Acreditavam por isso na influencia mysteriosa do astro das noites sobre

os destinos do homem; consideravam-no como _verdadeiro contrapeso_ da

existencia; pensavam que cada selenita está ligado a um habitante da

Terra por um vinculo sympathico; sustentavam, como o dr. Mead, que o

systema vital está inteiramente dependente das influencias lunares,

affirmando, sem admittir replica, que os rapazes nascem quasi

exclusivamente na Lua nova, e as raparigas no quarto minguante, etc.,

etc. Mas por fim não houve mais remedio senão renunciar ás crendices e

erros vulgares, e contentar-se sómente com a verdade, e se a Lua,

despojada da sua influencia, perdeu a importancia para os espiritos de

alguns d'aquelles que são cortezãos de todos os poderes, se alguns lhe

voltaram as costas, nem por isso deixou de ter por si a manifestação de

uma immensa maioria. Consistiu desde então a unica ambição de todos os

yankees em tomar posse d'aquelle novo continente aerio e em arvorar no

mais alto vertice d'elle a bandeira estrellada dos Estados Unidos da

America.

CAPITULO VII

O HYMNO DA BALA

O observatorio de Cambridge tinha estudado, na memoravel carta de 7 de

outubro, o assumpto pelo lado astronomico, mas estava ainda sem solução

o problema mechanico. As difficuldades do caso pareceriam insuperaveis

em qualquer outro paiz do mundo, mas na America resolveu-se o negocio

como de brincadeira.

O presidente Barbicane, sem perda de tempo, tinha escolhido entre os

socios do Gun-Club uma commissão executiva. A commissão estava obrigada

a elucidar, em tres sessões, os tres grandes problemas do canhão, do

projectil e das polvoras; compunha-se de quatro membros todos muito

sabedores no assumpto, Barbicane, com voto de desempate, o general

Morgan, o major Elphiston, e finalmente o inevitavel J.-T. Maston, ao

qual foram confiadas as importantes funcções de secretario relator.

[Figura: A Columbiada Rodman (pag. 61).]

No dia 8 de outubro reuniu-se a commissão em casa do presidente

Barbicane, rua da Republica n.^o 3, e como fosse de grande importancia

que as exigencias do estomago não viessem a perturbar tão grave

discussão, sentaram-se os quatro socios do Gun-Club em volta de uma mesa

coberta de bandejas de sandwiches e de amplos bules de chá. Em seguida

atarraxou J.-T. Maston a pena no gancho de ferro que lhe servia de mão

direita e abriu-se a sessão.

[Figura: O canhão da ilha de Malta (pag. 63).]

Barbicane encetou a discussão pela seguinte fórma:

«Caros collegas, temos de resolver um dos problemas mais importantes da

balistica, a sciencia por antonomasia, a que trata do movimento dos

projectis, isto é, dos corpos arremessados ao espaço, por uma força de

impulsão qualquer e depois abandonados a si proprios.

--Ai! balistica! balistica! exclamou J.-T. Maston em tom commovido.

--Talvez parecesse mais logico, proseguiu Barbicane, dedicar esta

primeira sessão á discussão do machinismo...

--E na verdade, interrompeu o general Morgan.

--Todavia, continuou Barbicane, depois de reflectir maduramente,

pareceu-me que o assumpto projectil devia ter primazia sobre o assumpto

canhão, e que as dimensões d'este deveriam depender das d'aquelle.

--Peço a palavra, gritou J.-T. Maston.

Foi-lhe concedida a palavra com a boa vontade de que se tornava

merecedor pelos seus magnificos antecedentes.

«Meus bons amigos, disse Maston, em tom de inspiração, o nosso

presidente tem rasão em dar a primazia ao assumpto projectil sobre todos

os outros! A bala que ora vamos arremessar á Lua é um mensageiro, um

embaixador, e dêem-me licença que a considere pelo lado puramente

moral.»

Esta maneira nova de encarar um projectil excitou singularmente a

curiosidade dos membros da commissão; todos se prepararam para prestar a

mais solícita attenção ás palavras de J.-T. Maston.

«Caros collegas, proseguiu este; serei breve, porei de parte a bala

physica, a bala que mata, para considerar sómente a bala mathematica, a

bala moral. Para mim a bala é a mais esplendida manifestação do poder do

homem; na bala resume-se este poder todo inteiro, e foi quando a

inventou que o homem mais se approximou do Creador!

