deixae fallar o dictado:
ó saudade, és um moinho
móes com aguas do passado.
XIII Pára tu, meu coração!
onde estou eu, onde vim?
triste caminho de lagrimas
tem começo e não tem fim.
XIV Ouço cousas que não ouço,
vejo cousas que não vejo:
olhos da minha saudade,
ouvidos do meu desejo!
* * * * *
E a um povo que assim traduz tão lyricamente, com tanta philosophia, com
tanto sentimento, todas as impressões da sua alma dôce, que assim vibra
essa poesia celeste nas cantigas das eiras ao luar, nas espadelladas,
nas desgarradas, nos desafios, na Paschoa, no Natal, nas romarias, a um
povo que tem alma poetica, mais suave que um paraiso, mais simples e
mais colorida que um poente de outono e uma alvorada de primavera,
póde-se, com justiça, arrancar essa linguagem que é caracteristica?
O escriptor que o fizesse, a pretexto de ser verdadeiro com os seus
personagens, para que estes não pareçam superiores ao seu meio, mentiria
á propria consciencia, adulteraria a natureza, roubaria ao povo que
quizesse estudar o mais bello reflexo da sua individualidade litteraria.
A um velho cégo que mendigava pelas estradas, entre Villa-Pouca de
Aguiar e Pedras Salgadas, na Provincia de Traz-os-Montes, muitas vezes
ouvi cantar com a sua voz roufenha, na tristissima toada, monotona
como a sua desventura, as quadras que aqui reproduzo fielmente. Andava
elle pelas feiras, pelos caminhos, pelas romarias, levando a sua
desgraça, como Ashaverus, durante sessenta annos, a toda a parte onde a
tradição religiosa celebrava as festas dos seus oragos, onde a alegria
popular estuava nas danças e folguedos; o rapazio espantado escutava-o
com profundo respeito, as raparigas ouviam-n'o em silencio, porque na
amargura das suas cantilenas, na monotonia das suas queixas, na tristeza
das suas lamentações havia verdade de conceitos e a revolta justissima
de uma alma ferida contra a dureza da sorte e a iniquidade da natureza.
Quem lh'o ensinou, quem escreveu esses versos, onde os aprendeu elle,
que poeta mysterioso, simultaneamente artista e philosopho, traduziu na
simplicidade mystica d'aquellas quadras toda a immensidade da sua
irremediavel desventura? A alma popular, suave e lyrica, de uma raça,
filtrada na arêa branca e pura de uma tradição de oito seculos.
Diz toda a gente e eu não nego
que Deus é pae de bondade,
mas se isso é pura verdade
como foi que eu nasci cégo?
Lá que Deus tirasse a luz
a quem rouba ou assassina,
era a justiça da sina
que todo o mundo conduz.
Mas a mim, não foi clemente
porque eu não tinha nascido;
é que Deus tinha o sentido
de cegar um innocente.
Aos lobos que andam na serra
matando ovelhas e anhos,
dizendo mal aos rebanhos
Deus não castiga na terra.
Não ha lobo que não veja,
todos são filhos de Deus,
só nos tristes olhos meus
a eterna noite negreja.
Não tocaria viola
se eu fosse fera damnada,
mas não andava na estrada
soffrendo e pedindo esmola.
* * * * *
Milton, collocando nos labios de Eva os seus primorosos versos, não
curou de saber se no Paraiso a Mãe dos homens fôra educada pela serpente
nos mysterios da poesia, da arte, da phantasia, da linguagem
alcandorada, nem cogitou de saber se já naquelle tempo, no pincaro da
cordilheira industanica, se fallava o inglez.
A Samaritana era uma mulher vulgar e desprezivel; Rostand colloca-lhe
nos labios a linguagem sublime dos seus alexandrinos formosos, sem
indagar se, ao tempo de Christo, na Samaria, junto ao poço de Jacob, já
se fallava francez, em verso, de metrica impeccavel e de rima opulenta,
brilhante, artisticamente disposta sob a fórma severa que Boileau,
Corneille e Racine haviam de prescrever 1600 annos depois.
