--Mas impraticavel, respondeu Barbicane. Nada, penso que o machinismo

deve ser moldado mesmo no solo, guarnecido de arcos de ferro forjado, e

apertado n'uma obra bem espessa e solida de pedra e cal, por forma que

adquira toda a resistencia do terreno circumdante. Depois de fundida a

peça ha de se lhe brocar, calibrar e polir a alma com extremo cuidado,

para evitar que exista o vento[39] da bala.

[Figura: Vista ideal do canhão de J.-T. Maston (pag. 70).]

Por esta fórma não ha de haver perda alguma de gazes e a força expansiva

da polvora transformar-se-ha toda em impulsão.

[Figura: O monge Schwartz inventando a polvora (pag. 77).]

--Hurrah! hurrah! clamou J.-T. Maston, já temos canhão.

--Ainda não! respondeu Barbicane, acalmando com o gesto a impaciencia do

amigo.

--E porque não?

--Porque ainda lhe não discutimos a fórma. Ha de ser canhão, obuz ou

morteiro?

--Canhão, replicou Morgan.

--Obuz, redarguiu o major.

--Morteiro, clamou J.-T. Maston.

Nova e vehemente discussão ia encetar-se; cada qual preconisava já a sua

arma favorita, quando o presidente a interrompeu de prompto, dizendo:

«Meus amigos, vou pô-los a todos de accordo; a nossa columbiada ha de

ter alguma cousa de cada uma das tres bôcas de fogo indicadas. Ha de ser

canhão, por ter a camara da polvora de diametro igual ao da alma. Obuz,

porque ha de arremessar obuzes. Finalmente será morteiro, visto como ha

de ser apontada por um angulo de 90^o, e que, sem poder recuar,

inabalavelmente ligada ao solo, communicará ao projectil toda a potencia

de impulsão que se lhe accumular no ventre.

--Adoptado, adoptado, conclamaram os membros da commissão.

--Permittam-me uma simples reflexão, disse Elphiston, ha de ser raiado

esse canh-obuz-morteiro?

--Não, respondeu Barbicane, não; precisâmos de uma enorme velocidade

inicial, e sabeis muito bem que as balas sáem menos velozes dos canhões

raiados do que dos canhões de alma lisa.

--É exacto.

--Até que emfim d'esta vez é que já temos canhão! repetiu J.-T. Maston.

--Ainda não é tanto assim, replicou o presidente.

--Então porque?

--Porque ainda não sabemos de que metal ha de ser feito.

--Decida-se isso sem demora.

--Era o que eu ia propor-vos».

Cada um dos membros da commissão foi engulindo a sua duzia de sandwiches

acompanhadas de um bule de chá, depois recomeçou a discussão.

«Meus bons collegas, disse Barbicane, o nosso canhão deve ter grande

tenacidade e grande dureza, e ser infusivel pelo calor, insoluvel e

inoxydavel pela acção corrosiva dos acidos.

--Isso não tem duvida alguma, respondeu o major, e como ha de ser

necessario empregar uma quantidade consideravel de metal, não havemos de

hesitar muito na escolha.

N'esse caso, disse Morgan, proponho para a fabricação da columbiada a

melhor das ligas que é conhecida até hoje, isto é, cem partes de cobre,

doze de estanho e seis de latão.

--Meus amigos, respondeu o presidente, confesso que esta composição tem

dado excellentes resultados; mas para o nosso caso, custaria

excessivamente cara, e difficilmente poderiamos emprega-la.

Cuido portanto que devemos adoptar uma materia excellente, e de baixo

preço, tal como o ferro fundido.

Não será esta a vossa opinião, major?

--Exactamente, respondeu Elphiston.

--Com effeito, proseguiu Barbicane, o ferro fundido, custa dez vezes

mais barato que o bronze, é de facil fusão, molda-se com simplicidade em

moldes de areia, manipula-se com rapidez; dá pois simultaneamente

economia de tempo e de dinheiro. Alem d'isto esta materia é excellente,

e bem me recordo de que, durante a guerra, no cêrco de Atlanta, algumas

peças de ferro fundido atiraram cada uma mil tiros de vinte em vinte

minutos, sem que por isso soffressem alteração.

--Todavia, o ferro fundido é muito quebradiço, respondeu Morgan.

--É verdade, mas tambem é muito resistente, e de mais asseguro-vos que

não havemos de rebentar, por isso respondo eu.

