«--O sr. coronel disse-me então: «Obste a que entre mais gente no

quartel e faça sahir os populares que estão dentro». Cumpri essa ordem e

depois de a cumprir voltei para junto do sr. coronel, ouvindo

distinctamente que elle dizia aos paisanos com quem falava: «Vão

descançados, que eu lá estou ás seis horas. Dou-lhes a minha palavra de

honra que não hostiliso o movimento.» Deram-se então muitos vivas ao

coronel do 18. Isto seriam quatro horas e um quarto, o maximo quatro

horas e meia. O coronel accrescentou ainda: «Preciso ordenar certas

providencias para guardar os reclusos do presidio e o cofre. Os senhores

já lá teem duas companhias e eu tenho pouca gente disponivel...»

«Eu entrei no movimento militar, continuou o capitão Leitão, por muitas

circumstancias e não foi só a ideia de ser ou não republicano que em mim

imperou; foi só pelo bem do meu paiz que trabalhei. Não sou monarchico,

mas já o fui. Comecei a carreira militar apoiando o partido regenerador

e em 1874, nas suas fileiras, procurei ser util ao meu paiz. Tambem

militei no partido progressista, no qual julguei antever uma regeneração

da minha patria. Dentro em pouco, percebi que tanto um como outro

d'esses partidos nada faziam em bem da nação. Quasi todos os annos

promettiam vida nova; mas não passavam d'isso; eram tudo apparencias

enganadoras.

«Afinal tudo isto me chegou a fazer crer e a convencer de que todos

nós--o paiz--estavamos fóra da lei e que eu, estando o paiz fóra da lei,

o estava egualmente. Eu não posso permittir nem admittir que a lei

seja por degraus. Eu julgo a lei superior a tudo e a todos e, portanto,

não admitto irresponsabilidades a ninguem. Eu, como capitão, aquelle

como coronel e este como general, todos teem deveres e obrigações e são

responsaveis pelo seu cumprimento. Ha, porém, uma unica excepção--o que

prova que a nossa lei não é egual para todos, (_exaltando-se_) não

é!--Ha um unico responsavel é o rei!

«Eu sempre tive um odio profundo ao inglez--desde que me conheço

(_exaltando-se_): os jornaes disseram que eu estava desanimado, mas não

ha tal: é mentira! Tinha um tio que se bateu contra os inglezes,

morrendo de 101 annos de edade. Como todos os velhos militares, gostava

de narrar os seus feitos ou os dos seus camaradas. Com as suas

historias, fez-me elle conceber esse odio, narrando-me algumas das

infamias e torpezas da tal raça. O que me custava mais é que, depois do

_ultimatum_, não terminassem ainda com essa alliança.

«O que eu queria e quero é um governo que traga a felicidade do paiz,

que tão humilhado está. Embora preso e vilipendiado como estou, espero

ainda a redempção. Considerar-me-hei feliz, se, com o que fiz, concorrer

de alguma forma para o bem da patria. Não receio nem temo o castigo: o

que fiz foi o principio de alguma cousa. Ficarei satisfeito, serei

feliz, se a semente, fructificar. No entretanto, nada receio, além de

que conto não cumprir a pena a que me condemnarem.»

Para se avaliar da maneira atrabiliaria como se lançou á conta de

dezenas de individuos as responsabilidades da sublevação, basta

reproduzir alguns trechos dos discursos de defeza proferidos nos

conselhos de guerra:

_Do Dr. Pires de Lima:_

«N'uma das guerras da religião foi cercada pelos catholicos uma cidade

protestante. Renderam-se os sitiados; e, conforme os usos barbaros

d'esses calamitosos tempos foram todos condemnados á morte pelos

invasores. Como na cidade tomada havia tambem muitos catholicos,

perguntaram ao legado do papa como os haviam de distinguir dos

huguenotes. «Matem-nos todos, respondeu o catholico varão; Deus lá os

separará.» O mesmo se fez agora. Fôra visto qualquer individuo

republicano na camara ou no campo da Regeneração? Prendam-n'o e

mandem-n'o para bordo. Mas elle está innocente: É o mesmo. O tribunal lá

os separará.»

