VII

Depois de um terceiro dia passado no mais delicioso pantheismo vadio de

que ha memoria, e em que o Leotte, sempre intrigado com a historia da

criada, houve por bem, _malgrê lui_, acompanhar-nos, reunimo-nos, depois

de jantar, no salão do Victor para continuarmos os nossos serões

litterarios, a que, seja dito de passagem, já todos mais ou menos iamos

tomando gosto.

As reluctancias que alguns, a principio, manifestavam, quando o

presidente Vasconcellos e o _sabio congresso_ os intimavam a falar, iam

desapparecendo. Com mais um mez de Cintra, saía d'ali um enxame de

oradores. Que desgraça, se tal acontecesse!

Durante o dia, mettemos á bulha o Leotte por causa do seu supposto

achado de uma fidalga na cozinha do Victor. Elle estava um pouco

azoinado com a nossa troça. E, por orgulho ou convicção,

promettia, protestava tirar o caso a limpo.

Já n'aquelle mesmo dia, pela manhã, apesar de se ter deitado tarde como

eu, havia trocado com a rapariga algumas palavras, poucas: e ella

asseverara-lhe, dizia elle, que havia falado verdade na vespera.

--A rapariga tem um certo ar de ingenuidade, que me convence!

insistia elle.

--Contou-te o seu romance, como todas, exclamou o Vasconcellos. Parece

que não conheces o genero! Muito tolo és!

--Conheço o genero, conheço, mas, por isso mesmo, acho que ella fala

mais verdade do que todas as outras que costumam impingir-nos o _seu_

romance. Emfim, veremos. Deixem-me vocês em paz.

Á noite, no Victor, não houve duvidas sobre quem primeiro falaria. Pois

que o Gonçallinho Jervis havia escripto já o seu segundo conto, como de

manhã confessára, foi-lhe concedida a palavra, e, em verdade, outra

coisa não desejava elle.

Ouvimos pois, no meio do silencio regulamentar, que o Vasconcellos não

deixava interromper, a narrativa que o nosso bom Gonçallinho planeara na

almofada do _char-á-bancs_ ao lado do cocheiro. O que é o poder da

imaginação juvenil! Foi ao lado de um cocheiro de praça, que

naturalmente cheirava a aguardente e suor, que elle phantasiou

essa em verdade joiasinha litteraria, por elle proprio denominada _A

morte do bibliophilo_.

--O bibliophilo Joseph, contou, era uma alma antiga, um espirito

classico, que vivia no pó dos livros e no pó das ruinas.

Todo o mundo da sua actividade intellectual, concentrada e profunda,

havia passado já, mas elle resuscitava-o, nas suas cogitações luminosas,

tão vivo e tão perfeito, como se a idade-média, que de preferencia

amava, fosse um ramo de flôres, de que pudesse sentir ainda o perfume

longinquo.

Barbaros que invadiam a Europa, cavalleiros e trovadores, castellãs e

pagens, guelfos e gibelinos, cruzados que partiam para a Terra Santa,

burguezes que levantavam o grito da insurreição communal contra os

senhores feudaes, exercitos que se despedaçavam n'uma guerra de cem

annos ergendo os pendões da França e da Inglaterra, o imperio

succumbindo perante o papado no parque do castello de Canossa, para

resurgir depois triumphante na batalha de Volksheim; Roma desabando na

sua grandeza moribunda, ao passo que as monarchias modernas palpitavam

na primeira vibração da sua vitalidade autónoma, mares tenebrosos que se

estavam offerecendo á quilha das primeiras naus descobridoras, como um

terreno inculto ao dente fecundador da charrua, vagas revoltas de uma

grande epopêa maritima, que espumavam anciosas da apparição de um

Gama dominador, tudo isso rolava no seu espirito, como no sonho de uma

febre permanente, passando, agitando-se, baralhando-se tumultuariamente

sobre a tela historica de dez seculos de civilisação medieval.

