E-text prepared by Alberto Manuel Brandão Simões, Rita Farinha, and the
Project Gutenberg Online Distributed Proofreading Team
(https://www.pgdp.net)
Note: Project Gutenberg also has an HTML version of this
file which includes the original illustrations.
See 28341-h.htm or 28341-h.zip:
(https://www.gutenberg.org/dirs/2/8/3/4/28341/28341-h/28341-h.htm)
or
(https://www.gutenberg.org/dirs/2/8/3/4/28341/28341-h.zip)
Nota do traductor:
Devido à existência de erros tipográficos neste texto, foram
tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de
dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No
final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.
Rita Farinha (Mar. 2009)
OBRA PREMIADA
PELA
ACADEMIA DAS SCIENCIAS DE FRANÇA
DA TERRA Á LUA
VIAGEM DIRECTA EM 97 HORAS E 20 MINUTOS
Lisboa--Imprensa Nacional--1874
VIAGENS MARAVILHOSAS
JULIO VERNE
DA TERRA Á LUA
VIAGEM DIRECTA
EM 97 HORAS E 20 MINUTOS
TRADUCÇÃO
DE
HENRIQUE DE MACEDO
Lente de mathematica na escola polytechnica e astronomo no observatorio
de marinha
BIBLIOTHECA ILLUSTRADA DE INSTRUCÇÃO E RECREIO
EMPREZA HORAS ROMANTICAS
Rua dos Calafates, 102, 1.^o andar
LISBOA
Traducção auctorisada e reservada
--JULIO VERNE--
[Figura]
DA TERRA Á LUA
CAPITULO I
O GUN-CLUB
Durante a guerra federal dos Estados Unidos fundou-se, na cidade de
Baltimore, mesmo no centro do Maryland, um novo club de grande
influencia.
É notoria a energia com que se desenvolveram os instinctos militares por
entre aquella população de armadores, de negociantes e de machinistas.
Insignificantes mercadores saltaram por cima do balcão e acharam-se de
improviso transformados em capitães, em coroneis e até em generaes, sem
terem passado pelas escolas de applicação de West-Point[1]; em curto
espaço foram na _arte da guerra_ dignos rivaes dos collegas do velho
continente, e, á imitação d'estes, alcançaram, á força de prodigalisar
balas, milhões e homens, brilhantes victorias.
Mas em que os americanos excederam singularmente os europeus foi na
sciencia da balistica; e não porque as armas americanas attingissem mais
elevado grau de perfeição, senão porque apresentaram dimensões
desusadas, e tiveram por consequencia alcances correspondentes e até
então desconhecidos.
Pelo que diz respeito a tiros rasantes, immergentes ou em cheio, a fogos
de escarpa de enfiada ou de revez, já não têem, inglezes, francezes nem
prussianos cousa alguma que aprender; mas os canhões, obuzes e morteiros
europeus são apenas pistolas de algibeira, comparados com os formidaveis
machinismos bellicos da artilheria americana.
Não deve causar espanto o que deixâmos dito. Os yankees, que são os
primeiros mechanicos do mundo, nascem engenheiros como qualquer italiano
nasce musico, ou qualquer allemão, philosopho transcendental; portanto
nada mais natural do que ve-los demonstrar na applicação á sciencia da
balistica o audacioso engenho de que são dotados.
Assim se explicam esses gigantescos canhões, que, muito menos uteis que
as machinas de coser, são pelo menos tão admiraveis e de certo ainda
mais admirados. Os maravilhosos inventos, n'este genero, de Parrott, de
Dahlgreen e de Rodman são bem conhecidos; os Armstrong, os Palliser, os
Treuille de Beaulieu não tiveram mais remedio do que curvar-se vencidos
perante os seus rivaes de alem mar.
Tudo isto deu causa a que, durante a terrivel lucta entre os partidarios
do norte e os do sul, occupassem os artilheiros em toda a parte o
primeiro logar; celebravam-lhes os jornaes da União os inventos com
enthusiasmo, e sem exceptuar o mais insignificante dos logistas ou o
mais ingenuo dos booby[2], todos quebravam a cabeça dia e noite a
calcular trajectorias impossiveis.
Ora quando a uma cabeça de americano acode uma idéa, busca logo o seu
possuidor segundo americano que a acceite: chegam a tres, elegem logo
presidente e dois secretarios; quatro, nomeiam archivista e funcciona a
_mesa_; cinco, convocam-se em assembléa geral, e está constituido um
club. Assim succedeu em Baltimore.
O primeiro que inventou um novo canhão associou-se com o primeiro que o
fundiu e com o primeiro que o perfurou. Tal foi o primitivo nucleo do
Gun-Club[3], que um mez depois da sua inauguração contava mil oitocentos
e trinta e tres socios effectivos, e trinta mil quinhentos e setenta e
cinco socios correspondentes.
A todos que queriam fazer parte da associação era imposta uma condição
_sine qua non_, a de ter inventado, ou pelo menos aperfeiçoado, um
canhão; na falta de canhão uma arma de fogo qualquer. Mas, para dizer a
verdade inteira, bem pouca consideração gosavam os inventores de
revolvers de quinze tiros, de carabinas girantes ou de sabres-pistolas.
Em tudo lhe levavam os artilheiros primazia.
A estima de que é credor qualquer socio, disse um dia um dos mais
entendidos oradores do Gun-Club, é proporcional «ás massas» do canhão
que inventou, e está «na rasão directa do quadrado das distancias a que
alcançam os respectivos projectis!»
[Figura: Os artilheiros de Gun-Club (pag. 12).]
Com pequena differença, era a lei de Newton ácerca da gravitação
universal transportada ás cousas do mundo moral.
Fundado o Gun-Club, facil é imaginar o que produziria n'este genero o
engenho inventivo dos americanos. Os machinismos de guerra assumiram
proporções colossaes, e os projectis foram alem dos limites permittidos
partir em dois bocados inoffensivos transeuntes. Todos estes inventos
deixaram a perder de vista os timidos instrumentos da artilheria
europea. Forme-se juizo pelos seguintes algarismos.
