--Miguel Ardan como não tinha replica que dar-lhe proseguiu com Maston

na marcha interrompida.

De tempos a tempos davam grandes gritos: chamavam ora por Barbicane, ora

por Nicholl; mas nenhum dos dois adversarios respondia ás vozes d'elles.

Apenas alegres bandos de aves, despertadas pelo ruido, desappareciam por

entre as ramadas, ou algum gamo assustado fugia precipitado através da

mata.

Por mais uma hora ainda se prolongaram as pesquizas. Já fôra explorada a

maior parte da mata, e nada que revelasse a presença dos combatentes.

Era caso para pôr em duvida as asserções do _bushman_, e Ardan pensava

já em desistir de continuar por mais tempo uma busca inutil, quando, de

subito, Maston estacou.

--Chit! murmurou elle. Está acolá alguem!

--Alguem? respondeu Miguel Ardan.

--Sim! um homem! Parece estar immovel. Já não tem o _rifle_ nas mãos.

Que estará fazendo?

--Mas reconheces-lo? perguntou Ardan, a quem, myope como era, de pouco

servia a vista em tal conjunctura.

--Sim! sim! Lá se volta, respondeu Maston.

--E é?

--O capitão Nicholl!

--Nicholl! clamou Miguel Ardan, que sentiu apertar-se-lhe violentamente

o coração.

«Nicholl sem arma! Seria por nada ter já que receiar do adversario?

«Vamos ter com elle, disse Miguel Ardan; ficaremos desenganados.»

Mas apenas teriam caminhado uns cincoenta passos, elle e o companheiro

estacaram, para mais attentamente examinarem o capitão. Cuidavam

encontrar um homem sequioso de sangue, todo entregue a pensamentos de

vingança!

Ao verem-no pararam estupefactos. Distendia-se entre dois tulipeiros

gigantescos uma rede de apertada malha; mesmo no centro da teia,

debatia-se uma avesinha presa pelas azas, soltando lastimosos gritos. O

passarinheiro que assim dispozera a inextricavel rede não fôra um ser

humano, senão uma peçonhenta aranha, peculiar d'aquellas regiões, de

volume igual ao de um ovo de pomba e dotada de pernas enormes. Mas o

horrendo animalejo, no momento em que ía arrojar-se sobre a presa,

tivera de retirar, buscando asylo nas altas ramadas do tulipeiro, porque

por sua vez fôra ameaçado por temivel inimigo.

Effectivamente, Nicholl largára a espingarda e esquecido dos perigos da

situação, tratava de desembaraçar com extremos de delicadeza a victima

enlaçada nas redes da monstruosa aranha. E quando concluiu a obra, deu a

liberdade á pequena avesinha, que bateu alegremente as azas e

desappareceu.

Ainda Nicholl contemplava enternecido a avesinha que fugia de ramo em

ramo, quando ouviu as seguintes palavras ditas em tom de commoção:

«Isto é que é homem valente e de alma bem formada!»

Voltou-se, e encarou com Miguel Ardan, que repetia em todas as

intonações:

«É homem que merece ter amigos!»

--Miguel Ardan! exclamou o capitão. Que vindes fazer aqui, senhor?

--Apertar-vos a mão, Nicholl, e impedir que mateis Barbicane, ou que

sejaes morto por elle.

--Barbicane! exclamou o capitão, Barbicane, que eu procuro ha duas horas

sem lograr encontra-lo! Onde estará elle escondido?

--Nicholl, disse Miguel Ardan, isso é falta de cortezia! deve sempre

prestar-se respeito ao adversario; descansae, que se Barbicane é vivo

havemos de encontra-lo, e com tanta maior facilidade que, se é que não

passou o tempo como vós, entretido em soccorrer alguma avesinha

opprimida, deve andar em vossa procura. Mas quando dermos com elle, sou

eu, Miguel Ardan quem vo-lo diz, não é de duellos que se ha de tratar.

--Entre mim e o presidente Barbicane, respondeu com gravidade Nicholl,

ha rivalidades de tal ordem, que só a morte de um dos dois...

--Ora vamos, vamos, replicou Miguel Ardan, homens valentes e almas bem

formadas como vós outros, é possivel que se detestem, mas por certo

tambem se estimam. Não haveis de bater-vos.

--Hei-de bater-me, senhor!

--Isso é que não.

--Capitão, disse então J.-T. Maston com generoso animo, sou amigo do

presidente, o seu _alter ego_, outro elle; se desejaes absolutamente

matar alguem, disparae sobre mim, que é exactamente o mesmo.

