Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
of public domain material from Google Book Search)
BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
NOITES DE INSOMNIA
OFFERECIDAS
A QUEM NÃO PÓDE DORMIR
POR
Camillo Castello Branco
PUBLICAÇÃO MENSAL
N.º 7--JULHO
LIVRARIA INTERNACIONAL
DE
ERNESTO CHARDRON
_96, Largo dos Clerigos, 98_
PORTO EUGENIO CHARDRON
_4, Largo de S. Francisco, 4_
BRAGA
1874
PORTO
TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA
62--Rua da Cancella Velha--62
1874
BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
NOITES DE INSOMNIA
SUMMARIO
Os salões, pelo exc.mo snr. visconde de Ouguella--Uma viscondessa que
não era--Bibliographia--Para a historia de D. João 4.º--Inedito de
Manoel Severim de Faria--O Manoelinho poeta--Um baile dado a Junot, em
Lisboa--Que saudade!--Carta a respeito... d'aquella coisa--Nil admirati.
OS SALÕES
CAPITULO V
TENEBRAE ERANT
Portugal ora olhado com desdem o sobrecenho pelas mais nações da
Europa, como tendo, desde o ápice de sua grandeza e poderio, baixado
rapidamente aos termos derradeiros da sua degradação. Quando lord
Tyrawley foi mandado pelo gabinete inglez a Portugal, pouco antes da
guerra de 1762, a descripção, que fizera d'este reino, desenhava-o
incapaz de nenhuma resistencia, e pouco distante da barbarie.
LATINO COELHO.
Nous sommes au seuil d'un monde nouveau.
L. JACOLLIOT.
Dans l'histoire humaine, parfois c'est un homme qui est le
chercheur, parfois c'est une nation. Quand c'est une nation, le
travail, au lieu de durer des heures, dure des siècles, et il
attaque l'obstacle éternel par le coup de pioche continu. Cette sape
des profondeurs, c'est le fait vital et permanent de l'humanité. Les
chercheurs, hommes et peuples, y descendent, y plongent, s'y
enfoncent, parfois y disparaissent. Une lueur les attire. Il y a un
engloutissement redoutable au fond duquel on aperçoit cette nudité
divine, la Vérité.
VICTOR HUGO.
Foi em Alcacer-Quivir que rolou a corôa de Portugal pelos areaes
d'Africa. Deus sabe o que havia de grandioso, que sonhos esplendidos de
futuro iam na mente de Sebastião--_o Desejado!_
Os formosos palmares da India, a opulencia fascinante da Asia, as
sumptuosas magnificencias do berço da humanidade, as lendas fabulosas do
Preste João, os riquissimos e legendarios templos de Brahma, e dos
deuses mysteriosos da cosmogonia secular d'aquella raça, e todos os
sonhos e sedenta avidez d'uma nação pobre, habituada a lutas heroicas, e
obscuras com os musulmanos d'Africa--fascinaram, e enlouqueceram, por
tal fórma, os guerreiros e fronteiros de Ceuta, Tanger, e Arzila, que,
aos primeiros descobrimentos dos navegadores do seculo XV, os
portuguezes invadiram o Oriente, abandonando aquella escóla de valor e
de heroismo, onde expirou o infante santo, e onde a cruz do Redemptor
era o incentivo e estimulo das mais nobres façanhas, e dos feitos mais
esforçados.
Quiz D. Sebastião, com a mystica lenda do Golgotha, salvar Portugal do
ignobil desdouro, do scepticismo miseravel, da louca ambição de
riquezas, e da cobardia e enervação, que ia corroendo e gangrenando os
nobres na sordida mercancia das especiarias da Asia?
Sabe-o Deus.
Sabel-o-hia a historia--se os aios, e confessores de principes e de
reis, em vez de serem bonzos, fakires e derviches d'um credo intolerante
e sangrento, e que tem no seu proprio symbolo o germen da sua total
aniquilação, fossem chronistas severos e verdadeiros da corrente das
idéas, e das leis immutaveis do progresso, na marcha logica e fatal do
desenvolvimento da humanidade.
Havia, de certo, um profundo pensamento politico detraz d'este fervor
religioso, que arrastava a christandade para lutas e pelejas com
agarenos.
Uma geração enervada e corrupta, uma nobreza effeminada e devassa deixou
abater o pendão das quinas, em terras de berberes, quando as intrigas, a
sordida cobiça, e traições de Castella almejavam por esta derrota d'um
principe christão.
Os Philippes de Hespanha iam projectar a sua sombra sinistra n'este
estacionamento inexplicavel das gerações europêas.
A historia um dia dirá--a historia escripta pelo povo--se foi sómente o
fanatismo religioso que arrastou o moço rei aos campos de
Alcácer-Quivir, ou se o herdeiro do sceptro de D. João I quiz arrancar
ás devassidões e torpezas da India uma nação, que cobrára em Africa
pundonorosos alentos, esforços guerreiros, e energicos brios com que
escrevêra a mais esplendida e brilhante pagina dos feitos memoraveis nos
seculos XV e XVI.
Não foi a purpura real que rasgaram os leões africanos, não foi o throno
do Occidente que cahiu despedaçado e partido nas vastas planuras da
Lybia. O sôpro ardente das tempestades do deserto varreu mais do que um
throno, abrazou mais do que uma purpura; abateu, humilhou, e arrancou a
seiva a um povo cheio de pundonor, e coroado de gloria, arremessando-o
de abatimento em abatimento, de humilhação em humilhação, de desventura
em desventura até á invasão franceza, até á fuga do rei portuguez, até á
mais ignobil vassallagem prestada á soberba Albion, pela nação mais
cavalleirosa, emprehendedora e aguerrida dos extremos da Europa.
Dizia a Polonia, quando se debatia nas vascas da mais dolorosa agonia--a
agonia d'um povo que vai morrer: «Deus está muito alto, e a França muito
longe!»
E nós?--Tratados como os rajahs do Indostão, como os nababos, e como os
parias, tambem, da India ingleza, dobravamo'-nos, submissos e
obedientes, como colonia britannica, á fé punica, á avidez implacavel e
inexoravel politica da nossa fiel alliada.
A Veneza dos inquisidores e dos doges immergira-se nas lagoas do
Adriatico, quando nós invadimos o mar Vermelho, para deixar erguer este
colosso da Grã-Bretanha, a quem Cesar appellidára barbara nos seus
formosos Commentarios. O leão de S. Marcos escondeu as garras, ao
tremularem as nossas quinas no berço da nossa raça, na vastidão do
esplendido Oriente, para mais tarde os ferozes leopardos bretões serem a
taboleta do commercio da Asia.
