--Então, se não vamos ainda hoje ouvir os rouxinoes, tambem eu quero
contar o meu conto, disse o Gonçallinho Jervis.
--Sim, senhor, concordou o Vasconcellos.
--Mas qual dos dois contos que nos annunciaste pelo caminho? perguntou o
Athayde.
--_A Primeira entrevista._ Tenho porém a prevenir o respeitavel publico,
para evitar uma pateada, que o meu conto, ao contrario da historia do
Muxagata, não aconteceu nunca. É uma phantasia que só poderia ter-se
dado no paiz azul dos sonhos...
--Ditosa idade em que se pensam essas tolices! exclamou o Vasconcellos.
--Mau! protestou o Gonçallinho. _Se ralhas, não conto._
--Tem a palavra o poeta, que poderá sonhar á vontade sem que ninguem o
interrompa.
Fez-se silencio. E o Gonçallinho, romanescamente, depois de ter mettido
os dedos pelo cabello para levantar a gaforina, usou da palavra:
--Custou muito--disse, elle--a planear a primeira entrevista. Era
preciso illudir a vigilancia de tanta gente, inventar tantas mentiras,
saltar por cima de tantos embaraços! Mas, finalmente, o programma,
laboriosamente organisado, tinha sido acceito pela credulidade das
pessoas que se lhe poderiam oppôr. Ainda assim, Fanny não ficou
inteiramente tranquilla. Durante os dias que medearam entre o da
elaboração do programma e o da entrevista, andava desconfiada, escutava
pelos corredores receosa de que falassem d'ella, parecia-lhe ouvir dizer
o seu nome e cochichar depois em segredo... O olhar das pessoas de
familia incommodava-a, como se todas essas boas pessoas tivessem
realmente a intenção de observal-a por desconfiança, de lêr-lhe nos
olhos esse audacioso plano de uma entrevista no campo.
É verdade que ao mesmo tempo que se sentia atormentada de receios, de
vagos sobresaltos, pensava na delicia d'esse primeiro dia de liberdade
no amor, sem testemunhas, sem disfarces, sentada com _Elle_ á sombra das
arvores, ouvindo cantar os passaros a sua canção de estio, vendo
doudejar no ar as borboletas de grandes azas coloridas, cujo vôo
independente tantas vezes ambicionára...
Mas se um obstaculo imprevisto sobreviesse! Quanto esta ideia terrivel a
amargurava! A doença de uma pessoa de familia, a carruagem que podia
faltar, a chuva que poderia vir n'esse dia... Como isso era horrivel!
Mas Fanny lembrava-se, para tranquilisar-se, de que a fortuna ajuda os
audazes e de que, como premio á sua audacia, ouviria finalmente cantar
os passaros a sua canção de estio nas grandes arvores sombrias.
Toda a base do seu programma era essa velha desculpa, sempre acreditada,
a doença de uma antiga companheira de collegio, que está a ares no
campo, e á qual se quer dizer o ultimo adeus.
Fanny tinha effectivamente uma amiga de collegio, que estava tysica, e
como as duas familias se não visitavam, o pretexto pareceu-lhe
excellente, o segredo não viria a descobrir-se.
Mas se a pobre doente morresse antes do dia marcado para a entrevista? O
egoismo dos felizes não conhece limites: que morresse no dia seguinte, e
tudo seria pelo melhor. Morrer antes, deixar de soffrer menos alguns
dias, nem por pensamentos Fanny o queria admittir. E todavia, no
collegio, as duas amigas haviam sido muito dedicadas, mas o tempo
passára e só de longe a longe, de anno a anno talvez, se lembravam uma
da outra.
Com o coração de oratorio, como um condemnado que treme de todas
as sombras, que tem medo do rumor de todos os passos, Fanny esperou que
esse desejado dia chegasse.
Dormiu mal, somnos curtos e agitados. Parecia-lhe ouvir assobiar o vento
nas ruas, bater a chuva nas vidraças. Um temporal seria o maior de todos
os contratempos: não a deixariam sair, e, se deixassem, o campo estaria
encharcado, o idillio perderia muito do seu encanto, não poderiam
sentar-se os dois debaixo das velhas arvores ouvindo cantar os passaros
a sua canção de estio.
