A _festa dos taboleiros_ tinha reunido em Thomar muita gente de fóra. A
companhia dos caminhos de ferro estabelecêra comboios directos a preços
reduzidos. A pittoresca cidadesinha do Nabão, com o seu bello convento
de Christo no topo, tinha um movimento extraordinario, anormal, que a
vitalisava desde o castello dos templarios até á graciosa planicie da
_Varzea grande_, habitualmente só frequentada por alguns soldados de
infantaria 11.
Todas as familias gradas da localidade tratavam de engalanar os
taboleiros com muitas flôres e fogaças, alguns d'elles cogulados até á
altura hiperbolica de dois metros. São estes taboleiros que as raparigas
mais bonitas da cidade, entrajadas ao garrido, conduzem á igreja
de Santa Maria, onde a fogaça é benzida por um sacerdote. D'ali seguem
por entre alas de povo, que as applaude, até á igreja da Misericordia. Á
noite, a cidade, que é atravessada por uma ponte, illuminava-se com
balões venezianos, que se espelhavam nas aguas do rio. Havia um bazar, e
toirada. Era por tal signal cavalleiro um _amador_, Alfredo Marreca.
Algumas familias das minhas relações haviam planeado um passeio através
da Estremadura. Pretexto, a _festa dos taboleiros_ em Thomar. Eu, que
não gosto nada de viajar com o concurso de uma multidão festiva, combati
o projecto, propuz um adiamento para depois da romaria. Procedeu-se á
votação, e a maioria esmagou-me: tal qual como em S. Bento. Para me não
demittir, submetti-me. Fomos por Santarem, onde nos demoramos dois dias.
Depois seguimos para a estação de Paialvo, onde nos apeamos, e entramos
em _char-à-bancs_ que nos conduziram a Thomar. Estação e estrada
abarrotavam de gente. Irritado dos nervos, o meu desejo era mandar parar
o sol ou... aquella gente toda. Fomos na incerteza de obter _hotel_, e
essa incerteza sorria-me. Mas quiz o acaso que ainda encontrassemos
alojamento no _Hotel Cotrim_, á beira do Nabão. Tudo aquillo seria
delicioso, se não estivessemos em plena romaria. Uma barafunda de todos
os diabos.
Almoçamos, e saímos. Andamos aos encontrões de um lado para o
outro. Começamos por visitar o convento. Na varanda de pedra o
conservador do monumento dissera-nos: «A rainha D. Maria II, quando
visitou o conde de Thomar, gostava de vir bordar para esta janella.» Que
tinha bom gosto, concordaram as senhoras.
A cidade, cortada pelo rio, muito arruada e muito varrida, estendia-se
ao sopé do castello. E os forasteiros enxameavam cruzando-se em
direcções oppostas. Vistos do alto, pareciam lilliputianos. Depois do
castello, fomos visitar a fabrica de fiação, e as fabricas de papel do
Prado e de Mariamaia. O dia estava calmosissimo: um julho abrasador. Os
passaros, se não lograssem abrigar-se no secular arvoredo do _Padrão_,
teriam morrido de calma.
Á volta das fabricas, uma das senhoras do nosso rancho sentiu-se
subitamente indisposta. Pediu-se um copo de agua. E, como a estação
telegraphica estava proxima, recorremos ao telegraphista.
Encontrei-o sentado ao apparelho--que não era ainda o
Morse--trabalhando. Representava um homem de quarenta e cinco a quarenta
e sete annos de idade: moreno e magro, estatura regular, bigode
levemente grisalho. Muito grave de maneiras, e visivelmente melancolico.
A sua figura impressionou-me e, digo-o francamente, sem querer encarecer
o meu faro de observador, suspeitei n'aquelle homem um romance.
Acreditem: suspeitei. Logo que lhe eu disse ao que ia, chamou
para dentro a pedir um copo de agua. Veiu trazel-o uma rapariguita de
dezeseis annos, picada das bexigas, e descalça. Mas eu percebi que
alguem estava espreitando pela porta entreaberta.
Arranquei o copo das mãos da rapariga, e saí com elle. A indisposição
não tinha passado ainda. Uma mulher offerecera uma cadeira de pinho, em
que sentaram a doente, que, muito pallida, coberta de um suor frio,
bebeu um gole, e afastou o copo.
