_Que la scène soit triste ou gaie, nous retrouvons toujours la même
distinction entre l'émotion réelle et l'émotion esthétique. Il faut
de toute necessité, pour que cette dernière soit possible, que
l'autre disparaisse; il faut que l'auditeur ou le spectateur ne
puisse jamais oublier qu'il y a entre le fait et lui un
intermediaire dont l'impression constitue la poesie de l'oeuvre;
c'est surtout au théâtre que cette distinction entre le réel et le
fait poetique est essentielle. L'illusion complète, loin d'être le
suprême degré de l'art, comme on l'a dit, en serait simplement la
négation._
Eug. Veron, _L'Estetique_, pag. 407 e 408.
RESPOSTA Á CRITICA INDIGENA
A _Talitha_ é uma reminiscencia da mocidade, piedosamente recolhida pelo
coração á mudez da alma, que a minha intelligencia modesta crystallizou
em versos froixos, que o meu sentimento fixou em drama e que a cegueira
das paixões pretendeu ferir.
Devo, quero e vou defendel-a.
* * * * *
Zola, o genio, o mestre, o justo, escreveu:
«Lorsqu'on a l'honneur de tenir une plume, on se consulte avant
d'ecrire, et quand on a écrit une page, on l'affirme, on la défend.»
_La critique contemporaine_, pag. 356.
A critica censurou-me porque, brazileiro e rio-grandense, fui procurar
em terras de Portugal o assumpto do meu obscuro trabalho. A _Talitha_
não é uma obra nacional: nem portugueza porque o seu autor não nasceu em
Portugal, nem brazileira porque a acção se passa em terra estrangeira,
entre personagens de uma aldeia lusitana perdida nas serranias da
provincia de Traz-os-montes.
* * * * *
A censura é futil.
A critica esquece que Portugal é a patria da nossa patria; que o nosso
idioma nacional ainda não sahiu do periodo primitivo e selvagem; que a
lingua de Camões foi a lingua de Gonçalves Dias e ainda hoje é a lingua
de Olavo Bilac e de Coelho Netto; que os sentimentos de José de Alencar
vibraram nas mesmas palavras em que vibrou a alma de Camillo Castello
Branco o através das quaes se impoz á grandeza do seculo que passou a
individualidade singular e forte de Eça de Queiroz, ao mesmo tempo que
se impunha, em outro hemispherio, a personalidade singular e forte de
Machado de Assis.
Ingenua, ignorante ou perfida, a critica esqueceu o preceito de Taine:
«Les productions de l'esprit humain, comme celles de la nature
vivante, ne s'expliquent que par leur mllieu.»
H. Taine--_Philosophie de l'Art_. vol. I, pag. 11.
O homem é um producto do meio, este inflúe poderosamente na formação de
seu espirito; mais que poderosamente--decisivamente.
A mocidade é mais docil em receber essa influencia natural e espontanea
do ambiente--do clima, das tradições, dos costumes, da religião, da arte.
É na infancia e na adolescencia, como observa Moreau, de Tours, no seu
estudo--_La Folie chez les Enfants_--que os erros e os preconceitos se
apoderam do espirito e por tal forma criam raizes que difficilmente se
arrancam.
Spencer, na Educação moral, intellectual e physica, affirma que a
influencia do meio sobre a mocidade decide do futuro inteiro.
A minha adolescencia e a minha mocidade fluiram em Portugal, nas
escolas, nas aldeias, no seio patriarchal da familia paterna.
Com os portuguezes, moços como eu, senti os pezares d'aquelle grande
povo, sorri nas alegrias d'aquella boa gente.
Á sombra fresca e generosa das suas arvores adormeci e sonhei: ao calor
daquelle sol aqueci as minhas esperanças; no gelo daquellas neves
murcharam-me as mais perfumadas illusões; ao luar opalescente daquellas
noites ouvi a musica das primeiras serenatas: ao fulgor daquellas
estrellas peneirou no meu coração a voz dolentissima dos rouxinóes; com
a poesia popular daquella alma lyrica de onze seculos aprendi a versejar
quando a minh'alma de dezeseis annos abria para o mundo as flôres das
suas aspirações incipientes; com a lithania religiosa dos orgãos ruraes
nas capellas das aldeias aprendi a amar a Deus, a crer na sua olympica
magestade, ao mesmo tempo que filtrava docemente no meu espirito a
ternura sagrada daquelle mysticismo que reza na voz das aragens, no
perfume das flôres, no marulhar das fontes, no gorgeio das aves e até no
merencorio soluçar das vagas, rolando eternamente nas areias das praias.
