delirio. Alguns officiaes de infantaria 18 vieram até junto da multidão
pedir-lhe cordura. A seguir, a manifestação desceu pela rua do Almada e,
voltando á Cordoaria, passou pelo quartel da guarda municipal.
Immediatamente sahiu d'ali uma força de cavallaria e, carregando sobre a
multidão, que se refugiou no jardim, dispersou-a. Alguns individuos
responderam á pedrada, houve gritos subversivos e na refrega um
estudante ficou ferido nas costas. Reconcentrando-se, os manifestantes
desceram á rua dos Clerigos e vieram para a praça de D. Pedro. Ahi, os
soldados da guarda municipal, cravando as esporas nos cavallos,
carregaram novamente sobre o povo, acutilando-o a torto e a direito,
mettendo toda a gente debaixo das patas dos animaes, varrendo não só a
praça mas as ruas circumvisinhas e ferindo e prostrando grande numero de
pessoas. Os cafés do local foram logo fechados por ordem da policia.
Muitos feridos receberam curativo no hospital da Misericordia. No dia
immediato, a cidade reentrou no socego habitual; mas todos esses
incidentes que acabamos de relatar foram a origem d'uma nova excitação
que aggravou «a que já fundamente lavrava e havia de resolver-se no
movimento de 31 de janeiro».
Entretanto, os trabalhos para a organisação do _complot_ progrediam a
olhos vistos. Os organisadores já contavam com o concurso de varios
officiaes e porque alguns d'elles tinham apparecido nas redacções dos
jornaes republicanos, decididos, pelo menos na apparencia, a contribuir
para a derrocada da monarchia. E se é certo que no momento em que
rebentou a revolta, apenas tres d'elles conseguiram justa evidencia, a
verdade é que durante o periodo preparatorio da conspiração o numero de
officiaes que n'elle intervieram contavam-se por dezenas. Cada corpo da
guarnição do Porto, sem exclusão da guarda municipal, dava, pelo menos,
um contingente de tres officiaes, cujos nomes circulavam entre os
conspiradores e eram quasi do dominio publico. Os mais graduados eram
capitães. Por outro lado, nas provincias, onde Alves da Veiga organisara
_comités_ civis e militares, estes garantiam-lhe a sua plena adhesão. O
commandante d'uma das forças aquarteladas no Porto compromettia-se a
adherir ao movimento «caso não recebesse ordem em contrario do quartel
general». Santos Cardoso affirmava a todo o momento que o major Graça,
da guarda municipal, e que mais tarde havia de desempenhar um papel
decisivo na insurreição, mas para a suffocar, estava ao lado dos
revoltosos.
Nos quarteis, entre os officiaes, era corrente que se conspirava. As
noticias do facto transpiravam dia a dia e invadiam abertamente a
opinião. Nos cafés do Porto não se falava n'outra cousa e os agitadores
não se occultavam ao solicitar para a causa a adhesão de novos
elementos. «Crescia-se em audacia. Todos suppunham e se convenciam que
caminhavam realmente para um exito seguro». João Chagas, já na cadeia da
Relação, a cumprir a sentença imposta por um delicto de imprensa,
escrevia n'um artigo inserto na _Republica Portugueza_:
«Estou convencido a serio, porque pertenço ao grande numero dos
indisciplinados republicanos que querem a Republica--de que uma
revolução se fará dentro em breve, a mais nobre, a mais generosa, a mais
sympathica de quantas revoluções tem tentado um povo offendido, em nome
da sua dignidade e da sua honra.
«Quero-a, desejo-a, promovo-a e d'isso me ufano. Com a minha consciencia
vivo na mais perfeita beatitude. Da minha intelligencia faço o uso mais
nobre. Estou tranquillo por mim, porque pratico uma boa acção. Como
convencional, fiz commigo proprio um pacto que vae desde a liberdade á
morte. Ao serviço da minha causa puz todo o meu pensamento, todo o meu
sentimento, toda a minha acção. Quero, pois, a Republica por vingança,
por odio e por dignidade. Dias virão, cheios de alternativas, dias de
orgulho, talvez dias de infortunio--quem sabe?
«É todo um mundo a fazer! É toda uma sociedade a reformar! Vivemos sobre
lama. Os pés enterram-se-nos no solo. Quanto esforço, quanto trabalho,
quanta coragem para consolidar o chão que nos foge!... Pois bem!
