Domingos da Cunha, guardas fiscaes; Antonio Joaquim, municipal;
Bernardino Gonçalves Losa, cabo da municipal; Albino Cardoso, guarda
fiscal; Julio Cordeiro, sargento do 18; João Aleixo, corticeiro; José
Manuel da Silva Monteiro, charuteiro; Joaquim Sant'Anna, pedreiro; João
de Castro, empregado forense; Antonio Gomes Junior, alfaiate; Manuel
Pereira da Fonseca, chapelleiro; Cosme Campos Cabral, estudante;
Marianna Rosa, serviçal.
«_Recolhidos no hospital militar._--Lemos Junior, cabo do 10; um soldado
do 9 e tres soldados da guarda municipal.»
Sobre o numero de mortos, dizia:
«_No hospital do Terço._--Um soldado da guarda fiscal.
«_No hospital da Misericordia._--José Joaquim d'Almeida, tamanqueiro;
João de Carvalho, trolha; um desconhecido e José Gustavo Adolpho Alves
de Almeida Guimarães.
«_Nas ruas_--Um desconhecido; Silverio d'Almeida Santos, guarda fiscal;
Taveira, 2.º sargento; Domingos Nogueira; João, entalhador e um
empregado do commercio, irmão do redactor da _Republica_ Jayme
Filinto.»
Evidentemente, esta lista era deficientissima. Tanto assim que d'ahi a
dias uma nota do commissariado geral da policia indicava como despojos
dos militares compromettidos no movimento:
«147 espingardas, 147 terçados, 1 espadim de official, 3 espadins de
musicos, 1 bainha de espada de cavallaria, 147 patronas, 176 cinturões
completos, 197 cananas, 14 cantis, 12 mochilas, 92 capacetes grandes,
parte dos quaes sem a corôa real, 13 bonets da guarda fiscal, 9
instrumentos musicos, uma corneta, dois tambores, 39 capotes, um capote
de official, 23 jaquetas, a maior parte das quaes pertencentes a
sargentos, 173 massos de cartuchame embalado com vinte tiros cada um,
227 massos com dez tiros e uma grande porção de balas soltas.»
Reproduzindo esta nota, não queremos dizer com isso que cada um dos
objectos acima enumerados tenha realmente correspondido a um morto pela
revolução. A nota, em primeiro logar, expressa por uma maneira bem
flagrante a intensidade do panico que se desenvolveu ao principiar o
recontro na rua de Santo Antonio. Por outro lado, muitos dos militares
que empunhavam esse armamento recolhido pela policia, tendo conseguido
escapar á fusilaria da municipal, abrigaram-se fóra do Porto e uma
grande porção d'elles fugiu para Lisboa. Em resumo: se não foram apenas
doze as victimas do movimento republicano--como se pretendeu affirmar no
dia seguinte ao da derrota--tambem não cremos que tivessem passado de
cincoenta os cadaveres enterrados nos cemiterios.
No dia 3, á meia noite, correu no Porto que o regimento de infantaria 3,
aquartelado em Santo Ovidio de camaradagem com o 18--fôra para ali
horas depois de suffocada a revolta--se insubordinara e pretendia sahir
á rua dando vivas á Liberdade e á Republica. A capital do Norte tornou a
viver momentos de angustiosa espectativa. Pelo espirito da população
portuense de novo perpassou a visão d'outros cadaveres empilhados no
Prado do Repouso... A guarda municipal, prevenida dos boatos correntes,
encaminhou-se sem demora para o Campo de Santo Ovidio. Ahi, reconhecendo
que nada tinha a fazer, evolucionou em varias direcções e por fim desceu
á Praça de D. Pedro, ostentando a _pose_ irritante adequada a
_salvadores da monarchia_. De madrugada recolheu ao quartel e a cidade
recuperou o socego.
[Ilustração: Antonio José de Almeida (1891)]
Nos dias immediatos, ainda os cemiterios receberam os corpos de algumas
das victimas da Revolução. Tratava-se de feridos graves operados nos
hospitaes e que não tinham resistido a amputações dolorosissimas, ás
trepanações e outros trabalhos cirurgicos. A par d'essa liquidação
funebre, a policia e as auctoridades militares procediam a uma outra: a
das creaturas que se lhes affiguravam suspeitas de republicanismo. Para
mais, nas buscas realisadas em diversas casas de revoltosos haviam sido
apprehendidos documentos provando a adhesão ao movimento não só de
quasi todos os officiaes inferiores da guarnição do Porto mas de dezenas
de militares residentes n'outros pontos do paiz. E assim, a rede lançada
pelos agentes da ordem procurou abranger o maior numero possivel de
elementos accusatorios, collocando ao mesmo tempo os presos politicos em
situação de esmorecerem de animo pelo effeito do tratamento que lhes
dispensavam.
