«Ha mezes, valentes collegas, continuou Barbicane, que pergu

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tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de

dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No

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Rita Farinha (Mar. 2009)

OBRA PREMIADA

PELA

ACADEMIA DAS SCIENCIAS DE FRANÇA

DA TERRA Á LUA

VIAGEM DIRECTA EM 97 HORAS E 20 MINUTOS

Lisboa--Imprensa Nacional--1874

VIAGENS MARAVILHOSAS

JULIO VERNE

DA TERRA Á LUA

VIAGEM DIRECTA

EM 97 HORAS E 20 MINUTOS

TRADUCÇÃO

DE

HENRIQUE DE MACEDO

Lente de mathematica na escola polytechnica e astronomo no observatorio

de marinha

BIBLIOTHECA ILLUSTRADA DE INSTRUCÇÃO E RECREIO

EMPREZA HORAS ROMANTICAS

Rua dos Calafates, 102, 1.^o andar

LISBOA

Traducção auctorisada e reservada

--JULIO VERNE--

[Figura]

DA TERRA Á LUA

CAPITULO I

O GUN-CLUB

Durante a guerra federal dos Estados Unidos fundou-se, na cidade de

Baltimore, mesmo no centro do Maryland, um novo club de grande

influencia.

É notoria a energia com que se desenvolveram os instinctos militares por

entre aquella população de armadores, de negociantes e de machinistas.

Insignificantes mercadores saltaram por cima do balcão e acharam-se de

improviso transformados em capitães, em coroneis e até em generaes, sem

terem passado pelas escolas de applicação de West-Point[1]; em curto

espaço foram na _arte da guerra_ dignos rivaes dos collegas do velho

continente, e, á imitação d'estes, alcançaram, á força de prodigalisar

balas, milhões e homens, brilhantes victorias.

Mas em que os americanos excederam singularmente os europeus foi na

sciencia da balistica; e não porque as armas americanas attingissem mais

elevado grau de perfeição, senão porque apresentaram dimensões

desusadas, e tiveram por consequencia alcances correspondentes e até

então desconhecidos.

Pelo que diz respeito a tiros rasantes, immergentes ou em cheio, a fogos

de escarpa de enfiada ou de revez, já não têem, inglezes, francezes nem

prussianos cousa alguma que aprender; mas os canhões, obuzes e morteiros

europeus são apenas pistolas de algibeira, comparados com os formidaveis

machinismos bellicos da artilheria americana.

Não deve causar espanto o que deixâmos dito. Os yankees, que são os

primeiros mechanicos do mundo, nascem engenheiros como qualquer italiano

nasce musico, ou qualquer allemão, philosopho transcendental; portanto

nada mais natural do que ve-los demonstrar na applicação á sciencia da

balistica o audacioso engenho de que são dotados.

Assim se explicam esses gigantescos canhões, que, muito menos uteis que

as machinas de coser, são pelo menos tão admiraveis e de certo ainda

mais admirados. Os maravilhosos inventos, n'este genero, de Parrott, de

Dahlgreen e de Rodman são bem conhecidos; os Armstrong, os Palliser, os

Treuille de Beaulieu não tiveram mais remedio do que curvar-se vencidos

perante os seus rivaes de alem mar.

Tudo isto deu causa a que, durante a terrivel lucta entre os partidarios

do norte e os do sul, occupassem os artilheiros em toda a parte o

primeiro logar; celebravam-lhes os jornaes da União os inventos com

enthusiasmo, e sem exceptuar o mais insignificante dos logistas ou o

mais ingenuo dos booby[2], todos quebravam a cabeça dia e noite a

calcular trajectorias impossiveis.

Ora quando a uma cabeça de americano acode uma idéa, busca logo o seu

possuidor segundo americano que a acceite: chegam a tres, elegem logo

presidente e dois secretarios; quatro, nomeiam archivista e funcciona a

_mesa_; cinco, convocam-se em assembléa geral, e está constituido um

club. Assim succedeu em Baltimore.

O primeiro que inventou um novo canhão associou-se com o primeiro que o

fundiu e com o primeiro que o perfurou. Tal foi o primitivo nucleo do

Gun-Club[3], que um mez depois da sua inauguração contava mil oitocentos

e trinta e tres socios effectivos, e trinta mil quinhentos e setenta e

cinco socios correspondentes.

A todos que queriam fazer parte da associação era imposta uma condição

_sine qua non_, a de ter inventado, ou pelo menos aperfeiçoado, um

canhão; na falta de canhão uma arma de fogo qualquer. Mas, para dizer a

verdade inteira, bem pouca consideração gosavam os inventores de

revolvers de quinze tiros, de carabinas girantes ou de sabres-pistolas.

Em tudo lhe levavam os artilheiros primazia.

A estima de que é credor qualquer socio, disse um dia um dos mais

entendidos oradores do Gun-Club, é proporcional «ás massas» do canhão

que inventou, e está «na rasão directa do quadrado das distancias a que

alcançam os respectivos projectis!»

[Figura: Os artilheiros de Gun-Club (pag. 12).]

Com pequena differença, era a lei de Newton ácerca da gravitação

universal transportada ás cousas do mundo moral.

Fundado o Gun-Club, facil é imaginar o que produziria n'este genero o

engenho inventivo dos americanos. Os machinismos de guerra assumiram

proporções colossaes, e os projectis foram alem dos limites permittidos

partir em dois bocados inoffensivos transeuntes. Todos estes inventos

deixaram a perder de vista os timidos instrumentos da artilheria

europea. Forme-se juizo pelos seguintes algarismos.

Outr'ora «bom tempo era esse» uma bala de trinta e seis, á distancia de

trezentos pés, varava trinta e seis cavallos apanhados de flanco ou

sessenta e oito homens. Era a infancia da arte. Desde essa epocha

progrediram muito os projectis. O canhão Rodman, que, com uma bala de

meia tonelada[4] alcançava a sete milhas[5], facilmente poria fóra de

combate cento e cincoenta cavallos e trezentos homens. Chegou-se até a

discutir no Gun-Club a conveniencia e possibilidade de submetter a uma

experiencia solemne as qualidades d'este canhão monstruoso. Porém se os

cavallos consentiram em tentar a experiencia, infelizmente a respeito de

homens nem um só se offereceu.