_Do capitão Fernando Maia:_

«Acho extraordinario o que se fez aos soldados que ficaram no quartel

quer de guarda, quer nas casernas. Foi um desvairamento singular a

maneira como se procedeu. Que tumultuaria maneira de apreciar

criminalidades e avolumar o numero dos presos! Viu-se aqui, no tribunal,

bem clara e positivamente como tudo isso se fez. Prendeu-se a esmo.

Quantos estavam no quartel e não cahiram nas boas graças, foram presos e

de mais a mais ao engano, dizendo-se-lhes que era para averiguações,

ainda com receio de que a sua justiça valesse mais do que a disciplina!

«Onde está a nota dos que se apresentaram voluntariamente? Onde a

d'aquelles que nenhuma parte tomaram no movimento? Onde a relação das

armas limpas e intactas? Onde a d'aquelles que tinham licença para

dormir fóra? Se até appareceu aqui quem negasse a existencia d'essas

licenças, quando existem n'este tribunal os documentos officiaes que as

confirmam! Comprehende-se a irritação natural dos chefes contra os

subordinados rebeldes, mas o sentimento da justiça, e a natural

piedade para com os vencidos deviam preponderar para que se tratasse de

indagar devidamente as condições especiaes em que cada um se encontrava».

_Do mesmo official referindo-se a muitos dos acusados:_

«Reus! É quasi um sarcasmo qualifical-os assim, a todos esses que ahi

estão submissos, respeitosos e obedientes, a todos esses cujas

declarações sinceras, ingenuamente sinceras, commoveram profundamente

quantos as ouviram.

«E os sargentos? Apparece como principal figura o sargento Abilio. Todos

o ouviram aqui: todos apreciaram a franqueza, a nobreza das suas

declarações. Podia falar, podia comprometter muita gente; podia revelar

cumplicidades graves. A sua generosidade levou-o a repudiar até a defeza

primitivamente apresentada, comquanto referindo inteira verdade.

«E como é nobre o seu procedimento acerca dos soldados! «De nada sabiam,

disse elle: foram levados por mim: conheciam-me e obedeceram-me». Eis o

segredo de tudo quanto se passou. Essa influencia deviam tel-a os

officiaes; não é momento agora para apreciar as razões porque a não

tinham e tirar d'ahi as legitimas consequencias».

Os quesitos referentes aos reus e submettidos aos officiaes julgadores

foram em grande numero. Damos apenas os seguintes, relativos ás diversas

classes em que se dividiu a natureza dos crimes:

_Para os reus civis:_

«O crime da rebellião de que o reu é accusado no libello por, na

madrugada do dia 31 de janeiro do corrente anno, com outros individuos

e muitos militares dos corpos da guarnição da cidade do Porto e

outros militares, haver tentado destruir a fórma de governo

monarchico-representativo, pela qual é regida a nação portugueza,

apoderando-se do edificio da Camara municipal da mesma cidade, de uma

das varandas da qual foi proclamada a Republica e até lida uma lista dos

membros do governo provisorio, está ou não provado?

«A cumplicidade no crime de rebellião de que o reu é accusado no

libello, por haver por meio de propaganda em logares publicos

directamente aconselhado ou instigado a execução do mesmo crime,

consistente em se haver tentado destruir a fórma de governo

monarchico-representativo pelo qual é regida a nação portugueza, crime

este praticado na manhã de 31 de janeiro do corrente anno, em que os

meus auctores, apoderando-se do edificio da camara municipal da mesma

cidade, chegaram a proclamar a Republica d'uma das varandas do mesmo

edificio e a ler uma lista dos membros do governo provisorio, sendo que

sem esse conselho e instigação podia ter sido commettido o crime, está

ou não provado?»

_Para os réus militares:_

[Ilustração: Tumulo das victimas no cemiterio do Repouso, no Porto]

«O crime de revolta militar de que o réu é accusado no libello por, no

dia 31 de janeiro do corrente anno, cerca das 3 horas da manhã no

quartel d'aquelle regimento, na cidade do Porto, tendo sahido com outros

militares do mesmo regimento, em numero muito superior a quatro, das

respectivas casernas, desordenada e tumultuariamente, e tendo com os

mesmos militares, sem preceder toque previo, pegado nas suas armas e sem

auctorisação entrado em fórma, de commum concerto, se haver recusado a

obedecer as ordens do seu commandante, o coronel do regimento que os

intimou a dispersar, e sahindo depois do mesmo quartel incorporado com

outros em numero excedente a oito, sob o commando de alguns sargentos e

depois do alferes Augusto Rodolpho da Costa Malheiro, que se

lhes reuniu junto á guarda da cadeia da Relação, onde, com outras forças

revoltadas, persistindo na desordem e commettendo violencias, não haver

dispersado á voz dos superiores Fernando de Magalhães, tenente-coronel

sub-chefe do estado maior da divisão e José Maria da Graça, major da

guarda municipal, está ou não provado?