Dezoito annos correram para a minha vida feliz e descuidosa, naquella
terra santa que é a patria da saudade, e, quando o meu coração começou a
sentir as amarguras do exilio, quando a minha intelligencia poude
comprehender toda a magua da ausencia, foi na saudade portugueza
«o delicioso pungir de acerbo espinho,»
que eu aprendi a sentir a saudade do lar que aqui deixára, do berço que
me embalára as horas da infancia, da voz materna que me acalentára a
puericia, do céo que dera luz ao meu olhar e calor ao meu sangue,
sangue em cujas ondas correm leucocytos de sangue lusitano. «d'este
sangue abençoado», fortemente oxygenado, que me dá energia para as
luctas e ampara a tranquilidade transparente da minha consciencia,
limpida e superior, as investidas da injustiça e da critica.
E como poderia eu, por que estranho processo de cirurgia, arrancar ao
meu organismo essa metade portugueza que constitue um nobre orgulho da
minha vida?
E como poderia eu, por que estranho processo de psychologia, arrancar á
minh'alma esse conjuncto essencial de elementos que durante dezoito
annos se vincularam ao meu espirito, á minha intelligencia, á minha
vontade, á minha sensibilidade, com a mesma delicadeza, com a mesma
subtil insistencia com que a luz do sol penetra no seio da terra para
fazer germinar as sementes, com que a palavra das mães penetra na alma
dos filhos para transfigural-a, como o luar que transforma em espelho de
prata a agua dos lagos e dos rios?
* * * * *
A _Talitha_ é uma reminiscencia da mocidade passada na aldeia
traz-montana, na suave e consoladora almosphera da familia paterna;
_Talitha_ não é uma creação da minha phantasia, é a copia do modelo vivo
que eu conheci, que acompanhei na cegueira cruel e, depois, na luminosa
redempção do seu primeiro amor.
_Ruy de Ornellas_ foi meu irmão de lettras, foi meu amigo, meu
companheiro de escola, meu consocio na bohemia alegre e feliz da vida
academica, nem o nome lhe occultei.
O velho cura _João Fulgencio_ foi uma realidade soberba de caridosa
affeição evangelica: era um sacerdote de alma pura, um ancião de oitenta
invernos consumidos em espalhar o bem emquanto muitos moços de alma nova
mas precocemente corrompida ao contacto das descrenças enervadoras e
fataes, na convivencia intima da politicagem, dos bordeis e dos cafés,
vivem para fazer o mal, no gozo requintado de espalhar desventuras,
quando é mais facil, mais dôce, mais humano, mais confortante, mais
nobre, semear carinhos e affectos para fazer a colheita das sympathias e
das dedicações.
A velhinha _Joaquina_, a irmã desse honrado e justo sacerdote, é o
retrato fiel, copiado á intimidade da minha propria familia, em cujo
seio fui buscar o modelo daquella virtude christan, na figura venerada
de uma santa creatura que acalentara, ha sessenta annos, a puericia de
meu Pae.
A _Marqueza de Rilma_ não é um personagem ficticio, viveu, foi a mãe de
Talitha, não com o titulo de tão elevada condição aristocratica, mas de
nobre linhagem, victima innocente das luctas civis de 1846 que
accenderam a fogueira horrivel dos odios entre os partidos politicos.
Revelar-lhe o verdadeiro nome seria uma iniquidade, além de
absolutamente desnecessario ao desenvolvimento da acção dramatica: a
mais rudimentar educação, a mais vulgar delicadeza de sentimentos
mandavam occultar essa circumstancia, inutil á fidelidade da observação
e perfeitamente dispensavel ao estudo da psychologia do personagem.
Que representa, pois a _Talitha_?
O intimo e nobre desabrochar de uma consciencia que não esqueceu o
passado, que transformou um incidente da vida em pretexto para resgatar
uma divida de gratidão, para abrir no seio um longo e profundo sulco de
reconhecimento á terra sagrada em que dormem seus avós o somno
ultimo e perpétuo, onde ficaram os primeiros dias de existencia do
ancião que me deu o sêr, onde eu deixei as gerações irmans que me
acompanharam na peregrinação astral das illusões academicas.