Em todo o caso, o que é fóra de duvida é que o effeito d'estas armas era

extremamente mortifero e que por cada tiro caíam os combatentes como

espigas sob a foice do ceifador. Que valiam, comparados com taes

projectis, aquella famosa bala que, em Contras, em 1785, poz fóra de

combate vinte e cinco homens, ou aquella outra que, em Zorndoff em 1758,

matou quarenta infantes, e o canhão austriaco de Kesselsdorf, em 1742,

que por cada tiro derrubava setenta inimigos?

Que importancia tinham esses surprehendentes fogos de Iena ou de

Austerlitz, que decidiram da sorte de uma batalha? Durante a guerra

federal na America viram-se cousas muito mais de pasmar! No combate de

Gettysburg, um projectil conico lançado por um canhão raiado feriu cento

e setenta e tres confederados, e, na passagem do Potomac, uma bala

Rodman mandou para um mundo evidentemente melhor duzentos e quinze

partidarios do Sul. Não é menos digno de menção um formidavel morteiro

inventado por J.-T. Maston, socio distincto e secretario perpetuo do

Gun-Club, cujos effeitos foram sem comparação mais mortiferos, visto

como, do primeiro tiro de experiencia, matou trezentas e trinta e sete

pessoas; verdade é que o morteiro rebentou!

Que havemos de accrescentar a estes numeros já de per si tão eloquentes?

Nada. Assim, por certo, será admittido sem contradicção o seguinte

calculo apresentado pelo _estatistico_ Pitcairn, que dividindo o numero

das victimas de tiro de bala pelo dos socios do Gun-Club, demonstrou que

cada um d'estes tinha morto em «media», dois mil trezentos e setenta e

cinco homens e uma fracção.

Para quem reflectir em tal algarismo, fica evidente que a unica

preoccupação d'aquella sociedade scientifica era a destruição da

humanidade, com um fim philanthropico, o aperfeiçoamento das armas de

guerra, consideradas como instrumentos de civilisação. Era uma reunião

de anjos exterminadores, e a fóra isto, as melhores pessoas do mundo.

Cumpre-nos accrescentar que estes yankees corajosos a toda a prova, não

se ficavam em formulas e experimentavam com o proprio corpo. Havia no

Club officiaes de todas as graduações, de tenente a general, militares

de todas as idades, dos que debutavam na carreira das armas, como dos

que iam já encanecendo sobre os reparos. Muitos tinham ficado nos campos

de batalha, cujos nomes estavam inscriptos no livro de honra do

Gun-Club, e dos que tinham voltado a maior parte trazia no proprio corpo

signaes indiscutiveis de intrepidez. Moletas, pernas de pau, braços

articulados, mãos de gancho, maxilas de caoutchouc, craneos de prata,

narizes de platina... a collecção era completa. O supradito Pitcairn

calculou tambem que no Gun-Club havia um pouco menos de um braço por

quatro pessoas e sómente duas pernas por cada seis socios.

Mas os valentes artilheiros pouca importancia ligavam a similhantes

ninharias, e com legitimo fundamento se ufanavam, quando o boletim da

batalha contava o numero das victimas pelo decuplo dos tiros disparados.

Porém um dia, triste e lamentavel dia, foi assignada a paz pelos

sobrevivos da guerra; cessaram pouco a pouco as detonações, calaram-se

os morteiros, os obuzes para largo tempo açaimados e os canhões de

cabeça pendida, recolheram aos arsenaes; as balas empilharam-se nos

parques, foram-se apagando as recordações sanguinolentas, brotaram com

magnificencia os algodoeiros dos campos pinguemente adubados, foram-se

fazendo velhos a par das dores e das saudades os fatos de luto, e o

Gun-Club ficou immerso na mais profunda inacção.

Um ou outro trabalhador afferrado e incansavel se entregava ainda a

calculos balisticos e fazia seu pensamento dilecto de bombas gigantescas

e obuzes incomparaveis.

Mas sem pratica de que serviam theorias vãs?

Por isso as salas do Club viam-se desertas, dormiam os creados nas

antecamaras, os jornaes creavam bafio por cima das mesas, ouviam-se

tristes roncos, que partiam dos cantos escuros das salas, e os membros

do Gun-Club, outr'ora tão ruidosos, agora reduzidos ao silencio por uma

paz desastrosa, adormeciam engolfados em meditações de artilheria

platonica.

«Que desconsolação, dizia uma noite o valente Tom Hunter, e no

entretanto ia-lhe o lume do fogão carbonisando as pernas de pau: Nada

que fazer! nem uma esperança! Que fastidiosa existencia! Onde vae o

tempo em que as alegres detonações do canhão nos despertavam todas as

manhãs?

Esse tempo já lá vae, retorquiu o inquieto Bilsby, esperguiçando-se com

os braços que já não tinha. Era um feliz tempo esse. Inventava qualquer

o seu obuz, e apenas fundido, corria a experimenta-lo no inimigo; quando

regressava, ao acampamento sempre tinha ouvido alguma palavra animadora

a Sherman ou recebido um aperto de mão de Mac-Clellan! Mas hoje, os

generaes voltaram aos seus balcões, e em vez de projectis, expedem

inoffensivos fardos de algodão! Ai! por santa Barbara! Está perdido o

futuro da artilheria na America!

--É verdade, Bilsby, exclamou o coronel Blomsberry, são bem crueis estes

desenganos! Deixa a gente um dia os seus habitos socegados, exercita-se

no manejo das armas, troca Baltimore pelos campos de batalha, porta-se

como um heroe, e dois ou tres annos depois, ha de perder o fructo de

tantas fadigas, adormecer em deploravel ociosidade, e encaixar as mãos

nas algibeiras.»

Bem podia fallar o valente coronel, havia de ver-se em graves

difficuldades, se quizesse dar tal prova de inactividade, e não eram as

algibeiras que lhe faltavam.

«E nem uma só guerra em perspectiva! disse então o famoso J.-T. Maston,

coçando com o gancho de ferro o craneo de guttapercha. Não ha uma nuvem

no horisonte, e tanto que fazer na sciencia da artilheria! Eu que lhes

estou fallando, terminei esta manhã a _épure_, com plano, perfil e

elevação de um morteiro que havia de fazer mudar as leis da guerra!

--Sim? replicou Tom Hunter, recordando-se involuntariamente da ultima

experiencia do honrado J.-T. Maston.

