estrepitoso. Nem era para admirar que assim succedesse a quem trazia já
enrouquecidos de servi-lo e apregoar-lhe o nome as cem vozes da fama, a
quem vivia como que dentro de uma casa de vidro, e tomava por confidente
dos seus mais intimos segredos o universo inteiro. Por estas mesmas
rasões tambem Ardan possuia uma admiravel collecção de inimigos, de
entre aquelles que elle, acotovelando para abrir caminho por entre a
multidão, mais ou menos maguára, ferira ou derrubára sem dó nem piedade.
E no entretanto era geralmente bemquisto e até tratado com excessivo
mimo. Era d'aquelles homens a quem póde applicar-se a expressão popular
«é pegar ou largar», e o caso é que todos lhe pegavam, todos tomavam
interesse nos arrojados commettimentos d'elle, e lhe seguiam com
inquietação as peripecias porque já era de todos conhecida a imprudente
audacia que o caracterisava. A algum amigo, que no intuito de lhe
suspender os designios, vinha prophetisar-lhe catastrophe imminente,
respondia sempre Ardan com amavel sorriso: «Da lenha das proprias
arvores nasce e lavra o incendio da floresta». Quem lhe diria a elle que
citava então o mais bonito de todos os proverbios arabes!
Tal era o passageiro do _Atlanta_, sempre em agitação, sempre a ferver,
sempre debaixo da acção de um fogo interior, sempre commovido, não pelo
que vinha fazer á America, que nem em tal cogitava, mas por virtude da
ardente organisação de que era dotado.
Nunca houve duas personalidades que apresentassem contraste mais
saliente que o francez Miguel Ardan e o yankee Barbicane; todavia ambos,
cada um lá a seu modo, eram emprehendedores, atrevidos e audaciosos.
Em breve foi interrompida pelos hurrahs e vivas da multidão a
contemplação a que se entregára o presidente do Gun-Club em presença do
rival que viera desterra-lo da posição principal para o segundo logar. E
tão phrenetica se tornou a gritaria, tornaram-se por tal fórma pessoaes
as manifestações do enthusiasmo, que Miguel Ardan, depois de ter
apertado um milheiro de mãos, em que ia deixando os dez dedos das
d'elle, teve que se refugiar no camarim.
Barbicane seguiu-o sem lhe ter dito nem palavra.
«Sois Barbicane? perguntou Miguel Ardan logoque se acharam a sós, e com
a intonação de quem fallava a um amigo de vinte annos.
--Sou, respondeu o presidente do Gun-Club.
--Pois então muito bons dias, Barbicane. Como vae isso? Excellentemente?
Ora vamos; bom é que assim seja: tanto melhor!
--Com que, disse Barbicane, sem buscar melhor entrada em materia, sempre
estaes decidido a partir?
--Absolutamente decidido.
--E nada poderá impedir-vo-lo?
--Cousa alguma. E os planos do projectil mandaste-los modificar em
harmonia com as indicações do meu telegramma?
--Estava á espera da vossa chegada. Mas, perguntou Barbicane, insistindo
novamente, reflectistes bem?...
--Reflectir! E que tempo tenho eu para o estar a perder!? Apanho
occasião de ir dar um passeio até á Lua, e aproveito-a, nada mais. Nem
me parece que seja cousa que mereça maiores reflexões.»
Barbicane devorava com o olhar aquelle homem que fallava de tal projecto
de viagem com tanta leviandade, tão completo socego e tão perfeita
ausencia de cuidados.
--«Mas pelo menos, disse, haveis de ter plano formado, meios de
execução.
--Excellentes, meu caro Barbicane. Mas dae-me licença que faça uma só
observação: o que eu gostava era de contar a minha historia toda de uma
vez só e a toda a gente, e não tratar mais do assumpto. Evitam-se assim
as repetições. Consequentemente, salvo melhor conselho, convocae os
vossos amigos, vossos collegas, toda a cidade, a Florida inteira, a
America em peso, se vos parecer, e ámanhã estou prompto para expor os
meus meios como para responder a todas as objecções, sejam lá quaes
forem. Descansae que hei de espera-las a pé firme. Convem-vos isto?
«Convem-me», respondeu Barbicane.
Accordado isto, saiu o presidente do camarim e veiu communicar á
multidão a proposta de Miguel Ardan.