Outr'ora «bom tempo era esse» uma bala de trinta e seis, á distancia de
trezentos pés, varava trinta e seis cavallos apanhados de flanco ou
sessenta e oito homens. Era a infancia da arte. Desde essa epocha
progrediram muito os projectis. O canhão Rodman, que, com uma bala de
meia tonelada[4] alcançava a sete milhas[5], facilmente poria fóra de
combate cento e cincoenta cavallos e trezentos homens. Chegou-se até a
discutir no Gun-Club a conveniencia e possibilidade de submetter a uma
experiencia solemne as qualidades d'este canhão monstruoso. Porém se os
cavallos consentiram em tentar a experiencia, infelizmente a respeito de
homens nem um só se offereceu.
Em todo o caso, o que é fóra de duvida é que o effeito d'estas armas era
extremamente mortifero e que por cada tiro caíam os combatentes como
espigas sob a foice do ceifador. Que valiam, comparados com taes
projectis, aquella famosa bala que, em Contras, em 1785, poz fóra de
combate vinte e cinco homens, ou aquella outra que, em Zorndoff em 1758,
matou quarenta infantes, e o canhão austriaco de Kesselsdorf, em 1742,
que por cada tiro derrubava setenta inimigos?
Que importancia tinham esses surprehendentes fogos de Iena ou de
Austerlitz, que decidiram da sorte de uma batalha? Durante a guerra
federal na America viram-se cousas muito mais de pasmar! No combate de
Gettysburg, um projectil conico lançado por um canhão raiado feriu cento
e setenta e tres confederados, e, na passagem do Potomac, uma bala
Rodman mandou para um mundo evidentemente melhor duzentos e quinze
partidarios do Sul. Não é menos digno de menção um formidavel morteiro
inventado por J.-T. Maston, socio distincto e secretario perpetuo do
Gun-Club, cujos effeitos foram sem comparação mais mortiferos, visto
como, do primeiro tiro de experiencia, matou trezentas e trinta e sete
pessoas; verdade é que o morteiro rebentou!
Que havemos de accrescentar a estes numeros já de per si tão eloquentes?
Nada. Assim, por certo, será admittido sem contradicção o seguinte
calculo apresentado pelo _estatistico_ Pitcairn, que dividindo o numero
das victimas de tiro de bala pelo dos socios do Gun-Club, demonstrou que
cada um d'estes tinha morto em «media», dois mil trezentos e setenta e
cinco homens e uma fracção.
Para quem reflectir em tal algarismo, fica evidente que a unica
preoccupação d'aquella sociedade scientifica era a destruição da
humanidade, com um fim philanthropico, o aperfeiçoamento das armas de
guerra, consideradas como instrumentos de civilisação. Era uma reunião
de anjos exterminadores, e a fóra isto, as melhores pessoas do mundo.
Cumpre-nos accrescentar que estes yankees corajosos a toda a prova, não
se ficavam em formulas e experimentavam com o proprio corpo. Havia no
Club officiaes de todas as graduações, de tenente a general, militares
de todas as idades, dos que debutavam na carreira das armas, como dos
que iam já encanecendo sobre os reparos. Muitos tinham ficado nos campos
de batalha, cujos nomes estavam inscriptos no livro de honra do
Gun-Club, e dos que tinham voltado a maior parte trazia no proprio corpo
signaes indiscutiveis de intrepidez. Moletas, pernas de pau, braços
articulados, mãos de gancho, maxilas de caoutchouc, craneos de prata,
narizes de platina... a collecção era completa. O supradito Pitcairn
calculou tambem que no Gun-Club havia um pouco menos de um braço por
quatro pessoas e sómente duas pernas por cada seis socios.
Mas os valentes artilheiros pouca importancia ligavam a similhantes
ninharias, e com legitimo fundamento se ufanavam, quando o boletim da
batalha contava o numero das victimas pelo decuplo dos tiros disparados.
Porém um dia, triste e lamentavel dia, foi assignada a paz pelos
sobrevivos da guerra; cessaram pouco a pouco as detonações, calaram-se
os morteiros, os obuzes para largo tempo açaimados e os canhões de
cabeça pendida, recolheram aos arsenaes; as balas empilharam-se nos
parques, foram-se apagando as recordações sanguinolentas, brotaram com
magnificencia os algodoeiros dos campos pinguemente adubados, foram-se
fazendo velhos a par das dores e das saudades os fatos de luto, e o
Gun-Club ficou immerso na mais profunda inacção.
Um ou outro trabalhador afferrado e incansavel se entregava ainda a
calculos balisticos e fazia seu pensamento dilecto de bombas gigantescas
e obuzes incomparaveis.
Mas sem pratica de que serviam theorias vãs?
Por isso as salas do Club viam-se desertas, dormiam os creados nas
antecamaras, os jornaes creavam bafio por cima das mesas, ouviam-se
tristes roncos, que partiam dos cantos escuros das salas, e os membros
do Gun-Club, outr'ora tão ruidosos, agora reduzidos ao silencio por uma
paz desastrosa, adormeciam engolfados em meditações de artilheria
platonica.
«Que desconsolação, dizia uma noite o valente Tom Hunter, e no
entretanto ia-lhe o lume do fogão carbonisando as pernas de pau: Nada
que fazer! nem uma esperança! Que fastidiosa existencia! Onde vae o
tempo em que as alegres detonações do canhão nos despertavam todas as
manhãs?
Esse tempo já lá vae, retorquiu o inquieto Bilsby, esperguiçando-se com
os braços que já não tinha. Era um feliz tempo esse. Inventava qualquer
o seu obuz, e apenas fundido, corria a experimenta-lo no inimigo; quando
regressava, ao acampamento sempre tinha ouvido alguma palavra animadora
a Sherman ou recebido um aperto de mão de Mac-Clellan! Mas hoje, os
generaes voltaram aos seus balcões, e em vez de projectis, expedem
inoffensivos fardos de algodão! Ai! por santa Barbara! Está perdido o
futuro da artilheria na America!
--É verdade, Bilsby, exclamou o coronel Blomsberry, são bem crueis estes
desenganos! Deixa a gente um dia os seus habitos socegados, exercita-se
no manejo das armas, troca Baltimore pelos campos de batalha, porta-se
como um heroe, e dois ou tres annos depois, ha de perder o fructo de
tantas fadigas, adormecer em deploravel ociosidade, e encaixar as mãos
nas algibeiras.»
Bem podia fallar o valente coronel, havia de ver-se em graves
difficuldades, se quizesse dar tal prova de inactividade, e não eram as
algibeiras que lhe faltavam.
