quiz tentar Barbicane dando-lhe de partido todas as probabilidades
favoraveis, e propoz-lhe collocar a chapa a duzentas jardas de distancia
do canhão. E Barbicane a teimar na recusa. A cem jardas? Nem a setenta e
cinco.
«Pois então a cincoenta, clamou o capitão pela voz dos jornaes, ou a
vinte e cinco jardas, e ponho-me eu por detrás da minha couraça!»
Barbicane mandou responder que não atiraria, nem que o capitão Nicholl
se pozesse diante em vez de se pôr de trás.
Ao ler esta ultima replica não pôde Nicholl conter-se mais, e arrastou a
discussão para o campo das personalidades, insinuando que a cobardia era
cousa indivisivel, e que o homem que se recusa a disparar um tiro de
canhão não está muito longe de ter-lhe medo, que em summa esses
artilheiros que nos tempos de agora se batem a seis milhas de distancia
substituiam prudentemente a coragem individual por formulas de
mathematicas, e que no fim de contas tanta coragem havia em esperar
placidamente uma bala detrás de uma couraça; como em arremessa-la com
todas as regras da arte.
Nem palavra respondeu Barbicane a taes insinuações; talvez mesmo nem
d'ellas tivesse conhecimento, que lhe absorviam por então todas as
forças do espirito os calculos previos do seu grande projecto.
Quando Barbicane realisou a famosa communicação ao Gun-Club, é que a
raiva do capitão Nicholl chegou ao paroxysmo. Referviam-lhe com ella
n'alma um ciume immenso e um sentimento de impotencia absoluta! Que
havia de inventar que fosse superior áquella columbiada de novecentos
pés! Qual havia de ser a couraça capaz de resistir a um projectil de
trinta mil libras!
Nos primeiros momentos ficou Nicholl aterrado, aniquilado, esmigalhado
por aquelle «tiro de canhão»; mas depois levantou-se, e resolveu esmagar
a proposta debaixo do peso da sua argumentação.
Combateu por consequencia com grande violencia os trabalhos do Gun-Club;
publicou grande numero de cartas, de que os jornaes não recusaram a
reproducção. Tentou demolir scientificamente a obra de Barbicane, e uma
vez iniciada a guerra, serviu-se de toda a casta de argumentos, que,
força é dize-lo, foram as mais das vezes especiosos e de baixo quilate.
O ataque a Barbicane começou, e com summa violencia, pelas questões de
algarismos; Nicholl tentou demonstrar por A+B que eram falsas as
formulas de que se servia o presidente, e accusou-o de ignorar os
principios rudimentares da balistica. Entre outros erros de que lhe
fazia cargo, apontava-lhe a impossibilidade, demonstrada, segundo os
calculos d'elle Nicholl, de imprimir a um corpo qualquer a velocidade de
doze mil jardas por segundo; sustentou com a algebra em punho, que ainda
mesmo animado d'essa velocidade, nunca projectil de peso tal havia de ir
alem dos limites da atmosphera terrestre! Nem sequer oito leguas havia
de percorrer! Ainda mais. Dado, mas não concedido que se podesse
conseguir tal velocidade, e ainda reputada esta sufficiente, nem o obuz
poderia resistir á pressão dos gazes, que se haviam de desenvolver pela
inflammação de um milhão e seiscentas mil libras de polvora, nem que
resistisse a essa pressão poderia supportar temperatura de tal ordem.
Havia sim de derreter-se ao sair da columbiada, e cair em chuva de fogo
por sobre os craneos dos imprudentes espectadores. Barbicane nem deu
mostras de perceber o ataque, e proseguiu na obra encetada.
[Figura: Foi necessario pôr sentinellas á vista aos deputados (pag.
103).]
Nicholl então discutiu o assumpto por outra ordem de considerações; não
fallando já na provada inutilidade da experiencia sob todos os
respeitos, considerou-a como extremamente perigosa, quer para os
cidadãos que viessem auctorisar com a sua presença tão condemnavel
espectaculo, quer para as cidades que ficassem proximas do deploravel
canhão; fez tambem notar que se o projectil não alcançasse o alvo, o
contrario do que era aliás absolutamente impossivel, evidentemente havia
de cair na Terra, e que a quéda de uma massa d'aquella ordem,
multiplicada pelo quadrado da respectiva velocidade, viria a pôr em
grave risco um qualquer ponto do globo: em conclusão que, em
circumstancias taes, casos havia em que, sem atacar nem de leve os
direitos dos cidadãos livres, se tornava necessaria a intervenção do
governo, poisque se não devia pôr em risco a segurança de todos por dar
satisfação aos caprichos de um só.
