da cadeia, sahi do meu quarto e como visse grupos de soldados passeando,
intimei-os a recolher á casa da guarda, assistindo eu mesmo a essa
retirada. Disse-lhes, finalmente, que ninguem sahiria d'alli a não ser
ao brado d'armas. Tudo isto que declaro é a expressão da verdade,
podendo ser garantido pelo sargento que estava n'esse momento a meu lado.
«Nunca me passou pela imaginação a adhesão da força da guarda, pois
n'aquelle momento de exaltação não deixei de pensar em que se
tornava precisa a maior vigilancia sobre a cadeia. Seria leviano,
mas não tanto como o julgam aquelles para quem escrevo esta
declaração.--_Augusto Rodolpho da Costa Malheiro._»
Repetimos: a maledicencia não poupou nenhum dos tres officiaes que se
evidenciaram durante a revolta. Dias a fio bradou-se, á mistura com a
divulgação dos mais censuraveis boatos, que era necessario applicar aos
culpados todo o rigor das disposições penaes. Pouca gente, da affecta ao
regimen e á dynastia brigantina, ponderou que a genese do movimento
brotara exactamente dos erros e dos escandalos d'um e d'outra e que para
os accusadores serem realmente justos precisavam, antes de mais nada,
pensar nas suas proprias responsabilidades, ou nas dos partidos
politicos a que pertenciam.
CAPITULO XVIII
O dia seguinte ao da derrota
Suffocado o movimento, que fizera triumphar por algumas horas, a dentro
dos muros do Porto, a bandeira verde e vermelha, os serventuarios da
monarchia apressaram-se a enaltecer os talentos dos vencedores e a
amesquinhar o valor da organisação revolucionaria. Não ignoravam elles
que fóra d'aquella cidade se tinham dado occorrencias graves,
reveladoras da amplitude d'essa organisação e que para evitar maiores
complicações se mandara interromper a marcha d'algumas das forças
militares a caminho do fóco insurreccional.
«O mesmo regimento de infanteria 18--affirma-o um chronista da epoca--só
ás dez da manhã, terminado completamente o combate, finda
inteiramente a lucta, foi, a bandeira desfraldada, apresentar-se ao
quartel general. Um dos regimentos do Norte, que chegou a desembarcar na
estação de Campanhã, ahi mesmo levantou vivas á Republica. Muitas praças
do regimento de caçadores 5 que faziam a guarda ás prisões onde se
encontravam os revoltosos que não haviam conseguido fugir, diziam-lhes
que tinham feito mal em não prolongar a lucta até á sua chegada, porque
o regimento faria causa commum com a revolta...»
Na imprensa monarchica liam-se as cousas mais affrontosas para os
derrotados. Todos os que, durante os momentos victoriosos, tinham
receiado pela sua integridade pessoal, atropellavam-se no empenho de
accumular a _metralha accusatoria_ sobre os vencidos. Sacudiam-se
responsabilidades e ninguem queria ter a menor solidariedade com os
revoltosos. As mesmas corporações que no caso do triumpho republicano se
apressariam por certo a saudar o advento d'um novo regimen com o appoio
incondicional e festivo despejavam sobre o throno canastradas de
felicitações, algumas n'uma linguagem servil e, por isso mesmo, abjecta.
No dia 31, ao começo da tarde, o governador civil do Porto, Taibner de
Moraes, fez publicar um edital suspendendo «as formalidades que garantem
a liberdade individual», e o governo central acrescentou a isso a
suppressão da imprensa republicana ou d'aquella que não vociferasse
tonitruante contra o movimento e os seus promotores. A serie das
bajulações á monarchia victoriosa que, afinal, durante a insurreição,
não ganhara para o susto, foi aberta pela vereação portuense n'uma
mensagem que ella propria veio entregar a Lisboa, dizendo todas estas
enormidades:
«N'esse nefasto dia (o de 31 de janeiro) uma parte da guarnição,
esquecendo o juramento de fidelidade á sua bandeira e ás instituições
que nos regem e não menos o dever da disciplina e da manutenção da ordem
e da tranquilidade publica, praticou o maior dos attentados contra a
patria, que na occasião se podia commetter.