Dil-o um testemunho insuspeito:
«Punge-me a triste situação em que se acham os revoltosos do 31 de
Janeiro. Aos presos apenas é dada uma triste açorda; não teem cama nem
uma enxerga ou maca, nem uma pouca de palha em que se deitem, nem uma
manta em que se embrulhem. Os que dispõem d'alguns recursos mandam ir
das suas casas roupas e enxergas, mas os restantes, que são o maior
numero, estão dormindo nas tabuas nuas, tiritando e morrendo com frio.»
Pelo que respeita á assistencia judiciaria foram os revoltosos mais
felizes. O curso do 5.º anno da Faculdade de Direito, n'um impulso de
vehemente generosidade, offereceu-se em massa para defender os réus,
explicando, porém, pela bocca do seu camarada dr. Lomelino de Freitas--o
porta-voz do bizarro offerecimento--que «a sua attitude não implicava de
modo algum profissão de fé politica nem approvação ou desapprovação dos
acontecimentos.»
Os republicanos que tinham conseguido abrigar-se em Hespanha, esses,
depois de socorridos pelo governo do paiz visinho, haviam recebido ordem
de se afastar da fronteira, internando-se--exactamente o contrario do
que succedeu mais tarde, estando no poder o sr. Canalejas e tentando o
ex-capitão de artilharia Paiva Couceiro restaurar a monarchia
brigantina.
A situação, em resumo, tornara-se difficil e penosa para todos os que,
não partilhando da subserviencia incondicional ao regimen monarchico, se
viam forçados a procurar no isolamento ou no exilio a tranquilidade que
o mesmo regimen lhes negava. O governo, no proposito firme de cortar as
azas á mais insignificante velleidade de resistencia, dissolvia os clubs
republicanos e punha a guarda municipal constantemente de prevenção. E a
sua furia contra as aggremiações democraticas attingiu taes proporções
que só n'um dia mandou fechar quatorze das que então existiam em Lisboa.
CAPITULO XXI
A serenidade d'uns e o desalento de muitos
Chegado o momento da justiça militar pedir contas dos seus actos aos
individuos presos por effeito da revolta, houve o maximo cuidado, nas
regiões officiaes, em impedir que os depoimentos dos _principaes
culpados_ salientassem o condemnavel procedimento de varias
personalidades consideradas sustentaculos do throno. Procurou-se assim
dar ao grande publico, á nação inteira e até ao estrangeiro, a impressão
falsissima de que a revolta de 31 de Janeiro brotára apenas dos cerebros
de meia duzia de tresloucados, creaturas apagadas e de nullo valor
social, sem ligação com outros elementos de superior importancia. Ao
mesmo tempo, a imprensa monarchica tentou insinuar, falsamente tambem,
que a maioria dos individuos presos como revolucionarios experimentára,
ao embarcar nos navios-prisões, o arrependimento do seu gesto nobre
e patriotico e só anceiava por alijar as responsabilidades que lhe
cabiam á face das leis.
Se é certo que no decorrer da instrucção do processo e mesmo durante o
julgamento em conselho de guerra alguns d'esses homens mostraram falhas
de animo e de coragem, devidas essencialmente á torturante atmosphera
moral que os agentes da monarchia lhes tinham creado, muitos houve--e
esses constituiram o maior numero--que evidenciaram não só incomparavel
dignidade como uma presença de espirito, uma serenidade verdadeiramente
heroicas.
João Chagas, por exemplo, conservou uma placidez digna de registo. Dil-o
um jornal da epoca:
«O brilhante escriptor não afasta de si todas as responsabilidades nem
as assume todas. Acceita as que tem e não as declina, antes entende que
deve ufanar-se d'ellas. Essas responsabilidades versam principalmente
sobre o que elle escreveu e sobre o que se publicou no jornal que
dirigia: a _Republica Portugueza_».
