sósinha, nos degráos que sóbem ao altar,
á espera que viesse, a meia noite, a missa.
Rezando ali, a sós, com fervor de noviça,
lembrei-me da promessa e as lagrimas rolaram,
subindo-me do seio aos olhos que as choraram.
Eu sentia uma dôr immensa, por fugir
ao voto que fizera e, em vão, quiz resistir,
á minh'alma affluia um extranho remorso
e embora eu despendesse o mais sincero esforço,
para conter o pranto, o coração vergava
e, numa agitação convulsa, palpitava
acabrunhado e triste...
_Ouve-se o repicar dos sinos_
Joaquina, _interrompendo_
Ai! que acabou a festa
e a ceia por fazer, mas que cabeça é esta!...
_Sae e entra constantemente, nos arranjos da casa_
Ruy
Mas não te lembras já que, em nome do Senhor,
o Cura abençôou o nosso casto amor?
Não te lembras tambem da lucida visão
que te trouxe do céo a estrella do perdão?
Talitha
De tudo me lembrei; não sei que força extranha
pesava sobre mim, como immensa montanha,
e não deixava erguer o meu olhar medroso
para encarar de frente o vulto magestoso
da Virgem Mãe de Deus! Mas quando o Cura entrou
parece que a minha alma
_torna o sino a repicar_
alegre despertou...
Senti uma esperança illuminar-me o seio
e dissipar-se então esse cruel receio!
Rezei muito, rezei com tanta commoção,
pedi com tanto ardor, com tanta devoção,
que a minh'alma subiu, tão leve e tão submissa,
aos pés da Mãe de Deus, durante aquella missa,
como se fôsse presa a hostia consagrada
que o Cura levantava á cruz abençoada...
Com ella o meu olhar de supplica subiu.
E fitando, sem medo, a face alabastrina
da candida judia, eu vi que Ella sorriu
com tão dôce expressão de placidez divina
que me banhou de luz amortecida e calma
a minha santa crença e fez vibrar minh'alma!
Senti que era o perdão que vinha, n'um sorriso,
abrir á minha vida um novo paraiso...
Ergui-me docemente, approximei-me d'Ella
e, beijando-lhe a mão que sobre o mundo vela,
ouvi, como um soluço, a sua voz tão pura,
dizendo-me em segredo, em intima ternura:
Que lindos olhos, Talitha,
os olhos que o Ruy te deu:
tem uma luz infinita,
parecem feitos no céo...
_Joaquina, que tem parado o trabalho, attrahida pela narrarão de
Talitha, enlevada, abraça-a, lacrimosa, beija-a..._
Ruy, _emquanto Joaquina abraça Talitha_
Mas tu ouviste bem, tens a certeza plena?
Talitha, _desprendendo-se de Joaquina_
Ouvi perfeitamente; a voz era serena,
tão serena e subtil que a mim se affigurava
ser o proprio silencio assim que me fallava.
_Ouve-se o repicar dos sinos e começa-se a ouvir as primeiras vozes dos
córos distantes._
Estremeci de alegre e acreditei então
que surgira, afinal, o dia do perdão;
_Approximam-se as vozes_
desci do altar, corri, deixei a missa e vim,
como se o coração cantasse dentro de mim,
para dizer-te, Ruy, que a minha vida é tua.
_Corre para elle, mas detem-se e, olhando para Joaquina, baixa os olhos
timida, brincando com o avental: pausa e silencio._
Joaquina, _percebendo_
Filhos, não serei eu quem assim vos destrua
as santas illusões...
_ouve-se o côro muito perto_
Se Deus as abençôa!...
_Sae_
Talitha, _vendo-a sahir_
Ruy!
_Corre para elle_
Ruy, _recebendo-a nos braços_
Ah! minha Talitha!
Talitha, _abraçada, beija-o_
Oh! meu amor!
Ruy, _beijando-a_
Perdôa!
_As vózes elevam-se distinctamente com a musica das violas e gaitas de
fóles; pausa, emquanto os dois, enleiados, nada ouvem._
SCENA IV
Os mesmos, Padre, raparigas e rapazes
_O Padre, entrando com as raparigas e rapazes, surprehende ainda os dois
que se beijam e Joaquina que está estupefacta, junto á porta._
Padre, _fingindo que não vê e fallando alto_
Raparigas, entrai, a noite é de alegria...
