que teve o seu desfecho em 5 de outubro de 1910. Nunca se viu cousa
semelhante em grandeza e sinceridade. O povo, o bom povo portuguez,
compenetrado da elevação da festa, e ainda mais de que a homenagem ao
immortal cantor das nossas glorias correspondia ao anceio d'uma
revivescencia futura, acorreu a ella cheio de enthusiasmo, ardoroso,
expandindo a maior alegria. A celebração do tri-centenario radicou
no espirito da nacionalidade a ideia carinhosa de que no auctor dos
_Lusiadas_ se symbolisavam as esperanças de melhores dias e talvez do
regresso a um passado opulento, viril, de inapagaveis tradicções.
«Mas a grandiosa homenagem não teve só esse condão. Despertou egualmente
a energia democratica, congregou em volta das figuras do partido
republicano, então em evidencia, os elementos dispersos, consolidou-os,
deu corpo á opinião publica, foi o ponto de partida da marcha politica
que, em successivas _étapes_, conseguiu, entre nós, pôr um ponto final
no regimen monarchico. Devemol-a essencialmente a Theophilo Braga, que
durante tres annos consecutivos fez uma propaganda intensissima para a
sua realisação. A commissão executiva da festa compunham-na elle,
Rodrigues da Costa, que representava ao tempo o jornal mais antigo, a
_Revolução de Setembro_; Pinheiro Chagas, Eduardo Coelho, Jayme Batalha
Reis, Ramalho Ortigão, Luciano Cordeiro, eu e o visconde de Juromenha,
mais tarde substituido pelo Rodrigo Pequito. Cada um de nós tomou a seu
cargo para a preparação da solemnidade o realisar um certo numero de
conferencias em que, divulgando a obra do epico, se orientava ao mesmo
tempo o espirito publico n'um ideal genuinamente patriotico.
«E a influencia exercida pela nossa acção foi tal que, apesar da
hostilidade que o governo progressista da epoca nos moveu, os _Lusiadas_
entraram em todos os lares e Camões, alcançando a maior consagração,
passou a ser como que o orago da massa popular. As edições da monumental
epopeia vulgarisaram-se por uma forma extraordinaria. Fizeram-se varias,
desde a mais modesta, ao alcance de todas as bolsas, até á de luxo,
regalo de privilegiados. Os nossos manifestos eram acolhidos com
verdadeira soffreguidão e conseguiam maior exito do que os decretos do
governo. Chamava-se ironicamente á commissão do tri-centenario o
_comité_ de Salvação Publica, mas essa ironia dava bem a medida da nossa
força e o que é mais: da impetuosidade da corrente democratica que
caracterisou sempre e profundamente a homenagem ao grande poeta.
«A celebração do tri-centenario fez expandir a ideia republicana que
muitos espiritos acalentavam em silencio. Em 1880 havia republicanos,
mas não havia conjugação de forças democraticas. O tri-centenario
promoveu-a. Antes de se prestar a homenagem ao poeta, já se palpava a
existencia de um ideal de liberdade e de justiça, o esboço d'uma reacção
decidida contra o regimen monarchico. Recordo-me, perfeitamente, que no
antigo _Commercio de Portugal_, ensaiando a verificação d'essa corrente
avassaladora, obtive um resultado bastante lisongeiro. Nos caixeiros,
mais talvez do que nas outras classes, encontrei elementos valiosos de
propaganda--parte dos quaes fundou e installou o Atheneu e mezes depois
da celebração do tri-centenario me auxiliou na fundação do _Seculo_.
«Glorificando o epico immortal, revestindo de excepcional imponencia
esse cortejo apotheotico do dia 10 de junho de 1880, Lisboa e, com ella,
as provincias, soffreram um abalo salutar, enveredando decisivamente no
caminho da destruição da tyrannia brigantina. A monarchia comprehendeu-o
e quiz impedil-o. O rei D. Luiz pretendeu encorporar-se no cortejo e o
governo não lh'o consentiu. Em summa, a influencia desprendida da festa
foi enormissima e fez-se sentir de modo flagrante no decorrer dos annos
e em diversos incidentes da vida interna da nacionalidade».