E como circulasse que no seu depoimento feito perante a auctoridade
militar, o illustre pamphletario commentára acremente a attitude dubia
de diversos individuos compromettidos na revolta, o mesmo jornal a que
acima nos referimos accrescentou dias depois:
«É inexacto que o depoimento de João Chagas contenha censuras. Elle
julga simplesmente que é nobre que responda cada qual corajosamente
pelos seus actos. É correcto. João Chagas mantem a serenidade e a
tranquilidade dos primeiros dias. Dorme pouco em virtude d'uma tosse que
contrahiu na frialdade humida da cadeia. Será visto por um medico. Um
amigo do fogoso jornalista, desejoso de lhe provar a consideração e
a estima em que o tem, fez-lhe, por intermedio do digno director da
cadeia, alguns offerecimentos que elle agradeceu e recusou. Consta até
que affirmou, mostrando desprendimento pela vida:
[Ilustração: Os prisioneiros a bordo]
--O ser condemnado pouco me importa. Estava um pouco cançado e o
governo, mandando-me prender, offereceu-me descanço por alguns annos».
D'uma vez, porém, a serenidade de João Chagas estremeceu ao de leve. Foi
no dia, em que já encarcerado a bordo, viu passar, a curta distancia do
local onde se encontrava, o famoso director da _Justiça
Portugueza_. Então, voltando-se para um companheiro de prisão, disse,
apontando Santos Cardoso:
--Estamos aqui a pagar as antipathias que aquelle homem provocou...
E já que falamos de Santos Cardoso: o seu depoimento confiado ao
instructor do processo não correspondeu ao que se esperava do seu
aspecto energico, quasi feroz. Mostrando-se muito abatido e desanimado,
declarou que não tomára parte activa no movimento insurreccional, que
nada soubera antecipadamente do _complot_ revolucionario e que apenas
sahira á rua na madrugada de 31 de Janeiro depois de ter ouvido tocar a
rebate na egreja da Lapa. Mais tarde descera á praça de D. Pedro e
assistira na camara á proclamação da Republica. Contou, n'esta altura,
um insignificante episodio occorrido dentro do edificio municipal. A seu
lado, na sala, encontrava-se no momento da proclamação, um individuo
envolto na bandeira do Club Democratico 15 de Novembro. Esse individuo,
pretendendo deslocar-se para ir á varanda, ensarilhou o cordel da
bandeira na espingarda d'um soldado e a arma cahiu no sobrado. A
multidão, receiando que a espingarda se disparasse, afastou-se
pressurosa do local...
Decorridos alguns dias apoz o depoimento, a esposa de Santos Cardoso foi
visital-o á prisão. O antigo director da _Justiça Portugueza_ soffreu
tal choque com essa visita, que chorou desabaladamente, lamentando a sua
situação e pedindo a todos que d'ella se apiedassem. «Ignorava, disse, a
responsabilidade em que incorria, tomando parte no movimento; do
contrario, não o teria feito». E quando teve conhecimento das
declarações de Homem Christo, prestadas á policia, declarações que
relatavam minuciosamente os seus trabalhos na preparação revolucionaria,
então o seu desanimo tornou-se mais profundo. Succumbiu.
O jornalista Eduardo de Sousa, que collaborara na _Republica Portugueza_
sob o pseudonymo de _Gualter_, esse, pretendendo fazer um depoimento
revelador d'uma virilidade intemerata, lançou a policia na peugada de
varios republicanos egualmente implicados no _complot_. A imprensa
noticiosa da epoca chegou a asseverar que a defeza desse reu servira
simplesmente a comprometter diversas personalidades, algumas das quaes
tinham sido presas ao mesmo tempo que elle. Cremos, porem, que muito se
exagerou a tal respeito e que a verdade do caso reside no proposito de
atrevido exhibicionismo que acima registamos.
O sargento Abilio, n'uma carta que escreveu ao juiz affirmou
desassombradamente: «sou culpado, mas ha superiores meus mais culpados
do que eu».
