procedera com as tropas sublevadas no campo de Santo Ovidio, procederem
tambem para com ella, aconselhando-a a abandonar a sua attitude
espectante e a adherir ao movimento insurreccional; o regimento de
infantaria 18 havia adherido, não era rasoavel nem patriotico que a
guarda municipal o não fizesse. As tropas sublevadas não tinham a menor
intenção de fazer derramar sangue de irmãos d'armas; não desejavam uma
lucta fratricida, tanto menos presumivel que, sem excepções, todo o
exercito se sentia impellido a resgatar o paiz da humilhante situação em
que se encontrava por virtude dos actos dos governos da monarchia,
que não se inspiravam nos sagrados interesses nacionaes.
«Não. A guarda municipal era com as tropas da revolta. Se estas não
tinham a commandal-as officiaes, cujas patentes e cujos nomes se
impuzessem, bem certo era que o regimento de infantaria 18, com o seu
coronel e com os seus officiaes, tinha adherido ao movimento
revolucionario e não havia que hesitar. Os tres officiaes que se
encontravam com as forças sublevadas, ali, não queriam reivindicar
nenhum direito de superioridade; contentavam-se bem com a satisfação da
sua iniciativa e, nem por si, nem pelos seus subordinados, reclamavam
nem outros postos nem outras honras. Se outras ideias germinavam no
espirito dos que não tinham até aquelle momento adherido á revolta, que
se desilludissem. Que o throno desapparecesse: mais nada. A nação
governar-se-hia sem profundas transformações. Ellas viriam depois. O
essencial era quebrar com a criminosa tradição. Por ella é que Portugal
vergava ao peso de tanta deshonra, por ella é que a vida social vinha
sendo insupportavel. Governar-nos-hiamos como irmãos, no mesmo
sentimento commum dos interesses individuaes, coincidindo com os da
Patria. Taes pensamentos animavam as tropas sublevadas. Não havia que
discutir.»
Resumindo: o capitão Leitão iria á frente das forças e ao chegar á praça
da Batalha procuraria parlamentar com o sub-chefe de estado maior,
Fernando de Magalhães, que os revolucionarios consideravam intelligente
e de caracter. Elle decidiria em ultima instancia se a superioridade
estava, na verdade, do lado dos sublevados e se a guarda municipal podia
ou não submetter-se-lhes sem hesitações. Era o appello honesto a um
arbitro de occasião, que gosava ao momento de justificado prestigio na
classe militar.
CAPITULO XVI
O choque sangrento--A guarda municipal desbarata os revoltosos
As forças do commando do capitão Leitão sahiram da praça de D. Pedro e
principiaram a subir a rua de Santo Antonio. Formavam uma columna «em
marcha de quatro», levando á frente a banda de infantaria 10;
seguia-se-lhe a guarda fiscal e iam depois caçadores 9 e aquelle
regimento. A guarda municipal formava ao alto da rua, no adro escalonado
de Santo Ildefonso, guardando a entrada da Batalha pelas ruas de Santa
Catharina, Santo Antonio, de Santo Ildefonso, de Cimo de Villa e viela
da Madeira. A entrada pelas ruas de Entreparedes e Alexandre Herculano,
vedavam-na cem praças fieis da guarda fiscal. No lado nascente do antigo
theatro de S. João formava cavallaria 6, cobrindo o edificio do quartel
general e governo civil.
Uma multidão immensa acompanhava as forças da revolta na marcha rua de
Santo Antonio acima e essa arteria do Porto tinha um aspecto quasi de
festa. A maior animação e alegria illuminavam-na. Do povo sahiam brados
enthusiasticos victoriando os sublevados. As senhoras que estavam ás
janellas agitavam freneticamente os lenços, soltavam vivas calorosos,
batiam as palmas n'um contentamento indescriptivel. A satisfação
dominava tudo e todos. A marcha das forças tinha o caracter
insophismavel d'um passeio triumphal, em que elles pareciam recolher os
applausos pela victoria alcançada rapidamente e sem embate sensivel.
Na altura da viela chamada dos Banhos, do lado direito da rua de Santo
Antonio, o povo que acompanhava os sublevados hesitou e recuou. O
capitão Leitão olhou para cima, e viu a guarda municipal em attitude
defensiva com as armas apontadas para a columna. Não ligou grande
importancia ao facto e, como a banda de infantaria 10 continuasse a
tocar, não ouviu que de Santo Ildefonso os cornetas tinham feito o
signal de _alto_--_meia volta_. Ia a proseguir na marcha quando
presenceou que dois soldados da guarda fiscal, sahindo da fórma, se
dispunham a disparar as armas contra a municipal. Correu para elles e
gritou-lhes:
--Não atirem!... A guarda não nos faz mal!...