«E nem uma só guerra em perspectiva! disse então o famoso J.-T. Maston,
coçando com o gancho de ferro o craneo de guttapercha. Não ha uma nuvem
no horisonte, e tanto que fazer na sciencia da artilheria! Eu que lhes
estou fallando, terminei esta manhã a _épure_, com plano, perfil e
elevação de um morteiro que havia de fazer mudar as leis da guerra!
--Sim? replicou Tom Hunter, recordando-se involuntariamente da ultima
experiencia do honrado J.-T. Maston.
--É verdade, respondeu este. Mas para que hão de servir tantos estudos
levados a cabo, tantas difficuldades vencidas? Não será tudo isto
trabalho absolutamente inutil? Parece que os povos do novo mundo se
conluiaram para viver em paz, e até o nosso bellicoso _Tribune_[6]
chegou a prognosticar imminentes catastrophes exclusivamente causadas
pelo escandaloso crescer das populações.
--Comtudo, Maston, retorquiu o coronel Blomsberry, na Europa ainda
continua a guerra para sustentar o principio das nacionalidades!
--E então?
--Então! Talvez se podesse tentar por lá alguma cousa, e se acceitassem
os nossos serviços...
--Pensaes seriamente no que dizeis? exclamou Bilsby. Fazer balistica em
proveito de estrangeiros!
--Sempre era melhor do que não fazer nada, retorquiu o coronel.
--De certo, sempre era um pouco melhor, disse J.-T. Maston, mas nem vale
a pena pensar em similhante expediente.
--E porque? perguntou o coronel.
--Porque no velho mundo tem lá umas idéas ácerca de accesso e promoção,
que estariam em opposição com todos os nossos habitos americanos.
Imagina aquella gente que se não póde ser general em chefe sem ter
servido como alferes, o que vale o mesmo que suppor que ninguem póde
fazer uma boa pontaria, sem ter tambem sido o fundidor do canhão! Ora
isto é nada mais nem menos do que...
--Absurdo! concluiu Tom Hunter, lascando com o «bowie-knife»[7] os
braços da poltrona, e pois que assim é, não temos mais remedio do que ir
plantar tabaco ou distillar azeite de baleia!
--Como assim, prorompeu em altos gritos J.-T. Maston; pois não havemos
de empregar estes ultimos annos da nossa existencia no aperfeiçoamento
das armas de fogo! Não ha de offerecer-se nova occasião de ensaiar o
alcance dos nossos projectis! Nunca mais ha de illuminar-se a atmosphera
com o relampago dos nossos canhões! Nem uma só difficuldade
internacional ha de surgir que nos permitta declarar guerra a alguma das
potencias transatlanticas! Não ha de haver algum francez que metta a
pique um dos nossos _steamers_, ou algum inglez que enforque, em
menoscabo do direito das gentes, ao menos tres ou quatro conterraneos
nossos!
--Não, Maston, respondeu o coronel Blomsberry, não é para nós tanta
ventura. Não! nem um d'esses casos succederá, e que succedesse, nem ao
menos haviamos de aproveita-lo! Vae-se de dia para dia a
susceptibilidade americana. Vamos-nos effeminando.
--É verdade que nos humilhâmos! replicou Bilsby.
--E que nos humilham! accrescentou Tom Hunter.
--Tudo quanto dizeis é mais que certo, replicou J.-T. Maston, ainda com
maior vehemencia. Pairam na atmosphera mil motivos de guerra e não
combatemos! Economisam-se braços e pernas, e em proveito de quem? de
gente que não sabe o que lhes ha de dar que fazer! Não busquemos mais
longe motivos de guerra; pois não é verdade que a America do Norte
pertenceu outr'ora aos inglezes?
--Certamente, respondeu Tom Hunter, espertando furioso o lume com a
ponta da moleta.
--Pois bem! continuou J.-T. Maston, porque é que a Inglaterra não ha de,
por seu turno, pertencer aos americanos?
--Nada mais era do que justiça, retorquiu o coronel Blomsberry.
--Pois vão lá propor a idéa ao presidente dos Estados Unidos e verão
como são recebidos!
--Havia de receber-nos mal, murmurou Bilsby, por entre quatro dentes que
lhe tinham escapado das batalhas.
--Por minha fé, exclamou J.-T. Maston, nas proximas eleições escusa de
contar com o meu voto!
--Nem com os nossos, accrescentaram de commum accordo os bellicosos
invalidos.
--No entretanto, continuou J.-T. Maston, em conclusão, se me não
fornecerem occasião para ensaiar o meu novo morteiro n'um campo de
batalha, dou a minha demissão de socio do Gun-Club, e corro a
enterrar-me nos desertos do Arkansas!
--Iremos todos comvosco, responderam os interlocutores do ousado J.-T.
Maston.
Estavam as cousas n'estas alturas, exaltavam-se os espiritos cada vez
mais, e o club estava ameaçado de proxima dissolução, quando um
acontecimento inesperado veiu impedir a realisação de tão lastimosa
catastrophe.
Logo no dia seguinte áquelle em que se realisou a conversação que
relatámos, cada um dos membros do club recebia uma circular concebida
nos seguintes termos:
«Baltimore, 3 de outubro.--O presidente do Gun-Club tem a honra de
prevenir os seus collegas, que na sessão de 5 do corrente lhes fará uma
communicação, que muito ha de interessa-los. Em consequencia lhes pede
que, pondo de parte qualquer outro negocio, concorram á sessão para que
são convidados pela presente.
«De todos mui cordialmente.--_Impey Barbicane_. P. G. C.»
CAPITULO II
COMMUNICAÇÃO DO PRESIDENTE BARBICANE
No dia 5 de outubro, ás oito horas da noite, havia apertão e multidão
compacta nas salas do Gun-Club (Union-square, 21). Todos os membros
d'aquelle club, que residiam em Baltimore, tinham acudido ao convite do
presidente. Os socios correspondentes apeavam-se aos centos dos comboios
expressos, nas ruas da cidade, e grande como era a «hall» (salão) das
sessões, ainda assim aquella multidão immensa de sábios não pôde caber
lá; assim a multidão refluia para todas as salas proximas e ainda para
os corredores, e até ao meio dos pateos exteriores, onde se encontrava
com o simples popular que fazia apertão ás portas; cada um procurava
alcançar melhor logar; todos avidos de conhecer a importante
communicação do presidente Barbicane, apertavam-se, empurravam-se,
esmagavam-se com aquella liberdade de acção que é peculiar das massas
educadas e creadas nas idéas do _self-government_[8].
