Leotte arrastava discretamente a aza a D. Christina, mas enganára-se
quanto á presumpção de, como César, chegar, ver e vencer.
Teve de conhecer que madame Araujo, muito experimentada no terreno que
pisava, não quereria comprometter-se no pequeno theatro de acção de um
_hotel_, onde o marido só a largava por instantes e onde nós, os oito
companheiros de Leotte, eramos outros tantos olheiros, cheios de malicia
e curiosidade. De mais a mais, entre esses oito havia um que lhe
conhecia a vida. Era eu. E ella estava de certo empenhada em fazer-me
convencer a mim proprio, como tinha convencido o brazileiro, de que era
a viuva authentica e duplicada do morgado Muxagata e do Falcão do Marco.
Portanto, o Leotte, que não era tambem um novato inexperiente,
resolveu _rallentar_ o galanteio, appellando para Lisboa. Por esta razão
e, certamente espicaçado pela minha feliz descoberta, voltou-se de novo
para a criada, não só por amor das cerejas apetitosas, como pelo desejo
de ver se deslindava o misterio, que fôra o primeiro a suspeitar.
E agora é chegado o lance capital d'esta novella, que talvez pareça
inverosimil como um antigo romance de Ponson, mas que é tão verdadeira,
que ainda hoje póde ser testemunhada por mais de meia duzia de pessoas.
Teve sobeja razão o Leotte para nos communicar cheio de assombro que a
sua descoberta, segundo as ultimas revelações da Rosa, excedia a que eu
acabava de fazer.
O que iria elle contar? Coisas realmente espantosas.
Dissera-lhe a Rosa que seu pai, D. Alvaro de Alarcão, era natural da
Beira Alta.
--Então a menina nasceu lá? perguntára-lhe o Leotte.
--Não, senhor. Eu nasci no Porto.
--Como foi então isso?
--Meu pai, que era morgado...
--Morgado de que?
--De Muxagata.
--De Muxagata?! Está bem certa d'isso!?
--Muito certa. Meu pai fugiu para o Porto com uma fidalga de Lamego.
--E depois?
--Meu pai arruinou-se, e foi morrer ao abandono no seu solar. Minha mãe
tomou amores com outro homem, que tambem era morgado, e que caiu doente
com uma molestia da espinha, que o poz muito impertinente. Eu tinha
apenas dois annos e, como fizesse barulho brincando, foi preciso
tirarem-me de casa. Mandaram-me então para Lamego.
--Para casa da familia de sua mãe?
--Isso sim! A familia de minha mãe nunca mais lhe perdoou a sua falta.
Mandaram-me para casa de uma pobre mulher, a _tia_ Senhorinha, que era
irmã de leite de minha mãe. Fui crescendo entregue aos cuidados da _tia_
Senhorinha, que era viuva, e que vivia de fazer mandados. Era ella quem
dava todas as voltas em casa do major Gouvêa, de infantaria 9, que era
muito bom homem, casado com uma santa senhora. Como não tinham filhos,
foram-se-me affeiçoando, e eu passava lá os dias emquanto a _tia_
Senhorinha andava lidando na cozinha ou dando voltas por fóra.
--E sua mãe não mandava mesada nenhuma á _tia_ Senhorinha?
--A principio mandava meia moeda por mez, mas quasi nunca escrevia.
Depois o sr. major Gouvêa, quando a _tia_ Senhorinha morreu de um grande
resfriamento que a tolhêra, tomou conta de mim, mandou dizer a minha mãe
que guardasse as suas migalhas de dinheiro, e minha mãe nunca
mais tornou a escrever, não quiz mais saber de mim.
--E o que foi feito de sua mãe?
--Não sei! O sr. major Gouvêa não queria que se falasse d'ella.
--Mas como foi que a menina veiu parar a Lisboa?
--O sr. major saiu tenente-coronel e foi collocado em Elvas. Eu vivia
muito feliz, porque tanto elle como a mulher, a sr.ª D. Clara--Deus a
chame lá!--me tratavam como se eu fosse sua filha. Tinham muita pena de
mim, davam-me vestidos, chapeus, tudo o que elles podiam dar, e mais do
que podiam dar, porque o sr. tenente-coronel apenas vivia do soldo. A
sr.ª D. Clara, como era alfacinha, gostava de poder vir para Lisboa; de
mais a mais, em Elvas, o sr. tenente-coronel passava mal de saude. Um
general, que era amigo d'elle, arranjou-lhe a transferencia para Lisboa.
Viemos todos. Mas o sr. tenente-coronel nunca mais tornou a ser o homem
que era em Lamego. Soffria do coração. Anno e meio depois de estarmos em
Lisboa, acamou, soffrendo cada vez mais. Morreu todo inchado, que fazia
dó. N'esse dia posso dizer que morreu o meu verdadeiro pae.--E dos olhos
da rapariga rebentavam lagrimas.
