e faziam imprimir a minuta d'uma petição que enviaram a todos os corpos
de infantaria e caçadores, a fim de ser assignada individualmente pelos
1.os sargentos d'esses corpos e remettida ao parlamento. A petição
solicitava que a promoção continuasse a ser regulada na razão de um
terço das vacaturas que occorressem no posto de alferes.
Recebido no Porto esse documento, os sargentos da guarnição
apressaram-se a reunir para o apreciar.
CAPITULO XII
«E as armas que nos foram entregues para defeza das instituições,
voltal-as-hemos contra ellas»
Á reunião na casa da rua do Laranjal--casa habitada por um individuo da
intimidade de Santos Cardoso--presidiu o alferes de caçadores 9, Simões
Trindade, homem da absoluta confiança da classe e que com ella cooperava
no movimento da revolta. Mas os sargentos presentes, não se contentando
com o subscreverem individualmente a petição enviada de Lisboa, foram
mais longe: approvaram a minuta d'um verdadeiro _ultimatum_, ameaçando o
governo com a sedição caso elle não respeitasse a lei no tocante ás
promoções. A ameaça continha entre outras esta phrase: «..._e as armas
que nos foram entregues para defeza das instituições voltal-as-hemos
contra ellas_».
O sargento-ajudante de infanteria 18 Arthur Ferreira de Castro, que
tambem tomara parte na reunião, conseguiu obter copia do documento e
entregou-o ao capitão do mesmo regimento Alexandre Sarsfield, que, por
sua vez, o passou ao coronel Lencastre de Menezes. Estava denunciado o
proposito dos sargentos e não tardou que o ministerio da guerra, tendo
conhecimento minucioso do que se discutira na assembléa da rua do
Laranjal e de posse de uma lista de officiaes inferiores que a ella
tinham assistido, desatasse a transferir quantos se lhe affiguravam
suspeitos de republicanismo.
Quer dizer: a traição do sargento-ajudante Arthur Ferreira de Castro não
só revelou ao governo a existencia da conspiração como, provocando as
immediatas represalias, contribuiu directamente para que os
revolucionarios apressassem a sua sahida e a levassem a cabo em
condições bastante tumultuarias. «Sem a denuncia do sargento
Castro--affirma uma testemunha dos acontecimentos--os sargentos do Porto
não se teriam precipitado e a revolta, que se daria um mez ou dois mais
tarde, teria tido provavelmente um chefe militar, um estado maior bem
mais numeroso, um plano mais intelligente e, seguramente, uma maior e
mais vasta repercussão. Não seria, então, uma revolta: seria uma
revolução, incendiando pelo menos metade do paiz e á qual era de
presumir que a outra metade adherisse, dada a disposição geral dos
espiritos para uma transformação politica, que um grande numero reputava
indispensavel e que os outros acceitariam sem protesto. Assim, foi um
homem, um homem só, obscuro, desconhecido, vindo do anonymato e da
treva, que subverteu a obra da redempção do anno de 91, entravando a
evolução politica da nação, fazendo parar com seus fracos pulsos a ideia
que já se precipitava na gloria de um futuro talvez maravilhoso,
mergulhando--quem sabe?--a bella Patria portugueza na desesperação de um
incerto destino ou de um outro, porventura, funestamente irremediavel».
Ordenadas as transferencias de sargentos compromettidos no movimento,
todos elles foram procurar Santos Cardoso e instaram energicamente para
que se não addiasse por mais tempo a sua eclosão. Santos Cardoso
entendeu-se com o dr. Alves da Veiga e este, convencendo-se de que não
havia maneira de protelar a revolta embora inopportuna, tratou de, em
curto espaço, ultimar os preparativos dando certa unidade aos elementos
que, fora do Porto, o deviam secundar no momento decisivo. Santos
Cardoso ainda tentou um derradeiro esforço junto dos sargentos mais
exaltados, mas estes, vendo nas evasivas do director da _Justiça
Portugueza_ um receio injustificado, puzeram a questão n'estes
termos: «Se no dia 30 de janeiro não resolverem fazer a revolução,
sahiremos para a rua á frente dos soldados».