[Ilustração: Basilio Telles 1891]
Os homens entraram na fórma e elle então, collocando-se á frente da
columna, levantou os braços, como pretendendo affirmar á municipal que a
attitude dos sublevados era pacifica. De nada valeu esse expediente. A
guarda, fazendo pontarias baixas, deu uma descarga que lançou o maior
panico nas forças da revolta e nos populares que pejavam a rua de Santo
Antonio. A marcha deteve-se. Uma commoção violenta agitou aquella massa
compacta. N'um segundo, ou em menos d'um segundo, produziu-se um grande
e precipitado movimento de recuo. Os populares, como por instincto,
penetraram nas fileiras da columna procurando um abrigo. Impellida
pela força collossal d'essa enorme multidão, a columna dissolveu-se,
desordenada e a breve trecho a rua de Santo Antonio ficou juncada de
corpos inanimados e dos despojos das victimas. O capitão Leitão, ferido
na cabeça, abrigou-se n'uma casa proxima, acompanhado de dois
corneteiros e d'uma praça da guarda fiscal e mandou fazer repetidos
toques de cessar fogo. Trabalho inutil. A guarda municipal, abrigada por
detraz de pedras continuou a alvejar a rua de Santo Antonio, respondendo
áquelles toques com tiroteio renhido.
Entretanto, no meio de todo esse panico, os soldados revoltados ou se
agrupavam junto de alguns portaes ou se deitavam no chão, offerecendo o
menor alvo possivel ao fogo da guarda. E, emquanto tiveram munições,
responderam com valentia ao ataque da força fiel ao regimen monarchico.
Esses heroicos combatentes eram principalmente da guarda fiscal e de
caçadores 9, porque o regimento de infantaria 10, estando no fundo da
rua de Santo Antonio ao começar o tiroteio, fôra forçado a recuar até á
casa da camara. E assim se sustentaram n'um ou n'outro ponto da rua,
quasi sempre expostos aos projecteis da municipal, atirando sobre os
adversarios com uma serenidade extraordinaria, desafiando impavidamente
a morte.
Em certa altura, ouviram-se na praça de D. Pedro os primeiros tiros da
artilharia. A bateria da Serra do Pilar intervinha na lucta para lhe pôr
o ponto final. Os revoltados até então escalonados na rua de Santo
Antonio desceram até ao edificio municipal e ahi se reuniram ás forças
do 10, que se tinham concentrado n'esse ponto desde o começo da refrega.
O capitão Leitão, havendo conseguido, depois de abandonar a casa onde se
abrigara, chegar por entre quintaes e escalando muros até á Praça Nova,
ainda procurou com as forças reunidas na casa da camara operar um
retorno offensivo sobre a guarda municipal. Mas não houve meio, ou
melhor, já era tarde para tentar a sortida. Pequenas fracções da guarda,
protegendo a bateria de artilharia postada nos angulos dos Loyos e de S.
Bento, começaram a atacar os sublevados encurralados nos paços do
concelho e um tiro de peça, arrombando a porta do edificio, mostrou
áquelles valentes que a situação se definia, irremediavelmente como a
derrota da Republica.
O capitão Leitão abandonou a casa da camara e d'ahi a pouco os outros
combatentes imitaram-n'o, terminando a lucta cerca das 9 da manhã.
Durara duas horas.
Por este relato é facil de vêr que a victoria alcançada pela guarda
municipal foi mais devida á excessiva _boa-fé_--chamemos-lhe assim--das
tropas revolucionarias do que á coragem dos soldados fieis á monarchia.
Se as forças revolucionarias houvessem marchado sobre a praça da Batalha
em disposição hostil, o resultado do choque sangrento teria sido, sem
duvida, bem diverso. O proprio capitão Leitão reconheceu isso mesmo no
conselho de guerra a que foi submettido:
--Se eu adivinhasse que tratava com tal gente--disse elle, referindo-se
ás forças do commando do major Graça--eu procederia d'outra forma e hoje
não me alcunhariam de imbecil. Eu avançava com a maior serenidade e nem
mesmo me passava pela mente que ia para um ataque. Suppunha-os
plenamente seguros e, como já disse, tinha razões para isso. Se eu
entendesse, se eu suspeitasse do que me esperava, não teria receio algum
de os atacar.