Depoimento de Dyonisio Ferreira dos Santos Silva: «Sou republicano desde
que me conheço, mas mais accentuadamente desde 11 de janeiro de 1890; no
emtanto, nunca fui socio de nenhum club democratico e nunca privei com
os homens dirigentes do partido republicano. Não sabia da revolta que se
preparava para 31 de janeiro e não podia, portanto, ter alliciado para
ella militares ou paisanos. Soube da sublevação horas antes de rebentar,
porque era esse o assumpto de todas as conversas nos cafés,
restaurantes, etc. Attribuo a minha prisão ao facto de ser pouco
conhecido na policia...»
Tambem declarou ter sociedade na empreza do jornal _Republica
Portugueza_; fôra presencear, como curioso, os successos do dia 31, mas
não tomára a menor parte n'elles, e sentia-se, por isso mesmo,
tranquillo, não receiando o resultado do seu julgamento.
Declarações do actor Verdial:« Não alliciei ninguem para a revolta;
sabendo que o movimento estava para rebentar, fui ao Campo da
Regeneração, onde collaborei nos episodios que ahi occorreram.
Parlamentei com o coronel Lencastre, commandante de infantaria 18, e
entrei depois na Camara Municipal, onde me conservei até o edificio ser
atacado pelas tropas monarchicas. Só me pesa uma cousa: a lembrança de
minha mulher e dos meus filhos. Comtudo, aguardo sereno, a sentença do
tribunal.»
Do abbade de S. Nicolau: «Tinha por costume recolher a casa todos os
dias, ás 7 da tarde, sendo falso que conspirasse na sombra contra as
instituições vigentes; para elle eram boas todas as formas de governo,
desde que os homens se inspirassem nos verdadeiros principios da moral e
da justiça. Desilludido com respeito aos processos governativos até aqui
seguidos, a Republica era para elle uma esperança, mas não a queria por
meio da anarchia; os comicios realisados no theatro do Principe Real, em
que figurara, deram-lhe certa notoriedade, sendo essa a origem das
desventuras por que estava passando. Não era homem de acção, porque
d'isso o impedia o seu caracter sacerdotal. Tendo ouvido falar no dia 30
a alguns individuos na revolta que se ia dar, sobresaltara-se com a
noticia e recolhera a casa. Na manhã seguinte, sahira para fins
religiosos, ouvindo então falar na reunião das tropas na praça de D.
Pedro. Ao avistarem-n'o, muitos populares ergueram-lhe vivas. Entrara no
edificio da camara, mas ao vêr que ali reinava a anarchia, afastara-se
do local, encaminhando-se novamente para o seu domicilio. Tinha
confiança em que justiça lhe seria feita...»
Alvarim Pimenta falou d'este modo: «Nunca commungara nos segredos dos
dirigentes do partido democratico; como um dos societarios da empreza
litteraria em que exercia o logar de administrador da _Republica
Portugueza_, fôra presencear os factos occorridos no Campo da
Regeneração e paços do concelho; mas não assistira ás reuniões
preparatorias da revolução ou se envolvera nos acontecimentos que se
deram.»
Do aspirante a medico naval Gomes de Faria, accusado de ter tentado
revoltar a guarnição da corveta _Sagres_: «Não tivera o minimo
conhecimento dos preparativos da revolta, pois não estava pessoalmente
relacionado com os individuos indicados como promotores d'ella; nunca
assistira nem fora convidado a assistir a reuniões preparatorias para a
sedição. Na madrugada de 31 de janeiro fora a sua casa o 1.º sargento
Abilio de caçadores 9 que o convidára a um passeio até Massarellos, afim
de ambos visitarem a corveta _Sagres_. Estranhara a proposta, recusára a
principio, mas, instado, terminára por acceder. Quando ia a sahir de
casa, acompanhado do sargento Abilio, este dissera-lhe que era melhor
vestir o uniforme de aspirante a medico naval, para ter mais facil
ingresso na _Sagres_. Achara natural a observação e vestira o uniforme.
Chegados ambos a Massarellos, dirigiram-se para bordo da corveta. Só
n'essa occasião é que o sargento Abilio lhe dissera que se tratava de
sublevar a tripulação para adherir á revolta que ia rebentar. Hesitou
quando soube o papel que lhe destinavam, mas sendo republicano convicto,
embora não fosse partidario dos meios violentos, não tivera forças
para retroceder; por isso fôra a bordo da _Sagres_ tentar, mas sem
resultado, sublevar a guarnição. Suppozera sempre não ter incorrido em
grande delicto; por esse facto não se homisiara, apesar de o terem
aconselhado a fazel-o.»