--Muito bem! disse o major Elphiston.

--E na verdade, exclamou o orador, se Deus fez as estrellas e os

planetas, o homem fez a bala, que é o _criterium_ das velocidades

terrestres e uma imitação, em menores proporções, dos astros que erram

no espaço, que não são mais do que outros tantos projectis! Pertence a

Deus a velocidade da electricidade, a Deus a velocidade da luz, a

velocidade das estrellas, a velocidade dos cometas, a velocidade dos

planetas, a velocidade dos satellites, a velocidade do som, a velocidade

do vento! Mas a nós os homens a velocidade da bala, cem vezes superior á

velocidade da locomotiva ou do mais rapido corcel!»

J.-T. Maston estava exaltado; entoando á bala este hymno sagrado,

percebiam-se-lhe na voz inflexões lyricas.

«Querem algarismos? proseguiu elle; ei-los, e que fallam bem alto! Olhem

simplesmente a modesta bala de vinte e quatro[33], que corre oitocentas

mil vezes menos veloz que a electricidade, seiscentas e quarenta mil

vezes menos veloz que a luz, setenta e seis vezes menos veloz que a

Terra, no movimento de translação em volta do Sol, e que todavia, quando

sáe do canhão, excede em rapidez o som[34], anda 200 toezas em cada

segundo, 2:000 toezas em 10 segundos, 14 milhas (6 leguas) em cada

minuto, 840 milhas (360 leguas) por hora, 27:100 milhas (8:640 leguas)

por dia, ou, o que vale o mesmo, 7.336:500 milhas (3.155:760 leguas) por

anno, velocidade igual á dos pontos do equador no movimento de rotação

do globo. Gastaria portanto 11 dias para ir á Lua, 12 annos para chegar

ao Sol, 360 annos para alcançar Neptuno, situado no extremo limite do

mundo solar. Eis o que fazia tão modesta bala, producto de mãos humanas!

Que será quando vintuplicando-lhe a velocidade, a arremessarmos com a

velocidade de 7 milhas por segundo! Ah! soberba bala! esplendido

projectil! Exulto em acreditar que has de ser recebida lá em cima com

todas as honras devidas a um embaixador terrestre!»

Com repetidos hurrahs applaudiram os auditores esta altisonante

peroração, e J.-T. Maston sentou-se extremamente commovido e recebendo

felicitações de todos os collegas.

«E agora, disse Barbicane, que já demos largas á poesia, atiremo-nos

directamente ao assumpto.»

--Estamos promptos, responderam os membros da commissão, absorvendo ao

mesmo tempo meia duzia de sandwiches por cabeça.

--Já tendes conhecimento do problema que temos de resolver, continuou o

presidente; trata-se de imprimir a um projectil uma velocidade de 12:000

jardas por segundo.

«Tenho rasões para acreditar que havemos de conseguir bom resultado.

Mas, por agora, limitemo-nos a examinar as velocidades obtidas até hoje;

o general Morgan póde instruir-nos cabalmente a este respeito.

--E com tanta maior facilidade, respondeu o general, que, durante a

guerra, fui eu membro da commissão de experiencias. Dir-vos-hei, pois,

que os canhões de cem de Dahlgreen, cujo alcance era de 2:500 toezas,

imprimiam ao projectil respectivo a velocidade inicial de 500 jardas por

segundo.

--Bem. E a Columbiada[35] Rodman, perguntou o presidente?

--A Columbiada Rodman, ensaiada no forte de Hamilton, proximo a New

York, arremessava uma bala, que tinha de peso meia tonelada, á distancia

de 6 milhas, com a velocidade de 800 jardas por segundo, resultado este

a que nunca chegaram, nem Armstrong, nem Palisser, em Inglaterra.

--Oh! os inglezes! murmurou J.-T. Maston, apontando para o horisonte

leste com o temivel gancho.

São portanto essas 800 jardas o _maximum_ de velocidade, proseguiu

Barbicane, que se tem podido obter até hoje?

--É verdade, respondeu Morgan.

--Todavia, replicou Maston, sempre devo dizer, que, se o meu morteiro

não tivera rebentado...

--Pois sim, mas rebentou, redarguiu Barbicane, acompanhando a resposta

com um gesto amigavel. Tomemos pois por ponto de partida a velocidade de

800 jardas. Ha de ser necessario vintuplica-la, e n'estes termos,

guardando para outra sessão o estudo dos meios proprios para produzir

tal velocidade, chamarei a vossa attenção, caros collegas, para as

dimensões que convem dar á bala.