«Não era a guarda municipal, que de poucas forças dispunha, pois não
estava toda reunida (e nem mesmo que o estivesse) que derrotaria as
forças do meu commando. Cercal-a-hia, e isso sem grandes planos
estrategicos e forçal-a-hia a render-se, sem mesmo disparar um
tiro. E não se daria a grande desgraça que se deu. Eu envolvia a guarda
e ella não poderia resistir. Não lhes chamem, pois, valentes, porque o
não são. Estava espantado de um tal procedimento. «Eu não ia para
isto»--disse na casa onde entrei. E esta é a verdade; a prova é que
alguem que ouviu a minha phrase já aqui a referiu. Não digo isto para
declinar responsabilidades, porque não quero declinal-as...»
Incontestavelmente, a guarda municipal não poderia manter-se nas suas
posições; e, nem pelo numero nem pela dextreza, conseguiria offerecer
uma resistencia demorada. Alem d'isso, não estava suficientemente
instruida no manejo da espingarda Kropatschek, que só muito pouco tempo
antes da revolta lhe fôra distribuida; o serviço especial de policia, em
que era empregada, não lhe permittia evolucionar convenientemente em
combate. Pelo contrario; os seus adversarios, tendo passado pela
carreira de tiro em exercicios reiterados, estavam perfeitamente aptos
para se medir com ella e para a subjugar sem esforço sensivel ou grande
dispendio de munições. E a prova é que a guarda se conservou sempre na
defensiva, abrigada pelas varandas de pedra que guarnecem as escadas e
patamares que dão accesso á egreja de Santo Ildefonso e só mudou de
attitude quando a bateria de artilharia, rompendo o fogo contra o
edificio municipal, rematou a contenda.
Emquanto, na rua de Santo Antonio e na praça Nova se desenrolavam os
acontecimentos que acabamos de narrar, as guardas de revoltados que
haviam ficado nos quarteis impediam que ali entrassem os respectivos
officiaes não adherentes ao movimento e que o mesmo movimento
surprehendera ainda no leito ao romper da manhã de 31 de janeiro.
No quartel de caçadores 9, por exemplo, ficara uma força sob o commando
do sargento Galho, que mandara armar todas as praças que ali estavam,
collocando-as ás suas ordens. Instantes depois do regimento ter sahido
para a revolta, essa força avistando na rua de S. Bento um troço da
guarda municipal, fel-a dispersar com uma descarga. E desde manhã até ao
começo da tarde, todos os officiaes que tentaram penetrar no edificio
foram respeitosamente prevenidos pelo sargento Galho de que desfecharia
sobre elles a sua espingarda.
[Ilustração: Bombardeamento da Camara Municipal pelas tropas fieis ao
Governo]
Só ás tres horas é que esse valente militar se rendeu, abandonando o
quartel ao dominio dos vencedores. O capitão Almeida Soares que
havia tomado conta da guarda á cadeia da Relação, appareceu á porta
principal d'aquelle edificio e intimou o sargento a entregar-se-lhe.
--Não, respondeu o revoltado.
--Mas isso é uma loucura, insistiu o capitão. A insurreição já está
suffocada.
--V. ex.ª dá-me a sua palavra de honra?
--Dou.
Então o sargento Galho disparou a espingarda para o ar e franqueou as
portas do quartel ao capitão Almeida Soares.
Em infantaria 10 as cousas passaram-se d'outro modo. Ahi a guarda ao
quartel, composta d'um cabo e varios soldados conseguiu, ás primeiras
ameaças, que os officiaes não tentassem sequer empregar a sua
auctoridade hierarchica para a demover do proposito em que se
encontrava. Todos elles, percebendo a inutilidade de qualquer esforço
n'esse sentido, dirigiram-se á casa do commandante do regimento e só
mais tarde, quando a revolta se considerou completamente suffocada é que
conseguiram submetter a guarda do quartel e as praças que retiravam da
lucta que se travara.
Mas, facto digno de registo: tanto n'um como n'outro quartel não se
produziram violencias--aliás comprehensiveis n'um momento como esse de
fundamentada agitação e irresistivel anormalidade. Violou-se é certo, a
disciplina. Nem a revolução era possivel sem esse delicto. Mas ninguem
faltou ao respeito individual pelos officiaes que não quizeram adherir
ao movimento.