A perversidade incuravel dos zoilos, porém, occultou, de proposito
deliberado, que o obscuro autor da _Talitha_, agora alvejado por haver
esquecido ingratamente a sua patria, preferindo assumptos, personagens e
céos estranhos, já estudara em um drama, em tres actos, intitulado _A
Farça_, a sociedade da sua terra e um facto que se desenrolara no meio
em que vive.
E esse drama foi levado á scena tres vezes, no Theatro S. Pedro, por uma
sociedade de amadores; mereceu a critica da imprensa local e foi
largamente estudado por dois homens conhecidos nas lettras: Alarico
Ribeiro e dr. Sebastião Leão.
Se não teve esse modesto trabalho a ventura de ser interpretado por
artistas, não pode caber ao autor a culpa de faltar entre nós uma
companhia dramatica nacional constituida de profissionaes.
A critica indigena devia ter conhecimento d'esse facto; se sabe d'elle é
perversa occultando-o propositalmente para ferir a _Talitha_; se não
sabe, é ignorante, e uma critica _soi-disant_ competente, que desconhece
o autor escolhido para a censura e os trabalhos por elle produzidos, não
póde exigir consideração nem respeito do meio litterario em que pretende
pontificar.
«Il y a même, au fond de la grande majorité des critiques, un
producteur manqué, qui se regisne à parler des oeuvres d'autrui,
quand il voit que personne ne parle des siennes.»
Zola, oeuvre cit., pag. 349.
A critica, ou ignorante, ou perfida, ou ingenua, esqueceu que
Taine, o mestre supremo, havia pontificado:
«La méthode moderne que je tâche de suivre, et qui commence à
s'introduire dans toutes les sciences morales, consiste a considerer
les oeuvres humaines, et en particulier les oeuvres d'art, comme des
faits et des produits dont il faut marquer les caractères et
chercher les causes; rien de plus. Ainsi comprise, la science ne
proscrit ni ne pardonne: elle constate et explique.»
H. Taine--oeuvre cit, vol. I, pag. 14.
Mas a critica levantou-se contra as leis proclamadas pelo proprio mestre
invocado: condemnou, não explicou.
Sem investigar as origens do drama, sem conhecer a sua significação, sem
sondar a alma que o creára, fulminou a obra e insultou o espirito que a
produzira.
Para maldizer bastaram-lhe dois elementos: o assumpto que é portuguez e
o estylo que não é brazileiro...
E a critica, sempre ingenua, ou ignorante, ou perfida, esqueceu que
Shakespeare fôra buscar á nevoenta Dinamarca a figura culminante de
Hamlet, á sorridente Italia dos laranjaes em flôr, as suaves imagens de
Romeu e Julieta, e o vulto soberbamente tragico do tremendo Othelo.
Sempre com a mesma perfidia, a critica, depois de citar os nomes de
Racine e Corneille, occultou que esses grandes espiritos da França foram
pedir á Grecia e à Roma antigas, á Hespanha medieva e aos Barbaros a
quasi totalidade dos seus heróes e das suas heroinas, deixando na
obscuridade a immensa galeria de personagens illustres da propria
patria: o genio desses dois sublimes cerebros andou a resuscitar, a
illuminar, a galvanizar no tablado do theatro francez a grandeza épica
de vultos estranhos e deixou no tumulo o vulto leonino dos
immortaes filhos da França e as imagens delicadas e formosas das
mulheres gaulezas.
De Corneille, _Medéa_ é uma simples imitação de Lucio Seneca, romano,
que a seu turno pedira inspiração ao theatro grego; _Cid_, que é uma
obra-prima, além de ser puramente hespanhola a sua acção de altissima
tragedia, foi inspirada pela obra do poeta castelhano Guilhen de Castro,
que o genio de Corneille deixou na sombra; _Horace_ é um assumpto romano
que o poeta francez pediu a Tilo-Livio; romanos são _Polyeucte_, _Cinna_
e _Pompée_, este inspirado por Lucano; _Mentor_ é o velho personagem da
legenda grega de Ithaca, já reproduzido no theatro hespanhol pelo poeta
Alarcon, ao qual Corneille foi pedir o modelo; _oedipe_ e _Sertorius_,
que são lampejos da constellação de decadencia de um genio, pertencem, a
primeira ao cyclo da heroicidade thebana que Sophocles já havia
immortalisado na scena grega, a segunda é pura historia da Iberia em que
o vulto admiravel do general romano fulge num derradeiro vestigio de
genio, ao lado de Viriato, o grandioso pastor dos Herminios e fundador
da nacionalidade lusitana.
