Eu não duvido, eu peço, e vae na minha prece

quanto minh'alma tem de puro sentimento...

Talitha, _curiosa_

Na sua prece?

Ruy

Sim, tão cheia de fervor

como a casta oração que a sua crença augusta

soluça de manhã, mais triste que um lamento,

que vae, azul em fóra, ao throno do Senhor,

no murmurio subtil dessa bocca venusta.

Talitha

Eu nunca olvidarei a dulcida ventura

daquella noite densa, atormentada, escura,

em cujo manto negro a sua mão bondosa

rasgou a dôce aurora alegre e luminosa...

O caridoso amor, que os seus labios deixaram

gravado nesta mão que tanta vez beijaram,

foi um sonho feliz numa noite polar,

sonho de primavera em noite sem luar:

nunca mais sahirá d'entre as minhas lembranças.

Como um beijo de mãe na face das creanças,

a primeira affeição nunca se desvanece,

é como a flôr da lenda: a todo o instante cresce!

Se eu a esquecesse, Ruy, como seria ingrata!

Ruy

Talitha, minha vida, a densa cataracta

não poude escurecer a lucidez suprema

da sua alma christã, que vale um diadema

de rainha e de santa, a cujos pés se inclina

a minha alma que vae sobre a esteira argentina

que o seu vestido traça ao longo da jornada,

como no azul do mar as velas da jangada...

Talitha

E se a vela, batida ao vento da desdita,

levar á sombra eterna essa infeliz Talitha

que a sua mão salvou da mesma sombra eterna?

Ruy

Irei onde ella vá. Se a aragem fôr galerna

e o nosso amor levar a gondola encantada,

sobre o dorso da vaga em branca espumarada,

eu seguirei, sonhando, á prôa, na epopêa

que o seu divino olhar de candida sereia

ha de inspirar, sorrindo, a quem o illuminou.

Se o vento arremessar a vela que enfunou

á rude penedia e sossobrar a barca,

hei de salvar, então, a pequenina arca,

onde vive encerrada a pomba da alliança,

que faz do nosso amor uma alegre esperança!

Talitha

Apenas esperança, e nada mais! A vida

é um sonho que passa e foge; perseguida,

occulta-se a esperança á sombra de um asylo,

tão occulto tambem que, para descobril-o,

desfaz-se muita vez ou rasga-se em pedaços

a nossa fé mais pura e a crença, em estilhaços,

desapparece e vae, por esse mundo fóra,

como nuvens no céo ao despontar da aurora...

Ruy

Porque razão, Talitha, os nossos pobres sonhos

não poderão florir, alegres e risonhos,

á plena luz do Sol?

Talitha

Sonhos são illusões

que a madrugada esbate em limpidos clarões,

e nada mais... Talvez as suas, sim!... As minhas

irão fazer o ninho á sombra... As andorinhas

tem que mudar de clima ao começar o inverno,

levando para longe o seu amor materno...

A minha acostumou-se á sombra da cegueira:

se na sombra passou quasi uma vida inteira!

Na sombra adormeceu, na sombra soluçou

e na sombra sorriu... A sua mão rasgou

este sulco de luz no meu perdido olhar,

e a triste, acostumada á sombra tumular,

fugiu espavorida ao lucido lampejo

e tão distante foi, que nem sequer a vejo...

Ruy

É o receio infantil que vem da escuridão!

A esperança, Talitha, ainda um só instante

não sahiu do calor que faz do coração

o ninho aconchegado, o berço palpitante

e o sacrario fiel do nosso casto amor!

Na sombra nasce, e cresce, e vive tanta flôr

sem perder o perfume!... E a esperança, Talitha,

é o perfume do amor, a essencia que dormita

serena e só desperta ao carinhoso afago

dum beijo a murmurar em sonho dôce e vago...

Talitha

Mas antes que o murmurio a despertasse, a luz

do sol lhe recordou que aos olhos de Jesus

e aos pés de sua Mãe ella havia ajoelhado

no fervor da oração, em dia torturado,

prendendo a vida inteira ao brilho de um olhar.

Entre nós dois agora eleva-se um altar,

e eu vejo-me prostrada e envolta no burel,

sorrindo para o céo, por ter sido fiel

á promessa que fiz...