Mas, ó felicidade! tão certo é que a fortuna protege os audazes: o dia
amanhecera esplendido, o sol brilhava no céu como um rubi, e o calor do
estio começava a cair como o halito ardente de uma forja.
Primeiro dia de liberdade no amor! tu és tão saboroso como a guloseima
que o collegial devora em segredo na sombra de um corredor ou n'um
recanto da cêrca. Tu és o fructo prohibido em que podemos finalmente
saciar a nossa voracidade de Tantalos famintos.
A carruagem chegára a horas, a familia, já disposta de ante-mão, não
oppuzera obstaculos. Fanny descera unicamente acompanhada de uma antiga
criada, que fôra sua ama de leite, e quando entrou na carruagem nem
sequer fez reparo n'esse pequenino _groom_ de cabello louro, faces
rosadas, que com os olhos postos no chão, n'uma attitude reverente
e humilde, se não era hypocrita, lhe abrira a portinhola do trem.
Fôra elle, o pequenino _groom_ louro e rosado, que lhe acommodára a orla
do vestido dentro do _coupé_ e que, fechando-o cuidadosamente, esperára,
sempre de olhos postos no chão, ouvir a ordem da partida.
O coração de Fanny batia como o de um canario agarrado na mão de uma
creança. Ella não via, não ouvia, disse ao _groom_, sem fazer reparo
n'elle, uma palavra. O _groom_ saltou para a almofada com a ligeireza
que só as azas podem dar, e a carruagem partiu n'um trote largo,
rasgado, batido.
As arvores da estrada principiavam correndo aos lados do trem, fazendo
os seus cumprimentos n'uma alacridade funambulesca. As arvores pareciam
alegres, trocistas, ironicas, como se estivessem de posse d'aquelle doce
segredo. Fanny, vendo-as passar rapidamente, cuidava ouvir-lhes dizer:
--Mil felicidades, excellencia...
E córava de pejo, engolfada em maviosos pensamentos, sem haver trocado
com a sua velha ama uma unica palavra sequer.
Os passaros cantavam n'uma estridula folia matutina, e toda essa onda de
alegria musical parecia inundar o coração feliz de Fanny, enchendo-o de
canticos festivos, que resoavam como n'um ecco interior.
Ao cabo de hora e meia de caminho a carruagem parára, não á porta da
quinta onde a amiga de Fanny agonisava, como ella por disfarce dissera
ao _groom_ ao sair de casa, mas á porta de um velho castello
desmantelado, a que se seguia um parque extenso, coberto de grandes
arvores sombrias, onde os passaros cantavam em liberdade a sua canção de
estio.
Era o logar da entrevista.
E Fanny, vendo parar ahi a carruagem, e apear-se o _groom_, sempre com a
ligeireza de um genio alado, rosado e louro, com os olhos postos no
chão, teve uma vaga suspeita de que esse _groom_, que ella só agora
vira, fosse um confidente encarregado expressamente por Edmundo de
desempenhar tão alta missão de confiança.
E, emquanto ella descera, o _groom_, n'uma attitude sempre reverente e
humilde, com a mão na portinhola do trem, ajudara-lhe a desprender do
estribo a orla do vestido branco e fresco, ligeiramente mosqueado de
pequeninas flores de myosote, azues e microscopicas.
Uma deliciosa serenidade alegre alastrava-se por todo o parque n'uma
solidão encantadora. Dir-se-ia que o fim do mundo era ali e que, dados
mais alguns passos, por detraz das ultimas arvores do parque, deveria o
ceu pousar na terra.
Edmundo lá estava no seu posto, fazendo sentinella á sua propria
felicidade e, quando Fanny chegou, a arvore que o abrigava como que
distendeu os seus longos braços verdes para envolver tambem na
mesma sombra o corpo de Fanny.
A velha criada afastou-se, moendo o tempo na contemplação das flores
campestres e da larga cóma das arvores, ora dobrando-se, ora olhando
para cima, e de vez em quando um melro velhaco--era decerto um
melro--zombava da ignara situação moral d'aquella mulher
desfeiteando-lhe o asseio do seu antigo chapeu de palha de Italia.
Uma ironia de melro!