--Rebentar não é deshonra, replicou em ar de sentença J.-T. Maston.

--Está claro, respondeu Barbicane. Pedirei portanto ao nosso digno

secretario que nos calcule o peso de um canhão de ferro fundido, de

novecentos pés de comprimento e com um diametro interior de nove pés, e

com as paredes de seis pés de espessura.

--N'um instante, respondeu J.-T. Maston.

E, assim como fizera na vespera, escrevinhou umas formulas, com

facilidade de pasmar, e disse passado um minuto.

«Esse canhão ha de pesar sessenta e oito mil e quarenta toneladas

(68.040:000 kilogrammas).»

--E a dois centesimos[40] (10 centimos) por libra, ha de custar?...

--Dois milhões quinhentos e dez mil setecentos e um dollars (13.608:000

francos).»

J.-T. Maston, o major e o general olharam para Barbicane com ar de

inquietação.

«E então! Repito-lhes, senhores, o que já lhes disse hontem, estejam

descansados, que os milhões não nos hão de faltar.»

Seguros na palavra do seu presidente, separaram-se os membros da

commissão, depois de terem combinado para o dia seguinte a terceira

sessão.

CAPITULO IX

QUESTÃO DA POLVORA

Só faltava tratar da questão da polvora. Esperava o publico com

anciedade esta decisão final. Dados o volume do projectil e o

comprimento do canhão, qual seria a quantidade de polvora necessaria

para produzir a impulsão? Aquelle agente temivel, de que o homem,

todavia conseguiu dominar e dirigir os effeitos, ia ser chamado a

desempenhar o seu papel habitual, mas em proporções nunca usadas.

É geralmente acreditado, e diz-se vulgarmente, que a polvora foi

inventada no seculo XIV, pelo monge Schwartz, que pagou com a vida a

grande descoberta que fizera. Mas na actualidade quasi que se póde dar

como provado que esta historia merece ser classificada a par de muitas

outras lendas da idade media. A polvora ninguem a inventou, deriva

directamente dos fogos gregos, como ella compostos de enxofre e de

salitre. A differença é que os mixtos que em tempos remotos davam apenas

polvora de foguete transformaram-se, com o decorrer dos tempos, em

mixtos detonantes ou polvoras de tiro. Porém se os eruditos conhecem

perfeitamente a imaginaria historia da invenção da polvora, pouca gente

ha que saiba devidamente apreciar a sua potencia mechanica, que é

exactamente o que é necessario saber para comprehender a importancia do

assumpto sujeito á commissão.

Um litro de polvora pesa, proximamente, duas libras (900 grammas)[41], e

produz quando se inflamma quatrocentos litros de gazes; estes gazes, em

liberdade, e sob a acção de uma temperatura elevada até dois mil e

quatrocentos graus, occupam um espaço equivalente a quatro mil litros.

Portanto o volume da polvora em grão está para o volume dos gazes

produzidos pela sua deflagração, assim como um está para quatro mil.

Avalie-se por isto a espantosa impulsão que hão de produzir estes gazes,

quando comprimidos n'um espaço quatro mil vezes mais apertado do que o

que naturalmente haviam de occupar.

Isto tudo sabiam, e perfeitamente, os membros da commissão quando no dia

seguinte abriram a sessão. Barbicane concedeu a palavra ao major

Elphiston, que tinha sido director das fabricas de polvora no tempo da

guerra.

«Caros camaradas, disse aquelle notavel chimico, vou começar pela

citação de algarismos irrecusaveis que hão de ser a base dos nossos

calculos. A bala de vinte e quatro, de que em termos tão poeticos nos

fallou antes de hontem o honrado J.-T. Maston, é expellida da bôca de

fogo apenas por dezeseis libras de polvora.

--Estaes seguro d'esse algarismo? Perguntou Barbicane.

--Absolutamente seguro, respondeu o major. O canhão Armstrong carrega-se

só com setenta e cinco libras de polvora para um projectil de oitocentas

libras de peso, e a columbiada de Rodman não gasta mais de sessenta

libras de polvora para arremessar a seis milhas de distancia a sua bala

de meia tonelada. São factos que não podem ter contestação, porque eu

proprio tomei nota d'elles nas actas da commissão de artilheria.

--Muito bem, respondeu o general.

