Por concomitancia de crimes, o snr. Amorim lembra-se da virtuosa duqueza

de Praslin assassinada pelo marido. Espanta-se das nobilissimas cartas

da duqueza, em que brilham elevados sentimentos de amor conjugal, e

acrescenta: _Custa a crêr que em classe tão depravada se dê tão grande

virtude; que uma fidalga possa escrever com tanta alma._

O cheiro de inepcia, que recende d'este dizer, chega a despontar a

iniquidade da injuria. Uma fidalga a escrever honrados sentimentos de

esposa e mãi é cousa que não lhe entra na democracia do snr. Amorim.

Vamos vêr d'onde vem ao figado do professor estes extravasamentos de

succo bilioso contra a classe heraldica.

Derivando nas torrenciaes enchentes da corrupção de França, o snr.

Amorim poja nas praias portuenses, e acha isto cá peor; clama contra os

escandalos d'esta cidade, e nomeia-os para se não parecer com Jeremias e

com os outros que iam botar discursos vagos debaixo dos muros de

Jerusalem e Ninive.

Dá pregão de que um sujeito, acompanhado de outros de boas familias,

perpetrára um rapto; que o juiz indecentemente os não condemnou; que a

mãi da raptada, movida por sentimentos de christã, perdoára ao raptor,

cuja mãi afflicta lhe pedia a liberdade do filho. Assenta que estes dous

sentimentos santos, em tal caso, tinham alguma cousa impia; e, em summa,

que os réos deviam ser condemnados, a despeito das lagrimas de uma, e do

perdão da outra mãi.

Averiguado o rastilho d'este velho odio, apura-se que o snr. Amorim

ainda não pôde perdoar aos cumplices do raptor, porque um dia, na sua

aula, o desauthoraram.

Depois, descamba para a vida particular do raptor, e narra com a mais

rustica indelicadeza a miseranda catastrophe que abriu uma sepultura,

sobre a qual a caridade e a justiça estendem o seu manto misericordioso.

Os adros e cemiterios ruraes tem uma grade que defende o ingresso aos

esfossadores de sepulturas. Não se podem levar estes empeços a todos os

remexedores de cinzas, que são o residuo de enormes incendios, cinzas

sagradas pelas dôres que as reduziram a isso.

O snr. Amorim espanta-se que Vieira de Castro _ainda depois de morto

conserve o favor popular_.

Ás doridas paginas que se escreveram a favor d'esse grande infeliz,

chama o snr. Amorim, _lôas_. E cita ao proposito as jogralidades do

_Puff_ de Scribe, e diz que a _unica moeda corrente é a da peta_.

Impropera de consciencia larga o eminente orador, porque _elle elevou ao

pinaculo da virtude um homem rico, só porque se mostrou caridoso depois

de morto. Todos applaudiram o panegyrico e com tudo ninguem ignorava a

vida do elogiado_.

Allude ao conde de Ferreira. Isto quando não seja indecencia, é

ingratidão. O snr. Amorim Vianna devia lembrar-se que, sem o legado do

conde de Ferreira, não se estaria a esta hora martellando no hospital de

alienados na Cruz da Regaleira. E eu, á vista do exposto, receio que o

author do _Estudo moral_ ácerca da Lafarge esteja no caso, como outros

mais sisudos, de aproveitar os favores d'aquelle estabelecimento.

* * * * *

_O Livro das flôres_ (legendas da vida da rainha santa), _por ALBERTO

PIMENTEL_. Lisboa, 1874.--Não é livro para mysticos peculiarmente. É um

ramilhete de lendas mais formosas que authenticas enfeitando paginas de

historia vernaculamente escriptas. Guiou-se da mão dos chronistas o snr.

Pimentel; porém, quando as moutas das flôres lhe esmaltavam o caminho,

parava a colhel-as, e tecia com ellas nova corôa á memoria da dulcissima

rainha, mensageira do céo, entre inimigos descaroados. Lê-se muito a

sabôr este livro, e aproveitam-se na leitura, como estudo, os lances

capitaes do reinado de D. Diniz, e a selecta linguagem respigada entre

as rudezas das chronicas antigas.

O snr. Alberto Pimentel sabe a sua lingua como raros, e ha de escrevel-a

com primor dos que melhormente a sabem, e de quem vamos aprendendo todos

os que não viemos a este mundo com fadario de burros, não desfazendo em

ninguem.

