Chateaubriand. _Essai sur la litterature anglaise_. pag. 171.

_Que la scène soit triste ou gaie, nous retrouvons toujours la même

distinction entre l'émotion réelle et l'émotion esthétique. Il faut

de toute necessité, pour que cette dernière soit possible, que

l'autre disparaisse; il faut que l'auditeur ou le spectateur ne

puisse jamais oublier qu'il y a entre le fait et lui un

intermediaire dont l'impression constitue la poesie de l'oeuvre;

c'est surtout au théâtre que cette distinction entre le réel et le

fait poetique est essentielle. L'illusion complète, loin d'être le

suprême degré de l'art, comme on l'a dit, en serait simplement la

négation._

Eug. Veron, _L'Estetique_, pag. 407 e 408.

RESPOSTA Á CRITICA INDIGENA

A _Talitha_ é uma reminiscencia da mocidade, piedosamente recolhida pelo

coração á mudez da alma, que a minha intelligencia modesta crystallizou

em versos froixos, que o meu sentimento fixou em drama e que a cegueira

das paixões pretendeu ferir.

Devo, quero e vou defendel-a.

* * * * *

Zola, o genio, o mestre, o justo, escreveu:

«Lorsqu'on a l'honneur de tenir une plume, on se consulte avant

d'ecrire, et quand on a écrit une page, on l'affirme, on la défend.»

_La critique contemporaine_, pag. 356.

A critica censurou-me porque, brazileiro e rio-grandense, fui procurar

em terras de Portugal o assumpto do meu obscuro trabalho. A _Talitha_

não é uma obra nacional: nem portugueza porque o seu autor não nasceu em

Portugal, nem brazileira porque a acção se passa em terra estrangeira,

entre personagens de uma aldeia lusitana perdida nas serranias da

provincia de Traz-os-montes.

* * * * *

A censura é futil.

A critica esquece que Portugal é a patria da nossa patria; que o nosso

idioma nacional ainda não sahiu do periodo primitivo e selvagem; que a

lingua de Camões foi a lingua de Gonçalves Dias e ainda hoje é a lingua

de Olavo Bilac e de Coelho Netto; que os sentimentos de José de Alencar

vibraram nas mesmas palavras em que vibrou a alma de Camillo Castello

Branco o através das quaes se impoz á grandeza do seculo que passou a

individualidade singular e forte de Eça de Queiroz, ao mesmo tempo que

se impunha, em outro hemispherio, a personalidade singular e forte de

Machado de Assis.

Ingenua, ignorante ou perfida, a critica esqueceu o preceito de Taine:

«Les productions de l'esprit humain, comme celles de la nature

vivante, ne s'expliquent que par leur mllieu.»

H. Taine--_Philosophie de l'Art_. vol. I, pag. 11.

O homem é um producto do meio, este inflúe poderosamente na formação de

seu espirito; mais que poderosamente--decisivamente.

A mocidade é mais docil em receber essa influencia natural e espontanea

do ambiente--do clima, das tradições, dos costumes, da religião, da arte.

É na infancia e na adolescencia, como observa Moreau, de Tours, no seu

estudo--_La Folie chez les Enfants_--que os erros e os preconceitos se

apoderam do espirito e por tal forma criam raizes que difficilmente se

arrancam.

Spencer, na Educação moral, intellectual e physica, affirma que a

influencia do meio sobre a mocidade decide do futuro inteiro.

A minha adolescencia e a minha mocidade fluiram em Portugal, nas

escolas, nas aldeias, no seio patriarchal da familia paterna.

Com os portuguezes, moços como eu, senti os pezares d'aquelle grande

povo, sorri nas alegrias d'aquella boa gente.

Á sombra fresca e generosa das suas arvores adormeci e sonhei: ao calor

daquelle sol aqueci as minhas esperanças; no gelo daquellas neves

murcharam-me as mais perfumadas illusões; ao luar opalescente daquellas

noites ouvi a musica das primeiras serenatas: ao fulgor daquellas

estrellas peneirou no meu coração a voz dolentissima dos rouxinóes; com

a poesia popular daquella alma lyrica de onze seculos aprendi a versejar

quando a minh'alma de dezeseis annos abria para o mundo as flôres das

suas aspirações incipientes; com a lithania religiosa dos orgãos ruraes

nas capellas das aldeias aprendi a amar a Deus, a crer na sua olympica

magestade, ao mesmo tempo que filtrava docemente no meu espirito a

ternura sagrada daquelle mysticismo que reza na voz das aragens, no

perfume das flôres, no marulhar das fontes, no gorgeio das aves e até no

merencorio soluçar das vagas, rolando eternamente nas areias das praias.