Na immensa grandeza do nosso heroismo, nós, cavalheirosos,
desinteressados, e imprudentes avassallamos os reis de Calecut e Cochim,
escreviamos _Os Lusiadas_, empenhavamos as barbas de D. João de Castro,
deixavamos agonisar, cheio de affrontas, Affonso d'Albuquerque, na barra
de Gôa, algemavamos Duarte Pacheco, enchiamos de odio o nobre coração de
Fernando de Magalhães, e recusavamos, com desprezo e altivez, a
nobilissima dedicação de Christovão Colombo, a quem Americo Vespucio,
mais tarde, roubou o nome e parte da gloria.
De affronta em affronta, de vilipendio em vilipendio, de ingratidão em
ingratidão degeneramos tanto, que, em 1817, viviamos como parias e
ilotas da soberba Albion, sob o mando e dominio do marechal-general
Beresford.
Trasbordava o calix das humilhações.
Portugal era um paiz conquistado. Pouco importava que fossem as aguias
do imperio ou os leopardos britannicos que subjugassem este solo.
Haviamos tocado os extremos da ultima abjecção.
As industrias fabris jaziam completamente arruinadas, a agricultura
estava reduzida á maior miseria, o fanatismo religioso campeava
sobranceiro por sobre este ignorantissimo povo, as arcas das rendas
publicas e particulares iam caminho do Brazil, o paiz achava-se
recortado em bens vinculados, entregue aos morgados, aos possuidores de
bens da corôa e ordens, e aos opulentos mosteiros de todas as religiões,
que escravisavam o solo; o governo fomentava as intrigas politicas,
enganava a corôa, escondida n'outro hemispherio; e o exercito, governado
e dominado por officiaes inglezes ás ordens da Grã-Bretanha, curvava-se
aqui ao mando e poderio do muito alto e poderoso lord Beresford.
As citações, que vou dar em seguida, serão mais judiciosas do que todos
os meus commentarios.
Diz Gervinus, na sua _Historia do seculo dezenove_: «Esta ruina da
economia politica de Portugal caminhava parallela com a sua decadencia
moral e intellectual.»
Era assim.
O governo para sustentar uma dignidade ephemera, um simulacro de
authoridade, que não tinha, carecia d'um exemplo efficaz e energico,
embora o sangue das victimas espadanasse a jorros encharcando o solo da
patria.
Inventou a conspiração de 1817.
Presentiu o desgosto profundo que ia no povo, apoiou-se nos maus
instinctos, e na perfida politica do regulo da Grã-Bretanha, revolveu,
com a sua abjecta espionagem, as ultimas camadas da plebe, escutou e deu
vida a todas as invejas, a todos os odios, e a todas as ruins paixões,
que fermentam sempre no coração de todos os intrigantes, e de todos
estes reptis immundos e repugnantes, que se criam e desenvolvem n'este
torrão luxuriante e vivificador. Aqui, como nos juncaes e densas selvas
dos tropicos, existem, com face humana, o tigre real de Bengala, a
vibora dos pantanos do Indostão, a hyena das margens do Ganges, a mosca
venenosa dos tremedaes e terrenos paludosos da Zambezia, e os cascaveis
hediondos das florestas da America, ao lado das virgens mais puras das
creações do budhismo. Estas regiões, que vivem em maior contacto com o
nosso astro supremo, mais aquecidas pelo sol, não admittem, nem
consentem transições. Cortam bruscamente os crepusculos--não teem longos
esvaimentos de luz--não desenham penumbras. Quando o sol se immerge no
oceano adensam-se rapidamente as trevas.
Onde não ha a nobreza do sentimento, o estimulo das mais nobres
aspirações, e o exemplo tocante da mais completa abnegação--é porque as
sombras do cynismo se espalharam sobre a intelligencia do homem, é
porque a ignorancia e os maus instinctos sepultaram, e apagaram a luz
viva, o facho ardente, a idéa primordial, que vinha irrompendo na alma
humana; e a consciencia do individuo, o senso moral confundem-se nas
trevas, que escondem para todo o sempre estes arreboes divinos do ente
creado.
Assim foi, e assim será sempre.
O tenente-general Gomes Freire de Andrade era a synthese d'estes
soffrimentos, que minavam todos os membros corroidos da nação. Era o
alvo de todas as invejas. Era a voz da patria, n'este estertor em que se
debatia, e agonisava um povo inteiro. Por isso foi o martyr. Parecia,
talvez, que, ao torturarem aquella alma nobilissima e generosa, Portugal
ficaria sujeito e submisso como o ultimo ilota dos banquetes de Sparta.
Diz o author da _Memoria sobre a conspiração de 1817_ (livro que não foi
estranho ás solicitudes de Beresford): «O tenente-general, Gomes Freire
de Andrade, ha sido preso pelo desembargador ajudante do intendente,
João Gaudencio, acompanhado de um forte destacamento da guarda da
policia, commandado pelo tenente-coronel da mesma, Joaquim José Maria de
Sousa Tavares. Depois de cercarem a casa do tenente-general (que morava
no alto da calçada do Salitre) arrombaram a porta da rua, e foram
arrombando as de mais até chegarem ao gabinete onde elle se achava;
assim que foi arrombada esta, os soldados entraram no quarto, apontando
as armas contra o general, o qual não fez a menor resistencia, nem se
mostrou assustado, e por detraz dos soldados gritou o dito
tenente-coronel:--«V. exc.ª está preso»--ao que Gomes Freire respondeu:
«Assim se entra com tanta insolencia e desafôro em casa de um
tenente-general?--e vossemecê não me póde prender, porque não tem a
minha patente.» Então appareceu o desembargador, e mostrando-lhe a
ordem, o general se deu á prisão sem nada dizer ao desembargador; mas
voltando-se para o tenente-coronel, chamou-lhe um fraco, e insolente,
ajuntando, que o seu comportamento não era nem de um official, nem de um
cavalheiro, mas sim, de um esbirro, aguazil ou vil agarrador.»
O tenente-general foi conduzido logo para a torre de S. Julião,
acompanhado pela mesma escolta de cavallaria da policia, que o fôra
prender. As outras victimas d'esta perseguição foram conduzidas uma
parte para o Limoeiro, e a outra para o Castello. Começou immediatamente
o processo, diz o author da _Memoria_, «com aquellas tenebrosas
formalidades do costume.»
«Parece, que os governadores do reino, acrescenta o mesmo apologista de
Beresford, projectaram implicar, na conspiração, todos os maçons, para
com este pretexto se desfazerem d'algumas pessoas a quem não eram
affeiçoados.» Esta infernal lembrança era uma inspiração do secretario
D. Miguel Pereira Forjaz.
Vejamos os maçons.
