recinto de Stone's-Hill. Qual foi a affluencia de vizitantes facilmente
se comprehenderá. E na realidade, convergia de todos os pontos dos
Estados Unidos para a Florida uma quantidade de curiosos sem conta. A
cidade de Tampa tinha augmentado prodigiosamente no decurso d'aquelle
anno inteiramente consagrado ás obras do Gun-Club, e contava então cento
e cincoenta mil almas. A cidade que começára por entrelaçar o forte
Brooke n'uma rede de ruas, estendia-se agora por sobre a lingueta de
terra que separa os dois molhes da bahia do Espirito Santo; bairros
novos, novas praças, uma floresta inteira de casas tinham como que
brotado d'aquellas praias ainda ha pouco desertas, pela intensidade do
calor do sol americano. Organisaram-se companhias para construir
igrejas, escolas e habitações particulares, e em menos de um anno estava
a cidade dez vezes maior.
É bem sabido que o yankee nasce commerciante; para onde quer que o
arremesse o destino, da zona gelida á zona torrida, hão de
exercer-se-lhe com utilidade os instinctos de negocio. Por esta rasão os
simples curiosos, a gente que viera á Florida com o unico fito de seguir
as operações do Gun-Club, deixou-se arrastar para operações commerciaes
logoque se achou installada em Tampa. Os navios fretados para
transportar o material e os operarios tambem tinham trazido ao porto um
grau de actividade sem igual, e dentro em pouco muitos outros navios de
todas as fórmas e tonelagens sulcaram a bahia e os dois molhes;
estabeleceram-se vastos estabelecimentos de armador e escriptorios de
corretor de navios, e a _Shipping-Gazete_ registava todos os dias novas
embarcações entradas no porto de Tampa.
Ao passo que se iam multiplicando as estradas em torno da cidade,
mereceu esta a final ser ligada por via ferrea aos Estados meridionaes
da União, em consideração ao prodigioso augmento que se realisára na sua
população e commercio. Assentou-se um railway entre a Mabile e
Pensacola, o maior arsenal maritimo do sul; e em seguida d'este ponto
importante para Tallahassee.
D'ali já estava construido um pequeno ramal de via ferrea de vinte e uma
milhas de comprimento, que punha em communicação Tallahassee com
Saint-Marks, localidade do littoral. Foi este ramal que se prolongou até
Tampa-Town, e que na passagem veiu despertar ou dar vida ás regiões
adormecidas ou mortas da Florida. Tampa, graças áquelles milagres da
industria, devidos á idéa que um bello dia despontára n'um cerebro
humano, póde assumir com legitimo fundamento ares de grande cidade.
Cognominaram-na _Moon-City_[83]. A capital das Floridas é que soffreu
ecclypse total e visivel de todos os logares do globo.
Toda a gente comprehenderá agora por que fôra tão grande a rivalidade
entre Texas e Florida, e a irritação dos texianos quando viram
indeferidas as pretenções que tinham á preferencia do Gun-Club.
Com previdente sagacidade tinham os do Texas comprehendido quanto
qualquer paiz haveria de ganhar com a experiencia tentada por Barbicane,
e de que somma de beneficios havia de vir acompanhado um tal tiro de
canhão. Perdia o Texas com a decisão que o desfavorecêra um importante
centro de commercio, varios caminhos de ferro e um augmento consideravel
de população. Estas vantagens todas iam parar áquella miseravel
peninsula floridense, arremessada qual outro marachão entre as ondas do
golpho e as vagas do oceano atlantico. Por isso Barbicane partilhava com
o general Sant'Anna todas as antipathias dos texianos. Entretanto,
apesar de entregue ao furor do commercio e ao ardor da industria, a
população nova de Tampa-Town não esqueceu por fórma alguma as
interessantes operações do Gun-Club. Pelo contrario. Tomavam todos calor
e paixão pelos pormenores mais infimos da obra, pela mais insignificante
enxadada. Era um constante vae-vem entre a cidade e Stone's-Hill, uma
procissão, ou para melhor dizer, uma romaria.
Já podia prever-se que, no dia da experiencia, a agglomeração de
espectadores havia de contar-se por milhões, porque já elles de todos os
pontos da Terra iam chegando e accumulando-se na estreita peninsula.