Dezoito annos correram para a minha vida feliz e descuidosa, naquella

terra santa que é a patria da saudade, e, quando o meu coração começou a

sentir as amarguras do exilio, quando a minha intelligencia poude

comprehender toda a magua da ausencia, foi na saudade portugueza

«o delicioso pungir de acerbo espinho,»

que eu aprendi a sentir a saudade do lar que aqui deixára, do berço que

me embalára as horas da infancia, da voz materna que me acalentára a

puericia, do céo que dera luz ao meu olhar e calor ao meu sangue,

sangue em cujas ondas correm leucocytos de sangue lusitano. «d'este

sangue abençoado», fortemente oxygenado, que me dá energia para as

luctas e ampara a tranquilidade transparente da minha consciencia,

limpida e superior, as investidas da injustiça e da critica.

E como poderia eu, por que estranho processo de cirurgia, arrancar ao

meu organismo essa metade portugueza que constitue um nobre orgulho da

minha vida?

E como poderia eu, por que estranho processo de psychologia, arrancar á

minh'alma esse conjuncto essencial de elementos que durante dezoito

annos se vincularam ao meu espirito, á minha intelligencia, á minha

vontade, á minha sensibilidade, com a mesma delicadeza, com a mesma

subtil insistencia com que a luz do sol penetra no seio da terra para

fazer germinar as sementes, com que a palavra das mães penetra na alma

dos filhos para transfigural-a, como o luar que transforma em espelho de

prata a agua dos lagos e dos rios?

* * * * *

A _Talitha_ é uma reminiscencia da mocidade passada na aldeia

traz-montana, na suave e consoladora almosphera da familia paterna;

_Talitha_ não é uma creação da minha phantasia, é a copia do modelo vivo

que eu conheci, que acompanhei na cegueira cruel e, depois, na luminosa

redempção do seu primeiro amor.

_Ruy de Ornellas_ foi meu irmão de lettras, foi meu amigo, meu

companheiro de escola, meu consocio na bohemia alegre e feliz da vida

academica, nem o nome lhe occultei.

O velho cura _João Fulgencio_ foi uma realidade soberba de caridosa

affeição evangelica: era um sacerdote de alma pura, um ancião de oitenta

invernos consumidos em espalhar o bem emquanto muitos moços de alma nova

mas precocemente corrompida ao contacto das descrenças enervadoras e

fataes, na convivencia intima da politicagem, dos bordeis e dos cafés,

vivem para fazer o mal, no gozo requintado de espalhar desventuras,

quando é mais facil, mais dôce, mais humano, mais confortante, mais

nobre, semear carinhos e affectos para fazer a colheita das sympathias e

das dedicações.

A velhinha _Joaquina_, a irmã desse honrado e justo sacerdote, é o

retrato fiel, copiado á intimidade da minha propria familia, em cujo

seio fui buscar o modelo daquella virtude christan, na figura venerada

de uma santa creatura que acalentara, ha sessenta annos, a puericia de

meu Pae.

A _Marqueza de Rilma_ não é um personagem ficticio, viveu, foi a mãe de

Talitha, não com o titulo de tão elevada condição aristocratica, mas de

nobre linhagem, victima innocente das luctas civis de 1846 que

accenderam a fogueira horrivel dos odios entre os partidos politicos.

Revelar-lhe o verdadeiro nome seria uma iniquidade, além de

absolutamente desnecessario ao desenvolvimento da acção dramatica: a

mais rudimentar educação, a mais vulgar delicadeza de sentimentos

mandavam occultar essa circumstancia, inutil á fidelidade da observação

e perfeitamente dispensavel ao estudo da psychologia do personagem.

Que representa, pois a _Talitha_?

O intimo e nobre desabrochar de uma consciencia que não esqueceu o

passado, que transformou um incidente da vida em pretexto para resgatar

uma divida de gratidão, para abrir no seio um longo e profundo sulco de

reconhecimento á terra sagrada em que dormem seus avós o somno

ultimo e perpétuo, onde ficaram os primeiros dias de existencia do

ancião que me deu o sêr, onde eu deixei as gerações irmans que me

acompanharam na peregrinação astral das illusões academicas.