N'aquella noite o forasteiro que o acaso tivesse levado a Baltimore, nem
a peso de oiro teria conseguido penetrar no salão grande. Fôra este
exclusivamente reservado para os socios residentes ou correspondentes;
ninguem mais lá podia ser admittido, e até os notaveis da cidade e os
magistrados do conselho dos _selectmen_[9] tinham tido que misturar-se
com a turba dos seus administrados para apanharem de relance alguma
novidade lá de dentro.
Apesar d'isto a immensa «hall» apresentava um espectaculo
verdadeiramente digno de excitar a curiosidade, e o vasto aposento
estava maravilhosamente apropriado ao seu destino. Sustentavam-lhe os
finos lavores da abobada, verdadeira renda esculpida a saca-bocados no
ferro fundido, elevadas columnas compostas de canhões sobrepostos e
apoiados em enormes morteiros. Nas paredes agrupavam-se enlaçadas em
pittorescos florões panoplias de bacamartes, de arcabuzes, de carabinas
de toda a especie, de armas de fogo antigas e modernas. Rebentava a
chamma viva do gaz de um milheiro de revolvers agrupados em fórma de
lustres, completando aquella esplendida illuminação girandolas de
pistolas, e candelabros feitos de espingardas enfeixadas. Modelos de
canhões, amostras de bronze, alvos crivados de buracos, placas quebradas
pelo choque das balas do Gun-Club, collecções completas de calcadouros e
lanadas, rosarios de bombas, collares de projectis, grinaldas de obuzes,
n'uma palavra todas as ferramentas do artilheiro se encontravam ali em
tão surprehendente e admiravel disposição, que levava a crer que o seu
verdadeiro fim era mais ornamental do que mortifero.
Contemplava-se no logar de honra resguardado por uma esplendida
_vitrine_ um pedaço de culatra, quebrado e torcido pela força da
polvora. Era uma preciosa reliquia do morteiro de J.-T. Maston.
No fundo da sala, sobre uma espaçosa esplanada sentava-se o presidente
ladeado por quatro secretarios. A cadeira presidencial levantada sobre
um reparo esculpido, apparentava no conjuncto das robustas fórmas a
figura de um morteiro de trinta e duas pollegadas, em pontaria por um
angulo de noventa graus e suspensa em munhões, por fórma tal que o
presidente podia dar-lhe, como a qualquer _rocking-chair_[10], um
balanço muito agradavel nas occasiões de grande calor. Sobre a mesa,
grande placa de ferro laminado, aguentada por seis coronadas, estava um
tinteiro de gosto delicado: era feito de um biscainho deliciosamente
cinzelado. Ao lado estava uma campainha de detonação, que na occasião
propria soava como um revolver. E nas occasiões de discussão vehemente
mal bastava esta campainha de novo genero para superar as vozes
d'aquella legião de artilheiros enthusiasmados.
Em frente da mesa presidencial estavam dispostos em zig-zags, como as
circumvallações de uma trincheira, formando uma serie de bastiões e de
cortinas, os bancos onde tomavam assento os socios do Gun-Club; e
n'aquella noite podia afoitamente dizer-se «que estava bastante gente
nas muralhas». O presidente era por demais conhecido, para que alguem
acreditasse que havia de incommodar os collegas sem motivo de maior
gravidade.
Impey Barbicane era homem de quarenta annos, impassivel, frio, austero,
de espirito eminentemente serio e concentrado, de temperamento a toda a
prova e de caracter inabalavel; pouco cavalheiresco, e todavia
aventuroso, cingia-se ás idéas praticas, ainda quando empenhado nos mais
temerarios emprehendimentos; era o homem por excellencia da Nova
Inglaterra, o colonisador dos estados do norte, o descendente d'aquelles
Cabeças Redondas, que tão funestos foram para os Stuarts, o inimigo
implacavel dos _gentlemen_ dos estados do sul, legitimos representantes
dos antigos Cavalleiros da mãe patria. N'uma palavra, um yankee de antes
quebrar que torcer.
Barbicane fizera grande fortuna no commercio das madeiras; nomeado
durante a guerra director de artilheria, mostrou-se fertil em invenções,
e cheio de audacia em todas as suas idéas contribuiu poderosamente para
os progressos d'aquella arma, communicando ás indagações experimentaes
incomparavel actividade.
Era homem de corporatura media, e que tinha, rara excepção no Gun-Club,
todos os membros intactos. Parecia que as feições accentuadas lhe tinham
sido talhadas a esquadro e tira-linhas, e se é verdade que, para
adivinhar os instinctos de alguem, devemos olha-lo de perfil, Barbicane,
examinado assim, apresentava os mais seguros indicios de energia, de
audacia e de presença de espirito.
N'aquelle instante, estava immovel na cadeira presidencial, mudo,
absorto, com o olhar vago e profundo, com o rosto semi-occulto pelo
chapéu de fórma alta, cylindro de seda preta que parece seguro a tarraxa
no craneo de qualquer americano.
[Figura: A sessão do Gun-Club (pag. 22).]
Conversavam em torno d'elle e em voz alta os collegas, sem conseguirem
distrahi-lo; abalançavam-se ao campo das supposições, olhavam o
presidente, buscando em vão deduzir o X da sua imperturbavel
physionomia.
[Figura: O passeio á luz dos archotes (pag. 28).]
Quando deram oito horas no relogio fulminante do salão, Barbicane
levantou-se de subito, como que impellido por uma mola; calou-se tudo, e
o orador, em tom um pouco emphatico, usou da palavra nos seguintes
termos:
«Estimaveis consocios, de ha muito que a paz infecunda veiu immergir os
socios do Gun-Club em lastimosa inactividade. Depois de um periodo de
alguns annos, tão cheio de incidentes, fomos forçados a abandonar os
nossos trabalhos e a fazer alto de subito na senda do progresso. Não me
arreceio de proclama-lo em voz bem alta, uma guerra qualquer que de novo
nos pozesse as armas nas mãos, seria bem recebida...
--Apoiado, á guerra! exclamou o impetuoso J.-T. Maston.
--Ouçam! ouçam! disseram de todos os lados.
--Porém a guerra, proseguiu Barbicane, a guerra é impossivel nas
circumstancias actuaes, e por maiores que sejam as esperanças do meu
honrado interruptor, penso que muitos annos hão de correr antes que os
canhões americanos troem de novo no campo de batalha. É portanto
necessario que a isso nos resignemos e que busquemos n'outra ordem de
idéas alimento para a actividade que nos devora!»