Bem deveis imaginar que no caso presente não tratâmos de projectis que

pesem quando muito meia tonelada.

--E porque? perguntou o major?

--Porque a bala que estamos discutindo, respondeu promptamente J.-T.

Maston, deve ser bastantemente volumosa para solicitar a attenção dos

habitantes da Lua, se é que lá os ha.

--É verdade, redarguiu Barbicane, e tambem por outra rasão ainda mais

importante.

--E qual é ella, Barbicane ? perguntou o major.

--É que não me parece bastante mandar um projectil á Lua, e ficar só

n'isso; julgo necessario que o acompanhemos durante a viagem e até ao

momento de bater no alvo.

--O que! disseram a um tempo. O general e o major, um tanto

surprehendidos com a proposta.

--Certamente, continuou Barbicane, como quem está conscio do que diz, de

certo, e senão a nossa experiencia não produziria resultado algum.

--Mas n'esse caso, replicou o major, haveis de dar ao projectil

dimensões enormes?

--Nada. Ora tende a bondade de ouvir-me. Sabeis todos que os

instrumentos de optica têem alcançado um elevado grau de perfeição; com

certos telescopios tem-se conseguido obter augmentos de seis mil por um

e trazer assim a Lua á distancia proximamente de 40 milhas (16 leguas).

Ora a esta distancia são distinctamente visiveis os objectos que têem 60

pés de lado. E se não se tem levado mais longe o poder de augmento dos

telescopios é que a amplificação cresce na rasão inversa da clareza, e

porque a Lua, que não é senão um espelho de reflexão, não emitte luz

bastante intensa para que possa admittir amplificações que vão alem do

limite que indiquei.

--E então! que fazer? perguntou o general. Haveis de dar ao vosso

projectil 60 pés de diametro?

--Certamente que não!

--Tereis então de tornar a Lua mais luminosa?

--Justamente.

--Isso lá me parece muito! exclamou J.-T. Maston.

--É muito é verdade, mas muito simples, respondeu Barbicane. Com effeito

se eu conseguir que diminua a espessura da atmosphera que a luz da Lua

atravessa, acaso não terei tornado essa luz mais intensa!

--Evidentemente.

--Pois bem! Para obter tal resultado bastar-me-ha estabelecer um

telescopio em alguma montanha elevada. E é o que havemos de fazer.

--Basta, rendo-me, respondeu o major. Tendes uma tal maneira de

simplificar as cousas!

--E que amplificação esperaes obter por tal expediente?

--Uma amplificação de quarenta e oito mil por um, que ha de trazer-nos a

Lua a cinco milhas de distancia. N'esta hypothese bastará que qualquer

objecto tenha nove pés de lado para que seja perfeitamente visivel.

--Perfeitamente! exclamou J.-T. Maston, o nosso projectil ha de portanto

ter nove pés de diametro?

--Nem mais nem menos.

--Todavia, permittam-me que lhes diga, redarguiu o major Elphiston, que

ainda assim o projectil ha de ter um peso tal que...

--Oh! major, respondeu Barbicane, antes que discutamos o peso do

projectil consenti que vos diga que nossos paes faziam n'este genero

cousas realmente maravilhosas. Longe de mim a idéa de affirmar que a

balistica não tem progredido, mas bom é que se saiba que já na idade

media se obtinham resultados surprehendentes; ousarei até acrescentar,

mais para surprehender que os que nós hoje alcançâmos.

--Ora essa! replicou Morgan.

--Justificae o que affirmaes, exclamou com vehemencia J.-T. Maston.

--Nada mais facil, respondeu Barbicane; sobram-me os exemplos para

apoiar o que asseverei. Assim, no assedio de Constantinopla por Mahomet

II, em 1543, lançaram-se balas de pedra que pesavam mil e novecentas

libras, e que deviam ser de bonito tamanho.

--Oh! oh! disse o major, mil e novecentas libras, é já um algarismo

elevado!

--Em Malta, no tempo dos cavalleiros, um certo canhão do forte de

Sant'Elmo arremessava projectis que pesavam duas mil e quinhentas

libras.

--Parece impossivel!