* * * * *

_Theatro de Molière. Quinta tentativa. O Misanthropo, comedia em 5

actos, versão liberrima, pelo snr. VISCONDE DE CASTILHO._ Lisboa,

1874.--Ainda não pude affazer-me á convenção de que estou lendo Molière

quando estudo estas chamadas versões _liberrimas_. Seria preciso que, a

intervallos, o torneio da dicção peregrina, a allusão ethnographica, o

particular relevo da nacionalidade franceza me trasladasse ao tempo de

Luiz XIV e ao meio das condições especiaes de vida em que Molière

photographou os seus grupos. Estas mui de siso chamadas

_nacionalisações_ renovam-se tão portuguezas do fecundante engenho do

nosso poeta, derivam tão affins da graça e donaire lusitanos de Gil

Vicente, Ferreira e Antonio Prestes, que não posso interpor aos antigos

mestres e ao mestre, em que todos os passados rebrilham, a inspiração

forasteira de Molière.

O _Misanthropo_ é outro livro que o snr. visconde enfileira na

bibliotheca das nossas riquezas litterarias. Estes cinco dramas hão de

crear maior numero de affectos e affeiçoados á lingua patria que toda a

grave e ponderosa communidade de classicos, inculcados nas

chrestomathias. Não havia meio de amaciar as asperezas do estudo da

lingua, senão este de offerecer á juventude negligente o fructo em cabaz

de flôres.

Depois de Molière, o valente pulso de Castilho vai medir-se com o

formidavel Shakspeare. O _Sonho d'uma noite de S. João_, editorado pela

activissima casa Chardron, já está no prelo. Seguir-se-ha _A

tempestade_. Seguir-se-hão as juvenis glorias de um talento que

reflorece cada anno afim de que o cantor da _Primavera_ não sinta na

quadra final que um anno lhe passou sem flôres. Abençoado sejas da

posteridade com o amor que te consagram os teus discipulos, mestre

generoso que tanto mais nos amas quanto nos liberalisas as riquezas do

teu espirito!

* * * * *

_Portugal antigo e moderno, diccionario heraldico, geographico,

estatistico, chorographico, archeologico, historico, biographico e

etymologico, etc., por AUGUSTO SOARES DE AZEVEDO BARBOSA DE PINHO LEAL._

Lisboa, 1874.--Estão publicados dous tomos e algumas cadernetas,

abrangendo as letras A--F. As pessoas que estudam e avaliam a natureza

do trabalho arido e ingrato a que o snr. Pinho Leal dedicou o maior

numero dos seus annos, sabem aquilatar o merito d'aquella obra de

tamanho fôlego. Para essas pessoas as imperfeições de tal escripto não

lhe desluzem o merito nem esfriam o reconhecimento que se lhe deve. Quem

compulsou as obras do mesmo genero anteriormente publicadas e

apreciadissimas no mercado, agradece ao laborioso archeologo a grande

melhoria do seu trabalho, e ao benemerito editor o alento raro com que o

tirou a lume. Já vi arguido o snr. Leal de inexacto em miudezas

topographicas, sem lhe descontarem que elle aceitou as noticias

divulgadas em livros que os censores não haviam previamente corrigido

com a sua esclarecida censura. Com toda a certeza, o meu amigo Joaquim

Martins de Carvalho conhece as cousas antigas e hodiernas de Coimbra

mais de fundamento que o snr. Pinho Leal; mas seria impertinente

exigencia obrigar um chorographo a jornadear muito de espaço nas terras

que descreve para convencer-se de que as descripções que o precederam e

guiam eram menos exactas. O que é de todo o ponto certo é que eu tenho

consultado com aproveitamento o _Diccionario_ do snr. Pinho Leal em

variados pontos da sua ampla area. Não sei de outro armazem onde tão

variadas noticias se encelleirem, e tão de prompto se deparem ainda aos

mais versados. Com muita satisfação me glorio de ter cooperado com o meu

sincero voto para a editoração d'esta obra subsidaria de todos os

estudos respeitantes á historia, á geographia e ás antiguidades de

Portugal. Quem, depois, do infatigavel author d'estes livros, escrever

outros com mais primorosa penna, tem de constituir-se em divida e

gratidão immensa ao snr. Pinho Leal que está carreando as achêgas para o

futuro edificio. Duvido, porém, que n'este paiz em que um livro de 300

paginas representa o supremo esforço da nossa indole preguiçosa, haja

quem immole trinta annos de sua existencia, e os bens do seu patrimonio,

a um lavor que nas demasias do seu zelo, a critica desconceitua.