Á sombra da grande arvore, que tinham escolhido, Fanny e Edmundo,
enleiados pela cintura, bebiam a pequenos goles de liberdade a sua
primeira taça de amor e, quando erguiam a taça aos labios, estalava-lhes
na bocca um beijo demorado.
As horas passaram rapidamente, a velha criada já não tinha mais hervas
que reconhecer, mais arvores que observar, e os proprios melros estavam
aborrecidos de troçal-a.
Era preciso partir, o sol declinava, a tarde fugia. Mais um gole colhido
nos labios, mais um beijo que se arrastava n'uma extensa melodia amorosa.
Finalmente, Fanny pôz o pé no estribo da carruagem e o _groom_, rosado e
louro, com um olhar altivo, triumphante, abriu-lhe, de cabeça erguida, a
portinhola do _coupé_ e, quando a fechou, antes de subir para a
almofada, pousou o dedo pollegar da mão direita sobre a ponta do nariz e
espalmou a mão no ar, agitando os dedos.
Era o Amor, disfarçado em _groom_, que celebrava a sua victoria como um
gaiato de collegio.
--_C'est gentil!_ exclamou o Leotte.
--Bravo! mavioso Gonçallinho! conclamaram sete vozes.
E o Vasconcellos, logo reposto nas suas funcções austeras de dirigente,
advertiu a assembléa de que onze horas e cinco minutos eram tempo muito
conveniente para que em Cintra cada um pensasse em dormir.
--Onde estará o _groom_ da tua ballada, ó Gonçallinho? perguntou o Leotte.
--Nos intermundios de Epicuro... respondeu o Athayde.
--Em cascos de rolhas... commentou o Vasconcellos.
--É que eu queria, concluiu o Leotte, que elle viesse accender-me a
lamparina do quarto.
E, rindo, cada um de nós foi para a cama--ás onze e dez, noite velha no
paraiso de Cintra, a 20 de maio.
V
No dia seguinte, quando saímos do _hotel_ depois de almoço, era quasi
uma hora da tarde.
Convencemo-nos mais uma vez de que não ha nada tão bom para gastar o
tempo... como não ter nada que fazer.
Fomos a Collares, em burro. Só o Leotte pediu licença para ficar.
Concedida;--sob condição de que daria conta ás côrtes do uso que fizesse
d'esta auctorisação legal.
--O Leotte traz grande empresa entre mãos.
--Empresa de cozinha, que póde esturrar-se facilmente.
--Saberemos depois... dizia o Vasconcellos, fustigando as orelhas do
burro rebeldemente ronceiro.
A varzea de Collares estava realmente encantadora n'aquelle dia. Pairava
no ar uma serenidade saturada de bucolismo e de limpidez
campestre, capaz de inspirar idillios á alma de um agiota. As arvores
floridas perfumavam o ambiente. As aguas do rio das Maçãs dormiam como a
superficie de um espelho. Passaros cantavam entre o arvoredo, mas não
eram certamente rouxinoes, o que desesperou o Gonçallinho Jervis.
Fomos seguindo para o mar, na direcção do Cabo da Roca. Muitos rapazitos
de Collares acompanhavam-nos, correndo, pulando adeante de nós. Iam na
esperança de que quizessemos vel-os descer pela Pedra de Alvidrar, como
aconteceu. A mim horrorisou-me vel-os deslisar ao longo d'esse rochedo
empinado, que mergulha no mar; a cada momento me parecia que os pés ou
as mãos lhes faltariam, e que, n'um abrir e fechar d'olhos, elles
desappareceriam entre a espuma das ondas, que ali se despedaçam com
estrondo.
Tambem fomos vêr o Fojo, esse grande funil de rocha bruta, que communica
com o mar, cujo estampido sinistro exerce em nós uma estranha influencia
de repulsão.
Foi bello todo esse passeio através de uma região encantadora, onde
ninguem nos incommodava n'aquella occasião, e onde insensivelmente tudo
haviamos esquecido de quanto nos pudesse n'este mundo dar cuidado ou
desgosto.
--O tolo do Leotte perdeu isto!
--O que térá elle feito?!
Soubemol-o depois, quando recolhemos ao Victor, noite fechada.
--Foi um achado! exclamou elle, mal que nos viu.
