companhias formaram na parada do quartel sob o commando dos sargentos e
emquanto dois d'elles, Galho e Bandarra, e algumas sentinellas
procuravam impedir que o coronel Malheiro, o official de inspecção e o
tenente ajudante saissem dos aposentos e se mostrassem aos soldados, o
1.º sargento Abilio[A] soltou o primeiro grito de _Viva a
Republica_!--calorosamente repetido por todos os seus subordinados.
Entretanto, apesar de todas as precauções tomadas pelos revoltosos,
o coronel e o tenente-ajudante appareceram na parada e o coronel,
dirigindo-se ao 1.º sargento, exprobou-lhe em phrases paternaes a sua
attitude:
--Tambem você, Abilio... e eu... que era tão seu amigo!
--Meu coronel--respondeu o interpellado--v. ex.ª dar-nos-hia grande
prazer se viesse commandar o regimento.
--Isso não...
--Nesse caso, v. ex.ª fica e nós sahimos.
O tenente-ajudante chorava que nem uma creança e pedia a todos os
sargentos que desistissem da sua audaciosa sortida, empregando os
maiores esforços n'esse sentido. O coronel Malheiro ainda tentou falar
ao regimento, para o demover do seu proposito e por ultimo exclamou para
o 1.º sargento Norberto, que, como mais antigo, commandava o corpo:
--Mande retirar essa gente para as casernas!
--Agora já é tarde, meu coronel; não pode ser...
E logo a seguir, o mesmo 1.º sargento deu as vozes do estylo:
--_Direita volver, ordinario marche_...
A intervenção do coronel Malheiro falhara por completo.
Caçadores 9, sahindo do quartel, subiu em boa ordem a rua de S. Bento e
dirigiu-se á cadeia da Relação, onde estacou. A guarda á cadeia,
fornecida por aquelle corpo, era commandada pelo alferes Malheiro. Desde
que nenhum dos officiaes, conhecidos como republicanos, que estavam
dentro do quartel, tinha querido assumir o commando do regimento, os
sargentos lembraram-se durante o trajecto de o offerecer áquelle
subalterno, que sabiam tambem professar ideias democraticas. E um
d'elles, abeirando-se da porta da casa da guarda, gritou para dentro:
--Ó sr. Malheiro, venha d'ahi...
O alferes não sahiu e a mesma voz tornou a insistir:
--Ó sr. Malheiro, tome o commando do regimento, porque o official de
inspecção não quiz acompanhal-o...
O alferes então accedeu ao convite e voltando-se para o sargento da
guarda recommendou-lhe que vigiasse bem o edificio da cadeia, não fossem
os presos aproveitar o ensejo para se evadirem. Ninguem se lembrou,
n'esse momento, que lá dentro estava João Chagas e que era natural
gosasse immediatamente da liberdade para collocar o seu nome, o seu
talento, o seu esforço individual e a sua energia ao serviço da
revolução. Pensou-se apenas--e n'isso o alferes Malheiro deu provas de
extraordinario sangue frio--em deixar guarnecida a prisão, com o receio
de que o menor descuido fizesse extravasar para as ruas do Porto a
grande massa de criminosos ali agglomerada.
Liquidado este incidente, caçadores 9 proseguiu a sua marcha em direcção
ao grupo de Santo Ovidio. Dentro de pouco reunia-se-lhe o de infantaria 10.
As condições topographicas do quartel que então alojava o segundo
d'aquelles regimentos permittiram que elle formasse na parada interior
sem que o official de inspecção desse por tal. Ás 2 e meia da madrugada,
um dos revoltados foi avisar o capitão Leitão, que morava proximo e que
não tardou a comparecer no edificio. Dirigiu-se logo á arrecadação, poz
um capacete na cabeça e tendo inquirido dos outros officiaes
compromettidos na conjura foi esperal-os para um caramanchão. Estava bem
longe de suppôr que uma vez chegado ao Campo de Santo Ovidio, teria que
assumir o commando superior das forças revoltadas...