--É verdade, respondeu este. Mas para que hão de servir tantos estudos

levados a cabo, tantas difficuldades vencidas? Não será tudo isto

trabalho absolutamente inutil? Parece que os povos do novo mundo se

conluiaram para viver em paz, e até o nosso bellicoso _Tribune_[6]

chegou a prognosticar imminentes catastrophes exclusivamente causadas

pelo escandaloso crescer das populações.

--Comtudo, Maston, retorquiu o coronel Blomsberry, na Europa ainda

continua a guerra para sustentar o principio das nacionalidades!

--E então?

--Então! Talvez se podesse tentar por lá alguma cousa, e se acceitassem

os nossos serviços...

--Pensaes seriamente no que dizeis? exclamou Bilsby. Fazer balistica em

proveito de estrangeiros!

--Sempre era melhor do que não fazer nada, retorquiu o coronel.

--De certo, sempre era um pouco melhor, disse J.-T. Maston, mas nem vale

a pena pensar em similhante expediente.

--E porque? perguntou o coronel.

--Porque no velho mundo tem lá umas idéas ácerca de accesso e promoção,

que estariam em opposição com todos os nossos habitos americanos.

Imagina aquella gente que se não póde ser general em chefe sem ter

servido como alferes, o que vale o mesmo que suppor que ninguem póde

fazer uma boa pontaria, sem ter tambem sido o fundidor do canhão! Ora

isto é nada mais nem menos do que...

--Absurdo! concluiu Tom Hunter, lascando com o «bowie-knife»[7] os

braços da poltrona, e pois que assim é, não temos mais remedio do que ir

plantar tabaco ou distillar azeite de baleia!

--Como assim, prorompeu em altos gritos J.-T. Maston; pois não havemos

de empregar estes ultimos annos da nossa existencia no aperfeiçoamento

das armas de fogo! Não ha de offerecer-se nova occasião de ensaiar o

alcance dos nossos projectis! Nunca mais ha de illuminar-se a atmosphera

com o relampago dos nossos canhões! Nem uma só difficuldade

internacional ha de surgir que nos permitta declarar guerra a alguma das

potencias transatlanticas! Não ha de haver algum francez que metta a

pique um dos nossos _steamers_, ou algum inglez que enforque, em

menoscabo do direito das gentes, ao menos tres ou quatro conterraneos

nossos!

--Não, Maston, respondeu o coronel Blomsberry, não é para nós tanta

ventura. Não! nem um d'esses casos succederá, e que succedesse, nem ao

menos haviamos de aproveita-lo! Vae-se de dia para dia a

susceptibilidade americana. Vamos-nos effeminando.

--É verdade que nos humilhâmos! replicou Bilsby.

--E que nos humilham! accrescentou Tom Hunter.

--Tudo quanto dizeis é mais que certo, replicou J.-T. Maston, ainda com

maior vehemencia. Pairam na atmosphera mil motivos de guerra e não

combatemos! Economisam-se braços e pernas, e em proveito de quem? de

gente que não sabe o que lhes ha de dar que fazer! Não busquemos mais

longe motivos de guerra; pois não é verdade que a America do Norte

pertenceu outr'ora aos inglezes?

--Certamente, respondeu Tom Hunter, espertando furioso o lume com a

ponta da moleta.

--Pois bem! continuou J.-T. Maston, porque é que a Inglaterra não ha de,

por seu turno, pertencer aos americanos?

--Nada mais era do que justiça, retorquiu o coronel Blomsberry.

--Pois vão lá propor a idéa ao presidente dos Estados Unidos e verão

como são recebidos!

--Havia de receber-nos mal, murmurou Bilsby, por entre quatro dentes que

lhe tinham escapado das batalhas.

--Por minha fé, exclamou J.-T. Maston, nas proximas eleições escusa de

contar com o meu voto!

--Nem com os nossos, accrescentaram de commum accordo os bellicosos

invalidos.

--No entretanto, continuou J.-T. Maston, em conclusão, se me não

fornecerem occasião para ensaiar o meu novo morteiro n'um campo de

batalha, dou a minha demissão de socio do Gun-Club, e corro a

enterrar-me nos desertos do Arkansas!

--Iremos todos comvosco, responderam os interlocutores do ousado J.-T.

Maston.

Estavam as cousas n'estas alturas, exaltavam-se os espiritos cada vez

mais, e o club estava ameaçado de proxima dissolução, quando um

acontecimento inesperado veiu impedir a realisação de tão lastimosa

catastrophe.

Logo no dia seguinte áquelle em que se realisou a conversação que

relatámos, cada um dos membros do club recebia uma circular concebida

nos seguintes termos:

«Baltimore, 3 de outubro.--O presidente do Gun-Club tem a honra de

prevenir os seus collegas, que na sessão de 5 do corrente lhes fará uma

communicação, que muito ha de interessa-los. Em consequencia lhes pede

que, pondo de parte qualquer outro negocio, concorram á sessão para que

são convidados pela presente.

«De todos mui cordialmente.--_Impey Barbicane_. P. G. C.»

CAPITULO II

COMMUNICAÇÃO DO PRESIDENTE BARBICANE

No dia 5 de outubro, ás oito horas da noite, havia apertão e multidão

compacta nas salas do Gun-Club (Union-square, 21). Todos os membros

d'aquelle club, que residiam em Baltimore, tinham acudido ao convite do

presidente. Os socios correspondentes apeavam-se aos centos dos comboios

expressos, nas ruas da cidade, e grande como era a «hall» (salão) das

sessões, ainda assim aquella multidão immensa de sábios não pôde caber

lá; assim a multidão refluia para todas as salas proximas e ainda para

os corredores, e até ao meio dos pateos exteriores, onde se encontrava

com o simples popular que fazia apertão ás portas; cada um procurava

alcançar melhor logar; todos avidos de conhecer a importante

communicação do presidente Barbicane, apertavam-se, empurravam-se,

esmagavam-se com aquella liberdade de acção que é peculiar das massas

educadas e creadas nas idéas do _self-government_[8].

N'aquella noite o forasteiro que o acaso tivesse levado a Baltimore, nem

a peso de oiro teria conseguido penetrar no salão grande. Fôra este

exclusivamente reservado para os socios residentes ou correspondentes;

ninguem mais lá podia ser admittido, e até os notaveis da cidade e os

magistrados do conselho dos _selectmen_[9] tinham tido que misturar-se

com a turba dos seus administrados para apanharem de relance alguma

novidade lá de dentro.