Nem mesmo no periodo da sua decadencia, vencido na queda da _Pertharite_
e no confronto do seu _Attila_ com a _Andromaque_ de Racine, outro genio
que subia rapidamente ao zenith, nem mesmo na desventura, a alma de
Corneille vibrou pela patria, o seu talento não procurou conforto na
historia assombrosa da França: o seu coração voltou-se ainda para o
oriente, foi á Judea estudar a grandeza sublime do Rabbino da Samaria e
deixou na _Imitação de Christo_ a ultima expressão do seu genio, como o
raio extremo do sol ao entrar na sepultura do occaso.
De Racine, póde-se affirmar que escreveu as suas tragedias
inspirando-se, ora no theatro grego, ora na Biblia.
Assim o ensina um sabio mestre brazileiro:
«deixando respeitosamente de parte Eschylo e Sophocles, impossiveis
de imitar, modelou-se por Eurypedes, menos perfeito na generalidade
da concepção, porém mais tocante na pintura dos accessorios e que
maior conformidade offerecia com o seu talento.»
São d'esse genero a _Andromaque_, _Mithridates_, _Phèdre_, _Iphigénie_.
São inspiradas na Biblia, a _Thébaïde_, _Esther_ e _Athalie_.
Pertencem ao genero historico: _Alexandre_, _Berenice_, _Britannicus_. E
ainda mesmo quando Racine, resolvendo esmagar os seus zoilos, escreveu a
comedia _Les Plaideurs_, que é uma _charge_ temivel de espirito e de
genio, foi pedir ás _Vespas_ de Aristophanes, não só a inspiração, mas o
exemplo, o paradigma.
Todas essas tragedias ficaram na litteratura franceza, pertencem ao
Theatro da França que não as repudiou, que as ama, que as admira,
cultuando a memoria dos genialissimos poetas, não obstante o haverem
elles esquecido a seara magnifica da patria pelos encantos das estranhas
figuras orientaes.
Victor Hugo foi pedir a Inglaterra o vulto espantoso do dictador para
escrever a maravilha dramatica de _Cromwell_, deixando no esquecimento a
soberba grandeza de Danton! Para dar á Escola romantica a sua data
inicial no Theatro francez, o grande poeta das _Folhas de Outono_ foi
buscar á Hespanha a inspiração dos versos maravilhosos do _Hernani_ e
deixou á litteratura dramatica da França as figuras esculpturaes de
_Dona Sol_, do bandido celebre, do Rei D. Carlos e do velho aristocrata
Ruy Gomez.
Mas onde o genio do grande filho de Besançon attingiu a altitude suprema
a que não chegaram Corneille no _Cid_ nem Racine na _Phèdre_, foi
no _Torquemada_, a epopéa dramatica do fanatismo: e Torquemada foi o
inquisidor da Hespanha. Nenhum poeta da peninsula havia arrancado á
historia a figura sinistra do sacerdote; Hugo levanta-a do tumulo,
illumina-a com as fulgurações do seu genio, como se em torno da
cariatide monstruosa da Inquisição ardessem as fogueiras dos
autos-da-fé, e liga á litteratura dramamatica da França a figura
barbara, apocalyplica do carrasco da Igreja.
No emtanto, na historia da França havia a linha cruel de Luiz XI, algoz
do duque de Alençon, que podia ter inspirado o genio do poeta sublime.
Alfred de Vigny, contemporaneo de Victor Hugo, na sua primeira phase
litteraria foi quasi totalmente oriental e biblico: _Eloah_, _Symeta_,
_Dryade_, _Fille de Jephté_, _Femme adultère_, _Dolorida_, _Deluge_.
Na segunda phase produziu, em verso, o seu drama notavel Chatterton,
cujo heróe é o grande e infortunado poeta inglez que, aos 22 annos,
procurou no suicidio a solução para a vida das amarguras e tristezas que
arrastava o seu genio incomprehendido.
E Alfred de Vigny, tão admirador de André-Chénier que n'este procurou
inspiração para a sua _Dryade_, deixou no esquecimento a figura soberba
e tragica do poeta da revolução, cuja cabeça rolou no cadafalso como uma
cabeça vulgar, não obstante:
«avoir quelque chose là dedans»
E a França não engeitou a obra immortal de Alfred de Vigny, e a
_Comedie-Française_ em 1881 fazia a sua _reprise_, com alto successo,
não obstante a opinião do Zola que a reputa:
«la negation du théatre.»