Ruy

E o nosso amor, Talitha,

não foi uma promessa?

Talitha

Ah! foi, mas a desdita

lançou-lhe a maldição no dia em que nasceu

e o nosso puro amor agora feneceu.

Ruy

E a tua mão divina, angelico florão

de algum ciborio astral, a tua mão de rosa

e jaspe é que me vem ferir esta affeição

que banhava em frescor a vida bonançosa

deste meu sonho azul!... Mas quando, em nostalgia,

á sombra do mosteiro, a tua phantasia

volver para o passado esse formoso olhar

tão cheio de candura e te fizer sonhar;

quando a espiral do incenso á curva do docel

subir da tua mão occulta no burel,

como a dôce expressão duma saudade immensa;

quando á noite o luar, vencendo a treva densa,

entrar na tua cella e fôr beijar-te a face,

como se por ventura envolta nelle entrasse

a minh'alma saudosa a visitar a tua:

quando esse olhar divino, em cuja luz fluctua

a pureza vestal da tua castidade,

sorrindo, remontar á dôce claridade

das estrellas no céo, minha gentil Talitha,

recorda o nosso amor, formosa cenobita,

e pensa na tortura intermina e profunda

desta vaga de fel que a minha vida innunda,

medita nesta noite atroz, que me apavora,

e tu me dás em paga a fulgurante aurora

que o meu amor te deu, sorrindo de ventura...

Bemdita seja a treva, a noite de amargura,

bemdita seja a dôr, para sempre bemdita,

que vem da tua mão, angelica Talitha!

_Talitha, em lagrimas, soluça. Ruy vae para sahir e encontra o Padre que

entra. Pausa, durante a qual o Padre, mudo de dôr, fita os olhos, ora em

Talitha, ora em Ruy._

SCENA VII

Os mesmos e Padre

Padre, _junto de Talitha_

Porque choras, creança?

_Ruy, cabisbaixo, medita. Pausa, durante a qual se ouve o soluçar de

Talitha._

O teu silencio abala

toda a minh'alma, filha; abre os teus labios, falla...

_Silencio. A Ruy_

A sua commoção... Ruy! Mas que succedeu?

Ruy

Foi mais uma illusão que se desfez... morreu!

_Sae_

SCENA VIII

Padre e Talitha

Padre, _abraçando Talitha_

Não te apoquentes, filha! A dôr que te devora

eu já previra ha muito. A noite tambem chora

no calice da flôr, e o céo que tem a luz

das estrellas sem fim, chorou, quando Jesus

abriu por sobre a terra a sombra dos seus braços,

abençoando a dôr que vaga nos espaços...

Mas os teus olhos, ha pouco illuminados,

não devem, por emquanto, andar annuviados

que se pódem cegar de novo, sem remedio...

Talitha, _rapidamente, entre alegre e chorosa_

Então se eu lhe pedisse...

Padre

O quer que seja, pede-o...

Pede, Talitha, pede, e poupa o teu olhar...

Talitha, _lacrimosa_

Pois bem, eu pedirei, que deixe-me chorar!

Padre

Não te apavora a noite immensa e tenebrosa?!

Talitha

Não me amedronta mais! A lua carinhosa

vive na escuridão. Fui tão feliz na treva

que chego a ter saudade e o coração me leva

a pedir que me deixe ind'outra vez banhar

na sombra eterna e mésta a luz do meu olhar...

Padre

Que blasphemia, Talitha!

Talitha

O meu labio não erra,

e o que elle disse, Padre, o meu fervor encerra.

Padre

Medita, minha filha, e Deus Nosso Senhor

envolva a tua crença em seu divino amor!

Talitha

Pois ouça-me um instante a confissão singela

da incomparavel dôr que a minha vida gela:

_Padre senta-se e Talitha ajoelha-se ao lado_

Tinha soffrido muito; o immenso desespero

de um dia de tortura, afflictivo e severo,

me fez allucinar e, erguendo para os céos

as mãos de quem supplica, eu implorei a Deus

clemencia a tanta dôr. A noite de flagicio,

que dava á minha vida o aspecto de um supplicio,

parecia sem fim, sem luz e sem aurora.