Não havia que hesitar. No dia 30, Santos Cardoso e o dr. Alves da Veiga
decidiram o general reformado da arma de engenharia Correia da Silva a
tomar a direcção do movimento, mas o general só acceitou o encargo «até
ao momento em que algum official superior, em effectivo serviço,
apparecesse a assumir o commando das tropas revoltadas ou ainda se os
officiaes que se apresentassem á frente d'essas tropas concordassem em
que fosse elle o chefe».
D'ahi a uma hora, effectuou-se uma reunião em casa d'uns parentes do
general, na rua de Malmerendas, reunião para que foram convocados todos
os officiaes adherentes e os individuos da classe civil destinados á
execução do plano revolucionario. Á mesma hora realisava-se n'uma casa
da rua da Alegria uma reunião de cerca de setenta sargentos e estes,
receiando que o general Correia da Silva opinasse pelo addiamento da
revolta, foram á rua de Malmerendas demovel-o d'esse proposito.
O general ouviu-os e, por fim, concordou-se em que o movimento
rebentaria na madrugada. Faltava discutir o plano revolucionario. Para
isso marcou-se nova reunião, ás 10 da noite, na rua de Santa Catharina.
Talvez n'ella comparecesse maior numero de officiaes, visto que nem
todos os compromettidos tinham recebido o respectivo aviso e a primeira
reunião na rua de Malmerendas caracterisara-se pela falta de muitos
d'esses elementos.
«Para aproveitar o tempo que decorria até se realisar essa reunião,
entendera o general, bem como o dr. Alves da Veiga, que fossem
procurados alguns officiaes de superior graduação, convidando-os a
comparecer em casa d'um conhecido negociante do Porto. Esses officiaes
eram o coronel, o tenente-coronel e um major de caçadores 9, que se
recusaram a acceder ao convite. Lembrou-se, em vista da recusa d'estes,
o nome d'outro official, que, sem ter uma graduação superior, era
comtudo muito estimado entre os seus camaradas e gosava de um notavel
prestigio entre os seus subordinados. Este alvitre, porém, não foi
aceito; por consequencia, o general Correia da Silva ficaria, até
ulterior resolução e dependendo isso das circumstancias occorrentes, com
o commando em chefe das tropas revolucionarias».
Ás 10 da noite, na reunião da rua de Santa Catharina compareceram apenas
o general, o dr. Alves da Veiga, Santos Cardoso, diversos civis, alguns
sargentos, o capitão Leitão e um alferes da guarda fiscal. Os outros
officiaes compromettidos não compareceram, ou, melhor, não foram
convidados a comparecer. Durante alguns instantes, o general e o capitão
Leitão discutiram o plano revolucionario. O primeiro entendia que as
tropas deviam concentrar-se na praça da Batalha e tomar desde logo posse
do quartel general, do governo civil e do telegrapho, cujos edificios
estão reunidos n'aquelle local. O capitão Leitão desejava que a
concentração se fizesse no campo de Santo Ovidio e contrariava a
indicação do general, porque, dizia, os revolucionarios necessitavam
antes de tudo vencer uma difficuldade: a da sahida do quartel do
regimento de infantaria 18. A respectiva officialidade, quasi toda
residindo dentro do edificio, fôra, decerto prevenida, do proposito dos
sargentos pela denuncia do traidor Castro e trataria de oppôr-se a que
elles sublevassem as praças. Por conseguinte, só com a presença dos
outros corpos nas immediações do quartel é que infantaria 18 poderia,
quebrando os laços da disciplina, cooperar na insurreição. Quanto ao
quartel general, os revoltosos contavam que o sargento commandante da
guarda o submetteria sem difficuldade.
O general Correia da Silva insistiu mais do que uma vez na superioridade
do seu plano estrategico, mas Santos Cardoso, collocando-se ao lado do
capitão Leitão, fez vingar a ideia de se effectuar a concentração das
tropas no campo de Santo Ovidio. Assentou-se tambem em que alguns dos
civis presentes procederiam á detenção das auctoridades governamentaes,
mas com a condição de não exercerem sobre ellas a menor violencia, salvo
se isso se tornasse absolutamente indispensavel ao bom exito da causa.
Do mesmo modo se deveria proceder para com os officiaes que se não
solidarisassem desde logo com o movimento. Por ultimo: o general Correia
da Silva só seria chamado ao campo de Santo Ovidio, se depois das tropas
ali concentradas não apparecessem a commandal-as officiaes d'uma certa
graduação.