Apesar d'isto a immensa «hall» apresentava um espectaculo

verdadeiramente digno de excitar a curiosidade, e o vasto aposento

estava maravilhosamente apropriado ao seu destino. Sustentavam-lhe os

finos lavores da abobada, verdadeira renda esculpida a saca-bocados no

ferro fundido, elevadas columnas compostas de canhões sobrepostos e

apoiados em enormes morteiros. Nas paredes agrupavam-se enlaçadas em

pittorescos florões panoplias de bacamartes, de arcabuzes, de carabinas

de toda a especie, de armas de fogo antigas e modernas. Rebentava a

chamma viva do gaz de um milheiro de revolvers agrupados em fórma de

lustres, completando aquella esplendida illuminação girandolas de

pistolas, e candelabros feitos de espingardas enfeixadas. Modelos de

canhões, amostras de bronze, alvos crivados de buracos, placas quebradas

pelo choque das balas do Gun-Club, collecções completas de calcadouros e

lanadas, rosarios de bombas, collares de projectis, grinaldas de obuzes,

n'uma palavra todas as ferramentas do artilheiro se encontravam ali em

tão surprehendente e admiravel disposição, que levava a crer que o seu

verdadeiro fim era mais ornamental do que mortifero.

Contemplava-se no logar de honra resguardado por uma esplendida

_vitrine_ um pedaço de culatra, quebrado e torcido pela força da

polvora. Era uma preciosa reliquia do morteiro de J.-T. Maston.

No fundo da sala, sobre uma espaçosa esplanada sentava-se o presidente

ladeado por quatro secretarios. A cadeira presidencial levantada sobre

um reparo esculpido, apparentava no conjuncto das robustas fórmas a

figura de um morteiro de trinta e duas pollegadas, em pontaria por um

angulo de noventa graus e suspensa em munhões, por fórma tal que o

presidente podia dar-lhe, como a qualquer _rocking-chair_[10], um

balanço muito agradavel nas occasiões de grande calor. Sobre a mesa,

grande placa de ferro laminado, aguentada por seis coronadas, estava um

tinteiro de gosto delicado: era feito de um biscainho deliciosamente

cinzelado. Ao lado estava uma campainha de detonação, que na occasião

propria soava como um revolver. E nas occasiões de discussão vehemente

mal bastava esta campainha de novo genero para superar as vozes

d'aquella legião de artilheiros enthusiasmados.

Em frente da mesa presidencial estavam dispostos em zig-zags, como as

circumvallações de uma trincheira, formando uma serie de bastiões e de

cortinas, os bancos onde tomavam assento os socios do Gun-Club; e

n'aquella noite podia afoitamente dizer-se «que estava bastante gente

nas muralhas». O presidente era por demais conhecido, para que alguem

acreditasse que havia de incommodar os collegas sem motivo de maior

gravidade.

Impey Barbicane era homem de quarenta annos, impassivel, frio, austero,

de espirito eminentemente serio e concentrado, de temperamento a toda a

prova e de caracter inabalavel; pouco cavalheiresco, e todavia

aventuroso, cingia-se ás idéas praticas, ainda quando empenhado nos mais

temerarios emprehendimentos; era o homem por excellencia da Nova

Inglaterra, o colonisador dos estados do norte, o descendente d'aquelles

Cabeças Redondas, que tão funestos foram para os Stuarts, o inimigo

implacavel dos _gentlemen_ dos estados do sul, legitimos representantes

dos antigos Cavalleiros da mãe patria. N'uma palavra, um yankee de antes

quebrar que torcer.

Barbicane fizera grande fortuna no commercio das madeiras; nomeado

durante a guerra director de artilheria, mostrou-se fertil em invenções,

e cheio de audacia em todas as suas idéas contribuiu poderosamente para

os progressos d'aquella arma, communicando ás indagações experimentaes

incomparavel actividade.

Era homem de corporatura media, e que tinha, rara excepção no Gun-Club,

todos os membros intactos. Parecia que as feições accentuadas lhe tinham

sido talhadas a esquadro e tira-linhas, e se é verdade que, para

adivinhar os instinctos de alguem, devemos olha-lo de perfil, Barbicane,

examinado assim, apresentava os mais seguros indicios de energia, de

audacia e de presença de espirito.

N'aquelle instante, estava immovel na cadeira presidencial, mudo,

absorto, com o olhar vago e profundo, com o rosto semi-occulto pelo

chapéu de fórma alta, cylindro de seda preta que parece seguro a tarraxa

no craneo de qualquer americano.

[Figura: A sessão do Gun-Club (pag. 22).]

Conversavam em torno d'elle e em voz alta os collegas, sem conseguirem

distrahi-lo; abalançavam-se ao campo das supposições, olhavam o

presidente, buscando em vão deduzir o X da sua imperturbavel

physionomia.

[Figura: O passeio á luz dos archotes (pag. 28).]

Quando deram oito horas no relogio fulminante do salão, Barbicane

levantou-se de subito, como que impellido por uma mola; calou-se tudo, e

o orador, em tom um pouco emphatico, usou da palavra nos seguintes

termos:

«Estimaveis consocios, de ha muito que a paz infecunda veiu immergir os

socios do Gun-Club em lastimosa inactividade. Depois de um periodo de

alguns annos, tão cheio de incidentes, fomos forçados a abandonar os

nossos trabalhos e a fazer alto de subito na senda do progresso. Não me

arreceio de proclama-lo em voz bem alta, uma guerra qualquer que de novo

nos pozesse as armas nas mãos, seria bem recebida...

--Apoiado, á guerra! exclamou o impetuoso J.-T. Maston.

--Ouçam! ouçam! disseram de todos os lados.

--Porém a guerra, proseguiu Barbicane, a guerra é impossivel nas

circumstancias actuaes, e por maiores que sejam as esperanças do meu

honrado interruptor, penso que muitos annos hão de correr antes que os

canhões americanos troem de novo no campo de batalha. É portanto

necessario que a isso nos resignemos e que busquemos n'outra ordem de

idéas alimento para a actividade que nos devora!»

A assembléa percebeu que o presidente chegava ao ponto delicado;

redobrou a attenção.