«Attentando contra a monarchia constitucional que é o mais seguro esteio
da independencia portugueza, nem ao menos se ponderaram as criticas
circumstancias em que nos collocam no actual momento as pretenções de
uma poderosa nação sobre o nosso dominio africano e a situação da
fazenda publica.
«E quando todo o cidadão que verdadeiramente ama o seu paiz sente o
impreterivel dever de não crear o menor embaraço nem levantar o menor
estorvo á melhor solução d'aquellas difficuldades e perigos é que uns
poucos de militares e um insignificante numero de individuos da classe
civil intentam, verdadeiramente obcecados, mudar a natureza das
instituições fundamentaes, abolir a monarchia e precipitar o paiz na
revolução á mão armada...»
A mensagem tinha os nomes dos srs. Oliveira Monteiro, Ribeiro da Costa e
Almeida, Leão da Costa, Anthero d'Araujo, Mendes Correia, Pinto de
Mesquita, Chaves de Oliveira, Christiano Vanzeller, Pires de Lima,
Teixeira Duarte, Lima Junior, Silva Moreira, Alves Pimenta, José Arroyo,
Fernando Bahia, Silva Tapada, Moreira Monteiro, Manuel da Silva Pinto,
Vieira d'Andrade, Pedro de Araujo e Tito Fontes.
A guarda municipal do Porto tambem recebeu a sua quota parte de
felicitações e... melhoria de rancho, pelo «denodo com que repellira os
insurrectos». Os jornaes da epoca estão pejados de documentos
interessantes, revelando o calor bajulatorio projectado sobre os
triumphadores do movimento. Um d'elles:
«Satisfeito com o exemplar comportamento e bravura que mostrou o corpo
da guarda municipal do Porto, no dia 31 de janeiro para conter os
desordeiros e fazer respeitar a lei e o governo do paiz e seguindo as
ideias do meu compadre e bom amigo João Pinto Ferreira Leite, tomo a
liberdade de remetter a v. ex.ª (o commandante da guarda) a quantia de
50$000 réis destinados para melhorar o rancho dos soldados da mesma
guarda.--_Januario Bastos_».
Outro, egualmente dirigido ao commandante da guarda municipal:
«_Meu bravo e glorioso camarada_: Felicito a v. ex.ª e felicito a
valente guarda municipal do Porto, hoje mais do que nunca, uma honra
para o nosso paiz, pela maneira corajosa por que acaba de arrancar da
beira de um abysmo a monarchia e a nação. Consinta v. ex.ª que o abrace
e este amplexo cinge toda a corporação da guarda municipal do
Porto.--_Christovão Ayres_».
Alguns dos membros do governo provisorio proclamado no edificio da
camara municipal, uma vez suffocado o movimento, publicaram egualmente
nas gazetas declarações terminantes repudiando a menor ligação com os
revoltosos. O sr. Joaquim Bernardo Soares, por exemplo, dizia na sua carta:
«Tenho sido sempre homem de ordem--nem o meu passado, nem as ideias
que tenho manifestado inalteravelmente com o maior desassombro,
podiam auctorisar um tal procedimento da parte d'aquelles que
imprudentemente lançaram o meu nome para o publico e com os quaes não
tenho relações de qualquer natureza nem sequer pessoalmente conheço.
Repillo, portanto, com a maior indignação, o abuso que do meu nome se
fez, sem que possa descortinar o motivo que o determinou».
O sr. Azevedo Albuquerque foi mais laconico:
«Declaro que não dei auctorisação para o meu nome figurar na lista dos
membros do governo provisorio proclamado na casa da camara do Porto; e
que não concorri nem directa nem indirectamente, para o movimento
revolucionario».
A declaração do sr. Rodrigues de Freitas, embora principiasse
por affirmar que o seu auctor «desde muito se manifestara
republicano-democrata e continuaria a professar firmemente as mesmas
ideias» quaesquer que fossem os derrotados ou os victoriosos, acrescentava:
«Não auctorisei ninguem, quer directa quer indirectamente, a incluir o
meu nome na lista do governo provisorio lida nos paços do concelho no
dia 31 de janeiro; e deploro que um errado modo de encarar os negocios
da nossa infeliz patria levasse tantas pessoas a tal movimento
revolucionario».