A critica, porém, mais céga que a minha desventurosa _Talitha_, mais
ingenua que a alma primitiva, mais ignorante que a Samaritana e mais
perfida que a Serpente, a sogra feroz de Adão, occultou o preceito de
Taine:
«Par cet excès de l'imitation litterale, l'artiste arrive a
produire, non pas le plaisir, mais la répugnance, souvent le dêgôut,
et quelque fois l'horreur.
«Il en est de même dans la litterature.
«La meilleure moitié de la poesie dramatique, tout le théatre
classique grec et français, la plus grande partie des drames
espagnols et anglais, loin de copier exactemente la conversation
ordinaire, altèrent la parole humaine de propos deliberé. Chacun de
ces poètes dramatiques fait parler ses personnages en vers, impose a
leurs discours le rythme et souvent la rime. Cette falsification est
elle nuisible a l'oeuvre?
«En aucune façon. L'experience en a été faite de la maniere la plus
frappante dans une des grandes oeuvres de ce temps, l'_Iphigénie_ de
Goethe, ecrite d'abord en prose et ensuit en vers. Elle est belle en
prose, mais, en vers, quelle diference! Ici, visiblement, c'est
l'alteration du langage ordinaire, c'est l'introduction du rythme et
du mètre qui communique à l'oeuvre son accent incomparable, cette
sublimité sereine, ce large chant tragique et soutenu, au son duquel
l'esprit s'élève au-dessus des vulgarités de la vie ordinaire et voi
reparaitre devant ses yeux les herós des anciens jours, la race
oubliée des âmes primitives, et, parmi elles, la vierge auguste,
interprète des dieux, gardienne des lois, bienfaitrice des hommes,
en qui toutes les bontés et toutes les noblesses de la nature
humaine se concentrent pour glorifier notre espèce et pour relever
notre coeur.»
H. Taine--op. cit., vol. I, pag. 28 et 29.
E a critica indigena censura ao obscuro autor da modesta _Talitha_ a
ousadia de ter observado o preceito que Taine, o grande mestre da França
e do mundo, ordena que se faça, exactamente o que fez Goethe para dar
maior valor e mais gloriosa belleza á sua _Iphigenia_; exactamente o que
fez Rostand para poder impôr á civilisação parisiense, na compleição
nevrotica de Sarah Bernhardt, a inferioridade da mulher da Biblia, a
hetaïra da Samaria condemnada ao supplicio da lapidação pelos heliastas
da Judéa.
* * * * *
Diante da bondade e em face das virtudes caracteristicas dos personagens
que se movimentam nos tres actos da _Talitha_, a critica sentiu arrepios
de indignação e abespinhou-se: á intelligencia dos censores é
inconcebivel a coincidencia de um encontro simultaneo de cinco almas
igualmente boas, simples, generosas, quasi santas; a sociedade repelle
essa pureza, os factos demonstram o contrario: o autor da _Talitha_ não
observou, phantasiou; o seu drama é um trabalho de gabinete, no ambiente
do mundo real essa hypothese não existe.
A critica pontificou _ex-cathedra_, infallivel como o successor de S.
Pedro, Vigario de Christo na terra.
Taine escreveu:
«Après avoir examine devant vous la nature de l'oeuvre d'art, il
reste à etudier la loi de sa production. Cette loi peut, au premier
regard, s'exprimer ainsi: _L'oeuvre d'art est determinée par un
ensemble qui est l'état général de l'esprit et des oeuvres
environnentes.»_
H. Taine.--op. cit., vol. I, pag. 55.
É a influencia do meio na producção artistica: consequentemente, para
apreciar a obra d'arte, quando é sincera, a critica necessita de
conhecer o meio em que ella foi produzida, o estado geral dos espiritos
e dos costumes em cujo seio o pintor, o esculptor ou o escriptor, pintou
o quadro, esculpiu a estatua, ou escreveu o poema.
E dos criticos indigenas que se lançaram á _Talitha_, como San Thiago
aos moiros, apenas um viveu temporariamente em Portugal, mas nunca se
perdeu em terras trasmontanas, gastou o tempo nas ruas das cidades
populosas: a aldeia lusitana, se a viu não a estudou, se a estudou
ou não a comprehendeu ou... tresleu.
De sorte que a critica, severa e exigente, desconhece por completo o
meio que influiu na producção da _Talitha_, não tem noção, sequer, do
estado geral do espirito e dos costumes em cuja atmosphera o obscuro
autor do drama foi buscar os seus personagens: a critica, portanto, é
ignorante e, como todo os ignorantes, é pretenciosa, balofa e
petulantissima.