Talitha, _surprehendidos ambos, desprende-se de Ruy e diz_
Tem razão, meu padrinho, nossa phantasia
deve expandir-se agora...
Padre, _com caricia, baixo a Talitha_
Assim, aos beijos, não...
Talitha
Quem poderá conter o nosso coração?
_Ás raparigas_
Raparigas, cantae! A céga já tem vista;
que a Virgem Mãe de Deus a todas vós assista;
a freira, que devia entrar para o convento,
teve hoje a redempção do seu cruel tormento!
Um rapaz
Viva a céguinha!
O grupo
Viva!
Outro rapaz
E mais o Padre Cura!
Viva!
Uma rapariga
Viva quem fez este milagre!
O grupo
Viva!
Um rapaz
E a mãe Joaquina, então, que é mesmo uma ternura?!
Todos
Viva!
Joaquina
Muito obrigada!
Ruy
Olha como é altiva!
Padre
Raparigas, dançae!
Ruy, _a uma rapariga_
Pois cante a cotovia,
e vibre essa garganta até romper o dia...
_As raparigas formam roda, os rapazes afinam as violas e o grupo, com
Talitha e Ruy á frente, dançam a Ciranda. O Cura, sentado em uma
cadeira, observa alegremente a scena._
Uma rapariga
Quem deu espinho ás roseiras
não teve muita razão,
antes désse ao coração,
como deu ás Tarangeiras.
Deus que creou tantas flôres
fez as estrellas aos centos:
não dorme quem tem amores,
que os amores são tormentos.
Segunda rapariga
Toda tu pareces feita
com a cêra das abelhas,
quando alguem d'aqui t'espreita
ficam-te as faces vermelhas.
Primeira rapariga
Quem ao pé do Sol caminha
anda sempre com calor,
Quem á lua se avizinha
póde até crear bolôr.
As tuas tranças são pretas,
pareces de cêra mol,
não te abeires muito ao sol,
olha lá não te derretas...
_O Cura, satisfeito e alegre, ri a cada descante das raparigas e
acompanha-as com um olhar de caricia. Enthusiasmado, levanta-se e
encaminha-se para o grupo:_
Padre
Tambem eu quero entrar na dança, raparigas,
e ser como a papoila em meio das espigas!
Primeira rapariga
Viva, viva o Sr. Cura,
que é o paesinho desta aldeia,
que tem a alminha mais pura,
mais alva que a lua cheia.
_Neste momento ouve-se bater á porta violentamente, ao mesmo tempo que
cessam os guizos denunciativos de um carro que parou á porta.
Quando ouve bater, o Padre Cura soffre uma visivel transformação de
physionomia que todos os circumstantes percebem._
Padre
Um carro, Santo Deus!
_Cessa toda a alegria e acercam-se do Padre que, repentinamente, põe as
mãos em oração._
Ruy, _acudindo_
Senhor Cura, que tem?
_Ouve-se bater de novo_
Padre, _pensativo_
Ha tantos annos já!
_Batem novamente. O Cura, sem dar uma palavra, benze-se, vae á porta e
abre-a. Entra uma senhora de lucto, acompanhada de um velho creado, com
malas e agazalhos. Todos emmudecem e olham-n'a curiosamente._
SCENA V
Os mesmos, Marqueza e Escudeiro
Padre
Perdão! Procura alguem?
Marqueza
O Cura João Fulgencio! É Vossa Senhoria?
Padre
Sou eu mesmo, Senhora!
Marqueza
Inda bem, obrigada!
Eu já tinha certeza, o céo me conduzia.
Não quero perturbar a alegria da noite:
Viajante, sósinha, e quasi desviada
pela neve que tomba, eu peço onde me acoite.
Talitha
Sois bem vinda, Senhora; aqui sob este tecto
encontrareis conchego e o mais sereno affecto.
Marqueza, _olhando-a_
Obrigada, creança!
Talitha
A Noite é de Natal
e o nosso coração não sabe fazer mal...
Padre
Deveis estar cançada, o inverno vae tão duro!
Marqueza
Pensei que não chegava á sua residencia.
A nevada é cruel, o caminho coberto,
o frio é de cortar, o céo está escuro,
nem um astro se vê, perde-se a consciencia
da nossa propria vida, a estrada é um deserto...
