Este ministro cruel

em tudo se intromette.

Olhai que cousas promette

junto co'o hollandez Sinel!

N'estas almas de pichel

tudo póde e tudo manda.

Ai! do reino, pois tal anda

o governo portugues

que se vai de um hollandez

contra os rebeldes de Hollanda[12].

Este, pois, governo errado,

para poder conservar-se,

trata de perpetuar-se

em dous polos estribado.

Mas, ai! que está mal fundado

em tão perversa doutrina;

que onde a ambição domina

é sempre o imperio violento,

sendo aos filhos fundamento

o que aos paes foi ruina!

Porque aquelle pai que eu sei

por infamia e por traição

até quarta geração

foi julgado pela lei;

d'este um filho (ó alto rei!)

sacrilego bispo é![13]

Outro, digno de galé,

excluso já por bargante

da companhia triumphante

assiste a julgar a fé[14].

Vêde como a julgará

quem sempre sua fé quebrou;

e o que só vicios guardou

como ovelhas guardará!

Grandes simonias ha,

senhor, n'estes provimentos!

Examinai os augmentos

dos que medram com ambição,

por que eu sei bem que não são

taes os vossos pensamentos.

E, por não parar o extremo,

d'estes o mais vil ladrão

bebado, torpe e bufão

é secretario supremo!

Com que a vosso reino temo,

senhor, grandes precipicios;

pois não só vendem officios

a inuteis, fracos judeus;

mas vendem a honra de Deus

e seus santos beneficios.

Que muito! se, nos sagrados

dormitorios de Enzobregas,

provocou a acções bem cegas

ao seu rancho e aos seus prelados!

E, para os vêr profanados,

certas gaitas ordenaram,

com que todos celebraram

a bacchanal, suja prole;

e foram gaitas de folle

porque os odres não faltaram[15].

E quem isto faz, senhor,

como é possivel que possa

conservar em graça vossa

do vosso reino o melhor!

E não é damno menor

affirmar-vos sem vergonha

que é parente do Noronha

por lhe roubar o que tem,

e com malicia tambem,

que está doudo vos proponha.

Pois aquella rica prenda

n'este reino sentenciada,

por grande Caco lançada

do tribunal da fazenda!

Não me espantarei que venda

por baixo preço a valia

da patria e da monarchia,

pois, nas mudanças que faz,

falso traidor e sagaz

toda a sua esperança fia[16].

Senhor, estes inimigos

são dos melhores sujeitos

que não permittem seus peitos

conservar sabios amigos.

Crêde que em grandes perigos

vos hão de precipitar;

e sirva-vos de exemplar

tantos reinos assolados

porque foram governados

de homens de baixo solar.

É um em tudo guiado

de um forneiro mecatrefe;

de um pendolista bodefe

é o outro governado.

Serão suas razoes de estado

sempre tisnadas e feias

qual corre o sangue nas veias;

fazei d'estes expulsão,

que um é corrêa de cão,

o outro cão para corrêa.[17]

Com vossos poderes regios

estes traidores astutos

torcem vossos estatutos,

quebram nossos privilegios.

Não faltam homens egregios

para governar melhor.

Informai-vos, vós, senhor,

que não falta quem mereça,

quem fiel vos obedeça,

quem sirva com mais amor.

Assim, para commum damno,

e para proprios proveitos

convém que busquem sujeitos

para o governo tyranno;

de sorte, que n'este engano,

viveis, senhor, offendido,

e d'este reino esquecido;

pela divina verdade,

que não ha perpetuidade

no reino que é dividido.

Falta um justo conselheiro

que por commum liberdade

ante vossa magestade

vá com zelo verdadeiro,

qual o grande cavalleiro

Egas Moniz em que igual

foi valor e zelo tal,

que, vendo a patria opprimida,

arriscou a propria vida

pelo bem universal.

N'esta universal fadiga,

quem manda, fallar não deixa;

pois até do pobre a queixa

como culpa se castiga.

Pois como ha de haver quem diga

que a tyrannia insolente

inda fallar não consente!

E nossa fortuna quiz

que se sinta o que se diz;

mas ninguem diga o que sente.

Em fim de tanta crueldade

vos avisa o reino junto,

Portugal que, por defunto,

se atreve a fallar verdade.

Vossa altiva magestade

mostre agora seus poderes;

que, entre tantos pareceres,

qual póde o governo ser,

se, á conta d'uma mulher,

governam tantas mulheres!

