em cada dia 13^o, 10' e 35", deve estar afastada do ponto zenithal
quatro vezes esta grandeza, isto é, 52^o, 42' e 20", espaço que
corresponde ao caminho que ha de andar durante o percurso do projectil.
Mas como se deve tambem attender ao desvio que ha de vir ao projectil do
movimento de rotação da Terra, e como, quando a bala chegar á Lua, este
desvio deve ter attingido uma grandeza igual a dezeseis raios
terrestres, que contados sobre a superficie da Lua, dão proximamente
11^o, devem juntar-se estes 11^o aos já mencionados, que exprimem o
atrazo da Lua, o que dá 64^o em numeros redondos.
«Consequentemente o raio visual dirigido para a Lua deve, no momento do
tiro, fazer com a vertical do logar um angulo de 64^o.
«Taes são as respostas ás perguntas feitas pelos socios do Gun-Club ao
observatorio de Cambridge.
«Em resumo:
«1.^o O canhão deve ser collocado n'uma região situada entre o equador e
os parallelos de 28 graus de latitude norte ou sul.
«2.^o Deve ser dirigido para o zenith do logar.
«3.^o O projectil deve ir animado de uma velocidade inicial de doze mil
jardas por segundo.
«4.^o Deve ser lançado no dia 1.^o de dezembro do anno proximo, ás onze
horas menos treze minutos e vinte segundos.
«5.^o O projectil ha de encontrar a Lua, quatro dias depois da partida,
no dia 4 de dezembro á meia noite exacta, no momento em que o astro
passa pelo zenith.
«Devem portanto os socios do Gun-Club dar começo sem demora aos
trabalhos necessarios para realisar um emprehendimento de tal ordem, e
prepararem-se para a execução no momento determinado, porque se deixarem
passar a data indicada de 4 de dezembro, só dezoito annos e onze dias
depois volverá a Lua a entrar nas mesmas condições em relação ao zenith
e ao perigeo.
«O pessoal scientifico do observatorio de Cambridge fica inteiramente á
disposição do Gun-Club para todos os assumptos de astronomia theorica, e
aproveita a occasião da presente para juntar as suas felicitações ás da
America inteira.
«Pelo pessoal scientifico do estabelecimento.--_J. M. Belfast_, director
do observatorio de Cambridge.»
CAPITULO V
O ROMANCE DA LUA
Um observador dotado de vista infinitamente penetrante e collocado no
centro, n'aquelle centro ignoto, em torno do qual gravita o mundo, teria
visto, na epocha cahotica do universo, o espaço cheio de myriades de
atomos. Mas pouco e pouco, com o volver dos seculos produziu-se uma
mudança; manifestou-se uma lei de attracção, á qual obedeceram os atomos
outr'ora errantes; combinaram-se estes atomos chimicamente, segundo suas
affinidades, fizeram-se moleculas e formaram esses aggregados nebulosos
de que estão semeadas as profundezas do céu.
Animaram-se então estes aggregados de um movimento de rotação em volta
do seu ponto central, e este centro formado de moleculas vagas poz-se
tambem a girar sobre si mesmo, ao passo que se ia progressivamente
condensando. Segundo as leis immutaveis da mechanica, á medida que se
lhe minguava o volume pela condensação, ia-se-lhe accelerando o
movimento de rotação e, persistindo estes dois effeitos, de cada centro,
resultou uma estrella principal, novo centro do aggregado nebuloso.
Se o observador olhasse então attentamente, teria visto succeder com as
outras moleculas do aggregado, o mesmo que succedêra com a estrella
central: condensaram-se adquirindo simultaneamente um movimento de
rotação progressivamente accelerado, e gravitaram em torno da central,
transformadas em outras tantas estrellas. E assim ficava formada uma
nebulosa[25]. Não menos de cinco mil nebulosas conhecem, na actualidade,
os astronomos.
Ha uma, entre estas cinco mil nebulosas, a que os homens chamaram via
lactea[26], e que contém dezoito milhões de estrellas, cada uma das
quaes se transformou em centro de um mundo solar.
Se o observador, rodeado por estes dezoito milhões de astros, volvesse
especialmente a attenção para um dos mais modestos e menos
brilhantes[27], para uma estrella de quarta ordem, que orgulhosamente
appellidâmos _o Sol_, debaixo dos olhos lhe teriam succedido todos os
phenomenos a que é devida a formação do universo.