Os minutos, no emtanto, iam decorrendo e como não apparecessem no
quartel outros officiaes republicanos, um sargento veiu convidar o
capitão Leitão a seguir immediatamente com as forças para o campo de
Santo Ovidio. Assim se fez e o regimento marchou em acelerado para o
local da concentração. Á entrada na rua da Rainha, encontrou o tenente
Coelho, que fora chamado ao quartel por um grupo de cabos. O tenente
Coelho conferenciou rapidamente com o capitão Leitão, trocou o kepi que
levava pelo capacete do 1.º sargento Vergueiro e assumiu o commando do
2.º pelotão de infantaria 10. No Campo de Santo Ovidio, os dois
regimentos formaram d'este modo: o de caçadores 9, em quadrado, proximo
da porta principal do quartel de infantaria 18; o de infantaria 10 em
dois circulos na outra extremidade do Campo.
Concluida a formatura, os soldados e os civis já então ali agglomerados
começaram a dar vivas ao regimento de infantaria 18 para o decidir a
cooperar na insurreição. Outras vozes elevaram-se:
--Viva a Republica!
--Viva o exercito!
--Abaixo a monarchia!
Momentos depois, o destacamento de cavallaria 6, alojado n'uma das
dependencias do quartel do 18, sahindo pela porta posterior do edificio,
veiu a galope formar em linha parallela á fachada. As saudações e os
vivas redobraram de intensidade. Ao mesmo tempo convergiam para o campo
as forças da guarda fiscal. O cabo João Borges apresentou-se á frente de
87 praças de infantaria e o 2.º sargento Silva commandando 24 praças de
cavallaria da mesma guarda. Quer dizer: ás 4 da manhã de 31 todas estas
forças estavam revolucionadas e só aguardavam a sahida de infantaria 18
para iniciarem marcha contra o inimigo monarchico, apenas
representado, dentro do Porto, pela guarda municipal e a policia civil.
Varios officiaes superiores tentaram, emquanto o 18 não appareceu no
local, fazer voltar aos respectivos quarteis as outras forças
sublevadas. O primeiro foi o major Graça, da _guarda pretoriana_.
Sahindo do quartel do Carmo, á frente de infantaria e cavallaria,
dirigiu-se ao Campo da Regeneração e chamando o commandante de caçadores
9 já ali estacionado, intimou o alferes Malheiro a render-se.
--Agora é tarde, respondeu o official revolucionario.
--Ainda não é...
Um cabo que ouvira a intimação exclamou:
--Se é militar, eu tambem o sou; se é portuguez egualmente o sou; mas
não posso soffrer esta tyrannia por mais uma hora!
O major Graça, em resposta, bradou:
--Querem então que haja derramamento de sangue, e sangue portuguez,
n'estes dolorosos momentos por que está passando a patria? Pois seja...
Um individuo da classe civil ia, n'esta altura, a arengar qualquer cousa
aos soldados, mas os militares oppuzeram-se, dizendo-lhe:
--Cale-se; aqui só a tropa tem voz activa.
O major Graça dispoz as suas forças nas ruas da Lapa e de Germalde e foi
dar ordens ao quartel de S. Braz. D'ahi a pouco entrou no Campo de Santo
Ovidio o sub-chefe do estado maior da divisão, tenente-coronel Fernando
de Magalhães. Encaminhou-se para o 2.º pelotão de infantaria 10 e
perguntou pelo seu commandante. Respondeu-lhe o tenente Coelho.
--Que estão a fazer aqui? disse o sub-chefe.--Mande retirar essa gente
para o quartel. Os senhores são uns doidos...
--Não é possivel, replicou o tenente. Estou sob as ordens d'um
capitão do meu regimento e, tendo sahido do quartel, insurrecionado,
para proclamar a Republica, já é tarde para recuar.
--Quem é esse capitão que commanda o seu regimento?
--O capitão Leitão.
E dizendo isto, o tenente Coelho apontou ao sub-chefe o sitio onde elle
se encontrava. Junto do commandante de infantaria 10, o sr. Fernando de
Magalhães empregou quasi as mesmas palavras:
--Mande recolher essa pobre gente a quem está a comprometter.
--D'aqui não sae ninguem, respondeu o capitão, a carta está jogada e
vamos até ao fim!...
A seguir, o tenente coronel ainda formulou novo conselho de retirada ao
alferes Malheiro, mas ninguem lhe obedeceu, como, de resto, tambem lhe
não obedeceriam se elle, em vez de meios suasorios, procurando impôr o
prestigio da sua personalidade, tivesse tentado outros processos mais
violentos.
