--E eu que sei quem elle é! apostrophou o Maldonado, que era o mais
silencioso de todos nós.
Achámos graça á observação, espicaçámos o Maldonado.
Elle explicou que tinha estado n'aquelle anno no Porto e que tambem lá
tinha apparecido o commendador Piratinino, de fato branco, o qual seguiu
d'ali para as Caldas de Vizella.
Era... disse-nos o nome, que não vem para o caso.
Mas como o Maldonado houvesse quebrado o seu silencio habitual, o
Vasconcellos intimou-o a dar qualquer pequeno contingente para o nosso
_Decameron_.
Que não; que não sabia historia nenhuma. Que não tinha geito para contar.
E a assemblea insubordinada:
--Que contasse alguma coisa, senão que o levaria o diabo.
--Que de mais a mais o Maldonado não era baldo de gosto litterario:
conhecia os poetas gregos, lia muito Theócrito.
--Que, finalmente, contasse alguma coisa obrigada a Theócrito.
Muito instado, cedeu.
--Pois ahi vae um caso, offerecido ao Leotte.
--Oh!
--Uma lição de moralidade para quando elle fôr avô.
--Que genero?
--Genero realista. Eu, infelizmente, não tenho a imaginação do nosso
Gonçallinho. Conto o que aconteceu. E, sem mais preambulos, ahi vae.
--Eram dois velhinhos, seccos e rosados, alegres e gaiatos, muito
amigos, socios na patuscada, sempre de mãos dadas, como dois banqueiros
do amor, nos sindicatos do prazer.
Ambos casados, os marotos, mas azevieiros como Anacreonte. Tendo sugado
na flôr do matrimonio todo o mel de uma longa lua nupcial, deitaram a
correr aventuras, de braço dado, por amor da variedade, beijando, como
borboletas insaciaveis, o nectario de todas as flôres que encontrassem
na sua marcha triumphante.
Calados como ratos, de muito segredo e de muita ronha, iam saboreando a
vida e zombando da velhice, que apenas ousava nevar-lhes os
cabellos, respeitando o coração e o mais.
Tiveram filhos canonicos e souberam educal-os. Conciliando os seus
deveres de chefes de familia com os seus apetites de uma mocidade perpetua.
Sempre muito dissimulados, toda a gente os tinha por impeccaveis. Mas
elles, a sós, um com o outro, riam-se de toda a gente. Eram solidarios:
e confidentes nas suas rapaziadas inverniças, e fechavam a sete chaves o
segredo das suas funcçanatas serodias.
Um tivera uma filha, que casou; o outro tivera um filho, que tambem
casou. Mas a filha do primeiro não casou com o filho do segundo, por
accôrdo dos dois velhos.
--Não quero o teu filho para a minha filha, disse o primeiro ao segundo,
em segredo, porque receio que elle saia ao pae, e largue a fazer
infidelidades como tu.
E riram os dois, dando-se pansadinhas,--_eh!--eh!_--como se estivessem
em plena verdura da mocidade. Mas em casa, deante do genro e deante da
nora, não ousavam falar em Theócrito, a não ser para reproduzir algum
verso casto do bucolico grego, como por exemplo aquelle em que a pastora
diz a Daphne: «O casamento não tem penas nem dôres; mas sómente alegria
e danças.»
Secretamente, no fundo da sua consciencia, elles estavam de accôrdo
quanto ás _danças_ do casamento, porque varias vezes se tinham
visto mettidos n'ellas por causa da sua libertinagem, receosos das
consequencias de alguma conquista aventurosa.
Intimamente, rezavam pela cartilha de Theócrito, não quando elle
preconisava as alegrias do casamento, mas quando, por exemplo, fazia o
elogio do beijo roubado a uma pastora sem a responsabilidade do matrimonio.
Cada um dos dois velhos teve um neto. Agradeceram muito á Providencia o
favor de lhes dar netos do sexo masculino, porque os lisonjeava a ideia
de que os netos lhes honrariam, por hereditariedade, a tradição patusca.