--Senhor, disse Nicholl apertando com mão convulsa o _rifle_, essas

zombarias...

--O amigo Maston não está zombando, respondeu Miguel Ardan, e eu cá por

mim comprehendo perfeitamente a sua idéa de se fazer matar em vez do

homem de quem é amigo! Mas nem elle nem Barbicane hão de cair aos tiros

do capitão Nicholl, porque tenho a fazer aos dois rivaes uma proposta

por tal fórma seductora, que por certo hão de acceita-la com

enthusiasmo.

--Que proposta é então essa? perguntou Nicholl com visivel

incredulidade.

--Haja paciencia, respondeu Ardan, não posso fazer a communicação senão

na presença de Barbicane.

--Pois vamos por elle, exclamou o capitão.

No mesmo instante pozeram-se os tres a caminho; o capitão desarmou o

_rifle_, po-l'o ao hombro, e caminhou com passo soffreado, sem dizer

palavra.

Por espaço de meia hora ainda, foram inuteis todas as pesquizas. Maston

sentia-se dominado por sinistro presentimento, e observava Nicholl com

severidade, perguntando a si proprio se não estaria já satisfeita a

vingança do capitão, e Barbicane jazendo ferido de bala ao pé de alguma

moita ensanguentada. Miguel Ardan parecia dominado pelas mesmas idéas, e

ambos inquiriam com os olhos o capitão Nicholl, quando Maston estacou de

subito.

Encostado ao tronco de uma catalpa gigantesca via-se a uns vinte passos

o busto immovel de um homem com o corpo meio occulto por entre as

hervas.

«É elle!» murmurou Maston.

Barbicane nem se movia. Ardan olhou fito para os olhos do capitão, mas

este não trepidou. Ardan deu alguns passos, gritando:

«Barbicane! Barbicane!»

Nada de resposta.

Ardan encaminhou-se precipitado para o amigo, mas no momento em que ía

agarra-lo pelo braço, estacou de repente, soltando uma exclamação de

surpreza.

Barbicane, de lapis em punho, escrevia fórmulas e traçava figuras

geometricas n'uma carteira. A espingarda, essa jazia desarmada no chão.

O homem de sciencia, absorto pelo trabalho, esquecendo por sua parte

duello e vingança, nada víra nem ouvíra. Mas quando Miguel Ardan lhe poz

a mão nas d'elle, levantou-se e olhou com ar de espanto.

--Ah! exclamou por fim, tu aqui! Encontrei, amigo! encontrei!

--O que?

--Os meios!

--Mas que meios?

--Meios de annullar o effeito da repercussão do tiro á partida do

projectil!

--Realmente? disse Miguel Ardan, olhando de soslaio para o capitão.

--É verdade! agua, agua pura servirá de almofada.

Ah! Maston! exclamou Barbicane, tambem vós!

--Em propria pessoa, respondeu Miguel Ardan, e dá-me licença que te

apresente tambem por esta occasião o estimavel capitão Nicholl!

--Nicholl! exclamou Barbicane, levantando-se de subito. Perdão, capitão,

tinha-me esquecido... mas estou prompto...»

Miguel Ardan metteu-se de permeio sem dar tempo aos dois inimigos para

que se interpellassem.

«Por vida minha! disse Ardan, que foi uma verdadeira felicidade que dois

homens de alma generosa e elevada como vós dois se não tivessem

encontrado mais cedo! Tinhamos agora que estar chorando um dos dois! Mas

graças a Deus, que se metteu no negocio, já nada ha que receiar. Quando

dois homens esquecem os seus odios para se entregarem á resolução de

problemas de mechanica ou fazer partidas ás aranhas, é porque taes odios

não são perigosos para ninguem.»

E Miguel Ardan narrou ao presidente a aventura do capitão.

--«Ora perguntarei eu agora, disse Miguel em conclusão, se duas boas

pessoas como vós outros foram feitas para se esmigalharem reciprocamente

a cabeça a tiros de carabina?»

Havia n'aquella situação, um tanto ridicula, alguma cousa de tão

inesperado, que Barbicane e Nicholl não sabiam como comportar-se um em

relação ao outro. Miguel, que bem o percebeu, resolveu precipitar a

reconciliação.

«Estimaveis amigos, disse deixando apontar aos labios o mais agradavel

dos sorrisos, nunca houve entre vós dois senão equivocos. Nada mais.