«Ha mezes, valentes collegas, continuou Barbicane, que perguntei eu a

mim proprio se, sem sair da nossa especialidade, poderiamos emprehender

alguma d'essas grandes experiencias dignas do seculo XIX, e se nos

permittiriam os progressos da balistica sair bem do nosso empenho.

Em consequencia, inquiri, trabalhei, calculei, e dos meus estudos

resultou a convicção de que havemos de saír-nos bem de um

emprehendimento, que pareceria impraticavel em qualquer outro paiz. É

este projecto, por longo tempo elaborado, que vae ser assumpto da minha

communicação: é digno de vós, digno do passado do Gun-Club, e não póde

deixar de fazer estrondo no mundo!

--Bastante estrondo? perguntou um artilheiro enthusiasta.

--Muito estrondo, no verdadeiro sentido da palavra, respondeu Barbicane.

--Não interrompam! disseram muitas vozes.

--Peço-lhes, pois, caros collegas, accrescentou o presidente, que me

dêem completa attenção.»

Um fremito percorreu a assembléa inteira. Barbicane, depois de, com

gesto rapido, ter carregado o chapéu na cabeça, proseguiu no seu

discurso com voz placida:

Não ha um só de vós, estimaveis collegas, que não tenha visto a Lua, ou

que, pelo menos, não ouvisse fallar n'ella. E não vos admireis de que

venha aqui fallar-vos do astro das noites. Talvez esteja para nós

reservado sermos os Colombos d'esse mundo ignoto. Seja eu comprehendido,

auxiliado com todo o poder de que os meus socios dispõem, e

conduzi-los-hei á conquista d'esse novo mundo, cujo nome ha de vir

juntar-se aos dos trinta e seis estados que compõem este grande paiz da

União!

--Hurrah pela Lua! gritou, como um só homem, o Gun-Club inteiro.

--Muito se tem estudado ácerca da Lua, continuou Barbicane, a massa, a

densidade, o peso, o volume, a constituição, os movimentos, a distancia

emfim d'este astro, e o papel que elle desempenha no mundo solar estão

perfeitamente determinados: ha mappas selenographicos[11] cuja perfeição

é igual senão superior á dos mappas terrestres: pela photographia

têem-se obtido do nosso satellite provas de belleza imcomparavel.

Resumindo, sabemos ácerca da Lua tudo quanto as mathematicas, a

astronomia, a geologia e a optica poderam ensinar-nos; mas até hoje

ainda se não estabeleceu meio algum directo de communicação com esse

astro.»

A ultima phrase do orador excitou tal interesse e surpreza na assembléa,

que chegou a produzir violenta agitação.

--Permittam-me, continuou este, que lhes traga á lembrança em poucas

palavras, como foi que alguns homens exaltados, tendo embarcado em

espirito para viagens imaginarias, pretenderam ter penetrado os segredos

do nosso satellite. No seculo XVII, um tal David Fabricius, gabou-se de

ter visto com os seus proprios olhos alguns habitantes da Lua. Em 1649,

um francez, João Baudoin, publicou um livro intitulado a _Viagem feita

ao mundo Lunar por Domingos Gonzalez, aventureiro hespanhol_. Na mesma

epocha, deu á luz da publicidade Cyrano de Bergerac, aquella celebre

expedição, que tanto renome teve em França. Algum tempo depois, outro

francez (porque estes senhores entretem-se muito com a Lua) chamado

Fontenelle escreveu a _Pluralidade dos mundos_, que foi, no seu tempo

uma obra prima; verdade é que a sciencia em seu caminhar constante até

as obras primas esmaga. Em 1835 um opusculo traduzido do jornal _New

York American_ contava que sir John Herschell, enviado ao Cabo da Boa

Esperança para ali fazer observações astronomicas, tinha conseguido, por

meio de um telescopio aperfeiçoado por illuminação interior, trazer a

Lua a uma distancia apparente de oitenta jardas[12]. Por esta fórma

observára distinctamente na Lua cavernas, nas quaes viviam hippopotamos,

verdejantes montanhas franjadas de renda de oiro, carneirinhos com armas

de marfim, brancos cabritos montezes e até habitantes com azas

membranosas como os morcegos. Este folheto, obra de um americano chamado

Loche[13], teve grande voga. Mas pouco depois conheceu-se que não era

senão uma mystificação scientifica, e os francezes foram as primeiras a

rir-se d'elle.

--Rir de um americano! exclamou J.-T. Maston; mas isso é um _casus

belli_!...

--Socegue o meu digno amigo, que antes de se rirem tinham sido os

francezes perfeitamente embaidos pelo nosso compatriota. Para terminar

esta breve resenha historica, accrescentarei que um tal Hans Pfaal de

Rotterdam, elevando-se n'um balão cheio de um gaz tirado do azote e

trinta e sete vezes mais leve que o hydrogeneo, chegou á Lua, depois de

dezenove dias de viagem, e tambem que esta viagem não passou, como as

anteriores, de uma tentativa da imaginação; era porém obra de um

escriptor popular na America, engenho singular e contemplativo. É como

se pronunciára o nome de Pöe.

--Hurrah por Edgard Pöe! exclamou a assembléa electrisada pelas palavras

do presidente.

--Conclui o que tinha a dizer-vos, proseguiu Barbicane, no que diz

respeito a tentativas que considerarei puramente litterarias e

absolutamente insufficientes para estabelecer serias relações com o

astro das noites. Devo todavia accrescentar, que alguns espiritos

praticos tentaram já pôr-se em seria communicação com elle. Foi assim

que ha alguns annos um geometra allemão propoz que se mandasse aos

aridos steppes da Siberia uma commissão de homens de sciencia, para que

n'aquellas vastas planicies fizessem desenhar por meio de reflectores

luminosos, immensas figuras geometricas, entre outras a do quadrado da

hypothenusa, vulgarmente chamada pelos francezes «le Pont aux ânes».

«Todo o ser intelligente, dizia este geometra, deve comprehender qual o

destino scientifico de taes figuras; portanto os selenitas[14], se é que

existem, hão de responder por meio de figuras similhantes, e uma vez

estabelecida a communicação, facil será inventar um alphabeto, que dê

meio de conversar com os habitantes da Lua.»