A perversidade incuravel dos zoilos, porém, occultou, de proposito

deliberado, que o obscuro autor da _Talitha_, agora alvejado por haver

esquecido ingratamente a sua patria, preferindo assumptos, personagens e

céos estranhos, já estudara em um drama, em tres actos, intitulado _A

Farça_, a sociedade da sua terra e um facto que se desenrolara no meio

em que vive.

E esse drama foi levado á scena tres vezes, no Theatro S. Pedro, por uma

sociedade de amadores; mereceu a critica da imprensa local e foi

largamente estudado por dois homens conhecidos nas lettras: Alarico

Ribeiro e dr. Sebastião Leão.

Se não teve esse modesto trabalho a ventura de ser interpretado por

artistas, não pode caber ao autor a culpa de faltar entre nós uma

companhia dramatica nacional constituida de profissionaes.

A critica indigena devia ter conhecimento d'esse facto; se sabe d'elle é

perversa occultando-o propositalmente para ferir a _Talitha_; se não

sabe, é ignorante, e uma critica _soi-disant_ competente, que desconhece

o autor escolhido para a censura e os trabalhos por elle produzidos, não

póde exigir consideração nem respeito do meio litterario em que pretende

pontificar.

«Il y a même, au fond de la grande majorité des critiques, un

producteur manqué, qui se regisne à parler des oeuvres d'autrui,

quand il voit que personne ne parle des siennes.»

Zola, oeuvre cit., pag. 349.

A critica, ou ignorante, ou perfida, ou ingenua, esqueceu que

Taine, o mestre supremo, havia pontificado:

«La méthode moderne que je tâche de suivre, et qui commence à

s'introduire dans toutes les sciences morales, consiste a considerer

les oeuvres humaines, et en particulier les oeuvres d'art, comme des

faits et des produits dont il faut marquer les caractères et

chercher les causes; rien de plus. Ainsi comprise, la science ne

proscrit ni ne pardonne: elle constate et explique.»

H. Taine--oeuvre cit, vol. I, pag. 14.

Mas a critica levantou-se contra as leis proclamadas pelo proprio mestre

invocado: condemnou, não explicou.

Sem investigar as origens do drama, sem conhecer a sua significação, sem

sondar a alma que o creára, fulminou a obra e insultou o espirito que a

produzira.

Para maldizer bastaram-lhe dois elementos: o assumpto que é portuguez e

o estylo que não é brazileiro...

E a critica, sempre ingenua, ou ignorante, ou perfida, esqueceu que

Shakespeare fôra buscar á nevoenta Dinamarca a figura culminante de

Hamlet, á sorridente Italia dos laranjaes em flôr, as suaves imagens de

Romeu e Julieta, e o vulto soberbamente tragico do tremendo Othelo.

Sempre com a mesma perfidia, a critica, depois de citar os nomes de

Racine e Corneille, occultou que esses grandes espiritos da França foram

pedir á Grecia e à Roma antigas, á Hespanha medieva e aos Barbaros a

quasi totalidade dos seus heróes e das suas heroinas, deixando na

obscuridade a immensa galeria de personagens illustres da propria

patria: o genio desses dois sublimes cerebros andou a resuscitar, a

illuminar, a galvanizar no tablado do theatro francez a grandeza épica

de vultos estranhos e deixou no tumulo o vulto leonino dos

immortaes filhos da França e as imagens delicadas e formosas das

mulheres gaulezas.

De Corneille, _Medéa_ é uma simples imitação de Lucio Seneca, romano,

que a seu turno pedira inspiração ao theatro grego; _Cid_, que é uma

obra-prima, além de ser puramente hespanhola a sua acção de altissima

tragedia, foi inspirada pela obra do poeta castelhano Guilhen de Castro,

que o genio de Corneille deixou na sombra; _Horace_ é um assumpto romano

que o poeta francez pediu a Tilo-Livio; romanos são _Polyeucte_, _Cinna_

e _Pompée_, este inspirado por Lucano; _Mentor_ é o velho personagem da

legenda grega de Ithaca, já reproduzido no theatro hespanhol pelo poeta

Alarcon, ao qual Corneille foi pedir o modelo; _oedipe_ e _Sertorius_,

que são lampejos da constellação de decadencia de um genio, pertencem, a

primeira ao cyclo da heroicidade thebana que Sophocles já havia

immortalisado na scena grega, a segunda é pura historia da Iberia em que

o vulto admiravel do general romano fulge num derradeiro vestigio de

genio, ao lado de Viriato, o grandioso pastor dos Herminios e fundador

da nacionalidade lusitana.