Pois bem! para dar prova de que todas as contendas estão terminadas, e

visto como sois homens que não temem arriscar a pelle, acceitae sem

hesitar a proposta que vou fazer-vos.

--O amigo Barbicane pensa que o seu projectil ha de ir direitinho á Lua?

--Certamente que sim, replicou o presidente.

--E o amigo Nicholl está persuadido que o projectil ha de caír na Terra.

--Estou seguro d'isso, exclamou o capitão.

--Muito bem! proseguiu Miguel Ardan. Eu é que não tenho pretensões a

pôr-vos de accordo, mas sómente vos direi mui lhana e simplesmente:

Vinde commigo, para vermos assim se ficâmos ou não a meio caminho.

--Hum!» exclamou J.-T. Maston estupefacto.

Ao ouvirem tão inesperada proposta, os dois rivaes levantaram os olhos

um para o outro. Observavam-se attentamente. Barbicane aguardava a

resposta do capitão. Nicholl estava á espreita da primeira palavra do

presidente.

«Então? disse Miguel Ardan com intonação das mais convidativas. Visto

nada haver que receiar da repercussão!...

--Acceito! exclamou Barbicane.

Mas, por depressa que esta palavra fosse pronunciada pelo presidente,

tambem Nicholl a concluira ao mesmo tempo.

--Hurrah! bravo! viva! hip! hip! hip! clamou Miguel Ardan estendendo as

mãos aos dois adversarios. E agora que a pendencia está pacificamente

terminada, meus amigos, consintam-me que os trate á franceza. Vamos

almoçar.»

CAPITULO XXII

O NOVO CIDADÃO DOS ESTADOS UNIDOS

N'aquelle mesmo dia toda a America foi informada a um tempo do desafio

de Barbicane com o capitão Nicholl, e da aventura singular que lhe

puzera termo. O papel que desempenhára n'aquelle recontro o cavalheiroso

europeu, a proposta inesperada que viera cortar todas as dificuldades, a

acceitação simultanea dos dois rivaes, aquella conquista do continente

lunar, para emprehender a qual íam marchando de accordo França e Estados

Unidos, tudo se reuniu para ainda mais augmentar a popularidade de

Miguel Ardan.

É sabido qual o phrenesi com que os yankees se apaixonam por qualquer

individualidade. Imagine-se qual seria a paixão desencadeada em favor do

audacioso francez, n'aquelle paiz onde até os mais graves magistrados

não duvidam puxar á carruagem de qualquer dansarina para a levarem em

triumpho. Se não desatrelaram os cavallos de Ardan, foi provavelmente

porque elle os não tinha, que no demais foram-lhe prodigalisadas todas

as provas imaginaveis de enthusiasmo. Não houve um só cidadão que senão

unisse a elle de alma e coração. _Ex pluribus unum_, que é a divisa dos

Estados Unidos.

A partir d'aquelle dia, não teve Miguel Ardan um só momento de socego.

Vinham procura-lo deputações de todos os cantos da União, que o

attribulavam e que não promettiam ter fim, nem tregua. E o mais é que

tinha que as receber, com vontade ou sem ella. Quantos apertos de mão

deu, a quanta gente tratou por tu, é cousa que nem póde calcular-se.

Dentro em pouco tempo estava exhausto de forças, a voz já mal lhe saía

dos labios em sons inintelligiveis, rouca dos innumeraveis _speechs_; ía

arranjando uma gastro-enterite de tanto _toast_ que se viu obrigado a

fazer a todos os condados da União. Um triumpho tal teria subido á

cabeça a outro qualquer logo no primeiro dia, mas Ardan teve artes de

nunca passar de uma espirituosa e encantadora semi-ebriedade.

Entre as deputações de todos os generos que por aquella occasião o

assaltaram, não soube esquecer quanto devia ao futuro conquistador da

Lua, a dos «lunaticos». Certo dia, alguns d'estes pobres diabos,

abundantes na America, vieram ter com elle e pedir-lhe que os levasse

comsigo para o paiz natal. Alguns houve que affirmaram saber fallar a

«lingua selenita» e que até a quizeram ensinar a Miguel Ardan.

Prestou-se este de bom grado a tão innocente mania, e até se encarregou

de recados e encommendas para os amigos que os pobres diabos diziam ter

na Lua.

«Singular loucura, disse Ardan a Barbicane, depois que os despediu, e

loucura que ataca as mais das vezes as intelligencias mais agudas.