--Finalmente, segundo diz um historiador francez, no reinado de Luiz XI,

havia um morteiro que lançava bombas do peso sómente de quinhentas

libras; em compensação estas bombas, partindo da Bastilha, logar onde os

loucos encarceravam os de espirito são, iam cahir em Charenton, logar

onde os de espirito são encarceravam os loucos.

--Muito bem! disse J.-T. Maston.

--E depois do que acabo de relatar, em summa, que temos visto? Os

canhões de Armstrong que arremessam balas de quinhentas libras, e as

Columbiadas Rodman projectis de meia tonelada! O que parece, portanto, é

que se os projectis ganharam em velocidade, perderam pelo menos em peso.

Se dirigirmos pois n'este sentido os nossos esforços, havemos de

conseguir, com o auxilio dos progressos da sciencia decuplicar o peso

das balas de Mahomet II e dos cavalleiros de Malta.

--Evidente, respondeu o major, mas que metal pensaes em empregar para

compor o projectil.

--Ferro fundido, nada mais, disse o general Morgan.

--Ora! ferro fundido! exclamou J.-T. Maston com profundo desdem, é cousa

bem ordinaria para fabricar uma bala destinada a ir á Lua.

--Nada de exagerações, honrado amigo, respondeu Morgan; ferro é quanto

basta.

--E então! replicou o major Elphiston; olhem que sendo o peso da bala

proporcional ao seu volume, uma bala de ferro fundido que tenha nove pés

de diametro ha de ainda ter um tal peso que mette medo!

--Assim será, se for massiça, mas não se for oca, disse Barbicane.

--Oca! então é um obuz?

--Onde podem metter-se correspondencias, replicou J.-T. Maston, e

amostras das producções terrestres!

--Sim, um obuz, respondeu Barbicane, assim é absolutamente necessario;

uma bala massiça de cento e oito pollegadas pesaria mais de duzentas mil

libras, peso evidentemente excessivo; todavia como julgo necessario

guardar as condições de estabilidade na construcção do projectil,

proponho que se lhe dê o peso de cinco mil libras.

--Qual ha de ser então a grossura das paredes? perguntou o major.

--Se nos cingirmos á proporção indicada nos regulamentos, continuou

Morgan, ao diametro de cento e oito pollegadas correspondem paredes de

dois pés de espessura, pelo menos.

--Seriam grossas de mais, respondeu Barbicane; notem bem, que se não

trata aqui de uma bala fabricada para furar couraças; basta que a bala

tenha paredes sufficientemente fortes para resistir á pressão dos gazes

da polvora.

O problema portanto é este: qual é a espessura que deve ter um obuz de

ferro fundido para que não pese mais de vinte mil libras?

O nosso habil calculador e bom amigo Maston no-lo dirá sem demora.

--Muito facilmente, replicou o honrado secretario da commissão.

E quando tal dizia ia já traçando no papel algumas formulas algebricas;

viram-se-lhe sair dos bicos da pena [Grego: p] e _x_ elevados ao

quadrado. Pareceu até que, sem lhe pôr a mão, extrahia, uma certa raiz

cubica, e disse:

«As paredes hão de ter apenas duas pollegadas de grossura.»

--E será bastante? perguntou o major, com ares de quem duvida.

--Não, respondeu o presidente Barbicane, é claro que não.

--E então! que se ha de fazer? continuou Elphiston com ares de grande

irresolução.

--Servir-se de outro metal e não do ferro fundido.

--Do cobre? disse Morgan.

--Nada, o cobre ainda é pesado demais, e tenho para vos propor cousa

melhor.

--Então que é? disse o major.

--O aluminium, respondeu Barbicane.

--Aluminium! exclamaram os tres collegas do presidente.

--Certamente amigos meus. Sabeis que um illustre chimico francez,

Henry-Sainte-Claire-Deville, conseguiu em 1854 obter o aluminium em

massa compacta. Ora este precioso metal tem a brancura da prata, a

inalterabilidade do oiro, a tenacidade do ferro, a fusibilidade do cobre

e é leve como vidro; modela-se com facilidade, está espalhado com

profusão na natureza, visto como a alumina é base da maior parte das

rochas, é tres vezes mais leve que o ferro, e parece ter sido

expressamente creado para fornecer-nos materia para o nosso projectil.

--Hurrah pelo aluminium! exclamou o secretario da commissão, sempre

extremamente ruidoso nos momentos de enthusiasmo.

--Mas, caro presidente, disse o major, não será extremamente elevado o

preço do aluminium?