Assim fallava o geometra allemão; mas tal alphabeto nunca teve execução,

e até hoje nenhuma ligação directa existiu entre a Terra e o seu

satellite. Estava reservado para o engenho pratico dos americanos o

porem-se em relação com o mundo sideral. E o meio de consegui-lo é

simples, facil, certo, infallivel, e vae ser o assumpto da minha

proposta.»

Estas palavras tiveram por ecco uma immensa algazarra, uma tempestade de

exclamações e de applausos. Não havia um só dos assistentes que não se

tivesse deixado dominar, arrastar e enthusiasmar pelas palavras do

orador.

Ouçam! ouçam! silencio! era o que se ouvia de todos os lados.

Logoque socegou a agitação, Barbicane continuou em voz mais grave o seu

interrompido discurso:

«Sabeis todos, disse, que progressos se tem feito em balistica de alguns

annos a esta parte, e a que ponto de perfeição teriam chegado as armas

de fogo se a guerra tivesse continuado. Tambem não ignoraes que póde

affirmar-se, em geral, que a força de resistencia do canhão e a potencia

expansiva da polvora não tem limitação. Pois bem! Partindo d'este

principio, perguntei a mim proprio, se usando de um instrumento

adequado, collocado em condições determinadas de resistencia, seria

possivel enviar uma bala até a Lua!»

Ao ouvir a assembléa estas palavras, exhalou-se a um tempo, de mil

peitos arquejantes, uma exclamação de profundo pasmo; houve depois uma

pausa silenciosa, similhante á profunda calmaria que precede as

tempestades.

E effectivamente ribombou o trovão, mas um trovão de applausos, de

gritos, de clamores, que fez tremer a sala das sessões. O presidente

queria fallar, e não podia, só passados dez minutos conseguiu fazer-se

ouvir.

«Deixem-me concluir, disse elle friamente. Estudei a questão sob todos

os seus aspectos, ataquei resolutamente o problema, e dos meus calculos

indiscutiveis resulta, que um projectil animado de uma velocidade

inicial de doze mil jardas[15] por segundo, e dirigido para a Lua, ha de

necessariamente lá chegar. Tenho pois a honra, estimaveis collegas, de

propor-vos que tentemos esta pequena experiencia!»

CAPITULO III

EFFEITO DA COMMUNICAÇÃO BARBICANE

É impossivel descrever o effeito produzido pelas ultimas palavras do

honrado presidente. Que gritos! que vociferações! que successão de

grunhidos, de hurrahs, de «hip! hip! hip!» de todos aquellas onomatopeas

que superabundam na linguagem dos americanos. Era uma desordem, uma

algazarra indescriptivel! Gritavam as bôcas, batiam as mãos, e os pés

abalavam o pavimento das salas. Nem que todas as armas d'aquelle museu

de artilheria se disparassem a um tempo teriam agitado com maior

violencia as ondas sonoras. Nem o caso é para admirar. Artilheiros ha

mais ruidosos que os proprios canhões.

Barbicane permanecêra impassivel no meio de todos estes clamores

enthusiastas; desejava talvez dirigir ainda mais algumas palavras aos

consocios, porque pelos gestos reclamava silencio, e o timbre fulminante

disparou tão violenta como inutilmente. Porém nem sequer o ouviam. Pouco

depois arrancaram-n'o da cadeira presidencial e levaram-n'o em triumpho,

passando das mãos dos fieis camaradas para os braços de uma multidão não

menos exaltada.

Não ha cousa n'este mundo capaz de causar pasmo a um americano. Muitas

vezes se tem repetido que a palavra «impossivel» não é franceza.

Certamente ha n'esta asserção troca de diccionario. Na America é que

tudo é facil, tudo é simples, e pelo que diz respeito a difficuldades

mechanicas, essas estão mortas já antes de nascerem. Nem um só yankee

genuino teria permittido a si proprio sonhar sequer uma sombra de

difficuldade entre o projecto Barbicane e a sua realisação. Dito e

feito.

O passeio triumphal do presidente prolongou-se durante a noite. Foi uma

verdadeira marcha á luz dos archotes. Irlandezes, allemães, francezes,

toda a casta de individuos heterogeneos de que é formada a população do

Maryland, gritavam na sua lingua patria. Os vivas, os hurrahs e os

bravos confundiam-se n'um enthusiasmo inesprimivel.

Por coincidencia a Lua, como se percebêra que d'ella se tratava,

brilhava n'aquella noite com uma serena magnificencia, e eclipsava com a

intensa irradiação todas as luzes terrestres.

Os yankees dirigiam todos os olhos para o disco scintillante do astro:

saudavam-n'o uns com a mão, outros chamavam-lhe os nomes mais

carinhosos; estes mediam-n'a com os olhos, aquelles ameaçavam-n'a de

murro fechado. Um fabricante de instrumentos de optica de

James-Fall-street fez fortuna a vender oculos desde as oito horas até á

meia noite. O astro das noites era contemplado atravez dos vidros das

lunetas, como se fôra qualquer _lady_ da alta sociedade. Os americanos

procediam já para com elle com a sem-ceremonia de verdadeiros

proprietarios. Quem os visse diria, que a loura Phoeba era já dominio

d'aquelles conquistadores audazes, e parte integrante do territorio da

União.

E todavia mal começára ainda a agitar-se o problema de mandar-lhe um

projectil, maneira um tanto aspera de encetar relações, mesmo com um

satellite, porém muito usada entre nações civilisadas.

Meia noite acabava de soar e o enthusiasmo não arrefecia; mantinha-se em

igual nivel em todas as classes da população; magistrados, homens de

sciencia, negociantes, logistas e carrejões, tanto os homens de

intelligencia elevada e culta, como os estupidos e ignaros tinham

sentido abalo profundo na mais delicada fibra de seu ser; o caso de que

se tratava era um emprehendimento nacional, e por isso na cidade alta,

na cidade baixa, nos caes banhados pelas aguas do Patapsco, nos navios

fundeados nas docas, apinhava-se a multidão, ebria de alegria, de _gin_

e de _wisky_; conversavam todos, peroravam, discutiam, disputavam,

approvavam ou applaudiam, desde o _gentleman_, que negligentemente

recostado no canapé de algum botequim, defrontava com a sua _chope_ e de

_sherry-cobler_[16], até ao aguadeiro, que se emborrachava com

_mataratos_[17] n'alguma sombria taberna de Fells-Point.