--Depois?
--Depois a sr. D. Clara e eu viviamos de uma pequena pensão que ella
tinha. Mas a pobre senhora affligiu-se tanto com a morte do
marido, que pegou de fazer-se doente. Só durou mais onze mezes. Vieram
então uns parentes d'ella, sobrinha e marido, tomar conta de tudo o que
havia. E eu achei-me sósinha no mundo, sem ter quem me protegesse. Vi-me
só, desamparada, fiz um annuncio no _Diario de Noticias_, arranjei uma
casa, fui servir.--E os soluços embargavam-lhe a voz.
--Mas por que não tentou procurar sua mãe?
--Como! Quem sabe lá se minha mãe ainda vive! Se ella quizesse fazer
caso de mim, teria deitado inculcas para me encontrar.
--Diga-me porém uma coisa... Como foi que mudou de nome?
--A primeira casa em que eu servi era na praça dos Romulares. A senhora
chamava-se Maria; a menina tambem. Começaram a embirrar com o meu nome,
que fazia confusão, diziam ellas. Talvez não gostassem que eu tivesse um
nome igual ao seu. Um dia a senhora disse-me que era melhor chamarem-me
Rosa, e desde então o meu nome tem sido sempre Rosa.
--Mas então a menina não suspeita que existam ao menos parentes de sua mãe?
--Elles não me quereriam vêr, porque ficaram de mal com minha mãe.
--Quem sabe...
--Ó meu senhor! eu nasci para ser desgraçada!
--E, se fosse preciso, a menina poderia provar tudo isso que me
tem contado?
--Vive na rua da Padaria a sobrinha da sr.ª D. Clara, em casa de quem eu
costumo ficar por esmola, quando estou desarrumada. Ella que diga se
isto é verdade ou não.
Como não podia deixar de ser, a revelação d'este dialogo causou-nos
profunda surpresa. Chamamos a rapariga, que repetiu todas as declarações
anteriores.
--Mas isto é um verdadeiro romance! disse eu.
--Começado por ti e acabado por mim! observou orgulhosamente o Leotte.
--Tens razão.
--O que eu não sei, disse-me o Vasconcellos, é como tu e os teus
collegas em lettras teem o condão de encontrar sempre um romance em toda
a parte!
--Sempre, não. Poucas vezes até o acaso poderá ter fornecido um tão
completo romance. Este a mim mesmo me surprehende.
--Sim. D'este não posso eu duvidar, porque estou assistindo a elle.
Mas--continuou o Vasconcellos--tenho corrido todo esse paiz, e nunca
encontrei nenhum romance nem coisa que o parecesse.
--Se tu fosses escriptor terias, por hipothese, feito dez romances;
d'esses dez, nove seriam inventados, e apenas um verdadeiro. Notando
que o mais inverosimil seria talvez o unico verdadeiro.
--A julgar por este, assim é.
O Gonçallinho Jervis estava visivelmente entregue a dois pensamentos:
um, que dissimulava; outro, que manifestava com vehemencia.
O primeiro adivinhava-lh'o eu: era um intimo desgosto de não ter sido
elle que surprehendesse o romance.
O segundo inspirava-lhe indignadas apostrophes contra a mãe descaroavel
que abandonára a sua propria filha á miseria, talvez á deshonra.
--Ah! Gonçallinho, é d'essa triste verdade que nasceu a creação das
rodas dos expostos, dos asilos, das misericordias, de todas as piedosas
instituições de assistencia publica. Mas parece que tu não vives n'este
mundo! Pois não lês nos jornaes, todos os dias, noticias que te ensinam
que ha mães que expõem as filhas, que as matam, que as vendem!... E
pensas que todas essas torpes mães serão desgraçadas! Só são castigadas
as que caem nas mãos da policia. As outras viverão decerto tão felizes
como D. Christina.
Mas era preciso abandonarmos philosophias, tomar alguma resolução pratica.
Duas coisas ficaram logo resolvidas:
1.ª Que se escreveria ao Callixto, que tinha ficado em Lisboa, para ir á
rua da Padaria procurar a sobrinha de D. Clara Gouvêa, a fim de
pessoalmente verificar se as declarações d'ella coincidiam com as
da Rosa. Ficariamos em Cintra esperando a resposta.
2.ª Que eu inventaria á noite uma historia qualquer que, visando ao
coração das mães descaroaveis, pudesse revelar-nos o arrependimento ou o
cinismo de D. Christina.
Escripta a carta ao Callixto, comecei a pensar no modo de conduzir a
observação psichologica de que tinha sido incumbido.