--Assim era, respondeu Barbicane; nos primeiros tempos depois que foi

descoberto, custava a libra do aluminium entre duzentos e sessenta e

duzentos e oitenta dollars (approximadamente 1.500 francos[36]); depois

desceu a vinte e sete dollars (150 francos), e hoje finalmente, está a

nove dollars (48 francos e 75 centesimos).

--Mas a nove dollars por libra, replicou o major, que não cedia á

primeira, vem a dar ainda um preço enorme!

--Sem duvida, caro major, mas não inaccessivel.

--E, n'esse caso, qual ha de ser o peso do projectil? perguntou Morgan.

--O resultado dos meus calculos é o seguinte, respondeu Barbicane: uma

bala de cento e oito pollegadas de diametro e de doze pollegadas de

espessura[37], pesaria, no caso de ser de ferro fundido, sessenta e sete

mil quatrocentas e quarenta libras; sendo de aluminium fundido, o seu

peso ficará reduzido a dezanove mil duzentas e cincoenta libras.

--Muito bem! exclamou Maston, isso agora já cabe no nosso programma.

--Muito bem! Muito bem! Mas acaso ignoraes, que a dezoito dollars por

libra, esse projectil havia de custar-nos...

--Cento e setenta e tres mil duzentos e cincoenta dollars (928:437

francos e 50 centesimos), sei-o muito bem; mas não se assustem amigos,

não ha de faltar dinheiro para a realisação do nosso projecto; por isso

respondo eu.

--Ha de chover dinheiro nos nossos cofres, replicou J.-T. Maston.

--Então! que me dizem ao aluminium! perguntou o presidente.

--Está adoptado, responderam os tres membros da commissão.

--Quanto á fórma da bala, proseguiu Barbicane, pouca importancia tem,

visto como, logo que o projectil passe para alem da atmosphera, ha de

achar-se no vacuo, proponho portanto, que seja redonda, para que gire

sobre si mesmo, se o julgar conveniente, ou se porte como melhor lhe

ditar a phantasia.

Foi este o fecho da primeira sessão da commissão; ficou definitivamente

resolvida a questão do projectil, e J.-T. Maston exultou com a idéa de

mandar aos Selenitas uma Bala de aluminium «que havia dar-lhes a

entender que os habitantes cá da Terra eram uns pimpões!»

CAPITULO VIII

HISTORIA DO CANHÃO

As resoluções tomadas na primeira sessão produziram grandissimo effeito

no publico. Algum mais timorato lá se assustava com a idéa da bala que

havia de pesar vinte mil libras. Punha-se em duvida se poderia

construir-se canhão capaz de transmittir velocidade inicial bastante a

uma massa d'aquella ordem.

A acta da segunda sessão da commissão devia responder triumphantemente a

todas aquellas duvidas.

No dia seguinte ao cair da noite abancaram em volta da mesa os quatro

membros do Gun-Club defrontando com novas montanhas de sandwiches que

marginavam um verdadeiro oceano de chá. Atou-se o fio á discussão, e

d'esta vez sem preambulo.

«Caros collegas, disse Barbicane, vamos occupar-nos do machinismo que ha

a construir, estudando-lhe o comprimento, a fórma, a composição e o

peso. É provavel que havemos de concluir dando-lhe dimensões

gigantescas; mas, por maiores que sejam as difficuldades, o engenho

industrial dos americanos ha de vence-las com facilidade. Queiram

portanto ouvir-me, e não me poupem, venham objecções á queima roupa, que

as não temo!»

Estas palavras foram recebidas com um grunhido de approvação.

«Não esqueçamos, proseguiu Barbicane, a altura a que fomos levados

hontem pela discussão: apresenta-se-nos agora o problema nos seguintes

termos: imprimir a um obuz de cento e oito pollegadas de diametro, e que

pesa vinte mil libras a velocidade inicial de doze mil jardas por

segundo.

Com effeito, é exactamente esse o problema, respondeu o major Elphiston.

Prosigamos, tornou Barbicane. Que factos se passam, quando um projectil

é arremessado ao espaço? Tres forças independentes o solicitam, a

resistencia do meio, a attracção da Terra, e a força de impulsão que lhe

imprimiram. Examinemos estas tres forças. A resistencia do meio, que

aqui é a resistencia do ar, ha de ser de pouca importancia; porque a

atmosphera terrestre não tem mais de quarenta milhas (16 leguas

proximamente) de altura. Ora, com a rapidez de doze mil jardas, o

projectil ha de atravessa-la em cinco segundos, tempo bastantemente

curto para que a resistencia do meio possa ser considerada

insignificante. Passemos á attracção da Terra, ou o que vale o mesmo á

acção da gravidade sobre o obuz.