Por ultimo esta declaração do sr. José Ventura dos Santos Reis:
«Sabendo que o meu nome anda envolvido nos tristes acontecimentos que se
deram n'esta cidade no dia 31 do mez passado, cumpre-me declarar
cathegoricamente que não auctorisei absolutamente ninguem a incluir o
meu nome na lista do governo provisorio, que foi lida nos paços do
concelho; que fui completamente estranho a quaesquer preparativos ou
combinações que precederam as occorrencias d'aquelle dia».
Quarenta e oito horas depois da revolta, o governo fez publicar varios
decretos com o fim, dizia elle, de supprir as deficiencias da legislação
então vigente «provendo á necessidade de reprimir de prompto e punir com
severidade os attentados commettidos contra a ordem publica, segurança
do Estado e suas instituições». Por um d'esses decretos entregava á
exclusiva competencia dos tribunaes militares, o conhecimento e o
julgamento do crime de rebellião, aliás previsto e punido no codigo
penal portuguez. Na cidade do Porto, não faltavam edificios onde
podessem funccionar os conselhos de guerra nem cadeias onde acumular os
individuos presos como implicados na revolta. Mas o governo receiou que
a população se interessasse demasiadamente pelo espectaculo dos
julgamentos e assim decidiu que os conselhos de guerra reunissem a bordo
de navios de guerra.
Para esse effeito, collocaram no porto de Leixões o transporte _India_,
a corveta _Bartholomeu Dias_, e o vapor da Mala Real, _Moçambique_,
guarnecido com marinheiros da _Sado_. Como deposito de prisioneiros
juntaram a estes tres navios um velho pontão incapaz de navegar. Para o
_Moçambique_ foram mandados João Chagas, Santos Cardoso, o capitão
Leitão, tenentes Coelho e Homem Christo, as praças do regimento de
caçadores 9 e os civis: Miguel Verdial, Felizardo de Lima, Santos Silva,
o abbade de S. Nicolau (rev.º Paes Pinto), Eduardo de Sousa, Amoinha
Lopes, Thomaz de Brito, Barbosa Junior, Alvarim Pimenta, José Durão,
Pereira da Costa, Gomes Alves, Soares das Neves, Pinto de Moura, Pinto
de Vasconcellos, Aurelio da Paz dos Reis, Cervaens y Rodrigues,
Feito y Sanz e Simões d'Almeida. Para a _Bartholomeu Dias_ foram as
praças de infantaria 18 e 10; para o _India_, o alferes Trindade e
os revoltosos da guarda fiscal. Mais tarde, o tenente Coelho passou
do _Moçambique_ para aquella corveta. Dos chefes civis do movimento,
conseguiram expatriar-se o dr. Alves da Veiga, José Sampaio (Bruno) e
Basilio Telles.
[Ilustração: Santos Cardoso, preso a bordo]
Reunidos os conselhos de guerra, os julgamentos decorreram de tal modo
que ninguem se illudiu sobre a sorte que estava reservada aos
revoltosos. Sabia-se de antemão que sobre elles recahiria o peso d'uma
forte condemnação e que quaesquer que fossem os incidentes revelados
durante as sessões dos conselhos elles em nada alterariam a sentença já
lavrada.
«O tribunal--affirmou-se mezes depois no manifesto dos emigrados da
revolução--era uma tão evidente delegação do poder executivo que, em
plena audiencia, um dos julgadores, nem sequer resguardando o melindre
das conveniencias, declarou que não proseguiria n'um detalhe qualquer de
juridicas investigações, _em virtude de ordens superiores_.
«Foi decerto tambem em virtude d'essas ordens superiores que os
julgamentos se realisaram sobre o mar, acossado por uma invernia
excepcional. Foi em consequencia d'essas ordens que succedeu que, uma
tarde mais aspera, as vagas arrojaram contra os paredões do porto
(Leixões) ainda em via de construcção, desamparado e á mercê,
consequentemente, um dos navios ahi ancorados, persuadindo-se todos os
habitantes do Porto que a verminada carcassa desfeita fôra a d'um dos
pontões onde se mandara apodrecer os suppostos criminosos e
assistindo-se então ao tremendo exemplo d'uma população de mães e
esposas clamorosas accorrendo, em gritos de dôr, a olhar a perfida,
movediça sepultura, onde repousariam, emfim, seus desditosos filhos,
seus tristes esposos, a alegria das suas almas, as esperanças de
suas escuras existencias.
