XII

No dia seguinte, quando recolhemos para jantar, soubemos pelo Leotte,

que tinha ficado de atalaia, tudo o que se passára com relação á chegada

dos dois novos hospedes--o brazileiro e a mulher.

Não era o nosso amigo Leotte homem que, em se tratando de uma mulher,

curasse por informações. Queria vêr a brazileira: ficou.

--Já não é nova--disse-nos elle--mas considero-a ainda acirrante.

Dou-lhe quarenta annos, pouco mais, e está menos mal conservada. Bonitos

olhos, bons dentes, cabello magnifico. Reforçada de carnes, sem se poder

dizer nutrida. Mulher capaz de satisfazer o ideal de um brazileiro, que

a idade principia a tornar decadente. Disse-me a Rosa, que está de

serviço á brazileira, que elles irão jantar á mesa redonda.

--Estás n'um sino, Leotte! Pois bem! Veremos isso.

Quando chegamos á mesa, contamos onze talheres. A informação fornecida

pela Rosa era, pois, exacta. D'ahi a pouco tempo, o brazileiro e a

mulher entraram.

O Leotte descrevera com exactidão e verdade o typo da brazileira. Era,

effectivamente, o que se costuma chamar--umas bellas ruinas. Não dessas

ruinas brutalmente realisadas por um cataclismo, que não deixa pedra

sobre pedra; mas as que o tempo lentamente costuma ir augmentando e

dulcificando com um vago perfume de poesia do passado.

Nos olhos da brazileira, principalmente, brilhavam uns como lampejos de

formoso occaso de outono. A noite negra da velhice, que apaga o clarão

das pupillas, estava ainda longe. E sentia-se n'essa organisação de

mulher, que devia ter sido ardentissima, o que quer que fôsse de

rescaldo tepido e demorado de um incendio devorador.

A _toilette_ era distincta, gentil, sem ser severa nem petulante.

Denunciava um velho habito de vestir com esmero. O unico defeito que se

poderia notar era um certo excesso de pó de arroz nas mãos e de anneis

nos dedos.

O brazileiro principiava a resvalar pelo plano inclinado da velhice

cansada. Mas havia na sua face um reflexo de bondade credula, de alma

sincera, capaz de um sacrifício nobre e de um acto de generosidade

fidalga.

No momento de entrar na casa de jantar, percebeu-se que o contrariou

achar-se com sua mulher no meio de uma sociedade de homens. Mas a breve

trecho o seu sobresalto dissipou-se, reconhecendo que nenhum de nós

ignorava o que era jantar em companhia de uma dama.

E a proposito da dama... Cinco minutos depois d'ella se ter sentado á

mesa, começou-me a impressionar a sua physionomia, na qual me parecia

encontrar feições de uma mulher que eu já vira não sabia quando nem onde.

Por mais que evocasse as minhas recordações, por mais que folheasse esse

volumoso livro de biographias que cada pessoa tem archivado no espirito

para o consultar de quando em quando, não me era possivel encontrar um

nome que correspondesse áquella physionomia: todavia, eu iria jurar que

já tinha visto algures a mulher do brasileiro, que a havia encontrado,

conversado talvez, mas não sabia, não podia dizer quando isso fosse.

Seria em Lisboa? Não, decerto. Visivelmente haviam decorrido muitos

annos, porque, de contrario, a minha memoria não seria tão rebelde.

Na provincia? Aonde? Eis a questão. Vel-a-ia eu no Porto? Tel-a-ia visto

em Braga, onde tantas vezes fui passar as férias? No Bom Jesus do Monte,

onde, no verão, abundavam os brazileiros em _villegiatura_? Nas Caldas

das Taipas ou de Vizella, que um anno por outro visitei de passagem?

Deus meu! Era certo que eu tinha visto aquella mulher, mas não podia

lembrar-me onde nem quando.

Dominado por esta preoccupação, passei todo o jantar. Procurava observar

a brasileira sem comtudo offender a susceptibilidade do marido. Elle não

repelliu a conversação em que principalmente o Leotte o queria envolver.

Disse alguma coisa da sua vida, pouco. Estava doente. Ella falou muito

menos do que o marido, mas a sua voz, que conservava ainda vestigios da

accentuação das provincias do norte, augmentou a minha preoccupação.

Decididamente, eu já tinha ouvido falar aquella mulher.

Sem termos sido mutuamente apresentados, estabeleceu-se para o fim do

jantar, graças aos esforços empregados pelo Leotte, um certo convivio de

expansiva camaradagem. Leotte, rindo sempre, contou ao que tinhamos ido

a Cintra: ouvir os rouxinoes.