A assembléa percebeu que o presidente chegava ao ponto delicado;
redobrou a attenção.
«Ha mezes, valentes collegas, continuou Barbicane, que perguntei eu a
mim proprio se, sem sair da nossa especialidade, poderiamos emprehender
alguma d'essas grandes experiencias dignas do seculo XIX, e se nos
permittiriam os progressos da balistica sair bem do nosso empenho.
Em consequencia, inquiri, trabalhei, calculei, e dos meus estudos
resultou a convicção de que havemos de saír-nos bem de um
emprehendimento, que pareceria impraticavel em qualquer outro paiz. É
este projecto, por longo tempo elaborado, que vae ser assumpto da minha
communicação: é digno de vós, digno do passado do Gun-Club, e não póde
deixar de fazer estrondo no mundo!
--Bastante estrondo? perguntou um artilheiro enthusiasta.
--Muito estrondo, no verdadeiro sentido da palavra, respondeu Barbicane.
--Não interrompam! disseram muitas vozes.
--Peço-lhes, pois, caros collegas, accrescentou o presidente, que me
dêem completa attenção.»
Um fremito percorreu a assembléa inteira. Barbicane, depois de, com
gesto rapido, ter carregado o chapéu na cabeça, proseguiu no seu
discurso com voz placida:
Não ha um só de vós, estimaveis collegas, que não tenha visto a Lua, ou
que, pelo menos, não ouvisse fallar n'ella. E não vos admireis de que
venha aqui fallar-vos do astro das noites. Talvez esteja para nós
reservado sermos os Colombos d'esse mundo ignoto. Seja eu comprehendido,
auxiliado com todo o poder de que os meus socios dispõem, e
conduzi-los-hei á conquista d'esse novo mundo, cujo nome ha de vir
juntar-se aos dos trinta e seis estados que compõem este grande paiz da
União!
--Hurrah pela Lua! gritou, como um só homem, o Gun-Club inteiro.
--Muito se tem estudado ácerca da Lua, continuou Barbicane, a massa, a
densidade, o peso, o volume, a constituição, os movimentos, a distancia
emfim d'este astro, e o papel que elle desempenha no mundo solar estão
perfeitamente determinados: ha mappas selenographicos[11] cuja perfeição
é igual senão superior á dos mappas terrestres: pela photographia
têem-se obtido do nosso satellite provas de belleza imcomparavel.
Resumindo, sabemos ácerca da Lua tudo quanto as mathematicas, a
astronomia, a geologia e a optica poderam ensinar-nos; mas até hoje
ainda se não estabeleceu meio algum directo de communicação com esse
astro.»
A ultima phrase do orador excitou tal interesse e surpreza na assembléa,
que chegou a produzir violenta agitação.
--Permittam-me, continuou este, que lhes traga á lembrança em poucas
palavras, como foi que alguns homens exaltados, tendo embarcado em
espirito para viagens imaginarias, pretenderam ter penetrado os segredos
do nosso satellite. No seculo XVII, um tal David Fabricius, gabou-se de
ter visto com os seus proprios olhos alguns habitantes da Lua. Em 1649,
um francez, João Baudoin, publicou um livro intitulado a _Viagem feita
ao mundo Lunar por Domingos Gonzalez, aventureiro hespanhol_. Na mesma
epocha, deu á luz da publicidade Cyrano de Bergerac, aquella celebre
expedição, que tanto renome teve em França. Algum tempo depois, outro
francez (porque estes senhores entretem-se muito com a Lua) chamado
Fontenelle escreveu a _Pluralidade dos mundos_, que foi, no seu tempo
uma obra prima; verdade é que a sciencia em seu caminhar constante até
as obras primas esmaga. Em 1835 um opusculo traduzido do jornal _New
York American_ contava que sir John Herschell, enviado ao Cabo da Boa
Esperança para ali fazer observações astronomicas, tinha conseguido, por
meio de um telescopio aperfeiçoado por illuminação interior, trazer a
Lua a uma distancia apparente de oitenta jardas[12]. Por esta fórma
observára distinctamente na Lua cavernas, nas quaes viviam hippopotamos,
verdejantes montanhas franjadas de renda de oiro, carneirinhos com armas
de marfim, brancos cabritos montezes e até habitantes com azas
membranosas como os morcegos. Este folheto, obra de um americano chamado
Loche[13], teve grande voga. Mas pouco depois conheceu-se que não era
senão uma mystificação scientifica, e os francezes foram as primeiras a
rir-se d'elle.
--Rir de um americano! exclamou J.-T. Maston; mas isso é um _casus
belli_!...
--Socegue o meu digno amigo, que antes de se rirem tinham sido os
francezes perfeitamente embaidos pelo nosso compatriota. Para terminar
esta breve resenha historica, accrescentarei que um tal Hans Pfaal de
Rotterdam, elevando-se n'um balão cheio de um gaz tirado do azote e
trinta e sete vezes mais leve que o hydrogeneo, chegou á Lua, depois de
dezenove dias de viagem, e tambem que esta viagem não passou, como as
anteriores, de uma tentativa da imaginação; era porém obra de um
escriptor popular na America, engenho singular e contemplativo. É como
se pronunciára o nome de Pöe.
--Hurrah por Edgard Pöe! exclamou a assembléa electrisada pelas palavras
do presidente.
--Conclui o que tinha a dizer-vos, proseguiu Barbicane, no que diz
respeito a tentativas que considerarei puramente litterarias e
absolutamente insufficientes para estabelecer serias relações com o
astro das noites. Devo todavia accrescentar, que alguns espiritos
praticos tentaram já pôr-se em seria communicação com elle. Foi assim
que ha alguns annos um geometra allemão propoz que se mandasse aos
aridos steppes da Siberia uma commissão de homens de sciencia, para que
n'aquellas vastas planicies fizessem desenhar por meio de reflectores
luminosos, immensas figuras geometricas, entre outras a do quadrado da
hypothenusa, vulgarmente chamada pelos francezes «le Pont aux ânes».
«Todo o ser intelligente, dizia este geometra, deve comprehender qual o
destino scientifico de taes figuras; portanto os selenitas[14], se é que
existem, hão de responder por meio de figuras similhantes, e uma vez
estabelecida a communicação, facil será inventar um alphabeto, que dê
meio de conversar com os habitantes da Lua.»