A paginas quarenta e uma dos _Annaes e codigo dos pedreiros livres_,
lê-se o seguinte:
«1814
«N'esta época foi iniciado _José d'Andrade Corvo_, sendo capitão
d'infanteria n.º 10, ás ordens do conde de Rezende, na loja _Virtude_ ao
oriente de Lisboa. Como então trabalhasse sómente a dita loja, e a
_Regeneração_, ás quaes se tinham reunido poucos membros, receosos de
que o governo renovasse as perseguições de 1809 e 1810, e houvesse falta
de irmãos para os differentes cargos da loja, conferiram-se a José
d'Andrade os graus de companheiro e mestre, e pouco depois elegeram-no
secretario. Incansavel nos trabalhos da maçonaria, Corvo recrutou muitas
pessoas, e encarregou-se de propôr á viscondessa de Juromenha, D. Maria
da Luz, o ser iniciada na maçonaria, o que se fez no fim do mesmo anno,
na quinta que antes era do marquez d'Angeja, no Lumiar, em sessão magna,
a que assistiram alguns personagens respeitaveis, e que n'aquelle tempo
occupavam postos e empregos eminentes na capital. Esta iniciação teve
por fim o saber-se pela viscondessa quaes os sentimentos do marechal
Beresford a respeito da liberdade; mas por fim ella, Corvo, e João de Sá
atraiçoaram todos os maçons, e só serviram Beresford. O refalsado Corvo
continuando a fazer muitos e valiosos serviços á maçonaria, e a
distinguir-se mesmo entre os mais diligentes, obteve alguns dos graus
superiores, e na installação da loja _Philanthropia_ ao oriente de
Santarem, foi elle um dos tres deputados mandados pela grande loja para
a installação. Esta loja nomeou-o depois seu representante, e em
consequencia d'isso lhe deram o grau de Rosa-Cruz. Entramos em todas
estas particularidades porque este homem de execranda memoria, pagando
tantos favores com a mais negra ingratidão, e perfidia, atraiçoou a
ordem, e denunciou o infeliz grão-mestre, Gomes Freire de Andrade, para
o levar ao patibulo.»
Digamos quem era Corvo. Depois veremos Gomes Freire.
Continua o author dos _Annaes_:
«1824
«Em 30 d'abril o infante D. Miguel prende el-rei D. João VI, no paço da
Bemposta, e assoalha _que os pedreiros livres o queriam matar_.
«Appareceram tambem duas cartas, que por serem pouco conhecidas, as
vamos transcrever:
«_Carta de José d'Andrade Corvo a seu irmão em Torres-Novas_
«_Meu Francisco._--Saberás que o bravo infante acaba de salvar a patria,
descobrindo uma facção que tentava assassinar el-rei e toda a familia
real: toda a tropa d'esta capital esteve hontem em armas, e o _dia 30
d'abril será um dia memoravel nos fastos da historia portugueza_. Já
estão presos os malvados, e entre elles os condes de _Villa-Flôr_,
_Paraty_, e da _Taipa_, etc.
«Eu appareci immediatamente a cavallo n'aquelle dia, e andei sempre ao
lado do infante, o mais bravo homem que tenho conhecido, e _portei-me
como Corvo_; porém, meu Francisco, qual foi o meu desgosto por tu aqui
não estares? Quando vi entrar o teu regimento, e te não vi, _correram-me
as lagrimas_. Vai logo ter com o juiz de fóra, e faz com que ahi se
acclame el-rei, e que se ponham luminarias, e se cante _Te-Deum_. Paiva
Raposo foi quem descobriu tudo ao infante, e agora _levará o diabo_ os
pedreiros livres, e triumpharão os homens de bem.--Teu mano, etc.»
Parece que o judas de Gomes Freire sentia lagrimas nas faces. É para
crer que o Rosa-Cruz da maçonaria desejava que o diabo levasse os
pedreiros livres. Aqui fica José d'Andrade Corvo.
A segunda carta que apontam os _Annaes_, diz assim:
«_Carta da rainha a el-rei, estando em Salvaterra._
«_Meu amor._--Agora me dizem, que os nossos inimigos teem espalhado em
Lisboa, que eu pretendia fazer esta manhã uma revolução para ficar
regente com o nosso filho Miguel, e mandar-te para Villa-Viçosa: isto é
uma aleivosia muito grande, e n'ella por certo entrará o dr. Abrantes; e
por isso te peço ordenes ao intendente, que proceda rigorosamente a este
respeito, pois tu bem sabes que eu não desejo senão viver socegada, e
que tu sejas feliz. D'esta tua--_C. J._»
«Esta carta escripta de Queluz--continua o author dos _Annaes_--e sem
data, confirmou mais el-rei na existencia da conspiração contra a sua
pessoa, por se recordar de que outra identica lhe tinha escripto a
rainha para o Alfeite em 1807, por occasião da conspiração tramada em
Mafra.»
O livro a que me refiro tem a seguinte nota:
«Estas cartas acham-se hoje impressas na _Policia secreta_, publicada
pelo intendente da mesma.»
Voltemos a Gomes Freire. Tinha nascido em Vienna d'Austria em 27 de
janeiro de 1727, filho de Ambrosio Freire d'Andrade e Castro, embaixador
de Portugal, e da condessa de Schafgoch. Descendia, por tanto, d'uma
familia entroncada na antiquissima casa dos condes da Trava, e na dos
Pereiras, Forjazes, e Bobadellas, e entre os seus antepassados contava
Jacintho Freire d'Andrade, o panegyrista de D. João de Castro. Reputado
o melhor general de infanteria portugueza, servira na Russia com um
valor inexcedivel, combatêra no Roussillon em honra da patria, e depois
de ter deixado o seu nome ligado ás glorias do imperio voltára para
Portugal em seguida á paz do continente.
Os odios e invejas accendiam-se, e abrazavam em torno d'esta illustre
victima.
Um dia o povo ha de narrar este prologo afflictivo da liberdade de
Portugal.
Na madrugada de 25 de maio de 1817 entrou preso, na torre de S. Julião,
o heroico martyr portuguez. Posto em um calabouço, sem meios de
subsistencia alli, sem providencias tomadas para a sua alimentação, sem
uma manta que o cobrisse ou lhe servisse de leito, arremessado para uma
masmorra lageada e humida viveu assim cinco mezes--nos primeiros dias da
caridade ingleza, mais tarde dos meios que pôde obter pelos seus
haveres. A generosidade do governo viera, no fim de seis dias
d'encerramento, em seu soccorro, arbitrando-lhe a sumptuosa somma de
doze vintens diarios, no caso que elle não possuisse dinheiro ou
qualquer outro meio para se sustentar á sua custa.