Deixemos as forças revoltosas especadas no campo de Santo Ovidio e
cercadas por todos os lados pela guarda municipal e vejamos o que se
passava no quartel de infantaria 18. A insurreição d'este regimento não
fora levada a cabo com tanta facilidade como a de caçadores 9 e
infantaria 10, por causa das prevenções tomadas pelos officiaes. Um dos
sargentos do 18, que assistira á reunião na rua de Santa Catharina, ao
regressar ao quartel recebera ordem de detenção e só por um prodigio de
astucia é que, illudindo a vigilancia do official de inspecção,
conseguira dar conhecimento das deliberações tomadas na mesma reunião
aos sargentos de cavallaria 6. Ainda assim, á hora marcada para a
revolta, as companhias, á ordem dos officiaes superiores, começaram a
formar as casernas.
[Ilustração: Proclamação da Republica]
Presentindo o movimento, alguem quiz evital-o, mas inutilmente. D'uma
janella do primeiro pavimento, o tenente-ajudante arengou ás forças que
já estavam na parada, mas dois tiros disparados na direcção d'essa
janella cortaram-lhe o discurso. O coronel do regimento, Lencastre de
Menezes, mostrando uma indecisão extraordinaria, ordenou a varios
officiaes que sahissem do quartel a indagar que forças estavam formadas
no campo.
Decorrido algum tempo, os sargentos do 18 compromettidos na revolta,
julgando que nem todos os seus camaradas adheriam á insurreição e que a
sahida do regimento não se operaria sem um impulso energico,
soltaram gritos furiosos de traição!--e assim conseguiram arrastar um
grosso contingente de soldados--quasi duas companhias--para junto dos
revoltosos do 9 e do 10. Mas o portão do edificio voltou a fechar-se
sobre a sahida d'essa força e os instantes foram passando sem que o
regimento adoptasse uma attitude definida em conjunctura, como essa, tão
critica.
Era necessario, na verdade, tomar uma resolução. Apoz alguns momentos de
reflexão, em que os officiaes revoltados trocaram impressões sobre o
caso, infantaria 10 e caçadores 9, formando a quatro, encaminharam-se
para a parte posterior do quartel do 18 e estacionaram em frente da
egreja da Lapa. As forças da guarda municipal, sob o commando do major
Graça, retiraram prudentemente e, deixando livres as ruas que conduzem
ao campo de Santo Ovidio, foram estacionar para a praça da Batalha,
junto do quartel general e do telegrapho.
A multidão, que a cada instante crescia, misturava aos das tropas os
seus vivas atroadores. «No rosto de toda a gente havia a expressão d'uma
alegria indizivel. Por vezes, os mais enthusiasmados rompiam as fileiras
e iam abraçar um sargento ou um soldado, victoriando-os, acclamando-os.
Era tão quente o arrebatamento, tão ardente aquella ruidosa alegria que
a doce e consoladora esperança na victoria revolucionaria penetrava em
todos os corações, dissipando vagos receios que a longa inacção das
tropas fizera despertar.»
Tratava-se agora de invadir o quartel de infantaria 18 e impellir de
qualquer maneira esse regimento para a revolta. Os populares que se
tinham collocado na vanguarda das forças do 9 e do 10 fôram a uma
estação de incendios, que havia perto, trouxeram de lá dois machados e
abriram um rombo na porta do quartel do lado da Lapa, que o coronel
Lencastre de Menezes fizera pouco antes barricar. Soldados e populares
iam, certamente, a entrar de tropel no edificio e travar lucta com os
elementos hesitantes, quando o actor Miguel Verdial, tendo, n'um
relance, a visão da provavel carnificina--o quartel era habitado por
muitas familias--exclamou para os invasores:
--Suspendam, que eu vou parlamentar com o coronel.
Cá fóra, os vivas ao regimento de infantaria 18 eram calorosos e sem
interrupção.