Receberam-lhe as palavras com pateadas e grunhidos de alegria. A cousa
assim feita obviava a todas as difficuldades. No dia seguinte todos
poderiam contemplar á vontade o heroe europeu. Entretanto um ou outro
espectador houve mais cabeçudo que não quiz largar o tombadilho do
_Atlanta_, e passou a noite a bordo. Entre outros, J.-T. Maston, que
tinha atarraxado a ganchorra no parapeito do castello de pôpa; nem um
cabrestante de lá poderia arranca-lo!
«É um heroe! um heroe! berrava elle em todas as intonações, nós é que
somos umas fracas mulheres, em comparação com esse europeu!»
O presidente, esse depois de convidar a retirarem-se todos os
visitantes, volveu ao camarim do passageiro e não mais o largou até ao
momento em que a sineta de bordo tocou o quarto da meia noite. Mas
n'essa occasião, já os dois rivaes em popularidade se apertavam
reciproca e calorosamente as mãos, e Miguel Ardan já tratava por tu ao
presidente Barbicane.
CAPITULO XIX
UM MEETING
No dia seguinte levantou-se o «astro do dia» um tanto tarde para
corresponder á impaciencia publica. Para desempenhar o papel de Sol na
illuminação de similhante festa, acharam-n'o um tanto preguiçoso. Por
vontade de Barbicane, que se arreceiava de perguntas indiscretas para
Miguel Ardan, teria o auditorio sido reduzido a um pequeno numero de
adeptos, os collegas, por exemplo. Mas isso!.. era mais facil pôr um
dique á corrente do Niagara. Por consequencia teve de renunciar ao que
projectára, e de consentir que o amigo de recente data corresse todos os
riscos de uma conferencia publica. Apesar das suas dimensões colossaes,
julgou-se ainda insufficiente para a realisação de tal ceremonia a nova
sala da Bolsa de Tampa-Town, porque a reunião projectada assumira
proporções de verdadeiro meeting.
O logar escolhido foi uma vasta planicie situada fóra da cidade, e em
poucas horas conseguiram abriga-la dos raios solares; todos os arranjos
necessarios para a construcção de uma barraca colossal foram ministrados
pelos navios surtos no porto, abundantes em velame, cordame, mastros e
vergas de sobresalente.
Dentro em pouco estendia-se por sobre a planicie calcinada, a defende-la
contra as ardencias do dia, um immenso céu de panno debaixo do qual
trezentas mil pessoas acharam abrigo para poderem aguentar impunemente
por espaço de muitas horas, emquanto esperavam pelo francez, uma
temperatura de abafar. De toda aquella turba de espectadores só á
primeira terça parte era dado ver e ouvir; a segunda mal via e nem
palavra ouvia; quanto á terceira, essa nada via, e ainda menos ouvia. E
nem por isso foi a menos prompta a prodigalisar applausos.
Ás tres horas, realisou-se a apparição de Miguel Ardan, em companhia dos
socios principaes do Gun-Club. Dava Miguel o braço direito ao presidente
Barbicane e o braço esquerdo a J.-T. Maston, mais radiante e quasi tão
rutilante como o Sol ao meio dia. Ardan subiu a um estrado, de cima do
qual se lhe estendia a vista por sobre aquelle oceano de chapéus.
Não se percebia n'elle o menor signal de acanhamento, nem de impostura;
estava ali como quem está em sua casa, alegre, familiar e amavel; depois
de responder com uma graciosa inclinação de cabeça aos hurrahs com que o
acolheram, e de reclamar com um gesto de mão silencio, tomou a palavra
em inglez, exprimindo-se, com extrema correcção de linguagem, nos
seguintes termos:
«Meus senhores, apesar do grande calor que faz, tomarei a liberdade de
abusar dos vossos momentos para dar algumas explicações ácerca de
projectos que, segundo parece, vos interessam.
«Não sou orador nem homem de sciencia, e não contava fallar em publico;
disse-me porém o meu amigo Barbicane que isso vos seria agradavel, e
tanto bastou para me decidir a esse sacrificio. Consequentemente,
escutae-me com os vossos seiscentos mil ouvidos, e tende a bondade de
desculpar os erros do auctor.»
Mereceu grande apreço aos circumstantes aquelle exordio sem ceremonia;
um immenso murmurio de satisfação deu prova do contentamento da
multidão.