Desamparado, na carencia absoluta de todos os confortos, coberto de
pustulas ou lepra hedionda, que lhe alastrava pelas faces, abandonado de
tudo e de todos, offendido, injuriado, e calumniado até pelo proprio
clero, é para crêr, e affirmam-no alguns, que perdera a razão.
Continuemos as citações:
«Um desembargador e um escrivão foram repetidas vezes interrogar o réo
na sua masmorra sem outras testemunhas, senão os tormentos, e angustias
que o cercavam. Quem tolhia, que entre o desembargador, e o escrivão
houvesse intelligencia, para fazer constar o que o preso nunca disse,
nem imaginou dizer? Quem nos ha de garantir, que isto não aconteceu
assim? O seu amor pela justiça? A sua humanidade, e compaixão?... Mas
sabem todos que desde o momento da prisão até ao momento da morte, os
_officiaes_, e _ministros_ de justiça, que tiveram contacto com elle
deram publicamente bastantes provas de serem seus algozes. João
Gaudencio disse publicamente a alguem, que lhe representou a
_inhumanidade_, com que era tratado Gomes Freire: «Nós não conhecemos
essa palavra.» Acresce mais a difficuldade, que todos reconheciam em
Gomes Freire de se explicar bem em portuguez; este inconveniente, unido
ás dôres que soffria o desgraçado general, procedidas de uma inflammação
do rosto, por lhe não quererem permittir que se barbeasse (_o que o
tinha continuadamente em um estado de delirio_), é que deu causa a que o
marechal Beresford recommendasse ao marechal Archiball Campbell, que
vigiasse sobre o estado das suas faculdades mentaes; dava toda a
facilidade ao desembargador, que lhe fez as perguntas de o surprehender
á sua vontade, fazendo-lhe dizer o que elle desembargador quizesse, sem
que o réo d'isso se precatasse.»
Basta. Turva-se a intelligencia perante tantos horrores. Apressemos o
desenlace d'este medonho drama. Digamos rapidamente como terminou este
supplicio hediondo.
A execução de onze desgraçados fez-se no dia 18 de outubro no campo de
Santa Anna em presença da plebe fanatisada e escrava.
O tenente-general Gomes Freire foi enforcado sobre a esplanada da torre
de S. Julião ás nove horas da manhã do mesmo dia. Levaram-no d'alva
vestida, e descalço. Os odios dos seus algozes careciam d'estas ultimas
affrontas.
Ainda a 16 d'outubro escrevia elle a seu primo, Antonio de Sousa Falcão:
«No caso que se não attenda aos embargos, então, peço-te, que o letrado
faça um requerimento em meu nome, para que em vez de me enforcarem, me
fuzilem. Quero a morte do soldado. Peço-te que ponhas n'isto toda a
efficacia possivel, que é a ultima vontade, que te pede um amigo
verdadeiro com o ultimo adeus.--_Gomes Freire._»
Baldado pedido--derradeira illusão d'aquelle grande espirito! Quizeram
que a morte fosse affrontosa na forca, e assim terminou a existencia um
dos mais distinctos generaes portuguezes.
O illustre soldado subiu ao patibulo sereno e impassivel. Proferiu
algumas palavras. É para crêr que foram as ultimas aspirações d'aquella
nobilissima alma, pela independencia e liberdade da patria. Mas os
padres que o acompanhavam romperam em vozeria tão escandalosa, e
descomposta que não se poderam recolher as intenções solemnes e
derradeiras do martyr.
Descido da forca, foi o cadaver queimado em presença d'alguns dos seus
verdugos, e as cinzas lançadas ao mar na conformidade da sentença.
Todos os actores da cruenta tragedia receberam o premio do serviço.
Has a patria soube guardar-lhes os nomes execrandos para os transmittir
immorredouros ás gerações futuras.
Quizera e devêra, talvez, deixar, aqui, impressos os nomes dos ignobeis
judas d'este torpissimo martyrio. Mas a penna recusa-se-me a este
sacrificio.
Não é bom tocar em nomes de carrascos. Ennodôa e macúla remexer os
tremedaes do cynismo que se transmitte e contagía como o virus das
febres paludosas e epidemicas do Mexico e do Ganges.
A urna cineraria d'este grande vulto foi o oceano.
Aceitemos ainda o oceano, como o vasto salão da nossa fiel alliada--a
Inglaterra.
VISCONDE D'OUGUELLA.
UMA VISCONDESSA QUE NÃO ERA
(EPISODIO DAS PODRIDÕES MODERNAS)
Como quer que eu andasse jornadeando, ha cinco annos, por aldêas do
Minho, intransitadas e menos conhecidas, encontrei um sahimento, que, ao
principio, cuidei ser procissão.
Afóra a cleresia, que era numerosa, realçavam com as suas côres rubras,
amarellas e roxas os balandraus de tres irmandades. Seguiam-se as alas
dos visitantes da familia anojada mui bem postos e quasi serios com as
suas casacas de gola enroscada e canhões arregaçados para evitarem os
pingos de cêra. A espaços, palmilhava o chão juncado de rosmaninho,
espadanas e hortensias, um anjo que atirava as pernas compassadamente ao
rythmo da musica, bamboando as saias, as plumas e as azas relampejantes.
Seriam seis os anjos, de varios tamanhos e significações imaginosas,
parecendo-me todos tão pouco celestiaes, quanto alguns d'elles tinham
escanhoado as queixadas para se darem o imberbe rubor de quem fingiam
ser. Eram deveras funebres e apropriados ao cortejo. Na vanguarda do
prestito ia a banda musical trovejando marchas funebres de metal e
bombo; no remate negrejava o esquife, roçagando baeta-crepe, levado á
mão por quatro sujeitos de casaca e catadura adequadas.
Apeei, e desviei-me a um recanto da estrada, em quanto perpassava o
sahimento; depois, perguntei a um homem retardado da comitiva quem era o
defunto.
--Era a snr.ª viscondessa--disse elle.
--Viscondessa de quê?--volvi eu.
--De quê?!
--Sim; pois ella havia de ser viscondessa de alguma cousa.
--Isso não sei, nem me consta. Acho que era só viscondessa.
Não prosegui na ociosa averiguação; mas, d'ahi a pequena distancia,
encontrei uma casa grande com seu portal de ferro, e na cimalha da
padieira esta legenda em letras bronzeadas: _Viscondessa do Salgueiral_.
Eu não conhecia este titulo.
Parei defronte da vetusta capella, ornamentada de pedra de armas, por
onde inferi que o titulo, se era moderno, acrescentára uma corôa a
fidalgos antigos. Compunha-se o brazão das quinas de Portugal em campo
de prata, e um cordão de S. Francisco á volta do escudo; timbre uma
aguia de azul, de azas abertas, com cinco bezantes de prata no peito.