Atraz de Miguel Verdial, entraram no quartel Santos Cardoso e outros
individuos da classe civil e por fim o capitão Leitão commandando uma
força dos dois regimentos revoltados. Santos Cardoso, gesticulando como
um possesso e ameaçando a officialidade do 18 de ser riscada do exercito
caso não adherisse á Republica, encaminhou-se para junto do coronel
Lencastre e disse-lhe:
--A esta hora estão quarenta e quatro regimentos sublevados, o
telegrapho na nossa mão, o rei a embarcar: não queira V. ex.ª ser a
unica nota discordante.
--Deixe-me, replicou o coronel, eu não sou republicano nem monarchico.
Sahirei d'aqui a pouco.
O capitão Sarsfield, que estava proximo, accrescentou:
--Visto que vae parte do nosso corpo, vamos tambem.
Por seu lado, o capitão Leitão tambem procurou convencer o coronel a
acompanhar os revoltosos. E, ao cabo d'alguns momentos, conseguiu
effectivamente d'elle essa promessa, que mais tarde, nos conselhos de
guerra, varios officiaes do 18 se empenharam em negar tivesse sido
feita. Emquanto isto se passava, uma força da guarda municipal
commandada por um tenente apparecia no largo da Lapa a enfileirar
ao lado de infantaria 10. Depois, por conselho do tenente Coelho,
punha-se novamente em marcha e seguia pela rua que ladeia á esquerda o
quartel do 18.
D'ahi a pouco, o capitão Leitão, sahindo d'aquelle edificio, voltava
para junto das forças sublevadas e communicava aos officiaes ás suas
ordens:
--O 18 vem já. Nós seguimos para a Praça Nova e lá o esperamos. O
commandante disse-me que vinha em breve: que estando elle e quasi todos
os officiaes presentes no quartel era necessario tomar certas medidas de
ordem e segurança e que convinha reunir o conselho administrativo antes
do regimento sahir.
Mas não era só o capitão Leitão que affirmava isto. Militares e civis,
todos quantos sahiam n'aquella celebre manhã do quartel de infantaria 18
asseveravam que o coronel Lencastre de Menezes não tardaria com as
forças do seu commando a juntar-se aos insurrectos. E faziam-no,
certamente, por terem ouvido ao official já citado palavras muito
nitidas a tal respeito. Mais tarde, nos conselhos de guerra,
pretendeu-se desmentir tudo isso, e embora tivesse sido aconselhado ao
capitão Leitão e aos outros reos que não aggravassem a sua situação com
accusações a officiaes superiores que não estavam mettidos no processo,
a verdade é que das acareações feitas em pleno tribunal militar resultou
o convencimento geral de que só por um mero acaso não soffreram o
castigo imposto a certos dos conspiradores outras creaturas de maior
patente e mais graves responsabilidades.
[A] O 1.º sargento Abilio, hoje tenente n'um regimento de
infantaria, apoz o mallogro da revolta de 31 de janeiro, deixou
crescer a barba e prometteu á esposa que só a faria rapar no dia em
que em Portugal fosse definitivamente proclamada a Republica. Quando
rebentou a revolução de 4 e 5 de outubro, a esposa, que estava em
Espinho, telegraphou-lhe para o Porto, anciosa, a pedir noticias. O
1.º sargento Abilio dirigiu-se á estação da praça da Batalha e
depositou um telegramma de resposta em que dizia: «_Estou bom; foi
proclamada a Republica_». O empregado dos telegraphos recusou
acceitar a communicação.
--Porque não acceita? perguntou-lhe o antigo revolucionario do 31.
--Porque ahi diz que foi proclamada a Republica e a noticia ainda
não é _official_.
--Bem... não ha duvida, redijo outro telegramma.
E redigiu. A esposa, quando o recebeu delirou de contentamento e foi
mostral-o a umas pessoas amigas. Mas estas, lendo o texto, não se
contiveram que não observassem:
--Seu marido mandou-lhe um telegramma de troça. Pois não é?...
_Estou bom; vou fazer a barba_...
--Não é troça, não... _Se elle vae fazer a barba_ é porque _já foi
proclamada a Republica_!