CAPITULO XVII
A noite negra do traidor Castro
O destino de trez officiaes
Relatados assim os factos que caracterisaram essencialmente a revolta,
desde o primeiro viva á Republica soltado pelo sargento Abilio até á
_reconquista_ dos paços do concelho pela guarda municipal victoriosa,
não é demais uma referencia embora ligeira ao homem que, atraiçoando os
seus camaradas, contribuiu de algum modo para que a noticia do movimento
se divulgasse prematuramente e o contrariasse em mais d'um ponto. Esse
homem, já o dissemos n'outro logar d'esta desataviada narrativa, foi o
sargento Castro.
«Tendo assistido á reunião da rua do Laranjal--contou elle em conselho
de guerra, depondo como testemunha accusatoria dos implicados na
revolta--vi, com espanto, que se tratava d'uma representação dos
sargentos ao governo, elaborada em termos taes, que era mais uma ameaça
do que um pedido. Á reunião presidiu o alferes Simões Trindade. Pretendi
tomar a palavra, para combater a forma como fora escripto esse
documento, mas a maioria dos assistentes abafou as minhas palavras e eu
retirei-me do local. _No dia seguinte ao da reunião, procurei o capitão
Sarsfield e narrei-lhe o succedido, para evitar que mais tarde me
calumniassem_...»
Mas a delação do sargento Castro não ficou por aqui. Provocando com essa
narrativa ao capitão Sarsfield as perseguições que as auctoridades
militares moveram dias antes da revolta aos officiaes inferiores da
guarnição do Porto, o traidor, na tarde do dia 30, voltou a avisar
aquelle capitão de que o movimento rebentaria na madrugada do dia
seguinte. Fez a denuncia e sahiu do quartel do 18, disposto a não tornar
a entrar lá dentro, porque receiava justamente que os seus camaradas de
regimento, sabedores do seu acto ignobil, lhe arrancassem a pelle. Ás 11
da noite, porem, como tivesse deixado ficar no edificio a guia de marcha
para Lisboa--o sargento Castro fora mandado apresentar com urgencia no
ministerio da guerra--arriscou-se a penetrar novamente alli e falou ao
capitão Fumega, que era o official de inspecção. O capitão, mal o viu,
aconselhou-o a que se retirasse, accrescentando:
--Olhe que a sua vida corre perigo... Alguns sargentos querem matal-o
por não haver adherido á conjura...
--Não tenho medo, respondeu o traidor, encaminhando-se para a secretaria.
Nessa dependencia do quartel estavam reunidos o coronel Lencastre de
Menezes e o capitão Sarsfield. O coronel dirigiu ao sargento Castro
conselho identico ao que já lhe dera o official de inspecção:
--O senhor desappareça do edificio, porque a sua presença aqui pode
provocar um conflicto grave...
--Vim buscar a guia de marcha, replicou o traidor.
--Isso é o mesmo... Diga onde quer que eu lh'a mande amanhã de manhã...
O sargento Castro obedeceu. E abandonando o quartel foi tomar café.
Depois como se fazia tarde, lembrou-se de ir dormir a uma hospedaria da
praça de Santa Thereza. Quando parou á porta, principiava a accentuar-se
nas ruas o movimento das tropas insurrecionadas. Tremeu de medo. O seu
acto infame seria, indubitavelmente castigado e castigado com rigor,
pelas forças que aclamavam a Republica. Receiando que o vissem e
lhe pedissem estreitas contas da delação foi para a esquadra dos
Carmelitas e alli supplicou que o não entregassem aos revoltados pelos
motivos acima expostos e que reproduziu entre lamentos cobardes ao
commandante da força policial.
Durante hora e meia, conservou-se recolhido n'esse abrigo, estremecendo
a cada ruido indicativo da victoria dos insurrectos. Passado esse tempo
veiu ordem do quartel do Carmo para toda a policia da esquadra dos
Carmelitas--como das outras esquadras--auxiliar as evoluções das tropas
fieis á monarchia. A esquadra ficou deserta. Cheio de terror,
sentindo-se isolado no transe mais angustioso da sua vida, o sargento
Castro acabou por tambem abandonar a esquadra e foi para o quartel do
Carmo, onde suppunha estar em maior segurança. Ahi, apresentou-se ao
official de inspecção e este vendo que elle ainda não tinha seguido para
Lisboa, apesar da ordem urgente que recebera, prendeu-o incommunicavel
e, no dia immediato, fel-o transportar para bordo da corveta _Sagres_.