Batidos, vencidos, eu, nós, os meus companheiros de combate,
recomeçaremos em qualquer ponto onde estejamos, aqui ou na terra
estrangeira, dando o nosso sacrificio pessoal, entregando a nossa
felicidade, a nossa vida á causa da patria e da liberdade. A opinião e a
historia condemnarão os que prevaricarem e, se algum de nós os julgar um
dia, dirá inexoravelmente como Manoel falando do rei de França: «Um
traidor de menos, não é um homem de menos».
As idéas de revolta inflamavam todos os corações. «Os estudantes das
escolas do paiz que já se tinham offerecido ao governo para constituir
um batalhão voluntario que fosse á Africa combater os inglezes e se
tinham visto recusados, entravam resolutamente no vasto campo da
rebellião. A mocidade academica de Coimbra, posta em contacto com os
revolucionarios do Porto, aprestava-se a tomar parte na lucta em
vesperas de travar-se. O grupo revolucionario academico--sessenta e
tantos estudantes--organisara-se secretamente e reunia-se para
exercicios de espingarda Kropatschek com o concurso dos sargentos de
infantaria 23. Formavam-se novos clubs republicanos. Nos logares os mais
publicos exhibiam-se opiniões revolucionarias. De toda a parte affluiam
exhortações e incitamentos em telegrammas e em bilhetes postaes. Todos
pediam que o movimento se iniciasse quanto antes. A impaciencia era
flagrante e, mal contida, expressava-se nos menores actos dos
conspiradores.
Alves da Veiga, tomando o pulso á agitação, ponderando os trabalhos até
então realisados e reconhecendo que o movimento necessitava á sua frente
d'um chefe militar prestigioso, abalançou-se a procurar esse official e
conseguiu a promessa formal do general Sebastião Calheiros, então
residente em Vianna do Castello. Resolvido o problema, obtida assim
uma direcção certamente efficaz no instante da revolta, aquelle official
poz-se a caminho de Lisboa, decidido a arranjar collaboradores, que o
auxiliassem em semelhante empreza. O contacto do general Calheiros com
varios dos elementos republicanos residentes na capital do paiz
prejudicou o bom andamento das cousas revolucionarias... É tempo de
descrever aos leitores, como esse facto, e outros que se lhe seguiram,
entravaram o movimento, tirando-lhe ao mesmo passo o caracter d'uma
acção conjuncta da democracia portugueza.
CAPITULO X
O Directorio recusa a sancção official á revolta
No mez de setembro de 1890, quando a redacção da _Republica Portugueza_
já concentrava um numero bastante regular de sargentos conspiradores, o
partido republicano soffreu uma dissidencia profunda. D'um lado ficou
Elias Garcia, congregando á sua volta toda a parte conservadora do
partido; do outro surgiu o tenente de caçadores Homem Christo, com todos
os radicaes. «O conflicto devia ter solução no congresso annunciado para
janeiro de 1891 e no qual os dois grupos travariam a batalha decisiva».
Apesar da dissidencia, porém, os republicanos do Porto continuaram a
entender-se com Elias Garcia, pois que este, como já tivemos ensejo de
referir, tambem trabalhava na organisação d'um movimento de caracter
militar e o seu delegado na capital do Norte, Basilio Telles, prestava
rasoavel concurso á actividade de Alves da Veiga. Santos Cardoso, por
seu lado, entrara na intimidade d'outros vultos em evidencia como
Bernardino Pinheiro e Theophilo Braga.
Em dezembro, Homem Christo, que não via com bons olhos a chefatura de
Elias Garcia e o contrariava em tudo que parecesse dimanar da sua
resolução pessoal, procurou-o e fez-lhe sentir a inconveniencia do
Directorio secundar a _sargentada_ do Porto. «A revolta de sargentos,
dizia elle a Elias Garcia, se vingar, vae ser funesta á disciplina do
exercito; mas não vinga, porque lhe falta o elemento intelligente e de
cohesão». Depois, logo a seguir, convidado por Jacintho Nunes, foi ao
Porto «estudar a situação». No Porto, Homem Christo procurou Alves da
Veiga e Rodrigues de Freitas, mas não lhes poude falar. Jacintho Nunes
propoz-lhe então uma conversa com Santos Cardoso. Homem Christo recusou,
porque odiava fundamente o director da _Justiça Portugueza_, mas depois
consentiu em procural-o, para averiguar até que ponto eram authenticos
os trabalhos revolucionarios. O encontro d'esses dois homens é assim
relatado por João Chagas, que foi quem apresentou Homem Christo e
Jacintho Nunes a Santos Cardoso:
«A entrevista não teve o menor effeito na obra que estava em via de
realisar-se e passal-a-hiamos em claro se o facto de termos assistido a
ella não nos permittisse formular uma impressão exacta da situação
reciproca dos dois homens--Santos Cardoso e Homem Christo--n'esse
curioso lance, mais tarde exposto e discutido nos tribunaes e na
imprensa. Homem Christo entrou em casa de Santos Cardoso munido de todas
as prevenções que o indispunham contra o director da _Justiça
Portugueza_. Por seu turno, Santos Cardoso recebeu-o como a um inimigo.
