Depois de um terceiro dia passado no mais delicioso pantheismo vadio de
que ha memoria, e em que o Leotte, sempre intrigado com a historia da
criada, houve por bem, _malgrê lui_, acompanhar-nos, reunimo-nos, depois
de jantar, no salão do Victor para continuarmos os nossos serões
litterarios, a que, seja dito de passagem, já todos mais ou menos iamos
tomando gosto.
As reluctancias que alguns, a principio, manifestavam, quando o
presidente Vasconcellos e o _sabio congresso_ os intimavam a falar, iam
desapparecendo. Com mais um mez de Cintra, saía d'ali um enxame de
oradores. Que desgraça, se tal acontecesse!
Durante o dia, mettemos á bulha o Leotte por causa do seu supposto
achado de uma fidalga na cozinha do Victor. Elle estava um pouco
azoinado com a nossa troça. E, por orgulho ou convicção,
promettia, protestava tirar o caso a limpo.
Já n'aquelle mesmo dia, pela manhã, apesar de se ter deitado tarde como
eu, havia trocado com a rapariga algumas palavras, poucas: e ella
asseverara-lhe, dizia elle, que havia falado verdade na vespera.
--A rapariga tem um certo ar de ingenuidade, que me convence!
insistia elle.
--Contou-te o seu romance, como todas, exclamou o Vasconcellos. Parece
que não conheces o genero! Muito tolo és!
--Conheço o genero, conheço, mas, por isso mesmo, acho que ella fala
mais verdade do que todas as outras que costumam impingir-nos o _seu_
romance. Emfim, veremos. Deixem-me vocês em paz.
Á noite, no Victor, não houve duvidas sobre quem primeiro falaria. Pois
que o Gonçallinho Jervis havia escripto já o seu segundo conto, como de
manhã confessára, foi-lhe concedida a palavra, e, em verdade, outra
coisa não desejava elle.
Ouvimos pois, no meio do silencio regulamentar, que o Vasconcellos não
deixava interromper, a narrativa que o nosso bom Gonçallinho planeara na
almofada do _char-á-bancs_ ao lado do cocheiro. O que é o poder da
imaginação juvenil! Foi ao lado de um cocheiro de praça, que
naturalmente cheirava a aguardente e suor, que elle phantasiou
essa em verdade joiasinha litteraria, por elle proprio denominada _A
morte do bibliophilo_.
--O bibliophilo Joseph, contou, era uma alma antiga, um espirito
classico, que vivia no pó dos livros e no pó das ruinas.
Todo o mundo da sua actividade intellectual, concentrada e profunda,
havia passado já, mas elle resuscitava-o, nas suas cogitações luminosas,
tão vivo e tão perfeito, como se a idade-média, que de preferencia
amava, fosse um ramo de flôres, de que pudesse sentir ainda o perfume
longinquo.
Barbaros que invadiam a Europa, cavalleiros e trovadores, castellãs e
pagens, guelfos e gibelinos, cruzados que partiam para a Terra Santa,
burguezes que levantavam o grito da insurreição communal contra os
senhores feudaes, exercitos que se despedaçavam n'uma guerra de cem
annos ergendo os pendões da França e da Inglaterra, o imperio
succumbindo perante o papado no parque do castello de Canossa, para
resurgir depois triumphante na batalha de Volksheim; Roma desabando na
sua grandeza moribunda, ao passo que as monarchias modernas palpitavam
na primeira vibração da sua vitalidade autónoma, mares tenebrosos que se
estavam offerecendo á quilha das primeiras naus descobridoras, como um
terreno inculto ao dente fecundador da charrua, vagas revoltas de uma
grande epopêa maritima, que espumavam anciosas da apparição de um
Gama dominador, tudo isso rolava no seu espirito, como no sonho de uma
febre permanente, passando, agitando-se, baralhando-se tumultuariamente
sobre a tela historica de dez seculos de civilisação medieval.