Á medida que os rapazes foram crescendo, mais os dois velhinhos
frascarios se fecharam em maior discreção, de modo que das suas
aventuras serodias não pudesse chegar noticia aos netos.
Pela primavera, quando as arvores rebentavam e os campos erveciam,
sentiam-se renascer, vibrar; e sempre que o pé lhes escapava para a
folia, cuidadosamente afivelavam a mascara, para não serem apanhados com
a bocca na botija.
Os rapazes estavam uns homensinhos, de cara penugenta, e os dois avós
concertaram entre si ir-lhes dando algum dinheiro, para que não
guardassem toda a mocidade para a velhice.
--Como nós... dizia um.
--Eh! eh! respondia, rindo, o outro.
E ao cabo de alguns momentos de meditação:
--Isto tem que ser por força... exclamava um.
--Isto, o que?
--Dar com a cabeça pelas paredes, e fazer tolices. Portanto, quanto mais
cedo a tempestade passar, melhor. Eu bem o sei... Comecei muito tarde, é
o que foi...
--E eu!... ponderava o outro.
Ora a verdade era que elles tinham começado desde o principio, que é a
maneira mais logica e chronologica de começar.
Os rapazes gastavam dinheiro, que os velhos lhes davam, e como a
mocidade não é mais do que a primavera da vida, elles tinham, a respeito
dos avós, a vantagem de não precisarem esperar pelo calendario.
Atiravam-se.
A primavera do anno chegára, e os dois velhos, galvanisados por ella,
deitaram-se a farejar conquistas por toda essa Lisboa galante.
Mas, como dois gastronomos do amor, que sempre foram, já estavam um
pouco aborrecidos de bons petiscos, e o que elles agora queriam, a
proposito de petiscos metaphoricos, era achar iguarias optimas.
--Achei! disse uma vez um velho ao outro.
--Aonde?
--Longe, mas bom.
--Aonde?
--Á Penha de França.
--Irra! que é longe! Mas dize lá.
--Vinte e quatro annos. Formas redondas, linhas esculpturaes, frescura,
belleza, mocidade. Uma alface, que a gente tem vontade de trincar, para
refrescar-se.
--Já o sabes?
--Suspeito-o, pelo que vejo. Mas tenho aqui um bilhete de apresentação
para nós ambos.
--Bravo! excellente! Lá iremos...
E á noite, das nove para as dez horas, os dois velhinhos passaram por
entre filas de lojas illuminadas, desceram honestamente o Chiado sem
olhar para as _estrellas cadentes_, que lhes davam encontrões, tão
honestamente como se fossem á _Baixa_ comprar bolos moles para as
esposas desdentadas.
Muita gente os cumprimentava, e elles correspondiam ao cumprimento com a
gravidade austera de duas pessoas idosas que fossem caminhando para um
_lausperenne_.
Mas, lá por dentro, no que elles pensavam era no alto da Penha: uma
casinha de um andar, menos mal alfaiada, com rotulas verdes no
_rez-de-chaussée_.
E n'um passinho curto, mas rendoso, atravessaram a Baixa, passando
honestamente por entre filas de lojas illuminadas, foram andando,
andando, ganhando o largo do Intendente, galgando para Arroyos, sempre a
rir lá por dentro--_eh! eh!_--até que começaram a marinhar lentamente
pelo Caracol da Penha, aonde o perfume do prazer lhes parecia
chegar já, como o bom cheiro de uma cozinha, que se sente ao longe.
Chegaram ao alto da Penha.
--É ali, disse um.
--Ha luz no _rez-de-chaussée_, observou o outro.
E espionaram, que não fosse alguem suspeital-os. Depois, cautelosamente,
aproximaram-se das janellas de rotulas verdes. Ouviram conversar, rir.
Na Penha de França, ás dez horas da noite, o vicio tem confiança na
solidão: não é preciso fechar as portas das janellas.
--Espreitemos e ouçamos.
--Sim... ouçamos e espreitemos.