E, como a flôr que á noite exhala, espaço a fóra,

o aroma delicado e puro do seu seio,

vencendo o meu temor e o natural anceio,

eu dei, como penhor da luz que supplicava,

a minha mocidade e o porvir que eu sonhava;

e prometti á santa e casta Samarita

votar-me para sempre ao burel carmelita...

Mas presenti, depois, que dentro de minh'alma

despontava, sorrindo, uma esperança calma

que innundava de luz o coração da céga,

e commigo pensei:--Deus, de certo, não nega

que veja agora a luz quem sempre foi escrava:

e nesse pensamento a vida concentrava.

Foi quando Ruy me fez a esmola caridosa

de uma dôce affeição que tem a côr da rosa;

e, sem pensar, jámais, em vêr de novo o mundo,

o meu amor cresceu e fez-se tão profundo

que para desprender-lhe as tumidas raizes

eu rasgarei, talvez, mais largas cicatrizes...

Depois a mão de Ruy abriu para os meus olhos

o véo da madrugada e eu vi sobre os escolhos,

toda em pedaços feita, a minha pobre herança,

perdida para sempre a querida esperança

que eu havia sonhado em dias de cegueira...

Se sacrifico o amor pelo burel de freira

eu desço á sepultura em plena mocidade;

se não cumpro a promessa e minto á santidade

do voto que levei á pedra de um altar,

não devo conservar a luz do meu olhar

e rogo novamente a Deus que m'a desfaça

e á Virgem que conceda a pequenina graça

de receber de novo esse penhor tão puro,

deixando-me, outra vez, o mesmo olhar escuro!

Padre

Escuta, minha filha.--A Providencia, ás vezes,

se manda aos corações as dôres e os revezes

não é que se compraza em opprimir as almas

para lhes dar mais tarde as viridentes palmas

do martyrio, não! Não, minha ingenua Talitha.

Eras ainda tu mimosa e pequenita

quando ficaste céga. Abrira para o mundo,

apenas, a tua alma e o teu olhar jocundo

sorria para a luz. Assim, innocentinha,

tu ias de manhã commigo á capellinha

e, emquanto eu murmurava as orações da missa,

tu rezavas, sorrindo, angelica e submissa,

á Virgem que te ouvia, a Salvé Magestosa,

bem como se a rezara o labio de uma rosa...

Desse labio subia um fervor tão intenso

como a espiral azul e timida do incenso...

Depois... faltou-te a luz, mas tu nunca faltaste

á mesma hora de sempre, á missa. E que contraste;

tu, pequenita e céga e o Sol com tanta luz!

Muitos annos pediste á Madre de Jesus

que te restituisse um dia o teu olhar,

como se a Virgem fôsse autora da desdita

que te ferira assim, minha meiga Talitha...

Pois creança, tu crês que a Mãe que soffreu tanto

no dia em que perdeu o filho casto e santo

te pudesse roubar dos olhos transparentes

a luz que illuminava as pupillas ardentes?

Pois ella que te viu de rastros, a rezar,

em todas as manhãs, aos pés do seu altar,

levando-lhe, a sorrir, tantos ramos de flôres,

podia assim voltar a crueldade e as dôres

sobre a tua cabeça ingenua e piedosa,

Ella que foi a Mãe mais dôce e generosa!?

Escuta, minha filha:--o livro do Senhor

descreve que, uma feita, andava na Judéa

o divino Jesus prégando a sua idéa...

Acercou-se do Mestre uma infeliz proscripta

a quem a dôr matara a filha pequenita,

e, em lagrimas, pediu que lhe voltasse á vida

o cadaver da filha extremosa e querida.

Abençoando a mãe que aquella dôr humilha

disse Jesus então: «a tua pobre filha

estava adormecida e agora está acordada;

volta que a encontrarás a rir, já levantada».

E a pobre mãe, que vira a pequenina morta,

depois, ao regressar, foi encontral-a á porta,

sorrindo alegremente, entre as demais creanças,

como um bando gazil de cordeirinhas mansas!

