pedir-lh'o, como havia acontecido ao estimado escriptor lisbonense
Andrade Ferreira. Esperava eu, todavia, resarcir-me com a propriedade
dos meus escriptos, publicando-os em livro; mas o snr. Anselmo de
Moraes, esbulhando-me d'este recurso, editorou os artigos em volume, e
os pôz á venda com o titulo de _Mosaico e silva de curiosidades
historicas, litterarias e biographicas_, precedidos de um prefacio,
attribuido ao snr. Theophilo Braga, onde se diz, pouco mais ou menos,
que o author dos taes escriptos, sentindo a imaginação fatigada para o
romance, se soccorre d'aquelle genero. Era, ao mesmo tempo, espoliação e
descredito.
Assim que tive noticia d'esta... irregularidade (pacato synonymo de
_maroteira_), constitui procurador que impedisse a venda dos livros,
cuja propriedade me pertencia, e se apossasse da edição que se achava na
casa Moré, se bem me recordo. O snr. Moraes levou d'este acto judiciario
aggravo para a Relação, a qual decidiu que se entregassem os livros ao
editor, fundamentando o accordão em que eu permittira a publicação do
livro. Quem duvidára que eu permittira a publicação do livro? O que eu
não queria consentir era que o snr. Anselmo de Moraes m'o não pagasse.
A acção judicial foi erradamente posta. Eu devia, em vez de fazer
arresto por fraude, requerer arresto por _calote_.
Paguei as custas, e desisti de nova acção para não pagar outras; porque
o snr. Anselmo era insoluvel. Ahi está a historia.
Falta dizer o conceito em que tenho o proprietario da _Actualidade_.
Salvo melhor juizo, é um traficante na pessima accepção da palavra; mas
tão parvo que me açula os seus mastins, devendo açamal-os em tal
assumpto, se tivesse juizo, vergonha e consciencia.
Mas, tornando ao outro:
Pinto diz que eu o ameacei. Eu! Que me chamasse entidade _escura_,
_leproso_ e _ignorante_, perdôo-lhe porque é verdadeiro, menos no
diagnostico da lepra; mas escrever que eu lhe _dirigi ameaças_, é peta
que talvez me obrigue a matal-o uma d'estas bellas noites na rua de
Santa Catharina, n.º 335, 1.º Ando á cata da arma, da unica arma idonea
para tal burricidio: é um gato morto e putrido. Em quanto não topar o
gato, Pinto póde sacudir a juba aos quatro ventos do céo.
A proposito de juba, dizem-me que elle exhibe uma guedelha
_king-charles_ ou á Ferré, o petroleiro. Perguntaram-lhe ahi no Porto
porque não se tosquiava.--Já viu leão sem juba?--respondeu elle.--Nem
urso sem pello--redarguiu o outro.
Figados e bofes de petroleo tem elle. Foi a Hespanha offerecer aos
communaes o seu... estomago. As manhas que lá o sustentaram hei de pedir
authorisação a um cavalheiro de Madrid, muito querido dos portuguezes,
para as contar á Europa. Pinto percebe-me. Não são factos da privada,
são da vida publica, vida de vergonhas que nos a vexam lá fóra. Na volta
de Hespanha, repulso de Lisboa, despejou-se no Porto, e cavalgou
Anselmo, ou Anselmo a elle--é ponto controverso.
Era aprendiz de caixeiro, em casa do snr. Anjos, se me não engano, em
Lisboa. Um dia foi atacado da pestilencia das _piadas_. Entrou a arder
em febre de asneiras. Em seus rábidos delirios, espumava injurias. Houve
um innocente que o desafiou.--«Eu não me bato, insulto!»--respondeu o
alentado cobarde. Moeram-no. Podéra!...
Este homem, na sua miseria, é um exemplo salutar á mocidade. É como o
bebado nos festins da Laconia.
* * * * *
Meu amigo, faz-me o favor de pedir novamente perdão á opinião publica?
Vá-se habituando a pedir perdão todos os mezes.
Sou, etc.
NIL ADMIRAM
O snr. _G._ escreve um folhetim no n.º 154 do _Primeiro de Janeiro_.
Louva as qualidades litterarias do snr. Pedro de Amorim Vianna,
manifestadas na traducção das _Memorias de Lafarge_, e no _Estudo_
correspondente. Observa que a celebre envenenadora grangeou sympathias
nos salões da França, e attribue o phenomeno á corrupção da moral.
Depois, derivando aos costumes contemporaneos, escreve:
«Troppmann que em nossos dias póde ser considerado um dos maiores
criminosos, chegaria a causar fanatismo, se se lembrasse de percorrer a
propria França, theatro das suas tristes façanhas, e não faltaria quem
se désse pressa em procurar estender-lhe a mão com intima effusão de
contentamento.»
Sentir semelhante dislate, mas não o escrever, revelaria, quando menos,
um eclipse de razão; mas divulgal-o, atiral-o ao rosto da sociedade, é
um insulto. Que conceito fórma da moralidade da França o snr. _G._!
Troppmann, o assassino de algumas crianças que a justiça levanta de ao
pé de sua mãi cortada de golpes, percorrendo a França, _causaria
fanatismo; e não faltaria quem se désse pressa em procurar estender-lhe
a mão com intima effusão de contentamento_!
Que dirá o seculo XXII, quando lêr isto! Dir-se-ha que o seculo de Jayme
José Ribeiro, de Belem, era um periodo de selvagismo, e que o snr. _G._,
á imitação de Boecio nas trevas da meia-idade, protestára contra os
vicios do tempo, e affirmára honradamente a sua repugnancia em apertar a
mão de Troppmann, com intima effusão de contentamento.
É justo que cada um exerça o direito de dizer o que pensa; mas os
disparates, que ultrajam a consciencia publica, deveria o escriptor,
embora anonymo, cohibir-se de alardeal-os.
Parvoiçadas d'esta laia, ditas em um botiquim, evolam-se como o fumo
agro de um mau charuto de vintem; mas, estampadas em gazeta
circumspecta, tornam-se immortaes como as gazetas, e arriscam perante a
posteridade os _GG_, os _BB_, e todas as mais letras do alphabeto, sem
excepção dos _TT_.
FIM DO 7.º NUMERO