--Ora pois! proseguiu o major, a consequencia que devemos tirar d'estes

dados é a seguinte: que a quantidade de polvora não augmenta na

proporção do peso da bala; e, na verdade, são necessarias dezeseis

libras de polvora para uma bala de vinte e quatro; por outras palavras,

gastam-se nos canhões ordinarios quantidades de polvora que pesam um

terço do peso da bala, mas a proporcionalidade não é constante. Se

fizessemos o calculo, haviamos de reconhecer que para a bala de meia

tonelada, o peso da polvora necessaria, que se reduz a sessenta libras

apenas, seria, segundo a proporção, de trezentas e trinta e tres libras.

--E a que conclusão quereis por ahi chegar? Perguntou o presidente.

Levando essa theoria até aos seus ultimos limites, meu caro major, disse

J.-T. Maston, haveis de chegar á seguinte conclusão final: que, se póde

dispensar a polvora, toda a vez que a bala exceda um certo peso.

--O nosso Maston é sempre faceto, mesmo quando se trata de cousas

serias, mas esteja descansado que lhe hei de propor quantidades de

polvora, capazes de lisonjear o seu amor proprio de artilheiro. O que eu

pretendo que fique claramente estabelecido, é que, no tempo da guerra, o

peso da polvora foi, por experiencia, reduzido para os maiores canhões á

decima parte do peso da bala.

--Nada ha mais verdadeiro, disse Morgan. Lembro entretanto, que será

conveniente que accordemos ácerca da natureza da polvora, antes de

decidir qual é a quantidade d'ella necessaria para a impulsão calculada.

--Havemos de usar da polvora bombardeira, respondeu o major, porque a

combustão total d'esta é mais rapida que a da polvora miuda.

--É verdade, replicou Morgan, mas é muito quebradiça, e no fim de tempos

vem a deteriorar a alma das peças.

--Ora! isso poderia ser um inconveniente para qualquer canhão destinado

a fazer longos serviços, mas para a nossa columbiada não. Perigo de

explosão não temos nós que temer, o que é essencial é que a polvora se

inflamme instantaneamente, para que o seu effeito mechanico seja

completo.

--Talvez se podesse abrir na peça mais de um ouvido, disse J.-T. Maston,

e assim dar fogo em muitos pontos simultaneamente.

--Pois sim, respondeu Elphiston, mas isso iria difficultar a manobra.

Insisto portanto na minha bombardeira, que evita essas difficuldades.

--Vá, respondeu o general.

[Figura: O capitão Nicholl (pag. 78).]

--Rodman, proseguiu o major, usava para carregar a sua columbiada de uma

polvora, cujos grãos eram do tamanho de uma castanha, e fabricada com

carvão de salgueiro mal torrado em caldeiras de ferro fundido. Esta

polvora era dura e luzidia, e incendiando-se na mão não deixava

vestigios; continha hydrogenio e oxygenio em grandes proporções, ardia

instantaneamente, e, apesar de ser muito quebradiça, não deteriorava

sensivelmente as bôcas de fogo.

[Figura: Nicholl publicou grande numero do cartas (pag. 91).]

--Em vista d'isso, respondeu J.-T. Maston, parece-me que não ha que

hesitar, e que a escolha está de per si feita.

--A não ser que deis preferencia ao oiro _pulverisado_, replicou rindo,

o major, riso que o susceptivel secretario pagou com um gesto ameaçador

do seu gancho.

Barbicane conservára-se até aquelle momento estranho á discussão.

Deixava fallar e ouvia. Era evidente que tinha o juizo formado ácerca do

assumpto. Por isso limitou-se a dizer o seguinte:

«Em conclusão, meus amigos, que quantidade de polvora, reputaes

necessaria?»

Entre-olharam-se por um momento os tres socios do Gun-Club.

«Duzentas mil libras, disse por fim Morgan.

--Quinhentas mil, replicou o major.

--Oitocentas mil!» exclamou J.-T. Maston.

D'esta vez não se atreveu Elphiston a alcunhar o collega de exagerado. E

com rasão, que se tratava de arremessar á Lua um projectil de vinte mil

libras de peso, e de communicar a este uma força inicial de doze mil

jardas por segundo. Seguiu-se portanto um momento de silencio á triplice

proposta feita pelos tres collegas.

Quebrou-o finalmente o presidente Barbicane.