_Manoelinho o fez com approvação do senado todo junto._

* * * * *

Comparando o torneio e estylo d'esta poesia com as que tenho impressas

dos poetas d'aquelle tempo, é muita a semelhança que corre entre ella e

os poemetos de Duarte Ribeiro de Macedo, que foi melhor prosador.

[7] Diogo Soares, secretario dos negocios de estado, fazenda e

justiça.

[8] Successos occorridos com embarcações francezas.

[9] Nascimento.

[10] João de Frias Salazar, desembargadar do paço, e o dr.

Francisco Leitão, o _Guedêlha_ de alcunha, de quem dá larga noticia

a romance intitulado _O Regicida_.

[11] Dr. Leitão, era filho de uma notoria meretriz, e havia casado

com outra, a celebrada Vicencia, filha de uma certa Barbara,

alcaiota da rua dos Cabides.

[12] A historia escripta não nos esclarece a obscuridade da

allusão.

[13] D. Sebastião de Mattos e Noronha, áquelle tempo, bispo de

Elvas; hespanhol de nação, e um dos governadores do reino, em

quanto o duque de Bragança, exaltado ao throno, não chegou de Villa

Viçosa. Morreu, como conspirador, no carcere da torre de S. Gião.

[14] O inquisidor D. Francisco de Castro, um dos conspiradores

contra a revolução de 1640, perdoado e reposto no seu officio por

D. João IV, em premio de delatar os seus cumplices.

[15] Não posso rastrear a satyra, se ella entende com Miguel de

Vasconcellos. Póde ser que n'esta copia falte a _decima_ que

prendia com o caso picaresco de Enxobregas. Presumo, pelos versos

seguintes, que o satyrisado seria o bispo de Elvas, D. Sebastião de

Mattos.

[16] Francisco de Lucena, apedrejado pelas regateiras do Porto, em

1628, como executor do tributo das _maçarocas_; secretario das

mercês de Filippe IV em 1638; secretario de estado de D. João IV em

1641, e degolado, como traidor, em 1643. Da sua innocencia diz D.

Luiz da Cunha na sua conhecida _Carta_ a D. José I: «... Conhecendo

elle (D. João IV) a innocencia de Francisco de Lucena, seu

secretario de estado, o deixou condemnar á morte, porque os

fidalgos o fizeram passar por traidor, não podendo soffrer que elle

lhe aconselhasse que lhes não devia alguma obrigação em lhe porem a

corôa na cabeça, por que lhe era devida, a fim de que se não

julgassem credores de grandes recompensas.» Veja o romance

historico _O Regicida_, pag. 227, onde se imprimiram pela primeira

vez os conselhos de Francisco de Lucena a D. João IV, que lh'os

pagou briosamente.

[17] Não pude attingir as referencias.

UM BAILE DADO A JUNOT, EM LISBOA

Os monographos da invasão franceza em Portugal não descrevem nem ao

menos citam o baile dado a Junot, no theatro de S. Carlos, na noite de 8

de junho de 1808.

Esta omissão, de nenhuma importancia ao primeiro aspecto, significa o

receio de ferir as pessoas que assistiram ao obsequio prestado ao

general de Napoleão. O resguardo era racional, quanto aos noticiaristas

coevos do baile; mas hoje em dia a deferencia é escusada, visto que os

filhos e netos dos jacobinos de 1808 se prezam de procederem dos homens

mais liberaes d'aquelle tempo.

Ao baile de S. Carlos concorreram familias da mais selecta sociedade da

capital, e muitas lá não entraram por falta de convite ou carta de

admissão, difficil de obter. Entre outras de menos porte, avultavam as

familias dos condes de Almada, de Sabugal, da Ega, de Peniche, e de

Castro Marim; de D. Francisco Xavier de Noronha, dos desembargadores

Lucas Seabra da Silva, Manoel Nicolau Esteves Negrão, e Abreu Girão; dos

marquezes de Abrantes, Marialva, Penalva e Valença; concorreram alguns

bispos e principaes da patriarchal.

A fim de avaliarmos as curvaturas abjectas por que passou o escol da

fina sociedade n'aquelle baile, vamos vêr que as cortezias foram de

antemão promulgadas como decreto, e rubricadas pelos generaes _Brenier_,

_Thiebault_, e _Margaron_.

