Ao mesmo passo, tres sargentos-ajudantes da guarnição de Lisboa redigiam

e faziam imprimir a minuta d'uma petição que enviaram a todos os corpos

de infantaria e caçadores, a fim de ser assignada individualmente pelos

1.os sargentos d'esses corpos e remettida ao parlamento. A petição

solicitava que a promoção continuasse a ser regulada na razão de um

terço das vacaturas que occorressem no posto de alferes.

Recebido no Porto esse documento, os sargentos da guarnição

apressaram-se a reunir para o apreciar.

CAPITULO XII

«E as armas que nos foram entregues para defeza das instituições,

voltal-as-hemos contra ellas»

Á reunião na casa da rua do Laranjal--casa habitada por um individuo da

intimidade de Santos Cardoso--presidiu o alferes de caçadores 9, Simões

Trindade, homem da absoluta confiança da classe e que com ella cooperava

no movimento da revolta. Mas os sargentos presentes, não se contentando

com o subscreverem individualmente a petição enviada de Lisboa, foram

mais longe: approvaram a minuta d'um verdadeiro _ultimatum_, ameaçando o

governo com a sedição caso elle não respeitasse a lei no tocante ás

promoções. A ameaça continha entre outras esta phrase: «..._e as armas

que nos foram entregues para defeza das instituições voltal-as-hemos

contra ellas_».

O sargento-ajudante de infanteria 18 Arthur Ferreira de Castro, que

tambem tomara parte na reunião, conseguiu obter copia do documento e

entregou-o ao capitão do mesmo regimento Alexandre Sarsfield, que, por

sua vez, o passou ao coronel Lencastre de Menezes. Estava denunciado o

proposito dos sargentos e não tardou que o ministerio da guerra, tendo

conhecimento minucioso do que se discutira na assembléa da rua do

Laranjal e de posse de uma lista de officiaes inferiores que a ella

tinham assistido, desatasse a transferir quantos se lhe affiguravam

suspeitos de republicanismo.

Quer dizer: a traição do sargento-ajudante Arthur Ferreira de Castro não

só revelou ao governo a existencia da conspiração como, provocando as

immediatas represalias, contribuiu directamente para que os

revolucionarios apressassem a sua sahida e a levassem a cabo em

condições bastante tumultuarias. «Sem a denuncia do sargento

Castro--affirma uma testemunha dos acontecimentos--os sargentos do Porto

não se teriam precipitado e a revolta, que se daria um mez ou dois mais

tarde, teria tido provavelmente um chefe militar, um estado maior bem

mais numeroso, um plano mais intelligente e, seguramente, uma maior e

mais vasta repercussão. Não seria, então, uma revolta: seria uma

revolução, incendiando pelo menos metade do paiz e á qual era de

presumir que a outra metade adherisse, dada a disposição geral dos

espiritos para uma transformação politica, que um grande numero reputava

indispensavel e que os outros acceitariam sem protesto. Assim, foi um

homem, um homem só, obscuro, desconhecido, vindo do anonymato e da

treva, que subverteu a obra da redempção do anno de 91, entravando a

evolução politica da nação, fazendo parar com seus fracos pulsos a ideia

que já se precipitava na gloria de um futuro talvez maravilhoso,

mergulhando--quem sabe?--a bella Patria portugueza na desesperação de um

incerto destino ou de um outro, porventura, funestamente irremediavel».

Ordenadas as transferencias de sargentos compromettidos no movimento,

todos elles foram procurar Santos Cardoso e instaram energicamente para

que se não addiasse por mais tempo a sua eclosão. Santos Cardoso

entendeu-se com o dr. Alves da Veiga e este, convencendo-se de que não

havia maneira de protelar a revolta embora inopportuna, tratou de, em

curto espaço, ultimar os preparativos dando certa unidade aos elementos

que, fora do Porto, o deviam secundar no momento decisivo. Santos

Cardoso ainda tentou um derradeiro esforço junto dos sargentos mais

exaltados, mas estes, vendo nas evasivas do director da _Justiça

Portugueza_ um receio injustificado, puzeram a questão n'estes

termos: «Se no dia 30 de janeiro não resolverem fazer a revolução,

sahiremos para a rua á frente dos soldados».

