No dia seguinte, quando recolhemos para jantar, soubemos pelo Leotte,
que tinha ficado de atalaia, tudo o que se passára com relação á chegada
dos dois novos hospedes--o brazileiro e a mulher.
Não era o nosso amigo Leotte homem que, em se tratando de uma mulher,
curasse por informações. Queria vêr a brazileira: ficou.
--Já não é nova--disse-nos elle--mas considero-a ainda acirrante.
Dou-lhe quarenta annos, pouco mais, e está menos mal conservada. Bonitos
olhos, bons dentes, cabello magnifico. Reforçada de carnes, sem se poder
dizer nutrida. Mulher capaz de satisfazer o ideal de um brazileiro, que
a idade principia a tornar decadente. Disse-me a Rosa, que está de
serviço á brazileira, que elles irão jantar á mesa redonda.
--Estás n'um sino, Leotte! Pois bem! Veremos isso.
Quando chegamos á mesa, contamos onze talheres. A informação fornecida
pela Rosa era, pois, exacta. D'ahi a pouco tempo, o brazileiro e a
mulher entraram.
O Leotte descrevera com exactidão e verdade o typo da brazileira. Era,
effectivamente, o que se costuma chamar--umas bellas ruinas. Não dessas
ruinas brutalmente realisadas por um cataclismo, que não deixa pedra
sobre pedra; mas as que o tempo lentamente costuma ir augmentando e
dulcificando com um vago perfume de poesia do passado.
Nos olhos da brazileira, principalmente, brilhavam uns como lampejos de
formoso occaso de outono. A noite negra da velhice, que apaga o clarão
das pupillas, estava ainda longe. E sentia-se n'essa organisação de
mulher, que devia ter sido ardentissima, o que quer que fôsse de
rescaldo tepido e demorado de um incendio devorador.
A _toilette_ era distincta, gentil, sem ser severa nem petulante.
Denunciava um velho habito de vestir com esmero. O unico defeito que se
poderia notar era um certo excesso de pó de arroz nas mãos e de anneis
nos dedos.
O brazileiro principiava a resvalar pelo plano inclinado da velhice
cansada. Mas havia na sua face um reflexo de bondade credula, de alma
sincera, capaz de um sacrifício nobre e de um acto de generosidade
fidalga.
No momento de entrar na casa de jantar, percebeu-se que o contrariou
achar-se com sua mulher no meio de uma sociedade de homens. Mas a breve
trecho o seu sobresalto dissipou-se, reconhecendo que nenhum de nós
ignorava o que era jantar em companhia de uma dama.
E a proposito da dama... Cinco minutos depois d'ella se ter sentado á
mesa, começou-me a impressionar a sua physionomia, na qual me parecia
encontrar feições de uma mulher que eu já vira não sabia quando nem onde.
Por mais que evocasse as minhas recordações, por mais que folheasse esse
volumoso livro de biographias que cada pessoa tem archivado no espirito
para o consultar de quando em quando, não me era possivel encontrar um
nome que correspondesse áquella physionomia: todavia, eu iria jurar que
já tinha visto algures a mulher do brasileiro, que a havia encontrado,
conversado talvez, mas não sabia, não podia dizer quando isso fosse.
Seria em Lisboa? Não, decerto. Visivelmente haviam decorrido muitos
annos, porque, de contrario, a minha memoria não seria tão rebelde.
Na provincia? Aonde? Eis a questão. Vel-a-ia eu no Porto? Tel-a-ia visto
em Braga, onde tantas vezes fui passar as férias? No Bom Jesus do Monte,
onde, no verão, abundavam os brazileiros em _villegiatura_? Nas Caldas
das Taipas ou de Vizella, que um anno por outro visitei de passagem?
Deus meu! Era certo que eu tinha visto aquella mulher, mas não podia
lembrar-me onde nem quando.
Dominado por esta preoccupação, passei todo o jantar. Procurava observar
a brasileira sem comtudo offender a susceptibilidade do marido. Elle não
repelliu a conversação em que principalmente o Leotte o queria envolver.
Disse alguma coisa da sua vida, pouco. Estava doente. Ella falou muito
menos do que o marido, mas a sua voz, que conservava ainda vestigios da
accentuação das provincias do norte, augmentou a minha preoccupação.
Decididamente, eu já tinha ouvido falar aquella mulher.
Sem termos sido mutuamente apresentados, estabeleceu-se para o fim do
jantar, graças aos esforços empregados pelo Leotte, um certo convivio de
expansiva camaradagem. Leotte, rindo sempre, contou ao que tinhamos ido
a Cintra: ouvir os rouxinoes.