Effectivamente havia de ver esse Sol, ainda no estado gazoso e composto
de moleculas moveis, a girar em torno do proprio eixo para concluir o
trabalho de concentração, e este movimento, subordinado ás leis da
mechanica, havia accelerar-se com a diminuição do volume, e um instante
havia de chegar em que a força centrifuga venceria a força centripeta,
que attrahe as moleculas para o centro.
Outro phenomeno então havia de realisar-se diante dos olhos do
observador, as moleculas situadas no plano do equador, soltando-se como
a pedra da funda de que subito rebenta a corda, haviam de ir formar, em
volta do Sol, anneis concentricos como o de Saturno. A estes anneis de
materia cosmica, animados de movimento de rotação em volta da massa
central, chegaria depois a vez de partir-se e decompor-se em
nebulosidades secundarias, o que vale o mesmo que dizer, em planetas.
Concentrada então toda a attenção do observador sobre os planetas havia
de ver realisarem-se n'elles os mesmos phenomenos que observára no Sol.
De cada um d'elles dimana um ou mais anneis cosmicos, origens dos astros
de ordem inferior a que chamâmos satellites.
Subindo assim do atomo á molecula, da molecula ao aggregado nebuloso, do
aggregado nebuloso á nebulosa, da nebulosa á estrella principal, da
estrella principal ao Sol, do Sol ao planeta, do planeta ao satellite,
examinâmos a serie inteira de transformações por que passaram os corpos
celestes desde os primeiros dias do mundo.
O Sol, que parece perdido na immensidade do mundo estellar, está todavia
ligado pelas ultimas theorias da sciencia á nebulosa chamada via lactea.
Ainda que no meio das regiões ethereas nos pareça pequeno, é todavia o
centro de um mundo, e é enorme, poisque o seu volume é igual a mil e
quatrocentas vezes o volume da Terra. Em torno d'ella gravitam oito
planetas, que nos primeiros tempos da creação lhe sairam das proprias
entranhas. São estes planetas, progredindo do mais proximo até ao mais
remoto, Mercurio, Venus, a Terra, Marte, Jupiter, Saturno, Urano e
Neptuno. Alem d'estes circulam, regularmente entre Marte e Jupiter,
outros corpos de volume menos consideravel, talvez restos errantes de
algum astro quebrado em milhares de pedaços; d'estes conta o telescopio
não menos de noventa e sete[28]. Alguns d'estes servidores que o Sol
mantém nas respectivas orbitas ellipticas por força da grande lei da
gravitação, tambem têem seus satellites. Urano tem oito, Saturno oito,
Jupiter quatro, Neptuno talvez tres, a Terra só um; este, que é um dos
menos importantes do mundo solar, chama-se Lua, e é o que o engenho
audaz dos americanos pretendia conquistar.
O astro das noites, já pela proximidade relativa a que está, já por
virtude do espectaculo rapidamente renovado das diversas phases que
apresenta, partilhou sempre com o Sol a attenção dos habitantes da
Terra; mas o olhar para o Sol cansa, e os esplendores da luz solar
forçam os contempladores d'este astro a baixar os olhos.
A loura Phoeba é mais humana, e cheia de modesta graça deixa-se ver com
complacencia; é suave para a vista, pouco ambiciosa, e comtudo toma ás
vezes a liberdade de eclipsar seu irmão, o radiante Apollo, sem que
nunca fosse eclipsada por este. Comprehenderam os mahometanos a gratidão
que era devida á fiel amiga da Terra; por isso regularam pela revolução
d'ella a contagem dos mezes[29].
Votaram os primeiros povos culto particular a esta casta deusa.
Chamaram-lhe os egypcios Isis, os phenicios Astartea, e os gregos
adoraram-n'a sob o nome de Phoeba, como filha de Jupiter e de Latona, e
explicavam os eclipses por visitas mysteriosas de Diana ao bello
Endymião.
Diz-nos a lenda mythologica, que o leão de Nemea, antes de apparecer na
Terra, percorrêra as campinas da Lua, e o poeta Agesianax, citado por
Plutarcho, celebrou em verso os dois olhos, o encantador nariz e a bôca
amavel, que figuram as partes luminosas da adoravel Seléné.
[Figura: Vista da Lua (pag. 47).]
