Mettemos á bulha o Saavedra, que tinha sido até esse momento um dos mais
silenciosos do grupo, para que se dignasse fazer as honras d'aquella
noite, visto como a sua eloquencia devia achar-se ainda em folha, e a
nossa já ia estando um pouco fatigada.
O Saavedra tinha certa graça natural, era um espirito observador, mas a
sua modestia orçava ás vezes pela timidez. Felizmente pudemos
convencel-o a contar uma das suas anecdotas.
--Imaginem v. exas., disse elle, que uma respeitavel dona de casa, uma
exemplar mãe de familia, o que quer que seja de Cornelia romana, tem um
marido cujo orçamento domestico é em grande parte absorvido pelas
immensas publicações, principalmente jornaes, de que o fazem
assignante, ás vezes sem elle proprio o saber.
É sempre com uma certa contrariedade que a esposa d'esse cavalheiro vê
todos os dias entrar pela porta dentro mais um novo jornal.
Ella, que para os seus Gracchos quereria amealhar todas as economias do
_ménage_, observa ao marido que já vae sendo excessivo o numero de
jornaes que recebem.
Ordinariamente elle responde:
--Que queres, filha? Pediu-me o meu amigo Fulano; não póde deixar de
ser. Mas como tudo n'este mundo tem compensações, é mais um que podes
mandar vender no fim do mez.
E, accendendo o seu charuto, nunca mais pensa no jornal novo que lhe
mandaram, senão quando o cobrador vem receber a importancia da assignatura.
Todas as noites os jornaes d'aquelle dia são arremessados para o fundo
de um quarto esconso, d'onde, de tempos a tempos, saem ás braçadas para
a tenda vizinha, na rasão de 60 réis o kilo de idéas.
Pobres idéas! Descomposturas da politica, dissertações sociologicas,
_sueltos_ mordazes, versos de amor, charadas novissimas, tudo isso, que
custou tantas vezes a engendrar, e que teve talvez a sua hora de
celebridade, lá vae ser pesado a kilos na balança como a banha de porco,
o feijão amarello e a manteiga da terra.
Nenhum respeito, nenhuma consideração por essas pobres idéas! Do papel é
que se trata apenas: tanto pesa, quanto vale. O papel impresso tem
tambem o seu guano--coisa unica e vil que se lhe póde aproveitar, depois
que o pensamento envelheceu.
A facundia do jornalista, a inspiração do poeta, a graça do
folhetinista, ficam sendo, desde essa hora, um trapo para embrulho no
balcão dos tendeiros.
D'ahi por diante, isto é, da mercearia por diante, é o toicinho que
desbanca o artigo de fundo, é a manteiga que supplanta o folhetim. _Ceci
tuera cela._ A gordura afoga a poesia. Nos tempos modernos o trapo é a
mortalha do tropo.
Mas, como eu vinha contando, de tempos a tempos o criado da casa ia
vender á tenda vizinha grandes porções de jornaes antigos.
Succedeu porém que nos ultimos tempos, tendo-se despedido o criado, o
moço de padeiro, que servia a casa, recommendou outro.
--Era da sua terra, da Galliza, dizia o padeiro, e vinha para fugir ás
_sortes_. Não estava costumado a servir; faltava-lhe experiencia. Mas
era muito bom rapaz, honradissimo, filho de uns pequenos lavradores de
Compostella.
Affiançava-o. Quanto a pratica de serviço, não tinha--repetia o
padeiro--; mas como era esperto e tinha boa vontade de aprender,
desembaraçar-se-ia depressa.
Foi admittido o recommendado do padeiro.
Tipo montezinho; intellecto impenetravel, duro como o silex. Não
percebendo nada, parecia porém vivamente animado do desejo de perceber
tudo. Tinha sempre boas palavras, falas mansas, muito respeitosas. Mas,
sem embargo, todos estes predicados não chegavam a compensar a estupidez
desastrosa com que tudo fazia.
Estava inteiramente cheio o armario dos jornaes. Era preciso vendel-os,
e a dona da casa, tendo de sair a visitas, recommendou á criada:
--Dize ao Domingos que vá vender os jornaes. Mas explica-lhe bem o que
elle tem a fazer, para que não saia tolice.
--Sim, minha senhora; sim, minha senhora.
Mas, ou porque, logo que a senhora saiu, apparecesse á barra o namoro da
criada e começasse a fazer-lhe signaes semaphoricos, ou porque ella
realmente se esquecesse de que o criado era novo na casa, disse-lhe
simplesmente:
--Domingos, vae vender esses jornaes.
E o Domingos, muito obediente, muito submisso para a criada:
--Sim... senhora Rosa. Vender os jornaes... Eu já vou.
Uma hora depois voltava para casa a senhora. O criado ainda não tinha
chegado!
--Que é do Domingos?
--O Domingos foi vender os jornaes, minha senhora.
--Ha quanto tempo?
--Ha mais de uma hora!
--Ora essa! Tu explicaste-lhe bem?...
--Expliquei, sim, minha senhora...
--Então fugiria com o dinheiro?!
--Sim... talvez fugisse.
--Mas o padeiro affiançou-o!
--Isso não tira.
--Não tira! Mas o padeiro é que tem de entregar o valor dos jornaes...
N'isto bate-se á porta da escada.
--Ahi vem elle... diz a Rosa.