Não havia que hesitar. No dia 30, Santos Cardoso e o dr. Alves da Veiga

decidiram o general reformado da arma de engenharia Correia da Silva a

tomar a direcção do movimento, mas o general só acceitou o encargo «até

ao momento em que algum official superior, em effectivo serviço,

apparecesse a assumir o commando das tropas revoltadas ou ainda se os

officiaes que se apresentassem á frente d'essas tropas concordassem em

que fosse elle o chefe».

D'ahi a uma hora, effectuou-se uma reunião em casa d'uns parentes do

general, na rua de Malmerendas, reunião para que foram convocados todos

os officiaes adherentes e os individuos da classe civil destinados á

execução do plano revolucionario. Á mesma hora realisava-se n'uma casa

da rua da Alegria uma reunião de cerca de setenta sargentos e estes,

receiando que o general Correia da Silva opinasse pelo addiamento da

revolta, foram á rua de Malmerendas demovel-o d'esse proposito.

O general ouviu-os e, por fim, concordou-se em que o movimento

rebentaria na madrugada. Faltava discutir o plano revolucionario. Para

isso marcou-se nova reunião, ás 10 da noite, na rua de Santa Catharina.

Talvez n'ella comparecesse maior numero de officiaes, visto que nem

todos os compromettidos tinham recebido o respectivo aviso e a primeira

reunião na rua de Malmerendas caracterisara-se pela falta de muitos

d'esses elementos.

«Para aproveitar o tempo que decorria até se realisar essa reunião,

entendera o general, bem como o dr. Alves da Veiga, que fossem

procurados alguns officiaes de superior graduação, convidando-os a

comparecer em casa d'um conhecido negociante do Porto. Esses officiaes

eram o coronel, o tenente-coronel e um major de caçadores 9, que se

recusaram a acceder ao convite. Lembrou-se, em vista da recusa d'estes,

o nome d'outro official, que, sem ter uma graduação superior, era

comtudo muito estimado entre os seus camaradas e gosava de um notavel

prestigio entre os seus subordinados. Este alvitre, porém, não foi

aceito; por consequencia, o general Correia da Silva ficaria, até

ulterior resolução e dependendo isso das circumstancias occorrentes, com

o commando em chefe das tropas revolucionarias».

Ás 10 da noite, na reunião da rua de Santa Catharina compareceram apenas

o general, o dr. Alves da Veiga, Santos Cardoso, diversos civis, alguns

sargentos, o capitão Leitão e um alferes da guarda fiscal. Os outros

officiaes compromettidos não compareceram, ou, melhor, não foram

convidados a comparecer. Durante alguns instantes, o general e o capitão

Leitão discutiram o plano revolucionario. O primeiro entendia que as

tropas deviam concentrar-se na praça da Batalha e tomar desde logo posse

do quartel general, do governo civil e do telegrapho, cujos edificios

estão reunidos n'aquelle local. O capitão Leitão desejava que a

concentração se fizesse no campo de Santo Ovidio e contrariava a

indicação do general, porque, dizia, os revolucionarios necessitavam

antes de tudo vencer uma difficuldade: a da sahida do quartel do

regimento de infantaria 18. A respectiva officialidade, quasi toda

residindo dentro do edificio, fôra, decerto prevenida, do proposito dos

sargentos pela denuncia do traidor Castro e trataria de oppôr-se a que

elles sublevassem as praças. Por conseguinte, só com a presença dos

outros corpos nas immediações do quartel é que infantaria 18 poderia,

quebrando os laços da disciplina, cooperar na insurreição. Quanto ao

quartel general, os revoltosos contavam que o sargento commandante da

guarda o submetteria sem difficuldade.

O general Correia da Silva insistiu mais do que uma vez na superioridade

do seu plano estrategico, mas Santos Cardoso, collocando-se ao lado do

capitão Leitão, fez vingar a ideia de se effectuar a concentração das

tropas no campo de Santo Ovidio. Assentou-se tambem em que alguns dos

civis presentes procederiam á detenção das auctoridades governamentaes,

mas com a condição de não exercerem sobre ellas a menor violencia, salvo

se isso se tornasse absolutamente indispensavel ao bom exito da causa.

Do mesmo modo se deveria proceder para com os officiaes que se não

solidarisassem desde logo com o movimento. Por ultimo: o general Correia

da Silva só seria chamado ao campo de Santo Ovidio, se depois das tropas

ali concentradas não apparecessem a commandal-as officiaes d'uma certa

graduação.