Emigrava a Europa para a America. Mas, até áquelle ponto, força é
dize-lo, pouca e mediocre satisfação tivera a curiosidade dos que, em
grande numero, íam chegando. Muita gente esperava assistir ao
espectaculo da fundição e só lhe viu o fumo. Era pouco para olhos tão
avidos, mas Barbicane não quiz admittir pessoa alguma a presenciar a
operação. Em consequencia não faltou quem praguejasse, murmurasse ou por
qualquer outra fórma mostrasse descontentamento; censuravam o
presidente; accusavam-n'o de absolutismo; declaravam finalmente que o
procedimento d'elle era «pouco americano».
Ía havendo sedição em volta das palissadas de Stone's-Hill.
Barbicane, já se sabe, conservou-se inabalavel na resolução que tomára.
Mas desde o momento em que se deu por inteiramente acabada a Columbiada,
é que não foi possivel conservar por mais tempo porta fechada; e tambem
fechar as portas em tal caso, seria prova de má vontade, ou o que é
ainda cousa peior, imprudencia que iria tornar hostil á empreza o
sentimento publico.
Barbicane mandou portanto abrir as portas do recinto a toda a gente;
entretanto inspirado pelo seu espirito pratico, resolveu fazer dinheiro
com a curiosidade publica.
Já não era pouco contemplar a immensa Columbiada, porém descer-lhe ás
profundezas, isso é que se afigurava aos Americanos ser o _non plus
ultra_ das felicidades d'este mundo. Nem um só curioso por consequencia
deixou de querer experimentar o goso de visitar o interior d'aquelle
abysmo de metal. Os espectadores podiam satisfazer a sua curiosidade por
meio de apparelhos suspensos de um sarilho a vapor. A cousa fez furor.
Mulheres, creanças, velhos, todos tomaram como obrigação penetrar até ao
fundo da _alma_ nos mysterios do colossal canhão. Fixou-se o preço da
descida em cinco dollars por cabeça. E apesar de ser preço alto, tal foi
a affluencia de visitantes, que metteu nas burras do Gun-Club, no
decurso dos dois mezes que antecederam a experiencia, perto de dois
milhões e quinhentos mil dollars[84].
Escusado é dizer que os primeiros visitantes da Columbiada foram os
socios do Gun-Club, vantagem esta justamente reservada para aquella
illustre assembléa. Realisou-se esta visita solemne no dia 25 de
setembro. Desceu então uma caixa de honra com o presidente Barbicane,
J.-T. Maston, major Elphiston, general Morgan, coronel Blomsberry,
engenheiro Murchison e outros socios de distincção do celebre Club. Ao
todo seriam uns dez. Fazia ainda um calor menos mau no fundo do comprido
tubo de metal!
Mal se podia respirar! Mas que alegria! que contentamento! Estava mesa
posta para dez convivas em cima do massiço que aguentava a Columbiada, e
o interior d'esta illuminado _a giorno_, por um jacto de luz electrica.
Numerosas e delicadas iguarias, que pareciam descer do céu, vieram
successivamente collocar-se em frente dos convivas, e correram com
profusão os mais finos vinhos de França durante o esplendido banquete
servido a novecentos pés debaixo da terra.
O festim correu extremamente animado e até extremamente ruidoso;
cruzavam-se numerosos os _toasts_; bebeu-se em honra do globo terrestre,
do seu satellite, do Gun-Club, da União, da Lua, de Phoebea, de Diana,
de Seléne, do astro das noites, e finalmente «do pacifico correio
feminino do firmamento!»
Tantos foram os hurrahs, repercutidos em ondas sonoras dentro d'aquelle
immenso tubo acustico que chegaram á extremidade d'elle qual trovão, e a
multidão acampada em torno de Stone's Hill, unia-se pelo coração e pelos
gritos aos dez convivas soterrados no fundo da gigantesca Columbiada.
J.-T. Maston nem já podia ter mão em si; e é ponto difficil de averiguar
o que é que elle fez em maior escala, se gritar e gesticular, se beber e
comer. Em todo o caso, o que elle não largava era o logar, nem a troco
de um imperio. «Não, aindaque o canhão estivera carregado, escorvado,
prompto a dar fogo por instantes, e a arremessa-lo feito em estilhas aos
espaços planetarios».