[Ilustração: Uma carga de cavallaria.]
«A memoria não nos soccorre de forma a podermos reproduzir, dez
annos volvidos, os termos exactos d'essa conferencia; mas a impressão
que nos deixou e que subsiste no nosso espirito é de que foi um acto
sobre o qual pesou uma profunda e mal contida irritação. Santos Cardoso,
com o seu ar fanfarrão de desafio e Homem Christo, com o seu duro e
implacavel desdem, estavam destinados a não entender-se. E foi o que
succedeu.
«Como o director da _Justiça Portugueza_, pallido, mas affectando
serenidade, a cofiar largamente a sua vasta pera, entrasse de enumerar
com aparato aquellas forças de todas as proveniencias, que já reputava
solidamente ao serviço da revolução, Homem Christo entrou, por seu
turno, de dar evidentes mostras de impaciencia, menos talvez porque
estivesse ali o homem que elle detestava, senão porque n'esse homem
detestado via o paisano a mover soldados, que de todo o tempo irritou o
espirito dos militares profissionaes. Não era realmente irritante que
aquelle adventicio, alheio a todo o saber e a todos os interesses
militares, se permittisse a impertinencia de dar sentenças a um militar
de profissão, sobre o que fossem regimentos, batalhões, companhias,
officiaes, soldados, parecendo ter a pretenção de usurpar com o seu
desplante a soberania dos chefes militares n'esse movimento feito por
sargentos que elle já parecia commandar?
«Na sua cegueira, embriagado com o que suppunha já a sua obra e com o
proprio ruido das suas palavras, Santos Cardoso não comprehendia até que
ponto se tornava antipathico ao seu interlocutor. E proseguia
inexgotavelmente, enunciando regimentos, guarnições, nomes de
officiaes... Friamente, como quem se vinga, Homem Christo impoz á sua
total ignorancia uma sabbatina cruel, reduziu-o a confessar-se em erro,
em equivoco, em mentira. Santos Cardoso embrulhava-se, mettia os pés
pelas mãos, já se agitava na sua cadeira, como procurando romper. É
certo que, finda essa penosa entrevista, Homem Christo o tivesse
maltratado, atirando-lhe ao rosto o epitheto de imbecil? Não o
recordamos e não cremos que essa palavra tivesse sido pronunciada em
termos d'elle a ouvir. Os dois homens despediram-se mesmo com cortezia.
O que recordamos com precisão é que, já na rua, Homem Christo disse:
«Vou ali falar com alguns rapazes» e que, poucas horas depois, como
tornassemos a encontral-o, accrescentou: «Isto não está tão mau como eu
pensava».
D'ahi a alguns dias, como houvesse no Porto apprehensões sobre o valor
do apoio que o Directorio dispensava ao movimento, João Chagas foi
incumbido de ir a Lisboa falar a Elias Garcia. Encontrou-o no Hotel
Atlantico, mas o chefe republicano, cauteloso e previdente, não quiz
desde logo sujeitar-se á conversa sobre tão melindroso assumpto e,
rasgando em duas metades um cartão de visita, entregou-lhe uma d'ellas
dizendo:
--Ás 8 horas, alguem lhe apparecerá com a outra metade d'este cartão. É
pessoa de confiança. Pode seguil-a.