O programma foi enviado na lingua do conquistador ás familias duas vezes

conquistadas, quando não eram tres, como certas condessas e viscondessas

respeitaveis por sua fragilidade e amor cosmopolita. Um curioso

contemporaneo, bem ou mal, traduziu, e acertadamente guardou o

programma, tal qual se offerece aqui aos espiritos de boa fé que nos

estão apregoando sempre o patriotismo de nossos avós:

«ANNUNCIO

«A funcção, que o exercito francez de Portugal dá ao snr. duque de

Abrantes, quarta feira 8 de junho, consistirá em um baile de

ceremonia.

«Esta funcção se fará na sala do theatro de S. Carlos.

«As pessoas mais notaveis das differentes classes do reino serão

convidadas por convites pessoaes, e que servirão de bilhetes para a

entrada.

«Entrar-se-ha pelo peristillo grande, e vir-se-ha alli dar pela rua

de...

«As senhoras convidadas serão recebidas pelos mestres das

ceremonias, que lhes darão a mão até ao seu lugar.

«M.mes Thomières, Trousset, et Foy, farão as honras do baile.

«As pessoas convidadas para a funcção, como tambem as que tiverem

alcançado camarote, virão das 7 horas até ás 10 da noite.

«Chegando s. exc.ª ao theatro, será recebido pelos snrs. officiaes

presentes á funcção, os quaes irão adiante d'elle até ao peristillo

de baixo.

«S. exc.ª ao entrar na sala, achará todas as senhoras convidadas

sentadas nas frizas em bancos, ou cadeiras, o interior da sala

estará vazio, e os homens encostados todos ao pano da bocca do

theatro.

«No instante em que elle apparecer, se ouvirá uma musica guerreira,

e todas as senhoras se levantarão para lhe agradecer o seu

comprimento.

«Assentado que seja s. exc.ª, a orchestra executará a cantata

composta em seu louvor; acabado este pedaço será s. exc.ª convidado

a dar volta á sala, e depois tomar-se-hão as suas ordens para a

primeira contradança, que se dançará só, e que estará composta

d'antemão.

«Esta contradança será só de quatro figuras. Immediatamente depois

começará uma contradança franceza com tantas quadrilhas, quantas o

lugar permittir.

«Cada uma d'estas quadrilhas será de quatro pares e de seis

figuras.

«Seguir-se-hão as contradanças, as valsas, e as inglezas.

«Quanto ás inglezas, para que todos os pares dancem sem as

prolongar demasiado, ellas começarão ao mesmo tempo pela cabeceira

e pelo centro das columnas, e durarão até ao ponto em que os

ultimos pares da cabeceira e do centro tiverem dançado; o que

observarão os snrs. mestres das ceremonias.

«Se houver duas columnas, as senhoras estarão sempre dentro do

circulo.

«As inglezas e as valsas serão dançadas sem escolha de lugar; o que

chegar ultimamente se porá depois do que lhe tiver precedido.

«As contradanças francezas não se poderão dançar senão com

bilhetes, o que torna impossivel ter-se feito antecedentemente

algum ajuste.

«Os mestres de ceremonias, que não dançam, serão encarregados

d'esta distribuição, e terão o maior cuidado em fazer que

successivamente dancem todos os cavalheiros e todas as senhoras; as

quadrilhas terão além disto dous mestres do baile, para dirigir as

figuras.

«Depois da quadrilha, da valsa, da inglesa, que acabará ao rodar da

meia noite e meia hora, os snrs. commissarios convidarão as

senhoras a sentar-se, os cavalheiros as conduzirão para a porta da

entrada, e o interior da sala ficará inteiramente vazio.

«Feitas estas disposições, se levantará o pano, o mordomo passará

por entre as abas da tenda, e dará parte, que a cêa de s. exc.ª

está prompta; logo as abas da tenda se levantarão, s. exc.ª abrirá

a marcha, precedido por um dos generaes commissarios que lhe

mostrará o seu lugar.

«Todas as senhoras serão conduzidas pelos cavalheiros; as que não

poderem sentar-se á mesa serão servidas na sala. Á mesa não haverá

homens, senão os que tiverem sido designados pelos commissarios, e

a quem isto tiver sido participado pelos mestres das ceremonias.

«Acabada a cêa, entrar-se-ha na sala do baile em uma ordem inversa

da em que tiverem d'ella sahido, e a tenda se fechará.

«Levantada a mesa da cêa, se porão no seu lugar mesas de jogo; a

tenda se tornará a abrir, ficando assim maior a sala do baile.

«Quando s. exc.ª se retirar será tornado a conduzir á sua carruagem

pelos snrs. officiaes, que o receberam.

«Os generaes commissarios

«Brenier, Thiebault, Margaron.»

