XIX

Veio a resposta do Callixto.

A sobrinha de D. Clara Gouvêa confirmou plenamente as declarações da

filha do Muxagata, acrescentando-as com excellentes informações a

respeito da pobre rapariga.

«Disse-me ella, escrevia o Callixto, que tem a pequena na conta de muito

honesta. Sempre mostrou muito juizo. Se a não tem em casa, é porque se

peja de assoldadar como criada uma rapariga fina, filha de um fidalgo;

como pessoa de familia não a póde sustentar, porque tem muitos filhos, o

marido ganha pouco na alfandega, e da tia Clara apenas herdou uma

insignificancia. Diz ella.»

Em vista d'esta carta, conferenciamos sobre o que deviamos fazer para

impôr a D. Christina o dever de olhar por sua filha. O primeiro alvitre

que nos occorreu foi o de contarmos tudo ao brazileiro. Mas ao

cabo de alguma discussão, rejeitamos o alvitre, porque elle poderia ter

um desfecho tempestuoso. Preferimos, portanto, os meios suaves e

conciliatorios.

Decidiu-se que escreveriamos a D. Christina uma carta, que seria

assignada por todos nós. Essa carta, secca e laconica, quasi imperativa,

dizia assim:

«Exma. Sr.ª

V. Ex.ª vive tranquilla e feliz. Sem embargo, sua filha encontra-se

n'uma situação desgraçada, tão desgraçada, que é ella propria quem, no

_hotel Victor_, está ao serviço de v. ex.ª É a sua criada de quarto.

«Se v. ex.ª duvidar d'esta nossa informação, queira dirigir-se á rua da

Padaria n.º... 2.º andar, e procurar a mulher de M. A. P., empregado na

alfandega.

«Esperamos que o coração de v. ex.ª experimente, ainda que tarde, um

movimento de compaixão por essa pobre creatura, que, segundo nos

informam, tem sabido conservar-se digna de melhor sorte e, digamol-o com

franqueza, de melhor mãe.

«Se V. Ex.ª despresar o aviso que lhe fazemos, ver-nos-hemos na

necessidade violenta de o repetir a seu marido, cuja alma bondosa se

revoltará decerto contra a dureza de coração de sua mulher.

Portanto acreditamos que v. ex.ª, sem prejuizo da sua actual posição,

conseguirá encontrar meio de lhe revelar a existencia de sua filha,

podendo talvez dizer-lhe que até hoje a havia procurado sem comtudo a

poder encontrar.

«Não seremos nós que, n'esse caso, o desilludiremos denunciando-lhe toda

a verdade na sua nudez hedionda.

«Mas se v. ex.ª, pelo contrario, entender que deve zombar do sentimento

de justiça a que obedecemos, seremos obrigados a provar-lhe que o seu

coração não merece a compaixão de ninguem.»

Escripta esta carta, resolvemos confial-a a Maria de Alarcão para que a

entregasse a D. Christina, e partimos immediatamente de Cintra, depois

de ter recommendado que, no caso de D. Christina recusar recebel-a ou

lel-a, nos fosse mandado aviso para Lisboa.

Tanto D. Christina como o brazileiro se mostraram muito contrariados com

a nossa ausencia, especialmente o brazileiro, que nos abraçou a cada um

e offereceu a sua casa em Lisboa na rua das Praças.

Oito dias depois noticiava um jornal que o sr. commendador Araujo e sua

esposa acabavam de partir para a sua bella quinta de Amares em companhia

de sua interessante filha, que tinha estado a educar no estrangeiro.

No inverno d'esse anno, appareciam n'um camarote de S. Carlos

tres pessoas muito nossas conhecidas: o commendador Araujo, sua mulher e

D. Maria de Alarcão.

O Gonçallinho Jervis rememorou algumas vezes, na presença de amigos

nossos, a excentricidade que tivemos de ir a Cintra na primavera

expressamente para ouvir os rouxinoes.

--E ouviram?

--Não! respondia elle.

Noites de Cintra · 第 23 / 24 题