[Figura: Abriram-se as subscripções (pag. 108).]
Do que deixâmos dito se deprehende qual o grau de exageração a que se
deixára arrastar o capitão Nicholl. Da opinião que professava era o
capitão sectario unico, e por conseguinte ninguem lhe ligou importancia
ás agourentas prophecias. Deixaram-no gritar á vontade, e que seccasse
os bofes, já que o levava em gosto.
Fizera-se o capitão defensor de uma causa de antemão perdida: ouviam-no,
mas ninguem o escutava, e nem um só admirador pôde arrancar ao
presidente do Gun-Club. Este nem se deu ao trabalho de refutar os
argumentos do adversario.
Nicholl, mettido n'este beco sem saída, e sem poder ao menos arriscar o
corpo em prol da causa que defendia, resolveu arriscar ao menos o
dinheiro. Em consequencia propoz publicamente no _Enquirer_ de Richmond
uma serie de apostas em proporção ascendente, cujo quadro é o seguinte:
Apostava o capitão:
1.^o Que não chegariam a realisar-se fundos sufficientes para levar
a effeito o emprehendimento do Gun-Club 1:000 dollars
2.^o Que a operação de fundir um canhão de novecentos pés de
comprimento era impraticavel e não podia ter bom exito 2:000
dollars
3.^o Que havia de ser impossivel carregar a columbiada, e que o
pyroxylo se havia de inflammar por si proprio só pela pressão do
projectil 3:000 dollars
4.^o Que a columbiada havia de rebentar ao primeiro tiro 4:000
dollars
5.^o Que a bala não havia de percorrer nem seis milhas de
trajectoria, e tornaria a cair na Terra alguns segundos depois de
disparado o tiro 5:000 dollars
Por aqui se vê que importante somma arriscava o capitão, só por
sustentar a sua invencivel teimosia. Eram nada menos de quinze mil
dollars[47].
Apesar da importancia da aposta, recebeu o capitão no dia 19 de maio um
bilhete lacrado, concebido nos termos de soberbo laconismo que se
seguem:
«Baltimore, 18 de outubro.--Acceito.--_Barbicane_.»
CAPITULO XI
A FLÓRIDA E O TEXAS
Entretanto estava ainda uma questão por decidir; faltava escolher logar
propicio para fazer a experiencia. Segundo as recommendações do
observatorio de Cambridge, devia o tiro ser dirigido perpendicularmente
ao plano do horisonte, isto é, para o zenith; e visto como a Lua não
chega ao zenith senão dos logares terrestres situados entre 0^o e 28^o
de latitude, ou, por outras palavras, como a declinação lunar maxima é
apenas de 28^o[48], estava o problema reduzido a determinar exactamente
o ponto do globo onde deveria ser fundida a immensa columbiada.
No dia 20 de outubro estava reunido o Gun-Club em sessão magna, e
Barbicane levára comsigo um magnifico mappa dos Estados Unidos, de Z.
Belltropp. Porém J.-T. Maston, sem lhe dar tempo nem para o desenrolar,
pediu a palavra com a sua vehemencia habitual, e encetou o debate nos
seguintes termos:
«Honrados collegas, o assumpto que vae hoje aqui ser discutido tem uma
importancia verdadeiramente nacional, e vae offerecer-nos occasião de
praticarmos um grande acto de patriotismo.»
Os socios do Gun-Club olharam uns para os outros, sem que ninguem
lograsse attingir o ponto de mira do orador.
«Nenhum de vós, proseguiu este, pensa sequer em transigir em cousa que
diga respeito á gloria do seu paiz, e se algum direito ha que a União
possa com justiça reivindicar, é por certo o de conter em seus flancos o
formidavel canhão do Gun-Club. Ora, nas circumstancias actuaes...
--Caro Maston, interrompeu o presidente.
«Permitti-me que desenvolva o meu pensamento, proseguiu o orador. Nas
circumstancias actuaes somos forçados a escolher um logar terrestre
sufficientemente proximo do equador, para que a experiencia seja feita
em boas condições...
--Se me daes licença, tornou Barbicane.