Deixam-se correr desafogadamente quantas parvoiçadas soltas e rimadas

por ahi coriscam de cerebros borrascosos; porém, se um escriptor de

indefessa lida concorre ao mercado das frandulagens com os seus suados e

tressuados livros, topa logo pela frente o vigilante piquete dos sabios,

que só n'estes lances sahem da tenda, como Achilles. Cumpre-me declarar

que tenho a maior consideração pelas correcções do snr. Martins de

Carvalho, quanto á topographia de Coimbra; mas não a tenho menor pelas

improbas fadigas do snr. Pinho Leal com cuja amizade me honro e

desvaneço.

PARA A HISTORIA DE D. JOÃO IV

(DOCUMENTO INEDITO)

É notorio que o infante D. Duarte de Bragança, que em 1640 militava no

exercito de Fernando III, imperador da Austria, foi traiçoeiramente

preso a instancias de Francisco de Mello, seu parente, portuguez, e

embaixador de Castella em Vienna.

Uns historiadores dizem que seu irmão D. João IV se inquietára quasi

nada com a prisão do infante; outros, mais exactos, asseveram que o rei

alguns esforços empregou para o libertar. Isto é verdade; mas os

esforços eram tão diplomaticamente frouxos que, vistos á luz da sã razão

e da boa politica, os historiadores que negam parece ganharem a partida

aos historiadores que affirmam a solicitude de D. João IV.

O infante estava preso na roqueta da torre de Milão, encadeado de modo

que nem sequer podia adormecer, quando o rei de Portugal, mediante o seu

embaixador em França, pedia, em 1643, á regente Anna d'Austria, na

menoridade de Luiz XIV, solicitando de sua magestade christianissima a

liberdade do infante D. Duarte em troca de alguns importantes

prisioneiros castelhanos que o governo francez tinha a bom recado.

Ahi está a arrojada tentativa que fazia o rei de Portugal no resgate de

seu irmão:--requer a uma nação alliada que arranjasse lá isso,

desfazendo-se dos seus prisioneiros, em escambo de um principe, que, ao

parecer de João IV, valeria tanto como dous ou tres hespanhoes

aprisionados em batalha!

E, ao mesmo tempo, pedia emprestado dinheiro á França, como se uma só

prova de pusillanimidade bastasse a enrilecel-o no conceito do cardeal

Mazarin, e solicitava ainda que o governo francez lhe protegesse o bispo

de Lamego, em Roma, e lhe restituisse integralmente o dominio da ilha de

S. Lourenço (_Madagascar_) onde os francezes, em 1642, se tinham

estabelecido com feitorias[2]. Eis a resposta dada por Chavigni, um dos

plenipotenciarios que trataram com o embaixador portuguez[3]:

RESPOSTA ÁS MEMORIAS DO EMBAIXADOR DE PORTUGAL (_versão_)

_El-rei se fará informar particularmente do negocio da ilha de S.

Lourenço para tomar tal resolução qual convenha á amizade e alliança que

ha entre sua magestade e el-rei de Portugal._

_Sua magestade seria contentissimo em poder contribuir segundo sua

affeição para com el-rei de Portugal, no livramento do infante D. Duarte

seu irmão, mas pelo que toca á troca que elle fez propor dos

prisioneiros dos inimigos para em lugar do dito infante, roga a vossa

magestade que considere que os inimigos tem tambem francezes entre suas

mãos, e que todos os dias a fortuna da guerra póde fazer cahir outros,

os quaes não podem sahir senão por uma tal troca; que sua magestade é

obrigado a os conservar e grangear a fim de que elles se empreguem mais

animosamente em o serviço de sua magestade e em adiantamentos de causa

commum; elle fará, com tudo, tudo aquillo que depender do seu poder pela

liberdade do infante D. Duarte, ao qual não tem elle menos affeição que

el-rei de Portugal mesmo[4]._

_El-rei fez despezas tão excessivas para o entretenimento de seus

exercitos, tanto de mar como de terra, e por assistir a seus alliados,

segundo os tratados que lhe havia parecido bem fazer com elles por lhes

dar tanto mais de meios para se esforçarem poderosamente pelo bem

publico e causa commum, que sua magestade teria antes necessidade de ser

alliviado de taes despezas que de se empenhar em outras novas, o que a

elle lhe é totalmente impossivel; de sorte que tem grande desprazer de

não poder ajudar de dinheiro ou mesmo de emprestimo a el-rei de

Portugal, como fizera de bonissimo coração, se o estado dos seus

negócios lh'o permittira._

_Sua magestade dá ordem á esquadra dos seus navios na Arrochela de tomar

ao snr. bispo de Lamego, embaixador de el-rei de Portugal, vindo de Roma

para o levar..._[5]