Em 1881, quando a imprensa republicana promoveu uma campanha justa e
violenta contra o celebre tratado de Lourenço Marques, a opinião vibrou
como nunca até ali vibrara. Alguns officiaes do exercito chegaram a
offerecer-se para, na impossibilidade do partido republicano se lançar
abertamente n'uma revolução, organisarem guerrilhas e d'esse modo
combaterem a monarchia. Crearam-se centros politicos, as associações de
classe tomaram um incremento irreprimivel e o povo passou a
interessar-se a valer pelas attitudes dos governantes. Apoz a celebração
do tri-centenario, o dr. Magalhães Lima propoz-se deputado por Lisboa,
ou melhor, pelo circulo 98, que comprehendia S. Paulo, Santos, Lapa e
Alcantara. A lucta foi renhida. Theophilo Braga propoz-se depois por
Alfama, Manuel de Arriaga pela Baixa e Elias Garcia pelo circulo 95
(Anjos). Durante annos foram estes os _candidatos chronicos_ dos
republicanos da capital. Travaram-se batalhas eleitoraes que ficaram
memoraveis. D'uma das vezes, disputando Magalhães Lima um circulo a
Hintze Ribeiro, Fontes, ao tempo presidente do conselho, viu-se forçado
a ir presidir a um comicio para _poder salvar a honra do convento_...
Comtudo, esse impulso progressivo experimentado em 1880 pelo ideal
democratico, soffreu um decrescimento apoz 1881, isto é, logo que a
questão do tratado de Lourenço Marques se apagou do espirito publico. E
essa decadencia, chamemos-lhe assim, chegou a ser tão accentuada que o
incomparavel jornalista Emygdio Navarro não duvidou um bello dia fazer
um appello ao estado maior do partido republicano convidando-o «a ir
religiosamente enterrar uma bandeira que parecia condemnada a não se
desfraldar jámais». O director das _Novidades_ supplicava a todos os
democratas que fossem uteis á patria, levando a sua dedicação, o seu
trabalho, a sua intelligencia aos arraiaes da monarchia, que os
receberia de braços abertos. Deram-se mesmo algumas deserções. O
jornalista portuense Emygdio de Oliveira cessou a publicação do diario
_Folha Nova_ e renunciou á politica republicana. Outros dos seus
correlligionarios acolheram-se a um novo gremio politico--a _Esquerda
Dynastica_--fundado e dirigido pelo sr. Barjona de Freitas, e durante
mezes, dada a crise de desorganisação que o minava, suppoz-se até que o
partido mais avançado se fusionára n'aquella facção conservadora.
CAPITULO VIII
João Chagas abandona enojado a imprensa monarchica
Mas sobreveiu o _ultimatum_ e esse conflicto diplomatico exerceu
egualmente consideravel influencia nas condições politicas da sociedade
portugueza. O patriotismo, offendido, encorporou-se nas fileiras
democraticas e engrossou-as. Brotaram da indignação do momento varios
jornaes que foram outros tantos pamphletos revolucionarios: a _Patria_,
de Lisboa, o _Rebate_, do Porto, fundado pelo sr. Eduardo de Sousa, o
_Ultimatum_, de Coimbra, fundado pelo sr. Antonio José de Almeida. Com
essa erupção jornalistica coincidiu a formação, na Universidade, d'uma
geração de propagadores do ideal, que apoz os dias luctuosos de 1890
publicou um manifesto vigoroso, aggredindo directamente o regimen
monarchico e reclamando a bem da patria uma mudança de instituições. A
policia não deixou circular esse documento, mas dois diarios
reproduziram-no immediatamente nas suas columnas. Assignavam o
manifesto, entre outros, estes estudantes:
[Ilustração: A guarda municipal entrincheirada na egreja de Santo
Ildefonso]
_Fernando Brederode, João de Menezes, Agostinho de Campos, Cunha e
Costa, Couceiro da Costa, Antonio José de Almeida, Pires de Carvalho,
Lomelino de Freitas, Antonio Cabral, Mario Monteiro, Augusto Barreto,
Silvestre Falcão, João de Freitas, Paulo Falcão, Francisco Valle, Julio
Paulo de Freitas, Malva do Valle, Evaristo Cutileiro, Luiz Soares de
Sousa Henriques, Affonso Costa, Manuel Galvão, Lucio Paes_
_Abranches, Julio de Mello e Mattos, Fausto Guedes, Bessa de Carvalho,
Alberto de Oliveira, Bernardo Leite, Carneiro de Moura, Antão de
Carvalho, Arthur Leitão e Virgilio Poyares._
É tempo de nos referirmos á entrada de João Chagas na scena politica,
facto que se produziu em 20 de fevereiro de 1890. O eminente publicista,
que até então trabalhara na imprensa monarchica, revoltado ou, melhor,
enojado com o espectaculo que presenceara durante os dias agitados que
se seguiram ao _ultimatum_, dirigiu n'aquella data esta carta ao
_Correio da Noite_:
«_Meu caro amigo_:--Não me convindo continuar a collaborar em jornaes da
imprensa monarchica, nos quaes, aliás, tenho tido apenas collaboração
litteraria, peço a v... me julgue desde hoje desligado da redacção
d'essa folha. Aproveito o ensejo para lhe agradecer as provas de
consideração que constantemente me tem dispensado.--Seu amigo e collega:
_João Chagas_.»