Comtudo, pela volta das duas horas, acalmou-se a emoção, e o presidente

Barbicane conseguiu recolher a casa, moido, esfalfado e derreado. Nem um

Hercules teria resistido a tal enthusiasmo. A turba foi pouco e pouco

evacuando as praças e as ruas. Os quatro caminhos de ferro do Ohio, de

Susquehanna, de Philadelphia e de Washington, que entroncam em

Baltimore, foram lançar o publico hexogeneo nos quatro extremos dos

Estados Unidos, e a cidade começou de repousar em relativa

tranquillidade.

Enganar-se-ia quem suppozesse que durante aquella memoravel noitada, só

Baltimore fôra victima da agitação que descrevemos. Todas as grandes

cidades da União, Nova-York, Boston, Albany, Washington, Richmond, a

Cidade Crescente[18], Charleston, Mobile, desde o Texas até ao

Massachussets, e desde o Michigan até ás Floridas, todas participaram

d'aquelle delirio, porque os trinta mil socios correspondentes do

Gun-Club, que já tinham conhecimento da carta do seu presidente,

esperavam com igual impaciencia a famosa communicação de 5 de outubro, e

portanto n'esta mesma noite, á medida que as palavras saíam dos labios

do orador, iam correndo pelos fios telegraphicos, através dos Estados da

União, com a velocidade de duzentas e quarenta e oito mil quatrocentas e

quarenta e sete milhas[19] por segundo. Por consequencia póde dizer-se,

com absoluta certeza, que os Estados Unidos, que têem dez vezes o

tamanho da França, soltaram n'um mesmo instante um _hurrah_, unico e

unanime, e que vinte e cinco mil corações, entumecidos de orgulho,

bateram a mesma pulsação.

No dia seguinte lançaram mão do assumpto mil e quinhentos periodicos

diarios, hebdomadarios, mensaes ou bi-mensaes, e estudaram-n'o sob os

differentes pontos de vista da physica, da meteorologia, da economia

politica e da moral; pelo lado da preponderancia politica, e pelo da

civilisação. Discutiam se a Lua era um mundo _acabado_, ou se estaria

ainda em via de transformação. Perguntavam se era similhante á terra na

epocha em que esta não tinha ainda atmosphera, qual era o aspecto da

face lunar invisivel do espheroide terrestre, e ainda que se não tratava

na occasião de mais do que enviar uma bala ao astro das noites, ninguem

duvidava que esse facto seria ponto de partida para uma serie de novas

experiencias, antes todos esperavam que um dia a America havia de

penetrar os mais occultos arcanos do mysterioso disco. Havia até já quem

parecesse arreceiar-se de que a conquista da Lua viesse a transtornar o

equilibrio europeu.

Discutiu-se é verdade o projecto, mas nem um unico jornal poz duvidas á

possibilidade da realisação d'elle; antes pelo contrario até as

revistas, folhetos, boletins e _magasines_ publicados por associações

scientificas, litterarias ou religiosas se encarregaram de demonstrar as

vantagens de tal tentativa. A _sociedade de historia natural_ de Boston,

a _sociedade americana de sciencias e artes_ de Albany, a _sociedade

geographica e estatistica_ de New-York, a _sociedade philosophica

americana_ de Philadelphia, e o _Instituto Smithsoniano_ de Washington

enviaram ao Gun-Club milhares de cartas de felicitação, com

offerecimentos promptos de coadjuvação e dinheiro.

Póde portanto dizer-se que nunca proposta alguma alcançou tão grande

numero de adhesões; de hesitar, duvidar ou arreceiar-se pelo bom exito

d'ella, é que ninguem se lembrou; e se a alguem occorresse, como de

certo teria succedido na Europa, e particularmente em França, responder

com mofas, caricaturas ou cançonetas epigrammaticas á idéa de enviar um

projectil á Lua, de bem mau proveito lhe haviam de servir, que nem todos

os _guarda-vidas_[20] do mundo lhe poderiam guardar as costas contra a

indignação geral.

Ha cousas de que não é permittido rir no novo mundo.

A partir d'aquelle dia foi pois Impey Barbicane considerado como um dos

mais notaveis e maiores cidadãos dos Estados Unidos, uma especie de

Washington da sciencia; um só facto entre muitos bastará para evidenciar

a que ponto chegára aquella infeudação subita de um povo inteiro a um

homem.

[Figura: O observatorio de Cambridge (pag. 35).]

Passados alguns dias depois da famosa sessão do Gun-Club, annunciou, no

theatro de Baltimore, o director de uma companhia ingleza a

representação de _Much ado about nothing_[21]. Ora a população da

cidade, que viu no titulo da comedia uma allusão offensiva aos projectos

do presidente Barbicane, invadiu a sala, escangalhou os bancos, e

obrigou o desgraçado do director a alterar o cartaz. O director, que era

homem fino, soube curvar-se perante a vontade publica, e substituiu a

desventurada comedia por _As you like it_[22]. O resultado foi ter,

durante muitas semanas consecutivas, enchentes phenomenaes.

[Figura: Movimentos de translação da Lua (pag. 43).]

CAPITULO IV

RESPOSTA DO OBSERVATORIO DE CAMBRIDGE

Barbicane, apesar de todas as ovações de que era alvo, não desperdiçou

um só instante. A primeira cousa de que tratou foi de reunir os collegas

da mesa nas salas de commissão do Gun-Club, onde, com previa discussão,

se accordou que fossem consultados os astronomos ácerca da parte

astronomica do projecto, e que depois de conhecida a resposta d'estes,

se discutissem então os meios mechanicos, sem descurar cousa alguma para

tornar seguro o exito da grande experiencia.

Redigiu-se por consequencia uma _nota_ extremamente precisa, contendo

perguntas especiaes, que foi dirigida ao observatorio de Cambridge, no

Massachussets. A cidade de Cambridge, onde foi fundada a primeira

universidade dos Estados Unidos, é justamente nomeada pelo seu

observatorio astronomico, onde se encontram reunidos homens de sciencia

do mais elevado merecimento. É ali que funcciona o potente telescopio,

com o qual Bond conseguiu resolver a nebulosa de Andromedes, e Clarke

descobrir o satellite de Sirius. Todos os precedentes d'este

estabelecimento celebre justificavam portanto a confiança do Gun-Club.

E com effeito, dois dias depois, chegava ás mãos do presidente Barbicane

a resposta tão impacientemente esperada.