«Meus senhores, proseguiu Ardan, todos e quaesquer signaes de approvação
ou desapprovação são permittidos. Isto posto, começarei Em primeiro
logar, não deveis esquecer que estaes tratando com um ignorante, e tão
longe vae sua ignorancia, que até as difficuldades ignora. Pareceu-lhe
portanto cousa simples, natural e facil tomar passagem dentro de um
projectil, e partir para a Lua. Era viagem que mais tarde ou mais cedo
se havia de vir a fazer, e pelo que diz respeito ao modo de locomoção
adoptado, esse não era mais do que simples consequencia da lei do
progresso. O homem começou por viajar com as mãos pelo chão, depois, um
bello dia, só nos dois pés, depois n'uma carroça, depois em caleça,
depois em carroção, depois em diligencia, depois em caminho de ferro;
pois bem! o projectil é a viatura do futuro; que, a fallar a verdade, os
planetas não são senão outros tantos projecteis, simples balas de canhão
arremessadas pela mão do Creador.
[Figura: Os comboios de projecteis para a Lua (pag. 163).]
«Mas voltemos ao nosso vehiculo. Algum de vós, senhores, poderá ter
pensado que a velocidade que tem de imprimir-se-lhe, é excessiva; pois
não é assim; todos os astros têem superior rapidez, e a propria Terra,
em seu movimento de translação em volta do Sol, nos leva comsigo com
triplicada velocidade. Vou apresentar-vos alguns exemplos, e pedirei
permissão para me exprimir contando por leguas, porque não estou muito
familiarisado com as medidas americanas e tenho receio de me embarulhar
nos calculos.»
[Figura: Ataque e replica (pag. 174).]
Ninguem oppoz difficuldades á concessão pedida, que pareceu
perfeitamente rasoavel, e o orador continuou o discurso:
«Eis-aqui, senhores, a velocidade dos differentes planetas. Apesar da
minha ignorancia, força é confessa-lo, conheço com muita exactidão estas
miudezas astronomicas. Mas em menos de dois minutos estareis a esse
respeito tão instruidos como eu. Sabei pois, que Neptuno anda cinco mil
leguas por hora; Urano, sete mil; Saturno, oito mil oitocentas e
cincoenta e oito; Jupiter, onze mil seiscentas e setenta e cinco; Marte,
vinte e duas mil e onze; a Terra, vinte e sete mil e quinhentas; Venus,
trinta e duas mil cento e noventa; Mercurio, cincoenta e duas mil
quinhentas e vinte; certos cometas, um milhão e quatrocentas mil leguas
no perihelio! Nós cá, verdadeiros passeiantes, gente de poucas posses,
não havemos de ir alem de nove mil novecentas leguas de velocidade, e
mais ha de esta ir sempre diminuindo. Perguntarei eu agora, se ha aqui
motivo para pasmar, e se todas estas velocidades não hão de ser um dia
excedidas por outras ainda maiores, de que provavelmente serão agentes
mechanicos a luz ou a electricidade?»
Ninguem pareceu pôr em duvida a asserção de Miguel Ardan.
«Caros auditores, proseguiu este, se formos a dar credito a uns certos
espiritos acanhados,--e é exactamente esta a qualificação que melhor
lhes cabe--está a humanidade encerrada n'um circulo de Popilius, que
alem do qual não póde dar passo, e condemnada a vegetar no globo
terraqueo sem esperança sequer de poder abrir vôo para os espaços
planetarios! Pois não é assim! Agora vamos á Lua, e ainda havemos de ir
aos planetas, ainda havemos de ir ás estrellas, como se vae hoje de
Liverpool a New-York, com facilidade, rapidez e segurança. Em breve
serão atravessados o oceano atmospherico, bem como os oceanos da Lua! A
distancia é apenas um termo de relação, e havemos de chegar a final a
reduzi-la a zero.»
A assembléa, apesar de muito enlevada pelo heroe francez, ficou um tanto
attonita com aquella theoria audaciosa. Miguel Ardan pareceu percebê-lo,
e proseguiu com amavel sorriso:
«Parece-me que não estaes lá muito convencidos, estimaveis hospedes.