Eram as armas dos Eças.
Em quanto alli me quedei a esboçar o brazão, não ouvi chorar ninguem,
como é costume, em quanto dobram os sinos, e reboam gementes nas
quebradas dos montes. Acertou de passar então um pegureiro que vinha do
pasto com a _mundice_[1], e perguntei-lhe se a snr.ª viscondessa, que
morrêra, era nova.
--Era já velhota--respondeu o rapaz, tangendo um boi que se preparava
para escornar o meu Terra-Nova.
--Ella não tinha familia?--tornei eu.
--O quê?
--Se não tinha filhos...
--Filhos, acho que não; tinha o snr. doutor.
O pastorinho foi andando, e eu tambem, em sentido opposto.
Ao cahir da tarde, cheguei á aldêa onde havia de pernoitar em casa do
abbade, meu condiscipulo em latim.
Disseram-me que elle ainda não tinha recolhido do enterro; mas, tendo-me
visto no caminho, mandára por atalhos avisar que me hospedassem.
Não se demorou o abbade.
--Cá pela aldêa--disse-lhe eu--os cadaveres titulares levam tempo a
enterrar.
--Não foi isso. É que eu, na qualidade de testamenteiro da defunta,
fiquei presidindo á arrecadação do espolio miudo. Bem sabes que dez
contos e quinhentos mil reis em cruzados novos e peças levam tempo a
contar...
--Tambem herdaste?
--Herdei tambem um relogio de algibeira de repetição com musica, uma
livraria padresca em latim que deve pesar vinte quintaes, e duas imagens
de martyres de pau preto, que parecem martyrisadas a machado; mas o
ditoso herdeiro d'esta senhora é... Olha lá, não te recordas dos nossos
condiscipulos na aula do padre Lixa ha vinte e cinco annos?
--De dous ou tres.
--Lembras-te d'um rapazinho louro, que entrou quando nós iamos sahir do
latim, chamado Cordeiro, que andava sempre a lagrimar e a babar-se de
saudades da mamã?
--Não me recordo d'esse rapaz que se babava de saudades...
--Chamavamos-lhe nós a _meiga-giboia_.
--Agora, sim!... Estou vendo-o debaixo do alpendre do padre Lixa a
scismar com a lingua de fóra. _Meiga-giboia_, sim, senhor; parece-me até
que fui eu quem lhe poz a imaginosa alcunha, porque nenhum de vossês, os
meus condiscipulos, tinha phantasia para tanto.
--Pois ahi tens o herdeiro da viscondessa... que não é.
--Que não é o quê?
--Viscondessa.
--Ora essa! Um lavrador disse-me que ella era viscondessa _tout-court_,
viscondessa de nada. Vens tu, e confirmas o lavrador, dizendo-me que não
era viscondessa a tal finada! Mas eu li o letreiro no portão de ferro...
--É verdade, o letreiro lá está. Depois de cêa, se o somno te não
apertar, ouvirás a historia d'este titulo.
--Se tem historia, é um bom titulo; que eu sei de centenares de titulos
sem historia. Cearemos de modo que o espirito se não comprometta na
digestão.
* * * * *
Depois de cêa, o abbade, acautelando as portas á curiosidade das irmãs
que ainda eram moças e casquilhas, contou-me este conto:
--Havia em Braga um chapeleiro muito rico, pai de duas meninas. A sua
mania era casal-as com fidalgos; e depressa concorreram alguns
oppositores ás noivas. Um d'esses, que militava na qualidade de tenente
de milicias, era João Ferreira d'Eça, dono da casa onde viste o brazão.
O chapeleiro, que não dava a filha sem mandar examinar por pessoa
competente os pergaminhos do pretendente, convenceu-se de que o alferes
era primo em segundo grau dos condes de Cavalleiros. Deu-lhe, por tanto,
a filha e sessenta mil cruzados.
D. Antonia, poucos annos depois, viuvou, sem ter filhos. Era bonita e
muito rica. Outros fidalgos se lhe offereceram em segundas nupcias; mas
a inconsolavel viuva nem recebia visitas nem respondia ás cartas.
A outra filha do chapeleiro maridára-se tambem fidalgamente; porém, o
marido, que aceitára o desigual enlace para resgatar os bens
hypothecados, nem resgatára os bens, nem perdoára á esposa ter-lhe dado
o abundante ouro com que elle alargou a área dos vicios. Esta senhora
tinha tres filhos. D. Antonia d'Eça pediu-lhe o mais velho, e desde logo
o considerou seu principal herdeiro.
O pequeno tinha oito annos quando veio para o Salgueiral, e orçava pelos
dezeseis quando foi ser nosso condiscipulo em grammatica latina. Aquelle
choramigar e scismar com a lingua de fóra, como tu observaste, eram o
resultado do amor extremoso com que a tia o creára. Ella não queria
largal-o de si; mas as raras pessoas que a visitavam arguiam-na de ser
causa a que seu sobrinho, embora rico, ficasse para alli tão estupido
como os seus criados.
Alvaro Cordeiro não era incapaz de aprender; mas resistia ás maneiras
quer brandas quer violentas do professor. Não havia pagina de livro que
não tivesse para elle uma cabeça de Medusa a carranquear-lhe.
Quando chegou aos vinte e dous annos, induzido pelas descripções da vida
airada que os estudantes levavam em Coimbra, disse á tia que se queria
doutorar. D. Antonia exultou, encheu-o de caricias e dinheiro, e
mandou-o com a sua ama secca, com o seu escudeiro e com o seu cavallo
para Coimbra.
As estouvanices de Alvaro deram brado entre 1851 e 1858. O dinheiro que
a tia lhe enviára fôra tanto que, a final, nem o extremado amor que lhe
tinha a impediu de se espantar e doer do abuso.
Findos seis annos de Coimbra, apresentou-se á tia dizendo que era doutor
em philosophia e direito. Logo em duas faculdades tão desirmãs! Pasmei
do reviramento e actividade d'aquella preguiçosa intelligencia!
Todos lhe chamavamos doutor, sem offender-lhe a modestia nem a
consciencia. Por muito tempo o julguei mais ou menos conscio das duas
faculdades; mas, acaso, um dia soube em Braga que o doutor do Salgueiral
não fizera, sequer, exame de latim.
Nada revelei aos meus patricios, nem a elle o esbulhei do grau de
bacharel. Era-me penoso magoal-o sem precisão, crear um inimigo, e abrir
occasião a que a boa tia, arrependida de o beneficiar, o desherdasse.
Pouco tempo se deteve por aqui. Logo que o inverno assomou com as
primeiras nevoas ao espinhaço dos outeiros, Alvaro pediu licença a D.