E após um momento de silenciosa contrariedade:
--Ha homens, e eu conheço as vozes. Depois, puxada a gola ás faces, os
chapeus enterrados na cabeça, continuaram escutando.
E, de subito, caminhando para o intervallo das janellas, medrosos,
desapontados, disseram, com os labios colados á orelha um do outro:
--São os nossos netos!
De repente, como se ambos obedecessem ao mesmo pensamento, deitaram a
descer por ali abaixo, a descer, fazendo da fraqueza forças.
Só na rua direita de Arroyos tornaram a parar. Certificando-se de que
não eram seguidos, exclamaram de novo:
--E esta! Eram os nossos netos!...
Foi abraçado o chronista, que realmente nos soubera prender a attenção.
O seu numeroso amigo Leotte, em agradecimento da dedicatoria, pegou no
Maldonado ao collo. Uma ovação!
A breve trecho, o relogio do Victor dava meia-noite.
--Mas então, apostrophou o Gonçallinho, a gente ha de ir-se embora sem
ouvir os rouxinoes?!
Vozes, ao levantar da feira:
--Amanhã!
--Amanhã!
O Gonçallinho Jervis disse-me que ia para o seu quarto escrever.
--O que vaes tu escrever, meu lyrico?
--Vou, antes que me esqueça, dar forma ao outro conto que pensei pelo
caminho.
--Ah! _A morte do bibliophilo_? Pois vae, e ámanhã o lerás.
Ia eu para deitar-me, quando o Leotte, muito intrigado ainda com a
historia de D. Maria de Alarcão, entrou no meu quarto, procurando
certificar-me de que, para desenvencilhar mysterios de mulheres, tinha
elle faro como ninguem. Que eu veria; que ou a rapariga tinha falado com
sinceridade ou que elle era um grande tolo, do que não estava convencido.
Depois pegou a contar casos do seu tempo de Coimbra, memorias de
condiscipulos e já eu tinha perdido o somno quando elle abordou a
historia do seu condiscipulo Barcellos.
--Quem era esse? perguntei.
Como lhe dei trella, foi um gosto ouvil-o.
Barcellos, o grande, passou quasi desconhecido fóra de Coimbra, onde se
doutorou, e fóra de Salvaterra de Magos, onde nasceu.
Bohemio e improvisador como Bocage, fez a sua lenda em Coimbra, no meio
de uma sociedade de rapazes em que a falta de talento era tida como
rarissima falha de toque denunciada na contrastaria intellectual da
Universidade. Na terra dos cegos, quem tiver um olho é rei. Mas o
Barcellos galgou ao primeiro premio e ao primeiro logar através de uma
basta legião de sujeitos em que os anonymos eram pequenissima excepção.
O Barcellos apenas differia de Bocage em não reproduzir pela escripta as
suas composições. Falou; toda a sua vida se foi n'isso: falar. Teve
improvisos felicissimos, extraordinarios, principalmente em prosa.
_Verba volant._ Os seus discursos não foram fixados pela stenographia.
Não são conhecidos no paiz. Mas aquelles que lh'os ouviram, jámais
poderão esquecel-os.
De copo em punho, a graça, a verbosidade, a satyra e a anecdota emergiam
da onda rubra do Bairrada como Venus do seio da vaga azul do oceano. Uma
belleza! um primor!
A Universidade quiz doutoral-o. Elle respondeu que em Salvaterra de
Magos um capello era a insignia mais inutil d'este mundo.
Redarguiram-lhe que um capello equivalia a uma cathedra. Lá isso
não! elle só tinha geito para ser estudante, respondeu. Visto que
deixava de ser estudante, iria para Salvaterra annullar-se. Mas a
Universidade teimou em dar-lhe o annel de doutor. Elle enfiou-o no dedo,
e tratou de annullar-se em Salvaterra.
Metteu-se em casa. Saía da cama para ir jantar, e ás oito horas da
noite, de charuto ao canto da bocca, apparecia na botica, que o esperava
com interesse. Tomava a palavra, monopolisando-a, logo que lhe
lembrassem um assumpto, qualquer que fosse.