O brazileiro e a mulher acharam muito graça a esta excentricidade

collectiva.

--Ouvir os rouxinoes! exclamou elle. Na minha terra, por este tempo, os

rouxinoes são aos cardumes!

O Gonçallinho Jervis sublinhou com um olhar, que me enviesou, os

_cardumes de rouxinoes_, que tinham saído da bocca do brazileiro.

Mas o Leotte aproveitou logo a occasião para perguntar:

--Então v. ex.ª é portuguez?

--Nado e creado na freguezia de Santa Maria de Bouro, concelho de

Amares, comarca de Villa Verde, districto de Braga, respondeu elle.

--Ah! Por ahi, como em toda a provincia do Minho, são abundantissimos os

rouxinoes.

--Que no Brazil, onde estive mais de trinta annos, tambem ha muitos

passaros que cantam bem: o sabiá sica, o corrixo, que imita todos os

outros passaros, o bem-te-vi, etc. Mas o que no Brazil ha de mais

notavel é que muitos passaros falam.

--Falam? perguntou o Leotte.

--Eu só sabia do papagaio, observou o Vasconcellos.

--Nada, não sr., continuou o brazileiro. O bem-te-vi, por exemplo, canta

dizendo o seu nome. O tico, que é do tamanho d'um pardal, anda sempre a

dizer--tico, tico. E o curiangú, que se põe de noite adeante dos

cavallos, costuma dizer de madrugada: João, corta pau!

--Mas os indigenas hão de dar alguma explicação a essa phrase...

--Isso agora é que eu não sei, meu caro sr. Lá que elle o diz, diz,

porque eu, sendo caixeiro e andando a cobrança, ouvi muitas vezes cantar

o curiangú. Punha-se á frente do meu cavallo e, quando o sentia perto,

tornava a voar, e esperava-o dizendo: curiangú.

--Então não diz sempre a mesma coisa?

--Não, sr. De noite diz--curiangú; e de madrugada--João, corta pau.

--É curioso! Pois nós viemos para ouvir os rouxinoes, e a verdade é que

ainda os não ouvimos, com grande magua do nosso amigo Jervis, que tomou

muito a sério o pretexto d'esta digressão. Mas temos passado as noites

tão entretidos no _hotel_, que nos tem faltado tempo para irmos ouvir os

rouxinoes.

--Entretidos! Aqui? perguntou ironicamente a mulher do brazileiro.

--Sim, minha senhora, respondeu o Leotte, muito agraciado do semblante.

Entretidos a contar historias.

--Da carochinha? perguntou ella com o mesmo tom de ironia.

Então o Leotte explicou largamente o compromisso, que todos nós haviamos

tomado, de contar uma historia ao serão para aligeirar as noites de Cintra.

Tanto o brazileiro como a mulher acharam muita graça a mais esta

excentricidade.

--Pois eu, disse ella, vinha com medo ás noites de Cintra, que

principalmente n'esta época do anno devem ser horrorosas de comprimento.

Mas o Araujo tem passado agora peor, e o medico aconselhou-o a que

viesse tomar os ares de Cintra.

--Pois se v. exas. nos quizerem dar essa honra, acrescentou o Leotte

sempre amabilissimo, poderão concorrer aos nossos serões.

--Da melhor vontade. Tanto mais que o Araujo precisa muito distrair-se.

V. exas. demoram-se?

--Fazemos tenção de ir ámanhã embora, respondeu o Vasconcellos na

qualidade de chefe da caravana.

--Não é sangria desatada, minha senhora, atalhou o Leotte. E de mais a

mais ainda nem sequer ouvimos os rouxinoes.

O Vasconcellos, sorrindo, encolheu os hombros.

--Pois então, disse a mulher do brazileiro levantando-se da mesa, eu e

meu marido faremos parte do auditorio. Não é assim, Araujo?

--Sim, filha, como tu quizeres.

O Leotte, despedindo-se:

--Os nossos saraus litterarios principiam depois das oito horas da

noite, na sala de visitas.

--Até logo, disse a mulher do brazileiro saindo da sala de jantar,

seguida pelo marido.

Saímos tambem, accendemos as nossas cigarrilhas e fomos dar um passeio

até á Praça para fazer o chilo, como sempre dizia o Maldonado.

É claro que o assumpto do passeio, insensivelmente prolongado pela

estrada de Villa Estephania, se circumscreveu ao brazileiro e á sua mulher.

Todos eram de opinião, quanto á mulher, que ella representava umas

ruinas muito menos antigas que as do convento do Carmo, mas não menos

pittorescas. O Leotte--já era de esperar--exagerava a belleza da

brazileira, como todos lhe chamavamos, e acrescentava que, quem quer que

ella fosse, vinha da escóla da experiencia, da escóla pratica do mundo.