Este Junot foi tão desmedido ladrão em Portugal que nem propriamente os

francezes lhe disfarçam as manhas. A historia de França parece

envergonhada quando roça pelo nome infamado do duque de Abrantes.

Principiára valorosamente a sua carreira militar, como simples

granadeiro de voluntarios. De Lisboa sahiu locupletado e cobarde. Na

campanha da Russia, em 1812, contribuiu com o seu indolente sybaritismo

para a completa queda de Napoleão. Em 1813 ensandeceu, precipitou-se de

uma janella, e morreu da queda.

_Malè parta malè dilabuntur._ Esbanjou a opulencia roubada, e legou aos

filhos e á viuva o nome deshonrado, e uma quasi indigencia. A duqueza,

fallecida em 1838, vivia de escrever, e não escrevia sem graça. No lardo

das anecdotas nuamente contadas, consistia o merito das suas variadas

_Memorias_, _Scenas da vida hespanhola_, e _Salões de Paris_.

Do duque de Abrantes ficaram quatro filhos legitimos. O primogenito,

_Napoleon-Audoche_, duque de Abrantes, confirmado no titulo por Luiz

XVIII, seguiu a carreira diplomatica, que descontinuou em resultado de

vergonhosos processos. Fez-se litterato, abastardou-se na vida dos

camarins theatraes de baixa estôfa, e morreu pobremente em 1815.

Succedeu-lhe no titulo seu irmão _Alfred-Michel_, que havia nascido em

Hespanha, por 1810. Foi capitão de estado-maior, ás ordens do general

Mac-Mahon, em 1848. Militou na Africa, e ahi mereceu as divisas de

«chefe de esquadrão.» Em 1854, era ajudante de campo do principe

Jeronymo-Napoleão, e a 24 de junho de 1859 morreu de ferimentos na

batalha de Solferino.

_Josephina Junot d'Abrantes_ entrou em 1825 na congregação das irmãs de

caridade, voltou aos salões em 1827, casou em 1841 com um tal _Amet_,

empreiteiro de carroças, fez-se escriptora de obras moraes, e vivia

ainda em 1861.

A ultima filha d'este mal sorteado casal chamou-se _Constance_, casou

com _Louis-Aubert_, redactor do _National_ e prefeito da Corsega em

1848. Tambem foi escriptora de artigos de modas em diversos periodicos.

Fundou as _Abeilles parisiennes_ ha vinte e cinco annos; e, sem ter

grangeado colmêas de _louises_ com as suas abelhas, morreu pobre como

seu pai, como sua mãi, como seus irmãos.

O roubado não luz. Outros dizem que luz. Os ladrões é que sabem.

QUE SAUDADE!...

Folheando acaso a _Revista Universal Lisbonense_ de 1845, li pela

primeira vez a seguinte noticia:

UM DUELLO DIGNO DE LOUVOR

(CARTA)

_Porto 10 de maio de 1845._

_Snr. redactor._--Peza-me o não ter sido testemunha ocular de um caso

acontecido aqui, a 5, pelas 4 horas da tarde, e em que se há de fallar

por muitos dias.

Tinha-se espalhado que dous estudantes da _arte amandi_, fortissimos no

capitulo dos ciumes e rivaes por uma triste fatalidade (porque segundo

os snrs. estatisticos ha mais mulheres do que homens, e por isso os

zelos masculinos quanto a mim deviam ser prohibidos); estes dous

meninos, digo, ambos com o sangue na guelra, tinha-se espalhado que a

essa hora combateriam em duello de morte (que sempre é obra mais

aceada), sendo o sitio da execução o campo da _Torre da Marca_,

padrinhos, outros academicos, e as armas, pistolas.

Concorreu toda a gente que pôde (eu só faltei por estar com um ataque de

gotta, nos pés se entende); e não só povo, mas dous regedores, cabos de

policia, um destacamento de tropa e muitas mulheres (não admira, a festa

era em nome e louvor do sexo, nada prova tanto os seus feitiços como

umas tripas ao sol); só faltava a tumba da misericordia, diz hoje com

muita graça o _Periodico dos pobres_. Sôa a hora; apparecem os dous

Quixotes montados como dous Sanchos em burros lazarentos de albarda rota

e freio de corda, mas muito arrogantes na catadura (não os burros porém

os campeões); um dos regedores, aliás bom homem, desapprovou com

destempero que duas figuras d'aquelle feitio, brigassem á pistola;

maudou-os apear e aos soldados que os prendessem; o povo, que não queria

perder as passadas, murmurava contra o regedor, muitos estudantes já

começavam a vociferar, um dos duellistas procurava convencel-o em

segredo; o magistrado via-se perplexo e creio que assustado.