O brazileiro e a mulher acharam muito graça a esta excentricidade
collectiva.
--Ouvir os rouxinoes! exclamou elle. Na minha terra, por este tempo, os
rouxinoes são aos cardumes!
O Gonçallinho Jervis sublinhou com um olhar, que me enviesou, os
_cardumes de rouxinoes_, que tinham saído da bocca do brazileiro.
Mas o Leotte aproveitou logo a occasião para perguntar:
--Então v. ex.ª é portuguez?
--Nado e creado na freguezia de Santa Maria de Bouro, concelho de
Amares, comarca de Villa Verde, districto de Braga, respondeu elle.
--Ah! Por ahi, como em toda a provincia do Minho, são abundantissimos os
rouxinoes.
--Que no Brazil, onde estive mais de trinta annos, tambem ha muitos
passaros que cantam bem: o sabiá sica, o corrixo, que imita todos os
outros passaros, o bem-te-vi, etc. Mas o que no Brazil ha de mais
notavel é que muitos passaros falam.
--Falam? perguntou o Leotte.
--Eu só sabia do papagaio, observou o Vasconcellos.
--Nada, não sr., continuou o brazileiro. O bem-te-vi, por exemplo, canta
dizendo o seu nome. O tico, que é do tamanho d'um pardal, anda sempre a
dizer--tico, tico. E o curiangú, que se põe de noite adeante dos
cavallos, costuma dizer de madrugada: João, corta pau!
--Mas os indigenas hão de dar alguma explicação a essa phrase...
--Isso agora é que eu não sei, meu caro sr. Lá que elle o diz, diz,
porque eu, sendo caixeiro e andando a cobrança, ouvi muitas vezes cantar
o curiangú. Punha-se á frente do meu cavallo e, quando o sentia perto,
tornava a voar, e esperava-o dizendo: curiangú.
--Então não diz sempre a mesma coisa?
--Não, sr. De noite diz--curiangú; e de madrugada--João, corta pau.
--É curioso! Pois nós viemos para ouvir os rouxinoes, e a verdade é que
ainda os não ouvimos, com grande magua do nosso amigo Jervis, que tomou
muito a sério o pretexto d'esta digressão. Mas temos passado as noites
tão entretidos no _hotel_, que nos tem faltado tempo para irmos ouvir os
rouxinoes.
--Entretidos! Aqui? perguntou ironicamente a mulher do brazileiro.
--Sim, minha senhora, respondeu o Leotte, muito agraciado do semblante.
Entretidos a contar historias.
--Da carochinha? perguntou ella com o mesmo tom de ironia.
Então o Leotte explicou largamente o compromisso, que todos nós haviamos
tomado, de contar uma historia ao serão para aligeirar as noites de Cintra.
Tanto o brazileiro como a mulher acharam muita graça a mais esta
excentricidade.
--Pois eu, disse ella, vinha com medo ás noites de Cintra, que
principalmente n'esta época do anno devem ser horrorosas de comprimento.
Mas o Araujo tem passado agora peor, e o medico aconselhou-o a que
viesse tomar os ares de Cintra.
--Pois se v. exas. nos quizerem dar essa honra, acrescentou o Leotte
sempre amabilissimo, poderão concorrer aos nossos serões.
--Da melhor vontade. Tanto mais que o Araujo precisa muito distrair-se.
V. exas. demoram-se?
--Fazemos tenção de ir ámanhã embora, respondeu o Vasconcellos na
qualidade de chefe da caravana.
--Não é sangria desatada, minha senhora, atalhou o Leotte. E de mais a
mais ainda nem sequer ouvimos os rouxinoes.
O Vasconcellos, sorrindo, encolheu os hombros.
--Pois então, disse a mulher do brazileiro levantando-se da mesa, eu e
meu marido faremos parte do auditorio. Não é assim, Araujo?
--Sim, filha, como tu quizeres.
O Leotte, despedindo-se:
--Os nossos saraus litterarios principiam depois das oito horas da
noite, na sala de visitas.
--Até logo, disse a mulher do brazileiro saindo da sala de jantar,
seguida pelo marido.
Saímos tambem, accendemos as nossas cigarrilhas e fomos dar um passeio
até á Praça para fazer o chilo, como sempre dizia o Maldonado.
É claro que o assumpto do passeio, insensivelmente prolongado pela
estrada de Villa Estephania, se circumscreveu ao brazileiro e á sua mulher.
Todos eram de opinião, quanto á mulher, que ella representava umas
ruinas muito menos antigas que as do convento do Carmo, mas não menos
pittorescas. O Leotte--já era de esperar--exagerava a belleza da
brazileira, como todos lhe chamavamos, e acrescentava que, quem quer que
ella fosse, vinha da escóla da experiencia, da escóla pratica do mundo.