Ha doze annos ficou terminado o terceiro acto d'esse modestissimo
evangelho; ha doze annos appareceu pela primeira vez, no Brazil, a
sublime pastoral--_Os Velhos_--de D. João da Camara, cuja acção se passa
em uma aldeia do Alemtejo.
Quando a critica indigena, do Rio Grande do Sul, assistiu á
representação dessa obra prima, extasiou-se e não viu que na formosa
comedia do mallogrado escriptor portuguez se movimentam, não cinco, mas
nove personagens, nove almas igualmente puras, virtuosas, que em toda a
acção da bellissima pastoral ha um ambiente de consoladora bondade.
Applaudiu incondicionalmente, sem conhecer o meio em que D. João da
Camara estudou os seus personagens, nem sentiu necessidade de saber qual
era o estado geral dos espiritos e dos costumes que o brilhante
escriptor portuguez reproduziu no palco, para verificar se aquelles
personagens, aquella acção, aquelle ambiente correspondiam á realidade
objectiva da vida aldean no Alemtejo, ou se o dramaturgo phantasiara; se
seria possivel encontrar no fim do seculo XIX, em plena civilisação
occidental europea, reunidas na mesma terra, nove almas puras,
virtuosas, preoccupadas apenas com a pratica do Bem, sem um pensamento
máo, sem uma palavra rude, sem uma acção menos digna.
Ha nos dois primeiros actos da _Talitha_ uma profunda tristeza, a
amargura soluça em todas as gargantas e no terceiro acto ha uma explosão
de alegria: esse contraste parece exquisito, inverosimil, sem exemplo na
realidade da existencia; todo o drama tem um excessivo perfume religioso
que vae ao exaggero, diz a critica.
A critica ignora o que sejam na aldeia portugueza o sentimento
religioso, o culto catholico, a tradição christan, porque nunca viveu na
intimidade daquelles lares; o que lobrigou, através da obra suspeita e
viciada de escriptores trabalhados pelo meio social corrompido dos
grandes centros, envenenou-lhe a alma já preparada para receber a
semente do mal e a critica, enfunada de leitura superficial, para
maldizer, deixou-se ficar na commodidade das biliothecas e dos
gabinetes, acceitou as indicações da alma perversa de algum mentor sem
sinceridade, explorador da inexperiencia de creanças talentosas e
esqueceu a lição de Taine:
«Pour plus de clarté, nous prendrons un cas très simple, simplifié
exprés, celui d'un état d'esprit dans lequel la tristesse est
predominante.
..................................................................
«Il faut d'abord remarquer que les malheurs qui attristent le public
attristent aussi l'artiste.
«Comme il est une tête dans le troupeau, il subit les chances du
troupeau.
..................................................................
«Sous cette pluie continue de misères personelles, il deviendra
moins joyeux, s'il est joyeux, et plus triste s'il est triste.
Voilá--un premier effet du milieu.
..................................................................
«Car, ce qui le fait artiste, c'est l'habitude de degager dans les
objets le caractère essentiel et les traits saillants: les autres
hommes ne volent que des portions, il saisit l'ensemble et l'esprit.
Et comme ici le caractère saillant est la tristesse, c'est la
tristesse qu'il aperçoil dans les choses.»
H. Taine--Op. cit., pag. 68 e seguintes.
Pertencem ao Sr. Adherbal de Carvalho as seguintes palavras:
«O que deu nascimento, entre elles, á noção de fatalidade é uma
concepção que se refere, não ao futuro, mas unicamente ao passado; o
que é, é, e nenhum poder no mundo poderia fazer que um facto
concluido não existisse.»
_A poesia e a arte no ponto de vista philosophico._--Cap. II, pag. 50.
O modesto autor da _Talitha_ não podia fugir á acção do meio em que se
encontrou com os seus personagens, como doutrina Taine, nem se podia
oppôr á verdade: _o que é, é, e um facto concluido, poder algum o annulla_.
Se o autor transformasse á medida do seu desejo, pensando em ser
agradavel á critica, mentiria á sua consciencia, deturparia as leis da
arte: os zoilos pódem maldizer, á vontade, o autor fica tranquillo e
contente com a fiel observancia das lições de Taine e do escriptor
brazileiro, inspirado na doutrina de Guyau.