Dizia-me Arago, um dos nossos mais illustres homens de sciencia, que

muitas pessoas, aliás extremamente sensatas e cautelosas nas suas

concepções, se deixam arrastar a grande exaltação e a incriveis

singularidades, todas as vezes que se occupam da Lua. E tu não dás

credito á influencia da Lua sobre as doenças?

[Figura: Parti commigo para vermos (pag. 197).]

--Pouco, respondeu o presidente do Gun-Club.

[Figura: O gato tirado da bomba (pag. 206).]

--Tambem eu não; apesar de que a historia tem registrado factos que,

pelo menos, são para causar admiração. Assim em 1693, durante certa

epidemia, morreu muita mais gente no dia 21 de janeiro, por occasião de

um eclipse. O celebre Bacon desmaiava nas occasiões de eclipse da Lua, e

só voltava a si depois da completa emersão do astro. O rei Carlos VI

recaíu por seis vezes em demencia, no decurso do anno de 1399, e sempre

em occasião de Lua nova ou de Lua cheia. Affirmam alguns medicos que a

epilepsia deve classificar-se entre as doenças que acompanham as phases

da Lua. As molestias nervosas tambem por vezes parecem depender da

influencia lunar. Conta Mead que havia no seu tempo um menino que

entrava em convulsões logo que a Lua entrava em opposição. Gall notou

que a exaltação das pessoas debeis cresce duas vezes em cada mez, uma no

_novi-lunio_, outra no _pleni-lunio_. Finalmente, ha mais de um milheiro

de observações d'este genero, em respeito a vertigens, febres malignas e

ataques de somnambulismo, que todos tendem a provar que o astro das

noites gosa de mysteriosa influencia sobre o curso das doenças

terrestres.

--Mas como? porque? perguntou Barbicane.

--Porque? respondeu Ardan. Á fé que te hei de dar a mesma resposta que

Arago repetia dezenove seculos depois de Plutarco: «Talvez seja

exactamente por não ser verdade!»

No meio do seu triumpho, não logrou Miguel Ardan escapar-se a nenhuma

das massadas inherentes ao estado de homem celebre. Os especuladores de

vogas e celebridades de occasião tentaram pô-lo em exhibição. Barnum

chegou a offerecer-lhe um milhão para adquirir o direito de o

transportar de cidade em cidade, em todos os Estados Unidos, e mostra-lo

qual animal raro. A resposta de Miguel Ardan foi alcunha-lo de _cornac_,

e manda-lo a elle Barnum... passeiar.

Todavia, recusando-se aliás a satisfazer por tal fórma a curiosidade

publica, deixou Ardan pelo menos que seus retratos corressem pelo mundo

inteiro e occupassem logar de honra em todos os albums; d'elles se

tiraram provas de todas as dimensões, desde as de tamanho natural até as

da grandeza microscopica da estampilha do correio. Estava ao alcance de

toda a gente possuir a imagem do heroe, em qualquer das posições

imaginaveis; cabeça só, meio corpo, corpo inteiro, de frente, de perfil,

de tres quartos e até de costas. Tirou-se mais de milhão e meio de

exemplares. A occasião era bem boa para se desfazer em reliquias, mas

Ardan é que a não soube aproveitar. Só a vender os cabellos a dollar

cada um, podia fazer uma fortuna, e mais já não eram muitos!

A popularidade, querendo fallar com inteira franqueza, não lhe era

desagradavel. Pelo contrario, Ardan punha-se á disposição do publico, e

correspondia-se com o universo inteiro. Por toda a parte se contavam,

repetiam e propalavam os ditos conceituosos d'elle, muito principalmente

os que elle nem tinha proferido. Como é uso, por isso mesmo que n'essa

parte lhe sobrava a riqueza, é que mais lhe queriam dar ou emprestar. E

não sómente soube tornar propicios os homens, senão tambem as mulheres.

Bastaria que lhe tivesse passado pela cabeça a phantasia de «entrar no

rol dos homens serios», para ter arranjado um numero infinito de «bellos

casamentos». Principalmente as velhas _misses_, d'estas que ha bons

quarenta annos se mirravam por não casar, todas devaneiavam dia e noite

diante das photographias d'elle.

Certo é que teria achado companheiras aos centos, aindaque lhes

impuzesse como condição acompanharem-n'o na aerea viagem; que as

mulheres quando lhes não dá para de tudo terem medo, são verdadeiramente

intrepidas. Porém, como Ardan não tinha intento de fazer estirpe no

continente lunar, nem de para lá transportar raça atravessada de francez

e americano, recusou-se formalmente a todos os enlaces.