Pois bem, minha Talitha, o teu olhar dormiu

sómente, não morreu. Quando a céga pediu,

á Virgem Mãe de Deus, que um dia t'o salvasse,

o seu divino olhar fitava a tua face

e despertou do somno o teu formoso olhar

que nunca fôra cégo e, apenas a sonhar,

adormecera. E agora, agora que acordou

póde fitar a mão de quem lhe descerrou,

em nome de Jesus, a noite que o toldava,

que te fazia triste e lacrimosa, escrava...

Talitha

E a Virgem que me ouviu quando eu lhe prometti

votar-me ao seu burel, por tanto que soffri,

quererá perdoar a minha negra falta?

Padre

Escuta-me, Talitha:

_Ruy surge ao fundo e escuta_

O coração exalta,

pergunta-lhe o que sente, o que deseja; pensa

muito, muito, em silencio, indaga a tua crença

e faze o que disser a tua consciencia,

mas não esqueças, filha, a dôce confidencia

de Ruy que illuminou o teu escuro olhar,

e lembra-te, depois, que, só por muito amar,

o Christo perdoou á pobre Magdalena.

E agora, que a tua alma está bem mais serena,

attende-me!--Rezando adormeci. A aurora

despertou-me, sorrindo, e entrevi, áquella hora,

um sonho que fugia, em busca de outros lares!

Subia docemente, ao claro azul dos ares,

o vulto da Senhora, abrindo pelo Céo

o palio virginal do seu materno véo,

desnastrado o cabello, um manto de rainha

recamado de sóes; a nuvem que a sustinha,

toda cheia de luz, deixava atraz de si

um rastro de fulgor. E eu lembrei-me de ti...

Curvaram-se a tremer as pernas fatigadas,

ao peso esmagador das longas invernadas;

e assim, postas as mãos, olhando para o vulto

da Virgem que eu adoro em fervoroso culto,

pedi-lhe que mandasse um raio de luar

ás lagrimas de fel da tua dôr sem par...

_Talitha começa a sorrir_

E a Virgem, a sorrir, do seio do infinito,

baixou por sobre o meu um dôce olhar bemdito

e eu vi rolar no azul da immensa vastidão,

no fulgor de uma estrella, o beijo do perdão...

Talitha, _correndo para a porta_

Ruy!

_Encontra-se com Ruy e pára, pudibunda, de olhar no chão_

Padre, _só, á frente da scena, mãos postas, a olhar para o céo_

Perdôa, Senhor, se lhe menti, perdôa;

o meu labio peccou, mas a intenção foi boa!

CAE O PANNO

TERCEIRO ACTO

Modesta sala de jantar em casa do Cura. Á direita, um oratorio sobre uma

commoda antiga; á esquerda, entre portas, um orgam.

SCENA I

Joaquina, só

_Joaquina procede aos arranjos da casa para uma noite de festa; cuida do

oratorio, accende-lhe as velas, começa a pôr a meza para a ceia; tudo em

silencio. Depois de alguns momentos entra Ruy._

SCENA II

Joaquina e Ruy

Ruy, _entrando_

Boas noites, Joaquina!

Joaquina

As mesmas Deus lhe dê!

Inda bem que chegou; pensei que não voltasse

aqui á nossa casa!

Ruy

Essa agora... e porque?

Joaquina

É boa! Inda pergunta? Esteve lá por fóra

durante todo o dia e sem que se lembrasse

que neste pobre asylo ainda vive e mora

gente boa e christã...

Ruy, _interrompendo_

E quem lhe disse tanto?

Vão vêr que foi intriga ou treta de algum santo!...

Joaquina

Hereje! brinque, brinque assim com Jesus Christo

e ha de vêr se é feliz! Não sabe que o Natal

é a noite sagrada?

Ruy

É, sei! Não foi por mal

que faltei. Pela vez primeira não assisto

á missa desta noite. Ha bem vinte e seis annos

que falleceu meu Pae: rompia a madrugada.

Começaram-me assim os tristes desenganos

e a lucta da existencia abriu-se amargurada.

Desde então, minha Mãe, boa e santa velhinha,

recorda tristemente, apenas se avizinha

a noite do Natal, a dôr daquella aurora,

e emquanto tudo ri, ella soluça e chora...

Joaquina

Sem mesmo a conhecer eu tenho pena della.

Ruy

E hoje que eu sou feliz a pobresinha vela.