Por ultimo, o depoimento do commissario geral da policia: «Estava na
Praça de D. Pedro e viu alli chegarem os revoltosos. Receiando que elles
o prendessem, refugiou-se n'uma casa em obras proximo do restaurante
Camanho, onde trocou o fato pela blusa d'um operario. Depois subiu mais
um andar e d'ahi presenceou a lucta entre os republicanos e as tropas
fieis. Parte dos revoltosos destroçados na rua de Santo Antonio veiu em
debandada para a praça de D. Pedro, formando aqui tres pelotões
commandados pelo capitão Leitão e recolhendo mais tarde á casa da
camara. Tambem viu a fuga precipitada d'um troço de cavallaria da guarda
fiscal em direcção aos Clerigos e recorda-se dos nomes de varias pessoas
que se envolveram no movimento.»
Escusamos dizer que o commissario geral da policia do Porto não se fez
rogado para indicar ás auctoridades militares esses nomes, contribuindo
assim com a sua solicitude para augmentar o numero de presos existentes
a bordo dos navios fundeados em Leixões.
CAPITULO XXII
O julgamento dos revoltosos
Vamos terminar. Mas, antes de o fazermos, é de necessidade registar
algumas notas colhidas no decorrer dos conselhos de guerra que
sentenciaram os revoltosos. Ellas darão aos leitores d'esta modesta e
desataviada narrativa uma ideia clara da forma como se procedeu no
julgamento de todos esses homens e da attitude de alguns d'elles em
momento tão critico e tão grave.
[Ilustração: Dr. Affonso Costa (1891)]
_Depoimento do 1.º sargento Abilio:_
«Narrou pormenorisadamente todos os incidentes que caracterisaram a
revolta e perguntado por fim sobre as intenções com que entrára no
movimento, respondeu:
«--Sim, entrei no movimento para ajudar a depôr o rei D. Carlos, porque
sou republicano e tenho muitas razões para o ser. Não sou republicano de
evolução, porque, por ella nem d'aqui a um seculo, julgo, teremos a
republica em Portugal. O que reconheço é que fomos enganados, pois vi
muitas adhesões escriptas e sabia de outras feitas verbalmente e de
reuniões de camaradas meus e de outros de superior graduação.
«Sobre a sua prisão conta que foi o ultimo a retirar da casa da camara,
quando já não tinha munições. Refugiou-se n'um predio da rua do
Almada. Quando ali appareceram soldados da municipal a perguntar se
lá estava algum militar, o dono da casa perguntou-lhe o que queria que
dissesse. Elle apresentou-se. Os municipaes cruzaram ainda armas contra
elle, apesar de o verem só e desarmado. Deu-se á prisão.
«O auditor insistiu com o reu para que declarasse quaes eram os
militares que tinham relações com os auctores do movimento do Porto. O
reu respondeu simples, mas dignamente:
«--Não senhor, não digo...
«E acentuou:
«--Não quero acusar ninguem; quanto a mim, digo que foi da melhor
vontade que entrei no movimento e não declino a minha responsabilidade.
Na parada do quartel fui eu quem primeiro levantou um viva á Republica».
_Depoimento de Eduardo de Sousa (aspirante a medico naval):_
«Declarou francamente ser republicano e repudiou por completo o seu
depoimento escripto que lhe foi arrancado pela policia á força de ardis
e por outros meios egualmente condemnaveis. Declarou mais ter dado a
nota alegre na ceia que houve no café Suisso na vespera da revolta,
assim como outros deram a nota philosophica, etc. Quanto a essa ceia,
explica que era seu costume e dos demais convivas cear ali todas as
noites. Accrescentou que acompanhára o movimento das tropas na qualidade
de redactor da _Republica Portugueza_ E não na de _reporter_ como lhe
chamaram».
_Extracto da sessão do 2.º conselho de guerra (8 de março de 1891)_:
«... A parte mais interessante foi o promotor requerer acareação entre o
tenente de cavallaria 6, Vaz Monteiro, do destacamento aquartelado
no Porto, com o reu Thadeu Freitas, sargento de infantaria 10. Na
audiencia de hontem, Thadeu disse que o referido tenente affirmára ao
tenente Coelho que o esquadrão estava prompto a sahir para acompanhar os
revoltosos. Chamado o tenente Vaz Monteiro, este negou ter dito
semelhante cousa. Acareado com o sargento Thadeu continuou negando a pés
juntos. Thadeu confirmou, acrescentando que o tenente Vaz Monteiro
pedira senha ao tenente Coelho.