Porém se os antigos comprehenderam perfeitamente o caracter, o
temperamento, emfim as qualidades moraes da Lua, sob o ponto de vista
mythologico, não é menos verdade, que os mais sabedores d'elles eram
extremamente ignorantes pelo que diz respeito a selenographia.
[Figura: Barbicane levanta-se para fallar (pag. 58).]
Todavia, muitos dos astronomos d'essas epochas longiquas, descobriram
algumas particularidades confirmadas pela sciencia dos nossos dias, e se
os arcadios pretenderam ter habitado a Terra em epocha em que ainda não
existia a Lua, se Simplicius a julgou immovel e ligada á abobada de
crystal, se Tatius a considerou como um fragmento destacado do disco
solar, se Clearco, discipulo de Aristoteles, fazia d'ella um espelho
polido em que se reflectia a imagem do Oceano, se outros finalmente a
consideraram como um aggregado de vapores exhalados pela Terra, ou um
globo, metade de fogo, metade de gêlo, que girava sobre si mesmo, alguns
sabios por meio de observações sagazes, e postoque desajudados de
instrumentos de optica, suspeitaram pelo menos a existencia da maior
parte das leis que regem o astro das noites.
Assim é que Thales de Mileto, 460 annos antes de Jesus Christo, opinou
que a Lua era illuminada pelo Sol. Aristarcho de Samos deu verdadeira
explicação das phases. Cleomene ensinou que o brilho do disco lunar
vinha de luz reflexa. Berosio o chaldaico descobriu que a duração de uma
rotação da Lua era igual á da sua revolução, e explicou por esta fórma o
facto da Lua ser vista da Terra sempre pela mesma face. Finalmente
Hipparco, duzentos annos antes da era christã, reconheceu a existencia
de desigualdades nos movimentos apparentes do satellite da Terra.
Estas differentes observações foram confirmadas no decorrer dos tempos e
serviram de proveito aos astronomos mais modernos. Ptolomeu no seculo
XVI, e o arabe Abul-Wefa no seculo X completaram as indicações feitas
por Hipparco ácerca das desigualdades que apparenta o movimento da Lua
na linha ondulada, que tem por orbita, sob a acção do Sol.
Mais proximos de nós, Copernico, no seculo XV, e Tycho Brahe no seculo
XVI explicaram completamente o systema do mundo e o papel que desempenha
a Lua no conjuncto dos corpos celestes.
N'esta epocha ficaram, com muita approximação, determinados todos os
movimentos lunares, mas da constituição physica do astro pouca cousa era
conhecida.
Foi por esse tempo que Galileu explicou os phenomenos luminosos que
succediam em algumas phases, pela existencia de montanhas lunares, a que
attribuiu uma altura media de 4:500 toezas.
Depois de Galileu, Hevelius, astronomo de Dantzig, avaliou mais pelo
baixo as mais elevadas d'estas alturas em 2:600 toezas; verdade é que
Riccioli, confrade d'este, tornou a corrigir esta apreciação,
elevando-as a 7:000 toezas.
Nos fins do seculo XVIII Herschell, ajudado por um telescopio de
poderoso alcance, reduziu mui notavelmente as medidas precedentes,
attribuindo ás montanhas mais altas a elevação de 1:900 toezas, e
abaixando a media das differentes alturas a 400 toezas, não mais.
Mas tambem Herschell se enganava, e só pelas observações de Shroeter,
Louville, Halley, Nasmyth, Bianchini, Pastorf, Lohrman, Gruithuysen, e
principalmente pelos estudos pacientes de Beer e Moedler se conseguiu
resolver definitivamente o problema. Graças a estes homens de sciencia é
hoje perfeitamente conhecida a elevação das montanhas da Lua.
Por virtude d'estes mesmos trabalhos completava-se o reconhecimento da
Lua; apparecia o astro crivado de crateras, e affirmava-se mais em cada
observação a natureza vulcanica d'elle. Concluiu-se da ausencia de
refracção nos raios dos planetas occultados pela Lua, a falta quasi
absoluta de atmosphera n'este astro.
Da falta de ar seguia-se concludentemente a falta de agua. Ficou
portanto bem claro, que se existiam selenitas, deviam, para existir em
taes condições, possuir organisação especial e notavelmente differente
da dos habitantes da Terra.
Finalmente, graças aos methodos novos, empregaram-se em constantes
inquirições ácerca da Lua instrumentos mais perfeitos; não deixaram os
astronomos por explorar nem um só ponto da sua face visivel, devendo
notar-se que o diametro lunar mede 2:150 milhas[30]; a superficie é 1/13
avos da superficie do nosso globo[31], o volume é 1/49 avos do volume do
espheroide terrestre; mas nenhum dos segredos da Lua podia occultar-se
aos olhos dos astronomos, e estes habeis homens de sciencia foram ainda
mais longe nas prodigiosas observações que relatâmos.
Por esta fórma notaram os observadores, que na epocha da lua cheia
apparecia o disco do astro, em algumas regiões, raiado por linhas
brancas, e nas epochas das outras phases, raiado por linhas negras.
Estudando com mais attenção o phenomeno, conseguiram perceber
exactamente a natureza d'aquellas linhas. Eram sulcos compridos e
estreitos, cavados entre margens parallelas e que em geral iam terminar
nos contornos de crateras.
O comprimento dos sulcos estava comprehendido entre 10 e 100 milhas, e a
largura era proximamente de 800 toezas. Deram-lhes os astronomos o nome
de _ranhuras_; mas a dar-lhe este nome se limitou o seu saber. O
problema de saber se estas ranhuras eram ou não leitos seccos de antigos
rios não poderam resolve-lo completamente. Os americanos já concebiam a
esperança de que, mais dia menos dia, haviam de determinar com exactidão
aquelle facto geologico. Reservavam tambem para opportunidade propria
fazer um reconhecimento sobre a serie de trincheiras parallelas
descobertas na superficie da Lua por Gruithuysen, sabio professor de
Munich, que as reputa um systema de fortificações levantadas pelos
engenheiros selenitas. Estes dois pontos, ainda obscuros, e certamente
muitos outros, nunca poderão ser definitivamente regulados, sem que se
estabeleça primeiro communicação directa com a Lua.
Em relação á luz lunar nada havia já que aprender: era sabido que era
trezentas mil vezes mais fraca que a do Sol, e que o calor que a
acompanha não tem acção apreciavel sobre os thermometros. O phenomeno da
luz cendrada esse explica-se naturalmente pelo effeito dos raios do Sol
reflectidos na Terra, e que depois da reflexão se dirigem para a Lua.
Parece por este phenomeno completar-se o disco lunar, quando nas epochas
da sua primeira e ultima phase se nos apresenta sob a fórma de um
crescente.
O que deixâmos dito representava o peculio de conhecimentos adquiridos,
em relação ao satellite da Terra, peculio que o Gun-Club tentava
acrescentar sob todos os pontos de vista cosmographicos, geologicos,
politicos e moraes.
CAPITULO VI
O QUE NÃO É POSSÍVEL IGNORAR E O QUE JÁ NÃO É PERMITTIDO ACREDITAR NOS
ESTADOS UNIDOS
A proposta Barbicane tivera como resultado immediato trazer para a tela
da discussão todos os factos astronomicos, relativos ao astro das
noites. Todos se empenharam em estuda-lo com assiduidade. Parecia que a
Lua apparecêra pela vez primeira acima do horisonte, e que ninguem ainda
a tinha visto nos céus. Tornou-se o astro da moda; foi durante algum
tempo a _leôa_ do dia, sem que por isso parecesse menos modesta, e tomou
logar entre as _estrellas_, sem que d'ahi lhe viesse maior altivez. Os
jornaes resuscitaram as antigas anecdotas, em que desempenhava papel o
_sol dos lobos_: trouxeram á memoria do publico as influencias que
attribuiu á Lua a ignorancia dos primeiros seculos; cantaram-n'a emfim
em todos os tons, e pouco faltou para que lhe attribuissem algum dito
chistoso. A America inteira foi atacada de selenomania.
As revistas scientificas tambem por sua parte estudaram o assumpto; mas,
tratando mais especialmente dos problemas que diziam respeito ao
projecto do Gun-Club, deram publicidade á carta do observatorio de
Cambridge, commentando-a e approvando-a sem restricções.
Por encurtar diremos que não foi desde então permittido, nem ao mais
illetrado de todos os yankees, ignorar um unico facto relativo ao nosso
satellite, nem á mais crendeira de todas as velhas matronas americanas,
continuar agarrada aos erros supersticiosos, que lhe dizem respeito.