Em torno da sua alta cadeira de braços, a que estava sempre preso como
Prometheu ao rochedo, longas filas silenciosas de canções de gesta e de
novellas de cavallaria, in-folios de capas de pergaminho levemente
rugoso, grossos volumes de encadernação tão dura como um arnez, formavam
disciplinarmente, á espera que elle, com um simples volver de olhos, os
chamasse á refrega de todos os dias, lhes désse a voz de commando, o
grito de alarma.
Sorriam-lhe do alto da estante, como que constituindo a ala dos
namorados n'aquelle exercito de livros, os poemas carlovingeos, cheios
da poesia dos combates, como na _Canção de Rolando_, cheios de
ingenuidade heroica, como na _Canção do Figueiral_; os poemas da
_Tavola-redonda_ em que o espirito cavalheiresco pairava, como a
borboleta na indecisão de dois nectarios, entre a lenda do rei Arthur e
a tradição do Santo Graal.
Depois galopavam para elle, mal que os chamasse com os olhos, os
esquadrões interminaveis dos cavalleiros andantes, fazendo flammejar no
ar a espada nua, desembainhada em honra de uma dama, que á noite,
nas côrtes de amor, emquanto dois trovadores se digladiassem
improvisando _tensões_, lhes havia de dar n'um sorriso, feito de rosas e
perolas, o premio da victoria.
Ah! como o bibliophilo Joseph amava tão de dentro, tanto do imo peito,
esse galante mundo aventuroso que divinisava a mulher a ponto de que,
derrubado o altar por Cervantes, toda a realidade da belleza parecia tão
pallida como o reflexo do sol agonisante resvalando nas vidraças
coloridas d'uma janella gothica.
Foi por isso que bibliophilo Joseph passára toda a sua vida sendo um
celibatario sem familia, longe do calor absorvente das fundas affeições
domesticas, na solidão sepulcral que só os livros povoavam.
Herdára de um velho tio todas as preciosidades bibliographicas que
completavam o thesouro da sua bibiotheca. Abrira, por desfastio, o
primeiro livro, como um operario insciente que experimenta a medo a
engrenagem de uma machina. Impellido por uma especie de dever sagrado,
que lhe era imposto pela posse de um legado querido e precioso, foi
voltando pagina sobre pagina, mas, a meio da leitura, como o viajante
que fica encantado de encontrar um bello paiz desconhecido, sentiu-se
preso pelo interesse e pela curiosidade e, chegando á ultima pagina,
reconheceu que, tendo penetrado n'um palacio maravilhoso, o seu espirito
exigia d'elle que não parasse no vestibulo.
Foi assim que a pouco e pouco devassou os segredos do passado fechados
n'esses cofres de pergaminho, n'esses velhos codices poeirentos, que lhe
deram a clara noção do cyclo cavalheiresco, em que a mulher, poetisada
pela imaginação, perdia toda a mundanidade vulgar, para se exalçar pelo
amor que a divinisava.
Purificados no crisol da idade-média, todos os sentimentos humanos
pareciam nobilitar-se de uma peregrina fidalguia, de uma lealdade
heroica, de uma abnegação sobrenatural, que nenhuma outra civilisação
pudera reproduzir nem copiar integralmente.
Amadiz era para elle um symbolo epico da alma antiga.
Ferido em combate, mas fortalecido pelo seguro amor que Oriana lhe
inspirara, elle havia recusado a mão de Briolanja porque, n'aquelles
tempos de fé imperturbavel, o coração era feito de diamante para
resistir aos golpes da tentação e para no seu proprio brilho conservar
inalteravelmente lucida a imagem uma vez gravada.
Bibliophilo Joseph vivia absorvido como um rei excentrico na sua vasta
côrte de livros, rodeado apenas de Amadizes e Palmeirins imaginarios,
com os quaes praticava longas horas, ouvindo-os e respondendo-lhes,
inquirindo do passado com uma devoção fanatica.