Creio que neste instante os seus labios de crente

envolvem numa prece encantadora e mesta,

num templo illuminado, ao celebrar da festa,

o esposo que morreu e o proprio filho ausente.

Joaquina

Devera ser então mais um grande motivo

de não faltar á missa.

Ruy

E creia que é bem vivo

o meu pezar. Entanto a razão dessa falta

foi sagrada e vae vêr como ella tanto exalta

a minha consciencia.

Joaquina, _ironica_

Eu imagino bem!

Ruy

Não posso vêr soffrer o coração de alguem...

Attenda-me, Joaquina, e diga se eu podia

negar-me, sem peccar, ao dever que exigia

de acudir pressuroso ao leito d'um enfermo

ardendo em alta febre e bem proximo ao termo

duma longa existencia asperrima e deserta,

onde apenas a dôr tinha uma entrada aberta.

Conhece aquelle atalho escuro e retirado

que vae dar á capella?

Joaquina, _benzendo-se_

Onde foi enforcado

O marido da Emilia?

Ruy

Exactamente, ahi.

Mesmo nesse logar em que ficou a cruz

existe uma choupana á qual me recolhi

para fugir á chuva. O caminho conduz,

pela esquerda, á Capella; a direita, ao moinho

do velho reformado! Entrou-me na choupana

a neta do sargento a dizer que o avosinho

quasi estava a expirar. Fôra maldade insana

deixar morrer o velho á mingoa de cuidados.

Fui. Mas antes não fôsse. Em nada lhe valeu

a visita que fiz, o velho falleceu...

Como devem morrer os bravos e os soldados

assim elle expirou, fitando bem a morte,

firme como um leão e simples como um forte.

Uma miseria extrema; os netos quasi nús,

com fome e sem comida ha dois dias!

Joaquina, _benzendo-se_

Jesus!

E aqui tanta fartura!

Ruy

A Patria é bem madrasta!

Esse velho, que a morte aos netos hoje afasta,

tem no peito e na face algumas cicatrizes

das lanças do inimigo.

Joaquina

Ah! são bem mais felizes

os soldados que vão á guerra e que lá morrem

no campo da batalha.

Ruy

Exacto. Os outros correm

o perigo maior de morrer desprezados, como

esse pobre velho.

Joaquina

E estão abandonados

os netos, Sr. Ruy?

Ruy

Não estão; felizmente

fallei ao regedor e tudo se arranjou;

demais a mais tambem, segundo me informou,

têm direito á pensão que o velho Avô doente

não poude receber.

Joaquina

E quem receberá

essa triste pensão, se o velho que serviu

não poude recebel-a e nem sequer a viu?

Ruy

Tambem já pensei nisso e tudo se fará,

minha boa Joaquina. Assim, o moribundo

me obrigou a faltar á missa do Natal.

Se um pobre que estivesse a deixar este mundo

lhe pedisse um amparo, a sua alma leal

negaria essa esmola?

Joaquina

Ainda m'o pergunta?

Ruy

Á sombra desse olhar tudo se abriga e junta

e eu leio na pupilla esmaecida e pura,

num misto de mudez, de pranto e de ternura,

que o seu bom coração tambem acudiria.

E por isso faltei; tenho, porém, certeza

que Talitha por mim, ao menos, rezaria.

E quando assim se tem tão lucida pureza

a interceder por nós aos pés da Divindade,

parece que a nossa alma, em dôce alacridade,

mergulha no baptismo, em aguas de um Jordão

todo feito de amor, de beijos e perdão!

Joaquina

Ah! quando eu penso em tudo o que se tem passado

depois que aqui chegou!... Como isto está mudado!

Ruy

Tudo é tão natural que não nos vale a pena

gastar tempo a pensar em cousa tão pequena.

Joaquina

Então é cousa pouca uma pobre engeitada,

ha tanto tempo céga, e sem mãe, desprezada,

encontrar quem lhe dê de novo o seu olhar,

e quem lhe tenha amor e a queira desposar!?