--Peço livre discussão das idéas de cada um, replicou o effervescente
J.-T. Maston, e sustento que o territorio d'onde ha de partir o nosso
glorioso projectil deve ser parte integrante da União americana.
--Isso não tem a menor duvida! responderam alguns socios.
--Pois bem! Já que nossas fronteiras não são bastantemente amplas, já
que pela parte do sul o Oceano nos oppõe insuperavel obstaculo, já que
nos é forçoso ir alem dos Estados Unidos e a um paiz limitrophe buscar
esse vigesimo oitavo parallelo, considero o facto como um legitimo
_casus belli_, e proponho que se declare guerra ao Mexico!
--Nada! isso não! exclamaram de todos os lados.
--Não! replicou J.-T. Maston. É essa uma palavra que pasmo de ouvir
n'este recinto!
--Mas attendei!...
--Nunca! Não tenho que attender! exclamou o fogoso orador. Mais tarde ou
mais cedo ha de vir a realisar-se essa guerra, e o que vos proponho é
que rebente hoje mesmo.
--Maston, disse Barbicane, forçando a attenção do orador pela ruidosa
detonação da campainha presidencial, retiro-vos a palavra!
Maston ainda queria replicar, mas alguns dos collegas conseguiram
conte-lo.
«Concordo, disse Barbicane, em que a experiencia não póde nem deve ser
tentada senão em terras da União; mas se o meu impaciente amigo me
tivera deixado fallar, se tivera sequer volvido os olhos para um mappa,
saberia que é perfeitamente inutil declarar guerra aos vizinhos, visto
como algumas das fronteiras dos Estados Unidos se estendem alem do
parallelo vigesimo oitavo. Senão vejam: temos ao nosso dispor toda a
parte meridional do Texas e das Floridas.»
Terminou por aqui o incidente; mas não foi sem custo que J.-T. Maston se
deixou convencer. Decidiu-se, em consequencia, que a columbiada havia de
ser fundida e moldada no solo do Texas ou no da Florida. Porém esta
resolução estava destinada para fazer nascer uma rivalidade sem exemplo
entre as cidades d'estes dois estados.
O vigesimo oitavo parallelo corta a costa americana pela peninsula da
Florida, que divide em duas partes approximadamente iguaes, lança-se
depois no golpho do Mexico, e subtende o arco formado pelas costas do
Alabama, do Mississipi e da Luiziania. Passa d'ahi ao Texas, do qual
corta uma saliencia, e prolonga-se através do Mexico, transpõe a Sonora,
salta por cima da velha California e vae perder-se nos mares do
Pacifico. Não havia pois senão as porções da Florida e do Texas,
situadas ao sul d'esse parallelo, que estivessem nas condições de
latitude recommendadas pelo observatorio de Cambridge.
Na parte meridional da Florida não se encontram cidades de importancia,
e só por ali pullulam fortalezas levantadas para servir de defeza contra
os indios nomadas. Só uma cidade, Tampa-Town, podia reclamar em favor da
sua situação na lide e apresentar-se com alguns direitos a ser
attendida.
Pelo contrario, no Texas são mais numerosas e mais importantes as
cidades. Corpus-Christi no _condado_ de Nucces, e todas as cidades
situadas no Rio Bravo, taes como Laredo, Comalites e Santo Ignacio; no
Web, taes como Roma e Rio Grande City; no Stow, taes como Edimburgo; no
Hidalgo, Santa Rita, El Panda e Brownsville e as do Caméron formaram uma
liga imponente contra as pretensões da Florida.
Assim, logo que se tornou publica a resolução chegaram a Baltimore pela
via mais rapida os deputados floridenses e texianos, e a partir d'esse
momento o presidente Barbicane e os socios de influencia do Gun-Club
viram-se cercados dia e noite de reclamações formidaveis.
Na Grecia foram sete as cidades que disputaram a honra de terem sido
berço de Homero; aqui dois Estados inteiros estiveram quasi a chegar ás
do cabo por causa de um canhão.
Viram-se então aquelles «ferozes irmãos» passeiar armados pelas ruas da
cidade. E sempre que se encontravam era de temer conflicto, que poderia
ter serias consequencias.
Mas emfim lá estavam a habilidade e a prudencia do presidente Barbicane
para conjurar o perigo. Ás demonstrações pessoaes serviu de derivativo a
publicidade dos jornaes dos differentes Estados. Foram sustentaculos da
causa do Texas o _New York Herald_ e a _Tribuna_, ao passo que o _Times_
e a _American Review_ tomaram decididamente as partes pelos deputados
floridenses.