Um criado que o servia, o velho Leão, era a unica pessoa que podia
entrar no recinto sagrado da bibiotheca, mas tendo comprehendido
intuitivamente a paixão dominante do amo, impuzera-se o dever de não a
perturbar jámais.
Leão, de origem castelhana, havia passado na mocidade pela casa dos
Medina-Sidonia, e tomára desde então um gesto de grave compostura, que
não perdera nunca.
Vestindo todos os dias a sua casaca, atando a sua gravata branca, para
servir o sabio, como o havia feito, na mocidade, para servir os
Medina-Sidonia, Leão cumpria religiosamente o seu dever de grande
escudeiro de uma côrte sem cortezãos.
Não dirigia nunca a palavra a seu amo se não para responder concisamente
ás perguntas que elle lhe fazia. Entrava na bibliotheca sempre em bicos
de pés, quando o amo lá estava, e muitas vezes, por já ter passado a
hora do jantar, pousava ao de leve sobre a vasta escrivaninha de
castanho, a que o bibliophilo se sentava, uma pequena bandeja contendo
uma ligeira refeição, que o amo tomaria se quizesse. Leão retirava-se
silenciosamente, deixando ao bibliophilo toda a plenitude do goso de
jantar no meio dos seus livros com o Bimnarder da _Menina e moça_ e com
o Danteo da _Diana_ de Montemayor.
O mais que Leão se permittia fazer, depois de ter deixado ficar a
bandeja, era espreitar pela fechadura da porta, receoso de que o amo se
houvesse esquecido de estender o braço para aproximar a refeição.
Leão tinha uma grande dedicação antiga por aquelle homem cheio de
sciencia e de virtude, que atravessava a existencia sem se contagiar das
paixões mundanas, conservando intacto um coração de ouro e um espirito
de luz.
Se via o amo ingerir á pressa a refeição, tranquillisava-se, e só
voltava tempo depois a espreitar pela fechadura da porta para o vêr dar
um pequeno passeio hygienico, enrijecendo as pernas, em roda da
bibliotheca, como se andasse passeando n'um jardim, batendo os pés
deante dos canteiros, parando a observar as etiquetas latinas das plantas.
O que bibliophilo Joseph examinava era a sua collecção preciosa de rosas
bibliographicas, de raras tulipas litterarias. Demorava-se olhando a
lombada dos quatro in-folios da _Vita Christi_; tirava da estante, para
acarinhal-a, a _Historia do mui nobre Vespasiano_; fazia uma rapida
visita ao _Pentateuco hebraico_ e ao _Almanach perpetuus_, que eram
proximos vizinhos; folheava, envolvendo-o n'um olhar em que gorgeavam
beijos paternaes, o seu querido _Boosco deleytuoso_, que lhe exhalava
nas mãos, como um lirio aberto, todo o perfume da antiguidade quinhentista.
Leão via o bibliophilo entregue a esse bom passeio hygienico, que tanto
lhe deleitava o espirito, e acabava de tranquillisar-se pela saude de
seu amo, que, muitas vezes, quando não alternava com a leitura o menor
exercicio muscular, tinha tido, ao levantar-se da cadeira, depois
de longas horas de vida sedentaria, vertigens gastricas.
Quando a noite principiava a cair, Leão entrava com o enorme candieiro
de tres bicos, cuja luz uma larga pantalha de latão afrouxava. Poisava-o
sobre a escrivaninha, com o leve ruido de uma mosca que passasse, e ia
accender, ao fundo da bibliotheca, o fogão de sala, fortemente chapeado
de ferro, para não communicar calor ás paredes.
Cá fóra, na rua, principiavam, d'ahi a pouco, a rodar as carruagens que
batiam para os theatros, para as festas frivolas da noite. Umas vezes
por outras passavam fanfarras, folias populares, que iam para os clubs
operarios improvisados ao ar livre. Outras vezes sentia-se o estrondo de
bombas de incendio, que passavam, arrastadas vertiginosamente; e os
sinos da cidade, alvoroçados, ouviam-se badalar, pedindo soccorro.