--Então?
--Isso é para depois. Durante o jantar, nem palavra, por causa dos
criados, ouviram?
--Está dito.
Quando, findo o jantar, viemos para o salão do Victor, soubemos que o
nosso amigo Leotte tinha descoberto no _hotel_ uma criada originalissima.
--Uma fidalga extraviada do grande mundo! disse-nos elle.
--Como assim?!
--Chama se Maria de Alarcão, está aparentada com muitas familias nobres
do paiz, e viu-se reduzida, pela pobreza que herdou de seu pae, um tal
D. Alvaro, a ser criada de todas as suas primas e primos, que venham
hospedar-se no Victor.
--Mas quem é então esse D. Alvaro?
--Morreu. Perguntei-lhe se sabia os nomes dos avós, e ella respondeu-me
que os seus avós tinham sido _gentis guerreiros_.
--E ella respeita as cinzas de seus avós?
--Ella estava-me contando a sua triste historia, quando outra criada a
veiu chamar, gritando: ó Rosa! ó Rosa!
--Então é Maria, e chama-se Rosa?
--Essa pergunta fiz eu a mim proprio. Mas ella, de relance,
percebendo a minha surprêsa, explicou que Rosa era o seu nome de guerra,
e D. Maria de Alarcão o seu nome de familia.
--Eis o que tu apuraste em todo o dia!
--E já não foi pouco. Talvez que vocês tenham achado muitas criadas
cujos avós fossem _gentis guerreiros_!...
--Para isto, exclamou o Vasconcellos, deixou este tolo de ir passear a
Collares!
--Estou vendo, disse eu, que a tua Rosa é tanto Alarcão como era
principe aquelle heroe, da historia que sabe o Athayde, que appareceu
nas Caldas de Vizella.
--É verdade! quero ouvir a historia do Athayde, observou imperativamente
o Vasconcellos. Meus senhores, está aberto o _Decameron_.
O Athayde fez-se algum tanto rogado, mas contou:
--Era um domingo calmoso de agosto. Todos os hospedes do _Hotel do
Padre_, nas Caldas de Vizella, estavam sentados á sombra do parque do
_hotel_, conversando, lendo, jogando, _flirtando_. Nenhum d'elles ousára
ir á estação esperar o comboio. Os passarinhos, se não pudessem
encontrar um doce refugio nas arvores marginaes do rio Vizella, cairiam
do ceu assados e depennados. Com uma soalheira d'aquellas, não havia
nada que apetecesse tanto como o descanso e a sombra.
De repente ouviu-se o silvo da locomotiva.--Lá chegou o
comboio!--Pois deixal-o chegar!--Quem vier, cá virá ter. Vinte minutos
depois, paravam á porta do _hotel_ duas _americanas_, poeirentas e
escanceladas. E um sujeito de fato de flanella branca, chapeu branco,
acompanhado por uma senhora da sua idade--vinte e quatro a vinte e cinco
annos--, atravessou olympicamente o parque do _hotel_ sem cumprimentar
ninguem. Da segunda carruagem apearam-se duas criadas e dois criados,
com pequenas malas na mão.
Este acontecimento causou certa sensação entre os hospedes do _Hotel do
Padre_, visto não haver acontecimentos de maior polpa.
--Quem será isto? perguntava-se.
--É um principe! dizia ironicamente um janota de Guimarães.
--Um principe e uma princeza, acrescentava do lado um banqueiro portuense.
--Com os respectivos veadores e damas, observou bonacheironamente o
padre José Maria, que possuia uma graça simples, quasi patriarchal, e
que era um dos hospedes mais estimados no _hotel_.
Depois, emquanto a sombra caía das arvores, todos continuaram
conversando, lendo, jogando, _flirtando_.
Á hora do jantar, a princeza e o principe foram vistos já sentados á
cabeceira da mesa, silenciosos e graves. Os seus dois criados, de
casaca, postados por detrás da cadeira do _principe_ e da
_princeza_, conservavam-se immoveis como estatuas.
Todos os outros hospedes, que iam chegando, trocavam entre si sorrisos,
olhares de intelligencia. Padre José Maria arregalou os olhos, franziu o
beiço, sentou-se. As senhoras diziam segredos umas ás outras. Os homens,
de vez em quando, arriscavam em voz alta uma allusão disfarçada.