Ruy

Engeitada, que importa? O coração não pensa,

ama sómente e assim não indaga a nascença

da mulher que o inspirou. Mas não é desprezada

a formosa Talitha; esta mansão amada

serviu de lar paterno á sua dôce infancia

e, se aqui respirou a magica fragrancia

de uma alma aberta, em flôr, se a sua mão, Joaquina,

materna, a acompanhou desde assim pequenina,

pouco importa que a mãe a tivesse engeitado;

amei-a, e nesse amor eu tenho baptisado

o sonho do porvir...

Joaquina

Diga, e quando casar

vae leval-a d'aqui?

Ruy

Seria derrancar

o santo coração do velho Padre-Cura;

nem tanto necessita a completa ventura

das minhas illusões, nem teria coragem

para tamanho mal; seria mais selvagem

que a propria malvadez

_abraçando-a_

tirar ao seu amor

o prazer de aspirar o aroma dessa flôr,

que ao seu lado cresceu, tão branca e tão fagueira,

como um lyrio do valle ao pé de uma roseira!

Joaquina

Sim; isso diz agora e depois de casado

ha de pensar, de certo, em sua mãe saudosa,

e para que ella veja, alegre e carinhosa,

o filho salvo e bom, tão robusto e córado,

o Ruy tem de levar comsigo a pequenita

que nos serve de filha e que nos faz felizes!...

Ruy

Descance, boa amiga; este amor tem raizes

que eu nunca poderei arrancar de Talitha,

nem penso em perturbar a paz do vosso azylo

que a propria mão de Deus formou assim tranquillo.

Joaquina

Se Deus que nos dôou a innocentinha, agora

mandasse a Mãe aqui para leval-a embora,

onde quer que ella fosse havia eu d'ir tambem,

porque a trouxe no collo e quero tanto bem

que passo a minha vida olhando o azul dos céos,

para vêr se descubro a Santa Mãe de Deus

e pedir-lhe que deixe á tremula velhice

dos meus dias sem luz, ao menos, a meiguice,

daquelle coração que eu vi desabrochar...

Ruy

E o céo que lhe responde?

Joaquina

O céo?... Nada! A rezar

tenho passado a vida e, nesta idade, a gente

já não póde chorar, as lagrimas seccaram

e por isto se soffre, a dôr é mais pungente

quando se quer chorar e os olhos já cançaram.

_Ouve-se a voz de Talitha, fóra_

Taitha

Ó Joaquina! Ruy, Ruy...

Joaquina

Ahi vem a traquina;

E ha de chamar por tudo a pobre da Joaquina...

Ruy, _corre á porta_

Mas como vem alegre...

_Entra Talitha_

SCENA III

Os mesmos e Talitha

Talitha, _ao entrar, vendo Ruy, estaca: fica silenciosa e em seguida:_

Eu bem disse ao padrinho...

Ruy, _tomando-lhe a mão_

Que foi que tu disseste, alma da côr do linho?

Talitha

Que ninguem póde crêr na jura...

Ruy, _interrompendo com meiguice_

Das mulheres?...

Talitha, _ralhando com carinho e retirando a mão_

Dos homens... atrevido, ainda tens coragem

de rir?...

Ruy, _alegremente_

Ou de chorar, se tu assim preferes...

Talitha

Mas a tua promessa? Esqueceste a homenagem

da noite de Natal?

Ruy

Pois pergunta á Joaquina...

Joaquina, _intervindo_

A mim? não sei de nada...

Ruy, _a Talitha_

Ella está gracejando;

sabe tudo tão bem como eu, mas imagina

que tu és ciumenta e então, de vez em quando,

a recordar o tempo em que era rapariga,

faz pirraças á gente, armando alguma intriga...

Talitha

A verdade, porém, é que faltaste e eu não.

Ruy

Pois bem, faltei; mas tive uma forte razão:

o velho reformado estava agonisante

e mandou-me chamar; eu fui no mesmo instante

assistir-lhe á agonia. Expirou-me nos braços:

ia o sol a fugir na curva dos espaços,

á hora em que soluça o sino das trindades

o Angelus sagrado envolto nas saudades

que a terra balbucia, agradecendo ao céo

a luz que lhe mandou na flacidez do véo

crepuscular e dôce, oiro tecido em gaze,

sem brilho de offuscar e sem calor que abraze.

Talitha

E nunca mais o vi, nem o verei jamais!...