Nem sei como cheguei...
Talitha
Jesus a protegeu...
Marqueza
Eu creio bem que sim e dou graças ao céo!
Padre
E não quer repousar?
Marqueza
Antes, porém, quizera,
Senhor Cura, dizer o que me traz aqui...
Padre
Assim seja, Senhora, e ao bom Jesus prouvera
que eu pudesse remir a dôr que presenti...
_a Talitha e Ruy, fingindo alegria_
Ide com Deus, cantae!
_O grupo retira-se em silencio, curiosamente_
Talitha, _a Ruy_
Quem é? Quem te parece?
Ruy
Não sei, mas esta voz a minh'alma conhece.
_sahem_
SCENA VI
Marqueza e Padre
Padre
Senhora, estamos sós! Vossa Excellencia ordene!
Marqueza
Ouça-me, Senhor Cura! ouça e não me condemne!
Padre
E condemnar por que? Se tem algum peccado,
o coração de Deus não estará fechado!
Marqueza
Pensei chegar mais cedo: hontem, pelo sol posto,
estaria acabado este immenso desgosto
que me tortura a vida; a asperrima inverneira
embaraçou-me o passo e augmentou-me a canceira.
Padre
E vem de muito longe?
Marqueza
Ah! sim, de bem distante,
anciosa, esperando este feliz instante.
Ha muito tempo, um dia, ao romper da alvorada,
alguem que veiu aqui lhe trouxe uma engeitada...
Padre
É verdade, Senhora!
Marqueza
Uma carta pedia
ao Cura desta aldêa a esmola caridosa
de guardar a creança, até que a mãe chorosa,
depois, a procurasse. Afinal esse dia
felizmente chegou e a mãe que a dôr humilha,
Senhor Cura, a seus pés, vem procurar a filha...
Padre
E como poderei saber se esta senhora
que se confessa mãe, embora peccadora,
é realmente a mãe da creança engeitada
ha tantos annos já, naquella madrugada
tristissima d'inverno?
Marqueza
A carta igual áquella
que o Senhor Cura achou no berço, junto della...
Padre, _tomando a carta_
Mas falta alguma cousa...
Marqueza
A pérola? está aqui...
_Dá-lhe a pérola_
Pois desde aquella noite eu jámais a perdi
de vista e a conservei com cuidadoso afan,
como alguem que resguarda um rico talisman.
Padre
Seija feita de Deus a sagrada vontade,
embora se me parta o coração de dôr...
Marqueza
Essa dôr, Senhor Cura, ha de fugir vencida!
Eu não quero quebrar tão dôce piedade
que fez de minha filha o seu risonho amor,
nem desejo apagar a luz da sua vida
num soluço de magua.
Padre
Então não vem buscal-a?
Marqueza
Não, não, meu bom amigo, eu venho acompanhal-a.
A minha desventura, emfim, se condoeu
dest'alma cruciada e triste que viveu
reclusa na saudade, apenas na esperança
de vêr um dia ainda essa gentil creança...
Se nunca procurei saber dessa existencia
não é que se apagasse em minha consciencia,
como um sonho infeliz, a lembrança dorida
dessa flôr do peccado em anjo convertida.
Como eu pensava nella, ah! sabe-o Deus sómente!
Que lagrimas chorei por conserval-a ausente,
e quanto passei eu por causa desta filha
dil-o, com eloquencia, a dôr que me polvilha
a cabeça de cans. Amal-a com ardor
e ter de estrangular todo esse immenso amor!...
Vêl-a crescer ao longe, e calcular-lhe o encanto,
mas sem poder beijal-a, adivinhar que o pranto
as faces lhe banhava e não poder sorvel-o,
que tormento cruel, que duro pesadello...
Soffri, meu bom amigo, e soffri a sorrir,
que até para soffrer é preciso mentir!
Não me pergunte, Padre, a origem desse amor
ninguem perguntaria ao seio de uma flôr
como foi que nasceu o aroma que elle exhala.
Bastará que lhe diga: a dôr que me avassalla
é a amiga fiel que me segue ha vinte annos,
que nunca me deixou; que os tristes desenganos
dessas horas sem luz foram os companheiros
da minha mocidade e os filhos feiticeiros
que encheram o meu lar de pranto e de amargores,
como um dia sem sol, como um jardim sem flôres.