Os socios do Gun-Club é que não sabiam a quem haviam de dar ouvidos.
Apresentava-se altivo o Texas com seus vinte e seis condados, dispostos
a modo de bateria; respondia-lhe a Florida, que para territorio seis
vezes menor valem doze condados mais do que vinte e seis.
O Texas impava com os seus trezentos e trinta mil indigenas; mas a
Florida, que tem menor superficie, jactava-se de poder reputar-se mais
povoada com os seus cincoenta e seis mil; e não ficava por aqui: chegava
a accusar o Texas de possuir certa especialidade de febres paludosas,
que uns annos por outros lhe vinham a custar alguns milhares de
habitantes, e o caso é que não mentia.
O Texas, pela sua parte replicava: que a respeito de febres, nada tinha
a Florida que lhe invejar, e que era, pelo menos, imprudente quem
chamava aos outros paizes insalubres, tendo a honra de ter em casa o
_vomito negro_ no estado chronico. E o caso é que o Texas tambem fallava
verdade.
«Demais a mais, accrescentavam os texianos pela via do _New-York
Herald_, de alguma consideração é credor o estado onde nasce o melhor
algodão de toda a America, o estado que produz a melhor madeira de
carvalho para construcção de navios, o estado que tem nas entranhas dos
seus terrenos soberba _hulha_, e minas taes, que o seu producto em ferro
é de cincoenta por cento do minerio puro.»
A isto replicava o _American Review_, que o solo da Florida, sem ter
aliás tantas riquezas, offerecia todavia melhores condições para moldar
e fundir a columbiada, visto como era composto de areias e terras
argillosas.
Porém, tornavam os do Texas, antes de fundir seja lá o que for n'um paiz
qualquer, é preciso lá ir; e as communicações com a Florida são
difficeis, entretanto que a costa do Texas tem a bahia de Galveston, que
mede quatorze leguas em seu contorno, e que era capaz de alojar a um
tempo todas as esquadras do mundo.
Pois muito bem! É essa então a via de communicação que apresentaes; a
bahia de Galveston, que está situada ao norte do vigesimo nono
parallelo?
E nós não temos a bahia do Espirito Santo, que se abre precisamente no
vigesimo oitavo grau de latitude, e pela qual os navios vão directamente
até Tampa-Town?
--Bonita bahia! respondia o Texas; meia entupida pelas areias!
--Entupidos estarão elles! exclamava a Florida. Cuidam que tratam com
algum paiz de selvagens?
--Verdade é, que os seminolas ainda fazem correrias nas planicies da
Florida!
--E então! e os apaches, e os comanches, é gente civilisada!»
Proseguia este dize tu direi eu havia já dias, quando os da Florida
tentaram arrastar os adversarios para outro terreno. Uma bella manhã o
_Times_ insinuou surrateiramente, que como o emprehendimento era
«essencialmente americano», não podia ser tentado senão em territorio
«essencialmente americano!»
--Estas palavras fizeram ir aos ares os do Texas: «Americanos! e não o
seremos nós com tanto direito como vós outros? Pois o Texas e a Florida
não foram ambos encorporados na União em 1845?
--Ninguem o contesta, respondeu o _Times_, mas nós cá sempre pertencemos
ao numero dos americanos desde 1820.
--Bem sabemos, replicou a _Tribuna_; foram hespanhoes ou inglezes por
alguns duzentos annos, e depois foram vendidos aos Estados Unidos por
cinco milhões de dollars!
--E isso que importa! replicaram os da Florida, é acaso motivo que nos
faça córar? E a Luiziania não foi comprada a Napoleão em 1803, por
dezeseis milhões de dollars!?[49]
É mesmo uma vergonha! clamaram os deputados de Texas. Atrever-se um
miseravel bocado de terra tal como a Florida a querer comparar-se com o
Texas, que em vez de se vender conquistou por seus proprios esforços a
independencia, que expulsou os mexicanos em 2 de março de 1836, que se
declarou republica federativa depois da victoria alcançada por Samuel
Houston nas margens do San-Jacinto sobre as tropas de Sant'Anna!
Finalmente, com um paiz que se uniu voluntariamente aos Estados Unidos
da America!
--É porque tinha medo dos mexicanos!» respondeu a Florida.