Na corveta detiveram-no por vinte e quatro horas e só o puzeram em
liberdade quando o commandante do 18, intercedendo em seu favor,
informou as outras auctoridades militares do papel repugnante que o
prisioneiro desempenhara na insurreição...
Fechemos aqui a historia do traidor Castro e sigamos o destino dos trez
officiaes combatentes que se salientaram nas diversas phases do
movimento revolucionario. O capitão Leitão, acabada a lucta na casa da
Camara, refugiou-se nas proximidades do quartel de infantaria 10 e ás 8
da noite de 31 foi ao domicilio do tenente Coelho que ahi se acolhera
apoz a derrota. O tenente Coelho, surpreso, de o ver, exclamou:
--Como, pois tu aqui?
--É verdade, replicou o valente official. Que fazer agora?
--Meu caro, ou fugir ou apresentarmo-nos no quartel general. Para o caso
de nos expatriarmos é preciso dinheiro que eu não tenho...
--Nem eu. Comtudo, talvez um amigo m'o empreste.
--Pois bem, concluiu o tenente Coelho, se conseguires o dinheiro
necessario aos dois vem á minha casa ás duas da madrugada; se não
alcançares senão o sufficiente para ti, vae só e sê feliz...
O capitão Leitão sahiu e não tardou a apparecer ao seu companheiro de
lucta. Na madrugada de 1 de fevereiro, montou a cavallo e dirigiu-se a
Oliveira de Azemeis. «Aqui, dil-o uma testemunha presencial, apesar de o
reconhecerem, as auctoridades não o perseguiram e elle seguiu para
Albergaria-a-Velha, no intuito de comer alguma cousa. Quando chegou a
essa localidade, estava o padre, que tem a alcunha de _O Sopas_,
conversando com varios individuos ácerca dos acontecimentos do Porto.
Este padre tinha sido, durante doze dias, hospede de cama e meza do
capitão Leitão. Ao vêr o cavalleiro, exclamou:
--«É elle!...
«Alguem recommendou ao _Sopas_ que não denunciasse o fugitivo. Mas o
padre approximou-se acto continuo do cavalleiro e disse-lhe:
--«O senhor é o capitão Leitão!
--«Não, não sou, respondeu o interpellado.
«Mas, logo a seguir, commovido, fraco--havia muitas horas que não
comia--o capitão Leitão succumbiu e cahiu com uma syncope. O padre
procurou o administrador e este tomando conta do foragido, encerrou-o na
cadeia. Na prisão, o capitão Leitão teve nova syncope. Quando d'alli
sahiu, no meio da escolta que o devia acompanhar ao Porto,
dirigiu-se ao povo em phrases sentidas e a commoção que provocou foi tão
intensa, que muita gente derramou sinceras lagrimas.»
No trajecto de Albergaria-a-Velha para aquella cidade, o capitão Leitão
observou ao commandante da escolta:
--Sabe uma cousa... Não triumphámos na revolta de 31 porque fomos trahidos.
--Mas quem os atraiçoou no fim de contas... perguntou o commandante.
--Sou bastante generoso para não denunciar ninguem!
Na cadeia da Relação, o capitão Leitão mostrou-se por vezes
excitadissimo e nunca cessou de solicitar do respectivo director que lhe
consentisse vêr o filho--um rapazito de quatorze annos que ia alli
levar-lhe a comida. No dia 6 de fevereiro á tarde, satisfizeram-lhe o
desejo. E elle então, ao avistar a creança, ajoelhou, exclamando:
--Perdoa-me, assassinei-te!...
O tenente Coelho, esse, apresentou-se no dia 1 de fevereiro, no quartel
general, aqui entregou a sua espada ao sub-chefe de estado-maior, que
lhe deu voz de prisão e foi em seguida conduzido para o castello da Foz,
onde ficou custodiado á vista.
O alferes Malheiro, ao que depois se affirmou, tendo sido derrubado na
rua de Santo Antonio pelos populares que fugiam das descargas da guarda
municipal, acolheu-se á casa d'um amigo, d'onde mais tarde passou para
uma quinta do Douro e d'aqui para a Povoa do Varzim. Na Povoa embarcou
n'uma canoa de pesca para a Galliza e de Vigo seguiu mais tarde para a
America do Sul.