Era _abelha-mestra_, concluia elle.

Todas as phrases que ella disséra suscitavam-nos commentarios mais ou

menos maliciosos.

Notava-se a facilidade com que acceitára o nosso convite, não sem

disfarçar habilmente o seu espirito mundano com a allegação de que o

marido precisava distrair-se. O seu horror pela extensão das noites de

Cintra revelava que ella, todavia, amava mais o mundo que o marido.

Eu insisti na minha preoccupação de a ter já visto algures. Alguns dos

meus amigos, o Vasconcellos por exemplo, riram-se d'isto.

--É que ella tem a phisionomia tipica de todas as mundanas quarentonas

que foram parar ás mãos de brazileiros. O que tu conheces é o genero,

não é a pessoa.

--Póde ser que seja assim, comtudo eu apostaria que já a vi, não sei onde.

--Mas, lembrou o Gonçallinho, ella ouviu dizer o teu appellido sem dar o

menor indicio de conhecer-te.

--Ora! isso é da tabella, tolinho! Então ella havia de mostrar ao

brazileiro que conhecia alguem n'este mundo além do seu querido Araujo?

--Que tinha isso? insistiu o Jervis. Pois as mulheres, por mais honestas

que sejam, estão inhibidas de reconhecer um homem que era das

relações da sua familia?

--O caso é outro, pateta. Uma scena de reconhecimento importaria

explicações que ella teria de dar ao marido. E quem sabe se elle as

acceitaria sem uma suspeita, justa ou injusta? Aqui tens o busilis.

Decididamente, tu não sabes nada do mundo!

Chegou depois a vez de discutirmos o brazileiro, um bajojo, diziamos,

anesthesiado pelos ultimos prazeres capitosos de uma velhice cansada.

Recordamos a phrase d'elle: «Sim, filha, como tu quizeres». Mas, em todo

o caso, boa pessoa, sincero pelo que respeitava á sua biographia:

«Natural da freguezia de Santa Maria de Bouro, concelho de Amares, etc.»

--Hei-de saber a historia d'este casamento e d'esta mulher. O Pessanha,

que é deputado por Villa Verde, ha-de conhecer o Araujo, se elle

effectivamente é de Amares.

--Estás tolo! Ha lá algum deputado que conheça o circulo!

--Mas é que o Pessanha tem casa em Villa Verde.

--N'esse caso já deve dinheiro ao Araujo e dirá só o que lhe fizer conta.

--Qual historia! Se lhe deve dinheiro, diz tudo.

O Gonçallinho Jervis lembrou a phrase--cardumes de rouxinoes. Outro, não

sei qual, recordou-se do _tico, tico_. O caso do passaro--já

nenhum de nós lhe atinava com o nome--que cosstuma dizer «João, corta

pau», despertou grande galhofa.

--Mas é que os brazileiros, disse o Athayde, têem a mania de que todos

os passaros dizem alguma coisa.

Gargalhada geral.

--É isto, insistiu elle. O Rodrigues, que vae muito á _Havanesa_, já uma

vez me contou que ha no Brazil uma especie de rôla, que diz sempre:

«Fogo pagou.»

--Pegou, é que ha de ser.

--Elle disse «Fogo pagou».

--E ha de ser assim. Julgavas então que no Brazil eram as rôlas que

davam o signal de incendio!

Novas gargalhadas.

O Leotte lembrou que já passava das oito horas. Se não havia de ser elle

que o lembrasse! Desandamos para o _Victor_, porque havia chegado o

momento de começar o nosso sarau litterario--com a assistencia do

brazileiro e de sua esposa.

Devia ter-se sentido em todo o _hotel_, quasi solitario, o ruido da

nossa chegada. Installamo-nos na sala de visitas, como era costume.

D'ahi a pouco, o brazileiro e a mulher entravam na sala.

Madame Araujo tinha feito _toilette_ para o sarau, uma _toilette_ que

envergonhava, pelo esplendor elegante, a nossa humilde academia

de _touristes_. Mas um certo excesso de anneis de preço, enfiados nos

dedos tambem excessivamente jaspeados de pós de arroz, prejudicava um

pouco o bom gosto da _toilette_.

De mim para comigo dizia eu: «Já vi estas mãos e estes anneis, não sei

onde!»

A mulher do brazileiro mostrava-se encantada com a surpresa de um sarau,

que a nossa excentricidade, como ella disséra, lhe havia preparado.

O Araujo, muito resignado, parecia dizer com os olhos, explicando a sua

presença ali: «Sim, filha, o que tu quizeres».

Noites de Cintra · 第 16 / 24 题