Dissolvida a reunião, o dr. Alves da Veiga e outros conjurados
encaminharam-se para a loja maçonica o _Gremio Independencia_, d'onde
deviam lançar as ordens necessarias para a execução do plano pouco antes
delineado. A essa hora, no Porto, a noticia de que dentro em pouco
rebentaria a revolta já se divulgara o bastante para que a maioria da
população a não ignorasse. Mostra-o o depoimento do ex-tenente Coelho,
consignado no livro que escreveu de collaboração com João Chagas. Vamos
transcrevel-o, porque evidencia egualmente a precipitação com que,
chegado o momento decisivo, se tocou a reunir nos arraiaes revolucionarios:
«Entrando o tenente Manuel Coelho, por um mero acaso, na noite de 30 no
Café Central, que era então um verdadeiro foco de conspiração, veiu
a saber que se preparava a revolução para a madrugada immediata de 31 em
circumstancias que é conveniente registar. Depois de haver trocado
algumas palavras com um seu camarada, tomou assento a uma das mezas do
café. D'ahi a pouco acercou-se-lhe o dr. João Novaes, que lhe disse:
[Ilustração: Levantando os feridos]
«--Já sabes que a revolução se projecta para a madrugada?
«--Não, respondeu-lhe; e até me surprehende muito a noticia, porque o
capitão Leitão me viu no quartel e de nada me falou.
«--Pois toda a gente diz isso ahi á bocca cheia. Sabem-n'o todos, até
mesmo a policia.
«--Não sei de nada, e quer-me parecer que, se a noticia tivesse algum
fundamento, certamente eu teria sido procurado.
«--Tens razão, com effeito, replicou o dr. João Novaes; mas corre o
boato com tal insistencia que me parece que elle tem fundamento. Mas
eu vou já sabel-o; vou falar ao dr. Alves da Veiga.
«O dr. João Novaes sahiu. Pouco depois entravam no Café Central o
tenente da cavallaria 6 Vaz Monteiro, destacado no Porto, e o tenente
Margarido de cavallaria da guarda municipal. Aquelle veiu immediatamente
sentar-se junto de Manuel Coelho, acercando-se de ambos este ultimo,
que, logo depois de cumprimentar, disse:
«--Então sabes o que para ahi corre?... Diz-se que n'esta madrugada se
vae fazer uma revolução republicana.
«--Não ouvi ainda falar de tal.
«E a rir replicou:
«--Ah! que tu tambem estás compromettido!
«--Não, não sei de nada, podes crêr...
«E explicou que, se sabia a noticia, era por causa do impedido d'um
official de infantaria 18 que o dissera no quartel a outras praças
d'aquelle regimento. Passados momentos, entrava de novo o dr. João
Novaes, que aproveitou o ensejo para dizer que, com effeito, estava
plenamente confirmado o boato e que o dr. Alves da Veiga lhe affirmara
que a revolução se iniciaria ás 3 horas da manhã, com a sahida dos
corpos revoltados. Entretanto, iam conversando Manoel Coelho e os
tenentes Vaz Monteiro e Margarido, em assumpto differente d'aquelle que
primeiro abordaram.
«Eram já dez e meia da noite e os freguezes do café começavam a rarear.
Preparava-se Manuel Coelho para sahir, quando notou que, do guarda-vento
envidraçado do café, um individuo, que apenas havia entrevisto, uma por
outra vez, falar com o capitão Leitão, lhe fazia signal de querer
transmittir-lhe qualquer communicação. Approximou-se d'esse individuo,
que lhe disse:
«--O sr. capitão Leitão manda-me aqui para dizer a V. que deseja
falar-lhe.
«--A mim? Sabe quem sou?
«--É o sr. tenente Coelho, não é verdade?
«--Com effeito. E onde está o sr. capitão Leitão?
«--No _Gremio Independencia_. Se o consente, acompanho-o.
«Seguiram os dois. As ruas estavam inundadas e a chuva persistente fazia
caminhar rapidamente. Emfim, chegaram á rua Fernandes Thomaz, esquina da
rua de Santa Catharina, tendo atravessado por uma das ruas lateraes do
mercado do Bolhão. Subiram a longa escadaria do edificio onde estava
installado o _Gremio Independencia_ e penetraram n'uma sala do segundo
andar, onde estava reunido um grande numero de individuos. Eram os
irmãos d'esse gremio, que tinham sido convocados pelo dr. Alves da
Veiga, com o fim de encobrir a concorrencia áquella casa, de outras
pessoas estranhas á associação.