Assim fallava o geometra allemão; mas tal alphabeto nunca teve execução,
e até hoje nenhuma ligação directa existiu entre a Terra e o seu
satellite. Estava reservado para o engenho pratico dos americanos o
porem-se em relação com o mundo sideral. E o meio de consegui-lo é
simples, facil, certo, infallivel, e vae ser o assumpto da minha
proposta.»
Estas palavras tiveram por ecco uma immensa algazarra, uma tempestade de
exclamações e de applausos. Não havia um só dos assistentes que não se
tivesse deixado dominar, arrastar e enthusiasmar pelas palavras do
orador.
Ouçam! ouçam! silencio! era o que se ouvia de todos os lados.
Logoque socegou a agitação, Barbicane continuou em voz mais grave o seu
interrompido discurso:
«Sabeis todos, disse, que progressos se tem feito em balistica de alguns
annos a esta parte, e a que ponto de perfeição teriam chegado as armas
de fogo se a guerra tivesse continuado. Tambem não ignoraes que póde
affirmar-se, em geral, que a força de resistencia do canhão e a potencia
expansiva da polvora não tem limitação. Pois bem! Partindo d'este
principio, perguntei a mim proprio, se usando de um instrumento
adequado, collocado em condições determinadas de resistencia, seria
possivel enviar uma bala até a Lua!»
Ao ouvir a assembléa estas palavras, exhalou-se a um tempo, de mil
peitos arquejantes, uma exclamação de profundo pasmo; houve depois uma
pausa silenciosa, similhante á profunda calmaria que precede as
tempestades.
E effectivamente ribombou o trovão, mas um trovão de applausos, de
gritos, de clamores, que fez tremer a sala das sessões. O presidente
queria fallar, e não podia, só passados dez minutos conseguiu fazer-se
ouvir.
«Deixem-me concluir, disse elle friamente. Estudei a questão sob todos
os seus aspectos, ataquei resolutamente o problema, e dos meus calculos
indiscutiveis resulta, que um projectil animado de uma velocidade
inicial de doze mil jardas[15] por segundo, e dirigido para a Lua, ha de
necessariamente lá chegar. Tenho pois a honra, estimaveis collegas, de
propor-vos que tentemos esta pequena experiencia!»
CAPITULO III
EFFEITO DA COMMUNICAÇÃO BARBICANE
É impossivel descrever o effeito produzido pelas ultimas palavras do
honrado presidente. Que gritos! que vociferações! que successão de
grunhidos, de hurrahs, de «hip! hip! hip!» de todos aquellas onomatopeas
que superabundam na linguagem dos americanos. Era uma desordem, uma
algazarra indescriptivel! Gritavam as bôcas, batiam as mãos, e os pés
abalavam o pavimento das salas. Nem que todas as armas d'aquelle museu
de artilheria se disparassem a um tempo teriam agitado com maior
violencia as ondas sonoras. Nem o caso é para admirar. Artilheiros ha
mais ruidosos que os proprios canhões.
Barbicane permanecêra impassivel no meio de todos estes clamores
enthusiastas; desejava talvez dirigir ainda mais algumas palavras aos
consocios, porque pelos gestos reclamava silencio, e o timbre fulminante
disparou tão violenta como inutilmente. Porém nem sequer o ouviam. Pouco
depois arrancaram-n'o da cadeira presidencial e levaram-n'o em triumpho,
passando das mãos dos fieis camaradas para os braços de uma multidão não
menos exaltada.
Não ha cousa n'este mundo capaz de causar pasmo a um americano. Muitas
vezes se tem repetido que a palavra «impossivel» não é franceza.
Certamente ha n'esta asserção troca de diccionario. Na America é que
tudo é facil, tudo é simples, e pelo que diz respeito a difficuldades
mechanicas, essas estão mortas já antes de nascerem. Nem um só yankee
genuino teria permittido a si proprio sonhar sequer uma sombra de
difficuldade entre o projecto Barbicane e a sua realisação. Dito e
feito.
O passeio triumphal do presidente prolongou-se durante a noite. Foi uma
verdadeira marcha á luz dos archotes. Irlandezes, allemães, francezes,
toda a casta de individuos heterogeneos de que é formada a população do
Maryland, gritavam na sua lingua patria. Os vivas, os hurrahs e os
bravos confundiam-se n'um enthusiasmo inesprimivel.
Por coincidencia a Lua, como se percebêra que d'ella se tratava,
brilhava n'aquella noite com uma serena magnificencia, e eclipsava com a
intensa irradiação todas as luzes terrestres.
Os yankees dirigiam todos os olhos para o disco scintillante do astro:
saudavam-n'o uns com a mão, outros chamavam-lhe os nomes mais
carinhosos; estes mediam-n'a com os olhos, aquelles ameaçavam-n'a de
murro fechado. Um fabricante de instrumentos de optica de
James-Fall-street fez fortuna a vender oculos desde as oito horas até á
meia noite. O astro das noites era contemplado atravez dos vidros das
lunetas, como se fôra qualquer _lady_ da alta sociedade. Os americanos
procediam já para com elle com a sem-ceremonia de verdadeiros
proprietarios. Quem os visse diria, que a loura Phoeba era já dominio
d'aquelles conquistadores audazes, e parte integrante do territorio da
União.
E todavia mal começára ainda a agitar-se o problema de mandar-lhe um
projectil, maneira um tanto aspera de encetar relações, mesmo com um
satellite, porém muito usada entre nações civilisadas.
Meia noite acabava de soar e o enthusiasmo não arrefecia; mantinha-se em
igual nivel em todas as classes da população; magistrados, homens de
sciencia, negociantes, logistas e carrejões, tanto os homens de
intelligencia elevada e culta, como os estupidos e ignaros tinham
sentido abalo profundo na mais delicada fibra de seu ser; o caso de que
se tratava era um emprehendimento nacional, e por isso na cidade alta,
na cidade baixa, nos caes banhados pelas aguas do Patapsco, nos navios
fundeados nas docas, apinhava-se a multidão, ebria de alegria, de _gin_
e de _wisky_; conversavam todos, peroravam, discutiam, disputavam,
approvavam ou applaudiam, desde o _gentleman_, que negligentemente
recostado no canapé de algum botequim, defrontava com a sua _chope_ e de
_sherry-cobler_[16], até ao aguadeiro, que se emborrachava com
_mataratos_[17] n'alguma sombria taberna de Fells-Point.
