Desde 23 de setembro que se tornára francamente accessivel ao publico o

recinto de Stone's-Hill. Qual foi a affluencia de vizitantes facilmente

se comprehenderá. E na realidade, convergia de todos os pontos dos

Estados Unidos para a Florida uma quantidade de curiosos sem conta. A

cidade de Tampa tinha augmentado prodigiosamente no decurso d'aquelle

anno inteiramente consagrado ás obras do Gun-Club, e contava então cento

e cincoenta mil almas. A cidade que começára por entrelaçar o forte

Brooke n'uma rede de ruas, estendia-se agora por sobre a lingueta de

terra que separa os dois molhes da bahia do Espirito Santo; bairros

novos, novas praças, uma floresta inteira de casas tinham como que

brotado d'aquellas praias ainda ha pouco desertas, pela intensidade do

calor do sol americano. Organisaram-se companhias para construir

igrejas, escolas e habitações particulares, e em menos de um anno estava

a cidade dez vezes maior.

É bem sabido que o yankee nasce commerciante; para onde quer que o

arremesse o destino, da zona gelida á zona torrida, hão de

exercer-se-lhe com utilidade os instinctos de negocio. Por esta rasão os

simples curiosos, a gente que viera á Florida com o unico fito de seguir

as operações do Gun-Club, deixou-se arrastar para operações commerciaes

logoque se achou installada em Tampa. Os navios fretados para

transportar o material e os operarios tambem tinham trazido ao porto um

grau de actividade sem igual, e dentro em pouco muitos outros navios de

todas as fórmas e tonelagens sulcaram a bahia e os dois molhes;

estabeleceram-se vastos estabelecimentos de armador e escriptorios de

corretor de navios, e a _Shipping-Gazete_ registava todos os dias novas

embarcações entradas no porto de Tampa.

Ao passo que se iam multiplicando as estradas em torno da cidade,

mereceu esta a final ser ligada por via ferrea aos Estados meridionaes

da União, em consideração ao prodigioso augmento que se realisára na sua

população e commercio. Assentou-se um railway entre a Mabile e

Pensacola, o maior arsenal maritimo do sul; e em seguida d'este ponto

importante para Tallahassee.

D'ali já estava construido um pequeno ramal de via ferrea de vinte e uma

milhas de comprimento, que punha em communicação Tallahassee com

Saint-Marks, localidade do littoral. Foi este ramal que se prolongou até

Tampa-Town, e que na passagem veiu despertar ou dar vida ás regiões

adormecidas ou mortas da Florida. Tampa, graças áquelles milagres da

industria, devidos á idéa que um bello dia despontára n'um cerebro

humano, póde assumir com legitimo fundamento ares de grande cidade.

Cognominaram-na _Moon-City_[83]. A capital das Floridas é que soffreu

ecclypse total e visivel de todos os logares do globo.

Toda a gente comprehenderá agora por que fôra tão grande a rivalidade

entre Texas e Florida, e a irritação dos texianos quando viram

indeferidas as pretenções que tinham á preferencia do Gun-Club.

Com previdente sagacidade tinham os do Texas comprehendido quanto

qualquer paiz haveria de ganhar com a experiencia tentada por Barbicane,

e de que somma de beneficios havia de vir acompanhado um tal tiro de

canhão. Perdia o Texas com a decisão que o desfavorecêra um importante

centro de commercio, varios caminhos de ferro e um augmento consideravel

de população. Estas vantagens todas iam parar áquella miseravel

peninsula floridense, arremessada qual outro marachão entre as ondas do

golpho e as vagas do oceano atlantico. Por isso Barbicane partilhava com

o general Sant'Anna todas as antipathias dos texianos. Entretanto,

apesar de entregue ao furor do commercio e ao ardor da industria, a

população nova de Tampa-Town não esqueceu por fórma alguma as

interessantes operações do Gun-Club. Pelo contrario. Tomavam todos calor

e paixão pelos pormenores mais infimos da obra, pela mais insignificante

enxadada. Era um constante vae-vem entre a cidade e Stone's-Hill, uma

procissão, ou para melhor dizer, uma romaria.

Já podia prever-se que, no dia da experiencia, a agglomeração de

espectadores havia de contar-se por milhões, porque já elles de todos os

pontos da Terra iam chegando e accumulando-se na estreita peninsula.