Antonia para ir a Lisboa requerer um emprego na diplomacia. A senhora
contrariou-lhe o intento, allegando que seu sobrinho não carecia de ser
empregado; mas elle replicou razoavelmente que as suas duas faculdades
deviam ser utilisadas no serviço da patria, e que, por meio da
diplomacia, lhe adviriam os lugares de maior honra no estado. D. Antonia
quiz ouvir o meu parecer a respeito da diplomacia. Fui conforme ao
intento do doutor, e approvei que seguisse essa carreira, por ser a que
mais se dispensava das duas faculdades em hypothese.
Foi Alvaro para Lisboa; e, volvidos quinze dias, deu parte a sua tia que
fôra nomeado addido á embaixada portugueza em Paris, primeiro degrau
para subir a ministro, onde esperava chegar em menos de tres annos. Esta
jubilosa carta concluia por estipular a sua tia a remessa mensal de
cincoenta libras, que tanto era necessario á decencia e ao luzimento
d'um diplomata em França.
Fui chamado a votar sobre a clausula das cincoenta libras. Ora, como eu
de antemão sabia que a ternissima senhora lhe daria cem, se elle as
pedisse, accedi á necessidade das cincoenta. Ella fingiu-se afflicta,
lastimou o vacuo do seu peculio, prophetisou, sem fé, a ruina da sua
casa, e encarregou-me de ir ao Porto arranjar banqueiro por onde se
transmittissem as mezadas.
Foi Alvaro Cordeiro de Magalhães para Paris, como tu e eu poderiamos ir,
se tivessemos tias parvoas, ricas e extremosas. Quem não soube da sua
partida foi o governo, que nunca tivera minima idéa d'este addido.
Perguntando eu mezes depois, em Braga, a um secretario de embaixada se
conhecia em Paris o addido Cordeiro de Magalhães, disse-me que conhecera
lá um Cordeiro de Magalhães addido sim, mas a uma _cocotte_, e que, a
julgar do abysmo pelo cairel, o pobre rapaz dentro em pouco estaria de
volta para a sua aldêa sem dinheiro nem honra.
Agora, um episodio que prende com esta historia. Um tio materno de D.
Antonia era capitão de infanteria, quando os francezes invadiram o
reino. Dizia-se que este militar entrára nas fileiras de Napoleão,
seguira o grande exercito e nunca mais voltára a Portugal, nem dera
noticias suas á familia.
D. Antonia escrevera ao sobrinho recommendando-lhe que indagasse em
França se existiriam descendentes de seu tio Geraldo de Carvalho, que já
era coronel, quando se expatriou com o exercito francez.
Respondeu Alvaro que seu tio morrera general em Waterloo; e mais nada,
quanto a descendentes. Toma tu nota d'esta digressão que ha de vir a
ponto frizar na historia. Já dormes?
--Essa pergunta hei de eu fazer ao leitor quando lhe repetir o teu
conto.
* * * * *
As cincoenta libras mensaes tinham subido a cem, quando D. Antonia, ao
cabo de dous annos, em apuro de paciencia, fez saber ao sobrinho que não
podia continuar a mezada.
O pseudo-addido, que já se dizia secretario de embaixada nas cartas á
tia, sahiu de Paris, trazendo comsigo a franceza, a quem amava com a
cegueira já descabida nos seus trinta e cinco annos, mas natural de um
coração mal compleicionado.
Chegou Alvaro ao Salgueiral, deixando a franceza no Porto.
A tia recebeu-o com a sua inalteravel ternura, e levemente o arguiu de
perdulario. Queixou-se elle de lhe ser cortada uma brilhante carreira.
D. Antonia consolou-o antepondo á vaidade de o vêr ministro o
contentamento de o ter comsigo. Alvaro contrafez o prazer de se sentir
tão querido, e nunca fôra tão amoravel para sua tia.
Esta senhora herdára da indole do pai a mania de se afidalgar. Muitas
vezes me pediu que lhe lêsse uns codices genealogicos, escriptos no
seculo XVII, relativos ás proezas dos avós de seu marido; e
coriscava-lhe então nos olhos o enthusiasmo, como se o inclito sangue
dos façanhosos Eças se lhe infiltrasse das arterias do chorado esposo.
Uma vez, contando-lhe eu que o filho de um socio de seu pai acabava de
ser agraciado com o baronato, D. Antonia, por entre gargalhadas de
sisudo espirito, revelou despeito, e talvez cubiça de ser ridicula como
o filho do socio de seu pai.
Não me espantei, pois, quando Alvaro Cordeiro me disse que ia a Lisboa
agenciar o titulo de viscondessa para sua tia. Dei os parabéns a D.
Antonia, persuadido de que o titulo seria negocio feito, desde que o
agente levava ordem franca para negociar a mercadoria.
Passadas algumas semanas, D. Antonia de Eça recebeu a participação de
que era agraciada por sua magestade, em attenção á illustre ascendencia
e serviços de seu marido, com o titulo de viscondessa do Salgueiral, em
uma vida.
Fui eu o encarregado de transmittir mil libras ao sobrinho para pagar os
direitos de mercê, luvas, etc.
Ora, seria uma offensa á tua critica dizer-te que Alvaro estava em
Cintra com a franceza, dissolvendo em prazeres as mil libras da
excellente creatura, e forjando cartas de aviso e alvarás de
viscondessa.
Fazia tristeza a pobre mulher! Só eu sabia que ella era enganada pelo
sobrinho, porque tive pessoa que procurasse informações na respectiva
secretaria. Todos a tratavam de viscondessa, e eu tambem. E o titulo
desconcertára-lhe por tal maneira o siso que, ás vezes, fallando-me do
marido defunto, chamava-lhe o _seu visconde_, tornando a graça
retroactiva uns bons vinte annos. O letreiro, que lêste na porta,
mandou-o ella gravar tambem no jazigo de familia, na baixella, nos
reposteiros da sala, que nunca os tivera; e então a corôa essa appareceu
mal pintada em tudo, desde os escabellos antigos do salão-de-espera até
aos portaes de todas as quintas.
Um dia, escreve-lhe o sobrinho de Lisboa, contando-lhe o seguinte: que,
ao sahir de Paris, encarregára o seu ministro de continuar indagações
ácerca dos descendentes de seu tio o general Geraldo de Carvalho, morto
na batalha de Waterloo; e acrescentava que a final o visconde de Paiva
descobrira em Saint-Nazaire uma neta do general, menina de muitas
prendas e virtudes, vivendo de uma prestação do estado, proposta ao
parlamento por Napoleão III. Continuava Alvaro pedindo licença á palerma
da velha para ir visitar sua prima, e offerecer-lhe em nome de sua tia
viscondessa passar um verão no bello Minho.