«Á volta do bilhar, jogando, andavam dois homens, um dos quaes era o
capitão Leitão, trajando á paisana: grosso jaquetão de pelles, calça
clara unida á perna e chapéo desabado. No nariz, a sua luneta de vidros
escuros, que elle usava, mais que por outro motivo, pela necessidade de
occultar a fixidez do olho direito immobilisado, quasi completamente,
pela paralysia dos musculos da face. Muito embaraçado, olhou em redor e
disse:
«--O dr. Alves da Veiga está lá em baixo; vamos falar-lhe.
«Depôz o taco e desceram ao primeiro andar. N'um pequeno gabinete
interior, cuja forma se approximava do symbolico triangulo,
encontravam-se, cada um sentado á sua meza, Santos Cardoso e o dr. Alves
da Veiga. Em pé, e como esperando ordens, estava um homem ainda novo,
pequeno bigode, quasi um buço sombreando-lhe o labio, grandes olhos
vivos que pareciam prestes a sahir das orbitas, estatura menos que meã,
largos hombros, busto amplo, poisando em pernas robustas; era
Annibal Cunha, então cabo de infantaria 18, estudante da Escola
Polytechnica. O dr. Alves da Veiga estava com um lapis pondo signaes em
frente dos nomes registados no _Almanach Commercial_ e designados sob a
rubrica--_Regimento de infantaria n.º 10_.
«--É certo, perguntou Manuel Coelho, o que por ahi corre, da projectada
revolução para esta madrugada?
«Sim, era certo; não tinha podido ser de outro modo. Santos Cardoso, do
lado, affirmou com superioridade:
«--Estou a fazer os avisos.
«Com effeito, em cartões de visita, com o seu nome, escrevia--_pede a V.
para comparecer ás 3 da madrugada no campo da Regeneração_. E mettia
depois esses cartões em envelopes nos quaes escrevia o nome d'um
official, entregando-os a Annibal Cunha.
«O tenente Manuel Coelho retirou-se preoccupado. As circumstancias não
eram de natureza a fazer-lhe acreditar n'um triumpho. Todavia, era
forçoso acceitar os factos como elles se apresentavam. Era tarde para
discutir e inopportuno desobedecer».
Emquanto no _Gremio Independencia_ se passava isto que acabamos de
transcrever, varios republicanos em destaque, reunidos n'um gabinete do
Café Suisso, preparavam o manifesto que desde o inicio da revolta seria
lançado: _Aos camaradas do Norte e Sul de Portugal; aos cidadãos do
Porto; aos cidadãos portuguezes!_ Esse manifesto, composto e impresso na
typographia da _Republica Portugueza_--e cujos exemplares foram
destruidos ao ser um facto a derrota dos insurrectos--principiava assim:
«A força militar do Porto acaba de dar por findo o reinado do sr. D.
Carlos de Bragança. Proclamou a Republica. Não se trata d'uma simples,
d'uma transitoria revolta. Foi uma revolução que se fez».
Expunha a seguir, a traços largos, a situação do paiz, _situação
aviltante, deshonrosa, receiante_. Era um documento em que cada um dos
convivas d'essa historica ceia no Café Suisso puzera a sua «nota
pessoal, philosophica, ou anedoctica» e que surgira dos commentarios
calorosos, apaixonados, sobre o resultado do movimento que não tardaria
a rebentar.
Mas, emquanto os conspiradores davam a ultima demão aos preparativos da
revolta, as auctoridades civis e militares tomavam conhecimento d'uma
parte do plano concebido e concertavam os meios de o inutilisar. Ás 7 da
noite de 30, um amigo do governador civil, Joaquim Taibner de Moraes,
tendo ouvido a dois sargentos que infantaria 18 se insurreccionaria na
madrugada de 31 «por causa da transferencia d'um sargento ajudante», foi
avisal-o do caso e aquella auctoridade dirigiu-se immediatamente ao
quartel do Carmo, a prevenir o commandante da guarda municipal.
