XVIII

O conto que eu architectei, para contar á noite, foi baseado, devo

confessal-o francamente, n'uma noticia que havia lido em Buffon, e que

para aqui vou transcrever textualmente.

Diz o sabio naturalista na sua obra monumental:

«_Pendant tout le temps de l'incubation, la paone évite soigneusement

le mâle, et tâche surtout de lui dérober sa marche lorsqu'elle

retourne à ses ½ufs; car dans cette espèce, comme dans celle du coq et

de bien d'autres, le mâle, plus ardent et moins fidèle au v½u de la

Nature, est plus occupé de son plaisir particulier que de la

multiplication de son espèce; et s'il peut surprendre la couveuse sur

ses ½ufs, il les casse en s'approchant d'elle, et peut-être y met-il

de l'intention, et cherche-t-il à se délivrer d'un obstacle qui

l'empêche de jouir: quelques-uns ont cru qu'il ne les cassoit que par

son empressement à les couver lui-même, ce seroit un motif bien

diffèrent._»

Achado o assumpto, graças ás minhas recordações de Buffon, era facil

oppôr a pavôa á mulher pelo que tocava aos encargos affectuosos da

maternidade.

D. Christina ia accentuando, á medida que a convivencia se estreitava,

uma alegria expansiva, de que aliás se mostrava um pouco avara para

comigo, desconfiada talvez de que eu não soubesse ser discreto até ao fim.

Por vontade sua, ter-se-ia começado logo a jogar. Mas nós, simulando

não querer interromper o tradição das nossas noites de Cintra,

oppuzemo-nos.

Contei, portanto, o meu conto.

--Era n'uma quinta da Beira Alta, uma d'essas quintas nobres do seculo

passado, cheias de estatuetas e de fontes mithologicas, de largas ruas

desenhadas por linhas de buxo alto eriçado; uma d'essas quintas em que

havia, por força, um pombal, um lago e a matta.

Ao fundo alvejava o palacio, de amplas dimensões, com janellas de

sacada, cujos ferros, muito espaçados, eram torcidos como o caduceu de

Mercurio.

Aos lados da porta do edificio avultavam duas grandes cascatas,

estrelladas de pequenas conchas, umas brancas, outras roseas; e de

cada gomil, que os Neptunos sobraçavam, descia a agua n'uma

crespa meada de cristal, caindo nos tanques, onde peixes doirados nadavam.

Havia na quinta um copioso aviario, uma collecção preciosa de faisões,

pavões, perús, patos, gallinhas raras do Oriente.

Eu tinha ido visitar o dono da casa, que havia sido meu condiscipulo,

e que fôra feito visconde, quando, por ter casado rico, comprou

aquella ultima quinta de um morgado beirão.

Tive a honra de conhecer as pessoas mais gradas da localidade, que se

reuniram a jantar em casa do meu condiscipulo no primeiro domingo que

lá passei.

O visconde conservava ainda o mesmo espirito que eu havia conhecido

doze annos antes. Muito sarcastico, um critico implacavel de todos os

ridiculos sociaes, contou-me hilariantemente a historia do seu

viscondado, que elle era o primeiro a não tomar a sério.

--O governo, disse-me rindo, fez-me visconde; no Minho chamaram-me

_bisconde_. Eu adoptei esta ultima versão, por me parecer mais

gloriosa, pois que duplica a minha nobreza. Prefiro o _bis_.

Depois informou-me minuciosamente ácêrca de todas as pessoas, de ambos

os sexos, que eu ia conhecer. Descreveu-me as _toilettes_, que eu

havia de ver, os casacos e colletes dos morgados, os vestidos e

penteados das senhoras. Biographou com incisiva satira uns e outras.

Contou-me o motivo por que certo fidalgo vinha a ser ao mesmo

tempo tio de si mesmo, uma embrulhada genealogica, que eu já não sei

agora deslindar. Historiou-me o caso de duas morgadas beatas, que

tinham perdido o direito de ir á sepultura vestidas de branco, posto

não fôssem obrigadas por convenção social a andar sempre vestidas de

preto. Uma d'ellas viria ao jantar, e eu teria occasião de observar a

sua severidade de Lucrecia perante todos os Tarquinios d'este mundo,

sem embargo de ter passado pela roda dos expostos um filho seu, cujo

destino ella propria ignorava.

Eu estava prevenido pelo bom-humor do visconde para todas as

apresentações que me seriam feitas.

Chegou o dia do jantar, e tive então ensejo de reconhecer quanto as

suas informações, apesar de mordazes, eram exactas. Vi, sentada á mesa

do visconde, a melhor nobreza de sete leguas em redor. Quasi todos os

convivas eram descendentes de reis godos, e, por conseguinte,

aparentados. Estranhei porém, e disse-o ao visconde, que não houvesse

ali nenhum primo de Viriato.

--Pois tu não te lembras de que Viriato era pastor?! observou

sentenciosamente o meu condiscipulo.