--Não teimem, disse alguem do lado.
Fui entregar o copo ao telegraphista, que gravemente me perguntou se o
incommodo tinha passado.
Disse-lhe que não. E elle, levantando-se outra vez, lembrou que seria
melhor trazerem a senhora para a estação telegraphica, onde _sua mulher_
lhe poderia offerecer um leito humilde mas asseado.
Saí a dizer isto, e todos approvaram o alvitre. Conduzida em braços a
doente, entramos na estação, e o telegraphista, vendo-nos chegar, chamou
para dentro:
--Clementina! ó Clementina!
N'isto appareceu-nos uma creatura que não teria mais de quatro palmos de
altura, vestida muito garridamente com uma saia côr de pombo e um
corpete azul; sobre o corpete, cabeção de rendas brancas com fita preta
e broche de oiro. Cara redonda e cheia, não despicienda. Mas a
cabeça, estabelecida a proporção com a altura do corpo, era
excessivamente volumosa. Estava penteada á Maria Stuart, e tinha dois
anneis de Cabello empastados sobre a fronte.
Apesar da seriedade do lance, todos os homens trocaram entre si um olhar
de surpresa e admiração, que, reduzido a palavras, poderia dizer isto:
--Pois este monstrosinho será a mulher do telegraphista?
E, inclinado o olhar ao telegraphista, o contraste assombrava-nos cada
vez mais.
Pelo meu espirito passou este raciocinio:
Casaria elle por amor? Não é possivel. Se não foi por amor, seria por
interesse? Mas então como diabo é elle telegraphista e vive pobremente?
Arruinar-se-ia no jogo? Oh! aqui ha romance por força...
As senhoras deitaram a doente, depois de a haverem desapertado, sobre o
leito conjugal do telegraphista. Nós, os homens, ficamos na sala da
estação conversando em voz baixa. O telegraphista fazia-nos, muito
polidamente, as honras da casa. Estavamos encantados com elle, com a
distincção das suas maneiras, com a sua gentileza em que uma intensa
nota melancolica predominava.
--Que era do enfado da viagem, do comer das hospedarias, do calor do
dia. Que, se o incommodo não passasse, offerecia a sua criada
para nos ensinar a casa do medico.
De dentro disseram-nos n'essa occasião que a doente estava melhor.
Para ser amavel, lamentei ao telegraphista que os deveres do seu cargo o
obrigassem a estar ali preso n'um dia de festa em Thomar.
Elle sorriu-se e respondeu:
--Eu nem dou pela festa. Detesto isto, não saio nunca de casa, não
passeio, não ando.
Instantes depois dizia-me ao ouvido um dos nossos companheiros de viagem:
--Pois, sr., tem bom gosto o homem! Prefere estar em casa a contemplar o
monstrosinho das _bellezas_!
E eu respondia-lhe no mesmo tom discreto:
--Aqui ha romance, se ha!
O meu amigo sorriu-se e respondeu:
--O que ha por força é tolice.
Ao cabo de tres quartos de hora, a doente deu-se como restabelecida.
Amparou-se ao braço de um parente seu, e recolhemos ao _hotel_, depois
de termos agradecido ao telegraphista e a sua esposa os bons serviços
que nos haviam dispensado.
Elle disse-nos o seu nome todo, offereceu-nos attenciosamente a sua
casa, pobre e humilde como era.
A mulher, erguida nos bicos dos pés, dava beijos ás senhoras e apertou a
mão aos homens, sacudindo-a á ingleza.
--Mas que figura de mulher! diziam as senhoras. Que lá bem educada
parece ser.
Depois de jantar, nós os homens saímos. As senhoras ficaram em casa. Eu,
francamente o digo, convencido de que havia um romance no casamento do
telegraphista, desejava conhecel-o. Á segunda ou terceira pergunta que
fiz, encontrei homem que m'o contasse.
No principio da sua carreira, o telegraphista fôra para Sines. Rapaz
muito bem comportado, grave e sério, toda a gente gostava delle. Ás
vezes os rapazes de Sines iam a funcçanatas, bailaricos principalmente,
a Santiago de Cacem. Elle ficava sempre; ás dez horas da noite recolhia
a casa. Durante muito tempo não se lhe conheceu qualquer inclinação
amorosa. E não era, como sabemos, porque fosse mal parecido. As
raparigas de Sines não o achavam nada feio.
