia.
«Hontem á noite, prorompeu J.-T. Maston _ex abrupto_, o nosso presidente
foi insultado em publico no _meeting_! Desafiou o adversario, que é nem
mais nem menos que o capitão Nicholl! Batem-se esta manhã no bosque de
Skersnow! De tudo fui informado pela propria bôca de Barbicane! A morte
d'este é a aniquilação de nossos projectos! Por consequencia é
necessario pôr impedimento a tal duello! Um só homem n'este mundo exerce
no espirito de Barbicane influencia bastante para desvia-lo de seus
intentos, e esse homem é Miguel Ardan!»
Emquanto Maston assim dizia, Miguel Ardan, que logo desistíra de o
interromper, precipitára-se dentro das vastas calças, e menos de dois
minutos eram passados, já os dois amigos chegavam á desfilada aos
suburbios de Tampa-Town.
[Figura: No centro da teia debatia-se uma avesinha (pag. 193).]
No decurso d'aquella rapida carreira é que Maston foi pondo Ardan mais
ao facto da situação. Contou-lhe então as verdadeiras causas da
inimisade de Barbicane e Nicholl, como era de antiga data tal inimisade,
e por que rasões, nunca até áquella occasião, Barbicane e o capitão
tinham logrado encontrar-se cara a cara, graças aos esforços de communs
amigos; disse-lhe tambem que não havia ali mais do que rivalidade de
bala e chapa, e finalmente que a scena do _meeting_ fôra apenas a
occasião de ha muito procurada por Nicholl, para satisfazer antigos
rancores.
[Figura: Mappa da Florida (pag. 113).]
Nada ha mais terrivel que a fórma de duello peculiar da America, em que
os contendores se buscam por entre as matas, se espreitam pelas abertas
das çarças, e atiram um ao outro, no meio das devezas, como quem atira a
um animal feroz.
N'esse momento é que ambos os adversarios devem ter inveja das
maravilhosas qualidades que caracterisam os indios das planicies, da
rapida intelligencia e da engenhosa astucia de que estes são dotados, do
faro e da peculiar percepção dos rastos que os distinguem, quando seguem
pela pista o inimigo. Em taes occasiões é que o menor erro, a menor
hesitação, um passo só que seja, dado em falso, podem trazer por
consequencia a morte. Em taes recontros levam por vezes os yankees de
companhia os seus cães, e perseguem-se assim durante horas inteiras,
desempenhando a um tempo os papeis de caça e caçador.
«Que diabo de gente são estes americanos! exclamou Miguel Ardan, depois
que o companheiro acabou de lhe descrever com extrema energia todas
aquellas scenas.
--Somos assim tal qual, respondeu com modestia J.-T. Maston; mas vamos
apressando o passo.»
Entretanto por mais que Maston e Ardan corressem através da planicie,
ainda humida do orvalho da noite, passando arrozaes e ribeiros, tomando
sempre pelo caminho mais curto, não lograram chegar ao bosque de
Skersnow, antes das cinco horas e meia. Barbicane já havia boa meia hora
que devia ter-lhe passado a orla.
Trabalhava ali um velho _bushman_, cuja occupação era desfazer em
cavacos as arvores que derrubava com o machado.
Maston correu para elle a gritar:
«Vistes entrar na mata um homem armado de _rifle_, Barbicane, o
presidente... o meu melhor amigo?...»
O digno secretario do Gun-Club pensava ingenuamente que o seu presidente
havia por força de ser conhecido do mundo inteiro. Mas o _bushman_ não
deu mostras de o comprehender.
«Um caçador, disse então Ardan.
--Um caçador, sim vi, respondeu o _bushman_.
--E ha muito?
--Ha de haver uma hora.
--Já é tarde! clamou Maston.
--E ouvistes tiros de espingarda? perguntou Miguel Ardan.
--Nada.
--Nem um só?
--Nem um. Não me parece que o tal caçador tenha feito lá muito grande
caçada!
--Que se ha de fazer? disse Maston.
--É entrar na mata, mesmo correndo risco de apanhar algum balasio, que
não nos fosse destinado.
--Ah! exclamou Maston com accentuação, de cuja franqueza não era
permittido duvidar-se, antes eu queria apanhar dez balas na minha
propria cabeça, de que acertasse uma só na de Barbicane.
--Então ávante!» replicou Ardan, apertando a mão do companheiro.
Segundos depois desappareciam os dois amigos na espessura da mata, que
era formada de cyprestes-gigantes, sycomoros, tulipeiras, oliveiras,
tamarindos, carvalheiras e magnolias. Entrelaçavam-se as ramadas
d'aquellas differentes arvores, em tão emmaranhada confusão, que não
consentiam que a vista alcançasse muito ao longe. Miguel Ardan e Maston
caminhavam um junto do outro, passando em silencio por entre as hervas
altas, abrindo caminho por entre agudas silvas e vigorosas trepadeiras,
inquirindo com o olhar as moitas ou as ramadas perdidas por entre a
sombria espessura da folhagem, e esperando a cada instante ouvir a
temivel detonação dos _rifles_.
Rasto de Barbicane, na sua passagem através do bosque, é que não
logravam reconhecer. Caminhavam ás cegas por aquellas veredas apenas
pisadas, em que qualquer indio teria seguido passo por passo a marcha do
adversario.
Passada uma hora em pesquizas inuteis, fizeram alto os dois
companheiros. Redobrára-lhes a inquietação de espirito.
«É porque está tudo acabado, disse Maston desanimado. Barbicane não era
homem que jogasse astucias com o inimigo, nem que lhe armasse laços ou
usasse de manobras! É franco e corajoso de mais para isso. Caminhou em
frente, direito ao perigo, e por certo a tal distancia do _bushman_ que
o vento levou, sem que este a ouvisse, a detonação das armas de fogo!
--Mas nós! respondeu Miguel Ardan. Desde que entrámos no bosque não
haviamos de ter ouvido alguma cousa!
--E se chegámos tarde! exclamou Maston com intonação de desespero.