Era _abelha-mestra_, concluia elle.
Todas as phrases que ella disséra suscitavam-nos commentarios mais ou
menos maliciosos.
Notava-se a facilidade com que acceitára o nosso convite, não sem
disfarçar habilmente o seu espirito mundano com a allegação de que o
marido precisava distrair-se. O seu horror pela extensão das noites de
Cintra revelava que ella, todavia, amava mais o mundo que o marido.
Eu insisti na minha preoccupação de a ter já visto algures. Alguns dos
meus amigos, o Vasconcellos por exemplo, riram-se d'isto.
--É que ella tem a phisionomia tipica de todas as mundanas quarentonas
que foram parar ás mãos de brazileiros. O que tu conheces é o genero,
não é a pessoa.
--Póde ser que seja assim, comtudo eu apostaria que já a vi, não sei onde.
--Mas, lembrou o Gonçallinho, ella ouviu dizer o teu appellido sem dar o
menor indicio de conhecer-te.
--Ora! isso é da tabella, tolinho! Então ella havia de mostrar ao
brazileiro que conhecia alguem n'este mundo além do seu querido Araujo?
--Que tinha isso? insistiu o Jervis. Pois as mulheres, por mais honestas
que sejam, estão inhibidas de reconhecer um homem que era das
relações da sua familia?
--O caso é outro, pateta. Uma scena de reconhecimento importaria
explicações que ella teria de dar ao marido. E quem sabe se elle as
acceitaria sem uma suspeita, justa ou injusta? Aqui tens o busilis.
Decididamente, tu não sabes nada do mundo!
Chegou depois a vez de discutirmos o brazileiro, um bajojo, diziamos,
anesthesiado pelos ultimos prazeres capitosos de uma velhice cansada.
Recordamos a phrase d'elle: «Sim, filha, como tu quizeres». Mas, em todo
o caso, boa pessoa, sincero pelo que respeitava á sua biographia:
«Natural da freguezia de Santa Maria de Bouro, concelho de Amares, etc.»
--Hei-de saber a historia d'este casamento e d'esta mulher. O Pessanha,
que é deputado por Villa Verde, ha-de conhecer o Araujo, se elle
effectivamente é de Amares.
--Estás tolo! Ha lá algum deputado que conheça o circulo!
--Mas é que o Pessanha tem casa em Villa Verde.
--N'esse caso já deve dinheiro ao Araujo e dirá só o que lhe fizer conta.
--Qual historia! Se lhe deve dinheiro, diz tudo.
O Gonçallinho Jervis lembrou a phrase--cardumes de rouxinoes. Outro, não
sei qual, recordou-se do _tico, tico_. O caso do passaro--já
nenhum de nós lhe atinava com o nome--que cosstuma dizer «João, corta
pau», despertou grande galhofa.
--Mas é que os brazileiros, disse o Athayde, têem a mania de que todos
os passaros dizem alguma coisa.
Gargalhada geral.
--É isto, insistiu elle. O Rodrigues, que vae muito á _Havanesa_, já uma
vez me contou que ha no Brazil uma especie de rôla, que diz sempre:
«Fogo pagou.»
--Pegou, é que ha de ser.
--Elle disse «Fogo pagou».
--E ha de ser assim. Julgavas então que no Brazil eram as rôlas que
davam o signal de incendio!
Novas gargalhadas.
O Leotte lembrou que já passava das oito horas. Se não havia de ser elle
que o lembrasse! Desandamos para o _Victor_, porque havia chegado o
momento de começar o nosso sarau litterario--com a assistencia do
brazileiro e de sua esposa.
Devia ter-se sentido em todo o _hotel_, quasi solitario, o ruido da
nossa chegada. Installamo-nos na sala de visitas, como era costume.
D'ahi a pouco, o brazileiro e a mulher entravam na sala.
Madame Araujo tinha feito _toilette_ para o sarau, uma _toilette_ que
envergonhava, pelo esplendor elegante, a nossa humilde academia
de _touristes_. Mas um certo excesso de anneis de preço, enfiados nos
dedos tambem excessivamente jaspeados de pós de arroz, prejudicava um
pouco o bom gosto da _toilette_.
De mim para comigo dizia eu: «Já vi estas mãos e estes anneis, não sei
onde!»
A mulher do brazileiro mostrava-se encantada com a surpresa de um sarau,
que a nossa excentricidade, como ella disséra, lhe havia preparado.
O Araujo, muito resignado, parecia dizer com os olhos, explicando a sua
presença ali: «Sim, filha, o que tu quizeres».