O facto é verdadeiro, era sufficiente que fôsse verosimil: o autor da
_Talitha_ dramatisou-o, traduziu nos seus versos modestos as desventuras
e a redempção dos seus personagens pelo amor,
«l'amor che muove il sole e l'altre stelle.»
O seu drama obscuro impressionou e commoveu, tanto basta: a agitação da
critica apenas conseguiu encrespar a vaidosa pleiade de coripheus do
elogio mutuo e a paixão, a animosidade e malquerença politicas.
Zola pontificou:
«Il n'est poin't de jeune homme arrivant de sa province qui ne rève
de distribuer des coups de férule.
«Ces pauvres jeunes gens n'ont souvent pas deux idées nettes dans la
tête. L'experience leur manque. Ils tapent en aveugles. De lá les
jugements extraordinaires qui font resembler notre critique a une
veritables Babel, ou on parlerait toutes les langues, sauf la langue
de verité et de justice qu'il faudrait y parler.
«Je ne nommerai personne parmi ces jeunes gens.
«Le vent qui les apporte, les emporte.»
_Documents litteraires; la critique contemporaine._--pags. 346, 347.
* * * * *
O assumpto da _Talitha_ é portuguez, portuguezes são os seus
personagens, portuguez o meio em que a acção se desenvolve, portugueza
foi a atmosphera em que o autor viveu a sua adolescencia e a sua
mocidade: o drama não podia deixar de reflectir
«l'état général de l'esprit et des moeurs environnantes.»
De profundas amarguras, de lacerantes provações para o povo portuguez
foi a época dolorosa em que o modesto autor da _Talitha_ aprehendeu em
flagrante o desenrolar da acção dramatica do seu poema lyrico: e essa
éra prolongou-se em uma crise tremenda que acaba de chegar ao seu auge,
a sua maxima intensidade.
Portugal acabava de receber o _ultimatum inglez_ na questão
pungentissima das possessões africanas, a natureza fôra de uma dureza
extrema: ás innundações dos invernos succedeu a crise agricola que
esmagou a producção vinicola pela invasão phyloxerica, as agitações
politicas ganhavam terreno e a ideia republicana fazia proselytos
ameaçando as instituições monarchico-religiosas de sete seculos e,
em meio dessas provações a Providencia, esquecida da immensa piedade
d'aquelle povo sublime, ininterruptamente demonstrada em uma historia em
que não soffre solução de continuidade o culto da divindade catholica,
fulmina-lhe os homens notaveis e successivamente desapparecem no tumulo:
Fontes Pereira de Mello, Anselmo Braamcamp, Pinheiro Chagas, Guilherme
de Azevedo, Lopo Vaz, Antonio Rodrigues Sampaio, Luciano Cordeiro,
Antonio Ennes, Marianno de Carvalho, Oliveira Martins, Carlos Lobo
d'Avila, Eça de Queiroz, Alexandre da Conceição, Raphael Bordallo
Pinheiro, Gervasio Lobato, Souza Martins, Camillo Castello Branco e
Anthero de Quental imitam o exemplo de Chatterton e atravessam a
luminosa região dos seus cerebros geniaes com a inferioridade
crudellissima de uma bala.
Da nova geração, Antonio Fogaça, Luiz Ozorio, Antonio Nobre, Moniz
Barreto seguiram a estrada da morte.
A crise economica era pavorosa, a emigração clandestina assustava os
espiritos mais fleugmaticos, á questão ingleza, seguiu-se a revolta de
31 de Janeiro e a situação geral era tão delicada e complexa que nem o
genio de José Dias Ferreira, nem as combinações politicas de homens como
Hintze Ribeiro e Fuschini conseguiram solver.
Ao desequilibrio financeiro succederam a questão monetaria e o augmento
da divida publica, fortemente aggravadas as condições do credito publico
pela questão internacional do emprestimo de D. Miguel. E Teixeira Bastos
escreve:
«Diante do desconsolador espectaculo que apresenta a sociedade
portugueza estrebuchando no esphacêlo, ha quem tenha perdido de todo
a esperança de regeneração; ha quem se persuada que estão
chegados os ultimos dias de Portugal. Com effeito, a agudeza da
crise, que talvez ainda esteja longo de seu termo, justifica em
grande parte este excesso de pessimismo.