Nem mesmo no periodo da sua decadencia, vencido na queda da _Pertharite_

e no confronto do seu _Attila_ com a _Andromaque_ de Racine, outro genio

que subia rapidamente ao zenith, nem mesmo na desventura, a alma de

Corneille vibrou pela patria, o seu talento não procurou conforto na

historia assombrosa da França: o seu coração voltou-se ainda para o

oriente, foi á Judea estudar a grandeza sublime do Rabbino da Samaria e

deixou na _Imitação de Christo_ a ultima expressão do seu genio, como o

raio extremo do sol ao entrar na sepultura do occaso.

De Racine, póde-se affirmar que escreveu as suas tragedias

inspirando-se, ora no theatro grego, ora na Biblia.

Assim o ensina um sabio mestre brazileiro:

«deixando respeitosamente de parte Eschylo e Sophocles, impossiveis

de imitar, modelou-se por Eurypedes, menos perfeito na generalidade

da concepção, porém mais tocante na pintura dos accessorios e que

maior conformidade offerecia com o seu talento.»

São d'esse genero a _Andromaque_, _Mithridates_, _Phèdre_, _Iphigénie_.

São inspiradas na Biblia, a _Thébaïde_, _Esther_ e _Athalie_.

Pertencem ao genero historico: _Alexandre_, _Berenice_, _Britannicus_. E

ainda mesmo quando Racine, resolvendo esmagar os seus zoilos, escreveu a

comedia _Les Plaideurs_, que é uma _charge_ temivel de espirito e de

genio, foi pedir ás _Vespas_ de Aristophanes, não só a inspiração, mas o

exemplo, o paradigma.

Todas essas tragedias ficaram na litteratura franceza, pertencem ao

Theatro da França que não as repudiou, que as ama, que as admira,

cultuando a memoria dos genialissimos poetas, não obstante o haverem

elles esquecido a seara magnifica da patria pelos encantos das estranhas

figuras orientaes.

Victor Hugo foi pedir a Inglaterra o vulto espantoso do dictador para

escrever a maravilha dramatica de _Cromwell_, deixando no esquecimento a

soberba grandeza de Danton! Para dar á Escola romantica a sua data

inicial no Theatro francez, o grande poeta das _Folhas de Outono_ foi

buscar á Hespanha a inspiração dos versos maravilhosos do _Hernani_ e

deixou á litteratura dramatica da França as figuras esculpturaes de

_Dona Sol_, do bandido celebre, do Rei D. Carlos e do velho aristocrata

Ruy Gomez.

Mas onde o genio do grande filho de Besançon attingiu a altitude suprema

a que não chegaram Corneille no _Cid_ nem Racine na _Phèdre_, foi

no _Torquemada_, a epopéa dramatica do fanatismo: e Torquemada foi o

inquisidor da Hespanha. Nenhum poeta da peninsula havia arrancado á

historia a figura sinistra do sacerdote; Hugo levanta-a do tumulo,

illumina-a com as fulgurações do seu genio, como se em torno da

cariatide monstruosa da Inquisição ardessem as fogueiras dos

autos-da-fé, e liga á litteratura dramamatica da França a figura

barbara, apocalyplica do carrasco da Igreja.

No emtanto, na historia da França havia a linha cruel de Luiz XI, algoz

do duque de Alençon, que podia ter inspirado o genio do poeta sublime.

Alfred de Vigny, contemporaneo de Victor Hugo, na sua primeira phase

litteraria foi quasi totalmente oriental e biblico: _Eloah_, _Symeta_,

_Dryade_, _Fille de Jephté_, _Femme adultère_, _Dolorida_, _Deluge_.

Na segunda phase produziu, em verso, o seu drama notavel Chatterton,

cujo heróe é o grande e infortunado poeta inglez que, aos 22 annos,

procurou no suicidio a solução para a vida das amarguras e tristezas que

arrastava o seu genio incomprehendido.

E Alfred de Vigny, tão admirador de André-Chénier que n'este procurou

inspiração para a sua _Dryade_, deixou no esquecimento a figura soberba

e tragica do poeta da revolução, cuja cabeça rolou no cadafalso como uma

cabeça vulgar, não obstante:

«avoir quelque chose là dedans»

E a França não engeitou a obra immortal de Alfred de Vigny, e a

_Comedie-Française_ em 1881 fazia a sua _reprise_, com alto successo,

não obstante a opinião do Zola que a reputa:

«la negation du théatre.»