Um dia, Sr. Cura, em confissão, no templo,
diante do seu olhar que eu agora contemplo
humilde e agradecida, hei de contar-lhe a historia
da minha desventura e desta dôr ingloria,
mas não exija, Padre, agora, que eu recorde
o passado infeliz, que o coração acorde
do somno em que repousa, e desvende o segredo
que a vida me cobriu de sombras e de medo.
Padre
Nem quero desvendar, Senhora, essas torturas;
mas a minha velhice acostumou-se a vêr
em tão meiga creança uma filha extremosa
junto de mim crescer, florir como uma rosa
ao pé dum castanheiro, e fazer-se mulher.
Aos dez annos cegou...
Marqueza, _interrompendo, afflicta_
É céga a minha filha?
Padre
Foi: ha dias, porém, a luz de novo brilha
no seu formoso olhar. Emquanto a escuridão
durou, eu sempre a trouxe unida ao coração,
apoiada ao meu braço.
Marqueza
E quem foi que a curou?
Padre
Alguem que a soube amar. Um dia despontou
na sua alma de flôr um novo sentimento
e a pobre céga amou e foi tambem amada.
Queria dedicar-se á vida enclausurada
na casta região da cela de um convento,
mas, sonhadora e boa, o amor venceu em breve
o vago mysticismo e a Virgem que a fadou,
condoendo-se della, o seu amor salvou...
De modo que, feliz, dentro de pouco, deve
desposar um rapaz, formoso coração...
Marqueza, _interrompendo_
Ruy de Ornellas, talvez?
Padre, _admirado_
Mas como adivinhou?
Marqueza, _depois de uma pausa_
Não importa saber; prosiga, Senhor Cura,
eu contarei mais tarde essa alegre aventura,
tão simples e feliz.
Padre, _proseguindo_
A mim, pobre ancião,
uma alegria basta: a de morrer contente
por haver feito bem á candida innocente.
Do mundo nada espero, esta gentil creança
era a minha formosa e unica esperança:
arrancam-m'a daqui e eu sinto que a corola
dessa flôr, que me dava a encantadora esmola
do seu perfume agreste, arrasta a minha vida
á derradeira estancia, á ultima guarida...
Marqueza
E quem lhe disse, Padre, as minhas intenções?
Padre
Ninguem. Mas adivinho. Eu sei que os corações
carinhosos das mães não querem a partilha
das caricias, do amor, dos beijos de uma filha.
Talitha vae partir; que o Senhor a conduza
e que uma boa estrella ao seu porvir reluza.
Marqueza
Attenda, Sr. Cura! A mãe que ora lhe falla
tambem sabe que a dôr o coração estala
e não lhe vem roubar a luz dessa velhice
tão cheia de bondade e simples de meiguice.
A dôr me fatigou e eu quero repousar
de tantas afflicções, e venho procurar,
nesta aldeia tranquilla e sem perversidade,
a paz que não frui na minha mocidade.
Sou rica, felizmente, e quero ter um nicho
onde acaba a existencia: é, talvez, um capricho...
Mas quero aqui viver ao lado desta filha
que a sua alma de santo, alvissima, perfilha
e nunca mais sahir deste sereno azylo
tão suave e tão bom, tão feliz e tranquillo,
onde mora a virtude. A filha que eu procuro
tambem é muito rica e tem porvir seguro.
Se a desventura um dia a separou de mim
a minha vida agora ha de chegar ao fim,
aqui onde ella teve um lar sagrado e nobre.
E o dôce olhar de Deus que o mundo inteiro cobre,
abrindo sobre nós o pallio da ventura,
ha de envolver na sombra o coração do Cura
que fez de minha filha a filha da sua alma,
extremosa e leal. E Deus que tudo acalma
ha de extinguir a dôr de todo esse passado
que eu vejo, felizmente, agora terminado...
Padre, _alegremente_
Obrigado, Senhora. O coração que sente
a alheia desventura e lança boamente
o seu conforto amigo a quem já nada espera,
tem, nas bençãos do céo, eterna primavera...
E agora que sabeis que a vossa filha é viva,
attendei-me, Senhora, á santa rogativa:
Talitha esteve céga. O homem que salvou
o seu formoso olhar o amor lhe conquistou.