CAPITULO XV
Proclama-se a Republica no edificio da Camara Municipal
Já manhã clara, as forças revolucionarias sahiram das immediações do
quartel de infantaria 18 e dirigiram-se pela rua do Almada até á praça
de D. Pedro, onde deviam occupar os paços do concelho para se effectuar
a cerimonia da deposição do monarcha reinante e da proclamação da
Republica. Segundo a formatura ordenada pelo capitão Leitão, abria a
columna, tocando a _Portugueza_, a banda, quasi completa, de infantaria
10, com alguns musicos de caçadores 9, todos sob a direcção do musico de
1.ª classe Eduardo da Silva; seguia-se-lhe a guarda fiscal e depois as
praças d'aquelles dois regimentos, as do 9 antecedendo o 10. Conta um
chronista:
«Desde que as forças começaram a marchar, sentia-se desapparecer a
oppressão que invadira todos os espiritos n'essas longas tres horas em
que, fóra ou dentro do quartel, se tentara que o regimento de infantaria
18, devidamente commandado, viesse augmentar as forças da revolta. O que
se seguiria depois parecia não preoccupar os espiritos. Acreditava-se
firmemente que o regimento de infantaria 18 estava inclinado a apoiar a
revolta. Se assim fosse nenhuma duvida poderia offerecer a victoria
decisiva da Republica; não porque a força do regimento de infantaria 18
desse ás tropas insurreccionadas uma superioridade notavel sobre as da
guarda municipal, mas pela alta significação que teria não só para a
população civil mas para o quartel general o facto das tropas sublevadas
serem commandadas por um coronel e muitos officiaes. Era evidente que,
se esse acontecimento viesse a realisar-se, as adhesões seriam
innumeraveis. Ninguem teria duvida em acceitar os factos consumados; as
garantias de victoria eram indiscutiveis; a resistencia da guarda
municipal seria nulla, sem contestação; a ordem estava assegurada.
«Animadas d'uma doce esperança, as tropas revolucionarias, ladeadas
por immensa multidão, seguiram para a praça de D. Pedro. Ao longo
da rua do Almada, desfilava a columna em formação regulamentar e
disciplinadamente. As janellas estavam todas abertas, e os habitantes
que já tinham conhecimento de que a guarnição militar da cidade sahira
dos quarteis para proclamar a Republica recebiam a noticia com manifesto
aprazimento. E assim, á medida que as forças da revolta iam descendo a
rua, ás saudações erguidas pelo povo que as acompanhava, correspondiam
das janellas, gritando:
«--Viva a Republica!
«--Viva o exercito portuguez!
«Acenavam com lenços, davam palmas, n'uma grande expansão de alegria que
punha nos corações um suavissimo calor e nos labios um sorriso de
triumpho. Nunca tão espontanea e tão calorosa manifestação se produziu
na bella cidade do Norte. Nunca o Porto, a cidade do trabalho e das
grandes virtudes civicas, fez tão enthusiastica acclamação a um exercito
victorioso, porque nunca esteve mais identificado com a ideia que esse
exercito vinha proclamando. Na rua a multidão engrossava a cada momento,
e, quando as tropas revolucionarias dobravam a rua do Almada para entrar
na praça de D. Pedro, era difficil romper por entre a massa compacta que
se agglomerava...»
Chegadas as forças á praça de D. Pedro, formaram rodeando a mesma praça
pelos lados do norte, nascente e sul, começando a linha pela guarda
fiscal e terminando por caçadores 9. O esquadrão de cavallaria 6, que
tambem acompanhava a columna, estacou na rua occidental da praça.
Pouco passava das seis horas da manhã. As acclamações despedidas pelos
populares continuavam vibrantes, enthusiasticas. De repente, abriram-se
as janellas dos paços do concelho e alguns individuos da classe civil,
entre os quaes se destacava a figura herculea de Santos Cardoso,
appareceram a dar vivas á Republica, ao exercito e aos regimentos
sublevados. Um popular, armado de espingarda, foi buscar a bandeira do
Centro Democratico Federal 15 de Novembro; Santos Cardoso agitou-a
freneticamente sobre a multidão e depois fel-a arvorar no mastro que
sobrepujava o frontão do edificio. A guarda de honra nos paços do
concelho era feita por uma força de infantaria 10 commandada pelo 1.º
sargento Vergueiro.