D. Antonia rejubilou com esta nova, e fez-me participante da sua
alegria. Que repugnancia eu senti em obtemperar a esta novissima
velhacaria de Alvaro! Mas eu sentia que o descobrir-lhe uma trapacice me
obrigava moralmente a descobrir-lhe as outras.
Entretanto--pensava eu--quem sabe? Póde ser que exista a neta do general
Geraldo. Porém, não seria acertado averiguar primeiro se existia
semelhante general?
Escrevi a um sabio de Braga perguntando-lhe se tinha noticia de tal nome
na historia militar de Napoleão I. Respondeu-me o sabio que consultára
miudamente a _Historia do consulado e do imperio_, e entre os generaes
vivos e mortos não se lhe deparára tal Geraldo, nem ainda entre os
officiaes subalternos; mas que, consultando homens de mais de oitenta
annos, de Braga, soubera que Geraldo, cunhado do chapeleiro, capitão de
infanteria, morrera na defeza de Badajoz em 1811.
Como quer que fosse, á volta de trinta dias, Alvaro Cordeiro estava no
Salgueiral com sua prima mademoiselle Cora de Carvalho, para quem D.
Antonia se mostrava infinitamente graciosa. Uma franceza velha
acompanhava a nova sob o titulo de aia, honestando assim a viagem do uma
menina solteira com seu primo.
Escuso talvez dizer-te que...
--A franceza era a _cocotte_--atalhei para acabar hesitações a respeito
da minha perspicacia.
--Mas uma rapariga diabolicamente bonita, com uns tregeitos sarcasticos,
que me pareceram a expressão de escarneo e zombaria d'aquella senhora
tão digna de menos ignobil sobrinho.
Era bonito ouvil-a fallar de seu pai, gentil-homem picardo, e de sua
mãi, que vinha a ser filha do general Geraldo de Carvalho. E o que mais
me espantava era a menina palavrear o portuguez menos mal, tendo
fallado, um mez antes, com o primeiro portuguez que encontrára em sua
vida!
D. Antonia brindou-a com parte de suas joias, foi com ella a Braga
mostral-a aos seus parentes; e tanto se lhe devotou que a mim me chegou
a dizer que não levaria a mal que seu sobrinho a desposasse.
Eu não pude então conter-me, que não exclamasse: «Deus nos livre!»
Ella instou por saber o motivo da exclamação involuntaria. Contentei-a
dizendo-lhe que as francezas não podiam afazer-se á vida campestre; a
que, a final, a snr.ª viscondessa viria a ficar sem o sobrinho, por a
esposa lh'o arrebatar para França.
* * * * *
Planeou-se uma visita ao Palacio de crystal, no Porto. A «viscondessa»
nunca tinha visto aquella bonita cousa. Eu tambem fui convidado.
Mandou-se fazer o jantar no restaurante do palacio.
Quando estavamos á mesa, e nas alturas da lingua grelhada, entrou um
grupo de francezes, rapazes esturdios, de cachimbo de espuma, e rosa de
Alexandria na lapella. Um d'elles, olhando a fito mademoiselle de
Carvalho, estacou; e ella, que de relance o vira, purpurejou-se até aos
lobulos das orelhas. Alvaro Cordeiro não foi estranho a esta scena muda,
por quanto, guinando entre os dous a vista inquieta, empallidecera.
Os francezes abancaram gargalhando e proferindo phrases que eu não
entendi. Apenas sentados, estralaram as rolhas do champagne, e a vozeria
gralheava em chascos faceis de perceber nos olhares esconsos que
dardejavam ao nosso grupo.
Alvaro, antes de concluido o jantar, pediu a conta. Observou-lhe a tia
que a sobremesa ainda não tinha chegado, e que ella queria pudim de
laranja e o seu chá.
N'este comenos, um dos francezes, galante rapaz, ergue-se da mesa, vem
defronte de nós com um copo de vinho, e solta uma trovoada de palavras,
com um ar mixto de zombaria e seriedade, as quaes eu, ignorante da
lingua franceza, quando francezes a fallam, não percebi; mas as ultimas
proferidas muito de espaço, entendi claramente: _A ta santé, Cora Pearl!
Je felicite le beau Portugal et le beau portugais! Voilà un bijou de la
corruption française que leur y manquait!_
--E Alvaro que fez?--atalhei eu.
--Alvaro que fez? o que eu fiz. Olhou para o francez como se elle
estivesse representando um monologo. Lá na mesa d'elles as gargalhadas
eram estridentes...
--E a franceza?
--Levantou-se com a soberania de rainha da sua especie, e fez um gesto
de retirada a Alvaro.
--E D. Antonia?
--Pasmou, abrindo a bocca tumida de feijão carrapato, e jogando com os
olhos pelas caras dos circumstantes.
--E tu?
--Eu estava a traduzir. Sahimos todos silenciosos, e entramos no hotel
Francfort. N'essa mesma noite, partimos para o Salgueiral. Alvaro
explicou a sua tia o incidente:--aquelle francez amára sua prima que o
desprezára; e o infame, que a perseguira desde Saint-Nazaire, vendo-a
alli, a insultára. Ouvi estas explicações, e achei-as plausiveis; mas as
que me deram depois no Porto foi que o francez havia sido uma das
ludibriadas victimas de Cora Pearl, a qual tambem era uma das mais
despejadas e absorventes devassas de Paris.
* * * * *
D'ahi a poucos dias, a hospeda da «viscondessa» mostrou-se enojada da
aldêa, e fallou em retirar-se para França. A carinhosa _tia_ pediu-lhe
que ficasse até ao inverno; ella, porém, não pôde disfarçar o seu fastio
tanto da aldêa como do amante. A meu vêr, a cobardia de Alvaro, na scena
do Palacio, devia encher-lhe a medida do tedio. Chegou-lhe a nostalgia
dos cafés e dos bosques. Não havia demovel-a.
Era justo que o primo a acompanhasse a Saint-Nazaire. A tia forneceu-o
de dinheiro abundante para seis mezes de ausencia, recommendando-lhe
que, se encontrasse o francez, o mandasse ao diabo, e não tivesse
testilhas com tão malcreado homem. Bem se via que o sangue ardente dos
Eças não se transfundira no corpo burguezmente pacato d'esta senhora,
nem Alvaro Cordeiro desmentia os pacificos pundonores do avô chapeleiro.
Ha seis mezes que Alvaro foi para França, e por lá está.
D. Antonia adoeceu ha quinze dias, e morreu antes de hontem, legando
todos os seus haveres, que montam a cem contos de reis, a seu sobrinho,
e as preciosas joias a sua sobrinha Cora de Carvalho, neta de seu tio o
general Gonçalo de Carvalho.
Que conclues d'esta historia?