Ás 8, com effeito, um emissario discreto conduzia João Chagas ao
Directorio, que estava reunido em casa de Bernardino Pinheiro e, uma vez
junto d'esse democrata, de Elias Garcia, Theophilo Braga e Sousa
Brandão, o director da _Republica Portugueza_ constatou que nenhum
d'esses homens hostilisava o movimento. Pelo contrario. A uma pergunta
directa de João Chagas, o Directorio respondeu que trabalhava para
secundar a revolta do Porto. E no fim, apoz animada conversa, ficou
assente que o general Sousa Brandão iria pessoalmente ao Norte
inteirar-se, _de visu_, da situação--o que fez, na realidade,
encontrando-se ali com os mais importantes elementos da conjura.
Em principios de janeiro reuniu em Lisboa o congresso do partido e
os amigos de Homem Christo triumpharam dos de Elias Garcia. O novo
Directorio, dias depois de eleito, fez circular pelo paiz um vigoroso
manifesto em que parecia dar alento aos revolucionarios, apontando-lhes
como unico caminho a seguir, perante o descalabro da monarchia, a
execução immediata do plano da conjura. «No estado actual da crise
portugueza--dizia uma passagem do manifesto, que era acompanhado d'um
novo programma partidario--só existe uma solução nacional, pratica e
salvadora: a proclamação da Republica. Só assim acabarão os interesses
egoistas que nos perturbam e vendem, só assim apparecerá uma geração
nova capaz de civismo e de sacrificios pela Patria». Mas, quasi a
seguir, o Directorio mostrou-se como que cheio de remorsos por haver
expendido doutrina tão francamente revolucionaria e, dedicando-se a
entravar os progressos, já inilludiveis, da conspiração do Porto, fez
publicar em 25 de janeiro uma circular em que dizia sem disfarce:
«Prevenimos os nossos correligionarios para que abandonem ao seu
isolamento egoista qualquer grupo perturbador que anteponha á magestade
dos principios o fetichismo de personalidades e aos interesses da
propaganda as vantagens dos lucros economicos».
E concluia:
«Aproveitamos este ensejo para lembrar ás dignas commissões a
necessidade de se proceder aos trabalhos do recenseamento eleitoral; e,
ao mesmo tempo, que todas as combinações importantes para a vida do
Partido serão communicadas e estabelecidas por um enviado especial do
Directorio, evitando assim as intervenções discricionarias de
individualidades sem mandato, que enfraquecem toda a auctoridade».
A circular visava, como se comprehende, a tirar aos conspiradores do
Porto «qualquer sombra de auctoridade official». E para que não restasse
duvidas sobre a sua significação, no dia 27, os _Debates_ publicavam um
artigo de Homem Christo, intitulado _Uma prevenção_, em que se attribuia
ao movimento o caracter d'uma _pavorosa_ urdida pelo governo e se
exclamava:
«Acautelem-se, pois, os republicanos com essas manobras. Revoluções
fazem-se. Não se dizem, nem se apregoam. Quando se dizem e quando se
apregoam, ou é desconchavo que faz rir, ou armadilha lançada aos
ingenuos e simples do mundo. E como ha muito ingenuo e muito simples,
sempre é preciso cuidado com taes armadilhas e artes de tratantes.
Cautela, pois».
Homem Christo vingava-se de Santos Cardoso e outras personalidades
implicadas no movimento, mas que lhe eram antipathicas, aggredindo-as
por essa forma indirecta e pretendendo _furar_ as probabilidades de
exito que, porventura, caracterisassem o projecto de revolta. Antepunha
á questão do partido uma questão de mero odio pessoal. E a esta
sacrificava tudo, indo até á denuncia publica e formal do que se tramava
na capital do Norte.
CAPITULO XI
A crise ministerial dos «vinte e sete dias»
Retrogrademos um pouco até á apresentação ao parlamento do tratado
anglo-luso. Este documento, tendo sido publicado no _Diario do
Governo_ em fins de agosto de 1890, levantara, como já dissémos n'outro
ponto, enorme grita de hostilidade. Os jornaes da opposição
classificaram-n'o acto continuo de: «certidão de obito passada por um
diplomata funebre a uma nação narcotisada por dois seculos de jesuitismo
e de inquisição e esterilisada por pouco mais de meio seculo d'um
constitucionalismo dissolvente e desmoralisador». Pela essencia do
tratado, Portugal não podia alienar os seus territorios africanos sem
previo consentimento da Inglaterra.
As associações mais importantes da capital pronunciaram-se altivamente
contra a ratificação de semelhante «hypotheca feita á Grã-Bretanha».