Ella, uma encantadora e formosa creança,
concentra nesse amor toda a sua esperança:
tiral-a será dar-lhe o mais cruel supplicio.
Marqueza
Não preciso pedir tão duro sacrificio
ao seu bom coração. Eu quero-a vêr feliz,
se quem serviu de Pae o consentiu e quiz.
Procurava uma filha, encontrei um casal:
para mim, que sou mãe, jámais este Natal
feliz esquecerei. E agora que conhece
a Mãe da sua filha, attenda á minha prece
e mostre-me Talitha, anceio por beijal-a.
Padre
Louvado seja Deus, Senhora, eu vou chamal-a.
_Entra e volta com Talitha pela mão_
SCENA VII
Os mesmos e Talitha
Padre, _entrando, a Talitha_
Recordas que uma vez, em lagrimas banhada,
disseste que a tu'alma andava amargurada
a pensar que jámais a tua mãe verias?
Recordas a palavra alegre, de conforto,
que te disse a sorrir quando tu me pedias
a luz do teu olhar que tu suppunhas morto?
Talitha
Nem eu posso esquecer.
Padre
Pois, filha, a Providencia
abriu á tua vida a sua immensa graça.
Talitha, _curiosa_
E então?
Padre
Então responde: em tua consciencia
que mais desejas tu que o Santo Deus te faça?
Talitha
Que eu possa vêr um dia a minha Mãe querida!
Marqueza, _correndo para ella e abraçando-a_
Talitha, minha filha! Amor da minha vida!
Talitha, _surprehendida_
Minha Mãe! Minha Mãe!
_Abraçam-se em pranto_
Padre
Obrigado, Senhor;
abençoado seja este Natal de amor!
Marqueza, _desprendendo-se de Talitha_
Mas como eu sou feliz! Como tu és bonita!
Que lindo nome o teu! Quem te chamou Talitha?
_Beija, abraça-a, encara-a sorrindo e soluçando. Senta-a nos joelhos_
Quero ver bem de perto o teu formoso olhar.
_Fita-lhe os olhos_
Talitha
E já sabes, mamã, que de tanto chorar
com saudades de ti, um dia fiquei céga?
Marqueza
Com saudades de mim?
Talitha, _agitada_
Não crês, mamã?
Marqueza
Socega;
eu acredito em tudo, a tua alma não mente...
Talitha
Mamã, como eu te quero!
_Abraça-a_
Olha-me bem de frente!
Tanto tempo sem vêr a imagem dos meus sonhos,
agora que te encontro, eu desejo risonhos
os teus olhos de Mãe que nunca vi mais bellos;
quero beijar, sorrindo, os teus alvos cabellos
e sentir palpitar o seio teu, amigo,
e o meu seio de filha, a palpitar comtigo.
_O Cura, que se tem enlevado a contemplar a scena, sae pé ante-pé,
olhando o grupo e chama para dentro. Entram Joaquina e Ruy._
SCENA VIII
Os mesmos, Joaquina e Ruy
Marqueza
Dize-me, filha, e tu sonhavas muitas vezes
com tua mãe?
Talitha
Sonhava!
Marqueza
E o sonho que dizia?
Talitha
Tanta coisa, mamã! Quando os nossos revezes
nos vinham perturbar, desde o romper do dia
até o anoitecer, pensava em ti, mamã,
e, sem dormir, sonhava até pela manhã.
Marqueza
Mas revezes de quem?
Talitha
Desta immensa tristeza
que vinha atormentar a vida de pobreza
_baixo, quasi em segredo_
do nosso Padre Cura...
Marqueza
E o Padre Cura é pobre?
Talitha
Muito, muito, mamã, mas tão bom e tão nobre
que nunca pude ouvir um lamento, sequer!
Marqueza
D'hoje em diante, porém, não faltará mais nada:
será de todos nós aquillo que eu tiver.
Tu és rica, Talitha, e d'alma bem formada,
por certo acudirás de todo o coração
por que não faltem mais nem ventura, nem pão
a quem te fez gentil, tão boa e generosa...
Talitha
Muito rica, mamã?
Marqueza
Que te serve saber?
Talitha
É que o velho sargento acaba de morrer
deixando na miseria immensa e dolorosa
os netinhos com fome. O velho era céguinho!
muita vez o encontrei mendigando, sósinho,
para matar a fome e, se eu hoje sou rica,
só este pensamento a dôr me purifica
e, se tu dás licença, o Ruy vae procural-os.