Comtudo, pela volta das duas horas, acalmou-se a emoção, e o presidente
Barbicane conseguiu recolher a casa, moido, esfalfado e derreado. Nem um
Hercules teria resistido a tal enthusiasmo. A turba foi pouco e pouco
evacuando as praças e as ruas. Os quatro caminhos de ferro do Ohio, de
Susquehanna, de Philadelphia e de Washington, que entroncam em
Baltimore, foram lançar o publico hexogeneo nos quatro extremos dos
Estados Unidos, e a cidade começou de repousar em relativa
tranquillidade.
Enganar-se-ia quem suppozesse que durante aquella memoravel noitada, só
Baltimore fôra victima da agitação que descrevemos. Todas as grandes
cidades da União, Nova-York, Boston, Albany, Washington, Richmond, a
Cidade Crescente[18], Charleston, Mobile, desde o Texas até ao
Massachussets, e desde o Michigan até ás Floridas, todas participaram
d'aquelle delirio, porque os trinta mil socios correspondentes do
Gun-Club, que já tinham conhecimento da carta do seu presidente,
esperavam com igual impaciencia a famosa communicação de 5 de outubro, e
portanto n'esta mesma noite, á medida que as palavras saíam dos labios
do orador, iam correndo pelos fios telegraphicos, através dos Estados da
União, com a velocidade de duzentas e quarenta e oito mil quatrocentas e
quarenta e sete milhas[19] por segundo. Por consequencia póde dizer-se,
com absoluta certeza, que os Estados Unidos, que têem dez vezes o
tamanho da França, soltaram n'um mesmo instante um _hurrah_, unico e
unanime, e que vinte e cinco mil corações, entumecidos de orgulho,
bateram a mesma pulsação.
No dia seguinte lançaram mão do assumpto mil e quinhentos periodicos
diarios, hebdomadarios, mensaes ou bi-mensaes, e estudaram-n'o sob os
differentes pontos de vista da physica, da meteorologia, da economia
politica e da moral; pelo lado da preponderancia politica, e pelo da
civilisação. Discutiam se a Lua era um mundo _acabado_, ou se estaria
ainda em via de transformação. Perguntavam se era similhante á terra na
epocha em que esta não tinha ainda atmosphera, qual era o aspecto da
face lunar invisivel do espheroide terrestre, e ainda que se não tratava
na occasião de mais do que enviar uma bala ao astro das noites, ninguem
duvidava que esse facto seria ponto de partida para uma serie de novas
experiencias, antes todos esperavam que um dia a America havia de
penetrar os mais occultos arcanos do mysterioso disco. Havia até já quem
parecesse arreceiar-se de que a conquista da Lua viesse a transtornar o
equilibrio europeu.
Discutiu-se é verdade o projecto, mas nem um unico jornal poz duvidas á
possibilidade da realisação d'elle; antes pelo contrario até as
revistas, folhetos, boletins e _magasines_ publicados por associações
scientificas, litterarias ou religiosas se encarregaram de demonstrar as
vantagens de tal tentativa. A _sociedade de historia natural_ de Boston,
a _sociedade americana de sciencias e artes_ de Albany, a _sociedade
geographica e estatistica_ de New-York, a _sociedade philosophica
americana_ de Philadelphia, e o _Instituto Smithsoniano_ de Washington
enviaram ao Gun-Club milhares de cartas de felicitação, com
offerecimentos promptos de coadjuvação e dinheiro.
Póde portanto dizer-se que nunca proposta alguma alcançou tão grande
numero de adhesões; de hesitar, duvidar ou arreceiar-se pelo bom exito
d'ella, é que ninguem se lembrou; e se a alguem occorresse, como de
certo teria succedido na Europa, e particularmente em França, responder
com mofas, caricaturas ou cançonetas epigrammaticas á idéa de enviar um
projectil á Lua, de bem mau proveito lhe haviam de servir, que nem todos
os _guarda-vidas_[20] do mundo lhe poderiam guardar as costas contra a
indignação geral.
Ha cousas de que não é permittido rir no novo mundo.
A partir d'aquelle dia foi pois Impey Barbicane considerado como um dos
mais notaveis e maiores cidadãos dos Estados Unidos, uma especie de
Washington da sciencia; um só facto entre muitos bastará para evidenciar
a que ponto chegára aquella infeudação subita de um povo inteiro a um
homem.
[Figura: O observatorio de Cambridge (pag. 35).]
Passados alguns dias depois da famosa sessão do Gun-Club, annunciou, no
theatro de Baltimore, o director de uma companhia ingleza a
representação de _Much ado about nothing_[21]. Ora a população da
cidade, que viu no titulo da comedia uma allusão offensiva aos projectos
do presidente Barbicane, invadiu a sala, escangalhou os bancos, e
obrigou o desgraçado do director a alterar o cartaz. O director, que era
homem fino, soube curvar-se perante a vontade publica, e substituiu a
desventurada comedia por _As you like it_[22]. O resultado foi ter,
durante muitas semanas consecutivas, enchentes phenomenaes.
[Figura: Movimentos de translação da Lua (pag. 43).]
CAPITULO IV
RESPOSTA DO OBSERVATORIO DE CAMBRIDGE
Barbicane, apesar de todas as ovações de que era alvo, não desperdiçou
um só instante. A primeira cousa de que tratou foi de reunir os collegas
da mesa nas salas de commissão do Gun-Club, onde, com previa discussão,
se accordou que fossem consultados os astronomos ácerca da parte
astronomica do projecto, e que depois de conhecida a resposta d'estes,
se discutissem então os meios mechanicos, sem descurar cousa alguma para
tornar seguro o exito da grande experiencia.
Redigiu-se por consequencia uma _nota_ extremamente precisa, contendo
perguntas especiaes, que foi dirigida ao observatorio de Cambridge, no
Massachussets. A cidade de Cambridge, onde foi fundada a primeira
universidade dos Estados Unidos, é justamente nomeada pelo seu
observatorio astronomico, onde se encontram reunidos homens de sciencia
do mais elevado merecimento. É ali que funcciona o potente telescopio,
com o qual Bond conseguiu resolver a nebulosa de Andromedes, e Clarke
descobrir o satellite de Sirius. Todos os precedentes d'este
estabelecimento celebre justificavam portanto a confiança do Gun-Club.