Entrava-lhes a sciencia em casa sob todas as fórmas; penetrava-lhes
pelos olhos e pelos ouvidos; era impossivel ser um asno... em assumptos
astronomicos.
Até então muitas pessoas ignoravam como podéra calcular-se a distancia
que ha entre a Terra e Lua. Aproveitou-se a occasião para lhes ensinar
que esta distancia se avaliava pela medida da parallaxe lunar. E a quem
a palavra parallaxe causava estranheza dizia-se, que significava o
angulo formado por duas linhas rectas tiradas de cada uma das
extremidades do raio terrestre para a Lua.
A quem punha em duvida a perfeição do methodo, provava-se, sem detença,
que não sómente a distancia da Terra á Lua era na realidade de duzentas
e trinta e quatro mil trezentas e quarenta e sete milhas (94:330
leguas), mas tambem que os astronomos não erravam n'esta avaliação nem
setenta milhas (30 leguas).
Aos que estavam pouco ou nada familiarisados com os movimentos da Lua,
demonstravam os jornaes quotidianamente que este astro tem dois
movimentos distinctos, o primeiro chamado de rotação, em torno de um
eixo; o segundo chamado de revolução, em volta da Terra, que ambos se
completam em tempos iguaes, isto é, em vinte e sete dias e um terço
[32].
O movimento de rotação é o que dá origem aos dias e ás noites na
superficie da Lua, devendo notar-se que não ha senão um dia e uma noite
por mez lunar, e que cada dia ou cada noite dura trezentas e cincoenta e
quatro horas e um terço. Mas, por felicidade da Lua, a sua face, que
está voltada para o globo terrestre, é illuminada por este com a
intensidade luminosa de quatorze luas. A outra face, que é sempre
invisivel, tem por isso mesmo trezentas e cincoenta e quatro horas de
noite absoluta, apenas temperada pela _pallida claridade que dimana das
estrellas_. Este phenomeno provém unicamente da particularidade já
citada, de que os movimentos de rotação e de revolução se completam em
tempos rigorosamente iguaes, e realisa-se tambem, segundo Casini e
Herschell, nos satellites de Jupiter, e provavelmente em todos os
demais.
Em certas cabeças bem dispostas, mas um tanto duras, custava a entrar, á
primeira, que a Lua voltava invariavelmente a mesma face para a terra,
durante a sua revolução, pela rasão de que no mesmo lapso de tempo fazia
um giro completo em torno do seu eixo. Mas a estes dizia-se: «Entrae na
vossa casa de jantar, e dae uma volta completa á roda da mesa, olhando
sempre para o centro d'ella; quando tiverdes completado o vosso passeio
circular, tereis feito um giro perfeito sobre vós mesmos, visto como o
vosso olhar ha de ter percorrido successivamente todos os pontos da
sala. Ora pois! a sala é o céu, a mesa é a Terra, e a Lua sois vós!» E
íam-se satisfeitissimos com a comparação.
Como acabâmos de ver, a Lua mostra constantemente a mesma face á Terra;
todavia, para fallar com rigor, devemos acrescentar, que, em virtude de
um certo movimento de oscillação de norte para sul e de oeste para
leste, chamado libração, podemos ver um pouco mais de metade da
superficie do globo lunar, cincoenta e sete centesimos, proximamente.
Quando os ignorantes chegaram a saber, com respeito ao movimento de
rotação da Lua, tanto como o director do observatorio de Cambridge,
começou a inquietar-lhes o espirito o movimento de revolução do
satellite em volta da Terra, mas em curto espaço acabaram de os instruir
vinte e tantas revistas scientificas.
Aprenderam então que o firmamento, com a sua infinidade de estrellas,
póde ser considerado como um immenso mostrador, por sobre o qual passeia
a Lua, indicando a hora verdadeira a todos os habitantes da Terra, e que
é n'este movimento que o astro das noites apresenta as suas differentes
phases. Mais, que é Lua cheia, quando está em opposição com o Sol, isto
é, quando estão os tres astros na mesma linha recta, estando a Terra no
meio; que a Lua é nova, quando está em conjuncção com o Sol, isto é,
quando está entre este e a Terra; e, finalmente, que a Lua entra no
quarto primeiro ou no ultimo, quando está no vertice de um angulo recto,
formado pelas duas rectas que d'ella se dirigem para a Terra e para o
Sol.