Decorrido algum tempo, o dr. Alves da Veiga assomou a uma das janellas
da casa da Camara e proferiu um discurso, entrecortado pelos applausos
da multidão. Depois ia a ler os nomes das pessoas que deviam constituir
o governo provisorio, mas o actor Miguel Verdial arrancou-lhe o papel
das mãos e procedeu a essa leitura. Esses nomes eram os seguintes:
_Rodrigues de Freitas._
_Joaquim Bernardo Soares_ (desembargador).
_José Maria Correia da Silva_ (general de divisão).
_Joaquim Azevedo Albuquerque_ (lente da Academia Polytechnica).
_José Ventura dos Santos Reis_ (medico).
_Licinio Pinto Leite_ (banqueiro).
_Antonio Joaquim de Moraes Caldas_ (professor).
_Alves da Veiga._
Cada um d'estes nomes foi acolhido com vivas delirantes e estrepitosos.
Proclamado o governo provisorio, a maioria dos populares que tinham
entrado na casa da Camara desceu á praça a misturar-se com os soldados,
que, diga-se sem hesitações, já começavam a sentir os effeitos d'uma
immobilidade que afinal ninguem justificava. Na varanda dos paços do
concelho ondulavam dezenas de bandeiras azues e brancas. O nevoeiro, que
de madrugada amortalhara a cidade, dissipara-se lentamente.
O capitão Leitão, vendo que, em contrario do que lhe assegurara o
coronel Lencastre de Menezes, infantaria 18 não vinha juntar-se ás
forças revoltadas, e que os minutos corriam rapidos sem que no local
apparecessem outros officiaes além dos tres que desde o começo da
revolta lhe tinham francamente adherido, approximou-se do tenente Coelho
e disse-lhe:
--Estou a perceber isto perfeitamente; fomos trahidos: _são uns
infames_. Disseram-me que a guarda municipal adheria e não a vi no
campo; que o sub-chefe de estado maior tambem vinha e eu tambem o não
vi... Aqui acontece a mesma cousa. _São homens de pannos quentes._
Talvez haja motivo para demoras. Pelo sim pelo não continuarei a esperar...
Mas os soldados mostravam desejos de seguir para a frente e um popular,
approximando-se do capitão Leitão, observou-lhe que a guarda municipal
já estava occupando a praça da Batalha, na defensiva e que era urgente
desalojal-a d'ali para se occupar o telegrapho e o quartel general.
Outro popular aconselhou-o a fraccionar as forças do seu commando.
[Ilustração: A Bandeira da Revolta que foi hasteada na Camara Municipal]
--Ora, tenha juizo, replicou o valente official. Ninguem nos hostilisa.
E, voltando-se para o tenente Coelho, acrescentou:
--Vou tomar uma resolução definitiva: vou mandar seguir pela rua de
Santo Antonio, onde me apresentarei ao general; n'um caso ou n'outro
elle dará as suas ordens...
O tenente Coelho notou que a guarda da Camara tinha desapparecido e que
era conveniente não deixar o edificio á mercê da populaça. O capitão
Leitão concordou com a ideia e mandou para os paços do concelho uma
força do commando d'um sargento. Feito isto dispoz-se a marchar em
direcção á praça da Batalha. Antes, porém, reuniu com o tenente Coelho e
o alferes Malheiro uma especie de conselho conversando os tres
sobre a attitude que d'ahi por diante deviam adoptar as tropas
sublevadas perante as outras que não manifestavam adhesão ao movimento.
O tenente Coelho registou mais tarde, do seguinte modo, as ideias que
predominaram n'essa conferencia:
«O parecer de que as forças da revolta se dividissem em differentes
fracções que por diversas ruas convergiriam na praça da Batalha,
forçando a guarda municipal que ali se encontrava a abandonar o seu
posto, atacada de frente, de revez e de flanco foi posto de parte,
porque, apesar de tudo, se tinha como certa a adhesão d'essa força desde
que as tropas sublevadas manifestassem não abandonar o seu proposito. A
guarda municipal estava informada de que o regimento de infantaria 18
apoiava a revolução; vira com que ardentes acclamações eram saudadas as
forças revolucionarias; sentia-se, portanto, isolada do resto das tropas
da guarnição e das sympathias da população civil; demais entre aquella
guarda havia um grande numero de homens que tomara parte nos
preparativos da revolta.