A conferencia foi rapida. N'ella ficou assente que o commandante da
guarda concentraria, sem grande apparato, toda a força de que pudesse
dispôr e que mandaria vigiar de perto os outros quarteis militares dados
como suspeitos. Combinado isto, o governador civil e o commisario da
policia procuraram o commandante interino da divisão--o general
Scarnichia marchara pouco antes para Lisboa--e esse commandante foi, em
pessoa, ao quartel de infantaria 18, onde, em face das suas ordens,
todos os officiaes passaram a exercer a maior vigilancia nas respectivas
companhias, «aguardando o que de anormal se preparava».
Por outras palavras: á meia noite de 30, as auctoridades civis e
militares do Porto sabiam perfeitamente o que estava planeado e
repousavam descançadas, suppondo ter providenciado de modo a impedir
qualquer tentativa de sedição. Comtudo é curioso registar que essas
providencias se haviam limitado á policia civil, á guarda municipal e ao
regimento de infantaria 18 e que aos commandantes de infantaria 10 e
caçadores 9 nada fôra communicado ou transmittido que lhes revelasse
_officialmente_ o proposito dos revolucionarios.
CAPITULO XIII
Vinte annos apoz a derrota...
A manhã do dia 30 surgira nevoenta, tristonha, açoitada pelo vento
agreste do inverno. D'ahi até a noite alta, a chuva cahiu a espaços
inundando a cidade e afastando das ruas do Porto a massa de transeuntes.
João Chagas, encurralado na cadeia da Relação, recebera á tarde a visita
de Alves da Veiga, que sombrio e preoccupado lhe dissera, falando do
movimento prestes a rebentar:
--Vae ser desastroso...
--Evite.
--É tarde...
Ao começo da noite, os soldados de guarda á cadeia e que estavam no
segredo da conspiração foram despedir-se de João Chagas:
--Vimos dizer-lhe adeus... até logo.
--Até logo.
Que se passou depois? Fala o brilhante jornalista, confiando ao auctor
d'esta narrativa as suas impressões da madrugada tragica:
«Já decorreram vinte annos sobre a derrota... Na vespera á noite, assim
que a treva obscureceu o ambiente, começaram para mim horas inquietas e
perturbadas. Sabia que a insurreição devia rebentar ás tres da
madrugada. Tirei o relogio do bolso. Eram oito horas. Distrahi-me em
coisas futeis, bebi café e fumei como um desesperado. Ainda, como
distracção e talvez para surprehender mais facilmente o primeiro rumor
d'essa arrancada decidida contra a monarchia, abri a janella. A noite,
humida, afogava a cidade. Houve um instante, já quando se approximava a
hora marcada para o rebentar do movimento, que suppuz aperceber o
barulho de carros á desfilada...
«Ás duas e meia, gelado pelo frio, comprehendi que se fazia um silencio
magestoso, o silencio do somno pesado. Mas d'ahi a pouco levantou-se um
clamor enorme e distingui gritos, brados, vivas, vozes confusas, retinir
d'armas. Depois, uns minutos de treguas, minutos terriveis de anciedade
e, _perto de mim_, o passo cadenciado d'uma força militar... Eu, que não
resava, fiz _in mente_ uma grande e ferverosa prece _por elles_. A força
não tardou a desapparecer e voltou a agitar-me a persuasão de que tudo
recahira em tranquilidade absoluta. Os minutos escoaram-se
dolorosissimos, augmentando a minha impaciencia, aguçando a minha
ignorancia do que occorria. Cheguei a ter a impressão de que essa
guarda-avançada dos insurrectos se submettia completamente e que a mesma
noite que a vira nascer a veria sepultar. Horrivel e febril essa
hesitação do meu espirito, sem outro horizonte que uma neblina glacial,
torturante e a galhofa das sentinellas que vigiavam o meu carcere.
«A fadiga e a commoção prostraram-me. Exhausto, renunciei a saber, a
indagar, a prescrutar. Tombei no leito, fechei os olhos e dormi. Quando
despertei, era manhã clara. A nevoa dissipara-se e a cidade surgia
cheia de luz. Corri á janella. O socego parecia completo. O dia
annunciava-se lindo, calmo. Mas não tardou que um homem de quem me não
lembro o nome, entrando na cella, me communicasse que a revolução estava
na rua, e, seguindo-o e enfiando a cabeça por umas grades de ferro,
presenciei effectivamente um dos episodios do combate. O movimento
estava realmente no seu auge. A fuzilaria crescia de minuto para minuto.