«Ir eu lá para cima, dizia elle, fazer o papel de Adão com uma filha de

Eva, obrigado! E se lá encontrasse serpentes!...»

Ardan, logoque alfim logrou subtrahir-se ás alegrias exageradamente

repetidas do triumpho, foi com os amigos fazer uma visita á Columbiada,

que bem lh'o merecia. De mais a mais, depois que Ardan vivia em contacto

com Barbicane, J.-T. Maston e _tutti quanti_ tinha-se tornado muito

sabedor em questões de balistica. O seu maior prazer consistia então em

repetir aos estimaveis artilheiros, que não eram elles mais do que

amaveis e sabios assassinos. Ácerca de tal assumpto nunca se lhe

esgotava a musa epigrammatica. No dia em que visitou a Columbiada,

admirou-a com enthusiasmo e desceu até ao fundo da alma do gigantesco

morteiro, que em breve havia de arremessa-lo para o astro das noites.

«Este canhão ao menos, disse, não ha de fazer mal a ninguem; o que da

parte de um canhão já não é pouco para admirar. Mas não me venham cá

fallar d'esses machinismos que destroem, que incendeiam, que despedaçam,

que matam, e ainda menos dizer-me que têem «alma», que lá isso é que eu

nunca hei de acreditar!»

Vem a pêllo narrar n'este logar um caso que diz respeito a J.-T. Maston.

Quando o secretario do Gun-Club ouviu que Nicholl e Barbicane acceitavam

a proposta de Miguel Ardan, resolveu lá no intimo juntar-se com elles, e

fazer assim «uma parceirada de quatro»; um bello dia pediu para entrar

na viajata. Barbicane, sentindo immenso ter que lhe responder com uma

recusa, fez-lhe ver que o projectil não tinha lotação para tanto

passageiro. J.-T. Maston, desesperado, foi ter com Miguel Ardan, que o

convidou a resignar-se, fazendo até valer certos argumentos _ad

hominem_.

«Ora pensa bem, meu velho Maston, e não vás tomar as minhas palavras em

mau sentido; mas aqui para nós, a verdade é que estás muito incompleto

para te apresentar assim na Lua!

--Incompleto! exclamou o velho invalido.

--Sim! meu estimavel amigo! Ora põe-te no caso de encontrarmos

habitantes lá em cima. Quererias tu dar-lhes tão triste idéa do que se

passa cá por baixo, patentear-lhe o que é a guerra, demonstrar-lhes que

empregâmos por cá o melhor do nosso tempo a devorar-nos, a comer-nos, a

quebrar-nos reciprocamente pernas e braços, e isto n'um globo que

poderia alimentar cem mil milhões de habitantes, e que apenas tem mil e

duzentos milhões d'elles? Ora vamos, meu digno amigo, isso era até caso

de nos pôrem de lá fóra, por tua causa!

--Mas se vós lá chegardes feitos em pedaços, replicou J.-T. Maston,

estareis tão incompletos como eu!

--De certo, respondeu Miguel Ardan, mas a verdade é que não havemos de

chegar lá feitos em pedaços!»

Effectivamente, uma experiencia preparatoria, que se tentou a 18 de

outubro, dera optimo resultado e fizera conceber as mais fundadas

esperanças. Barbicane, que desejava conhecer exactamente o effeito da

repercussão do tiro no momento da partida do projectil, fez trazer do

arsenal de Pensacola um morteiro de trinta e duas pollegadas (0,75

centimetros), que installaram na praia do molhe de Hillisboro, para que

a bomba viesse a cair no mar e o choque da quéda fosse amortecido pela

agua, visto tratar-se sómente de experimentar ácerca do abalo á partida

e não do choque á chegada.

Foi preparado com os maiores cuidados para a realisação d'esta curiosa

experiencia um projectil ôco. Estofava-lhe as paredes internas um

expesso acolchoado assente em cima de uma rede de molas de aço da mais

fina tempera. Era um verdadeiro ninho cuidadosamente almofadado.

«Que pena não caber eu lá dentro!» dizia J.-T. Maston, lamentando que o

proprio volume lhe não consentisse tentar a aventura. N'aquella

encantadora bomba, que fechava por meio de uma tampa de rosca,

introduziram primeiro um gato, depois um esquilo pertencente a J.-T.