Falou-se uma noite da intelligencia dos cães. Um caçador da localidade
contou, como quem lança á terra uma semente para que se reproduza, a
historia de uma perdigueira, que tinha a idolatria da caça. Em passando
um caçador de arma ás costas, ainda que lhe fosse desconhecido, a
perdigueira seguia-o. Em ouvindo assobiar, punha-se de orelha fita, e
partia. Era um estranho que a chamava? Não se lhe dava d'isso:
acompanhava-o. O seu gosto, o seu enthusiasmo era a caça. O caçador
disparava o primeiro tiro. Acertava? caía uma perdiz? A perdigueira
pulava de contente, estava alegre e interessada para todo o dia. Falhava
o tiro? A perdigueira começava a olhar desconfiada para o caçador.
Falhava um segundo tiro? A perdigueira amuava, aborrecia-se. Mas se o
terceiro tiro falhava, a perdigueira desandava para casa,
abandonando o caçador.
O grande Barcellos ouvia sorrindo, aquecendo, vibrando, como Bocage nos
mais felizes raptos da improvisação. Lançado o assumpto, apanhava-o no
ar, senhoreava-o, fréchava-o de glosas em que a imaginação refervia
torrencial.
--Não me admiro, disséra n'essa noite o Barcellos, erguendo-se e
passeando, muito peripoletico e muito jovial. Eu lhes conto o que me
aconteceu em Coimbra, a proposito da intelligencia dos cães. Era no meu
sexto anno. Estava-me preparando para defender theses. Uma estopada que
a Universidade me metteu pela porta dentro! Recolhia uma noite para
casa, na rua do Correio, paredes meias do predio onde o _Mata-frades_
nasceu. Á esquina da Sé Velha, oiço ganir dolorosamente um canito na
escuridade. Aproximo-me, curvo-me...
E, de cocoras, elle representava, como um actor consummado, a sua
narrativa.
--Encontro effectivamente um cão, um pequeno cão vadio, um desherdado da
fortuna, com uma perna partida. Pobre animal! Levanto-o cautelosamente,
chego-me a um candeeiro, examino a fractura. Sinto na minha alma esse
generoso impulso de caridade que todo o racional completo sente pelo
irracional incompleto. A gente ri-se ás vezes de um homem coxo: mas
sente-se abalado perante um cão que anda de perna no ar. São
segredos da nossa incomprehensivel natureza, que difficultam o
principio theorico da fraternidade universal. Entro em casa, deponho
delicadamente o canito sobre a minha cama. Vou á estante. Tiro o
primeiro livro encadernado em que puz os dedos. Era um Michelet.
Deixal-o ser. Tanto melhor! Um philosopho humanitario estava a calhar
para uma acção meritoria. Rasgo a encadernação. Corto-a em tiras, e
applico as talas á perna quebrada. Ligo-a. Ponho o cão sobre uma
cadeira, cubro-o com a minha capa de estudante. Deito-me. Adormeço.
O grande Barcellos accendeu outro charuto, afastou do pescoço o seu alto
collarinho engommado, e proseguiu:
--Ao cabo de vinte dias de tratamento, a fractura tinha solidificado.
Tiro ao cão o apparelho cirurgico, e elle, sem lamber a mão que o havia
beneficiado, rompe pela porta fóra, desce a escada, safa-se pela rua
abaixo de rabo caído. A ingratidão dos cães! meditei eu. Nem um olhar,
nem uma caricia, uma demonstração qualquer de agradecimento! Fosse um
homem, e abraçar-me-ia. Fosse uma mulher, e beijar-me-ia. Era um cão:
safou-se como quem era. Ah! meus amigos, que errado juizo este! Cerca de
dez dias depois, estava eu, de papo para o ar, lendo uma d'aquellas
coisas que a gente só lê em Coimbra: um doutor. Um doutor que tem
escripto é a praga maior que se conhece. Sinto arranhar na porta do
quarto: primeira vez, segunda vez, terceira vez. É um gato! disse
eu. Atirei fóra o doutor, saltei da cama, pego no meu bastão da noite e
abro a porta disposto a enxotar o gato impertinente. Sabem os srs. quem
era? Era o _meu_ cão da perna partida, são como um pêro. Mas trazia
outro, trazia outro cão, que tambem quebrára uma perna. Achei-lhe graça.