Convencido do triumpho, preparei-me para a sahida da cadeia... Não
tardariam decerto a vir-me buscar.
«O resto é por demais sabido. Ao começo da tarde, a bandeira
revolucionaria, que até então tremulara no edificio da Camara,
desappareceu com o estrondear do canhão. Esse trapo, que era a minha
esperança, sumira-se após um tiroteio pavoroso, encarniçado. Ao declinar
do dia, tive a sensação da derrota. Sobre a cidade cahia verdadeira
mortalha. Tornei de novo a estender-me no leito, dormi doze horas sem
interrupção e, quando despertei, reconheci-me excellentes disposições
para affrontar a tempestade que ia desencadear-se, impiedosamente, sobre
a minha cabeça...»
Vejamos o que á mesma hora succedia em Coimbra, onde, como em Santarem e
outras cidades do paiz, a organisação revolucionaria portuense contava
um auxilio efficaz.
Resolvido que a sedição se iniciaria ás 3 da madrugada de 31, Alves da
Veiga mandou a Coimbra Ricardo Severo com o encargo de communicar a
Silvestre Falcão: «que estivessem todos a postos, mas que só sahissem em
armas quando recebessem um telegramma em cifra, isto para evitar
impulsos temerarios.» Ricardo Severo desempenhou-se cabalmente da missão
e ás 10 da noite reuniam cerca de setenta rapazes na casa dos Arcos do
Jardim, onde moravam, alem de Silvestre Falcão, Augusto Barreto,
Guilherme Franqueira e Fernando Brederode.
Em primeiro logar, a assembleia nomeou um _comité_ dirigente, que ficou
constituido por Silvestre Falcão, Pires de Carvalho, Augusto Barreto,
Barbosa de Andrade e Antonio José d'Almeida. Depois, Malva do Valle foi
alugar o telegrapho, para se conservar até de manhã por conta do
_comité_ e operou-se a juncção do elemento academico com os outros
revolucionarios de Coimbra, combinando-se por ultimo o seguinte:
[Ilustração: José Sampaio (Bruno) (1891)]
Logo que Silvestre Falcão recebesse na Alta o telegramma cifrado de
Alves da Veiga, dez ou doze estudantes desceriam a ladeira do Pio até á
parte posterior do quartel de infantaria 23, onde receberiam as armas e
as munições destinadas a armar os conspiradores. Em seguida todos elles
atravessariam a cidade, descendo pelo Quebra-Costas e a rua Visconde da
Luz até o quartel. Ahi bastaria uma manifestação ao regimento, que, á
voz dos sargentos revoltados, viria para a rua em sedição. Removidos
todos os obstaculos que, porventura, se apresentassem á execução do
plano, os conspiradores iriam depôr a sua obra nas mãos de José
Falcão, que, informado de tudo, horas antes, puzera o seu esforço ao
serviço da Republica.
Um dos estudantes ainda lembrou a conveniencia de se destacarem grupos
armados para junto das residencias dos officiaes do 23, a fim de lhes
embargarem o passo, caso pretendessem sahir em direcção ao quartel, mas
Silvestre Falcão ponderou que isso era perigoso e podia provocar uma
série de assassinios e a assembleia revolucionaria decidiu «caminhar
temerariamente, lançando o exito da empreza aos azares da guerra».
Até á manhã clara, os estudantes conservaram-se reunidos na Alta
esperando o telegramma do dr. Alves da Veiga. Mas o telegramma não
chegou e assim que todos elles adquiriram a convicção de que o movimento
do Porto fôra mal succedido, dispersaram desalentados, ainda que
dispostos, no intimo, a renovar mais tarde a audaciosa tentativa.
E muitos d'elles a renovaram com effeito. As datas de 28 de janeiro e 4
e 5 de outubro, trouxeram á evidencia uma boa porção dos nomes dos
academicos conspiradores de 1891.
CAPITULO XIV
A alvorada triumphante: caçadores 9 inicia o movimento
Duas da madrugada...
Terminada a reunião na rua de Santa Catharina, os sargentos da guarnição
portuense que a ella tinham assistido dirigiram-se aos seus quarteis e
tomaram desde logo as providencias necessarias para a sahida das
forças no momento opportuno, preparando-a de modo que á rapidez de
execução se alliasse o affastamento da intervenção de qualquer official
que, pelo seu prestigio, conseguisse contrariar a revolta.