_Pelo que toca ás bandeiras dos navios reaes e mercadores em os portos

de França e de Portugal, este negocio se remetteu ao conselho de

marinha, e as Memorias se podem metter em mãos do snr. Habrgue (?) com o

qual se póde tambem conferir aquelle da ilha de S. Lourenço. Feita em

Paris a 21 de março de 1643.==Chavigni._

* * * * *

O infante D. Duarte de Bragança morreu, ao cabo de oito annos de prisão,

algemado como facinoroso, em um antro destinado aos supremos criminosos.

Do mesmo passo que D. João IV pedia dinheiro para se arrostar com as

difficuldades da guerra, e conter o exercito hesitante, um insigne

historiador, Rebello da Silva, escreve que elle offerecêra 400:000

cruzados pela liberdade do irmão. N'este depoimento falta o testemunho

coevo, e critica mais desassombrada que a do conde da Ericeira, cuja

authoridade é medianamente veneravel.

As letras de cambio, que D. João IV firmou, ninguem as quiz descontar em

Amsterdam; e, quando iam ser protestadas, o judeu Jeronymo Dias da Costa

as pagou... em recompensa de lhe haverem queimado os parentes em

Portugal[6].

[2] Madagascar, ou ilha de S. Lourenço primitivamente, foi

descoberta em 1506 por Tristão da Cunha, e não por Lourenço de

Almeida, como diz Ellis na _History of Madagascar, compiled chiefly

from original documents_. (Londres, 1838).

[3] Documento inedito, que falta na collecção dos publicados pelo

visconde de Santarem, e não sei se faz parte dos ineditos do

marquez de Nisa existentes na bibliotheca publica de Lisboa.

[4] Parece ama ironia, se não é antes uma censura, dissimulada em

fineza.

[5] Palavras desfeitas e inintelligiveis.

[6] Veja o _Testamento politico de D. Luiz da Cunha_, sujamente

impresso com o nome de _Carta_, por A. Lourenço Caminha.

INEDITO DE MANOEL SEVERIM DE FARIA

O primeiro bibliophilo portuguez, o snr. Innocencio Francisco da Silva,

ácerca da livraria e dos manuscriptos ineditos do doutissimo chantre

Manoel Severim de Faria, escreve o seguinte:

«As (obras) que ficaram manuscriptas passaram, depois do seu

fallecimento (1655), juntamente com a sua copiosa e escolhida livraria a

enriquecer outra, ainda mais abundante e numerosa, qual era em Lisboa a

do conde de Vimieiro, riquissimo thesouro litterario que foi como tantos

outros reduzido a cinzas pelo incendio subsequente ao terremoto de

1755.» (_Dicc. bibliog._, tom. VI, pag. 106).

Alguns traslados de pouquissimos ineditos de Severim vieram á minha mão

com os manuscriptos do jurisconsulto Pereira e Sousa. Os caracteres são

coévos do sabio antiquario; mas a pessima orthographia accusa traslado

de mão imperita. Não obstante, como as idéas não padeceram com a

ignorancia do copista, dou afoutamente esta copia corrigida

orthographicamente. É documento historico, além de these engenhosamente

concertada; por onde se deprehende que o desbarato de D. Sebastião e da

flôr da fidalguia em Africa redundou em beneficio de Portugal.

Senão, vejam:

«_Observações dos males que Deus permittiu para bem de Portugal,

escriptos e expostos pelo chantre da cidade de Evora, Manoel Severim de

Faria. Em 20 de setembro de 1649._

«Permittiu Deus que se perdesse el-rei D. Sebastião, e ficasse toda a

fidalguia portugueza captiva de mouros, porque estando os portuguezes

muito soberbos com as victorias que houveram por todas as partes do

mundo, não as reconheciam já a Deus; mas cuidavam que eram alcançadas só

por seu valor. Castigou Deus esta soberba com aquelle miseravel

captiveiro, e depois com a entrada dos castelhanos, que conhecendo nós

pela experiencia que as victorias que alcançavamos, não era por nossa

fortaleza, senão pela misericordia de Deus, nos humilhassemos e fossemos

exemplo ao mundo d'este conhecimento, e ficassemos capazes de receber

outra vez o reino e a liberdade da sua divina mão.