Convocaram-se comicios em diversas cidades do paiz, houve mesmo um no
Porto presidido pelo africanista Alvaro de Castellões, em que os
oradores, alguns monarchicos, tonitruaram contra o negociador do
tratado, o sr. Barjona de Freitas; de modo que no dia em que o ministro
Hintze Ribeiro se aprestou a ler o respectivo texto á camara dos
deputados, a esquerda parlamentar acolheu as suas primeiras palavras com
uma enorme pateada. A esta manifestação da esquerda corresponderam
ligeiras manifestações das galerias e a maioria rompeu em invectivas
contra a opposição, despedindo-lhe phrases como estas:
--Fóra pulhas!...
--Isso é indecente!... é de canalhas!
A opposição recrudesceu na gritaria e o tumulto generalisou-se. Serpa
Pinto, que era deputado governamental por Lisboa, subindo a uma coxia,
interveiu, clamando com intimativa:
--Nem mais uma palavra aqui, nem mais um pio!
--O que? O que diz? perguntou-lhe o padre Alfredo Brandão.
Serpa Pinto replicou:
--Nem mais um pio, sou eu que o digo.
O reverendo agarrou então o heroe pelas orelhas, sujeitando-o nos seus
dedos de ferro e a desordem tomou por momentos proporções inenarraveis.
Restabelecida a calma, o tratado foi enviado ás commissões incumbidas de
lhe dar parecer. Naufragara decisivamente por effeito do tumulto
parlamentar.
Ao cahir da tarde, esse tumulto repercutiu-se, sangrento, nas ruas de
Lisboa. O povo, que se agglomerara durante o dia no largo das Côrtes,
encaminhou-se ao terminar a sessão para os lados da Esperança. A policia
quiz dispersal-o e effectuou uma prisão que foi mal recebida pela grande
massa. Tanto bastou para que os guardas cahissem á cutilada sobre os
populares, travando-se lucta renhida, pois a multidão resistiu
corajosamente á ferocidade dos janizaros. A policia, por fim,
refugiou-se na esquadra de S. Bento, em frente das grades do largo das
Côrtes e d'ali disparou os revolvers sobre o povo, ferindo alguns
individuos e matando o operario fundidor Carlos Franco (_Antonio
Pardal_). O cadaver do infeliz foi transportado á casa mortuaria da
Misericordia e o povo acompanhou-o em cortejo dorido, convidando toda a
gente que encontrava no percurso a descobrir-se ante o «martyr
sacrificado ás iras governamentaes».
No dia seguinte declarava-se a crise ministerial. Por espaço de vinte e
sete dias, a corôa recorreu a todos os expedientes afim de constituir o
novo gabinete. Pretendia-se que o momento era azado para experimentar os
politicos que não pertenciam á rotação constitucional. De Roma veiu a
toda a pressa o sr. Martens Ferrão, mas nada conseguiu fazer. A situação
era grave, confessavam-n'o os proprios jornaes monarchicos. «Estamos
á mercê d'um movimento popular, que pode rebentar d'um instante para
outro e porque a irritação publica augmenta a olhos vistos». Chegou-se a
aventar a subida ao poder d'um ministerio de concentração, de que
fizessem parte representantes do partido republicano. A propria imprensa
democratica quasi que intimava os seus adeptos a tomarem conta das
pastas vagas. No estrangeiro a Republica Portugueza annunciava-se para
breve como um facto previsto, indiscutivel.
A 18 de setembro repetiram-se os conflictos populares. Apoz um incidente
motivado pela policia, no largo de Camões, de dois garotitos
inoffensivos, uma força da guarda municipal parou em frente do Café
Martinho, onde abancavam estudantes, jornalistas, militares, deputados,
gente, emfim de todas as classes, e sem previo aviso desfechou sobre
aquella mole desarmada, causando um mixto de panico e de colerico
assombro nas victimas de semelhante surpreza. Depois, a mesma força
andou em correrias selvagens pela avenida da Liberdade e arterias
proximas, espancando quem encontrava desprevenido. Quer dizer: apesar de
demissionario o gabinete regenerador, os serventuarios do regimen
recorriam ao emprego da brutalidade e da selvageria para aterrorisar o
povo e impedir o mais ligeiro gesto de censura ao regimen.