«Estimaveis camaradas, disse este com voz placida, parto eu do

principio, que a resistencia do nosso canhão, construido nas condições

requeridas, é illimitada. Portanto vou causar surpreza ao honrado J.-T.

Maston, affirmando-lhe que ainda foi timido nos seus calculos, e

proponho que sejam duplicadas as oitocentas mil libras de polvora em que

fallou.

--Um milhão e seiscentas mil libras? disse J.-T. Maston, dando um salto

na cadeira.

--Nada menos.

--Mas, n'esse caso, voltâmos ao meu canhão de meia milha de comprimento.

--É claro, disse o major.

--Um milhão e seiscentas mil libras de polvora, continuou o secretario

da commissão, hão de occupar um espaço igual a vinte e dois mil pés

cubicos[42] approximadamente; e como o canhão em que accordastes tem um

volume interno apenas igual a cincoenta e quatro mil pés cubicos[43], ha

de ficar cheio até quasi ao meio, sendo por esta forma a alma pequena,

para que a força expulsiva dos gazes imprima ao projectil impulsão

bastante.

Isto não tinha replica. O que J.-T. Maston dizia era a pura verdade.

Voltaram-se todos para Barbicane.

«Apesar de tudo, tornou o presidente, insisto na quantidade de polvora

que indiquei. Reflecti que um milhão e seiscentas mil libras de polvora

hão de transformar-se em seis milhares de milhões de litros de gazes.

Ouviram bem? Seis milhares de milhões!

--Mas então o que se ha de fazer? perguntou o general.

--É muito facil; havemos de reduzir o volume d'esta enorme quantidade de

polvora, sem lhe diminuir por fórma alguma a potencia mechanica.

--Bem! Mas por que meio?

--É o que vou dizer-vos, respondeu sem nenhum entono Barbicane.

Os interlocutores devoravam-n'o com o olhar.

«Com effeito, continuou elle, nada é mais facil do que reduzir essa

massa de polvora a um volume quatro vezes menor. Todos tendes

conhecimento d'essa curiosa substancia que constitue os tecidos

elementares dos vegetaes e que se chama cellulose.

--Ah! interrompeu o major. Começo a comprehender, meu caro Barbicane.

--Essa substancia, disse o presidente, extrahe-se no estado de perfeita

pureza de diversos corpos, e principalmente do algodão, que não é senão

a penugem das sementes do algodoeiro. Ora o algodão, combinado a frio

com o acido azotico, transforma-se em uma substancia eminentemente

insoluvel, eminentemente combustivel e eminentemente explosiva.

Descobriu esta substancia ha já annos, em 1832, o chimico francez

Braconnot, e poz-lhe o nome de xyloidina. Em 1838 outro francez,

Pelouze, estudou-lhe as differentes propriedades; e finalmente em 1846,

Shonbein, professor de chimica em Bâle, propo-la para polvora de guerra.

Esta polvora é o algodão azotico.

--Ou pyroxylo, respondeu Elphiston.

--Ou algodão-polvora, respondeu Morgan.

--Pois não haverá um nome de americano que se possa escrever ao lado

d'essa descoberta? exclamou J.-T. Maston, movido por vivo sentimento de

amor proprio nacional.

--Infelizmente nem um só, respondeu o major.

--Apesar d'isso, continuou o presidente, por dar prazer a Maston, sempre

lhe direi que póde estabelecer-se proxima relação entre os trabalhos de

um nosso concidadão e o estudo da cellulose; porque o collodion, que é

um dos agentes principaes da photographia, não é senão pyroxylo

dissolvido em ether misturado com alcool, e o collodion foi descoberto

por Maynard, que era então estudante de medicina em Boston[44].

--Pois então, hurrah! por Maynard e pelo algodão-polvora! exclamou o

ruidoso secretario do Gun-Club.

--Voltemos ao pyroxylo, proseguiu Barbicane. Conheceis-lhe já as

propriedades que no-lo vão tornar precioso: prepara-se com extrema

facilidade: é mergulhar algodão no acido azotico fumegante durante

quinze minutos, lava-lo depois em grande quantidade de agua, secca-lo e

nada mais.

--É na realidade extremamente simples, disse Morgan.