Dissolvida a reunião, o dr. Alves da Veiga e outros conjurados

encaminharam-se para a loja maçonica o _Gremio Independencia_, d'onde

deviam lançar as ordens necessarias para a execução do plano pouco antes

delineado. A essa hora, no Porto, a noticia de que dentro em pouco

rebentaria a revolta já se divulgara o bastante para que a maioria da

população a não ignorasse. Mostra-o o depoimento do ex-tenente Coelho,

consignado no livro que escreveu de collaboração com João Chagas. Vamos

transcrevel-o, porque evidencia egualmente a precipitação com que,

chegado o momento decisivo, se tocou a reunir nos arraiaes revolucionarios:

«Entrando o tenente Manuel Coelho, por um mero acaso, na noite de 30 no

Café Central, que era então um verdadeiro foco de conspiração, veiu

a saber que se preparava a revolução para a madrugada immediata de 31 em

circumstancias que é conveniente registar. Depois de haver trocado

algumas palavras com um seu camarada, tomou assento a uma das mezas do

café. D'ahi a pouco acercou-se-lhe o dr. João Novaes, que lhe disse:

[Ilustração: Levantando os feridos]

«--Já sabes que a revolução se projecta para a madrugada?

«--Não, respondeu-lhe; e até me surprehende muito a noticia, porque o

capitão Leitão me viu no quartel e de nada me falou.

«--Pois toda a gente diz isso ahi á bocca cheia. Sabem-n'o todos, até

mesmo a policia.

«--Não sei de nada, e quer-me parecer que, se a noticia tivesse algum

fundamento, certamente eu teria sido procurado.

«--Tens razão, com effeito, replicou o dr. João Novaes; mas corre o

boato com tal insistencia que me parece que elle tem fundamento. Mas

eu vou já sabel-o; vou falar ao dr. Alves da Veiga.

«O dr. João Novaes sahiu. Pouco depois entravam no Café Central o

tenente da cavallaria 6 Vaz Monteiro, destacado no Porto, e o tenente

Margarido de cavallaria da guarda municipal. Aquelle veiu immediatamente

sentar-se junto de Manuel Coelho, acercando-se de ambos este ultimo,

que, logo depois de cumprimentar, disse:

«--Então sabes o que para ahi corre?... Diz-se que n'esta madrugada se

vae fazer uma revolução republicana.

«--Não ouvi ainda falar de tal.

«E a rir replicou:

«--Ah! que tu tambem estás compromettido!

«--Não, não sei de nada, podes crêr...

«E explicou que, se sabia a noticia, era por causa do impedido d'um

official de infantaria 18 que o dissera no quartel a outras praças

d'aquelle regimento. Passados momentos, entrava de novo o dr. João

Novaes, que aproveitou o ensejo para dizer que, com effeito, estava

plenamente confirmado o boato e que o dr. Alves da Veiga lhe affirmara

que a revolução se iniciaria ás 3 horas da manhã, com a sahida dos

corpos revoltados. Entretanto, iam conversando Manoel Coelho e os

tenentes Vaz Monteiro e Margarido, em assumpto differente d'aquelle que

primeiro abordaram.

«Eram já dez e meia da noite e os freguezes do café começavam a rarear.

Preparava-se Manuel Coelho para sahir, quando notou que, do guarda-vento

envidraçado do café, um individuo, que apenas havia entrevisto, uma por

outra vez, falar com o capitão Leitão, lhe fazia signal de querer

transmittir-lhe qualquer communicação. Approximou-se d'esse individuo,

que lhe disse:

«--O sr. capitão Leitão manda-me aqui para dizer a V. que deseja

falar-lhe.

«--A mim? Sabe quem sou?

«--É o sr. tenente Coelho, não é verdade?

«--Com effeito. E onde está o sr. capitão Leitão?

«--No _Gremio Independencia_. Se o consente, acompanho-o.

«Seguiram os dois. As ruas estavam inundadas e a chuva persistente fazia

caminhar rapidamente. Emfim, chegaram á rua Fernandes Thomaz, esquina da

rua de Santa Catharina, tendo atravessado por uma das ruas lateraes do

mercado do Bolhão. Subiram a longa escadaria do edificio onde estava

installado o _Gremio Independencia_ e penetraram n'uma sala do segundo

andar, onde estava reunido um grande numero de individuos. Eram os

irmãos d'esse gremio, que tinham sido convocados pelo dr. Alves da

Veiga, com o fim de encobrir a concorrencia áquella casa, de outras

pessoas estranhas á associação.