Medo! desde o dia em que escapou tal palavra, na realidade um tanto
violenta, a _posição tornou-se_ intoleravel. Era crença geral que
haveria carnificina dos dois partidos nas ruas de Baltimore. Julgou-se
necessario mandar guardar os deputados com sentinellas á vista.
O presidente Barbicane é que não sabia para onde se havia de virar.
Choviam-lhe em casa notas, documentos, cartas prenhes de ameaças. Que
solução havia de adoptar? Em relação ao apropriado do solo, á facilidade
de communicações, da rapidez dos transportes, não havia differença nos
direitos dos dois estados. Ás personalidades politicas não havia que
attender em assumpto tal.
Durava esta hesitação, esta perplexidade ha muito, quando Barbicane
tomou a resolução de cortar de vez o nó; fez por conseguinte reunir os
collegas e propoz-lhes uma solução profundamente sensata, como vae
ver-se.
«Reflectindo seriamente, lhes disse, no que acaba de passar-se entre a
Florida e o Texas, é claro que hão de reproduzir-se as mesmas
difficuldades entre as cidades do estado que favorecermos. A rivalidade
ha de descer do genero á especie, do estado á cidade, e nós ficaremos na
mesma. Ora o Texas possue onze cidades nas condições requeridas, que hão
de disputar entre si a honra do emprehendimento, e se escolhermos alguma
d'ellas, vamos forjar por nossas proprias mãos novos dissabores,
entretanto que a Florida só tem uma. Seja pois a Florida o estado, e
Tampa-Town a cidade escolhida!»
Esta decisão, logoque se deu a publico, foi o ultimo golpe nos deputados
do Texas, dos quaes se apossou _indescriptivel furia_, chegando a
dirigir provocações pessoaes aos socios do Gun-Club. Não tiveram mais
remedio os magistrados de Baltimore, e foi d'elle que usaram, do que
fazer apromptar um comboio especial, onde por vontade ou por força
obrigaram a embarcar os do Texas, que largaram assim da cidade com a
rapidez de trinta milhas por hora.
Porém, apesar da velocidade, com que íam levados, ainda lhes sobrou
tempo para arremessarem aos adversarios um ultimo e ameaçador sarcasmo.
Alludindo á pequena largura da Florida, estreita peninsula apertada
entre dois mares, affirmaram que não havia de resistir ao abalo do tiro,
e que havia de despedaçar-se com a força d'elle.
«Pois deixa-la despedaçar!» responderam os da Florida com laconismo
digno dos tempos antigos.
CAPITULO XII
URBI ET ORBI
Vencidas as difficuldades astronomicas, mechanicas e topographicas,
vinha naturalmente a pêllo a questão de dinheiro. A realisação do
projecto exigia uma despeza enorme. Não havia particular nem mesmo
estado que podesse dispor só por si de tantos milhões quantos eram
necessarios.
Tomou portanto o presidente Barbicane a resolução de fazer do
emprehendimento, ainda que americano, um negocio de interesse universal,
e de pedir a todos os povos a sua cooperação financeira. Era a um tempo
dever e direito de toda a terra intervir nos negocios do seu satellite.
A subscripção aberta em Baltimore n'este sentido estendeu-se ao mundo
inteiro, _urbi et orbi_.
Estava esta subscripção destinada a ter um exito superior a tudo que era
de esperar, apesar de se tratar de quantias dadas que não emprestadas. A
operação era puramente desinteressada, porque não apresentava nem remota
probabilidade de lucro.
Porém o effeito da proposta Barbicane, e que não tinha parado nas
fronteiras dos Estados Unidos; antes tinha saltado por cima do Atlantico
e do Pacifico, para invadir a um tempo a Asia e a Europa, a Africa e a
Oceania. Os differentes observatorios da União pozeram-se desde logo em
communicação immediata com os observatorios do estrangeiro; alguns, como
o de Paris, de Petersburgo, do Cabo, de Berlim, de Altona, de
Stockholmo, de Varsovia, de Hamburgo, de Buda, de Bolonha, de Malta, de
Lisboa, de Benarés, de Madrasta, de Pekin dirigiram cumprimentos de
felicitação ao Gun-Club; outros conservaram-se em prudente expectativa.
[Figura: A fabrica de Goldspring, perto de New York (pag. 112).]