Apressou-se em passar por mão o negocio para superior instancia:

acompanhou os zelosos á presença do administrador do bairro. Foi ahi que

se descobriu a chave do enigma:--os maganões declararam que o seu unico

intuito fôra fazer aos duellos a guerra do ridiculo: mostraram que as

suas pistolas levavam polvora mas não bala, e affirmaram, o que era

verdade, que entre os dous não havia nenhuma Dulcinéa. Afóra o regedor,

todos riram muito; e o administrador mostrou ter pena de que se não

tivesse chegado a representar uma farça que poderia ter, talvez,

prevenido algumas futuras tragedias.

_Um tripeiro velho que nunca brigou nem ha de brigar._

* * * * *

Falla-se ahi em _dous meninos_.

Ai! um d'estes meninos era o snr. Freitas Barros, actual secretario da

administração do concelho de Coimbra.

E o outro menino era... eu!

Direi alguma cousa nos pontos em que o correspondente do Porto foi

omisso.

Eu vestia casaca preta de abas em triangulo isosceles com a gola em

promontorio, convexa, redonda e algum tanto sebacea. Na lapela

esfarpellada alvejava uma camelia, symbolisando tenção amorosa á mingoa

da charpa dos Amadis e Lancelotes, meus heroicos antecessores. Os

collarinhos de papel almasso embeiçavam com os arcos amarellos dos

oculos. A gravata era britannicamente branca, e absorvia-me o queixo de

baixo na circumspecta gravidade dos desembargadores d'aquelle tempo.

Recordo-me das luvas que eram de lã verde com um antebraço que lhes dava

uns longes de manoplas. Em uma das botas duvidosamente marialvas luzia o

espigão de uma espora sem roseta. O chapéo de castor, derribado por

gebadas _ad hoc_, desformára-se nas fórmas caprichosas de barretina de

lanceiro. Se bem me lembro, o meu adversario Freitas Barros vestia o

mesmo uniforme, tirante o chapéo que era de bicos, em arco, de alterosas

badanas, um pouco desengonçadas pelo attrito de meio seculo.

E, n'este feitio, depois de presos, atravessamos a cidade, desde a Torre

da Marca até á rua do Almada, bifurcados nos burros espavoridos pela

grita do gentio que exaltava n'aquelle intervallo de imprevisto

carnaval.

Claro é que a minha postura e a plastica do trajar eram bastantemenle

ingratas aos effeitos oratorios, posto que a rhetorica não fosse de todo

parvoa. Dei ao meu braço direito, durante o discurso, um movimento

pendular que depois vi perfeitamente arremedado no parlamento pelo snr.

Martens Ferrão. E, dado que, tanto nas posturas como nas expressões, eu

mantivesse a seriedade compativel, o magistrado que se chamava fulano

Mendanha, não sustentou a gravidade consentanea ao acto, porque me

interrompia com espirros de riso assás funestos aos golfos da eloquencia

de quem quer que seja.

Não obstante, a authoridade compôz sisudamente o aspeito n'este lanço do

meu discurso: «Snr. administrador! O ridiculo, na questão sujeita, póde

contribuir para defecar a humanidade de um crime que a lei não evita nem

pune. O duello, ill.mo snr., só deixa de ser ridiculo quando ha uma

victima, quando ha sangue e lagrimas; e, assim mesmo, ninguem sabe dizer

qual é o honrado, se o que morre, se o que mata, etc., etc., etc.»

Lembra-me que me fiz forte com Voltaire, como se o tivesse lido. Eu não

tinha ainda 19 annos; e, n'aquella idade, dou palavra de honra que era

estudante sem compendios, e o mais ignorante que podia ser um rapaz que

entranhadamente execrava livros, e amava o sol e tudo quanto elle

cobria, exceptuados os livros e os sabios.

Finalmente, o jovialissimo Mendanha mandou-nos embora; e nós d'alli

sahimos com a consciencia convicta de haver escripto um brilhante

capitulo na ethologia nacional, e com o estomago palpitante de sorrisos

para uma merenda condimentosa no _Rainha_ da Praça Nova.

Eu não me considerei então ridiculo a despeito da hilaridade das

multidões. Ridiculo me vi eu dez annos depois, quando sahia de um duello

com uma cutilada; e, olhando para ella, me acudia á memoria o meu

discurso ao administrador Mendanha.