«Á volta do bilhar, jogando, andavam dois homens, um dos quaes era o

capitão Leitão, trajando á paisana: grosso jaquetão de pelles, calça

clara unida á perna e chapéo desabado. No nariz, a sua luneta de vidros

escuros, que elle usava, mais que por outro motivo, pela necessidade de

occultar a fixidez do olho direito immobilisado, quasi completamente,

pela paralysia dos musculos da face. Muito embaraçado, olhou em redor e

disse:

«--O dr. Alves da Veiga está lá em baixo; vamos falar-lhe.

«Depôz o taco e desceram ao primeiro andar. N'um pequeno gabinete

interior, cuja forma se approximava do symbolico triangulo,

encontravam-se, cada um sentado á sua meza, Santos Cardoso e o dr. Alves

da Veiga. Em pé, e como esperando ordens, estava um homem ainda novo,

pequeno bigode, quasi um buço sombreando-lhe o labio, grandes olhos

vivos que pareciam prestes a sahir das orbitas, estatura menos que meã,

largos hombros, busto amplo, poisando em pernas robustas; era

Annibal Cunha, então cabo de infantaria 18, estudante da Escola

Polytechnica. O dr. Alves da Veiga estava com um lapis pondo signaes em

frente dos nomes registados no _Almanach Commercial_ e designados sob a

rubrica--_Regimento de infantaria n.º 10_.

«--É certo, perguntou Manuel Coelho, o que por ahi corre, da projectada

revolução para esta madrugada?

«Sim, era certo; não tinha podido ser de outro modo. Santos Cardoso, do

lado, affirmou com superioridade:

«--Estou a fazer os avisos.

«Com effeito, em cartões de visita, com o seu nome, escrevia--_pede a V.

para comparecer ás 3 da madrugada no campo da Regeneração_. E mettia

depois esses cartões em envelopes nos quaes escrevia o nome d'um

official, entregando-os a Annibal Cunha.

«O tenente Manuel Coelho retirou-se preoccupado. As circumstancias não

eram de natureza a fazer-lhe acreditar n'um triumpho. Todavia, era

forçoso acceitar os factos como elles se apresentavam. Era tarde para

discutir e inopportuno desobedecer».

Emquanto no _Gremio Independencia_ se passava isto que acabamos de

transcrever, varios republicanos em destaque, reunidos n'um gabinete do

Café Suisso, preparavam o manifesto que desde o inicio da revolta seria

lançado: _Aos camaradas do Norte e Sul de Portugal; aos cidadãos do

Porto; aos cidadãos portuguezes!_ Esse manifesto, composto e impresso na

typographia da _Republica Portugueza_--e cujos exemplares foram

destruidos ao ser um facto a derrota dos insurrectos--principiava assim:

«A força militar do Porto acaba de dar por findo o reinado do sr. D.

Carlos de Bragança. Proclamou a Republica. Não se trata d'uma simples,

d'uma transitoria revolta. Foi uma revolução que se fez».

Expunha a seguir, a traços largos, a situação do paiz, _situação

aviltante, deshonrosa, receiante_. Era um documento em que cada um dos

convivas d'essa historica ceia no Café Suisso puzera a sua «nota

pessoal, philosophica, ou anedoctica» e que surgira dos commentarios

calorosos, apaixonados, sobre o resultado do movimento que não tardaria

a rebentar.

Mas, emquanto os conspiradores davam a ultima demão aos preparativos da

revolta, as auctoridades civis e militares tomavam conhecimento d'uma

parte do plano concebido e concertavam os meios de o inutilisar. Ás 7 da

noite de 30, um amigo do governador civil, Joaquim Taibner de Moraes,

tendo ouvido a dois sargentos que infantaria 18 se insurreccionaria na

madrugada de 31 «por causa da transferencia d'um sargento ajudante», foi

avisal-o do caso e aquella auctoridade dirigiu-se immediatamente ao

quartel do Carmo, a prevenir o commandante da guarda municipal.