Egual declaração foi publicada no _Tempo_ e na _Provincia_ e no dia 21
um jornal republicano da manhã accrescentava, fazendo allusão ao facto:
«desde já affirmamos que João Chagas traz ao nosso partido toda a sua
intelligencia, toda a sua dedicação e todo o seu ulterior trabalho; é
uma adhesão valiosissima, que mostra bem o que ha de diamantino no
caracter do nosso amigo, que não hesita sacrificar interesses egoistas
nas aras sacrosantas da patria, cuja remodelação é incompativel com a
subsistencia do affrontoso regimen que nos vae explorando».
Na _Historia da Revolta do Porto_, que escreveu de collaboração com o
ex-tenente Coelho, João Chagas descreve assim os seus primeiros
passos na propaganda do ideal republicano:
«Em fevereiro de 1890, como um dos auctores d'esta obra, ao tempo joven
e fazendo um jornalismo sem paixão e sem ambições, se decidisse a
encetar o jornalismo politico e a adoptar a causa que era então de toda
a gente, reuniu-se a um, egualmente joven--tudo foi juventude n'esse
movimento!--alumno do curso de engenharia civil, Chrispiniano Fonseca,
que mais tarde veiu a morrer no Brazil, de febre amarella, sob a
republica de Floriano Peixoto; e tendo os dois concertado «que era
preciso fazer alguma coisa», como se dizia por essa grande epocha,
começaram por ir espionar a provincia do Algarve, onde certo dia se
affirmou com alarme que rebentara uma sedição militar e, havendo
reconhecido que tal sedição estava longe de ser um facto, voltaram as
vistas para outro lado e decidiram, apoz diversas machinações, que o que
havia a fazer era _propaganda_ muito activa e muito eloquente.
«D'este accordo partiu a ideia de fundar um jornal republicano, já se
vê, que tomasse a dianteira a todos os que já existiam e que, para a
nossa impaciencia, pareciam excessivamente deficientes.
«Alvitrou-se que se lançasse o jornal a publico o mais rapidamente
possivel, dentro de quinze dias, dentro de um mez--e quando se discutiam
as bases d'essa publicação imprevista e fulminante, lembrámos que um
jornal, tal como o sonhavamos, desencadeando uma tormenta de paixões
populares, só poderia nascer e cobrir-se de gloria no Porto, que até
então não dera grandes signaes de vida civica, mas que se nos
affigurava, pela sua tradicção e pelas nossas superstições, o unico
centro de população portugueza susceptivel de soltar o primeiro de
liberdade de que nos propunhamos ser os interpretes.
«Lisboa, inçada de uma população heterogenea, disseminada n'uma grande
área e dividida pelas opiniões mais diversas, foi posta de parte, como
pouco propicia para o exito do nosso emprehendimento, e adoptou-se o
Porto com enthusiasmo e esperança. Estes dois homens não dispunham,
porém, de uma moeda de cobre que lhes permittisse acalentar tão vasto
sonho, e, por outro lado, não tinham um nome que os auctorisasse a
lançar-se nas luctas politicas, em meio da confiança dos que iam ser
seus amigos e cumplices.»