Pois bem! Discutâmos um pouco. Sabeis quanto tempo seria necessario a um
comboio expresso para chegar á Lua? Trezentos dias. Nada mais. O
trajecto é de oitenta e seis mil quatrocentas e dez leguas, mas isso que
é? Não chega a ser nove vezes um circuito em volta da Terra; não ha
marinheiro ou viajante digno d'esse nome que não tenha andado mais do
que isso no decurso da vida! Pensae pois, que eu não hei de gastar mais
de noventa e sete horas no caminho! Ah! estaes imaginando que a Lua está
a grande distancia da Terra, e que não seria mau reflectir antes de
tentar a aventura! Que dirieis então se se tratasse de ir a Neptuno que
gravita a um milhão cento e quarenta e sete mil leguas do Sol! Isso é
que é viagem que poucos poderiam intentar, ainda que mais não custasse
que a cinco soldos por kilometro! Nem o barão de Rothschild com os seus
mil milhões tinha com que pagasse o logar; faltavam-lhe ainda cento e
quarenta e sete milhões para não ficar no caminho!»
Esta maneira de argumentar pareceu ser muito do agrado da assembléa.
Miguel Ardan, por sua parte, bem possuido como estava do assumpto,
deixava-se arrastar ao sabor da argumentação com soberbo enthusiasmo;
percebêra que era ouvido com avidez, e proseguiu portanto com admiravel
confiança: «Pois bem, amigos, ainda esta distancia de Neptuno ao Sol não
é nada, se a compararmos com a das estrellas; effectivamente para
avaliar o afastamento de taes astros é necessario lançar mão de uma
classe de numeros deslumbrantes, o menor dos quaes tem nove algarismos,
tomar emfim por unidade o milhar de milhões. Peço-vos perdão de me
mostrar tão sabido no assumpto, mas é por ser de um interesse
palpitante. Ouvi e julgae. Alpha do Centauro está a oito billiões de
leguas, Wega a cincoenta billiões, Sirius a cincoenta billiões, Arcturus
a cincoenta e dois billiões, a Polar a cento e dezesete billiões de
leguas, a Cabra a cento e setenta billiões, as outras estrellas a
milhares de billiões e de trilliões de leguas! E ainda haverá quem falle
na distancia que medeia entre o Sol e os planetas! E haverá ainda quem
sustente que existe tal distancia! Erro, falsidade! aberração dos
sentidos! Quereis saber o que eu penso ácerca d'esse mundo que começa no
astro radiante e acaba em Neptuno? Quereis conhecer a minha theoria? É
muito simples! Para mim o mundo solar é um corpo solido, homogeneo; os
planetas que o formam, apertam-se, tocam-se, adherem, e o espaço que
entre elles existe é como o espaço que medeia sempre entre as molleculas
do mais compacto metal, seja prata, seja ferro, oiro ou platina! Julgo
portanto ter direito para affirmar, e repito-o com convicção, que ha de
communicar-se a vós todos: «A distancia é uma palavra vã, a distancia
nem sequer existe!»
--Bem dito! Bravo! Hurrah! gritou _una voce_ a assembléa electrisada
pelo gesto, pela accentuação do orador e pelo ousado das concepções.
--Não, exclamou J.-T. Maston ainda mais energicamente que os outros, a
distancia não existe!»
E, arrastado pela violencia dos movimentos, pelo impulso do proprio
corpo que mal podia dominar, ía caíndo do alto do estrado no chão.
Conseguiu, todavia, retomar a posição de equilibrio, e livrar-se de uma
quéda que lhe havia de provar brutalmente que a distancia não era
palavra de todo vã. Em seguida proseguiu no seu discurso o attrahente
orador.
«Amigos, disse Miguel Ardan, cuido que tal problema deve já agora ter-se
como resolvido. Se não logrei convencer-vos a todos, foi de certo porque
fui timido nas demonstrações, fraco na argumentação, e a culpa é da
minha insufficiencia de estudos theoricos. Seja lá como for, repito, a
distancia da Terra ao seu satellite é realmente pouco importante e
indigna de preoccupar qualquer espirito grave. Creio que não será ir
muito alem da verdade affirmar que em breve se hão de vir a estabelecer
trens de projecteis, nos quaes poderá fazer-se com toda a commodidade a
viagem da Terra á Lua. N'estes é que não haverá que receiar, nem
choques, nem abalos, nem descarrilamentos, e chegar-se-ha ao termo da
viagem, sem cansaço em linha recta, «a vôo de abelha», para fallar na
linguagem dos caçadores cá da America. D'aqui a vinte annos, de certo já
metade da Terra tem ido visitar a Lua!
