XV

A minha revelação causou tanta surpresa e interesse aos meus

companheiros de _villegiature_, como a mim proprio.

Ir eu encontrar, ao cabo de tantos annos, a mesma Christina da rua das

Fontainhas, a quem fôra entregar o dinheiro do Muxagata, na occasião em

que ella estava ceando com o Falcão do Marco!

Que singular coincidencia a de ter eu começado por contar, nos nossos

improvisados serões de Cintra, a historia do Muxagata e de ter vindo ao

nosso encontro, no _hotel_ do Victor, essa famosa Christina, que eu

nunca mais tinha visto, e de que nunca mais ouvira falar!

Como, arruinando talvez o Falcão do Marco, chegára ella a desposar o

brazileiro Araujo, se é que em verdade o havia desposado mais

canonicamente do que ao Muxagata e ao Falcão do Marco?

O que seria feito d'aquella creancinha de dois annos, que fôra o

fructo do seu primeiro amor criminoso?

Mas eu não estava sonhando, por mais que o Vasconcellos quizesse

capacitar-me d'isso.

Não havia duvida. Era ella, a mesma Christina da rua das Fontainhas, a

bella lamecense raptada pelo Muxagata, com os dedos cheios de anneis e

as mãos dealbadas de pó de arroz.

O Gonçallinho Jervis estava tão encantado com esta surpresa, que me

parecia ter ciumes de que fosse eu e não elle que, por um acaso notavel,

encontrasse um verdadeiro assumpto de romance.

Ah! ingenuo Gonçallinho! Esse feliz achado representava apenas que eu

era mais velho do que elle. Consolação tristissima. Não ha homem vulgar

que, no decurso de alguns annos, não encontre na sua memoria um ou mais

romances de sensação. Esperasse o nosso Gonçallinho, vivesse mais algum

tempo, e os assumptos levantar-se-lhe-iam debaixo dos pés, quando menos

os procurasse.

O Leotte, apenas soube que madame Araujo era a Christina da historia do

Muxagata, julgou-se um César que tinha chegado, visto e vencido.

O Athayde, o Maldonado e o Vasconcellos eram os que mais reservados se

mostravam perante esta situação inesperada, que viera accidentar

pittorescamente a nossa excursão a Cintra.

As suas duvidas contrariavam-me, pois que eu não podia deixar de estar

plenamente convencido de que madame Araujo era a Christina da rua

das Fontainhas.

Procurei convencel-os, e lembrou-me um alvitre que devia acabar por

deixal-os inteiramente rendidos á verdade dos factos.

--A Christina da rua das Fontainhas, tal como eu a conheci, gostava

immenso de batotear. _Saltava_ nos valetes, e _fazia cêrco_ ás quinas.

Pois bem! experimentemol-a. Adiemos por mais dois ou tres dias o nosso

regresso a Lisboa. Uma d'estas noites armamos uma banca de jogo. Se fôr

ella, é natural que sinta renascer em si a paixão de jogar, que a

fascinava no tempo do Muxagata. Observemos se _faz saltos_ nos valetes e

_cêrcos_ ás quinas. Se isto se der, meus amigos, não ha mais que

duvidar: é ella, sem tirar nem pôr, a Christina do Muxagata.

Este alvitre agradou geralmente, e resolveu-se que ficariamos para

realisar a experiencia decisiva.

Era porém preciso proceder com boa tactica, não começar logo por falar

no jogo.

Assim se fez. No dia seguinte, madame Araujo, que ia readquirindo entre

nós o seu velho habito de conviver com homens, estava quasi

familiarisada comnosco, interessava-se pelos nossos passeios, pelos

nossos paradoxos, e, sobretudo, mostrava-se deliciada pelos nossos

serões, cheios de novidade para ella.

Á noite, como se realmente não tivessemos nenhuma intenção

reservada, principiámos por dar a palavra ao Taveira, que ainda não

tinha falado. Contasse elle alguma _partida_ do seu amigo Luiz de Lemos,

com que tantas vezes nos tinha matado o bicho do ouvido.

--A historia da _claque_, por exemplo.

--Vocês estão fartos de ouvil-a! disse elle.

--Mas nem madame Araujo nem seu esposo a conhecem de certo.

--Luiz de Lemos! Eu nunca ouvi falar sequer d'esse nome! disse madame

Araujo.

O Taveira resolveu-se a contar a historia da _claque_ do seu amigo Luiz

de Lemos, que todos nós sabiamos de cór e argumentada.

--Luiz de Lemos chegou a Braga ás cinco horas da tarde, sem ser esperado

dos primos do Campo Novo.

Apeteceu-lhe aproveitar os primeiros dias de verão, alegres e quentes, e

a resolução d'essa pequena jornada ao Minho foi tomada de repente, uma

noite, ao sair do theatro Baquet.