Findo o jantar, o _principe_ e a _princeza_ levantaram-se; os seus dois
criados, muito direitos, arrastaram-lhes as cadeiras. Não cumprimentaram
ninguem.
Então a galhofa expludiu, os epigrammas estalaram. Padre José Maria teve
pilhas de graça. Um hospede aventou a idéa de que se pedisse o registo
do _hotel_ para saber-se o nome do recem-chegado. Veio o registo. Dizia
simplesmente isto: _Commendador Piratinino e sua esposa._
--Pois, srs., observou padre José Maria, é mais a salsa que o peixe!
Riram todos, e novos epigrammas rebentaram n'uma grande hilaridade
desenfadada.
Mas o janota de Guimarães teve uma lembrança feliz: que em tom de
confidencia se dissesse aos criados do hotel que o commendador
Piratinino era nada mais e nada menos que um principe disfarçado.
--E Piratinino é um bello nome para principe! observou uma senhora.
--Principe... de magica, pelo menos, acrescentou alguem.
--Mas se nos perguntarem d'onde o homem é principe, que responderemos?
--Que é principe da Ribária.
--E onde ficará geographicamente a Ribária?
--Sim... isso...
--A Ribária ficará na peninsula dos Balkans, entre a Rumélia e a
Bulgária, se quizerem. Nas Caldas de Vizella pode haver tudo, menos um
mappa da Europa. Ninguem irá verificar; soceguem.
--Magnifico!
--Maravilhoso!
Ficou tratado que Piratinino era o principe da Ribária, e que a Ribária
ficava nos Balkans. Dois minutos depois, fazia-se a revelação aos
criados, pedindo-lhes a maxima reserva, para não comprometter o
_incognito_ do principe. Quatro minutos depois os criados tinham
revelado o segredo ás criadas do _hotel_ e, passada uma hora, constava
em toda Vizella que no _Hotel do Padre_ estava hospedado um principe
estrangeiro muito rico. Á noite, em todos os circulos de conversação,
acrescentava-se: Fabulosamente rico. E sabia-se já em toda a villa que,
depois do principe, havia chegado uma carroça com bagagens,
suspeitando-se que a maior parte das malas traziam joias da princeza,
porque um terceiro criado as vinha guardando como o dragão de cem
cabeças guardava os pomos de ouro do jardim das Hespérides. Diziam
alguns, com uma certeza convicta, que na Ribária havia minas de metaes
preciosos, e outros, por inculcarem sciencia ou por espirito de
hyperbole, acrescentavam que no principado da Ribária jámais houvera
_deficit_.
Corria tudo ás mil maravilhas.
N'essa tarde, os principes não saíram a passeio, e d'este modo lográram
inconscientemente a justa curiosidade do povo de Vizella, que se tinha
agglomerado nas vizinhanças do _hotel_. Mas no dia seguinte pela manhã
suas altezas foram tomar o seu banho á Lameira, o povo pôde vêl-os,
contemplal-os, os pobres filaram-n'os, os curiosos seguiram-n'os, e o
principe, voltando-se para trás, disse a um dos criados que désse
esmolas aos pobres e ás creanças. O criado distribuiu para cima de
dezoito vintens em cobre. Por um tris que o principe e o criado não
apanharam _vivas_. Mas desde aquella hora, toda a gente, incluindo os
hospedes que tinham inventado a _blague_, ficou capacitada de que
Piratinino era realmente um principe.
Suas altezas saíram de tarde a passeio. Os hospedes do _Hotel do Padre_
esforçavam-se a explicar que na Ribária a etiqueta era muito rigorosa, e
que o principe não podia saudar senão os fidalgos do seu paiz. Foi
preciso inventar isto, porque o povo de Vizella, que tinha visto uma vez
em Guimarães el-rei D. Luiz cumprimentar toda a gente, estranhava
o facto. Em compensação, todos os populares cumprimentavam suas altezas,
e eu pendo a acreditar que o proprio Piratinino se ia sentindo
principe... cada vez mais.