Apesar d'isso, João Chagas poz-se a caminho da capital do Norte,
alcançou o concurso do velho democrata José Sampaio (Bruno) e em breve
formou-se uma modesta empreza com o capital sufficiente para a fundação
da ambicionada gazeta. O primeiro numero da _Republica_--tal era o
titulo do novo jornal--sahiu a 18 de abril de 1890 e, embora esse e os
numeros seguintes traduzissem ás claras o radicalismo das aspirações do
seu director, a verdade é que o diario logrou pouca vida e pouco tempo
depois suspendia a publicação. Em setembro do mesmo anno, João Chagas,
recebendo o auxilio efficaz de tres democratas, Dyonisio dos Santos
Silva, Joaquim Leitão e Alvarim Pimenta, voltou a insistir na creação
d'uma folha demolidora e fez sahir a _Republica Portugueza_, que acolheu
na sua redacção toda uma pleiade de velhos e jovens combatentes,
animados por egual do desejo de derrubar o regimen. O artigo de
apresentação inserto no primeiro numero dizia assim:
«A obra d'este jornal será inteiramente e desassombradamente
revolucionaria. Tanto vale dizer que será um jornal de combate e
dirá tudo o que fôr mister:
«a despeito da vontade pessoal do rei;
«a despeito da tyrannia dos governos;
«a despeito do odio e da antipathia dos homens e dos partidos que
exploram o paiz.»
No primeiro numero da _Republica Portugueza_ tambem foram estampados os
retratos do rei e de dois dos ministros, precedidos d'estas palavras:
_Pelourinho: Os tres de Inglaterra_. Nos outros logares do jornal
explodia a incitação á revolta, usando-se d'uma linguagem que nunca até
ali fôra empregada com tanta franqueza. D'aqui resultou o crear-se, pelo
estimulo do exemplo, uma atmosphera de decisiva batalha, que nem os
acontecimentos nem os homens haviam ainda preparado. Affirma-o João Chagas:
«A revolta de 31 de janeiro pode attribuir-se em grande parte ás
instigações directas d'esse jornal, o qual, por seu turno, se veiu a
publico, não foi senão em virtude de circumstancias que não se
produziriam sem o conflicto diplomatico anglo-portuguez. Por isso
reputamos esse conflicto a causa unica do movimento revolucionario do
Porto, que, sem elle, nem encontraria meio idoneo em que se consumasse,
nem agentes que o provocassem. Dar-se-hia outro, mais tarde, e em outras
circumstancias. Esse não».
Na _Republica Portugueza_ collaboraram José Sampaio (Bruno), Julio de
Mattos, Basilio Telles, Latino Coelho, Elias Garcia, Gomes Leal,
Heliodoro Salgado e, o que é mais interessante fixar, varios officiaes
do exercito--um dos quaes, em serviço na guarda municipal, teve um dia
ensejo de ver querellada a sua prosa. A par d'essa collaboração,
logo que a _Republica Portugueza_ viu a luz da publicidade, arremettendo
violentamente contra as instituições, appareceram um sem numero de
communicações «sob a forma de cartas e manifestos, de soldados, cabos e
sargentos da guarnição portuense, a principio, depois de militares das
guarnições da provincia, por ultimo de officiaes de todas as graduações
já do Porto já de Lisboa». E os que as enviavam ao jornal faziam-no de
modo tão explicito que, em certa altura, houve necessidade de destruir
uma boa parte da papelada, receiando-se que ella cahisse em poder dos
defensores do regimen e collocasse os signatarios em situação
compromettida. Como amostra da linguagem empregada n'esses documentos,
damos a seguir o trecho d'uma carta enviada n'essa occasião á _Republica
Portugueza_ por um grupo de officiaes transmontanos:
_Camaradas: A mãe-patria agonisa. É preciso que seus filhos a salvem sem
demora, porque a sua salvação é do nosso dever. Salvemos a patria
proclamando a Republica. Camaradas: Não ha tempo a perder._
D'aqui se deprehende facilmente que os acontecimentos de janeiro de 1890
não tinham apenas perturbado a massa generosa do povo, mas egualmente o
exercito, que se sentira molestado nos seus brios. Como toda a nação, o
exercito reclamava o desaggravo. E esse estado de animos não se revelava
simplesmente nas communicações dirigidas á _Republica Portugueza_, mas
tambem em dois orgãos da classe militar, o _Sargento_ e a _Vedeta_, que
deram á imprensa democratica um forte contingente para a sua propaganda
subversiva. O _Sargento_, por exemplo, exclamava com uma audacia que ia
a todo o genero de infracções disciplinares:
«O exercito aguarda o plebiscito da nação, sem as restricções, as
formulas e os sophismas constitucionaes; o plebiscito dos cidadãos
livres e honrados na urna livre e honrada; o plebiscito de protesto e da
representação nos comicios; ou o plebiscito da revolução nas barricadas.