Emigrava a Europa para a America. Mas, até áquelle ponto, força é

dize-lo, pouca e mediocre satisfação tivera a curiosidade dos que, em

grande numero, íam chegando. Muita gente esperava assistir ao

espectaculo da fundição e só lhe viu o fumo. Era pouco para olhos tão

avidos, mas Barbicane não quiz admittir pessoa alguma a presenciar a

operação. Em consequencia não faltou quem praguejasse, murmurasse ou por

qualquer outra fórma mostrasse descontentamento; censuravam o

presidente; accusavam-n'o de absolutismo; declaravam finalmente que o

procedimento d'elle era «pouco americano».

Ía havendo sedição em volta das palissadas de Stone's-Hill.

Barbicane, já se sabe, conservou-se inabalavel na resolução que tomára.

Mas desde o momento em que se deu por inteiramente acabada a Columbiada,

é que não foi possivel conservar por mais tempo porta fechada; e tambem

fechar as portas em tal caso, seria prova de má vontade, ou o que é

ainda cousa peior, imprudencia que iria tornar hostil á empreza o

sentimento publico.

Barbicane mandou portanto abrir as portas do recinto a toda a gente;

entretanto inspirado pelo seu espirito pratico, resolveu fazer dinheiro

com a curiosidade publica.

Já não era pouco contemplar a immensa Columbiada, porém descer-lhe ás

profundezas, isso é que se afigurava aos Americanos ser o _non plus

ultra_ das felicidades d'este mundo. Nem um só curioso por consequencia

deixou de querer experimentar o goso de visitar o interior d'aquelle

abysmo de metal. Os espectadores podiam satisfazer a sua curiosidade por

meio de apparelhos suspensos de um sarilho a vapor. A cousa fez furor.

Mulheres, creanças, velhos, todos tomaram como obrigação penetrar até ao

fundo da _alma_ nos mysterios do colossal canhão. Fixou-se o preço da

descida em cinco dollars por cabeça. E apesar de ser preço alto, tal foi

a affluencia de visitantes, que metteu nas burras do Gun-Club, no

decurso dos dois mezes que antecederam a experiencia, perto de dois

milhões e quinhentos mil dollars[84].

Escusado é dizer que os primeiros visitantes da Columbiada foram os

socios do Gun-Club, vantagem esta justamente reservada para aquella

illustre assembléa. Realisou-se esta visita solemne no dia 25 de

setembro. Desceu então uma caixa de honra com o presidente Barbicane,

J.-T. Maston, major Elphiston, general Morgan, coronel Blomsberry,

engenheiro Murchison e outros socios de distincção do celebre Club. Ao

todo seriam uns dez. Fazia ainda um calor menos mau no fundo do comprido

tubo de metal!

Mal se podia respirar! Mas que alegria! que contentamento! Estava mesa

posta para dez convivas em cima do massiço que aguentava a Columbiada, e

o interior d'esta illuminado _a giorno_, por um jacto de luz electrica.

Numerosas e delicadas iguarias, que pareciam descer do céu, vieram

successivamente collocar-se em frente dos convivas, e correram com

profusão os mais finos vinhos de França durante o esplendido banquete

servido a novecentos pés debaixo da terra.

O festim correu extremamente animado e até extremamente ruidoso;

cruzavam-se numerosos os _toasts_; bebeu-se em honra do globo terrestre,

do seu satellite, do Gun-Club, da União, da Lua, de Phoebea, de Diana,

de Seléne, do astro das noites, e finalmente «do pacifico correio

feminino do firmamento!»

Tantos foram os hurrahs, repercutidos em ondas sonoras dentro d'aquelle

immenso tubo acustico que chegaram á extremidade d'elle qual trovão, e a

multidão acampada em torno de Stone's Hill, unia-se pelo coração e pelos

gritos aos dez convivas soterrados no fundo da gigantesca Columbiada.

J.-T. Maston nem já podia ter mão em si; e é ponto difficil de averiguar

o que é que elle fez em maior escala, se gritar e gesticular, se beber e

comer. Em todo o caso, o que elle não largava era o logar, nem a troco

de um imperio. «Não, aindaque o canhão estivera carregado, escorvado,

prompto a dar fogo por instantes, e a arremessa-lo feito em estilhas aos

espaços planetarios».