A critica, severa para mim, devêra ter vergastado primeiramente a

memoria de Lord Byron que cantou na sua lyra de poeta e serviu com a sua

espada de guerreiro a obra politica da emancipação da Grecia; devêra

anathematisar Sienkiewicz, o polaco genial que estudou no romance a

reconstituição da vida romana á época da decadencia cesarista de Nero;

devêra ter condemnado á morte M.^me Judith Gauthier, a filha gentil e

talentosa de Theophile, que, deixando de parte a herança paterna,

preciosa e brilhante, foi procurar o assumpto das suas obras notaveis

nas terras e nos costumes do extremo oriente, com especialidade no Japão

e na China; devêra ter amaldiçoado e reduzido a pó o sublime poeta

contemporaneo da França--Edmond Rostand--que engastou nos tres actos

phantasticos da _Princesse-Lointaine_ um assumpto oriental e na

_Samaritaine_, a sua obra prima, a vida, a figura, a alma encantadora da

filha da Judéa, deixando no esquecimento a belleza mystica de Joanna

d'Arc; devêra ter queimado a estatua de Castellar, porque o espantoso

rival de Cicero escreveu os extraordinarios volumes dos _Recuerdos

d'Italia_, sem ter jámais escripto uma pagina de viagem pela propria

Hespanha, sua patria; devêra ter castigado os despojos funebres de

Milton, porque o grande poeta inglez, cuja inspiração hombrea com as de

Tasso e Ariosto, cuja grandeza genial é, depois de Shakespeare, a

creação mais opulenta da poesia britanica, teve o arrojo de esquecer a

sua verde Erin e foi ao pincaro do Himalaya, ao berço da tradição

adamita, procurar o assumpto do seu _Paradise Lost_.

E a critica para ser sincera, ou, pelo menos, logica, severa como foi

para o obscuro autor da desventurada _Talitha_, devêra censurar

amargamente a falta de patriotismo de Araujo Porto Alegre que, em versos

de um sabor arcadico e em metro solto, celebrou o almirante genovez

Colombo, deixando ingratamente no olvido a figura épica do riograndense

Tamandaré, lobo dos mares como o piloto de Palos, além de guerreiro como

Patterson.

E a censura devêra estender-se tambem a Gonçalves de Magalhães que, em

vez de cantar o heróe dos Guararapes ou a figura brilhante de Garibaldi

que vive na tradição da liberdade sulina, preferiu celebrar na sua lyra

a aguia de Wagram, na queda monstruosa de Waterloo, tanto mais que ao

nascer do theatro brazileiro, quando fulgia o talento artistico de João

Caetano, deixou no esquecimento a figura negra de Calabar e foi á

historia de Milão pedir o assumpto e os personagens da sua tragedia

_Olgiate_, em cuja acção se estuda a tyrannia licenciosa de Galeazzo

Visconti e o assassinato do tyranno.

E a critica, tão rispida com o autor da _Talitha_, chegando mesmo a

citar a sentença do divino Almeida Garrett para aquelles que se

abalançam ao estudo de estranhos assumptos esquecendo a patria, devêra

começar pela censura ao proprio autor do _Frei Luiz de Souza_, que

iniciou a sua vida litteraria no theatro escrevendo _Xerxes_,

_Lucrecia_, _Sophonisba_, _Atala_, _Meroppe_ e _Catão_, antes de se

lembrar que _D. Filippa de Vilhena_ fôra uma das heroinas de sua terra.

* * * * *

Mas a critica, severa com o autor da _Talitha_, não tem sinceridade nos

seus conceitos.

Um formosissimo talento de artista, alma de raro quilate, aberta ás

emoções do Bello, filho d'esta terra, Araujo Vianna, musicista de

apurado engenho, escreveu a sua brilhante partitura da _Carmella_, um

encanto, uma joia.

A acção do libreto passa-se na Italia, a musica inspira-se

claramente na escola de Massenet, sóbe á scena no Rio de Janeiro

interpretada por artistas italianos, sóbe á scena em Porto Alegre

interpretada por artistas italianos, a critica applaudiu em delirio,

extasiou-se, e ninguem viu, ninguem sentiu, que a _Carmella_ é italiana

pelo libreto e franceza pela musica; o patriotismo riograndense não se

julgou melindrado porque o intelligente _maestro_ patricio deixou na

obscuridade a nossa paisagem, o nosso clima, as nossas mulheres, os

nossos costumes, a nossa poesia, a nossa musica popular e

caracteristica, preferindo a lenda, o lyrismo, a impetuosidade, o céo, a

aventura da gloriosa e divina Italia da arte...