«Portugal, como todas as nações contemporaneas, em maior ou menor
gráo, lucta com uma crise terrivel, que se revela sob aspectos
variadissimos. É uma crise politica, financeira, economica, mas
sobre tudo social e moral.»
Teixeira Bastos--A Crise, pag. 435.
Esse estado geral do espirito e dos costumes portuguezes influiu
poderosamente na producção artistica e litteraria d'aquelle tempo e na
que se seguia.
Na esculptura destaca-se a estatua de _Hermengarda_ em que o talento de
Moreira Rato evoca para o marmore a alma dilacerada da heroina de
Herculano, o pessimista glorioso, o desilludido sublime de Val de Lobos.
Na architectura não surge cousa alguma que atteste a sublimidade do
caracter nacional e o que havia de notavel, legado e herança do passado,
soffre a influencia do desanimo, da indefferença, da tristeza geral que
domina.
É de Ramalho Ortigão o que se vae lêr:
«Levaria muito tempo e seria excessivamente triste ennumerar todos
os attentados de que teem sido e continuam a ser objecto, perante a
mais desastrosa indifferença dos poderes constituidos, os monumentos
architectonicos da nação...
«Dos desacatos de lesa-magestade nacional, a que tenho a dôr e a
vergonha de me referir, uns teem caracter anonymo, outros affectam
directamente a cumplicidade official. Os primeiros são uma
consequencia do desdem: os segundos são um resultado de incapacidade.»
Ramalho Ortigão.--_O culto da Arte em Portugal_, pags., 19 e
seguintes.
Quanto á vida e a producção litteraria, o autor da _Talitha_ invoca o
depoimento do grande critico portuguez; é elle quem affirma:
«Dissolvido o culto artistico pela negligencia ou pela inepcia de
abastardadas classes dirigentes, os fieis debandam por não haver
egreja que os reuna, e é já evidente esta enorme catastrophe: que na
arte de portugal faltam corações portuguezes.
«Fere-nos já esse phenomeno consternador em todos os aspectos da
vida intellectual.
..................................................................
«A juventude litteraria, dotada de uma consideravel força de
applicação e de talento, traz-nos uma poetica exotica, de climas
nevoentos, anti-meridional, e vem fallando uma lingua secreta,
cabalistica, interessantemente engenhosa, incomprehensivel para o
povo e para os que não estiverem iniciados na morphologia espiritica
das novas seitas.
«Em toda a historiographia contemporanea se nota uma glacial frieza
de critica, uma anemica pallidez de expressão, um geral entono de
apagada tristeza, em que bem se demonstra que não circula o sangue
vermelho da raça, nem se retrata o genio do nosso povo, meigo,
docil, de apparencia branda, mas ainda hoje eminentemente sociavel,
amando a grande alegria estridente das feiras, das tardes de touros,
das romarias dos seus santos populares, conservando nas intimas
camadas sociaes um residuo trovadoresco, de palladino e de
menestrel, susceptivel ainda das paixões mais profundas, todo de
imposição e repentismo, capaz das coisas mais imprevistamente
grandes, poetico, aventureiro e destemido.
«Na poesia, assim como na pintura e na musica, não ha uma escola
portugueza, porque, na falta de laço social que congregue os nossos
artistas, sem elementos coordenados de estudo, sem modelos patentes,
sem lição commum, não ha entre elles mutuamente, nem entre elles e o
povo de que derivam, communhão alguma de ideal ou de sentimentos.»
Ram. Ortigão.--op. cit., pag. 110 e seguintes.
* * * * *
Embora modesta a _Talitha_, embora sem merecimento o seu autor obscuro,
como poderiam ambos--drama e escriptor--fugir a esse estado geral do
espirito e dos costumes, de que falla Taine?
Necessariamente deveriam obedecer á lei, e por isso apparece nos dois
primeiros actos do drama essa dolorida tristeza que é o reflexo da
situação geral da sociedade e que a desventura daquella familia, pela
desventura da pequena Talitha, aggrava e apura com intensidade.
«D'autre part, l'artiste a été élevé parmi des contemporains
mélancoliques; partant, les idées qu'il a reçu et celles qu'il
reçoit encore tous les jours sont mélancholiques.