A critica, severa para mim, devêra ter vergastado primeiramente a
memoria de Lord Byron que cantou na sua lyra de poeta e serviu com a sua
espada de guerreiro a obra politica da emancipação da Grecia; devêra
anathematisar Sienkiewicz, o polaco genial que estudou no romance a
reconstituição da vida romana á época da decadencia cesarista de Nero;
devêra ter condemnado á morte M.^me Judith Gauthier, a filha gentil e
talentosa de Theophile, que, deixando de parte a herança paterna,
preciosa e brilhante, foi procurar o assumpto das suas obras notaveis
nas terras e nos costumes do extremo oriente, com especialidade no Japão
e na China; devêra ter amaldiçoado e reduzido a pó o sublime poeta
contemporaneo da França--Edmond Rostand--que engastou nos tres actos
phantasticos da _Princesse-Lointaine_ um assumpto oriental e na
_Samaritaine_, a sua obra prima, a vida, a figura, a alma encantadora da
filha da Judéa, deixando no esquecimento a belleza mystica de Joanna
d'Arc; devêra ter queimado a estatua de Castellar, porque o espantoso
rival de Cicero escreveu os extraordinarios volumes dos _Recuerdos
d'Italia_, sem ter jámais escripto uma pagina de viagem pela propria
Hespanha, sua patria; devêra ter castigado os despojos funebres de
Milton, porque o grande poeta inglez, cuja inspiração hombrea com as de
Tasso e Ariosto, cuja grandeza genial é, depois de Shakespeare, a
creação mais opulenta da poesia britanica, teve o arrojo de esquecer a
sua verde Erin e foi ao pincaro do Himalaya, ao berço da tradição
adamita, procurar o assumpto do seu _Paradise Lost_.
E a critica para ser sincera, ou, pelo menos, logica, severa como foi
para o obscuro autor da desventurada _Talitha_, devêra censurar
amargamente a falta de patriotismo de Araujo Porto Alegre que, em versos
de um sabor arcadico e em metro solto, celebrou o almirante genovez
Colombo, deixando ingratamente no olvido a figura épica do riograndense
Tamandaré, lobo dos mares como o piloto de Palos, além de guerreiro como
Patterson.
E a censura devêra estender-se tambem a Gonçalves de Magalhães que, em
vez de cantar o heróe dos Guararapes ou a figura brilhante de Garibaldi
que vive na tradição da liberdade sulina, preferiu celebrar na sua lyra
a aguia de Wagram, na queda monstruosa de Waterloo, tanto mais que ao
nascer do theatro brazileiro, quando fulgia o talento artistico de João
Caetano, deixou no esquecimento a figura negra de Calabar e foi á
historia de Milão pedir o assumpto e os personagens da sua tragedia
_Olgiate_, em cuja acção se estuda a tyrannia licenciosa de Galeazzo
Visconti e o assassinato do tyranno.
E a critica, tão rispida com o autor da _Talitha_, chegando mesmo a
citar a sentença do divino Almeida Garrett para aquelles que se
abalançam ao estudo de estranhos assumptos esquecendo a patria, devêra
começar pela censura ao proprio autor do _Frei Luiz de Souza_, que
iniciou a sua vida litteraria no theatro escrevendo _Xerxes_,
_Lucrecia_, _Sophonisba_, _Atala_, _Meroppe_ e _Catão_, antes de se
lembrar que _D. Filippa de Vilhena_ fôra uma das heroinas de sua terra.
* * * * *
Mas a critica, severa com o autor da _Talitha_, não tem sinceridade nos
seus conceitos.
Um formosissimo talento de artista, alma de raro quilate, aberta ás
emoções do Bello, filho d'esta terra, Araujo Vianna, musicista de
apurado engenho, escreveu a sua brilhante partitura da _Carmella_, um
encanto, uma joia.
A acção do libreto passa-se na Italia, a musica inspira-se
claramente na escola de Massenet, sóbe á scena no Rio de Janeiro
interpretada por artistas italianos, sóbe á scena em Porto Alegre
interpretada por artistas italianos, a critica applaudiu em delirio,
extasiou-se, e ninguem viu, ninguem sentiu, que a _Carmella_ é italiana
pelo libreto e franceza pela musica; o patriotismo riograndense não se
julgou melindrado porque o intelligente _maestro_ patricio deixou na
obscuridade a nossa paisagem, o nosso clima, as nossas mulheres, os
nossos costumes, a nossa poesia, a nossa musica popular e
caracteristica, preferindo a lenda, o lyrismo, a impetuosidade, o céo, a
aventura da gloriosa e divina Italia da arte...