CAPITULO XVII
UM DESPACHO TELEGRAPHICO
Estavam, póde assim dizer-se, concluidas as grandes obras emprehendidas
pelo Gun-Club, e no entretanto ainda tinham de decorrer dois mezes antes
de chegar o dia em que o projectil havia de largar vôo para a Lua. Dois
mezes, que á impaciencia universal haviam de parecer dois annos! Até
então tinham tido reproducção na imprensa diaria até os mais infimos
pormenores da operação, e os jornaes eram devorados com olhos avidos e
ardentes; mas era de temer que d'ora ávante aquelle «dividendo de
noticias interessantes», distribuido até então ao publico, diminuisse
notavelmente; e todos se assustavam com a idéa de não terem já de
receber a respectiva quota de emoções quotidianas. Pois nada d'isto
succedeu; um incidente, o mais extraordinario, o mais incrivel, o mais
inverosimil dos incidentes, veiu de subito fanatisar os espiritos
anhelantes, e lançar novamente o mundo inteiro sob a influencia de uma
sobrexcitação pungente.
Certo dia, 30 de setembro, ás tres horas e quarenta e sete minutos da
tarde, chegou com direcção ao presidente Barbicane um telegramma
transmittido pelo cabo submarino immerso entre Valentia (na Irlanda),
Terra Nova e a costa americana.
O presidente Barbicane rasgou o sobrescripto, leu o despacho, e, apesar
da faculdade que tinha em alto grau de dominar-se, empallideceram-lhe os
labios, e turvou-se-lhe a vista com a leitura das vinte palavras do
telegramma.
Eis o texto do tal despacho, que na actualidade figura entre os
documentos do archivo do Gun-Club:
«França, Paris, 30 de setembro, ás quatro horas da manhã--Barbicane,
Tampa, Florida, Estados Unidos.--Substituir obuz espherico por projectil
cylindro-conico. Partirei dentro. Chego pelo vapor _Atlanta_.--_Miguel
Ardan_.»
CAPITULO XVIII
O PASSAGEIRO DO ATLANTA
Se aquella nova fulminante, em vez de ter voado pelo fio electrico,
tivera chegado simplesmente pelo correio, fechada e lacrada; se os
empregados telegraphicos da França, da Irlanda, da Terra Nova e da
America não estivessem, por necessidade de officio, no segredo do
telegrapho, certamente Barbicane nem por um instante teria hesitado.
Calava-se não só por prudencia, mas para não desacreditar a propria
obra.
Era bem possivel que sob a fórma de telegramma ali se, encobrisse uma
caçoada, demais a mais vindo o telegramma de um francez. Por ventura era
de crer que houvesse homem bastantemente ousado para conceber sequer o
pensamento de uma viagem tal? E, ainda no caso de existir tal homem, não
seria porventura um louco, mais no caso de se encerrar n'uma gaiola do
que n'uma bala?
Porém o texto do telegramma era de certo já conhecido, porque os
apparelhos de transmissão electrica são por sua propria natureza pouco
discretos, e a proposta de Miguel Ardan corria já seguramente pelos
differentes estados da União. Consequentemente Barbicane não tinha
motivo algum para se calar; portanto reuniu os collegas que estavam em
Tampa-Town, e sem dar mostra do que lhe ía no pensamento, sem discutir o
maior ou menor credito de que o telegramma era merecedor, leu-lhes
friamente o laconico texto.
«É impossivel! Inverosimil! Pura chalaça! Mangaram comnosco! Ridiculo!
Absurdo!» Em poucos minutos ouviu-se ali uma collecção completa de todas
as expressões que servem para exprimir duvida, incredulidade ou
qualificar a tolice e a loucura, e com acompanhamento de gestos usuaes
em taes casos. Todos sorriam, riam, encolhiam os hombros ou desatavam ás
gargalhadas, cada um segundo a respectiva disposição e genio. J.-T.
Maston foi o unico que teve uma saída soberba:
«E não é má idéa, não!»
--É verdade, respondeu o major; mas se é permittido ter de vez em quando
idéas d'essas, é só com a condição de nem por sonhos pensar em leva-las
á execução.
--E porque não? replicou com vivacidade o secretario do Gun-Glub, já
prompto para discutir. Mas não quizeram pica-lo mais.