Por fim, a crise ministerial foi resolvida com a constituição d'um
gabinete extra-partidario da chefia do general João Chrysostomo e em que
eram ministros: da guerra, o presidente do conselho; do reino, Antonio
Candido; da justiça, Sá Brandão; da fazenda, Mello Gouveia; da marinha,
Antonio Ennes; das obras publicas, Thomaz Ribeiro; dos estrangeiros,
Barbosa du Bocage. Mas esta solução dada pela corôa á situação politica
do momento não logrou aquietar os animos e as primeiras providencias
decretadas pelo novo governo nada mais conseguiram do que intensificar
os odios que o throno já concitára á sua volta, e no paiz inteiro.
[Ilustração: Rodrigues de Freitas (1891)]
Iniciaram-se perseguições á imprensa e, para dar satisfação ás
reclamações inglezas sobre a rejeição do tratado de 20 de agosto,
approvou-se um _modus-vivendi_, pelo qual Portugal concedia á
Grã-Bretanha a liberdade de navegação no Chire e no Zambeze. Pela mesma
época fundou-se a chamada _Liga Liberal_, partido em que preponderou o
sr. Augusto Fuschini e que teve uma aura de sympathia, dadas as suas
apparencias revolucionarias. Falhou quasi a seguir, porque não passava,
afinal, d'uma liga de concentração de interesses conservadores. No
emtanto, a agitação popular ia crescendo, crescendo sempre, a
conspiração do Porto alargava mais e mais a importancia e o numero de
adhesões e nos fins de dezembro de 1890 já se perguntava sem disfarce e
em voz alta quando rebentava a revolta. A mocidade das escolas fremia de
impaciencia e de indignação. Guerra Junqueiro publicara o seu _Finis
Patriæ_ e as estrophes da bella poesia resoavam a todos os ouvidos como
notas vibrantes d'um canto guerreiro.
Em certa altura, Alves da Veiga apresentou-se em Lisboa e, ás
advertencias do novo Directorio, que lhe fez sentir a inopportunidade do
movimento em plena preparação effervescente, respondeu que da melhor
vontade se esforçaria por addial-o, mas que tal empreza não era facil,
porque a excitação dos elementos militares portuenses não admittia
delongas. E, a comprovar-lhe a affirmativa, deu-se um facto que marcou
por assim dizer a data da revolução, apressando-a, ou melhor,
precipitando-a. Referimo-nos a uma reunião de sargentos da guarnição do
Norte, effectuada a 24 de janeiro de 1891, n'uma casa da rua do
Laranjal. Essa reunião foi provocada por um acto do ministro da guerra,
que descontentou sobremaneira a classe. Os sargentos vinham desde muito
reclamando, por intermedio do seu orgão especial, contra a forma de
promoção; e as suas reclamações assumiram feição mais aggressiva, quando
a ordem do exercito publicada em 17 de janeiro de 1891 inseriu a
promoção ao posto de alferes de trez aspirantes,--promoção contraria á
lei, visto que por ella deviam beneficiar dois aspirantes e um 1.º
sargento.
O orgão da classe transpareceu logo esse descontentamento e um grupo de
sargentos da guarnição do Porto divulgou um protesto em que se dizia com
toda a clareza:
«Camaradas!
«Nós temos sido a pella de brinquedo dos governos nos ultimos tempos e o
nosso bom nome clama com energia para que termine este ultrage. Ha pouco
era um ministerio que, tendo-nos constantemente illudido com a promessa
de augmento de vencimento, só quando foi invadido pelo terror da agonia
é que se lembrou de que nós podiamos ser seu sustentaculo, e por isso
tentou corromper-nos, sacudindo nas nossas faces as migalhas da
toalha do orçamento. Agora é um gabinete presidido por um general,
que nós ingenuamente consideravamos nosso protector, nosso amigo
solicito e desvelado, que, tendo-nos promettido a escala de promoção por
antiguidade do curso, se curva ante as exigencias de uma aggremiação
politica em que militam muitos officiaes da arma scientifica,
respondendo com despreso á nossa ardente... e jubilosa expectativa.
«Unamo-nos todos: que haja uma só voz, um só pensamento, uma só vontade!
Só assim nos poderemos vingar impondo a nossa força e fazendo prevalecer
os nossos direitos contra a perfidia dos nossos _amigos_. Desviemos os
olhos d'este monturo pestilento, que exhala miasmas que nos asphyxiam e
volvamol-os para a alvorada que desponta no horisonte social... Tomemos
as armas nas mãos, e com fé e enthusiasmo saudemos o futuro, que elle
minorará a nossa sorte ingrata.»