«O povo é o poder legislativo; o exercito é o poder executivo. O povo é
a vontade; o exercito é a acção. O povo é a soberania; o exercito é a
força. O exercito não é uma guarda de suissos; o exercito não é uma
casta. O exercito é a nação armada e é a democracia armada».
A linguagem da _Vedeta_ não era menos arrojada e expressiva. A irritação
na classe militar augmentava de dia para dia, e porque o governo de
Hintze Ribeiro, sempre cuidadoso de rodear o throno do maior numero de
garantias, entrara a valer no caminho das repressões, transferindo
officiaes e mandando para o serviço do cordão sanitario, que então
guarnecia a fronteira, certos contingentes de corpos suspeitos de
rebeldia. Por outro lado, em agosto, o mesmo governo apresentava ao
parlamento o tratado com a Inglaterra e esse novo acto de vergonhosa
submissão ante a _fiel alliada_, longe de acalmar os espiritos, aguçara
extraordinariamente as ideias revolucionarias.
A medida ia a trasbordar... N'uma noite d'aquelle mez, um grupo de
segundos sargentos e cabos de infantaria e caçadores, sem que a sua
_démarche_ correspondesse a qualquer trabalho previo de alliciação,
apresentou-se na redacção da _Republica Portugueza_ e um d'elles,
Annibal Cunha, formulou o plano da rebellião. Tratava-se de fazer sahir
infantaria 18, para o que diziam contar com o apoio de grande numero dos
seus camaradas, depositando antecipadamente na alameda da Lapa, proxima
do quartel, uma certa quantidade de espingardas de velho typo,
existentes na arrecadação do regimento. As espingardas serviriam para
armar os cidadãos que fosse possivel ligar á aventura.
Exposto o plano, o grupo prometteu voltar ao jornal e voltou, com
effeito, desferindo então mais largos vôos, ampliando a esphera do seu
emprehendimento. Não era facil, porém, realisar na occasião qualquer
tentativa e, apoz acalorada discussão, foi decidido aguardar o regresso
ao Porto das tropas empregadas no cordão sanitario. Mas esse grupo,
tendo iniciado o contacto directo com os homens que propagavam pela
palavra e pela escripta o ideal republicano, não tardou que outros
militares o imitassem e, dentro de semanas, a redacção da _Republica
Portugueza_ passou a ser frequentada por dezenas de sargentos, cabos e
soldados da guarnição do Porto, todos dispostos a collaborar na obra da
revolução. Quer dizer: o _complot_ militar formava-se e avolumava-se
gradualmente, espontaneamente, sem que os dirigentes da politica
democratica para elle houvessem contribuido com o mais insignificante
pedido de concurso.