Entretanto já o nome de Miguel Ardan corria de bôca em bôca pela cidade
de Tampa. Forasteiros e indigenas olhavam-se, interrogavam-se e mofavam,
não do europeu, especie de mytho ou individualidade chimerica, mas de
J.-T Maston, que tinha chegado a acreditar na existencia de tal
personagem lendario. Quando Barbicane propozera arremessar um projectil
á Lua todos acharam o emprehendimento natural, praticavel, pura questão
de balistica! Mas offerecer-se um ente racional para tomar passagem
dentro do projectil e tentar aquella viagem inverosimil, isso lá era
proposta de phantasia, zombaria, caçoada, ou, querendo usar de um termo
que tem traducção exacta e precisa na linguagem familiar franceza,
_humbug_![85]
Até á noite sem interrupção durou a risota, podendo até affirmar-se que
a União inteira desatou a um tempo n'uma casquinada de riso
inextinguivel, o que aliás não está lá muito nos habitos de um paiz em
que até as emprezas mais claramente impossiveis encontram com facilidade
panegyristas, adeptos e partidarios. Todavia a proposta de Miguel Ardan,
como succede a toda a idéa nova, não deixou de dar que fazer a certos
espiritos. A cousa sempre vinha alterar o curso das emoções habituaes.
«Ninguem pensára em tal!» E o incidente por sua mesma estranheza em
breve se tornou como que em pesadelo geral. Caso é que já n'elle
pensavam. Quantas cousas se negam na vespera, e que o dia seguinte vem
transformar em realidades! E porque é que tal viagem se não havia de vir
a fazer mais tarde ou mais cedo? Em todo o caso, o homem que assim
queria arriscar a pelle era forçosamente doido, e decididamente já que o
projecto que sonhára não podia ser tomado a serio, melhor era ter-se
calado, do que vir inquietar um povo inteiro com tão ridiculos
devaneios.
Mas, e antes de tudo; acaso tal personagem existia realmente? Magna
questão! Aquelle nome de «Miguel Ardan» já não era inteiramente
desconhecido na America! Senão que pertencia a um europeu muito citado
por seus ousados emprehendimentos. De mais a mais aquelle telegramma
enviado atravez das profundezas do Atlantico, aquella indicação positiva
do navio em que o francez dizia ter já tomado passagem, e a da data
proxima em que havia de chegar, tudo eram circumstancias que davam á
proposta certo caracter de verosimilhança. O que todos desejavam era uma
solução clara e positiva que lhes socegasse o espirito. Pouco a pouco
reuniram-se em grupos os individuos isolados; os grupos foram-se
condensando por influencia da curiosidade, como os atomos se aggregam em
virtude da attracção mollecular, e a final vieram a transformar-se em
multidão compacta, que tomou em direitura á morada do presidente
Barbicane.
Este, desde que chegára o telegramma, não dera por fórma alguma a
conhecer o que d'elle pensava; deixára correr a opinião de J.-T. Maston,
sem manifestar approvação nem censura; estava mettido ao canto, e na
idéa de esperar pelos acontecimentos, mas com que elle não contava era
com a impaciencia publica; por isso viu com olhos de pouca satisfação
accumular-se-lhe debaixo das janellas a população de Tampa. Em breve o
forçaram a mostrar-se ao publico, mil murmurios e vociferações. É de ver
que o presidente tinha todos os deveres e portanto todos os incommodos
attributos da celebridade.
Logo que Barbicane appareceu reinou silencio na multidão e um cidadão
que tomou a palavra dirigiu-lhe, sem mais rodeios, a seguinte pergunta:
«O personagem designado no telegramma pelo nome de Miguel Ardan, seguiu
ou não viagem para a America?
--Meus senhores, respondeu Barbicane, tanto o sei eu como vós outros.
--Pois é necessario sabe-lo, exclamaram algumas vozes impacientes.
--O tempo é que nos ha de desenganar, respondeu friamente o presidente.
--Ao tempo não assiste direito para conservar um paiz inteiro em
suspensão, replicou o orador. E os planos do projectil já se mandaram
modificar, como se pede no telegramma?
[Figura: Michel Ardan (pag. 154).]
--Ainda não, meus senhores; mas, todos têem muita rasão, é necessario
desenganarmo-n'os; o telegrapho foi que causou todas estas emoções, pois
seja o telegrapho quem complete as noticias que trouxe.
--«Ao telegrapho! ao telegrapho!» bradou a multidão.
[Figura: O meeting (pag. 161).]
Barbicane desceu de casa, e tomando á frente d'aquelle immenso
ajuntamento dirigiu-se para a repartição da administração dos
telegraphos.
Poucos minutos depois enviava-se um telegramma ao syndico dos corretores
de navios de Liverpool em que se lhe pedia resposta ás seguintes
perguntas:
«Que especie de navio é o _Atlanta_?