O observatorio de Greenwich, esse, com approvação dos outros vinte e
dois estabelecimentos similares da Gran-Bretanha, foi claro e
terminante; e negou com firmeza a possibilidade de bom exito, seguindo
sem hesitação as theorias do capitão Nicholl. E n'estes termos, ao passo
que muitas sociedades scientificas promettiam até enviar delegados seus
a Tampa-Town, o pessoal scientifico do observatorio de Greenwich reunido
em sessão, apresentada a proposta Barbicane, passou brutalmente á ordem
do dia.
[Figura: Tampa-Town, antes da operação (pag. 117).]
Bello ciume de inglez para americano, nada mais.
Em geral, foi excellente o effeito produzido no mundo scientifico, e
d'ahi se communicou ás massas, que, pela maior parte, se tomaram de
paixão pelo assumpto. Facto este de magna importancia, poisque estas
mesmas massas iam ser convidadas a subscrever para a realisação de um
capital consideravel.
No dia 8 de outubro já o presidente Barbicane tinha publicado um
manifesto cheio de enthusiasmo, no qual appellava para «todos os homens
de boa vontade da Terra.» Este documento, aliás traduzido em todas as
linguas, deu optimo resultado.
Abriram-se as subscripções parciaes nas principaes cidades da União,
para serem centralisadas no banco de Baltimore, rua de Baltimore n.^o 9,
e depois nos differentes estados dos dois continentes:
Em Vienna na casa S.-M. de Rothschild;
Em Petersburgo, casa Stieglitz e C.^a;
Em Paris, no Credito mobiliario;
Em Stockholmo, casa Totie e Arfuredson;
Em Londres, casa de N.-M. de Rothschild e filhos;
Em Turim, casa Ardouin e C.^a;
Em Berlim, casa Mendelsohn;
Em Genebra, casa Lombard, Odier e C.^a;
Em Constantinopla, no Banco ottomano;
Em Bruxellas, casa S. Lambert;
Em Madrid, casa Daniel Weisweller;
Em Amsterdam, no Credito neerlandez;
Em Roma, casa Torlonia e C.^a;
Em Lisboa, casa Lecesne;
Em Copenhague, no Banco privativo;
Em Buenos-Ayres, no banco Mauá;
No Rio de Janeiro, na mesma casa;
Em Montevideo, na mesma casa;
Em Valparaizo, casa Thomás La Chambre e C.^a;
No Mexico, casa Martin Daran e C.^a;
Em Lima, casa Thomaz La Chambre e C.^a
Tres dias depois da publicação do manifesto do presidente Barbicane
estavam subscriptos nas differentes cidades da União, quatro milhões de
dollars[50]. Com esta somma, por conta de maior quantia, já o Gun-Club
podia ir fazendo alguma cousa. Dias depois, noticiavam os despachos
telegraphicos á America que as subscripções no estrangeiro eram cobertas
com verdadeiro enthusiasmo. Alguns paizes faziam-se notaveis pela
generosidade da sua offerta. A outros lá custava mais a desapertar os
cordões á bolsa. Questão de temperamento.
Em summa, mais eloquentes são os algarismos que as palavras, e eis a
descripção official das sommas que foram escripturadas no activo do
Gun-Club, logoque se encerrou a subscripção.
A Russia deu como contingente a enorme quantia de trezentos sessenta e
oito mil setecentos e trinta e tres rublos[51], e só poderá causar
espanto a grandeza da quantia a quem desconhecer o gosto dos russos
pelas sciencias, e o progresso que imprimem aos estudos astronomicos,
devido aos numerosos observatorios que possuem, dos quaes um, o de mais
importancia, custou dois milhões de rublos.
A França começou por se rir das pretensões dos americanos. Serviu ali a
Lua de pretexto a mil calembourgs já estafados, e a algumas dezenas de
_vaudevilles_ em que o mau gosto e a ignorancia disputavam primazias.
Porém os francezes, que já de antiga data trazem o habito de cantar e
ainda em cima pagar, d'esta vez riram, mas tambem depois pagaram,
subscrevendo com a quantia de um milhão e duzentos e cincoenta tres mil
novecentos e trinta francos[52]. Por este preço realmente assistia-lhes
o direito de se divertirem um bocado.
A Austria, apesar dos seus apertos financeiros, mostrou generosidade
bastante. Elevou-se a parte d'esta potencia, na contribuição geral, á
quantia de duzentos e dezeseis mil florins[53], que bem boa conta
fizeram.