«Permittiu Deus que o conde de Vimioso, D. Francisco, perdesse a vida e

a casa defendendo a liberdade de Portugal, e que o conde de Basto e o

marquez de Castello Rodrigo ganhassem estes titulos entregando o mesmo

reino; e ordenou depois, que as casas de Basto e Castello Rodrigo se

perdessem, e a de Vimioso se restaurasse pela mesma valia do conde de

Basto, que casou sua filha com D. Luiz, e pela fazenda de Castello

Rodrigo, que casou outra filha com o conde D. Affonso, para mostrar a

todos com tão raros exemplos, que os que fazem o que não devem, cuidando

ganhar para seus filhos, os deixam perdidos, e os que fazem o que devem

ainda que de presente padeçam, não deixam seus filhos desamparados,

antes acrescentados na opinião dos homens e na protecção divina.

«Permittiu a guerra dos hollandezes, no Brazil, para haver capitulações

e soldados praticos n'este reino, que soubessem pelejar contra a milicia

dos castelhanos.

«Permittia que obrigassem aos senhores portugueses a dar soldados para

Catalunha, para que tornassem a Portugal praticos depois da acclamação,

e isto em tanto numero que por conta tem entrado em Portugal, de

Castella e Flandres quasi seis mil homens de guerra.

«Permittiu o escrever das fazendas (cadarso), para que com essa occasião

se levantassem os de Evora, e entendessem os castelhanos que cá em

Evora, havia dez mil homens armados sem a nobreza do reino, e por isso

mandavam que sua milicia não passasse de Badajoz e tiveram por

felicidade a reducção.

«Permittiu que chamasse el-rei de Castella todos os grandes e fidalgos a

Madrid para com isso ficarem só em Portugal os que haviam de acclamar a

liberdade, estando ausentes os que lhe haviam de resistir,

principalmente todos os senhores, que por entregarem Portugal,

alcançavam titulos de el-rei de Castella.

«Permittiu a destruição da armada de Oquendo para que não houvesse

forças maritimas em Castella que excedessem a Portugal.

«Permittiu os desafôros que os castelhanos fizeram em Catalunha para se

atarantarem os catalães e se entregarem aos francezes, para que el-rei

de Castella ficasse opprimido com outra guerra mais perigosa, o que lhe

não deu lugar para acudir á de Portugal, estando principalmente com a

opinião das grandes forças d'este reino; porque, se de Evora sómente lhe

disseram que tinha dez mil homens contra elle, quando não tinha comsigo

a nobreza, quanto maior poder seria agora o do reino todo junto!...

«Permittiu Deus que el-rei de Castella com a inveja que tinha a sua

magestade, sendo duque o obrigasse a ir a Almada, com o titulo de

governar as armas, parecendo-lhe que d'este modo o desauthorisava. Para

que com esta occasião, o visse e tratasse toda a nobreza do reino e se

penhorasse com novos desejos de o reconhecer por seu principe.

«Permittiu que el-rei de Castella obrigasse a todos os nobres que fossem

militar a Catalunha, ou perdessem as honras e fazendas que possuiam. E

tendo-se no reino experiencia que os que partiam para este desterro, não

tornavam, entraram em desesperação e com ella se resolveram a acclamar o

verdadeiro rei, e deixarem o estranho.

«Permittiu Deus que este reino chegasse ao mais miseravel estado que

nunca esteve, sem armas, sem soldados, sem armadas, e sem fortificações

para que, dando-lhe n'esta miseria um rei, vissemos que esta obra não

era alcançada por nosso poder e forças, senão pela misericordia divina,

pois que estavamos sem gente de guerra nas quatorze praças que os

castelhanos tinham n'este reino e os navios armados que estavam em

Lisboa.

«E pelo contrario, que as empresas que acommettemos com maior poder,

como foi a de Andaluzia com tres armadas, não tivessem effeito: e as das

ilhas, que intentando libertal-as com duas armadas, nenhuma d'ellas

chegou a tempo; e os naturaes com suas pequenas forças rendessem os

castelhanos; com que ficou conhecida a victoria por divina, e os da ilha

recuperando a reputação, que no tempo da outra successão perderam.