Passado mais de um anno, alguem disse que o telegraphista namorava a
filha de um maritimo ali conhecido.
--Não é possivel! exclamavam alguns.
--Isso só por brincadeira! alvitravam outros. Mas o homem é sério.
Não era possivel, diziam uns, porque a filha do maritimo era aquella
creaturinha anã que nós vimos em Thomar. Só por brincadeira, diziam
outros, porque, comquanto a cara da rapariga não fosse de todo feia, o
corpo não chegava para casar.
Ora a verdade era que D. Clementina estava sempre á janella com o seu
rosto rosado e o seu penteado Stuart expostos á brisa do mar. Mas
trepava-se a uma cadeira muito alta para que o seu collo ficasse, como
n'uma pessoa de estatura regular, á altura do peitoril.
Homem de poucas falas, o telegraphista não conversava com ninguem. E, de
motu proprio, ninguem ousou dizer-lhe que a mulher que elle namorava
tinha apenas a altura de uma boneca.
O telegraphista caiu de cama com uma pneumonia. A solidão do seu quarto
de doente levou-o decerto a pensar no casamento. Restabelecido, sem
revelar a ninguem a sua intenção, entrou em casa do maritimo a pedir-lhe
a mão da filha.
Mostrou-se surprehendido o maritimo. Parecia-lhe impossivel aquella boa
fortuna para uma filha anã. Disse-lhe que teria muito gosto em
acceital-o como genro, tanto mais que sua filha, como elle acabava de
dizer, estava de accordo no casamento.
E, por cautela, dispensou-se de chamar a filha á conferencia.
Tres dias depois era o telegraphista admittido na intimidade da familia.
Foi então que viu pela primeira vez sua mulher tal qual ella era, sem o
supplemento da cadeira alta. Um tremor de frio percorreu-lhe a espinha
dorsal, mas, homem de principios honestos, presando acima de tudo a sua
reputação, casou. Outro fosse elle, e teria fugido de Sines
n'essa mesma noite, mandando a noiva e o telegrapho ao diabo. Todas as
pessoas de regular estatura o haveriam desculpado.
Sabida a historia, ficou perfeitamente explicado o melancolico
recolhimento em que o telegraphista vivia, o seu desdem pela festa dos
_taboleiros_, e o seu apêgo ao apparelho Bréguet, bem mais suave para
elle que o do Hymeneu.
Na infelicidade d'este logro conjugal, uma consolação unica poderia
sorrir ao pobre telegraphista: não tinha filhos, nem esperava tel-os.
--Muito bem sacado logro! exclamou o brazileiro com a despreoccupação de
espirito de quem não suspeita ter caído em algum logro... mais ou menos
bem sacado.
Madame Araujo commentava o caso, ria, falava, estava expansiva, o que
lisonjeava sobremodo o Leotte.
Confessava que não esperava divertir-se tanto em Cintra.
--Pena tenho eu, disse ella, se isto não durar!
O Vasconcellos respondeu:
--Naturalmente vamos embora ámanhã.
--Já?! exclamou madame Araujo. Mas o Leotte deitou agua na fervura:
--Que tanto importava mais um dia como menos um dia.
Os relogios do Victor deram meia noite.
--E que tal! já meia noite! disse o brazileiro.
Se você concorda, Christina, vamos tratar de recolher-nos, hein?
Ouvindo pronunciar a palavra _Christina_, foi como se eu proprio tivesse
pronunciado _eureka!_ como se houvesse encontrado a solução de um
problema transcendente.
Despedi-me do brazileiro e da mulher, authomaticamente. Mal que elles
voltaram costas, fiz signal aos outros para que me seguissem. Chegando
ao meu quarto, fechei a porta, e disse-lhes cuidadosamente, como se se
tratasse de um segredo de estado n'um club de conspiradores:
--Já sei quem esta mulher é!
--Quem é?
--A Christina do Muxagata, sem tirar nem pôr!
--A Christina da historia que nos contaste?!
--Acreditem, meus amigos, é a Christina do Muxagata.