Em torno da sua alta cadeira de braços, a que estava sempre preso como

Prometheu ao rochedo, longas filas silenciosas de canções de gesta e de

novellas de cavallaria, in-folios de capas de pergaminho levemente

rugoso, grossos volumes de encadernação tão dura como um arnez, formavam

disciplinarmente, á espera que elle, com um simples volver de olhos, os

chamasse á refrega de todos os dias, lhes désse a voz de commando, o

grito de alarma.

Sorriam-lhe do alto da estante, como que constituindo a ala dos

namorados n'aquelle exercito de livros, os poemas carlovingeos, cheios

da poesia dos combates, como na _Canção de Rolando_, cheios de

ingenuidade heroica, como na _Canção do Figueiral_; os poemas da

_Tavola-redonda_ em que o espirito cavalheiresco pairava, como a

borboleta na indecisão de dois nectarios, entre a lenda do rei Arthur e

a tradição do Santo Graal.

Depois galopavam para elle, mal que os chamasse com os olhos, os

esquadrões interminaveis dos cavalleiros andantes, fazendo flammejar no

ar a espada nua, desembainhada em honra de uma dama, que á noite,

nas côrtes de amor, emquanto dois trovadores se digladiassem

improvisando _tensões_, lhes havia de dar n'um sorriso, feito de rosas e

perolas, o premio da victoria.

Ah! como o bibliophilo Joseph amava tão de dentro, tanto do imo peito,

esse galante mundo aventuroso que divinisava a mulher a ponto de que,

derrubado o altar por Cervantes, toda a realidade da belleza parecia tão

pallida como o reflexo do sol agonisante resvalando nas vidraças

coloridas d'uma janella gothica.

Foi por isso que bibliophilo Joseph passára toda a sua vida sendo um

celibatario sem familia, longe do calor absorvente das fundas affeições

domesticas, na solidão sepulcral que só os livros povoavam.

Herdára de um velho tio todas as preciosidades bibliographicas que

completavam o thesouro da sua bibiotheca. Abrira, por desfastio, o

primeiro livro, como um operario insciente que experimenta a medo a

engrenagem de uma machina. Impellido por uma especie de dever sagrado,

que lhe era imposto pela posse de um legado querido e precioso, foi

voltando pagina sobre pagina, mas, a meio da leitura, como o viajante

que fica encantado de encontrar um bello paiz desconhecido, sentiu-se

preso pelo interesse e pela curiosidade e, chegando á ultima pagina,

reconheceu que, tendo penetrado n'um palacio maravilhoso, o seu espirito

exigia d'elle que não parasse no vestibulo.

Foi assim que a pouco e pouco devassou os segredos do passado fechados

n'esses cofres de pergaminho, n'esses velhos codices poeirentos, que lhe

deram a clara noção do cyclo cavalheiresco, em que a mulher, poetisada

pela imaginação, perdia toda a mundanidade vulgar, para se exalçar pelo

amor que a divinisava.

Purificados no crisol da idade-média, todos os sentimentos humanos

pareciam nobilitar-se de uma peregrina fidalguia, de uma lealdade

heroica, de uma abnegação sobrenatural, que nenhuma outra civilisação

pudera reproduzir nem copiar integralmente.

Amadiz era para elle um symbolo epico da alma antiga.

Ferido em combate, mas fortalecido pelo seguro amor que Oriana lhe

inspirara, elle havia recusado a mão de Briolanja porque, n'aquelles

tempos de fé imperturbavel, o coração era feito de diamante para

resistir aos golpes da tentação e para no seu proprio brilho conservar

inalteravelmente lucida a imagem uma vez gravada.

Bibliophilo Joseph vivia absorvido como um rei excentrico na sua vasta

côrte de livros, rodeado apenas de Amadizes e Palmeirins imaginarios,

com os quaes praticava longas horas, ouvindo-os e respondendo-lhes,

inquirindo do passado com uma devoção fanatica.