A coisa constou. Vieram pobres de Guimarães, de Negrellos, de Santo
Thyrso, de modo que foi preciso, no _hotel_, prohibir-lhes a entrada no
parque. Mas elles, illudindo a ordem, penduravam-se das arvores, para
serem os primeiros a lobrigar e a assaltar sua alteza o principe da
Ribária. De cada vez que saía, o excelso principe tinha uma despêsa
obrigada, de dezoito vintens pelo menos. E os hospedes do _hotel_
saboreavam em segredo, n'uma risota permanente, o bom exito da sua
invenção.
Um dia o criado do principe pediu informações aos criados do _hotel_
sobre a navegabilidade do rio Vizella. Aquelle a quem a pergunta fôra
feita veio, com a melhor boa fé d'este mundo, dizer aos hospedes que sua
alteza ia n'aquella tarde para o rio.
--Para o rio! exclamaram os hospedes. E padre José Maria observou do lado:
--Para o Rio... de Janeiro, talvez. O principe sente-se arruinado pela
mendicidade das Caldas de Vizella e seus arredores. Vai talvez restaurar
a fortuna.
Mas o criado explicou: Que não. Que o principe tinha dinheiro como
milho. Que ia mas era para o meio do Vizella divertir-se com um
barco que trouxera.
--Onde está o barco? perguntaram.
--Está dentro de uma grande mala, que veio na carroça.
Com effeito, um dos criados do principe chamou um homem, que foi ao
hotel buscar a mala grande, e dirigiu-se com elle para a beira do
Vizella. Pouco depois saiu o principe, todo vestido de branco, sua
_toilette_ favorita, pelo que já algumas pessoas lhe chamavam--_o
principe branco_.
Deu-se rebate no _hotel_, e todos os hospedes, repartidos em diversos
grupos, se encaminharam para as margens do Vizella, seguindo uns pela
Lameira, outros pelo Mourisco.
O boato saíra verdadeiro. O principe estava effectivamente no meio do
Vizella, pescando á linha dentro de um barco de lona, um pouco
similhante áquelle, se bem que mais pequeno, em que o general Caula
atravessou o Tejo n'uma experiencia feita em agosto de 1874. Na margem
ficára o criado, e a mala cuja tampa estava levantada, aberta.
Comprehende-se que um principe não permittisse ao criado a honra de
tomar assento a seu lado dentro do mesmo barco. Já sabemos que na
Ribária a etiqueta é muito rigorosa.
Toda a população de Vizella, a fluctuante e a permanente, pôde saciar
seus olhos curiosos na contemplação d'esse quadro inteiramente novo ali:
um principe estrangeiro pescando á linha dentro de um barco de
lona. Só os hospedes do _Hotel do Padre_ se riam, porque os do Cruzeiro
do Sul, que não estavam na confidencia, e os bons populares ingenuos
tomavam o caso muito a serio, e contemplavam encantados o _principe
branco_ pescando.
Escusado será dizer que sua alteza não pescou coisa nenhuma. Quem pesca
são os pescadores, porque teem obrigação d'isso. Os principes
divertem-se, e enfadam-se.
Foi o que aconteceu a sua alteza, porque, naturalmente enfastiado, quiz
abicar a terra. Mas o barco começou a rodopiar, a oscillar, e o
principe, já um pouco impaciente, redobrava de esforços, de pressão.
Toda a gente sabe com que facilidade, n'estas condições, se volta um
barco. Foi o que aconteceu ao do principe. Sua alteza fizera um
movimento menos cauteloso, e o barco tombou. Era um vez um principe n'um
charco.
Grande grita se levantou de entre os populares. Os hospedes do _Hotel do
Padre_ riam a bandeiras despregadas. Um rapazito atirou-se ao rio, para
ir salvar sua alteza, que barafustava na agua. Cheirava-lhe a grande
gorgeta, ao rapazito; nadava como um desesperado.
Foi-lhe facil trazer para terra o principe, e o barco. Mas o principe,
que estava de fato branco, precisava mudar de _toilette_. A decencia
reclamava-o. E emquanto o criado corria ao _hotel_, a pedir outro
fato para sua alteza, o desgraçado principe da Ribária, mettido dentro
da mala, só com a cabeça de fóra, evitando olhar para qualquer parte,
esperava humilhado...