Veio a resposta do Callixto.
A sobrinha de D. Clara Gouvêa confirmou plenamente as declarações da
filha do Muxagata, acrescentando-as com excellentes informações a
respeito da pobre rapariga.
«Disse-me ella, escrevia o Callixto, que tem a pequena na conta de muito
honesta. Sempre mostrou muito juizo. Se a não tem em casa, é porque se
peja de assoldadar como criada uma rapariga fina, filha de um fidalgo;
como pessoa de familia não a póde sustentar, porque tem muitos filhos, o
marido ganha pouco na alfandega, e da tia Clara apenas herdou uma
insignificancia. Diz ella.»
Em vista d'esta carta, conferenciamos sobre o que deviamos fazer para
impôr a D. Christina o dever de olhar por sua filha. O primeiro alvitre
que nos occorreu foi o de contarmos tudo ao brazileiro. Mas ao
cabo de alguma discussão, rejeitamos o alvitre, porque elle poderia ter
um desfecho tempestuoso. Preferimos, portanto, os meios suaves e
conciliatorios.
Decidiu-se que escreveriamos a D. Christina uma carta, que seria
assignada por todos nós. Essa carta, secca e laconica, quasi imperativa,
dizia assim:
«Exma. Sr.ª
V. Ex.ª vive tranquilla e feliz. Sem embargo, sua filha encontra-se
n'uma situação desgraçada, tão desgraçada, que é ella propria quem, no
_hotel Victor_, está ao serviço de v. ex.ª É a sua criada de quarto.
«Se v. ex.ª duvidar d'esta nossa informação, queira dirigir-se á rua da
Padaria n.º... 2.º andar, e procurar a mulher de M. A. P., empregado na
alfandega.
«Esperamos que o coração de v. ex.ª experimente, ainda que tarde, um
movimento de compaixão por essa pobre creatura, que, segundo nos
informam, tem sabido conservar-se digna de melhor sorte e, digamol-o com
franqueza, de melhor mãe.
«Se V. Ex.ª despresar o aviso que lhe fazemos, ver-nos-hemos na
necessidade violenta de o repetir a seu marido, cuja alma bondosa se
revoltará decerto contra a dureza de coração de sua mulher.
Portanto acreditamos que v. ex.ª, sem prejuizo da sua actual posição,
conseguirá encontrar meio de lhe revelar a existencia de sua filha,
podendo talvez dizer-lhe que até hoje a havia procurado sem comtudo a
poder encontrar.
«Não seremos nós que, n'esse caso, o desilludiremos denunciando-lhe toda
a verdade na sua nudez hedionda.
«Mas se v. ex.ª, pelo contrario, entender que deve zombar do sentimento
de justiça a que obedecemos, seremos obrigados a provar-lhe que o seu
coração não merece a compaixão de ninguem.»
Escripta esta carta, resolvemos confial-a a Maria de Alarcão para que a
entregasse a D. Christina, e partimos immediatamente de Cintra, depois
de ter recommendado que, no caso de D. Christina recusar recebel-a ou
lel-a, nos fosse mandado aviso para Lisboa.
Tanto D. Christina como o brazileiro se mostraram muito contrariados com
a nossa ausencia, especialmente o brazileiro, que nos abraçou a cada um
e offereceu a sua casa em Lisboa na rua das Praças.
Oito dias depois noticiava um jornal que o sr. commendador Araujo e sua
esposa acabavam de partir para a sua bella quinta de Amares em companhia
de sua interessante filha, que tinha estado a educar no estrangeiro.
No inverno d'esse anno, appareciam n'um camarote de S. Carlos
tres pessoas muito nossas conhecidas: o commendador Araujo, sua mulher e
D. Maria de Alarcão.
O Gonçallinho Jervis rememorou algumas vezes, na presença de amigos
nossos, a excentricidade que tivemos de ir a Cintra na primavera
expressamente para ouvir os rouxinoes.
--E ouviram?
--Não! respondia elle.