Um criado que o servia, o velho Leão, era a unica pessoa que podia

entrar no recinto sagrado da bibiotheca, mas tendo comprehendido

intuitivamente a paixão dominante do amo, impuzera-se o dever de não a

perturbar jámais.

Leão, de origem castelhana, havia passado na mocidade pela casa dos

Medina-Sidonia, e tomára desde então um gesto de grave compostura, que

não perdera nunca.

Vestindo todos os dias a sua casaca, atando a sua gravata branca, para

servir o sabio, como o havia feito, na mocidade, para servir os

Medina-Sidonia, Leão cumpria religiosamente o seu dever de grande

escudeiro de uma côrte sem cortezãos.

Não dirigia nunca a palavra a seu amo se não para responder concisamente

ás perguntas que elle lhe fazia. Entrava na bibliotheca sempre em bicos

de pés, quando o amo lá estava, e muitas vezes, por já ter passado a

hora do jantar, pousava ao de leve sobre a vasta escrivaninha de

castanho, a que o bibliophilo se sentava, uma pequena bandeja contendo

uma ligeira refeição, que o amo tomaria se quizesse. Leão retirava-se

silenciosamente, deixando ao bibliophilo toda a plenitude do goso de

jantar no meio dos seus livros com o Bimnarder da _Menina e moça_ e com

o Danteo da _Diana_ de Montemayor.

O mais que Leão se permittia fazer, depois de ter deixado ficar a

bandeja, era espreitar pela fechadura da porta, receoso de que o amo se

houvesse esquecido de estender o braço para aproximar a refeição.

Leão tinha uma grande dedicação antiga por aquelle homem cheio de

sciencia e de virtude, que atravessava a existencia sem se contagiar das

paixões mundanas, conservando intacto um coração de ouro e um espirito

de luz.

Se via o amo ingerir á pressa a refeição, tranquillisava-se, e só

voltava tempo depois a espreitar pela fechadura da porta para o vêr dar

um pequeno passeio hygienico, enrijecendo as pernas, em roda da

bibliotheca, como se andasse passeando n'um jardim, batendo os pés

deante dos canteiros, parando a observar as etiquetas latinas das plantas.

O que bibliophilo Joseph examinava era a sua collecção preciosa de rosas

bibliographicas, de raras tulipas litterarias. Demorava-se olhando a

lombada dos quatro in-folios da _Vita Christi_; tirava da estante, para

acarinhal-a, a _Historia do mui nobre Vespasiano_; fazia uma rapida

visita ao _Pentateuco hebraico_ e ao _Almanach perpetuus_, que eram

proximos vizinhos; folheava, envolvendo-o n'um olhar em que gorgeavam

beijos paternaes, o seu querido _Boosco deleytuoso_, que lhe exhalava

nas mãos, como um lirio aberto, todo o perfume da antiguidade quinhentista.

Leão via o bibliophilo entregue a esse bom passeio hygienico, que tanto

lhe deleitava o espirito, e acabava de tranquillisar-se pela saude de

seu amo, que, muitas vezes, quando não alternava com a leitura o menor

exercicio muscular, tinha tido, ao levantar-se da cadeira, depois

de longas horas de vida sedentaria, vertigens gastricas.

Quando a noite principiava a cair, Leão entrava com o enorme candieiro

de tres bicos, cuja luz uma larga pantalha de latão afrouxava. Poisava-o

sobre a escrivaninha, com o leve ruido de uma mosca que passasse, e ia

accender, ao fundo da bibliotheca, o fogão de sala, fortemente chapeado

de ferro, para não communicar calor ás paredes.

Cá fóra, na rua, principiavam, d'ahi a pouco, a rodar as carruagens que

batiam para os theatros, para as festas frivolas da noite. Umas vezes

por outras passavam fanfarras, folias populares, que iam para os clubs

operarios improvisados ao ar livre. Outras vezes sentia-se o estrondo de

bombas de incendio, que passavam, arrastadas vertiginosamente; e os

sinos da cidade, alvoroçados, ouviam-se badalar, pedindo soccorro.