«Hurrah! hurrah! por Miguel Ardan, clamaram os circumstantes ainda os
menos convencidos.
--Hurrah por Barbicane!» respondeu modestamente o orador.
Aquelle acto de gratidão para com o promotor da empreza, foi recebido
pelos espectadores com applausos unanimes.
«Agora, amigos, proseguiu Miguel Ardan, se alguem tem qualquer pergunta
a fazer-me, por certo que embaraçará um pobre homem como eu, entretanto
farei todos os esforços para responder.»
Até aquelle momento não tivera o presidente do Gun-Club senão motivos de
satisfação pela direcção que a discussão tomava. Versando esta sobre
theorias especulativas, Miguel Ardan, levado pela sua viva imaginação,
mostrava-se extremamente brilhante. Por consequencia, o que a Barbicane
parecia necessario, era pôr impedimento a que se desviasse para questões
praticas, de que por certo Ardan se havia de saír menos airoso.
Barbicane apressou-se portanto a tomar a palavra, para perguntar ao
amigo de recente data qual era o seu modo de ver em respeito a
habitantes da Lua e dos planetas.
«É um grande problema esse que me propões para resolver, meu digno
presidente, respondeu o orador sorrindo; todavia, se me não engano,
homens de grande intelligencia, taes como Plutarco, Swedenborg,
Bernardin de Saint-Pierre e muitos outros pronunciaram-se pela
affirmativa. Olhando a questão pelo lado da philosophia natural, sou
levado a pensar em harmonia com a opinião d'elles; a mim proprio digo
que cousa alguma inutil existe no mundo, e respondendo á tua pergunta,
com outra pergunta, affirmarei que se os mundos são habitaveis, é porque
são habitados, porque o foram, ou porque ainda o hão de ser.
Muito bem! clamaram as primeiras linhas de espectadores, cuja opinião
tinha força de lei para com as ultimas.
--Com mais logica e a proposito é que não ha responder, disse o
presidente do Gun-Club. A minha pergunta transforma-se portanto na
seguinte: «Serão porventura os mundos habitaveis?»
--Pela minha parte parece-me que o são.
E eu cá por mim, estou seguro d'isso, respondeu Miguel Ardan.
--Todavia, replicou um dos circumstantes, argumentos ha que vão de
encontro á theoria da habitabilidade dos mundos. Para que estes podessem
ser habitaveis, era evidentemente necessario, que na maior parte
d'elles, fossem modificados os principios da vida. N'estes termos, e não
me referindo já senão a planetas, n'uns d'elles seria o homem queimado e
n'outros gelado, segundo a respectiva distancia solar.
--Sinto, respondeu Miguel Ardan, não conhecer pessoalmente o meu honrado
contradictor. A objecção que apresenta tem seu valor, mas creio que póde
ser combatida com bom exito, assim como todas as que se oppõe á
habitabilidade dos mundos. Se eu fôra um physico, havia de dizer-lhe
que, se ha menos calorico em movimento nos planetas proximos do sol, e
pelo contrario mais, nos planetas mais afastados, esse mesmo phenomeno é
bastante para equilibrar o calor e tornar a temperatura de todos os
mundos supportavel para seres organisados como nós outros. Se fôra
naturalista havia de repetir-lhe, depois de o terem dito muitos sabios
illustres, que a natureza mesmo cá na Terra nos fornece exemplos de
animaes que vivem em condições bem diversas de habitabilidade; que os
peixes respiram n'um ambiente que é mortal para os outros animaes; que
os amphibios têem uma existencia dupla bastante difficil de explicar;
que ha certos habitantes dos mares que se mantem nas camadas de grande
profundidade, onde aguentam, sem serem esmagados, pressões de cincoenta
ou sessenta atmospheras; que ha diversos insectos aquaticos insensiveis
á acção da temperatura, que se encontram tanto nas nascentes de agua a
ferver como nos plainos gelados do oceano polar; e finalmente que é
força reconhecer na natureza uma diversidade de meios de acção por vezes
incomprehensivel, mas que nem por isso é menos real, e que chega até á
omnipotencia. Se eu fôra chimico, havia de dizer-lhe que os aerolithos,
corpos evidentemente formados fóra do mundo terrestre, tem revelado pela
analyse vestigios indiscutiveis de carbonio, e que esta substancia só
tem origem nos seres organisados, e que, em virtude das experiencias de
Reichenbach, deve necessariamente ter estado «animalisada». Emfim, se
fôra theologo, dir-lhe-ía que, segundo S. Paulo, parece que a redempção
divina se applicára, não sómente á Terra, mas a todos os mundos
celestes. Mas não sou theologo, nem chimico, nem naturalista, nem
physico. E portanto, na minha perfeita ignorancia das grandes leis que
regem o universo, limitar-me-hei a responder:
--Não sei se os mundos são ou não habitados, e por isso mesmo que não
sei, vou lá ver!»