«O crime de revolta militar de que o réu F... n.º... de matricula e...

da companhia do batalhão n.º 3 da guarda fiscal é accusado, por têr na

madrugada de 31 de janeiro ultimo, cerca das 3 horas da manhã, sahido na

cidade do Porto, com muitos outros militares, todos armados, para a rua,

desordenada e tumultuariamente, e ter desobedecido a um dos seus

legitimos chefes, que o exhortou a entrar na ordem e seguir o caminho

legal: e ainda porque, juntando-se com muitos outros revoltosos, fez uzo

das armas contra tropas fieis, comettendo violencias e não despersando

ás intimações de seus legitimos superiores, persistindo na

desordem--está ou não provado?»

Antes de serem lidas as sentenças aos accusados, o capitão Leitão teve

ensejo de usar novamente da palavra--o presidente do tribunal

perguntara-lhe se tinha mais alguma cousa a allegar em sua defeza--e disse:

«--Eu, infelizmente, sendo o principal accusado sou o unico a quem não

foi permittida a defeza. A minha fé, porém, está de tal fórma arreigada

que não ha nada que a possa abalar. A fé desterra o medo, abala os

tyranos e vence. O que se passa commigo é uma monstruosidade e n'isto

sirvo-me das proprias palavras do sr. promotor. O sr. auditor, como

homem de brio, disse, quando aqui se tratou da questão da minha defeza,

que desde o momento em que o meu defensor (o quintanista de direito

Lomelino de Freitas) apresentasse documentos que o auctorisassem a

advogar, na conformidade com o que dispõe o regulamento de 26 de

dezembro de 1888, seria admittido.

«V. Ex.ª (_dirigindo-se ao auditor_) devia ter esclarecido o conselho de

guerra sobre este assumpto. É verdade que tive defeza que agradeço ao

sr. dr. Alvaro de Vasconcellos. Essa defeza não foi engeitada mas foi

emprestada. O illustre advogado empregou todos os esforços, embora não

tivesse em seu poder muitos dos apontamentos que possuia o sr. Lomelino.

O sr. dr. Vasconcellos disse que se achava coacto. Eu o estou egualmente

e protesto contra a perseguição que se me faz. Cortou-se-me a defeza,

apesar do meu defensor apresentar documentos legaes: aqui decidiu-se que

todos os advogados podessem defender os seus constituintes, desde o

momento em que apresentassem os necessarios documentos provando estar

para esse fim habilitados. Todos apresentaram esses documentos; uns mais

cedo, outros depois. Como o meu defensor não podesse apresentar logo os

seus documentos, resolveu-se que o sr. dr. Alvaro de Vasconcellos

tomasse a minha defeza até que elle os apresentasse. N'essa occasião, o

sr. promotor declarou que desejava dar a maior latitude á defeza e que

por isso, seria acceite o defensor que eu escolhera, logo que se

apresentasse devidamente auctorisado.

«Chegou o dia dos debates: o meu defensor apresenta documentos

devidamente authenticados, de fórma a ninguem os poder contestar e

negam-me a defeza! Admiro que o sr. promotor, assistindo a tal facto e

em vista da sua anterior declaração, não protestasse immediatamente

contra a violencia de que eu era victima.

«Estou coacto e apello, não para o conselho, que não me pode merecer

confiança, mas para a imprensa, para que esta faça demonstrar bem

alto este meu protesto. Apesar de tudo, a minha fé fica firme,

porque é sincera; ninguem a póde ferir. O que commigo se passa é

simplesmente odioso. Eu continuo incommunicavel, quando é certo que o

sr. auditor tinha levantado a minha excommunhão. Eu chamo-lhe assim,

porque isto não é mais que uma excommunhão. O eu continuar

incommunicavel é uma monstruosidade, como afinal, é tudo isto, segundo o

proprio sr. promotor o declarou. Eu ainda sou official, tenho direitos

que ninguem póde contestar. Estou coacto, tendo defeza emprestada,

quando eu só depositava confiança no defensor que escolhera. Eu tenho a

fazer uma referencia. O sr. promotor atirou umas pedradas contra o meu

regimento, que Deus haja, por quanto infanteria 10 já não existe. V.