«Quando é que largou esse navio da Europa?
«Estaria a bordo um francez chamado Miguel Ardan?»
Duas horas depois recebia Barbicane esclarecimentos por tal fórma
precisos, que nem deixavam logar á menor duvida.
«O paquete _o Atlanta_, de Liverpool, fez-se ao mar no dia 2 de outubro,
fazendo-se de véla para Tampa-Town; a bordo ia um francez, inscripto no
livro dos passageiros com o nome de Miguel Ardan.»
Quando o presidente viu assim confirmado o conteúdo do primeiro
telegramma, brilharam-lhe os olhos em subita chamma, cerraram-se-lhe
violentamente os punhos, e houve até quem o ouvisse murmurar:
Então, sempre é verdade! sempre é possivel! existe esse francez! e
dentro em quinze dias ha de estar aqui! Mas é, por certo, um louco! um
cerebro escandecido!... Nunca consentirei...»
E apesar d'isso, n'aquella mesma noite já escrevia á casa Breadwill e
C.^a, para lhe pedir que suspendesse até nova ordem a fundição do
projectil.
Relatar a emoção que se apossou da America inteira; como o effeito da
communicação Barbicane foi excedido no decuplo; o que disseram os
jornaes da União, por que modo acceitaram a nova e em que rythmo
contaram a chegada do heroe do velho continente; pintar a febril
agitação, em que todos viviam contando as horas, os minutos e os
segundos; dar idéa mesmo longiqua, da pesada obsessão que se apoderou de
todos os cerebros dominados por um pensamento unico; mostrar como todas
as occupações cederam a uma unica preoccupação; os trabalhos parados, o
commercio suspenso, navios que estavam promptos a levantar ferro a
ficarem ancorados no porto para não faltarem á chegada do _Atlanta_, os
comboios a chegarem cheios e a saírem vasios, a bahia do Espirito Santo
sulcada sem cessar por _steamers_, _packets-boats_, hiates de recreio e
_fly-boats_ de todas as dimensões; enumerar os milhares de curiosos que
no espaço de quinze dias quadruplicaram a população de Tampa-Town, a
ponto de terem de acampar em barracas como um exercito em campanha, é
tarefa que excede as forças humanas, e que sem temeridade ninguem
poderia emprehender.
No dia 20 de outubro, pelas nove horas da manhã, dava o telegrapho
semaphorico do canal de Bahama noticia de fumo espesso no horisonte.
Duas horas depois um grande _steamer_ trocava com o telegrapho signaes
de reconhecimento. Immediatamente foi expedido para Tampa-Town o nome do
_Atlanta_. Ás quatro horas dava o navio inglez entrada na bahia do
Espirito Santo. Ás cinco passava a barra de Hillisboro a todo o vapor.
Ás seis largava ferro no porto de Tampa.
Ainda a ancora não tinha mordido no fundo de areia, já quinhentas
embarcações estavam em volta do _Atlanta_, e tomavam o _steamer_ de
assalto. Barbicane foi o primeiro que saltou ao convez, e que em voz de
que debalde tentára occultar a commoção exclamou:
«Miguel Ardan!--Presente!» respondeu um individuo que estava no castello
de popa.
Barbicane, cruzados os braços, com o olhar interrogador e a bôca
silenciosa, olhou fito para o passageiro do _Atlanta_.
Era este homem de quarenta e dois annos, alto, mas já um tanto curvado,
como os cariatides que aguentam nos hombros as sacadas dos balcões. A
cabeça volumosa, verdadeira cabeça de leão, sacudia a cada instante a
cabelleira ardente que a adornava como verdadeira juba. A cara curta,
larga nas fontes, enfeitada por um bigode hirsuto como as barbas de um
gato, e com pincelinhos de pellos amarellados que irrompiam mesmo do
meio das faces, os olhos redondos e um tanto desvairados, o olhar de
myope, completavam-lhe a physionomia eminentemente felina. Mas o nariz
era ousadamente modelado, a bôca particularmente humana, a fronte alta,
intelligente e sulcada qual campo que nunca esteve de pousio. Finalmente
o tronco robustamente desenvolvido e assente a prumo em cima de
compridas pernas, os braços musculosos como possantes e bem articuladas
alavancas, faziam do europeu um maganão de solida construcção, «feito na
forja, que não no cadinho», como diria quem quizesse ir buscar á arte
metallurgica termos de comparação.