«Permittiu que estando os castelhanos, os primeiros mezes quietos sem

Portugal romper contra elles; elles rompessem a guerra com Portugal, com

muito pouco poder, com que os portuguezes ficaram melhorando-se, com

alcançarem d'elles muitas victorias, e fazendo-se com ellas muito

praticos, o que sem esta occasião não podia ser.

«Permittiu que antigamente désse o snr. rei D. João, o primeiro, quasi a

terça parte do reino ao condestavel D. Nuno Alvares Pereira, para com

este grande patrimonio se poder conservar a descendencia real da casa de

Bragança com estado grandioso: e agora succedido na corôa, torna-se tão

grande parte do reino a unir a ella.

«Permittiu que muitos senhores e titulos cahissem no crime de

deslealdade, para que com suas rendas e fazendas se ajudar a sustentar a

guerra contra Castella.

«Permittiu que o marquez de Castello Rodrigo largasse a commenda-mór de

Alcantara, para se lhe dar em Portugal satisfação em muitas commendas da

ordem de Christo: e que o duque de Villa Hermosa se acommodasse só com a

de Alcantara.

«D'estes dous homens vagaram grande numero de commendas, com que poder

premiar aos leaes, que estavam servindo.

«Permittiu que vagassem quasi todos os bispados e arcebispados do reino:

e que em Roma os não quizessem prover, para com os fructos d'elles se

poder mais facilmente sustentar a defensa do reino, e serem pagos os

soldados.

«Permittiu que em Roma intentasse o embaixador de Castella affrontar o

de Portugal, para que sahisse o de Castella na fugida; e com a reputação

perdida desamparasse á vista de todo o mundo a mesma côrte de Roma,

acrescentando-se grandemente com isto a reputação do nosso embaixador e

do reino de Portugal.

«Permittiu que no tempo da acclamação ficasse Ceuta com Castella para

nos não dar n'aquella occasião maior gasto de dinheiro e gente.

«Permittiu que quasi a quarta parte de Castella fossem portuguezes, e

que depois da acclamação padecessem tantas vexações, que muitos d'elles

tornassem a Portugal, com que Castella perdeu muita gente, e Portugal a

ficou ganhando, assim em numero como em riqueza, com dinheiro que de lá

trouxeram.

«_Finis laus Deo._»

* * * * *

Deus permittiu tudo isto. Uma nação que assim está debaixo da

fiscalisação divina, com as inscripções a 46 3/8 e o snr. barão de

Zezere na municipal, não póde cahir como Carthago ou Roma.

O MANOELINHO POETA

Cumprindo a promessa do numero antecedente, dou traslado da

_Representação_ metrica, enviada a Philippe IV de Castella pelos

conjurados de Evora. Onde o sentido das allusões rebuçadas me parecer

menos obvio, aventurarei algumas notas explicativas que o leitor versado

emendará, se as achar mal entendidas.

A EL-REI NOSSO SENHOR

Senhor, vosso Portugal,

de vossos paes estimado,

e sempre d'elles tratado

como amigo tão leal,

hoje, em miseria fatal,

está pobre e lastimoso;

e o governo rigoroso,

que tanto o tem perseguido,

lhe nega, sendo offendido,

o allivio de ser queixoso.

N'esta dos tempos mudança,

n'esta da sorte dureza,

na mantuana princeza

tinha librada a esperança.

Em fim, chegou; mas alcança

que já esperar não convém;

pois tão ruins lados tem

n'este imperio desigual,

que só póde fazer mal,

e não sabe fazer bem.

Algum que este povo unido

desejára apedrejado,

e em fim foi d'aqui lançado

a todos aborrrecido[7],

de novo agora admittido

exerce imperio violento;

que, para commum tormento,

n'este governo acontece

que o que castigo merece

agora é merecimento.

Este, agora, por fartar-se

de tyrannias, é tal

que governa Portugal

como quem só quer vingar-se;

pois não só quer odiar-se

c'os naturaes; mas tambem,

sem ser justiça, dotem

aos estrangeiros no mar,

até mandar-lhes queimar

o proprio barco em que vem[8].

De dous bachareis se informa

mui diversos na nação[9],

O Salazar e o Leitão[10]

que só differem na fórma;

só com estes se conforma:

vêde o effeito qual será;

porque um e outro está

sinalado com deshonra[11];

e quem não guarda sua honra

como a vossa guardará!

Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 07 (de 12) · 第 2 / 4 段