Ex.ª (_dirigindo-se ao promotor_) disse que nós fôramos cobardes...

«_O promotor_--Eu não disse isso... Não dou mais explicações porque não

posso discutir com V. Ex.ª. O senhor póde apresentar novos argumentos

para a sua defeza e nunca discutir as minhas palavras.

«_O capitão Leitão_--Não quero discutir as palavras de V. Ex.ª Não

posso, porém, admittir que me chamem cobarde. Se não me deixam defender,

dêem-me ao menos o direito de protestar. Nós iamos em caminho do quartel

general...

«_O promotor (interrompendo)_--Eu não me referi nunca ao sr. capitão

Leitão. Referi-me á defeza; e demais não tenho que dar satisfações do

que aqui disse.

«_O capitão Leitão_--Eu então termino mais depressa. Quando me chegar a

minha vez, eu appellarei para tudo e até para a imprensa, para se

conhecer bem que não tive defeza, e desde já protesto contra todas as

violencias que se me fizeram».

Outro protesto não menos vibrante reproduzido na imprensa republicana:

«Em nome dos republicanos prezos a bordo do vapor _Moçambique_,

pedimos-lhe o favor de protestar perante o publico contra a ultima

violencia que se está commettendo comnosco na demora injustificada, e

por todos os motivos arbitraria, da leitura da sentença do primeiro

conselho de guerra. Sujeitos a todos os vexames, os officiaes militares

submettidos a um regimen contrario á lei e attentatorio da sua

dignidade, os prezos civis conduzidos como assassinos e salteadores, em

carros cellulares desde a Relação até Massarellos, e a pé, no meio d'uma

escolta, desde a Foz até Mattosinhos, depois de terem corrido graves

riscos na barra do Porto a bordo do vapor chamado _D. Luiz_, com um

tratamento vergonhoso na 2.ª camara do vapor _Moçambique_, apezar de nos

exigirem a cada um uma quantia sufficiente para um tratamento regular,

só nos faltava que o governo conservasse por tantos dias, como conserva,

suspensa a leitura da sentença do tribunal que nos julgou, sob o

pretexto ridiculo ou comico do receio de manifestações populares.

«O paiz avaliará um governo que não tem força para fazer julgar em terra

uns centos de accusados politicos e, por esse motivo, os conduz

violentamente para bordo de varios navios ancorados n'um porto que só

por cumulo d'irrisão se pode denominar «porto de abrigo», onde as

tempestades desencadeadas teem produzido os estragos que se conhecem e

posto em perigo imminente a vida de tantos homens, muitos dos quaes os

proprios accusadores officiaes declararam «innocentes» durante a

discussão da causa! O paiz julgará da força e do prestigio d'um governo

que conserva, durante oito dias, um tribunal em sessão permanente e

«secreta», só porque receia a discussão publica e as manifestações do

povo em cima d'uma sentença que o proprio governo vem declarando ha

muito ser a sentença mais levantada e mais patriotica de quantas se

poderiam lavrar e pronunciar na nossa terra.

«O paiz que julgue isso tudo. Nós protestamos, com toda a força do nosso

direito e da nossa justiça, contra a ultima violencia que se comette

comnosco.

«A bordo do _Moçambique_, 20 de março de 1891.--_João Paes Pinto_,

abbade de S. Nicolau; _João Chagas_; _Francisco Christo_.»

Por fim sempre appareceram as decantadas sentenças. Como se verá pelo

extracto que damos a seguir nada tiveram da _elevação_ e do

_patriotismo_ apregoados pelos defensores do regimen monarchico e antes

se caracterisaram por uma manifesta desegualdade na applicação das

diversas penas.