A conferencia foi rapida. N'ella ficou assente que o commandante da

guarda concentraria, sem grande apparato, toda a força de que pudesse

dispôr e que mandaria vigiar de perto os outros quarteis militares dados

como suspeitos. Combinado isto, o governador civil e o commisario da

policia procuraram o commandante interino da divisão--o general

Scarnichia marchara pouco antes para Lisboa--e esse commandante foi, em

pessoa, ao quartel de infantaria 18, onde, em face das suas ordens,

todos os officiaes passaram a exercer a maior vigilancia nas respectivas

companhias, «aguardando o que de anormal se preparava».

Por outras palavras: á meia noite de 30, as auctoridades civis e

militares do Porto sabiam perfeitamente o que estava planeado e

repousavam descançadas, suppondo ter providenciado de modo a impedir

qualquer tentativa de sedição. Comtudo é curioso registar que essas

providencias se haviam limitado á policia civil, á guarda municipal e ao

regimento de infantaria 18 e que aos commandantes de infantaria 10 e

caçadores 9 nada fôra communicado ou transmittido que lhes revelasse

_officialmente_ o proposito dos revolucionarios.

CAPITULO XIII

Vinte annos apoz a derrota...

A manhã do dia 30 surgira nevoenta, tristonha, açoitada pelo vento

agreste do inverno. D'ahi até a noite alta, a chuva cahiu a espaços

inundando a cidade e afastando das ruas do Porto a massa de transeuntes.

João Chagas, encurralado na cadeia da Relação, recebera á tarde a visita

de Alves da Veiga, que sombrio e preoccupado lhe dissera, falando do

movimento prestes a rebentar:

--Vae ser desastroso...

--Evite.

--É tarde...

Ao começo da noite, os soldados de guarda á cadeia e que estavam no

segredo da conspiração foram despedir-se de João Chagas:

--Vimos dizer-lhe adeus... até logo.

--Até logo.

Que se passou depois? Fala o brilhante jornalista, confiando ao auctor

d'esta narrativa as suas impressões da madrugada tragica:

«Já decorreram vinte annos sobre a derrota... Na vespera á noite, assim

que a treva obscureceu o ambiente, começaram para mim horas inquietas e

perturbadas. Sabia que a insurreição devia rebentar ás tres da

madrugada. Tirei o relogio do bolso. Eram oito horas. Distrahi-me em

coisas futeis, bebi café e fumei como um desesperado. Ainda, como

distracção e talvez para surprehender mais facilmente o primeiro rumor

d'essa arrancada decidida contra a monarchia, abri a janella. A noite,

humida, afogava a cidade. Houve um instante, já quando se approximava a

hora marcada para o rebentar do movimento, que suppuz aperceber o

barulho de carros á desfilada...

«Ás duas e meia, gelado pelo frio, comprehendi que se fazia um silencio

magestoso, o silencio do somno pesado. Mas d'ahi a pouco levantou-se um

clamor enorme e distingui gritos, brados, vivas, vozes confusas, retinir

d'armas. Depois, uns minutos de treguas, minutos terriveis de anciedade

e, _perto de mim_, o passo cadenciado d'uma força militar... Eu, que não

resava, fiz _in mente_ uma grande e ferverosa prece _por elles_. A força

não tardou a desapparecer e voltou a agitar-me a persuasão de que tudo

recahira em tranquilidade absoluta. Os minutos escoaram-se

dolorosissimos, augmentando a minha impaciencia, aguçando a minha

ignorancia do que occorria. Cheguei a ter a impressão de que essa

guarda-avançada dos insurrectos se submettia completamente e que a mesma

noite que a vira nascer a veria sepultar. Horrivel e febril essa

hesitação do meu espirito, sem outro horizonte que uma neblina glacial,

torturante e a galhofa das sentinellas que vigiavam o meu carcere.

«A fadiga e a commoção prostraram-me. Exhausto, renunciei a saber, a

indagar, a prescrutar. Tombei no leito, fechei os olhos e dormi. Quando

despertei, era manhã clara. A nevoa dissipara-se e a cidade surgia

cheia de luz. Corri á janella. O socego parecia completo. O dia

annunciava-se lindo, calmo. Mas não tardou que um homem de quem me não

lembro o nome, entrando na cella, me communicasse que a revolução estava

na rua, e, seguindo-o e enfiando a cabeça por umas grades de ferro,

presenciei effectivamente um dos episodios do combate. O movimento

estava realmente no seu auge. A fuzilaria crescia de minuto para minuto.

Convencido do triumpho, preparei-me para a sahida da cadeia... Não

tardariam decerto a vir-me buscar.