CAPITULO XVII

UM DESPACHO TELEGRAPHICO

Estavam, póde assim dizer-se, concluidas as grandes obras emprehendidas

pelo Gun-Club, e no entretanto ainda tinham de decorrer dois mezes antes

de chegar o dia em que o projectil havia de largar vôo para a Lua. Dois

mezes, que á impaciencia universal haviam de parecer dois annos! Até

então tinham tido reproducção na imprensa diaria até os mais infimos

pormenores da operação, e os jornaes eram devorados com olhos avidos e

ardentes; mas era de temer que d'ora ávante aquelle «dividendo de

noticias interessantes», distribuido até então ao publico, diminuisse

notavelmente; e todos se assustavam com a idéa de não terem já de

receber a respectiva quota de emoções quotidianas. Pois nada d'isto

succedeu; um incidente, o mais extraordinario, o mais incrivel, o mais

inverosimil dos incidentes, veiu de subito fanatisar os espiritos

anhelantes, e lançar novamente o mundo inteiro sob a influencia de uma

sobrexcitação pungente.

Certo dia, 30 de setembro, ás tres horas e quarenta e sete minutos da

tarde, chegou com direcção ao presidente Barbicane um telegramma

transmittido pelo cabo submarino immerso entre Valentia (na Irlanda),

Terra Nova e a costa americana.

O presidente Barbicane rasgou o sobrescripto, leu o despacho, e, apesar

da faculdade que tinha em alto grau de dominar-se, empallideceram-lhe os

labios, e turvou-se-lhe a vista com a leitura das vinte palavras do

telegramma.

Eis o texto do tal despacho, que na actualidade figura entre os

documentos do archivo do Gun-Club:

«França, Paris, 30 de setembro, ás quatro horas da manhã--Barbicane,

Tampa, Florida, Estados Unidos.--Substituir obuz espherico por projectil

cylindro-conico. Partirei dentro. Chego pelo vapor _Atlanta_.--_Miguel

Ardan_.»

CAPITULO XVIII

O PASSAGEIRO DO ATLANTA

Se aquella nova fulminante, em vez de ter voado pelo fio electrico,

tivera chegado simplesmente pelo correio, fechada e lacrada; se os

empregados telegraphicos da França, da Irlanda, da Terra Nova e da

America não estivessem, por necessidade de officio, no segredo do

telegrapho, certamente Barbicane nem por um instante teria hesitado.

Calava-se não só por prudencia, mas para não desacreditar a propria

obra.

Era bem possivel que sob a fórma de telegramma ali se, encobrisse uma

caçoada, demais a mais vindo o telegramma de um francez. Por ventura era

de crer que houvesse homem bastantemente ousado para conceber sequer o

pensamento de uma viagem tal? E, ainda no caso de existir tal homem, não

seria porventura um louco, mais no caso de se encerrar n'uma gaiola do

que n'uma bala?

Porém o texto do telegramma era de certo já conhecido, porque os

apparelhos de transmissão electrica são por sua propria natureza pouco

discretos, e a proposta de Miguel Ardan corria já seguramente pelos

differentes estados da União. Consequentemente Barbicane não tinha

motivo algum para se calar; portanto reuniu os collegas que estavam em

Tampa-Town, e sem dar mostra do que lhe ía no pensamento, sem discutir o

maior ou menor credito de que o telegramma era merecedor, leu-lhes

friamente o laconico texto.

«É impossivel! Inverosimil! Pura chalaça! Mangaram comnosco! Ridiculo!

Absurdo!» Em poucos minutos ouviu-se ali uma collecção completa de todas

as expressões que servem para exprimir duvida, incredulidade ou

qualificar a tolice e a loucura, e com acompanhamento de gestos usuaes

em taes casos. Todos sorriam, riam, encolhiam os hombros ou desatavam ás

gargalhadas, cada um segundo a respectiva disposição e genio. J.-T.

Maston foi o unico que teve uma saída soberba:

«E não é má idéa, não!»

--É verdade, respondeu o major; mas se é permittido ter de vez em quando

idéas d'essas, é só com a condição de nem por sonhos pensar em leva-las

á execução.

--E porque não? replicou com vivacidade o secretario do Gun-Glub, já

prompto para discutir. Mas não quizeram pica-lo mais.