_No 1.º conselho de guerra:_

Santos Cardoso, condemnado a 4 annos de Penitenciaria seguidos de 8 de

degredo; 1.º sargento Abilio e 2.º sargento Galho, 6 annos de

Penitenciaria; João Chagas e 2.º sargento Manuel Nunes, 4 annos de

Penitenciaria e na alternativa de 6 annos de degredo; 2.º sargento

Castro Silva, 3 annos e 4 mezes de prisão maior cellular; 1.º cabo

Galileu Moreira e o actor Miguel Verdial, 2 annos de Penitenciaria;

Eduardo de Sousa, 2 annos de prisão correcional; Felizardo de Lima,

Amoinha Lopes e Manuel Pereira da Costa, 18 mezes de cadeia; 8 cabos, 1

corneteiro e 32 soldados, 3 annos de deportação militar; 8 cabos, 3

corneteiros e 23 soldados, 3 annos e 6 mezes de deportação; 1.os cabos

Arthur Carneiro e Rosas Pinto, 4 annos de deportação; o soldado Albino

Rodrigues e os corneteiros Jacintho Duarte e Sousa Vaz, 5 annos de

deportação.

_No 2.º conselho de guerra:_

Capitão Leitão, 6 annos de Penitenciaria, seguidos de 10 de degredo;

tenente Coelho, 5 annos de degredo; sargentos Joaquim Pinheiro, Thadeu

de Freitas, Pinto Villela e Hermenegildo Silva, 4 annos de

Penitenciaria; sargentos Raymundo de Carvalho, Alcoforado e Antonio

Maria, o musico Eduardo Correia, 3 aprendizes de musica, um mestre de

corneteiros, 12 cabos e 45 soldados, 3 annos de degredo; sargento Nunes

Folgado, 4 annos de Penitenciaria; sargentos Correia Mendes, Rodrigues

da Silva, Pinto Gomes, Botto Machado, Joaquim Moutinho, os musicos

Eduardo Silva, José Silverio, Eduardo Fortuna, Joaquim da Rocha, Manuel

Correia, Aurelio Silva, Jayme Lopes, o aprendiz Costa Rebello, 17 cabos

e 48 soldados, tambem 3 annos de degredo; 1.º cabo Thomaz Bastos, 5

annos de degredo; 2.os sargentos Alexandre de Figueiredo e Vasconcellos

Cardoso, 4 annos de Penitenciaria.

_No 3.º conselho de guerra:_

Sargentos Guilherme Rocha, Miranda de Barros, Pinho Junior e Alfredo

Fernandes e cabo João Borges, 4 annos de Penitenciaria, seguidos de 8

annos de degredo; 2.os cabos Ferreira Pires e Felicio da Conceição, 4

annos de Penitenciaria; 1 cabo e 5 soldados da guarda fiscal, 18 mezes

de prisão militar.

De todos os revoltosos condemnados á prisão maior cellular, apenas um,

cremos nós, o cabo Salomé, da guarda fiscal, chegou realmente a ser

internado na Penitenciaria de Lisboa. Os outros, como nas suas sentenças

havia a alternativa de uns tantos annos de degredo, foram

espalhados pelos presidios ultramarinos. D'um d'estes se evadiu mais

tarde João Chagas, aproveitando o concurso dedicadissimo d'um official

da marinha mercante portugueza. A evasão do illustre escriptor revestiu

pormenores rocambolescos. Indo parar a uma colonia franceza da Africa

Occidental, de lá se transportou a Paris onde viveu algum tempo na

intimidade doutros revoltosos emigrados. Breve, porém, sentiu a

nostalgia da patria e um bello dia abalançou-se a regressar ao Porto,

onde a espionagem policial o descobriu e o prendeu...

Agora que já decorreram muitos annos sobre os episodios que constituiram

a revolta de 31 de janeiro, não nos furtamos ao desejo de relembrar como

a classificaram então as individualidades que eram o sustentaculo do

throno. Se a revolta houvesse triumphado, por certo a linguagem

empregada teria sido muito outra. Mas não triumphou e a arrojada

tentativa d'um punhado de valentes foi assim qualificada:

«...lamentaveis acontecimentos que um bando de ambiciosos sem escrupulos

promoveu e por quem, infelizmente, alguns homens que vestiam a nobre

farda do exercito portuguez se deixaram arrastar n'uma lucta fratricida

contra os seus camaradas fieis, faltando ao seu sagrado juramento de

soldado e á sua nunca desmentida lealdade e disciplina, commettendo um

verdadeiro crime de lesa-patriotismo...»