Marqueza
Pois sim, minha Talitha, irás tambem buscal-os;
que sejam teus irmãos já que assim o quizeste.
Mas dize, o Ruy quem é? Inda não m'o disseste...
_Durante este dialogo as duas não poderão vêr as demais pessoas,
enlevadas como estão. Ha sorrisos em todos._
Talitha, _perturbada_
O Ruy?...
_Baixa os olhos, sorri e cala-se_
Marqueza
Sim, sim o Ruy...
Talitha, _enleada_
O Ruy é um doutor...
Quando eu estive céga... Eu era tão céguinha!...
Elle tratou de mim e fez a operação...
Marqueza
Só?!
Talitha
O resto não conto...
Marqueza
E porquê?
Talitha
Adivinha!
Marqueza
E não furtou tambem o teu primeiro amor?
Talitha
Furtou!... E que mal fez? Deu luz ao meu olhar,
eu dei-lhe o coração...
Marqueza
Mas depois de casar
deixarás tu sósinho o velho Padre Cura?
Talitha
Nem eu quero pensar em tamanha loucura.
Viveremos aqui juntinhos da Joaquina
que sempre me guiou, do tempo de menina.
Marqueza
Pois vae dizer ao Ruy que tua mãe quer vêl-o.
Talitha, _soltando-se do pescoço da mãe, sorrindo alegremente._
Tu vais ver que rapaz... intelligente e bello...
Ruy! Ruy!
_Voltando-se encontra Ruy, Joaquina e Padre. Fica embaraçada e cobre o
rosto com as mãos._
Meu Deus, que susto!
Padre
Ouvimos tudo, tudo!...
Marqueza, _voltando-se_
Desculpe, Senhor Cura... em favor della acudo...
A culpada fui eu...
Ruy, _surprehendido_
Ah! Senhora Marqueza!
Marqueza
Sim. Ruy, eu mesma, aqui. Nem me causa extranheza
o vêl-o nesta casa. Eu fui quem o mandou
em busca deste céo tão puro que o salvou.
Previ toda esta scena e quando aconselhei
que viesse até cá, senti que palpitava
o meu seio de mãe. Já vê que adivinhei
e o meu presentimento o bem me segredava...
Talitha, _admirada_
Mamã, tu és Marqueza?
_Silencio prolongado_
Marqueza
A Marqueza morreu...
Agora sou a mãe da mimosa Talitha
que vem pedir perdão a quem assim soffreu
dessa magua sem par, dessa dôr infinita,
que tanto fez chorar a tua mocidade,
as lagrimas febris e negras da saudade.
Agora sou a Mãe que um dia te engeitou
e que uma vida inteira a dôr acabrunhou,
que vem pedir perdão ao velho Padre-Cura
do quanto padeceu para te dar ventura,
que vem agradecer á santa da Joaquina,
os beijos que te deu quando eras tamanina,
que vem pedir a Ruy o supremo favor
de dar á sua filha o seu primeiro amor...
Ruy
Marqueza, o meu amor recebe a grande esmola
do casto coração da candida Talitha,
como um beijo de luz que conforta e consola
a dôr da minha vida. O peito me palpita
na suprema alegria e eu penso na alvorada
desta noite feliz, de lucido natal,
bemdizendo, Senhora, a dôce madrugada
que vae surgir em breve.
Talitha
Ao despontar o dia
vamos todos buscar os netos do sargento...
Tu concordas, mamã?
_Ao Cura_
Acha que faço mal?
Padre
Para ti, minha filha, a madrugada é fria.
O Ruy irá commigo e apenas num momento
as creanças virão: descança, pequenita.
Marqueza, _a Joaquina_
Repare bem, Joaquina: este casal catita
como envelhece a gente!
Joaquina
E Deus Nosso Senhor
lhe dê por toda a vida o seu sagrado amor!
Padre
Já toca á missa d'Alva...
Ruy, _a Talitha_
Estrella d'Alva, pura,
immaculada estrella, o céo desta ventura
estende sobre nós a cupula sagrada
e eu vejo nesse olhar a luz ambicionada
que faz de ti, creança, a dôce Conceição
do meu culto feliz, purissimo e christão.