..........................................................................

Mas... que saudades!...

CARTA A RESPEITO... D'AQUELLA COUSA

Agradeço-lhe, meu amigo, a remessa da Moleira que o lacrimavel Silva

Pinto distribuiu impressa no theatro da Trindade. Devo á solicitude de

v. o conhecimento d'este papel, e a occasião que me facilita de pedir ás

pessoas que leram o n.º 6 das _Noites de insomnia_ hajam de me desculpar

das expressões menos limpas com que offendi o decôro das letras. Ha

muitos annos que eu, forçando os impulsos da indole, algum tanto

caustica, á submisão imposta pela idade, tolerava allusões injuriosas

com a mais dolorosa conformidade. Quando, porém, vi que os admiradores

do snr. Theophilo Braga abusavam do silencio dos velhos como de

ignorantes vencidos e cobardemente resignados, fez-se mister de algum

modo avisar estes homens, dar-lhes um pequeno abalo ao seu orgulho,

fazer-lhes até sentir que as suas reputações litterarias estão assentes

em bases pouco solidas. Os termos desabridos que usei com o pobre Silva,

na verdade, sahiram-me immoderados. O homem era mais pequeno do que eu

cuidava. Enganou-me. Pensei que fosse mais mau que tolo; e, n'essa

allocução á opinião publica, vi com tristeza que elle é, no rigor do

vocabulo, um desgraçado que, estourando por dentro, todo o hydrogeneo

sulfurado lhe subiu aos miolos. É uma doença que, se espirrasse para

fóra, todo homem communicavel com Silva devia de andar ensopado em agua

de Labarraque.

N'este papel, que v. me envia, diz elle que me _escalpellisa com o

maximo socego_, e que eu estou _desesperado_. Podéra não estar! Tomára

eu que Silva se calasse, a vêr se me despeno d'estas afflicções em que

elle me traz. _Escalpellisa-me!_ Vê? Do escalpello á faca de ponta a

differença está em algumas pollegadas de aço. O instrumento das glorias

de Bichat, posto em mãos de Silva, assusta-me como se lampejasse nas de

Cartouche. Ó Pinto! ó carnifice! já sei que garotêas na rua de Santa

Catharina, e te alapardas no antro n.º 335. O chefe da esquadra vigia-te

a rogos do meu pavor!

Elle diz ao publico:

Que discute pelo desejo de _formular_ um protesto, etc.;

Que adiante _formúla_ observações, etc.;

Que tem testemunhos de sympathia publicamente _formulados_, etc.;

Que o disparate só um leitor assiduo, etc., ousaria _formulal-o_, etc.

Formúla tudo. Este abuso da _fórma_ denuncía costella de sapateiro. Quem

te reformulára os aleijões a tirapé, Pinto! Pinto falso!

Diz que não me ameaçára na minha vida privada. (O _privada_ é elle e

d'elle. Eu escrevi _vida particular_. Não lhe quero maior castigo que a

vergonha ante si mesmo de substituir cavillosamente palavras para

amanhar um gracejo sujo). Não ameaçou?! Annunciou na _Actualidade_ um

livro escripto por um collaborador, e prometteu dar extractos na folha.

Que queria dizer isso?

Diz que não escrevêra a local da _trilogia_, nem a outra ácerca do

Castellar, nem a da cacophonia.

Então havia outro sandeu de igual marca no jornal? Que parelha de

asneirões! Pelos modos aquelle escriptorio de redacção era uma

estrebaria! Se os dous coexistem, são os meninos-siamezes da estupidez;

mas o outro desconfio que é elle.

Falla de uns meus _contractos litterarios com o snr. Anselmo de Moraes_.

Ahi vai, com nojo e brevidade, a historia d'estes contractos já babujada

pelo dos _Musicos_, e não sei por quantos da quadrilha.

Este Anselmo de Moraes procurou-me, ha seis annos, para me propôr a

redacção de um periodico semanal, que se chamou a _Gazeta litteraria_.

Aceitei. O contracto estabelecido foi que elle me pagaria a redacção por

columna; e, imprimindo em livro os artigos do periodico, me compraria, á

parte, a propriedade do livro. Pagou-me oito numeros, e deixou de me

pagar os restantes. Neguei-me a escrever o n.º 17, quando a divida

montava a 70$000 reis, e eu já tinha pago de minha algibeira a um

collaborador, o talentoso Delfim Maria de Almeida. O periodico terminou.

Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 07 (de 12) · 第 3 / 4 段