«Em virtude e consequencia d'essas ordens superiores foi que um dos
navios de guerra (pois que se transformaram os maritimos gloriosos do
glorioso Portugal passado em carcereiros dos que almejavam restituir a
patria ao seu antigo esplendor) se desprendeu uma noite de tempestade e,
com um condemnado a bordo, andou perdido, sem provisões e sem rumo, na
serração, pela clemencia infinita das aguas.»
Terminados os julgamentos, os conselhos de guerra condemnaram na pena de
prisão maior cellular (e, na alternativa, na de degredo): João Chagas,
Santos Cardoso, Verdial, capitão Leitão, os sargentos Abilio, Galho,
Silva Nunes, Castro Silva, Rocha, Barros, Pinho Junior, Fernandes
Pinheiro, Gonçalves de Freitas, Villela, Pereira da Silva, Folgado,
Figueiredo e Cardoso, os cabos João Borges, Galileu Moreira e Pires e o
soldado da guarda fiscal Felicio da Conceição. O tenente Coelho foi
condemnado a cinco annos de degredo. Aos restantes implicados couberam
penas variaveis de deportação militar, degredo e prisão correccional.
Os regimentos de caçadores 9 e infantaria 10 tambem soffreram castigo
exemplar: o governo dissolveu-os. E comtudo, em 1826, o primeiro de
esses corpos, tendo-se revoltado contra o marquez de Chaves, que
defendia o absolutismo do sr. D. Miguel, fôra aclamado fiel e até
comtemplado com augmento de soldo...
CAPITULO XIX
Para as despezas da revolta bastou um conto de réis
Uma das accusações graves feitas aos revolucionarios do 31 de janeiro
foi a de que o movimento só se levara a cabo para servir interesses
inconfessaveis e apoiar especulações financeiras. Envolveram-se durante
alguns dias os revolucionarios n'um circulo de malquerença e de odio,
attribuindo-se-lhes propositos realmente nefandos--como dizia o governo
nos documentos officiaes, classificando os incidentes do movimento. O
_Diario Illustrado_ chegou mesmo a affirmar:
«Elles (os revolucionarios) puzeram-se, conscientemente muitos,
inconscientemente alguns, ao lado dos inimigos da patria, serviram a
causa da Inglaterra, que nos quer expoliar em Africa; _serviram a causa
dos financeiros que pretendem explorar com onzenices as desgraças da
nossa situação_.»
Outro jornal, as _Novidades_, ia mais longe:
«D'onde veiu e para onde foi o dinheiro que se arranjara para a revolta?
«Houve ha um mez uma reunião no Porto onde foram dois delegados de
Lisboa. Ao contrario do que se tem dito, o accordo para a revolução foi
completo. Nem os de lá nem os de cá divergiram. No que não concordaram
os de cá com os de lá foi na forma da republica a proclamar, oppondo-se
os de Lisboa á federação com a Hespanha.
«O que é certo, porém, porque resulta de documentos encontrados, e
de depoimentos recolhidos, é que a isto se seguiu a subscripção aberta
em Lisboa para a revolta, que produziu rapidamente 20 contos que foram
levados ao Porto por dois sujeitos, um dos quaes tem uma alta graduação
burocratica. Esse dinheiro ficou nas mãos de Alves da Veiga.
«Escusamos dizer que não foi encontrado na busca que a policia fez. Nem
o dinheiro nem os papeis importantes, porque as gavetas foram já
encontradas tiradas dos moveis, espalhadas pelo chão e alguns dos papeis
que n'ellas ainda havia eram ou insignificantes ou rasgados.»
[Ilustração: Actor Verdial (1891)]
Em summa, as _Novidades_ diziam claramente que um dos chefes da revolta
recebera alguns contos de réis e com elles se locupletara.