Se o adversario de Miguel se abalançou ou não a apresentar outros
argumentos é que nós não podemos dizer, porque os gritos freneticos da
multidão tornaram-se então capazes de impedir que qualquer opinião fosse
sequer ouvida. Logoque se restabeleceu o silencio, ainda nos mais
afastados grupos, o triumphante orador terminou, contentando-se em
acrescentar as seguintes considerações:
«Bem deveis pensar, estimaveis Yankees, que apenas toquei de leve tão
momentosa questão; eu não vim aqui para fazer um curso publico e
defender theses ácerca de tão vasto assumpto. Ha ainda uma collecção
completa de argumentos de natureza inteiramente differente a favor da
habitabilidade dos mundos. Pô-los-hei de parte. Dêem-me entretanto
licença que insista ácerca de um unico ponto. Áquelles que sustentam que
os planetas não são habitados, deve responder-se:--Póde ser que tenhaes
rasão, se é que está demonstrado que a Terra é o melhor dos mundos
possiveis; mas isso é que não é assim, apesar do que Voltaire disse a
tal respeito. A Terra tem um só satellite, emquanto Jupiter, Urano,
Saturno e Neptuno têem muitos ao seu serviço, vantagem que não é para
desdenhar. Mas o que, mais que tudo, torna o nosso globo pouco
_confortable_, é a inclinação do eixo sobre a orbita. D'esta vem a
desigualdade dos dias e das noites; d'esta a incommoda diversidade das
estações. No nosso desgraçado espheroide faz sempre frio ou calor
demasiado; gela-se por cá no inverno, e arde-se no estio; é o planeta
dos defluxos, dos coryzas e das constipações, emquanto na superficie de
Jupiter, por exemplo, cujo eixo tem pequena inclinação[87], os
habitantes, se é que existem, podem gosar temperaturas invariaveis; ali
ha uma zona das primaveras, uma zona dos estios, uma zona dos outonos e
uma zona de invernos perpetuos; cada habitante de Jupiter póde escolher
o clima que mais lhe convier, e pôr-se para toda a vida ao abrigo das
variações de temperatura. Haveis portanto de conceder-me sem
difficuldade a superioridade de Jupiter em relação ao nosso planeta, sem
fallar já das revoluções annuas d'aquelle astro, que duram cada uma doze
annos dos nossos! Ainda mais, é para mim evidente, que com taes
auspicios e em tão maravilhosas condições de existencia, os habitantes
d'esse mundo afortunado são entes superiores; que ali os sabios são mais
sabios, os artistas mais artistas, os maus peiores, e os bons melhores.
Ai! e que nos falta a nós, pobre espheroide, para chegar a tal
perfeição? Bem pouca cousa. Um eixo de rotação, com menos inclinação
sobre o plano da orbita!
--Pois bem! clamou uma voz impetuosa, unâmos os nossos esforços,
inventemos machinas e indireitemos o eixo da Terra!
Rebentou ao ouvir-se tal proposta uma trovoada de applausos; o auctor da
proposta fôra, e nem outro podia ser, J.-T. Maston. É provavel que o
fogoso secretario se deixasse arrastar a aventar tão ousada idéa pelos
seus instinctos de engenheiro. Força é dize-lo porém, porque é a
verdade, muitos o applaudiram com enthusiasmo, e por certo se tivessem o
ponto de apoio que Archimedes reclamava, os americanos teriam construido
uma alavanca capaz de levantar o mundo e de endireitar-lhe o eixo. Mas o
que lhes faltava, áquelles temerarios constructores, era exactamente o
ponto de apoio.