Entretanto já o nome de Miguel Ardan corria de bôca em bôca pela cidade

de Tampa. Forasteiros e indigenas olhavam-se, interrogavam-se e mofavam,

não do europeu, especie de mytho ou individualidade chimerica, mas de

J.-T Maston, que tinha chegado a acreditar na existencia de tal

personagem lendario. Quando Barbicane propozera arremessar um projectil

á Lua todos acharam o emprehendimento natural, praticavel, pura questão

de balistica! Mas offerecer-se um ente racional para tomar passagem

dentro do projectil e tentar aquella viagem inverosimil, isso lá era

proposta de phantasia, zombaria, caçoada, ou, querendo usar de um termo

que tem traducção exacta e precisa na linguagem familiar franceza,

_humbug_![85]

Até á noite sem interrupção durou a risota, podendo até affirmar-se que

a União inteira desatou a um tempo n'uma casquinada de riso

inextinguivel, o que aliás não está lá muito nos habitos de um paiz em

que até as emprezas mais claramente impossiveis encontram com facilidade

panegyristas, adeptos e partidarios. Todavia a proposta de Miguel Ardan,

como succede a toda a idéa nova, não deixou de dar que fazer a certos

espiritos. A cousa sempre vinha alterar o curso das emoções habituaes.

«Ninguem pensára em tal!» E o incidente por sua mesma estranheza em

breve se tornou como que em pesadelo geral. Caso é que já n'elle

pensavam. Quantas cousas se negam na vespera, e que o dia seguinte vem

transformar em realidades! E porque é que tal viagem se não havia de vir

a fazer mais tarde ou mais cedo? Em todo o caso, o homem que assim

queria arriscar a pelle era forçosamente doido, e decididamente já que o

projecto que sonhára não podia ser tomado a serio, melhor era ter-se

calado, do que vir inquietar um povo inteiro com tão ridiculos

devaneios.

Mas, e antes de tudo; acaso tal personagem existia realmente? Magna

questão! Aquelle nome de «Miguel Ardan» já não era inteiramente

desconhecido na America! Senão que pertencia a um europeu muito citado

por seus ousados emprehendimentos. De mais a mais aquelle telegramma

enviado atravez das profundezas do Atlantico, aquella indicação positiva

do navio em que o francez dizia ter já tomado passagem, e a da data

proxima em que havia de chegar, tudo eram circumstancias que davam á

proposta certo caracter de verosimilhança. O que todos desejavam era uma

solução clara e positiva que lhes socegasse o espirito. Pouco a pouco

reuniram-se em grupos os individuos isolados; os grupos foram-se

condensando por influencia da curiosidade, como os atomos se aggregam em

virtude da attracção mollecular, e a final vieram a transformar-se em

multidão compacta, que tomou em direitura á morada do presidente

Barbicane.

Este, desde que chegára o telegramma, não dera por fórma alguma a

conhecer o que d'elle pensava; deixára correr a opinião de J.-T. Maston,

sem manifestar approvação nem censura; estava mettido ao canto, e na

idéa de esperar pelos acontecimentos, mas com que elle não contava era

com a impaciencia publica; por isso viu com olhos de pouca satisfação

accumular-se-lhe debaixo das janellas a população de Tampa. Em breve o

forçaram a mostrar-se ao publico, mil murmurios e vociferações. É de ver

que o presidente tinha todos os deveres e portanto todos os incommodos

attributos da celebridade.

Logo que Barbicane appareceu reinou silencio na multidão e um cidadão

que tomou a palavra dirigiu-lhe, sem mais rodeios, a seguinte pergunta:

«O personagem designado no telegramma pelo nome de Miguel Ardan, seguiu

ou não viagem para a America?

--Meus senhores, respondeu Barbicane, tanto o sei eu como vós outros.

--Pois é necessario sabe-lo, exclamaram algumas vozes impacientes.

--O tempo é que nos ha de desenganar, respondeu friamente o presidente.

--Ao tempo não assiste direito para conservar um paiz inteiro em

suspensão, replicou o orador. E os planos do projectil já se mandaram

modificar, como se pede no telegramma?

[Figura: Michel Ardan (pag. 154).]

--Ainda não, meus senhores; mas, todos têem muita rasão, é necessario

desenganarmo-n'os; o telegrapho foi que causou todas estas emoções, pois

seja o telegrapho quem complete as noticias que trouxe.

--«Ao telegrapho! ao telegrapho!» bradou a multidão.

[Figura: O meeting (pag. 161).]

Barbicane desceu de casa, e tomando á frente d'aquelle immenso

ajuntamento dirigiu-se para a repartição da administração dos

telegraphos.

Poucos minutos depois enviava-se um telegramma ao syndico dos corretores

de navios de Liverpool em que se lhe pedia resposta ás seguintes

perguntas:

«Que especie de navio é o _Atlanta_?

«Quando é que largou esse navio da Europa?