Tinha chegado de Boaças dias antes, apenas com o seu fato de verão e

alguma roupa branca na mala. Não contava passar do Porto. Mas, de

subito, n'aquella noite, lembraram-lhe os primos Ozorios de Braga, dois

pandegos, e, ao recolher do theatro, fez a mala e disse ao criado da

_Aguia d'ouro_ que o chamasse ao romper da manhã.

--V. ex.ª retira-se já para Boaças? perguntou o criado, admirado

de que, d'esta vez, o rega-bofes durasse tão pouco tempo.

--Não. Eu vou a Braga, visitar os primos Ozorios. Ainda hei de ir estar

na Foz alguns dias. Mas por ora é cedo. Vou a Braga.

Ao romper da manhã, Luiz de Lemos foi á rua Formosa, á alquilaria do

_Raymundo_, alugar um _coupé_ que o levasse a Braga.

Elle tinha um grande horror instinctivo pela diligencia de Entre-Paredes

em especial, e por todas as diligencias em geral. Dizia elle que a

diligencia era a _valla dos vivos_. Uma philosophia como qualquer outra.

A manhã estava deliciosa, fresca e lucida, excellente para jornada.

Almoçou na Carriça, tornou a almoçar em Villa Nova de Famalicão, e

almoçaria terceira vez em Braga, se não preferisse jantar.

Os primos Ozorios do Campo Novo, encantados com a visita do morgado de

Boaças, disseram-lhe que iam para a mesa.

--Vocês ainda jantam? perguntou o morgado.

--Bem vês tu que Braga é uma terra conservadora. Por cá ainda se pensa

no jantar e no sr. D. Miguel.

--Pois, meus amigos, eu só almóço, mas posso almoçar tantas vezes

quantas fôr preciso. É pois pela terceira vez que vou hoje almoçar.

Sentaram-se á mesa. Alegria e apetite eram de primeira ordem.

--Além de jantar, o que fazem vocês por cá?

--Divertimo-nos.

--Mas como?

--Hoje, por exemplo, temos um baile.

--Um baile! Um baile em Braga é uma coisa tão absurda como uma semana

santa em Marrocos. Mas onde é o baile?

--Em casa do Raio.

--Olá! Pois esse baile do Raio é um verdadeiro _raio_ para mim.

--Por que?

--Porque não trouxe casaca.

--Ó diabo! não trouxeste casaca?! exclamou um dos Ozorios.

--Caso grave! ponderou o outro.

--Trago apenas fato de verão. Eu podia lá imaginar um baile em Braga!

Que _raio_ de lembrança!

--Mas ha de arranjar-se uma casaca.

--Sim... uma casaca sempre ha de arranjar-se.

--Se vocês arranjassem isso, teriam cortado o nó gordio.

--Ora espera! lembrou um dos Ozorios. Eu tenho duas casacas.

--Uma para usar e outra para alugar? Magnifico! Alugo-te a segunda por

doze vintens.

Os Ozorios riram-se.

--Mas... chapeu? perguntou um dos dois irmãos.

--Vou em cabello.

--Constipas-te.

--Irei de cadeirinha, de carroção ou em maca.

--Manda pedir o cavallo emprestado ao Longuinhos do Bom Jesus do Monte.

--Ou isso. Mas vamos a resolver o caso do chapeu.

--Está resolvido, disse o Ozorio mais velho. Eu tenho uma _claque_ e um

chapeu alto. Tu levas a _claque_ e eu o chapeu alto.

--Para encheres de pasteis é melhor do que a _claque_. Tu não te perdes,

maganão!

Jantaram pantagruelicamente, comendo bem e bebendo melhor.

Ás 9 horas davam os tres primos entrada nos salões do commendador Raio,

que estavam deslumbrantes de bellezas bracarenses.

Luiz de Lemos valsou, polkou, namorou, com o prestigio que lhe dava a

sua lenda de morgado rico de Boaças.

Mas, a meio da noite, lembrou-se de que ainda não tinha fumado.

Encontrou um dos primos.

--Ó tu! onde é que se fuma?

--Ali, respondeu o primo Frederico, indicando-lhe uma pequena sala.

--Bem. Vou fumar. Olha lá, sê prudente: não digas a ninguem que a minha

casaca... é tua.

O primo riu-se.

Luiz de Lemos entrou na pequena sala, onde muitos cavalheiros de

Braga estavam fumando, incluindo o escrivão de fazenda.

Accendeu o seu charuto, pousou a _claque_ sobre a mesa, conversou com os

conhecidos e os desconhecidos, riu, falou de cavallos e de mulheres, mas

como ouvisse annunciar uma valsa, levantou-se, pegou na _claque_ e

dispunha-se a passar ao salão de baile.