«O resto é por demais sabido. Ao começo da tarde, a bandeira

revolucionaria, que até então tremulara no edificio da Camara,

desappareceu com o estrondear do canhão. Esse trapo, que era a minha

esperança, sumira-se após um tiroteio pavoroso, encarniçado. Ao declinar

do dia, tive a sensação da derrota. Sobre a cidade cahia verdadeira

mortalha. Tornei de novo a estender-me no leito, dormi doze horas sem

interrupção e, quando despertei, reconheci-me excellentes disposições

para affrontar a tempestade que ia desencadear-se, impiedosamente, sobre

a minha cabeça...»

Vejamos o que á mesma hora succedia em Coimbra, onde, como em Santarem e

outras cidades do paiz, a organisação revolucionaria portuense contava

um auxilio efficaz.

Resolvido que a sedição se iniciaria ás 3 da madrugada de 31, Alves da

Veiga mandou a Coimbra Ricardo Severo com o encargo de communicar a

Silvestre Falcão: «que estivessem todos a postos, mas que só sahissem em

armas quando recebessem um telegramma em cifra, isto para evitar

impulsos temerarios.» Ricardo Severo desempenhou-se cabalmente da missão

e ás 10 da noite reuniam cerca de setenta rapazes na casa dos Arcos do

Jardim, onde moravam, alem de Silvestre Falcão, Augusto Barreto,

Guilherme Franqueira e Fernando Brederode.

Em primeiro logar, a assembleia nomeou um _comité_ dirigente, que ficou

constituido por Silvestre Falcão, Pires de Carvalho, Augusto Barreto,

Barbosa de Andrade e Antonio José d'Almeida. Depois, Malva do Valle foi

alugar o telegrapho, para se conservar até de manhã por conta do

_comité_ e operou-se a juncção do elemento academico com os outros

revolucionarios de Coimbra, combinando-se por ultimo o seguinte:

[Ilustração: José Sampaio (Bruno) (1891)]

Logo que Silvestre Falcão recebesse na Alta o telegramma cifrado de

Alves da Veiga, dez ou doze estudantes desceriam a ladeira do Pio até á

parte posterior do quartel de infantaria 23, onde receberiam as armas e

as munições destinadas a armar os conspiradores. Em seguida todos elles

atravessariam a cidade, descendo pelo Quebra-Costas e a rua Visconde da

Luz até o quartel. Ahi bastaria uma manifestação ao regimento, que, á

voz dos sargentos revoltados, viria para a rua em sedição. Removidos

todos os obstaculos que, porventura, se apresentassem á execução do

plano, os conspiradores iriam depôr a sua obra nas mãos de José

Falcão, que, informado de tudo, horas antes, puzera o seu esforço ao

serviço da Republica.

Um dos estudantes ainda lembrou a conveniencia de se destacarem grupos

armados para junto das residencias dos officiaes do 23, a fim de lhes

embargarem o passo, caso pretendessem sahir em direcção ao quartel, mas

Silvestre Falcão ponderou que isso era perigoso e podia provocar uma

série de assassinios e a assembleia revolucionaria decidiu «caminhar

temerariamente, lançando o exito da empreza aos azares da guerra».

Até á manhã clara, os estudantes conservaram-se reunidos na Alta

esperando o telegramma do dr. Alves da Veiga. Mas o telegramma não

chegou e assim que todos elles adquiriram a convicção de que o movimento

do Porto fôra mal succedido, dispersaram desalentados, ainda que

dispostos, no intimo, a renovar mais tarde a audaciosa tentativa.

E muitos d'elles a renovaram com effeito. As datas de 28 de janeiro e 4

e 5 de outubro, trouxeram á evidencia uma boa porção dos nomes dos

academicos conspiradores de 1891.

CAPITULO XIV

A alvorada triumphante: caçadores 9 inicia o movimento

Duas da madrugada...

Terminada a reunião na rua de Santa Catharina, os sargentos da guarnição

portuense que a ella tinham assistido dirigiram-se aos seus quarteis e

tomaram desde logo as providencias necessarias para a sahida das

forças no momento opportuno, preparando-a de modo que á rapidez de

execução se alliasse o affastamento da intervenção de qualquer official

que, pelo seu prestigio, conseguisse contrariar a revolta.

A Revolução Portugueza: O 31 de Janeiro (Porto 1891) · 第 5 / 11 段