Isto appareceu n'um documento official--o elogio tributado pelo general

da divisão do Porto ás praças da guarnição da cidade que não haviam

tomado parte na revolta. Ao mesmo passo, e tambem em documento

official, dirigia-se estas amabilidades á guarda pretoriana:

«Mais uma vez, a guarda municipal do Porto deu provas da sua

inquebrantavel lealdade, disciplina, bravura e coragem nunca

desmentidas. O dia de hontem (31 de janeiro) foi muito trabalhoso e de

grande risco para todos, mas foi um dia de gloria para esta guarda. A

ella, a mais ninguem, pode dizer-se sem receio de que alguem possa vir

affirmar o contrario, se deve a suffocação da revolta, que os corpos da

guarnição d'esta cidade, esquecidos dos seus deveres de honra, do

juramento que prestaram, e do que devem á nossa querida patria e á

dignidade propria, levaram a effeito, intentando derrubar as

instituições que felizmente nos regem e os poderes legalmente

constituidos, reconhecidos e respeitados pela grandissima maioria da

nação. Foi um acto da maior indisciplina que pode dar-se na familia

militar; ainda bem, porém, que outros militares fizeram baquear os

revoltosos, e certamente um rigorosissimo castigo cahirá sobre elles e

os fará então arrepender, se já não estão arrependidos, da erradissima

acção que praticaram».

Por outro lado, as camaras municipaes como que obedecendo a um _mot

d'ordre_ superior, felicitaram a monarchia pela victoria obtida e uma

d'ellas, em mensagem de maior requinte litterario, expressava-se d'este

modo:

«_Senhor._ Reconhecendo que as sociedades, obedecendo ás leis

biologicas, tendem a ser successivamente modificadas na sua organisação,

mas attento o grave e critico momento historico que a nossa querida

patria está atravessando, profundamente commocionada pelos irreflectidos

e criminosos acontecimentos que em 31 de janeiro findo enlutaram a

cidade do Porto e o paiz inteiro, a camara municipal d'este concelho,

interprete dos sentimentos que animam os povos que o constituem vem

depôr junto de vossa magestade como representante d'um paiz que caminha

na vanguarda das aspirações sociaes, o seu preito de dedicação e

fidelidade ao regimen monarchico e de felicitação a vossa magestade e a

toda a familia real, por ver n'este angustioso momento, junto de um dos

thronos mais dignos da consideração universal, reunida a grande massa da

nação, que só deseja ordem e inteira união de todas as classes para

debellar os males que a affligem e poder repellir os inimigos que tentam

sepultar a sua autonomia.»

Não faltaram elogios e homenagens aos triumphadores como se não poupou

os vencidos a toda a casta de imprecações. No momento da derrota ninguem

pensou em que a explosão revolucionaria podia reproduzir-se, apoz certo

lapso de tempo, e que essa reproducção podia ser acompanhada de

elementos de exito seguro. Todos trataram, na occasião, de mostrar á

dynastia brigantina um servilismo fóra do commum e aos pés do rei

cahiram dias a fio excessivas doses de lisonja que, por serem de

encommenda, nem ao proprio alvejado deviam illudir.

E comtudo a revolta do 31 de janeiro marcára uma _étape_ bem nitida no

caminho da modificação do regimen. Tão nitida, que pouco antes d'ella

ser julgada nos conselhos de guerra, como em outro logar referimos, o

manifesto dos emigrados portuguezes residentes em Madrid soltava este

grito de esperança, desferido com tanto enthusiasmo como se já o

illuminasse um clarão inapagavel de victoria:

«...Nós, orgulhosos, obscuros, altivos e humildes, porque cuspimos nos

homens indignos e imploramos a Deus justiceiro, entendemos que bate

o minuto em que urge gritar a um povo honrado, a um povo valente que não

póde ser mais: que não hade ser ainda; que é inevitavel, que é

irremediavel que é necessario, immediata e incontrariadamente, cavar

fundo, rasgar immenso, despedaçar largo, destruir vasto, já, já, agora,

agora, de maneira que a incomparavel vergonha se envergonhe, esta

incomparavel, esta inverosimil, esta unica e extraordinaria hediondez de

que uma nação inteira continue, inerte, tranquilla e triturada, sob as

patadas obscenas d'uma canalha que ella abomina muito menos do que ella

despreza.

A Revolução Portugueza: O 31 de Janeiro (Porto 1891) · 第 10 / 11 段