Qualquer discipulo de Lavater ou de Gratiolet encontraria sem
difficuldade no craneo e na physionomia do personagem os indicios mais
indiscutiveis da combatividade, isto é, da coragem na occasião do
perigo, e da tendencia para despedaçar todos os obstaculos; como tambem
os da benevolencia e da _maravilhosidade_, instincto que incita certos
temperamentos a tomarem-se de paixão pelas cousas sobrehumanas; em
compensação era absoluta a carencia das bossas que indicam os instinctos
de posse e acquisição, que os phrenologos designam pela palavra
_adquisividade_.
Para dar o ultimo toque na descripção do typo physico do passageiro do
_Atlanta_, convem notar que o fato que usava era largo de fórmas e
folgado de cavas. A calça e o _paletot_ eram feitos com tal abundancia
de fazenda, que o proprio Miguel Ardan chamava a si mesmo o
_mata-panno_; a gravata desapertada, o colleirinho aberto com largueza,
deixavam ver o pescoço robusto; dos punhos invariavelmente desabotoados
saiam-lhe as mãos febris. Bem se via que era homem que, nem na maior
força do inverno, nem na maior força do perigo, havia de ter frio, nem
mesmo na raiz do cabello.
Nunca estava quieto, no tombadilho do _steamer_, no meio da multidão, de
cá para lá, sem nunca parar «navegando sobre as amarras», como dizia a
maruja; sempre a gesticular, tratando todos por tu e roendo as unhas com
nervosa avidez. Era um d'aquelles typos originaes que o Creador inventa
n'um momento de phantasia, quebrando-lhe desde logo o molde.
E na realidade, a personalidade de Miguel Ardan dava campo largo ás
observações do analysta. Aquelle homem espantoso vivia em perpetua
disposição para a hyperbole, não passára ainda alem da idade dos
superlativos; desenhavam-se-lhe os objectos na retina com dimensões
desmarcadas, e d'ahi lhe vinha uma associação de idéas gigantescas; via
tudo em ponto grande, excepto os homens e as difficuldades. E comtudo
isto era de uma natureza luxuriante, artista por instincto, moço de
espirito, que sem dar descargas de ditos chistosos, sabia entretanto na
conversação esgrimir como o mais habil atirador. Nas discussões, pouca
importancia lhe merecia a logica. Rebelde ao syllogismo, que por certo
nunca teria inventado, tinha um modo de argumentar só proprio d'elle.
Passando por cima de tudo e de todos, atirava em cheio ao adversario uns
argumentos _ad hominem_ de effeito certeiro e seguro, e fazia gosto em
defender com unhas e dentes as causas perdidas.
Entre outras manias tinha a de se proclamar «um ignorante sublime», como
Shakspeare, e fazia profissão do desprezo pelos sabios: «Elles, dizia,
entretem-se a marcar os pontos, e nós cá é que jogâmos a partida».
Em summa, era um bohemio do paiz dos montes e das maravilhas,
aventuroso, mas não aventureiro, uma cabeça ôca, um Phaetonte que guiava
a toda a brida o carro do Sol, um Icaro com azas de sobresallente. E era
homem que sabia arriscar e arriscar a serio a propria pessoa, que se
arrojava de cabeça levantada ás mais loucas emprezas, cortando a si
proprio a retirada com mais enthusiasmo ainda do que Agathócles quando
incendiou a esquadra que commandava. Prompto a toda a hora a arriscar a
pelle, tinha por sorte invariavel, por maior que fosse a cambalhota,
caír sempre de pé como os bonequitos de sabugo com que brincam as
creanças.
Em duas palavras, tinha por divisa: _dê por onde der!_ e por _ruling
passion_[86], segundo a bella expressão de Pope, o amor pelo impossivel.
Mas tambem era para ver-se como aquelle maganão emprehendedor possuia os
defeitos inherentes ás suas boas qualidades. Diz o vulgo, que quem se
não aventurou não perdeu nem ganhou.
Miguel Ardan bastas vezes se tinha aventurado, e nem por isso tinha
ganho!
Para dar cabo de dinheiro era um verdugo, um tonel das Danaïdes. Homem
aliás perfeitamente desinteressado, tantas eram as asneiras que lhe
dictava o grande coração, como as que lhe insinuava a estouvada cabeça;
esmoler, cavalheiroso, incapaz de assignar o «enforque-se» do seu mais
cruel inimigo, mas muito capaz de se vender para resgatar um negro.