O jantar foi pantagruelico. Legiões de aves passaram por deante de

mim. Era de abarrotar. O visconde disse-me depois que ninguem lá

saía de casa para jantar de outro modo. Não valia a pena.

Findo o banquete, viemos todos sentar-nos junto das cascatas.

Conversou-se principalmente de assumptos do campo. O visconde ria

galhofeiramente da minha ignorancia agricola. A nobre Lucrecia, que

elle me havia biographado, observou-me angelicamenle que no campo as

conversações eram mais innocentes do que na sociedade destragada das

cidades. Eu, que não tinha pretenções a Tarquinio, concordei.

Fiz reparo em que muitas aves, principalmente pavões, depois que os

criados as chamaram ao pateo da cozinha para lhes dar de comer,

pairavam, a grandes distancias, sobre os ramos das arvores.

O visconde notou o meu reparo, e esclareceu-me:

--São as pavôas que procuram desorientar os pavões.

Imaginei que elle houvesse entrado n'um assumpto escabroso de zoologia

amorosa. Sorri-me. O visconde, piedosamente, observou:

--Não te rias. Estou falando serio.

--Era isso justamente o que eu receava...

--É que me não entendeste. As pavôas estão agora chocando os ovos, que

com um grande sentimento de amor maternal escondem dos pavões, que

lh'os costumam devorar. Por isso, receosas de que os machos as sigam,

procuram desoriental-os, para que não descubram o sitio em que

ellas deixaram por instantes os ovos, aliás muito bem escondidos.

--É exacto, disse do lado um morgado beirão.

--Elle não sabe uma palavra, ponderou com verdade o visconde, d'esta

historia natural, que nós cá praticamos.

Segui attentamente com os olhos o que o visconde denominava a _manobra

das pavôas_. Voando de ramo em ramo, e a longos intervallos de tempo,

iam desapparecendo, sumindo-se arteiramente na espessura do arvoredo.

Alguns pavões levantavam o vôo após ellas, e então as pavôas voltavam,

aproximavam-se do sitio em que estavamos, demoravam-se, disfarçando o

melhor que podiam a sua intenção.

--Mas isto é admiravel! exclamei eu, isto é sublime de amor maternal!

--Temos ode! gracejou o visconde. Isto é o que é. Isto são as pavôas

que não querem que os pavões lhes comam os ovos. Nada mais e nada

menos. Não tens visto isto por lá na sociedade das grandes cidades?

Pois olha que não devem faltar pavões...

--Mas faltam as pavôas.

--Isso acontece em toda a parte, replicou o visconde, piscando-me um

olho e movendo o queixo na direcção da nobre Lucrecia pudibunda.

Comprehendi o seu gesto.

N'esse momento, a fidalga descendente do rei Vamba seguia com

tranquilla curiosidade a _manobra das pavôas_, como nós todos. Não

parecia envergonhada de confrontar-se moralmente com ellas. De certo

lhe não passava pelo espirito a lembrança de que annos antes tinha

enviado á roda de Vizeu um filho, cujo destino ignorava.

--Pudesse ella aprender com as pavôas! disse eu depois ao visconde.

--Ella, respondeu-me elle, tambem as tem em casa, mas não se dá ao

trabalho de aprender coisa nenhuma.

--Pois eu aprendi.

--Que aprendeste tu?

--Aprendi a conhecer o cathecismo moral das pavôas, livro que muitas

mulheres desconhecem.

--És um ingenuo! exclamou o visconde, desfechando-me na cara uma

ruidosa gargalhada escarninha.

Aqui teem a minha historia.

D. Christina ouviu-a imperturbavel, serena, como se o seu coração

fosse de marmore.

Em contraposição, a bondade do brazileiro revelou-se mais uma vez.

--Parece impossivel, disse elle, como ha pais que despresam os filhos,

quando até as avesinhas ensinam a amal-os! No Brazil vi um passarinho

chamado João de Barros, muito estimado lá porque annuncia de que lado

ha de soprar o vento todo o anno, que faz com barro o ninho do

feitio de um forno. Se alguma ave de rapina lhe quer ir comer

os filhos, e tenta enfiar a cabeça pela porta do ninho, tanto elle

como a femea dão-lhe bicadas até que fuja ou morra.

N'outra occasião, nós teriamos rido certamente do passarinho que tem

no Brazil o nome de um historiador portuguez.

Mas o contraste da bondade simples do brazileiro com a crueza glacial

de D. Christina encheu-nos de simpathia e de estima por esse amoravel

velho, que havia ligado o seu destino a uma mulher sem coração.

D. Christina, mostrando-se enfadada com os commentarios do marido,

disse abruptamente, cortando-lhe a palavra:

--Vamos lá á nossa partida, que estou hoje com grande raiva aos valetes.

D'onde o Vasconcellos quiz concluir que ella, indignada com a minha

historia, tivera em vista chamar-me valete.

Noites de Cintra · 第 22 / 24 题