--Alem d'isto o pyroxylo é inalteravel pela humidade, qualidade que

devemos reputar preciosa, visto como hão de ser necessarios muitos dias

para carregar o nosso canhão; é inflammavel a cento e setenta graus

centigrados, em vez de duzentos e quarenta, e arde tão subitamente, que

póde ser queimado em cima de polvora vulgar, sem que esta tenha tempo de

inflammar-se.

--Perfeitamente, respondeu o major.

--Tem só um inconveniente: é caro.

--Isso que importa? interrompeu J.-T. Maston.

--Em conclusão; communica aos projectis velocidade quatro vezes maior

que a da polvora. Acrescentarei ainda que, misturado com oito decimos do

seu peso de nitrato de potassa, lhe augmenta a potencia explosiva em

proporção notavel.

--E será necessario faze-lo? perguntou o major.

--Creio que não, respondeu Barbicane. Em conclusão, em vez de um milhão

e seiscentas mil libras de polvora, teremos apenas quatrocentas mil

libras de algodão-polvora, e como se podem comprimir sem perigo, em

vinte e sete pés cubicos, quinhentas libras de algodão azotico, esta

substancia vem a encher a nossa columbiada sómente até á altura de

trinta toezas. Por esta maneira terá a bala a percorrer mais de

setecentos pés de alma do canhão, sob a acção do esforço de seis

milhares de milhões de litros de gazes antes de voar em liberdade para o

astro das noites.»

Ao ouvir o final d'este periodo não pôde, de commovido, conter-se J.-T.

Maston; lançou-se nos braços do amigo com vehemencia de projectil;

mettia-lhe as costellas dentro, se a solida construcção de Barbicane não

estivera á prova de bomba.

Terminou com este incidente a terceira sessão da commissão. Barbicane e

os seus audazes collegas, a quem nada parecia impossivel, tinham acabado

de resolver o problema tão complexo do projectil, do canhão e das

polvoras. Elaborado o plano, restava a execução.

«Insignificantes pormenores, bagatella», lhe chamava J.-T. Maston.

CAPITULO X

UM INIMIGO POR VINTE E CINCO MILHÕES DE AMIGOS

O publico americano encontrava poderosos incentivos de curiosidade até

nos mais insignificantes pormenores do emprehendimento do Gun-Club, e

seguia passo a passo as discussões da commissão.

Os preparativos mais simples para aquella grande experiencia, as

questões de algarismos que d'ella nasciam, as difficuldades mechanicas

que havia a resolver, n'uma palavra a sua _mise en train_ eram o que

preoccupava em grau elevadissimo a opinião.

Mais de um anno havia de decorrer ainda entre o começo e o termo final

dos trabalhos preparatorios; mas este intervallo de tempo não havia de

ser esteril em emoções; a escolha de logares para a perfuração, a

construcção do molde, a fundição da columbiada e o perigosissimo

carregamento d'ella, tudo era mais que sufficiente para excitar a

curiosidade publica.

O projectil, apenas expellido, havia de escapar em poucos decimos de

segundo ao alcance da vista; depois para poucos privilegiados era verem

com os proprios olhos o que lhe havia de succeder, como se haveria

através do espaço, e por que fórma havia de alcançar a Lua. Por este

motivo é que os preparativos para a experiencia e os exactos pormenores

da execução eram, para a maioria, a parte verdadeiramente interessante

d'ella.

E todavia o attractivo puramente scientifico do emprehendimento recebeu

de um subito incidente novo incitamento.

Já dissemos de quão numerosas legiões de admiradores e amigos tinha o

projecto Barbicane trazido a adhesão ao seu auctor, e comtudo por mais

honrosa e extraordinaria que fosse, aquella maioria não tinha de ter

unanimidade. Um só homem, um só em todos os Estados da União, lavrou

protesto contra a tentativa do Gun-Club, que atacou com violencia sempre

que se lhe proporcionou para isso occasião; e, tal é a natureza humana,

que para Barbicane valeu mais aquella opposição de um só do que os

applausos de todos os outros.

Apesar de que Barbicane bem conhecia quaes os motivos de tal antipathia,

e d'onde vinha aquella solitaria inimizade, que era pessoal e de antiga

data, e finalmente em que rivalidades de amor proprio creára raizes.

Aquelle perseverante inimigo, nunca o presidente do Gun-Club o tinha

visto. E felizmente, porque o encontro d'aquelles dois homens havia por

certo de trazer consequencias funestas.