Alguns yankees mais perspicazes concluiam d'aqui, que não podia haver
eclipses senão nas epochas de conjuncção e de opposição, e não deduziam
mal. Na conjuncção a Lua póde eclipsar o Sol, e na opposição é a Terra
que póde eclipsar a Lua, e se em cada revolução lunar não ha dois
eclipses, é porque o plano, segundo o qual se move a Lua, é inclinado
sobre a ecliptica, por outra, sobre o plano no qual se move a Terra.
Em relação á altura a que o astro das noites póde subir acima do
horisonte estava tudo dito na carta do observatorio de Cambridge.
Todos ficaram sabendo que tal altura varia com a latitude do logar de
observação, e que as unicas zonas do globo nas quaes a Lua passa pelo
zenith, isto é, vem collocar-se directamente por cima da cabeça dos que
a contemplam, estão forçosamente comprehendidas entre os parallelos de
28^o e o equador. D'ahi vinha a importante recommendação de tentar a
experiencia n'um logar qualquer d'aquella parte do globo, para que o
projectil podesse ser lançado verticalmente, e escapar-se por isso mais
depressa á acção da gravidade. Era esta condição essencial para o bom
exito da empreza, e não deixava de preoccupar vivamente a opinião.
Ácerca da linha seguida pela Lua na sua revolução em volta da Terra,
tinha o observatorio de Cambridge ministrado conhecimentos bastantes,
para que os ignorantes de todos os paizes ficassem sabendo que esta
linha é uma curva reentrante, não um circulo, mas uma ellipse, n'um dos
focos da qual está situada a Terra.
Esta especie de orbitas ellipticas é commum a todos os planetas, assim
como a todos os satellites, e prova-se rigorosamente na mechanica
racional que não podia succeder por outra fórma. Bem entendido estava
que a Lua no apogeo está mais longe da Terra, e no perigeo mais proxima.
Ora eis-aqui o que por vontade ou sem ella sabia qualquer americano, e o
que ninguem decentemente podia ignorar.
Porém, se os verdadeiros principios se vulgarisaram com rapidez, muito
mais difficil foi extirpar grande quantidade de erros e illusorios
temores. Assim, por exemplo, algumas pessoas muito de bem, sustentavam
que a Lua era um antigo cometa, que no percurso da sua orbita alongada
em volta do Sol, tinha vindo a passar proximo da Terra que o retivera no
seu circulo de attracção. Pretendiam taes astronomos de sala explicar
por esta maneira o aspecto requeimado da Lua, desgraça irreparavel de
que accusavam o astro radiante do dia. Verdade seja, que, quando alguem
lhes fazia notar que os cometas tem atmosphera, e que a Lua pouca ou
nenhuma tem, tinham grande difficuldade em responder.
Outros, que pertenciam á raça d'aquelles que por tudo tremem e se
arreceiam, manifestavam singulares temores a respeito da Lua; tinham
ouvido dizer que desde as observações feitas no tempo dos Califas, o
movimento de revolução do astro se ía accelerando em certa proporção;
d'aqui deduziam, é verdade que com rigorosa logica, que á tal
acceleração no movimento devia corresponder diminuição na distancia dos
dois astros, e que prolongando-se este duplo effeito indefinidamente, a
Lua havia de acabar um dia por cair sobre a Terra. Socegaram todavia
estes animos timoratos, e deixaram de temer pela sorte das gerações
futuras, quando lhes ensinaram que, segundo os calculos do illustre
mathematico francez Laplace, esta acceleração do movimento lunar está
comprehendida entre estreitos limites, e que não ha de tardar que lhe
succeda uma proporcional diminuição na velocidade, e que por
consequencia não poderá, nos seculos futuros, ser alterado o equilibrio
do mundo solar.
Restava, por ultimo, a classe dos ignorantes supersticiosos, e estes
nunca se contentam em não saber; sabem até o que não existe, e, a
respeito da Lua, sabiam cousas por ahi alem. Consideravam alguns o disco
lunar como uma especie de espelho polido, por intermedio do qual os
homens se podiam ver uns aos outros e communicarem-se reciprocamente os
pensamentos, ainda que collocados em differentes pontos da Terra; outros
affirmavam que por cada milheiro de Luas novas observadas, novecentas e
cincoenta tinham trazido comsigo notaveis acontecimentos, taes como
cataclysmos, revoluções, tremores de terra, diluvios, etc.