Essa e outras accusações despertaram, como é natural, protestos
vehementes. Os jornaes republicanos, apesar da mordaça que o governo
lhes collocara apoz o 31 de janeiro, esforçaram-se o mais possivel por
quebrar os dentes á calumnia e apagar a serie de apodos com que a
imprensa monarchica mimoseava os revoltosos. E esse sentimento de
protesto conquistou tambem a grande maioria dos jornaes madrilenos,
porque um d'elles, o mais accentuada e tradicionalmente monarchico,
o jornal ultra-conservador a _Epoca_ fez côro com os collegas radicaes
que estygmatisaram a insidia cavilosa.
E comprehende-se que assim succedesse. Não era crivel que o exercito
portuguez--a parte d'esse exercito que se revoltara no 31 de
janeiro--pensasse em saquear a cidade do Porto, como egualmente a
imprensa monarchica pretendeu fazer acreditar. Admittir tal hypothese
seria o mesmo que admittir que a revolta, longe de visar á proclamação
da Republica, se limitava a favorecer o roubo d'umas tantas casas
commerciaes. Narrou-o mais tarde um dos revolucionarios que conseguiu
escapar á furia dos serventuarios do regimen, exilando-se em Hespanha:
«Emquanto a estupida imprensa officiosa de Portugal enxovalhava de tal
modo o exercito portuguez perante a Europa toda, por um momento occupada
quasi exclusivamente do que estava ocorrendo na nossa terra, o
jornalismo estrangeiro registava, ainda com os louvores mais rasgados,
que a revolução militar do Porto não se devera a nenhum baixo mobil, não
fora propulsionada por nenhum mesquinho interesse, antes, pelo
contrario, constituira, na solidariedade moral europeia, um caso honroso
para toda a humanidade e infelizmente raro, na historia d'um movimento
politico, combinado e ultimado pelo simples prestigio das convicções.
«E todavia a imprensa estrangeira ignorava que o traço particularmente
typico do movimento de 31 de janeiro foi o da sua essencia genuinamente
democratica; ignorava que nenhuma seducção poderia exercer em almas
populares o fascinamento das posições sociaes de elevados alliciadores,
pois que os não houve; ignorava que não sómente não existia caixa
alguma, pittoresca, estolidamente, denominada _da revolução_, mas
ainda que nem sequer o anonymo soldado recebera um real para sahir do
quartel; ignorava que na noite famosa que precedeu o acontecimento se
deixara bem assignalado que, na hypothese da victoria, nenhum dos
militares revolucionados teria a mais somenos promoção ou o mais
insignificante beneficio, de qualquer genero que fosse.
«Em tão novas condições se consumou este movimento politico de 31 de
janeiro de 1891 que elle fará a admiração das gerações portuguezas e
nobilitará o paiz, comprehendendo-o na esphera dos povos que sabem,
podem e querem, ao menos tentam pelejar e morrer pela consecução
desinteressada d'um ideal de justiça abstracta.
«A historia não ha-de ser commettida aos escribas da imprensa vendida
dos nossos tempos; e a historia ha-de considerar o movimento republicano
do Porto a uma altura que parece irrisorio talvez á tagarelice insensata
de certos portuguezes de hoje».
E tinha razão de sobejo o revolucionario emigrado. Tres dias depois de
suffocado o movimento, o presidente da edilidade portuense, n'uma nota
distribuida aos jornaes monarchicos, salientava o facto dos revoltosos
não haverem tocado no thesouro da camara emquanto occuparam o edificio
municipal. Na grande meza da sala das sessões repousaram, durante o
tiroteio entre os revolucionarios e as forças fieis, magnificos
tinteiros de prata. Pois ninguem lhes tocou, até que os empregados da
camara, uma vez liquidado o movimento, os arrecadaram em logar seguro.
A _Tarde_, jornal de Lisboa affecto ao antigo partido regenerador, bem
se esfalfou em asseverar que a muitos dos militares presos tinham sido
encontradas libras em ouro, o que provava que na madrugada de 31 de
janeiro se fizera larga distribuição de dinheiro. Outras gazetas
insinuaram egualmente que a revolução rebentara mais cedo do que fôra
determinado pelos seus organisadores, porque um dos sargentos
compromettidos tendo defraudado a caixa do respectivo regimento em
centenas de mil réis--gastos em alliciar os subordinados--não queria de
modo algum que em 1 de fevereiro de 1891 o obrigassem a prestar contas.