Mas nunca esse movimento exterior eccoava na habitação solitaria do
bibliophilo de modo a perturbar a paz do seu espirito. Parecia que ao
sol posto se tinha erguido a ponte levadiça de um castello, bem
defendido por um cinto negro de ameias e de fossos.
Só excepcionalmente bibliophilo Joseph fozia soar a campainha para
chamar o seu velho Leão.
Comprehende-se, pois, a angustia com que o dedicado escudeiro
ouviria uma noite dois toques de campainha consecutivos.
Correu á bibliotheca.
Bibliophilo Joseph, quando elle entrou, forcejava por levantar-se da sua
alta cadeira de braços, mas as forças traíam-n'o, as pernas
dobravam-se-lhe, e o sabio, muito pallido, encostou-se, vencido pela
doença, sobre o espaldar.
Leão acudiu-lhe carinhosamente, levantou-o nos braços tremulos, foi
depôl-o no leito, chorando.
O bibliophilo sentiu-lhe as lagrimas, colheu-lhe docemente a mão, abriu
os olhos, demorou-os fitando-o, e disse-lhe:
--Não chames ninguem, que ámanhã estarei melhor.
Toda a noite o velho Leão velou junto ao leito de seu amo, que,
levemente anciado, parecia de vez em quando, com os olhos abertos,
querer fixar o pensamento n'um ponto vago, que lhe fugia.
Ao romper da manhã, Leão, sentindo um movimento nervoso do doente,
interrogou-o.
Bibliophilo Joseph, com a face marmorisada n'uma pallidez terrena,
disse-lhe abrindo um sorriso triste:
--Queria, meu velho amigo, que me realisasses um desejo.
Leão, pendido ao leito, o peito offegante, escutava reverente.
--Que me amparasses com o teu carinho até á bibliotheca.
O velho criado levantou-o nos braços, envolto nas roupas do leito, e foi
sental-o, entre almofadas, na alta cadeira de respaldo.
Um cansaço extremo parecia aniquilar o bibliophilo, ao passo que Leão
sentia rijos os seus braços como se fôssem de ferro.
Com doloroso esforço, bibliophilo Joseph disse ao velho escudeiro,
indicando-lhe uma estante:
--Traze d'ali o _D. Quichote_ de Miguel Cervantes. Abre-o, e lê onde
entenderes melhor.
Leão correu á estante, tirou o _D. Quichote de la Mancha_, e,
aproximando-se da cadeira do amo, caiu de joelhos, com o livro aberto.
Lentamente, a voz embargada pelos soluços, começou a ler, e emquanto
elle lia, o bibliophilo, cerrados os olhos, escutava cada vez mais
anciado...
Foi assim que aquella alma cristallina, para quem a idade-média tinha
sido uma delicia, exhalou o derradeiro suspiro, emquanto o velho Leão,
sempre de joelhos, lia o _D. Quichote_ de Cervantes,--o epitaphio eterno
da idade-média.
Os applausos foram unanimes, postoque nem todos os ouvintes gostassem
sinceramente d'esta especie de contos, a que o Vasconcellos, com maior
ou menor propriedade, chamava phantasticos. Elle, por exemplo, preferia
a escola realista: estava mais no seu genio, aliás pouco propenso a
idealisações romanescas. Mas a verdade era que, afastada a questão
de assumpto, o Gonçallinho Jervis lográra dar á sua narrativa uma forma
litteraria, que revelava um escriptor.
Do Leotte sabia o Vasconcellos que não viriam phantasias, fabulações
romanticas; que, pelo contrario, quando o Leotte falasse, seriam
assumpto obrigado as mulheres. Ora no conto do Gonçallinho, segundo a
expressão do Vasconcellos, nem meia mulher apparecia.