«Estaria a bordo um francez chamado Miguel Ardan?»

Duas horas depois recebia Barbicane esclarecimentos por tal fórma

precisos, que nem deixavam logar á menor duvida.

«O paquete _o Atlanta_, de Liverpool, fez-se ao mar no dia 2 de outubro,

fazendo-se de véla para Tampa-Town; a bordo ia um francez, inscripto no

livro dos passageiros com o nome de Miguel Ardan.»

Quando o presidente viu assim confirmado o conteúdo do primeiro

telegramma, brilharam-lhe os olhos em subita chamma, cerraram-se-lhe

violentamente os punhos, e houve até quem o ouvisse murmurar:

Então, sempre é verdade! sempre é possivel! existe esse francez! e

dentro em quinze dias ha de estar aqui! Mas é, por certo, um louco! um

cerebro escandecido!... Nunca consentirei...»

E apesar d'isso, n'aquella mesma noite já escrevia á casa Breadwill e

C.^a, para lhe pedir que suspendesse até nova ordem a fundição do

projectil.

Relatar a emoção que se apossou da America inteira; como o effeito da

communicação Barbicane foi excedido no decuplo; o que disseram os

jornaes da União, por que modo acceitaram a nova e em que rythmo

contaram a chegada do heroe do velho continente; pintar a febril

agitação, em que todos viviam contando as horas, os minutos e os

segundos; dar idéa mesmo longiqua, da pesada obsessão que se apoderou de

todos os cerebros dominados por um pensamento unico; mostrar como todas

as occupações cederam a uma unica preoccupação; os trabalhos parados, o

commercio suspenso, navios que estavam promptos a levantar ferro a

ficarem ancorados no porto para não faltarem á chegada do _Atlanta_, os

comboios a chegarem cheios e a saírem vasios, a bahia do Espirito Santo

sulcada sem cessar por _steamers_, _packets-boats_, hiates de recreio e

_fly-boats_ de todas as dimensões; enumerar os milhares de curiosos que

no espaço de quinze dias quadruplicaram a população de Tampa-Town, a

ponto de terem de acampar em barracas como um exercito em campanha, é

tarefa que excede as forças humanas, e que sem temeridade ninguem

poderia emprehender.

No dia 20 de outubro, pelas nove horas da manhã, dava o telegrapho

semaphorico do canal de Bahama noticia de fumo espesso no horisonte.

Duas horas depois um grande _steamer_ trocava com o telegrapho signaes

de reconhecimento. Immediatamente foi expedido para Tampa-Town o nome do

_Atlanta_. Ás quatro horas dava o navio inglez entrada na bahia do

Espirito Santo. Ás cinco passava a barra de Hillisboro a todo o vapor.

Ás seis largava ferro no porto de Tampa.

Ainda a ancora não tinha mordido no fundo de areia, já quinhentas

embarcações estavam em volta do _Atlanta_, e tomavam o _steamer_ de

assalto. Barbicane foi o primeiro que saltou ao convez, e que em voz de

que debalde tentára occultar a commoção exclamou:

«Miguel Ardan!--Presente!» respondeu um individuo que estava no castello

de popa.

Barbicane, cruzados os braços, com o olhar interrogador e a bôca

silenciosa, olhou fito para o passageiro do _Atlanta_.

Era este homem de quarenta e dois annos, alto, mas já um tanto curvado,

como os cariatides que aguentam nos hombros as sacadas dos balcões. A

cabeça volumosa, verdadeira cabeça de leão, sacudia a cada instante a

cabelleira ardente que a adornava como verdadeira juba. A cara curta,

larga nas fontes, enfeitada por um bigode hirsuto como as barbas de um

gato, e com pincelinhos de pellos amarellados que irrompiam mesmo do

meio das faces, os olhos redondos e um tanto desvairados, o olhar de

myope, completavam-lhe a physionomia eminentemente felina. Mas o nariz

era ousadamente modelado, a bôca particularmente humana, a fronte alta,

intelligente e sulcada qual campo que nunca esteve de pousio. Finalmente

o tronco robustamente desenvolvido e assente a prumo em cima de

compridas pernas, os braços musculosos como possantes e bem articuladas

alavancas, faziam do europeu um maganão de solida construcção, «feito na

forja, que não no cadinho», como diria quem quizesse ir buscar á arte

metallurgica termos de comparação.