Afinal, tudo isto cahe pela base sabendo-se que o unico dinheiro que
serviu realmente a pagar despezas da revolta foi fornecido ao dr. Alves
da Veiga pelo negociante portuense José Ferreira Gonçalves e não
excedeu... um conto de réis. Não se dirá, por isso mesmo, que o
movimento custou caro!
Junte-se agora a essa quantia a de sete contos--em que se avaliou os
estragos causados pelas balas nos predios dos Clerigos, rua de Santo
Antonio e praça de D. Pedro--e vêr-se-ha que nunca se fez uma revolução
com tanta economia de numerario e tanta nobreza de procedimento da parte
dos que a levaram á pratica.
Mas se os revolucionarios dispenderam pouquissimo dinheiro em investir
contra o regimen monarchico, em compensação prodigalisaram os actos de
heroismo. N'outro logar d'esta narrativa, já assignalámos o ardor com
que a guarda fiscal e as tropas do 10 e do 9 sustentaram na rua de Santo
Antonio e na casa da camara as arremettidas da guarda municipal.
Devemos, no emtanto, registar dois casos typicos que a imprensa da epoca
descreveu pormenorisadamente e que qualificam nitidamente o valor dos
insurrectos.
Um d'elles é o d'um guarda fiscal--figura de athleta--que, installado
n'uma das janellas do Café Suisso, na praça de D. Pedro, ahi se manteve
desfechando ininterruptamente a sua espingarda sobre os defensores
da monarchia e só abandonou o posto quando lhe faltaram totalmente os
projecteis. Essa janela do café ficou crivada de balas, mas o guarda
fiscal em questão nunca perdeu o sangue frio e por espaço de horas
visou, certeiro, a guarda municipal. O segundo caso é a reproducção do
primeiro e occorreu n'outra janella do estabelecimento já citado, onde
se entrincheiraram quatro estudantes.
[Ilustração: Revoltosos presos a bordo do _India_]
Compare-se a attitude d'essas creaturas luctando serenamente,
imperturbavelmente, pelo ideal que se tinham proposto conduzir á
victoria com o de outras que no curto espaço de tempo que durou a
revolta se bandearam primeiro com os revoltosos e logo a seguir
manifestaram a sua adhesão ao regimen monarchico. Os exemplos
d'essa cobardia moral abundam. Respigamos ao acaso n'um jornal portuense
do dia 2 de fevereiro de 1891:
«C... proprietario d'um armazem de moveis e L... pharmaceutico, logo que
viram o caso mal parado (o triumpho momentaneo dos insurrectos) tiraram
das frontarias dos respectivos estabelecimentos os escudos com as armas
reaes; mas depois tornaram a collocal-os, porque perceberam que a
monarchia não fôra vencida na refrega.»
CAPITULO XX
Triste balanço: o das victimas da insurreição
Vinte e quatro horas apoz a liquidação do movimento, espalhou-se que o
numero de mortos na refrega não passara de doze--na sua maioria guardas
municipaes. Entretanto, na população portuense ficou durante muito tempo
a impressão de que esse numero não representava a verdade e que os
cadaveres de revoltosos sepultados nos cemiterios da capital do Norte se
tinham contado por centenas. O _Primeiro de Janeiro_, do dia immediato
ao da revolta, forneceu aos seus leitores esta lista de feridos
graves--muitos dos quaes vieram a fallecer dos ferimentos recebidos:
«_Recolhidos no hospital do Terço._--Manuel Canedo, soldado de
infantaria 10; Manuel Barreira, guarda municipal; Francisco Joaquim,
guarda municipal; Manuel Maria, soldado do 10; José Joaquim Teixeira,
guarda fiscal; João Manuel Gomes, guarda fiscal; Antonio Carneiro,
soldado do 18; Pedro da Rocha, soldado do 10; Manuel Cardoso, cabo
da municipal; João Nepomuceno, guarda fiscal; Antonio Pereira de
Almeida, civil; Francisco José e José Antonio Carneiro, municipaes; João
José Pereira de Azevedo Lobo e Joaquim Gomes, cabos da municipal; dr.
João Henrique da Rocha, redactor da _Luz_; Maria Custodia Alves,
costureira. Esta rapariga estava á janella da casa do sr. Henrique de
Mello quando rebentou o tiroteio e recebeu uma bala no pescoço.