CAPITULO IX
O dr. Alves da Veiga assume a chefia civil do movimento
Comtudo, tornava-se necessario acceitar as adhesões que irrompiam cada
vez mais numerosas e inflammadas e canalisal-as, dando-lhes orientação
perfeitamente definida. João Chagas e a redacção da _Republica
Portugueza_ procuraram entender-se, para tal effeito, com o dr. Alves da
Veiga, que ao tempo gosava no Porto da situação d'um chefe de
partido e dividiram com elle as responsabilidades da conspiração. Até o
momento, os republicanos do Porto tinham-se limitado, na espectativa dos
acontecimentos, a agitar a opinião por meio da imprensa e dos clubs; o
directorio do partido, presidido por Elias Garcia, procurára iniciar um
movimento egualmente de caracter militar e delegára em Basilio Telles o
encargo de o secundar na capital do Norte. No emtanto, como de todos os
republicanos portuenses o dr. Alves da Veiga era o que dispunha de maior
actividade organisadora, foi elle que desde logo assumiu a chefia civil
da conspiração, continuando Basilio Telles a operar de concerto com o
directorio, extranho em absoluto a esta primeira phase dos
acontecimentos. E assim, em setembro de 1890, lançando mãos á obra, o
illustre jurisconsulto preparou nas provincias do Norte diversos
_comités_ revolucionarios que deviam secundar, no ensejo propicio, a
iniciativa do Porto.
[Ilustração: Capitão Leitão (1891)]
Restava encontrar quem reunisse á sua volta, e os estimulasse, os
elementos de lucta que se offereciam constantemente á redacção da
_Republica Portugueza_. Lançou-se os olhos sobre a figura gigantesca
de Santos Cardoso e o famoso director d'um semanario de combate--que se
propunha «pôr as calvas a descoberto»--embora soffrendo d'uma reputação
pouco cuidada, appareceu immediatamente como o homem de acção capaz de
aggremiar os officiaes inferiores da guarnição do Porto que se
entregavam á causa da revolta. E assim succedeu. A casa de Santos
Cardoso passou a ser o centro da conspiração dos sargentos. Mas o
director da _Justiça Portugueza_, não contente com isso, quiz ir mais
longe. Principiou a dirigir-se a varios officiaes, solicitando a sua
adhesão e a corresponder-se com o directorio, de quem recebia
communicações e mais tarde lhe conferiu um voto de confiança.
Em 17 de setembro, deu-se no Porto a unica manifestação tumultuosa que
precedeu na capital do Norte a revolta de 31 de janeiro. A sua
iniciativa partiu d'um grupo de estudantes, entre os quaes se contavam
Alberto de Oliveira e Eduardo Arttayette. Começou no café Suisso, na
praça de D. Pedro. Pouco antes, tinham sido queimados á porta do
estabelecimento varios jornaes do governo--como protesto contra a
apresentação do tratado de 20 de agosto--e davam-se vivas á Patria e
morras á Inglaterra, quando entrou no café o antigo republicano
Felizardo de Lima. Resoou uma enthusiastica salva de palmas, o estudante
Ernesto de Vasconcellos fez um discurso caloroso e alguem soltou este
grito:
--Para a rua!
Os manifestantes sahiram em massa do estabelecimento e encaminharam-se
para a rua dos Clerigos, tendo á frente, entre outros, João Chagas e o
dr. Julio de Mattos. O cortejo comprehendia individuos de todas as
classes sociaes e atroava os ares com vivas, morras e ruidosas salvas de
palmas. Dos Clerigos, os manifestantes foram á Cordoaria. Depois, em
frente da Relação, o estudante Eduardo de Sousa fez um discurso e o
cortejo encaminhou-se para a rua das Taypas, produzindo novas e
estrepitosas demonstrações deante do quartel de caçadores 9. Á porta e
ás janellas do quartel appareceram muitas praças agitando os _bonnets_.
Da rua das Taypas, os manifestantes dirigiram-se á rua do Triumpho,
entoando a _Marselheza_ e a _Portugueza_, então muito em voga. Em frente
do quartel de infantaria 10 reproduziram-se os applausos ao exercito e o
cortejo seguiu para a rua do Pombal, parando junto d'uma das casas
d'essa rua a acclamar o dr. Alexandre Braga, pae do illustre causidico
do mesmo nome. Alexandre Braga, assomando a uma janella, falou ao povo,
affirmando-lhe estar orgulhoso por encontrar nos moradores do Porto a
sua altiva e tradiccional energia.
A manifestação seguiu depois ao campo de Santo Ovidio, parando em varios
pontos do percurso para ouvir improvisados oradores. Um d'elles disse:
--O Porto precisa provar que ainda não perdeu o segredo das revoluções.