Qualquer discipulo de Lavater ou de Gratiolet encontraria sem

difficuldade no craneo e na physionomia do personagem os indicios mais

indiscutiveis da combatividade, isto é, da coragem na occasião do

perigo, e da tendencia para despedaçar todos os obstaculos; como tambem

os da benevolencia e da _maravilhosidade_, instincto que incita certos

temperamentos a tomarem-se de paixão pelas cousas sobrehumanas; em

compensação era absoluta a carencia das bossas que indicam os instinctos

de posse e acquisição, que os phrenologos designam pela palavra

_adquisividade_.

Para dar o ultimo toque na descripção do typo physico do passageiro do

_Atlanta_, convem notar que o fato que usava era largo de fórmas e

folgado de cavas. A calça e o _paletot_ eram feitos com tal abundancia

de fazenda, que o proprio Miguel Ardan chamava a si mesmo o

_mata-panno_; a gravata desapertada, o colleirinho aberto com largueza,

deixavam ver o pescoço robusto; dos punhos invariavelmente desabotoados

saiam-lhe as mãos febris. Bem se via que era homem que, nem na maior

força do inverno, nem na maior força do perigo, havia de ter frio, nem

mesmo na raiz do cabello.

Nunca estava quieto, no tombadilho do _steamer_, no meio da multidão, de

cá para lá, sem nunca parar «navegando sobre as amarras», como dizia a

maruja; sempre a gesticular, tratando todos por tu e roendo as unhas com

nervosa avidez. Era um d'aquelles typos originaes que o Creador inventa

n'um momento de phantasia, quebrando-lhe desde logo o molde.

E na realidade, a personalidade de Miguel Ardan dava campo largo ás

observações do analysta. Aquelle homem espantoso vivia em perpetua

disposição para a hyperbole, não passára ainda alem da idade dos

superlativos; desenhavam-se-lhe os objectos na retina com dimensões

desmarcadas, e d'ahi lhe vinha uma associação de idéas gigantescas; via

tudo em ponto grande, excepto os homens e as difficuldades. E comtudo

isto era de uma natureza luxuriante, artista por instincto, moço de

espirito, que sem dar descargas de ditos chistosos, sabia entretanto na

conversação esgrimir como o mais habil atirador. Nas discussões, pouca

importancia lhe merecia a logica. Rebelde ao syllogismo, que por certo

nunca teria inventado, tinha um modo de argumentar só proprio d'elle.

Passando por cima de tudo e de todos, atirava em cheio ao adversario uns

argumentos _ad hominem_ de effeito certeiro e seguro, e fazia gosto em

defender com unhas e dentes as causas perdidas.

Entre outras manias tinha a de se proclamar «um ignorante sublime», como

Shakspeare, e fazia profissão do desprezo pelos sabios: «Elles, dizia,

entretem-se a marcar os pontos, e nós cá é que jogâmos a partida».

Em summa, era um bohemio do paiz dos montes e das maravilhas,

aventuroso, mas não aventureiro, uma cabeça ôca, um Phaetonte que guiava

a toda a brida o carro do Sol, um Icaro com azas de sobresallente. E era

homem que sabia arriscar e arriscar a serio a propria pessoa, que se

arrojava de cabeça levantada ás mais loucas emprezas, cortando a si

proprio a retirada com mais enthusiasmo ainda do que Agathócles quando

incendiou a esquadra que commandava. Prompto a toda a hora a arriscar a

pelle, tinha por sorte invariavel, por maior que fosse a cambalhota,

caír sempre de pé como os bonequitos de sabugo com que brincam as

creanças.

Em duas palavras, tinha por divisa: _dê por onde der!_ e por _ruling

passion_[86], segundo a bella expressão de Pope, o amor pelo impossivel.

Mas tambem era para ver-se como aquelle maganão emprehendedor possuia os

defeitos inherentes ás suas boas qualidades. Diz o vulgo, que quem se

não aventurou não perdeu nem ganhou.

Miguel Ardan bastas vezes se tinha aventurado, e nem por isso tinha

ganho!

Para dar cabo de dinheiro era um verdugo, um tonel das Danaïdes. Homem

aliás perfeitamente desinteressado, tantas eram as asneiras que lhe

dictava o grande coração, como as que lhe insinuava a estouvada cabeça;

esmoler, cavalheiroso, incapaz de assignar o «enforque-se» do seu mais

cruel inimigo, mas muito capaz de se vender para resgatar um negro.

Da terra à lua, viagem directa em 97 horas e 20 minutos · 第 8 / 15 段