Sabemos que o peso d'este ha de decrescer na rasão inversa do quadrado

das distancias. Effectivamente ensina-nos a physica o seguinte: quando

um corpo abandonado a si proprio cáe á superfície da Terra, desce quinze

pés[38], e se o mesmo corpo fosse transportado para a distancia de

duzentos e cincoenta e sete mil quinhentas e quarenta e duas milhas, ou

o que é mesmo, á distancia a que está a Lua, o seu descenso ficaria

reduzido a meia linha, proximamente, no primeiro segundo. Quasi que é a

immobilidade. Trata-se portanto de vencer progressivamente a acção da

gravidade. E como havemos de consegui-lo? Pela força de impulsão.

--Ahi é que está a difficuldade, respondeu o major.

--Ahi está, na verdade, continuou o presidente, mas havemos de

supera-la, porque a força de impulsão de que havemos mister ha de

resultar do comprimento do machinismo e da quantidade de polvora que

empregarmos, e a verdade é que esta não tem mais limitação do que a

resistencia d'aquelle.

Tratemos pois hoje das dimensões que havemos de dar ao canhão. Bem

entendido está que podemos estabelece-lo em condições de resistencia,

por assim dizer, infinita, visto como com tal canhão não ha a fazer

manobras.

--Tudo isso é evidente, respondeu o general.

--Até agora, disse Barbicane, os canhões de maior comprimento, as nossas

enormes Columbiadas, nunca excederam o comprimento de vinte e cinco pés,

e portanto a muita gente hão de causar espanto as dimensões que havemos

de ser forçados a adoptar.

--Eh! indubitavelmente, exclamou J.-T. Maston; pela minha parte não me

contento com menos de meia milha de comprimento, para o canhão!

--Meia milha! exclamaram o major e o general.

--Meia milha sim! e talvez devesse dizer o dobro.

--Ora vamos, Maston, isso é exageração.

--Certamente que não, replicou o effervescente secretario, nem percebo,

na realidade, por que me accusaes de exagero.

--Porque ides longe de mais!

--Sabei, senhor, respondeu J.-T. Maston, assumindo os seus mais

imponentes ademanes, sabei que o artilheiro é como a bala, que nunca vae

longe de mais!

Ía a discussão tomando caracter de personalidade, mas o presidente

interveiu.

--Soceguem, amigos, e raciocinemos; evidentemente ha de ser necessario

um canhão de grande tamanho, visto como o comprimento da peça ha de

augmentar a força expulsiva dos gazes accumulados sob o projectil; mas é

inutil ir alem de certos limites.

--Muito bem, disse o major.

--Quaes são as regras applicaveis ao caso? De ordinario o comprimento do

canhão é igual a vinte até vinte e cinco vezes o diametro da bala, e

pesa o canhão duzentas e trinta e cinco a duzentos e quarenta vezes o

peso d'esta.

--Não é bastante, clamou impetuoso, J.-T. Maston.

--Convenho n'isso, meu digno amigo, e, na realidade, se nos cingirmos á

proporção apontada, para um projectil de 9 pés de largura e de 30:000

libras de peso, não terá o machinismo mais do que 225 pés de comprimento

e de 7.200:000 libras de peso.

--É ridiculo, redarguiu J.-T. Maston. Tanto vale usar de uma pistola!

--Tambem penso assim, respondeu Barbicane, e é por isso que tenho tenção

de quadruplicar esse comprimento, e de construir um canhão de 900 pés de

comprido.

O general e o major apresentaram algumas objecções, entretanto a

proposta sustentada com animação pelo secretario do Gun-Club foi a final

definitivamente adoptada.

«Decidido este ponto, disse Elphiston, que espessura havemos de dar ás

paredes?

--Seis pés, respondeu Barbicane.

--De certo que não imaginaes collocar uma massa d'essa ordem em cima de

um reparo? perguntou o major.

--Isso é que havia de ser soberbo! disse J.-T. Maston.

Da terra à lua, viagem directa em 97 horas e 20 minutos · 第 3 / 15 段