«Com que então, disse eu voltando-me para o ingrato canito de que tão
cuidadosamente havia tratado, tu pensas que isto aqui é casa de
algebista? Achas mais barato do que ir ao _endireita_? Abriste conta
corrente comigo? Mas quando pagas tu, refinadissimo tratante? Safaste-te
á franceza: nem uma, nem duas! e trazes-me agora um amigalhote coxo para
que eu o concerte?» E o _meu_ cão crivava o seu vivacissimo olhar em
mim, como a perguntar-me se eu entendia o sentido da sua visita. O
outro, de perna no ar e focinho no chão, esperava pela consulta. «Mas no
fim de contas, disse eu, tu tens ao menos uma qualidade nobre: és amigo
do teu amigo. Elle quebrou uma perna, é teu parceiro na bohemia, sabes
que eu concerto pernas, e vieste cá. Pois vamos lá a isso, meu ingrato
de uma figa.» Tiro outro livro da estante, e ponho duas talas de papelão
na fractura do canito. Deito-o sobre uma cadeira, mando-lhe dar de
comer, mas emquanto espero que a servente traga umas sopas, o
introductor safa-se pela escada abaixo. Não está má esta! reflexiono.
Com que então isto é chegar, vêr e vencer! Mas... mas pensei que
talvez um sentimento de delicadeza obrigasse o _meu_ cão a retirar-se:
quereria porventura poupar-me ao sacrificio de sustentar dois hospedes.
Seria ou não seria. No dia seguinte vejo-o entrar de repente. Põe-se do
chão a olhar para o outro, que estava na cadeira, certifica-se de que
elle tem as talas, de que está em tratamento, de que eu sou um
_endireita_ acabado e um philantropo inexgotavel. Sái. Durante oito dias
ninguem o vê mais, talvez para me significar que confiava plenamente na
minha cirurgia. Ao nono dia volta a visitar o amigo. Olha para elle,
parece dizer-lhe com os olhos--_Isso vae bem_--e raspa-se. O curativo
chegou a seu termo, e o _meu_ cão nunca mais voltou. Levantei o
apparelho com a mestria que dá a pratica. Lembrei-me até de abrir um
consultorio para cães; mas tive receio de que a faculdade de medicina me
fizesse instaurar processo, visto que eu só podia abrir consultorio para
demandistas. O cão safou-se como o outro, sem um olhar, uma caricia, uma
qualquer manifestação de agradecimento.
--E nunca mais os viu? perguntaram ao grande Barcellos.
--Lá vamos, respondeu elle. Fiz exame de licenciado, defendi theses,
tomei capello. Dia cheio na Universidade, o do capello. Puz na cabeça
uma borla doutoral, e recebi auctorisação solemne para acrescentar ao
meu nome mais seis lettras. A Universidade confirmou o tratamento que a
minha servente me dava desde o primeiro anno. Abraços dos lentes e
de toda a mais doutorança; abraços dos estudantes, abraços dos
archeiros. A propria _Cabra_ parecia dizer-me: Se eu pudesse descer,
mettia-te os tampos dentro. Vou a casa para descansar do capello,
emquanto n'um _hotel_ da baixa se prepara o jantar do doutoramento.
Desço até á Sé Velha, entro na rua do Correio, aproximo-me de casa e
vejo á minha porta, cada um de seu lado, os dois cães que eu concertei,
e que me iam dar os parabens! Aqui teem os senhores o que é a
intelligencia do cão.
Tal foi--exclamava o Leotte enthusiasmado--a improvisação do grande, do
immortal Barcellos n'uma noite da botica. E todas as outras noites eram
assim.
--Ó homem! atalhei eu. Vae deitar-te e deixa-me dormir, que são duas
horas da noite!