A critica emmudeceu.
Entretanto Araujo Vianna apenas visitou a Italia: o seu sangue é
genuinamente brazileiro, formou-se o seu espirito na propria patria, nem
a natureza nem a sociedade italiana influiram no seu desenvolvimento
intellectual e moral...
A critica tinha de tudo isso conhecimento exacto e perfeito mas...
_passons là dessus_.
«Dès lors, les impuissants et les hypocrites peuvent injurier
l'oeuvre et l'auteur, les couvrir de boue, les nier...»
Zola--_Documents litteraires_, pag. 418.
* * * * *
Sempre ingenua, ou ignorante, ou perfida, a critica censura a _Talitha_,
condemnando-a porque os seus personagens fallam uma linguagem elevada,
superior á modestia das suas condições de aldeãos.
A critica é futil e não sabe o que diz.
_Talitha_ falla nos seus dialogos a linguagem do mysticismo que durante
dezesete annos ouviu e aprendeu com o seu velho padrinho: o cura.
A sua linguagem é simples, ingenua e lyrica.
Mas simples, ingenua e lyrica é a linguagem do povo portuguez, desde a
sua infancia até hoje.
As imagens que o autor lhe põe nos labios são as mesmas que borbulham na
phantasia do povo lusitano, ha mais de nove seculos de nacionalidade,
affirmada num _folke-lore_ riquissimo e inexgottavel, desde Guesto
Ansures até Antonio Fogaça.
Pois a uma creança de dezoito annos, alma pura e boa, natureza casta,
intelligente e fina, delicada e vibratil, torturada pela desventura,
póde ser negada a phantasia creadora, poetica e imaginosa que
caracterisa o povo em cujo meio ella vive, principalmente na aldeia, na
atmosphera idylica e bucolica, simplesmente porque a cataracta a cegou
aos oito annos?
Mas Antonio Feliciano de Castilho foi o bardo cégo que escreveu a _Noite
do Castello_, as _Cartas de Echo a Narciso_, os _Ciumes do Bardo_, a
_Primavera_, o _Outono_ e cégo é o anonymato popular que produz ha oito
seculos esse rosario encantador e sublime das trovas e cantigas que
andam na tradição oral, na garganta de todas as mulheres, na voz de
todos os cantores, nos labios de todos os estudantes, desde o
_Cancioneiro de Garcia de Rezende_ e de _El-Rei D. Diniz_ até o
_Romanceiro_ de Garrett e os _Cancioneiros_ de Theophilo Braga e
Gualdino de Campos.
São da poesia popular, são do povo em cujo seio _Talitha_ nasceu,
cresceu, amou, sonhou e foi noiva, as formosas quadras que correm de
labio em labio, sem autor conhecido e que Junqueiro, Eugenio de Castro,
Antonio Nobre e Correia de Oliveira gostosamente assignariam.
I Nessas tuas mãos pequenas
como não vi em ninguem
não sei como as minhas penas
couberam nellas tão bem.
II Perdes mais em me perder
do que eu perco em te deixar:
perco quem sabe offender,
tu perdes quem sabe amar.
III Dizes que deixo saudades,
não me posso conformar:
pois se eu as levo commigo,
como t'as posso deixar?
IV Acostumei tanto os meus olhos
a namorarem os teus
que de tanto confundil-os
nem já sei quaes são os meus.
V Se os meus olhos te incommodam
quando estão na tua frente
hei de arrancal-os um dia
para te amar cegamente.
VI Se eu soubesse que voando
alcançava o que desejo
mandava fazer as azas
que as penas são de sobejo.
VII Eu jurei que não tornava
a dar adeus a ninguem:
quem parte saudades leva
quem fica saudades tem.
VIII Essas tuas sobrancelhas
como nunca vi mais bellas
são laços de fita preta
unindo duas estrellas.
IX Não sei que quer a desgraça
que atraz de mim corre tanto,
hei de parar e mostrar-lhe
que de vêl-a não me espanto.
X Vae alta a noite, vae alta,
mais alto vae o luar,
mais alta vae a ventura
que Deus tem para me dar.
XI É tua bocca ideal
um palacio com jardim:
as portas são de coral
os degráos são de marfim.