A critica emmudeceu.

Entretanto Araujo Vianna apenas visitou a Italia: o seu sangue é

genuinamente brazileiro, formou-se o seu espirito na propria patria, nem

a natureza nem a sociedade italiana influiram no seu desenvolvimento

intellectual e moral...

A critica tinha de tudo isso conhecimento exacto e perfeito mas...

_passons là dessus_.

«Dès lors, les impuissants et les hypocrites peuvent injurier

l'oeuvre et l'auteur, les couvrir de boue, les nier...»

Zola--_Documents litteraires_, pag. 418.

* * * * *

Sempre ingenua, ou ignorante, ou perfida, a critica censura a _Talitha_,

condemnando-a porque os seus personagens fallam uma linguagem elevada,

superior á modestia das suas condições de aldeãos.

A critica é futil e não sabe o que diz.

_Talitha_ falla nos seus dialogos a linguagem do mysticismo que durante

dezesete annos ouviu e aprendeu com o seu velho padrinho: o cura.

A sua linguagem é simples, ingenua e lyrica.

Mas simples, ingenua e lyrica é a linguagem do povo portuguez, desde a

sua infancia até hoje.

As imagens que o autor lhe põe nos labios são as mesmas que borbulham na

phantasia do povo lusitano, ha mais de nove seculos de nacionalidade,

affirmada num _folke-lore_ riquissimo e inexgottavel, desde Guesto

Ansures até Antonio Fogaça.

Pois a uma creança de dezoito annos, alma pura e boa, natureza casta,

intelligente e fina, delicada e vibratil, torturada pela desventura,

póde ser negada a phantasia creadora, poetica e imaginosa que

caracterisa o povo em cujo meio ella vive, principalmente na aldeia, na

atmosphera idylica e bucolica, simplesmente porque a cataracta a cegou

aos oito annos?

Mas Antonio Feliciano de Castilho foi o bardo cégo que escreveu a _Noite

do Castello_, as _Cartas de Echo a Narciso_, os _Ciumes do Bardo_, a

_Primavera_, o _Outono_ e cégo é o anonymato popular que produz ha oito

seculos esse rosario encantador e sublime das trovas e cantigas que

andam na tradição oral, na garganta de todas as mulheres, na voz de

todos os cantores, nos labios de todos os estudantes, desde o

_Cancioneiro de Garcia de Rezende_ e de _El-Rei D. Diniz_ até o

_Romanceiro_ de Garrett e os _Cancioneiros_ de Theophilo Braga e

Gualdino de Campos.

São da poesia popular, são do povo em cujo seio _Talitha_ nasceu,

cresceu, amou, sonhou e foi noiva, as formosas quadras que correm de

labio em labio, sem autor conhecido e que Junqueiro, Eugenio de Castro,

Antonio Nobre e Correia de Oliveira gostosamente assignariam.

I Nessas tuas mãos pequenas

como não vi em ninguem

não sei como as minhas penas

couberam nellas tão bem.

II Perdes mais em me perder

do que eu perco em te deixar:

perco quem sabe offender,

tu perdes quem sabe amar.

III Dizes que deixo saudades,

não me posso conformar:

pois se eu as levo commigo,

como t'as posso deixar?

IV Acostumei tanto os meus olhos

a namorarem os teus

que de tanto confundil-os

nem já sei quaes são os meus.

V Se os meus olhos te incommodam

quando estão na tua frente

hei de arrancal-os um dia

para te amar cegamente.

VI Se eu soubesse que voando

alcançava o que desejo

mandava fazer as azas

que as penas são de sobejo.

VII Eu jurei que não tornava

a dar adeus a ninguem:

quem parte saudades leva

quem fica saudades tem.

VIII Essas tuas sobrancelhas

como nunca vi mais bellas

são laços de fita preta

unindo duas estrellas.

IX Não sei que quer a desgraça

que atraz de mim corre tanto,

hei de parar e mostrar-lhe

que de vêl-a não me espanto.

X Vae alta a noite, vae alta,

mais alto vae o luar,

mais alta vae a ventura

que Deus tem para me dar.

XI É tua bocca ideal

um palacio com jardim:

as portas são de coral

os degráos são de marfim.

Talitha: evangelho em tres actos · 第 4 / 7 段