--Que ha infames felizes, e que é preciso acreditar no inferno de
além-mundo.
--Eu não tiro essa conclusão assim absoluta. Infames são aquelles que
convertem a sua perversidade em desgraça alheia. Alvaro Cordeiro logrou
sordidamente a sua honrada tia; mas, logo que ella morreu na ignorancia
do seu logro, a responsabilidade do sobrinho é menor do que seria, se
lhe tivesse feito chorar uma lagrima. Pelo contrario, fêl-a viscondessa,
e deu-lhe a consolação de ter um tio general que morreu bravamente em
Waterloo.
CONCLUSÃO
Alvaro Cordeiro de Magalhães está hoje na sua quinta do Salgueiral,
casado com uma senhora de casa muito illustre, e pai de algumas crianças
educadas religiosamente. Nos letreiros que diziam viscondessa, subtrahiu
as tres ultimas letras; mas é visconde a valer. Fez uma economia na
fundição dos caracteres. Ao meu amigo abbade, seu commensal e confidente
unico, diz elle que a sanguesuga que lhe defecára o sangue da podridão
original e dos vicios da educação, fôra Cora Pearl.
* * * * *
Esta Circe de illustres cerdos ainda hoje exercita as mesmas funcções
depurantes em Paris. Houve, todavia, uns apopleticos de ouro que ella
vampirisou até os matar exangues. Se succede uma sanguesuga
introduzir-se na larynge, é mister recorrer á bronchotomia--á incisão da
parte anterior do pescoço; mas o mais ordinario nestes lances é morrer o
doente. As bichas da natureza de Cora Pearl, quando se mettem na alma de
um homem, deixam um só recurso: a operação do suicidio. Felizes aquelles
que, á imitação de Alvaro Cordeiro, apenas foram sangrados!
É a sorte que eu desejo aos meus leitores plethoricos.
[1] O rebanho de ovelhas, fato de cabras, e manada de gado bovino
chama-se em algumas partes do Minho _mundice_, talvez corrupção de
_immundicia_.
BIBLIOGRAPHIA
(Pedro Ivo--Pedro de Amorim Vianna--Alberto Pimentel--Visconde de
Castilho--Pinho Leal).
PEDRO IVO. _Contos._ Porto, 1874.--Formoso livro! Dir-se-hia que Julio
Diniz, o viajor eterno das regiões luminosas, deixou na intelligencia e
no coração dos que mais de perto o conheceram e amaram, as serenas
imagens das suas visões, as maviosas figuras dos seus quadros, a suave
indulgencia e conformidade com que elle florejava de nenuphares os
pantanos da vida.
Quando eu li alguns d'estes contos no _Commercio do Porto_, e lhes não
conhecia author, nem acreditava na authenticidade de Pedro Ivo, disse
sempre commigo: «É a continuação do gentil espirito de Gomes Coelho. Ha
de haver muita gente que passe inadvertidamente por estes graciosos
romancinhos, reveladores de poderosa vocação; porém, quando o author
chegar á meridiana da sua gloria, estes contos--aurora d'um dia
esplendido--serão relidos com renovado prazer.»
Reli hoje os que já lêra, e os que vem de primeira mão no livro. No
correr aprazivel da leitura, quando senti o alvoroço das lagrimas, ao
passo que as paginas commoventes eram singelissimas, saudei o amavel
romancista, e dei-lhe o culto sincero e raro da minha admiração, como
daria um beijo na face de meu filho, se elle um dia legitimasse a minha
vaidade de pai com um livro d'este valor. Invejo estas santas alegrias
ao snr. José Carlos Lopes.
* * * * *
_Memorias de M.me Lafarge, traducção de PEDRO DE AMORIM VIANNA, com um
estudo moral ácerca da authora, escripto pelo traductor._ Porto, 1874. 2
tom.--Ouço dizer que a sciencia do snr. Amorim Vianna se prolonga até ás
fronteiras do hebraico. O que elle desconhece em linguistica é os
idiomas francez e portuguez. Isto, porém, não impede que o digno
professor de mathematica saiba tudo mais. Eu duvidaria da anthenticidade
do traductor, se o estylo do _Estudo_ não apparelhasse tão consoante com
o da versão: tamanha é a disparidade de um nome celebrado nas letras com
esses dous volumes imperdoaveis a um alumno de lingua franceza.
Versão e _Estudo_ ajoujam-se frizantemente. Quanto á primeira, se algum
incredulo me quizer obrigar pela palavra, demonstrarei que rara é a
pagina em que os erros não orcem pelas linhas,--erros de interpretação
franceza e de grammatica portugueza.
M.me Lafarge escrevia com a sublimidade e correcção classica de Jules
Janin. Desfigurada pelo traductor, dir-se-ha que a franceza escrevia
francez como o snr. Amorim escreve portuguez.
Pelo que respeita ao presumido _Estudo moral_, o que d'ahi se deprehende
é que Lafarge foi ladra e envenenadora porque lia romances. O snr.
Amorim, no processo de seu estirado estudo, revela farta leitura de
romances; e todavia, os seus costumes são exemplares, penso eu. Verdade
é que o insigne professor declara que Méry lhe faz nauseas, e que a
reputação de Balzac se deve _á corrupção do seculo, ao rebaixamento dos
espiritos, e desfalecimento dos brios no publico_ (pag. 176). E que
_Balzac se fanatisou pelo crime desenhando-o com o nome de Vautrin,
etc._ Conta que Lafarge tivera _mil pretendentes á sua mão depois de
condemnada e presa_; e explica este fanatismo por ser ella o _producto
das más paixões da época_.
Se Méry faz nauseas ao snr. Pedro de Amorim, quer-me parece que o author
da _Guerra do Nizam_, não preferiria o perfume... litterario do snr.
Amorim aos aromas das florestas indianas. Balzac, posto em pedestal de
corrupção para ser admirado, é um deploravel paradoxo que eu teria pejo
de vêr na minha lingua, se o snr. Amorim Vianna escrevesse
lusitanamente. Que, ao menos, estes absurdos se não possam tirar a limpo
d'entre locuções mascavadas.
Que Lafarge tivesse _mil pretendentes á sua mão, porque era mau producto
das más paixões da época_, é phantasia do snr. Amorim. Um ou outro poeta
lhe fez versos, sem lhe pedir a mão; houve um enthusiasta que lhe propoz
a fuga do carcere; e presume-se que um dos seus advogados casaria com
ella, provada a sua innocencia, que esteve indecisa entre a ignorancia
de tres medicos e a sciencia de Orphila.
Isto sommado não dá mil pretendentes; não chegamos sequer a liquidar um.
A estas hyperboles são atreitos os sabios enfronhados na derramada
florecencia dos idiomas do Oriente.