«La religion regnante, qui s'est accommodée au lugubre train des
choses, lui dit que la terre est un exil, le monde un cachot, la vie
un mal, et que toute notre affaire est de meriter d'en sortir»
H. Taine--op. cit., vol. I. pag. 65.
Aliás é profundamente melancolica toda a obra litteraria portugueza
desse tempo, muito principalmente na poesia.
É um soluço de magua--o _Espirito Gentil_--de Luiz Ozorio; formam um
rosario de amarguras--as _Orações do Amor_ de Antonio Fogaça; é um
gemido crudellissimo o _Só_ de Antonio Nobre; é como um echo de
Necropole--_Nada_--de Julio Dantas.
No theatro, Marcellino de Mesquita lança a _Noite do Calvario_,
reproducção profundamente dolorosa e triste de um acontecimento real da
vida de um lar que o dramaturgo generalisa ás condições da vida social,
aliás já cruelmente desvendada nos _Castros_.
Para fugir á influencia da actualidade Julio Dantas recorre ao passado,
á chronica, a historia e não consegue eximir-se á impressão da
desventura: _O que morreu de amor_ é uma resurreição esmagadora de
magua; a _Severa_ é um manto de crepe encobrindo um cenotaphio; _O serão
nas larangeiras_ é uma ironia finissima, um esfusiar de espirito que
occulta, mascára, e pinta um immenso abatimento moral.
Gervasio Lobato passa nesse meio espalhando gargalhadas, ridiculo e
_troça_ sobre a sociedade carcomida pela crise e acabrunha de pilherias
a burguezia e a classe media no _Commissario de Policia_, no _Solar dos
Barrigas_ e na _Lisboa em Camisa_, passando do palco ao romance.
A _Velhice do Padre Eterno_ é uma _charge_ monumental sobre o
ultramontanismo da sociedade religiosa: a _Patria_ é uma objurgatoria
tremenda, um raio de colera olympica; os _Simples_, constituem um colar
de lagrimas de uma jeremiada genial e as _Orações ao Pão e á Luz_ são as
aspirações tantalicas do genio ao seio da excelsa divinisação da arte,
como refugio extremo de uma alma que foge ás revoltas da terra para não
cahir na lama das decomposições sociaes.
A _Rosa engeitada_, de D. João da Camara, é a dôr vivendo e esmagando as
almas; os _Velhos_, apezar do seu encanto bucolico e purissimo, é um
crepusculo de sombras dôces.
A _Cruz da Esmola_, de Eduardo Schwalbach, é a photographia nitida da
tortura e do desespero...
E tudo isso é a reproducção conscienciosa de um estado de pathologia
social... a menos que a critica não attribua tudo isso á phantasia dos
artistas pelo gozo requintado de esmagar a propria patria ao peso de
calumnias...
Mas neste caso como comprehender o collossal successo das obras
extraordinarias de Ramalho Ortigão na critica, de Eça do Queiroz ao
romance e de Raphael Bordallo na caricatura, profligando esse estado
geral de espirito e de costumes como Alphonse Karr, Gavarni e Flaubert
na alta cultura genial da França, em plena floração artistica e litteraria?
O terceiro acto da _Talitha_ não destôa dos anteriores, a unidade não se
quebra, transmitte-se, completa-se: a mesma suave melancolia dos
primeiros conserva-se na narrativa da morte do sargento que _Ruy_
communica a _Joaquina_ e no _raconto_ que das suas desventuras, faz a
_Marqueza de Rilma_ ao velho cura João Fulgencio.
A mesma serenidade christan dos primeiros actos paira no terceiro
através da descripção em que _Talitha_, ao som dos sinos distantes da
missa do gallo, conta a _Ruy_ e a _Joaquina_ a sua allucinação
passageira e termina com a _Salve-Rainha_ rezada ao soluçar do orgam e
ao repique da alvorada annunciando a missa d'alva.
A alegria que vibra n'este acto é mais intensa, realmente, mas n'elle se
encontram trez factos culminantes: a confirmação do noivado de Talitha
pelo perdão da Virgem na visão da missa; a cura radical e milagrosa da
sua cegueira e o apparecimento da mãe tanto tempo perdida.