Maston, e a que o secretario do Gun-Club tinha particular affeição. Mas

havia desejos de saber como é que aquelle animalsinho, pouco sujeito a

vertigens, supportaria a viagem de experiencia.

Carregou-se o morteiro com cento e sessenta libras de polvora, e

collocada a bomba na peça, fez-se fogo. No mesmo instante elevou-se

rapidamente o projectil, descreveu magestosamente a sua parabola, chegou

á maxima altura de approximadamente mil pés e foi-se abysmar por entre

as vagas, descendo por graciosa curva.

Dirigiu-se sem perda de tempo uma embarcação para o logar onde caira a

bomba, precipitaram-se habeis mergulhadores debaixo de agua e amarraram

cabos ás auriculas da bomba que de prompto foi içada a bordo. Nem cinco

minutos tinham decorrido entre o momento em que os animaes tinham sido

encerrados na bomba e aquelle em que se lhes desatarraxou a tampa da

prisão.

Ardan, Barbicane, Maston e Nicholl estavam na embarcação e assistiram á

operação com um sentimento de interesse facil de conceber. Apenas se

abriu a bomba, saltou fóra o gato um tanto machucado é verdade, mas

cheio de vida, e sem ares de quem regressava de tal expedição. Mas a

respeito de esquilo é que nada. Procurou-se. Nem rasto. A final não

houve mais remedio de que reconhecer a verdade. O gato tinha comido o

companheiro de viagem.

J.-T. Maston ficou extremamente contristado com a perda do pobre

esquilo, e assentou que devia inscrever-lhe o nome no martyrologio da

sciencia.

Caso é que depois d'aquella experiencia desappareceram todas as

hesitações e todos os temores. Demais, os planos de Barbicane ainda

haviam de aperfeiçoar o projectil e annullar quasi completamente os

effeitos da repercussão. Portanto nada mais restava a fazer, senão

partir.

Dois dias depois Miguel Ardan recebeu uma mensagem do presidente da

União, honra a que se mostrou notavelmente sensivel.

O governo, tomando exemplo do que se praticára para com o cavalheiroso

marquez de La Fayette, compatriota de Ardan, conferira a este o titulo

de cidadão dos Estados Unidos da America.

CAPITULO XXIII

O WAGON-PROJECTIL

Depois que ficára concluida a celebre Columbiada, volvêra-se

immediatamente a attenção publica para o projectil, novo vehiculo

destinado a conduzir através do espaço os tres ousados aventureiros. A

ninguem esquecêra, que Miguel Ardan tinha pedido, no telegramma de 30 de

setembro, que se modificassem os planos combinados pelos membros da

commissão.

Pensava então o presidente Barbicane, e com justa rasão, que era de

pouca importancia a fórma do projectil, porque depois de atravessar a

atmosphera em poucos segundos, havia de realisar o resto do percurso no

vasio absoluto.

Adoptára por consequencia, a commissão a fórma espherica, para que a

bala podesse girar sobre si propria e comportar-se como lhe acudisse á

phantasia. Mas logoque a transformavam em vehiculo, o caso era outro.

Miguel Ardan nenhum prazer tinha por certo em fazer viagem á maneira de

esquilo; desejava subir, sim, mas de cabeça para cima e de pés para

baixo, com tanta dignidade e compostura como se viajára na barquinha de

qualquer balão; seguramente com maior rapidez, mas sem se ver obrigado a

fazer uma serie de cambalhotas menos decorosas.

[Figura: Chegada do projectil a Stone's-Hill (pag. 210).]

Mandaram-se portanto novos planos á casa Breadwill e C.^a de Albany, e

com expressa recommendação de os pôr sem demora em execução.

[Figura: J.-T. Maston tinha engordado! (pag. 217).]

O projectil fundiu-se, com as modificações apontadas, a 2 de novembro, e

foi expedido immediatamente para Stone's-Hill pela via ferrea de leste.

A 10, chegou sem accidente ao logar a que era destinado. Miguel Ardan,

Barbicane e Nicholl esperavam com a maior impaciencia «o

wagon-projectil» em que haviam de tomar passagem para voarem á

descoberta de um mundo novo.

O projectil, força é confessá-lo, era uma peça de metal magnifica, um

producto metallurgico que dava honra ao engenho industrial dos

americanos. Pela vez primeira fôra o aluminium obtido em massa tão

consideravel, e esse resultado só por si merecia com justiça ser

considerado como um prodigio.

Da terra à lua, viagem directa em 97 horas e 20 minutos · 第 11 / 15 段