«Acareados ambos com este reu, Coelho disse não se recordar de
semelhantes palavras. Falara no Campo da Regeneração com o tenente Vaz
Monteiro, mas este apenas lhe observara: «Manuel, vae-te embora». Nada
mais. O sargento Thadeu disse que era verdade tudo que tinha affirmado e
que se o tenente Coelho dizia não ter ouvido as palavras do tenente Vaz
Monteiro não era porque as não ouvisse. O que o levava a proceder assim
era o seu cavalheirismo e a nobreza do seu bello caracter, que não
queria comprometter ninguem. Que bem sabia que o tenente Coelho era um
homem de honra e por isso comprehendia a sua negativa.
«O promotor requereu com urgencia auto de noticia das declarações
cathegoricas do sargento Thadeu para as enviar ao quartel general,
segundo o seu dever, a que não podia faltar. O incidente causou
impressão, sendo todos concordes em elogiar o procedimento do tenente
Coelho, que a ninguem quer comprometter».
_Depoimento de João Chagas:_
«Que o artigo da _Republica Portugueza_ sob o titulo _Terceira
meditação_ era seu e que o artigo que se seguia a esse o não era; sabia
bem de quem era, mas não o dizia. De resto, sendo elle director do
jornal, folgava em poder declarar que assumia, inteira e completa,
toda a responsabilidade dos artigos alli publicados. Inquirido sobre o
facto de ter incitado á revolta, declarou ter incitado á revolução que
não se dera, porque o movimento de 31 de janeiro não fôra um erro
politico, mas um erro de gramatica, um erro de palmatoria. Respondendo á
pergunta--se os artigos do seu jornal eram attentatorios das
instituições vigentes--disse que os membros do tribunal bem melhor do
que elle poderiam e deveriam saber de semelhante cousa.
«Era republicano e, como tal, não poderia, está bem visto, defender as
instituições que julgava não convirem á felicidade da sua patria. Uma
vez convencido d'isto, não recuaria deante de qualquer obstaculo ou
contratempo; a sua convicção, arreigada pela força da experiencia da
sociedade portugueza, era pela mudança do systema de governo. No
movimento de 31 de janeiro não tomara parte pelo motivo de estar preso
na cadeia da Relação, por causa da primeira querella do seu jornal,
depois da lei restrictiva de Lopo Vaz contra a imprensa democratica.
«Todas as suas declarações, feitas com um tom de franqueza e
sinceridade, proprias da sua nobreza de caracter, foram escutadas
attentamente e produziram sensação. Ao findar o seu interrogatorio,
travou-se entre elle e o auditor o seguinte dialogo:
«--Teve conhecimento antes, do movimento que havia de effectuar-se no
dia 31?
«--Sim, senhor.
«--Pode dizer-me, quem lh'o disse?
«--Não quero».
_Depoimento de Homem Christo_:
«Contrariara o movimento, como provava pelo artigo dos _Debates_ e pela
circular do Directorio em que figura o seu nome, pela sua ida ao
Porto para dissuadir Santos Cardoso e pela descompostura que por esse
motivo recebeu do mesmo Santos Cardoso.
[Ilustração: Conselho de guerra a bordo do transporte _India_]
«A sua qualidade de republicano d'alma e coração não era cousa que o
impedisse de vêr as cousas como ellas realmente são e lhe não
permittisse discernir o que convém á Patria e ao partido do que não
convém nem a uma nem a outro, e antes é prejudicial a ambos. A paixão
politica não o obceca a tal ponto».
_Depoimento do capitão Leitão:_
«--Em abono da verdade, disse o réu, e porque não me soffre o animo vêr
que um innocente está envolvido no movimento revolucionario preciso que
o tribunal tome conhecimento de que o espingardeiro de infantaria 10 não
tomou a minima parte na revolta. A accusação que sobre elle impende é
falsa. Reconheci perfeitamente todas as praças da minha companhia e
o espingardeiro não estava ali no acto da sublevação.
«A passagem mais curiosa do depoimento é, porém, a seguinte, com
referencia ao coronel Lencastre de Menezes: