XIV

A _festa dos taboleiros_ tinha reunido em Thomar muita gente de fóra. A

companhia dos caminhos de ferro estabelecêra comboios directos a preços

reduzidos. A pittoresca cidadesinha do Nabão, com o seu bello convento

de Christo no topo, tinha um movimento extraordinario, anormal, que a

vitalisava desde o castello dos templarios até á graciosa planicie da

_Varzea grande_, habitualmente só frequentada por alguns soldados de

infantaria 11.

Todas as familias gradas da localidade tratavam de engalanar os

taboleiros com muitas flôres e fogaças, alguns d'elles cogulados até á

altura hiperbolica de dois metros. São estes taboleiros que as raparigas

mais bonitas da cidade, entrajadas ao garrido, conduzem á igreja

de Santa Maria, onde a fogaça é benzida por um sacerdote. D'ali seguem

por entre alas de povo, que as applaude, até á igreja da Misericordia. Á

noite, a cidade, que é atravessada por uma ponte, illuminava-se com

balões venezianos, que se espelhavam nas aguas do rio. Havia um bazar, e

toirada. Era por tal signal cavalleiro um _amador_, Alfredo Marreca.

Algumas familias das minhas relações haviam planeado um passeio através

da Estremadura. Pretexto, a _festa dos taboleiros_ em Thomar. Eu, que

não gosto nada de viajar com o concurso de uma multidão festiva, combati

o projecto, propuz um adiamento para depois da romaria. Procedeu-se á

votação, e a maioria esmagou-me: tal qual como em S. Bento. Para me não

demittir, submetti-me. Fomos por Santarem, onde nos demoramos dois dias.

Depois seguimos para a estação de Paialvo, onde nos apeamos, e entramos

em _char-à-bancs_ que nos conduziram a Thomar. Estação e estrada

abarrotavam de gente. Irritado dos nervos, o meu desejo era mandar parar

o sol ou... aquella gente toda. Fomos na incerteza de obter _hotel_, e

essa incerteza sorria-me. Mas quiz o acaso que ainda encontrassemos

alojamento no _Hotel Cotrim_, á beira do Nabão. Tudo aquillo seria

delicioso, se não estivessemos em plena romaria. Uma barafunda de todos

os diabos.

Almoçamos, e saímos. Andamos aos encontrões de um lado para o

outro. Começamos por visitar o convento. Na varanda de pedra o

conservador do monumento dissera-nos: «A rainha D. Maria II, quando

visitou o conde de Thomar, gostava de vir bordar para esta janella.» Que

tinha bom gosto, concordaram as senhoras.

A cidade, cortada pelo rio, muito arruada e muito varrida, estendia-se

ao sopé do castello. E os forasteiros enxameavam cruzando-se em

direcções oppostas. Vistos do alto, pareciam lilliputianos. Depois do

castello, fomos visitar a fabrica de fiação, e as fabricas de papel do

Prado e de Mariamaia. O dia estava calmosissimo: um julho abrasador. Os

passaros, se não lograssem abrigar-se no secular arvoredo do _Padrão_,

teriam morrido de calma.

Á volta das fabricas, uma das senhoras do nosso rancho sentiu-se

subitamente indisposta. Pediu-se um copo de agua. E, como a estação

telegraphica estava proxima, recorremos ao telegraphista.

Encontrei-o sentado ao apparelho--que não era ainda o

Morse--trabalhando. Representava um homem de quarenta e cinco a quarenta

e sete annos de idade: moreno e magro, estatura regular, bigode

levemente grisalho. Muito grave de maneiras, e visivelmente melancolico.

A sua figura impressionou-me e, digo-o francamente, sem querer encarecer

o meu faro de observador, suspeitei n'aquelle homem um romance.

Acreditem: suspeitei. Logo que lhe eu disse ao que ia, chamou

para dentro a pedir um copo de agua. Veiu trazel-o uma rapariguita de

dezeseis annos, picada das bexigas, e descalça. Mas eu percebi que

alguem estava espreitando pela porta entreaberta.

Arranquei o copo das mãos da rapariga, e saí com elle. A indisposição

não tinha passado ainda. Uma mulher offerecera uma cadeira de pinho, em

que sentaram a doente, que, muito pallida, coberta de um suor frio,

bebeu um gole, e afastou o copo.

--Não teimem, disse alguem do lado.

Fui entregar o copo ao telegraphista, que gravemente me perguntou se o

incommodo tinha passado.

Disse-lhe que não. E elle, levantando-se outra vez, lembrou que seria

melhor trazerem a senhora para a estação telegraphica, onde _sua mulher_

lhe poderia offerecer um leito humilde mas asseado.

Saí a dizer isto, e todos approvaram o alvitre. Conduzida em braços a

doente, entramos na estação, e o telegraphista, vendo-nos chegar, chamou

para dentro:

--Clementina! ó Clementina!

N'isto appareceu-nos uma creatura que não teria mais de quatro palmos de

altura, vestida muito garridamente com uma saia côr de pombo e um

corpete azul; sobre o corpete, cabeção de rendas brancas com fita preta

e broche de oiro. Cara redonda e cheia, não despicienda. Mas a

cabeça, estabelecida a proporção com a altura do corpo, era

excessivamente volumosa. Estava penteada á Maria Stuart, e tinha dois

anneis de Cabello empastados sobre a fronte.

Apesar da seriedade do lance, todos os homens trocaram entre si um olhar

de surpresa e admiração, que, reduzido a palavras, poderia dizer isto:

--Pois este monstrosinho será a mulher do telegraphista?

E, inclinado o olhar ao telegraphista, o contraste assombrava-nos cada

vez mais.

Pelo meu espirito passou este raciocinio:

Casaria elle por amor? Não é possivel. Se não foi por amor, seria por

interesse? Mas então como diabo é elle telegraphista e vive pobremente?

Arruinar-se-ia no jogo? Oh! aqui ha romance por força...

As senhoras deitaram a doente, depois de a haverem desapertado, sobre o

leito conjugal do telegraphista. Nós, os homens, ficamos na sala da

estação conversando em voz baixa. O telegraphista fazia-nos, muito

polidamente, as honras da casa. Estavamos encantados com elle, com a

distincção das suas maneiras, com a sua gentileza em que uma intensa

nota melancolica predominava.

--Que era do enfado da viagem, do comer das hospedarias, do calor do

dia. Que, se o incommodo não passasse, offerecia a sua criada

para nos ensinar a casa do medico.

De dentro disseram-nos n'essa occasião que a doente estava melhor.

Para ser amavel, lamentei ao telegraphista que os deveres do seu cargo o

obrigassem a estar ali preso n'um dia de festa em Thomar.

Elle sorriu-se e respondeu:

--Eu nem dou pela festa. Detesto isto, não saio nunca de casa, não

passeio, não ando.

Instantes depois dizia-me ao ouvido um dos nossos companheiros de viagem:

--Pois, sr., tem bom gosto o homem! Prefere estar em casa a contemplar o

monstrosinho das _bellezas_!

E eu respondia-lhe no mesmo tom discreto:

--Aqui ha romance, se ha!

O meu amigo sorriu-se e respondeu:

--O que ha por força é tolice.

Ao cabo de tres quartos de hora, a doente deu-se como restabelecida.

Amparou-se ao braço de um parente seu, e recolhemos ao _hotel_, depois

de termos agradecido ao telegraphista e a sua esposa os bons serviços

que nos haviam dispensado.

Elle disse-nos o seu nome todo, offereceu-nos attenciosamente a sua

casa, pobre e humilde como era.

A mulher, erguida nos bicos dos pés, dava beijos ás senhoras e apertou a

mão aos homens, sacudindo-a á ingleza.

--Mas que figura de mulher! diziam as senhoras. Que lá bem educada

parece ser.

Depois de jantar, nós os homens saímos. As senhoras ficaram em casa. Eu,

francamente o digo, convencido de que havia um romance no casamento do

telegraphista, desejava conhecel-o. Á segunda ou terceira pergunta que

fiz, encontrei homem que m'o contasse.

No principio da sua carreira, o telegraphista fôra para Sines. Rapaz

muito bem comportado, grave e sério, toda a gente gostava delle. Ás

vezes os rapazes de Sines iam a funcçanatas, bailaricos principalmente,

a Santiago de Cacem. Elle ficava sempre; ás dez horas da noite recolhia

a casa. Durante muito tempo não se lhe conheceu qualquer inclinação

amorosa. E não era, como sabemos, porque fosse mal parecido. As

raparigas de Sines não o achavam nada feio.

Passado mais de um anno, alguem disse que o telegraphista namorava a

filha de um maritimo ali conhecido.

--Não é possivel! exclamavam alguns.

--Isso só por brincadeira! alvitravam outros. Mas o homem é sério.

Não era possivel, diziam uns, porque a filha do maritimo era aquella

creaturinha anã que nós vimos em Thomar. Só por brincadeira, diziam

outros, porque, comquanto a cara da rapariga não fosse de todo feia, o

corpo não chegava para casar.

Ora a verdade era que D. Clementina estava sempre á janella com o seu

rosto rosado e o seu penteado Stuart expostos á brisa do mar. Mas

trepava-se a uma cadeira muito alta para que o seu collo ficasse, como

n'uma pessoa de estatura regular, á altura do peitoril.

Homem de poucas falas, o telegraphista não conversava com ninguem. E, de

motu proprio, ninguem ousou dizer-lhe que a mulher que elle namorava

tinha apenas a altura de uma boneca.

O telegraphista caiu de cama com uma pneumonia. A solidão do seu quarto

de doente levou-o decerto a pensar no casamento. Restabelecido, sem

revelar a ninguem a sua intenção, entrou em casa do maritimo a pedir-lhe

a mão da filha.

Mostrou-se surprehendido o maritimo. Parecia-lhe impossivel aquella boa

fortuna para uma filha anã. Disse-lhe que teria muito gosto em

acceital-o como genro, tanto mais que sua filha, como elle acabava de

dizer, estava de accordo no casamento.

E, por cautela, dispensou-se de chamar a filha á conferencia.

Tres dias depois era o telegraphista admittido na intimidade da familia.

Foi então que viu pela primeira vez sua mulher tal qual ella era, sem o

supplemento da cadeira alta. Um tremor de frio percorreu-lhe a espinha

dorsal, mas, homem de principios honestos, presando acima de tudo a sua

reputação, casou. Outro fosse elle, e teria fugido de Sines

n'essa mesma noite, mandando a noiva e o telegrapho ao diabo. Todas as

pessoas de regular estatura o haveriam desculpado.

Sabida a historia, ficou perfeitamente explicado o melancolico

recolhimento em que o telegraphista vivia, o seu desdem pela festa dos

_taboleiros_, e o seu apêgo ao apparelho Bréguet, bem mais suave para

elle que o do Hymeneu.

Na infelicidade d'este logro conjugal, uma consolação unica poderia

sorrir ao pobre telegraphista: não tinha filhos, nem esperava tel-os.

--Muito bem sacado logro! exclamou o brazileiro com a despreoccupação de

espirito de quem não suspeita ter caído em algum logro... mais ou menos

bem sacado.

Madame Araujo commentava o caso, ria, falava, estava expansiva, o que

lisonjeava sobremodo o Leotte.

Confessava que não esperava divertir-se tanto em Cintra.

--Pena tenho eu, disse ella, se isto não durar!

O Vasconcellos respondeu:

--Naturalmente vamos embora ámanhã.

--Já?! exclamou madame Araujo. Mas o Leotte deitou agua na fervura:

--Que tanto importava mais um dia como menos um dia.

Os relogios do Victor deram meia noite.

--E que tal! já meia noite! disse o brazileiro.

Se você concorda, Christina, vamos tratar de recolher-nos, hein?

Ouvindo pronunciar a palavra _Christina_, foi como se eu proprio tivesse

pronunciado _eureka!_ como se houvesse encontrado a solução de um

problema transcendente.

Despedi-me do brazileiro e da mulher, authomaticamente. Mal que elles

voltaram costas, fiz signal aos outros para que me seguissem. Chegando

ao meu quarto, fechei a porta, e disse-lhes cuidadosamente, como se se

tratasse de um segredo de estado n'um club de conspiradores:

--Já sei quem esta mulher é!

--Quem é?

--A Christina do Muxagata, sem tirar nem pôr!

--A Christina da historia que nos contaste?!

--Acreditem, meus amigos, é a Christina do Muxagata.

Noites de Cintra · 第 18 / 24 题