Aquelle rival era, como Barbicane, um homem de sciencia, natureza

altiva, audaz, convicta e violenta, um yankee puro. Chamavam-lhe o

capitão Nicholl, e habitava em Philadelphia.

Ninguem desconhece a curiosa luta que durante a guerra federal se travou

entre o projectil e a couraça dos navios blindados; aquelle tinha por

fito especial varar esta; esta obstinava-se decididamente a não se

deixar varar.

D'este facto proveio uma transformação de raiz na marinha dos

differentes estados dos dois continentes.

Bala e couraça lutaram com obstinação nunca vista; crescia o volume de

uma, augmentava logo a espessura da outra, e em constante proporção.

Os navios marchavam para o fogo armados de peças formidaveis e abrigados

por invulneravel concha. Os _Merrimac_, os _Monitor_, os _Ram-Tenesse_,

os _Weckausen_[45] arremessavam enormes projectis, depois de

encouraçados contra os projectis alheios. Faziam a outrem o que não

queriam que lhes fizessem, que é o principio immoral sobre que assenta

toda a arte da guerra.

Ora se Barbicane fôra notavel fundidor de projectis, Nicholl não lhe

ficára a dever nada como forjador de chapas para couraças. Fundia um de

noite e de dia em Baltimore, forjava o outro de dia e de noite em

Philadelphia. Cada um d'elles seguia ordem de idéas diametralmente

oppostas.

Barbicane a inventar nova bala, e Nicholl a inventar nova couraça.

Passava o presidente do Gun-Club a vida a abrir buracos, e o capitão

gastava os dias da existência a impedir-lh'o. D'aqui nasceu uma

rivalidade de todos os instantes, que dos factos foi passando ás

pessoas. Apparecia Nicholl a Barbicane em sonhos sob fórma de

impenetravel couraça de encontro á qual se ia fazer pedaços, Barbicane

apparecia nas visões nocturnas de Nicholl qual projectil que o varava de

lado a lado.

E comtudo, apesar de caminharem por linhas divergentes, estes homens

tinham de encontrar-se um dia, apesar de todos os axiomas da sciencia

geometrica; mas havia de ser no terreno do duello. Muito felizmente para

cidadãos tão uteis ao seu paiz, separavam-nos boas cincoenta ou sessenta

milhas, e os amigos de ambos semearam-lhe o caminho de taes e tantos

obstaculos, que nunca conseguiram encontrar-se.

Lá qual dos dois inventores levava a palma ao outro, é que ninguem sabia

ao certo: os resultados obtidos tornavam difficil apreciar com justiça.

No fim de contas, o que mais plausivel parecia, é que a couraça havia de

ser a primeira a ceder á bala, e todavia para os competentes ainda era

caso de duvida. Por occasião das ultimas experiencias feitas, os

projectis cylindro-conicos de Barbicane tinham ido espetar-se como

alfinetes nas couraças de Nicholl; n'esse dia reputou-se o forjador de

chapas de couraça de Philadelphia plenamente victorioso, e o mais

profundo desprezo pareceu-lhe ainda sentimento demasiadamente elevado

para pagar os merecimentos do seu rival; mas quando este, algum tempo

depois, substituiu por simples obuzes de seiscentas libras as balas

conicas, teve o capitão que descer do alto pedestal das suas pretensões.

E na realidade estes projectis, aindaque animados de mediocre

velocidade[46], esmigalharam, esburacaram, fizeram voar em pedaços as

chapas de melhor metal.

Tinham as cousas chegado a estes pontos, e a todos parecia que a bala

devia ficar com a palma da victoria, quando terminou a guerra no mesmo

dia em que Nicholl dava a ultima demão a uma nova couraça de aço

forjado! No seu genero, era esta verdadeira obra prima, e capaz de

desafiar todos os projectis imaginaveis. Fê-la o capitão transportar

para o polygono de Washington, e mandou cartel ao presidente do

Gun-Club, desafiando-o a vará-la.

Barbicane, como a paz já estava feita, não quiz tentar a experiencia.

Nicholl, então, furioso, offereceu expor a chapa que inventara ao choque

das balas mais inverosimeis, massiças, ôcas, esphericas ou conicas.

Recusa do presidente, que decididamente não queria arriscar os louros da

ultima victoria que alcançára.

Da terra à lua, viagem directa em 97 horas e 20 minutos · 第 4 / 15 段