Mas nunca esse movimento exterior eccoava na habitação solitaria do

bibliophilo de modo a perturbar a paz do seu espirito. Parecia que ao

sol posto se tinha erguido a ponte levadiça de um castello, bem

defendido por um cinto negro de ameias e de fossos.

Só excepcionalmente bibliophilo Joseph fozia soar a campainha para

chamar o seu velho Leão.

Comprehende-se, pois, a angustia com que o dedicado escudeiro

ouviria uma noite dois toques de campainha consecutivos.

Correu á bibliotheca.

Bibliophilo Joseph, quando elle entrou, forcejava por levantar-se da sua

alta cadeira de braços, mas as forças traíam-n'o, as pernas

dobravam-se-lhe, e o sabio, muito pallido, encostou-se, vencido pela

doença, sobre o espaldar.

Leão acudiu-lhe carinhosamente, levantou-o nos braços tremulos, foi

depôl-o no leito, chorando.

O bibliophilo sentiu-lhe as lagrimas, colheu-lhe docemente a mão, abriu

os olhos, demorou-os fitando-o, e disse-lhe:

--Não chames ninguem, que ámanhã estarei melhor.

Toda a noite o velho Leão velou junto ao leito de seu amo, que,

levemente anciado, parecia de vez em quando, com os olhos abertos,

querer fixar o pensamento n'um ponto vago, que lhe fugia.

Ao romper da manhã, Leão, sentindo um movimento nervoso do doente,

interrogou-o.

Bibliophilo Joseph, com a face marmorisada n'uma pallidez terrena,

disse-lhe abrindo um sorriso triste:

--Queria, meu velho amigo, que me realisasses um desejo.

Leão, pendido ao leito, o peito offegante, escutava reverente.

--Que me amparasses com o teu carinho até á bibliotheca.

O velho criado levantou-o nos braços, envolto nas roupas do leito, e foi

sental-o, entre almofadas, na alta cadeira de respaldo.

Um cansaço extremo parecia aniquilar o bibliophilo, ao passo que Leão

sentia rijos os seus braços como se fôssem de ferro.

Com doloroso esforço, bibliophilo Joseph disse ao velho escudeiro,

indicando-lhe uma estante:

--Traze d'ali o _D. Quichote_ de Miguel Cervantes. Abre-o, e lê onde

entenderes melhor.

Leão correu á estante, tirou o _D. Quichote de la Mancha_, e,

aproximando-se da cadeira do amo, caiu de joelhos, com o livro aberto.

Lentamente, a voz embargada pelos soluços, começou a ler, e emquanto

elle lia, o bibliophilo, cerrados os olhos, escutava cada vez mais

anciado...

Foi assim que aquella alma cristallina, para quem a idade-média tinha

sido uma delicia, exhalou o derradeiro suspiro, emquanto o velho Leão,

sempre de joelhos, lia o _D. Quichote_ de Cervantes,--o epitaphio eterno

da idade-média.

Os applausos foram unanimes, postoque nem todos os ouvintes gostassem

sinceramente d'esta especie de contos, a que o Vasconcellos, com maior

ou menor propriedade, chamava phantasticos. Elle, por exemplo, preferia

a escola realista: estava mais no seu genio, aliás pouco propenso a

idealisações romanescas. Mas a verdade era que, afastada a questão

de assumpto, o Gonçallinho Jervis lográra dar á sua narrativa uma forma

litteraria, que revelava um escriptor.

Do Leotte sabia o Vasconcellos que não viriam phantasias, fabulações

romanticas; que, pelo contrario, quando o Leotte falasse, seriam

assumpto obrigado as mulheres. Ora no conto do Gonçallinho, segundo a

expressão do Vasconcellos, nem meia mulher apparecia.

Noites de Cintra · 第 13 / 24 题