Era concebida nos seguintes termos:

«Do director do observatorio de Cambridge para o presidente do Gun-Club,

em Baltimore.

«Logoque se recebeu a vossa honrosa missiva de 6 do corrente, endereçada

ao observatorio de Cambridge em nome dos socios do Gun-Club, de

Baltimore, reuniu-se o pessoal scientifico d'este estabelecimento, e

houve por conveniente[23] responder como se segue:

«As perguntas que lhe foram feitas são as seguintes:

«1.^o Será possivel enviar um projectil até á Lua?

«2.^o Qual é a distancia exacta que ha entre a Terra e o seu satellite?

«3.^o Quanto tempo durará o trajecto do projectil ao qual tenha sido

imprimida a velocidade inicial sufficiente, e por consequencia, em que

momento deverá ser arremessado para que encontre a Lua n'um ponto

determinado?

«4.^o Em que momento prefixo estará a Lua na posição mais favoravel para

ser alcançada pelo projectil?

«5.^o A que ponto do céu deve fazer-se a pontaria com o canhão destinado

a lançar o projectil?

«6.^o Que logar ha de occupar a Lua no céu, no momento da partida do

projectil?

«Em relação á primeira pergunta: Será possivel enviar um projectil até á

Lua?

«Sim, é possivel alcançar a Lua com um projectil, comtanto que se

consiga animar esse projectil de uma velocidade inicial de 12:000 jardas

por segundo. Demonstra o calculo que tal velocidade é bastante.

«Á medida que nos afastâmos da terra, a acção da gravidade diminue na

rasão inversa do quadrado das distancias, isto é, por exemplo, para uma

distancia tres vezes maior, torna-se nove vezes menor. Por consequencia

o peso da bala ha de decrescer rapidamente, até chegar a ser

completamente nullo, o que ha de succeder no momento em que a attracção

da Lua fizer equilibrio á da Terra, isto é, quando tiver percorrido

47/52 avos do seu trajecto. N'esse momento o projectil não terá peso

algum, e se passar alem d'esse ponto ha de caír _para_ a Lua só por

effeito da attracção lunar. Fica portanto irrecusavelmente demonstrada a

possibilidade theorica da experiencia; emquanto ao seu bom exito, esse

depende unicamente da potencia do machinismo que se empregar.

«Com respeito á segunda pergunta: Qual é a distancia exacta que ha entre

a Terra e o seu satellite?

«A Lua não descreve em torno da terra uma circumferencia de circulo, mas

sim uma ellipse, n'um dos focos da qual está situado o nosso globo;

d'ahi vem por consequencia que a Lua está, ora mais proxima, ora mais

afastada da terra, ou em termos astronomicos, agora no apogeo, logo no

perigeo; e a differença entre a maior e a menor distancia é

relativamente bastante consideravel para que não devamos despreza-la.

Com effeito, no apogeo está a Lua a 247:552 milhas (99:640 leguas de 4

kilometros) e no perigeo a 218:657 milhas sómente (88:010 leguas) da

Terra, o que dá uma differença de 28:895 milhas (11:630 leguas), que é

mais da nona parte do percurso total. Portanto a distancia perigea da

Lua é que deve servir de base aos calculos.

«Ácerca da terceira pergunta: Qual será a duração do trajecto do

projectil ao qual tenha sido imprimida a velocidade inicial bastante, e

consequentemente em que momento deverá ser lançado para que vá encontrar

a Lua em um determinado ponto?

«Se a bala conservasse indefinidamente a velocidade inicial de 12 jardas

por segundo, que lhe fosse imprimida no momento da partida, gastaria

apenas nove horas approximadamente para chegar ao seu destino; mas como

a velocidade inicial ha de ir continuamente decrescendo, deduz-se,

feitos os calculos, que o projectil ha de empregar 300:000 segundos ou

83 horas e 20 minutos para chegar ao ponto onde as attracções terrestre

e lunar se equilibram, e a partir d'este ponto ha de cair na superficie

da Lua em 50:000 segundos ou 13 horas, 53 minutos e 20 segundos. Convem

pois lançar o projectil 97 horas, 13 minutos e 20 segundos antes do

momento em que a Lua haja de chegar ao ponto de mira.

«Em relação á quarta pergunta: Em que instante prefixo estará a Lua na

posição mais favoravel para ser alcançada pelo projectil?

«Em consequencia do que deixâmos dito, deve, em primeiro logar,

escolher-se a epocha em que a Lua estiver no perigeo, e simultaneamente

o instante em que passar pelo zenith, circumstancia que ha de diminuir

ainda o percurso do projectil de uma distancia igual ao raio da terra,

isto é, de 3:919 milhas, vindo por esta fórma a ser o trajecto

definitivo de 214:976 milhas (86:410 leguas). Porém a Lua, que passa

todos os mezes pelo seu perigeo, nem sempre se encontra no zenith no

mesmo instante, e só a largos intervallos satisfaz simultaneamente a

estas duas condições. Necessario é portanto esperar a coincidencia da

passagem pelo perigeo com a passagem pelo zenith.

«Por feliz acaso, no dia 4 de dezembro do anno proximo, a Lua ha de

preencher as duas condições indicadas: á meia noite estará no perigeo,

isto é, no ponto da sua orbita d'onde é mais curta a distancia á Terra,

e passará no mesmo instante pelo zenith.

«Em relação á quinta pergunta: A que ponto do céu deve fazer-se a

pontaria com o canhão destinado a lançar o projectil?

«Suppondo admittidas as considerações que precedem, o canhão deve ser

dirigido para o zenith[24] do logar, por maneira que o tiro venha a ser

perpendicular ao plano do horisonte e o projectil fuja assim mais

rapidamente aos effeitos da attracção terrestre. Mas para que a Lua

passe pelo zenith de um logar terrestre, é necessario que este logar não

tenha latitude maior do que a declinação do astro, por outra que o logar

esteja comprehendido entre o equador e os parallelos, que distam d'elle

28^o para norte ou sul. Em qualquer outro logar da terra o tiro havia

necessariamente de ser obliquo, o que seria prejudicial ao bom exito da

experiencia.

«A respeito da sexta pergunta: Que logar deve occupar a Lua no céu, no

instante da partida do projectil?

Da terra à lua, viagem directa em 97 horas e 20 minutos · 第 1 / 15 段