_A Joaquina_
Um dia, bem me lembro, a sua mão amiga
mais trémula e subtil do que uma branca estriga
ás aragens d'outomno, abrindo-me o sacrario
da sua alma de santa, entregou-me um rosario.
Recorda-se? Pois bem! nas horas de afflicção
esse rosario amigo encheu-me o coração
duma frescura immensa e assim se dissipou
essa nuvem cruel que sobre nós passou...
Quero beijar a mão da santa que me deu
nesse rosario astral uma visão do céo:
a flôr que se banhou na sua fé divina,
bondosa creatura, alvissima Joaquina!
_Beija-lhe a mão. Joaquina, em silencio, enxuga os olhos com o avental._
Padre
O dia vae surgir, o sino da capella
convida-nos á missa. Ali pela janella
já vem a madrugada entrando alegremente
num baptismo de luz que brota do nascente.
Talitha
Meu Deus, como é feliz a minha mocidade!
Rasgou a mão de Ruy a dôce claridade
ao meu perdido olhar, depois a mãe de Deus
envia-me o perdão do fundo azul dos céos:
e, dando luz á céga e vida á condemnada,
entrega-me, a sorrir, no fim da madrugada
do Natal de Jesus, a minha Mãe distante.
Meu Deus, como é feliz neste sereno instante
_a Ruy_
a nossa mocidade ao pé desta velhice
tão boa e tão leal! Antes que alguem cobice
esta aurora de amor que ao céo nos avizinha
eu vou rezar por nós uma Salvé-Rainha:
_Ouve-se o repicar dos sinos. Talitha approxima-se do oratorio;
ajoelham-se todos, excepto o Padre que fica de pé._
Talitha
Salvé, Rainha Mãe, céu de misericordia,
vida e doçura, amor, luz da nossa esperança,
lançae por sobre nós o manto da concordia.
Salvé, Rainha, Mãe serena de bonança!
A vós, os filhos d'Eva, em lagrimas, bradamos,
por vós que estaes no céo, gemendo, suspiramos,
neste valle de magua e dôr. Eia, Senhora!
Sêde a divina Mãe, a dôce protectora
da nossa vida inteira e para nós volvei
esse olhar piedoso e tão cheio de luz!
Sobre o nosso destino a vossa mão pendei,
rasgae a nossa dôr, mostrae-nos a Jesus,
fructo do vosso ventre, ó sagrada e clemente,
ó Virgem dôce e casta, ó candida innocente!
ó Santa Mãe de Deus, ouvi a nossa voz
tão simples e fiel, rogue no céu por nós,
por que sejamos bons e dignos da promessa
do moreno Jesus. Que a nossa vida aqueça
o materno calor da estrella de Bethlem,
á luz do vosso olhar, por todo o sempre.
Padre
Amen!
CAE O PANNO
RESPOSTA Á CRITICA INDIGENA
_Toute l'operation critique se borne ainsi a constater un fait,
depuis la cause qui l'a produit jusqu'aux conséquences qu'il
produira. Sans doute, un pareil travail contient une leçon, et à se
voir dans un miroir aussi fidèle, un écrivain peut refléchir,
connâitre ses infirmités, tâcher de les marquer le plus possible.
Seulement, la leçon vient de haut, sort de la verité même du
portrait el n'est plus l'enseignement gourmê d'un professeur. La
critique expose, elle n'enseigne pas. Elle a compris elle-même que
son influence sur le niveau litteraire était à peu prés nulle, car
les tempéraments restent indociles; et elle a préféré jouer le beau
rôle d'ecrire l'histoire litteraire contemporaine, expliquée et
commentée._
E. Zola. _Documents litteraires_, pag. 334.
_Est critique, à notre jugement, celui qui fait effort pour
comprendre et qui juge avec sympathie._
Nolet. _La vie et l'oeuvre de Chateaubriand_, pag. 673.
_...si nous possedons quelques talents, nous nous empressons de les
déprécier. Après les avoir élevés au pinacle, nous les roulons dans
la bosse; puis nous y revennons, puis nous les méprisons de nouveau.
Nous ne pouvons souffrir de reputation; il nous semble qu'on nous
vole ce qu'on admire: nos vanités prennent ombrage du moindre
succès, et s'il dure un peu, elles sont au supplice._