Mas, tendo espreitado á porta, recúa espavorida.
--Ó minha senhora! é um policia!
--Um policia! O que quer elle?
--Eu sei lá! Deus queira que não sejam alguns trabalhos...
--Estás tola! Vae abrir.
Batem segunda vez.
A criada, antes de abrir a porta, torna a espreitar.
--Ó minha senhora!
--O que é?!
--O Domingos vem preso com um policia!
--Preso! Mas como seria isso? Vae abrir, já te disse.
A Rosa abriu a porta.
O policia perguntou se aquelle criado era d'ali.
--Que sim, senhor, e que tinha sido affiançado pelo moço de padeiro.
Então o policia contou o seguinte:
--Estando de serviço na Avenida, fui avisado por algumas pessoas de que
na rua de S. José andava um rapaz impingindo por 10 réis jornaes
antigos. Essas pessoas, tendo caido no logro, reclamaram a intervenção
da policia, porque o rapaz, muito descarado, continuava na ladroeira. O
policia teve que intervir; foi á procura do rapaz. Não tardou a
encontral-o, justamente na occasião em que elle estava vendendo um
_Diario Popular_ do mez anterior. Foi pois apanhado em flagrante
delicto: com a bocca na botija. O policia perguntara-lhe:
--Tens fiador?
--Fiador! fiador, não tenho, sr. policia.
--Estás então preso.
--Pois então estou preso, sim, senhor.
--Quem te deu esses jornaes para vender?
--Quem me deu estes jornar para vender?!...
--Anda lá, não te faças tanso, que não ganhas nada com isso.
--Não me faço tanso, não, senhor. Quem me deu estes jornaes para vender
foi a sr.ª Rosa...
N'este ponto, a criada interrompeu abruptamente a narrativa do policia,
dizendo:
--Foi a senhora que mandou. Pois não foi, minha senhora?
O policia:
--Foi a senhora?
A criada:
--Foi, sim, sr. policia.
Mas a dona da casa, apparecendo então no patamar da escada, disse com
dignidade:
--Faça favor de continuar a dizer como isso foi.
O policia continuou:
--Quem é a sr.ª Rosa? perguntei-lhe eu.
--É a criada da patroa.
--E quem é a patroa?
--É a mulher do patrão.
--Mas como se chama? Irra!
--Chama-se... Isso é que eu não sei muito bem.
--Bom. Vamos lá a casa dos teus patrões. Quanto dinheiro apuraste tu com
a venda dos jornaes?
--Quanto dinheiro apurei?
--Sim, quanto tens na palma da mão?
--Aqui, na palma da mão, tenho este.
--São setenta réis. Dá cá.
--Isso agora é que eu não dou, não, senhor, porque este dinheiro é para
entregar á sr.ª Rosa.
--Dá cá o dinheiro, e anda lá _p'ra diente_.
Quando o policia estava n'este ponto da narrativa, subia a escada o dono
da casa, que voltava da repartição.
Muito espantado de ver um policia, perguntou o que tudo aquillo
significava.
Então sua esposa contou o que se passara: o marido riu, o policia riu, a
criada riu. Só o Domingos, com os olhos cravados no chão, não ria.
Comtudo, o policia, em razão de ter abandonado o serviço, precisava
justificar o seu procedimento.
--Que tivesse o cavalheiro paciencia, mas era preciso acompanhal-o á
esquadra para contar como as coisas se passaram.
--Não ha duvida nenhuma, respondeu o dono da casa, vamos lá.
O chefe da esquadra riu, todos os outros policias riram, mas, como não
estava presente o sr. commissario, o chefe da esquadra disse:
--Tenha o cavalheiro a paciencia de voltar ámanhã, das 10 para as 11
horas, a fim de contar tudo ao sr. commissario.
No dia seguinte, das 10 para as 11 horas, o dono da casa, seguido pelo
Domingos, foi falar com o sr. commissario da respectiva divisão, que era
aliás seu conhecido.
O commissario ainda não estava; o chefe da esquadra tornou a rir, só o
Domingos, com os olhos cravados no chão, não ria.
O commissario falou pelo telephone:
--Que ia fazer uma diligencia importante com o commissario geral; que
não contassem com elle.
O chefe da esquadra:
--Que tornasse a ter paciencia, mas que voltasse no dia seguinte para
falar com o sr. commissario.
--Ora essa! Que maçada!
E á saída da esquadra, tanto o patrão como o Domingos não riam--nem um,
nem outro.
Madame Araujo achou infinita graça á historia dos jornaes, e o
brazileiro, por esta vez ao menos, tambem pareceu achar graça de conta
propria.
O Leotte estava visivelmente picado com o triumpho que o Saavedra
obtivera na presença d'essa mulher, cuja _toilette_ denunciava um certo
habito de existencia mundana, que elle queria explorar.
Foi pois elle mesmo que se offereceu para contar um episodio da sua
viagem a Thomar.
--Tambem já vi Thomar, observou o brazileiro; é bonito, mas não chega
aos calcanhares do Minho!
--Pois isto que vou contar, acrescentou o Leotte, aconteceu no principio
de julho, ha tres annos.
--Ha seis é que eu lá estive, ponderou o brazileiro.
--Vamos a ouvir a historia, disse madame Araujo.
--Sim, filha, obedeceu o brazileiro, submisso como sempre.