E com effeito, dois dias depois, chegava ás mãos do presidente Barbicane
a resposta tão impacientemente esperada.
Era concebida nos seguintes termos:
«Do director do observatorio de Cambridge para o presidente do Gun-Club,
em Baltimore.
«Logoque se recebeu a vossa honrosa missiva de 6 do corrente, endereçada
ao observatorio de Cambridge em nome dos socios do Gun-Club, de
Baltimore, reuniu-se o pessoal scientifico d'este estabelecimento, e
houve por conveniente[23] responder como se segue:
«As perguntas que lhe foram feitas são as seguintes:
«1.^o Será possivel enviar um projectil até á Lua?
«2.^o Qual é a distancia exacta que ha entre a Terra e o seu satellite?
«3.^o Quanto tempo durará o trajecto do projectil ao qual tenha sido
imprimida a velocidade inicial sufficiente, e por consequencia, em que
momento deverá ser arremessado para que encontre a Lua n'um ponto
determinado?
«4.^o Em que momento prefixo estará a Lua na posição mais favoravel para
ser alcançada pelo projectil?
«5.^o A que ponto do céu deve fazer-se a pontaria com o canhão destinado
a lançar o projectil?
«6.^o Que logar ha de occupar a Lua no céu, no momento da partida do
projectil?
«Em relação á primeira pergunta: Será possivel enviar um projectil até á
Lua?
«Sim, é possivel alcançar a Lua com um projectil, comtanto que se
consiga animar esse projectil de uma velocidade inicial de 12:000 jardas
por segundo. Demonstra o calculo que tal velocidade é bastante.
«Á medida que nos afastâmos da terra, a acção da gravidade diminue na
rasão inversa do quadrado das distancias, isto é, por exemplo, para uma
distancia tres vezes maior, torna-se nove vezes menor. Por consequencia
o peso da bala ha de decrescer rapidamente, até chegar a ser
completamente nullo, o que ha de succeder no momento em que a attracção
da Lua fizer equilibrio á da Terra, isto é, quando tiver percorrido
47/52 avos do seu trajecto. N'esse momento o projectil não terá peso
algum, e se passar alem d'esse ponto ha de caír _para_ a Lua só por
effeito da attracção lunar. Fica portanto irrecusavelmente demonstrada a
possibilidade theorica da experiencia; emquanto ao seu bom exito, esse
depende unicamente da potencia do machinismo que se empregar.
«Com respeito á segunda pergunta: Qual é a distancia exacta que ha entre
a Terra e o seu satellite?
«A Lua não descreve em torno da terra uma circumferencia de circulo, mas
sim uma ellipse, n'um dos focos da qual está situado o nosso globo;
d'ahi vem por consequencia que a Lua está, ora mais proxima, ora mais
afastada da terra, ou em termos astronomicos, agora no apogeo, logo no
perigeo; e a differença entre a maior e a menor distancia é
relativamente bastante consideravel para que não devamos despreza-la.
Com effeito, no apogeo está a Lua a 247:552 milhas (99:640 leguas de 4
kilometros) e no perigeo a 218:657 milhas sómente (88:010 leguas) da
Terra, o que dá uma differença de 28:895 milhas (11:630 leguas), que é
mais da nona parte do percurso total. Portanto a distancia perigea da
Lua é que deve servir de base aos calculos.
«Ácerca da terceira pergunta: Qual será a duração do trajecto do
projectil ao qual tenha sido imprimida a velocidade inicial bastante, e
consequentemente em que momento deverá ser lançado para que vá encontrar
a Lua em um determinado ponto?
«Se a bala conservasse indefinidamente a velocidade inicial de 12 jardas
por segundo, que lhe fosse imprimida no momento da partida, gastaria
apenas nove horas approximadamente para chegar ao seu destino; mas como
a velocidade inicial ha de ir continuamente decrescendo, deduz-se,
feitos os calculos, que o projectil ha de empregar 300:000 segundos ou
83 horas e 20 minutos para chegar ao ponto onde as attracções terrestre
e lunar se equilibram, e a partir d'este ponto ha de cair na superficie
da Lua em 50:000 segundos ou 13 horas, 53 minutos e 20 segundos. Convem
pois lançar o projectil 97 horas, 13 minutos e 20 segundos antes do
momento em que a Lua haja de chegar ao ponto de mira.
«Em relação á quarta pergunta: Em que instante prefixo estará a Lua na
posição mais favoravel para ser alcançada pelo projectil?
«Em consequencia do que deixâmos dito, deve, em primeiro logar,
escolher-se a epocha em que a Lua estiver no perigeo, e simultaneamente
o instante em que passar pelo zenith, circumstancia que ha de diminuir
ainda o percurso do projectil de uma distancia igual ao raio da terra,
isto é, de 3:919 milhas, vindo por esta fórma a ser o trajecto
definitivo de 214:976 milhas (86:410 leguas). Porém a Lua, que passa
todos os mezes pelo seu perigeo, nem sempre se encontra no zenith no
mesmo instante, e só a largos intervallos satisfaz simultaneamente a
estas duas condições. Necessario é portanto esperar a coincidencia da
passagem pelo perigeo com a passagem pelo zenith.
«Por feliz acaso, no dia 4 de dezembro do anno proximo, a Lua ha de
preencher as duas condições indicadas: á meia noite estará no perigeo,
isto é, no ponto da sua orbita d'onde é mais curta a distancia á Terra,
e passará no mesmo instante pelo zenith.
«Em relação á quinta pergunta: A que ponto do céu deve fazer-se a
pontaria com o canhão destinado a lançar o projectil?
«Suppondo admittidas as considerações que precedem, o canhão deve ser
dirigido para o zenith[24] do logar, por maneira que o tiro venha a ser
perpendicular ao plano do horisonte e o projectil fuja assim mais
rapidamente aos effeitos da attracção terrestre. Mas para que a Lua
passe pelo zenith de um logar terrestre, é necessario que este logar não
tenha latitude maior do que a declinação do astro, por outra que o logar
esteja comprehendido entre o equador e os parallelos, que distam d'elle
28^o para norte ou sul. Em qualquer outro logar da terra o tiro havia
necessariamente de ser obliquo, o que seria prejudicial ao bom exito da
experiencia.
«A respeito da sexta pergunta: Que logar deve occupar a Lua no céu, no
instante da partida do projectil?