A maledicencia não poupou nenhum d'esses tres homens. Vendo-os
derrotados, entreteve-se a assacar-lhes varias infamias, como se
fosse necessario cobril-os de opprobrio para mais facil apotheose dos
vencedores. Os jornaes da epocha, porém, registam diversos documentos
que ao mesmo passo que evidenciam a qualidade dos manejos tecidos para
denegrir a situação dos tres officiaes, demonstram egualmente que todos
elles investiram de frente contra as insidias e calumnias espalhadas nos
orgãos da monarchia. Vejamos, em primeiro logar, esta carta do capitão
Leitão publicada, já depois de elle ter sido julgado e condemnado em
conselho de guerra:
«_Sr. redactor do «Seculo»_:--Informa o _Dia_ que minha esposa
supplicára do general Scarnichia commandante da 3.ª divisão militar, o
auxilio da rainha de Portugal em seu favor e que a soberana ia, com
effeito, conceder-lh'o bem como a meus dois filhos. Achando-me eu
separado ha annos da senhora de quem se trata, cumpre-me declarar em
vista de tal informação, que nem sou solidario com os seus actos nem
d'elles assumo a menor responsabilidade. Cumpre-me outrosim accrescentar
quanto a meus filhos que a situação d'estes é perfeitamente independente
da de minha esposa e se acham felizmente ao abrigo da regia
philantropia. Lamentando que um tal facto me obrigasse a vir á imprensa
desvendar um recanto da minha vida intima, etc.--_Antonio do Amaral
Leitão_.»
Trechos d'uma carta do tenente Coelho:
«_Sr. redactor do «Diario Popular»_:--Tive por acaso conhecimento de que
um jornal de Lisboa, no furor de fazer _reportage_, a proposito dos
lamentaveis successos do dia 31 de janeiro se refere a um incidente da
minha vida de estudante, deturpando-o e commentando-o de um modo
insultante para mim. Indigna-me a cobardia; porque é facil e pouco
perigoso insultar um preso que tem a absoluta impossibilidade de
desforçar-se. Não fui eu o unico a quem aconteceu aquelle incidente, mas
fui o unico que por elle respondi, sendo absolvido por unanimidade no
conselho de guerra respectivo. Outros mais felizes obtiveram as suas
cartas apesar de identicos incidentes.
[Ilustração: Tenente Coelho (1891)]
«Pois embora tivesse sido denunciado por um camarada, não deixei de lhe
perdoar o muito que soffri pelo muito que os dignos officiaes que
compunham o corpo docente da escola do exercito me beneficiaram a mim. E
desde que vesti a minha farda de official, desde janeiro de 1883, posso
erguer bem alta a cabeça, que na minha vida não ha uma acção que me
deslustre! Tenho por testemunhas toda a população de Villa Real, onde
sempre tenho vivido e os officiaes que commigo serviram em infanteria
13. Desafio quem quer que seja a desmentir as minhas palavras.
Transferido violentamente e violentamente exonerado de ajudante de
infanteria 13, como o prova o sr. conde de Villa Real, pelo simples
facto de eu ser progressista, partido em que trabalhei afanosamente, bem
podera ter ficado no mesmo logar se quizesse transigir com o partido
regenerador, como pode proval-o um dos homens mais honrados e illustres
d'esse partido, o sr. dr. Antonio de Azevedo Castello Branco. Mas não. O
meu dever era não abandonar o partido em que me alistára e assim o fiz,
apesar dos innumeros sacrificios que isso me custou.
«Tendo um grande amor ao trabalho e ao estudo, todo Villa Real sabe e
todos os que me conhecem testemunham como eu desde as 6 horas da manhã
até ás 6 ou 7 da tarde, áparte as horas em que cumpria os meus deveres
officiaes, leccionava varias disciplinas para angariar meios de
subsistencia para a minha numerosa familia sem me arredar um ponto da
linha recta da honra e da dignidade.--_Manuel Maria Coelho_.»
Uma carta do alferes Malheiro:
«_Sr. redactor do «Jornal de Noticias»_:--Tendo lido em diversos
periodicos que eu tentara alliciar a força da guarda do meu commando, a
fim de me acompanhar na revolta e que essa força não adheriu devido ao
procedimento energico do 2.º sargento Benigno, que disse não abandonar o
seu posto emquanto tivesse munições, tenho a declarar muito
terminantemente que são falsas taes versões.