Quando elle já tinha sobraçado a _claque_, o escrivão de fazenda, que

estava de pé, reparando na outra _claque_ que tinha ficado sobre a mesa,

dirigiu-se ao morgado de Boaças:

--V. ex.ª enganou-se...

--Enganei-me! Como?

--Essa _claque_ não é de v. ex.ª.

O morgado olhou fito no escrivão de fazenda, voltou-lhe as costas e

dirigiu-se para a porta.

O escrivão de fazenda seguiu-o, e já no corredor, abordou-o:

--Essa _claque_ não é de v. ex.ª.

--Não é, não sr., mas que tem o cavalheiro com isso?

--Peço perdão a v. ex.ª, mas ha aqui um pequeno engano...

--Não ha engano nenhum, replicou o morgado. Acha que a _claque_ não

é minha?

--Parece-me...

--Pois tambem a casaca não é. Ora aqui tem.

E, mal humorado, tornou a voltar-lhe as costas.

Encontrando o primo Frederico no salão, o morgado de Boaças

desfechou-lhe com vivacidade:

--Tu és um patife!

--Porque?

--Porque não és capaz de guardar um segredo.

--Que segredo?

--O da _claque_.

--Mas que dizes tu?!

--E o da casaca tambem...

--Mas a quem diabo fui eu contar que te emprestei a _claque_ e a casaca?

--A quem? Ao escrivão de fazenda! E és tolo. Porque, se não désses com a

lingua nos dentes, talvez fosse eu que tivesse de pagar a contribuição

sumptuaria. Uma casaca em Braga deve ser considerada como objecto de luxo.

N'isto viram aproximar-se o escrivão de fazenda, que se encaminhava

a elles.

--Ahi vem o homem! galhofou o morgado. Vem talvez saber qual dos dois ha

de collectar.

O escrivão de fazenda aproximou-se attenciosamente de Frederico Ozorio.

--Peço desculpa a v. ex.ª, disse elle, mas a respeito d'este cavalheiro

que o trata por primo, deu-se um pequeno engano.

O morgado teve uma sacudidella nervosa:

--É forte embirração! Eu ja disse ao cavalheiro que não houve engano

nenhum. Nem a casaca nem a _claque_ são minhas.

--Minhas é que são... interveio o Ozorio, querendo deitar agua na fervura.

--Perdão! insistiu o escrivão de fazenda. A casaca será de v. ex.ª, mas

a _claque_ é minha.

--Tem graça! Fui eu que a emprestei a meu primo.

--Torno a pedir perdão. O primo de v. ex.ª, ainda agora, lá dentro,

trocou a sua _claque_ com a minha, que tambem estava sobre a mesa.

Foi só então que o engano se desfez, mas, como désse muito que rir aos

tres primos, toda a gente quiz saber o que era e toda a gente ficou

sabendo em Braga que o morgado de Boaças tinha ido n'aquella noite ao

baile do commendador Raio com uma casaca emprestada e uma _claque_ que

não era sua.

O brazileiro commentou que não havia nada mais facil de acontecer do que

uma troca de chapeus. Esta observação não era, aliás, precisa para o

caracterisar intellectualmente. Salomão, no seu logar, teria dito a

mesma coisa.

D. Christina achou graça ao caso, mas disse, pouco amavelmente para o

Taveira, que era de historias de amor que gostava mais.

E o brazileiro observou por sua vez:

--Eu do que gosto mais é de historias de almas do outro mundo. As velhas

da minha terra crearam-me com essas historias.

--Pois eu contarei ao sr. Araujo, disse eu, uma historia de almas do

outro mundo.

O Vasconcellos interrompeu auctoritariamente:

--Agora não. Isto de historias tambem cansa. Vamos nós inventar outro

divertimento?...

--Qual? perguntaram duas ou tres vozes.

--O que eu receio, disse elle, é desagradar á sr.ª D. Christina... Mas

lá vai! V. ex.ª aborrecer-se-ia se nós armassemos uma mesa de jogo?

--Ora essa! exclamou o brazileiro. Um berlotesinho?! A Christina péla-se

por isso, e eu não desgósto tambem.

Meia hora depois, D. Christina estava contente como o peixe dentro de

agua. Batoteava de grande e á... portugueza. _Saltava_ em todos os

valetes e _cercava_ todas as quinas.

E como os rios correm para o mar, era ella e o brazileiro que estavam

com sorte.

Não havia que duvidar. A experiencia era completa, decisiva.

Ó alma batoteira do Muxagata! volta por um instante a este mundo para

verificares como a tua Christina de Lamego honra a tua memoria

transitando firmemente pelo caminho que tu lhe traçaste em roda de uma

mesa de jogo.

Noites de Cintra · 第 19 / 24 题