Foi cégo como eu fui. Nas manhãs estivaes

muita vez o encontrei, cançado dos trabalhos,

pedindo esmola ahi por todos os atalhos.

Elle ia pela mão da neta, uma creança!

Era um velho senil á sombra da esperança!

Eu ía recostada ao braço do padrinho

e, ao sentir-me, dizia: «ampare-me esse anginho

--amigo Padre-Cura, eu quero que elle veja

--como um velho soldado, a mendigar, rasteja

--neste mundo de Christo»--. E ficava a pensar

naquelle desgraçado. O meu perdido olhar

novamente voltou, quando o delle se apaga

na escuridão mortal que tudo cobre e alaga...

Se eu pudesse amparar as pobres creancinhas!

Ruy

Não faltará calor ás meigas andorinhas.

Joaquina

E quem lhes ha de dar?

Ruy

Quem?

Talitha

Deus, Jesus e nós!

Ruy, _com ingenuidade_

Nós seremos os paes:

_a Joaquina_

tu e o Cura, os avós...

Joaquina

Valha-te Deus, tontinha!

Ruy, _a Talitha_

Encantadora e casta;

ó Virgem Conceição, flôr, ingenua madrasta,

bemdito seja o dia em que te amei, formosa,

sonho feito mulher, sorriso feito em rosa...

Talitha, _admirada_

Que tem isso de mal? Tambem elle era cégo,

não podia cuidar da neta que o guiava

e agora, felizmente, eu tenho no aconchego

da minha mocidade a luz que me faltava

e posso olhar por ella. A minha desventura

não teve neste asylo o amor do Padre-Cura?

Depois não tive ainda?!...

_Olha para Ruy, baixa os olhos e cala-se_

Joaquina, _beijando-a_

Ah! minha tagarella!...

Ruy

Depois tiveste ainda o teu formoso olhar

que andava lá no céo illuminando a estrella

d'alva. E agora tambem tens muito que narrar

do que viste na igreja...

Talitha

Ah! na missa do gallo?

Eu vinha exactamente aqui para contal-o...

O que eu vi, Ruy, na igreja, emquanto o Padre-Cura

dizia aquella missa!... Inda agora fulgura,

sobre a minha retina, a vivida impressão

do seu olhar tão dôce e manso, de perdão...

Inda agora o sorriso, angelico e furtivo,

do seu labio de rosa, orvalhado e festivo,

innunda de frescor a minha vida inteira,

como o rócio da noite á flôr da amendoeira.

Ruy

Quem foi que te sorriu com tamanha affeição,

que fez vibrar tu'alma em tanta commoção?

Talitha

Um milagre de Deus! Se tens fé, acredita

no que te vou dizer.

Ruy

Dize, minha Talitha!

Joaquina, _approximando-se_

Conta, conta o que foi.

Talitha

Pois nesse caso, ouvi:

Quando eu entrei no templo um borborinho enorme

encheu toda a capella; então foi que eu senti

como é triste ser cégo e ter olhar que dorme

tantos annos de vida, em funda lethargia,

sem a benção gentil de vêr a luz do dia!

Toda a gente fallava, olhando para mim,

e eu muito satisfeita a caminhar assim...

_Imita o andar magestoso_

Ruy

Como tu és vaidosa!

Joaquina, _sorrindo e pondo as mãos_

E como ella é catita...

Talitha, _a Ruy, ingenua_

Mas se eu fôsse a teu lado, inda era mais bonita!...

Deram-me tanto abraço e beijaram-me tanto!

A capellinha estava alegre, era um encanto.

Á entrada muita flôr, o altar com muita luz,

e num bercinho branco o menino Jesus,

tão lindo, tão mimoso e tão engraçadinho,

que parecia mesmo um rouxinol no ninho.

Uma velha fitou-me e disse: que princeza!

Um velho lavrador olhou-me com surpreza

e bem alto fallou: «Que Deus Nosso Senhor

te dê um bom marido»...

Ruy

E que disseste, amor?

Talitha

Nem uma palavrinha! Eu ía bem calada,

entre muito contente e muito envergonhada.

Joaquina

E depois?

Talitha

Talitha: evangelho em tres actos · 第 2 / 7 段