Não foi a minha bocca ardente que a beijou.

Produced by Pedro Saborano

Pinto da Rocha

TALITHA

EVANGELHO EM TRES ACTOS

Segunda Edição

LIVRARIA CHARDRON

DE LELLO & IRMÃO

Carmelitas, 144-Porto

1909

TALITHA

Pinto da Rocha

TALITHA

EVANGELHO EM TRES ACTOS

Segunda Edição

LIVRARIA CHARDRON

DE LELLO & IRMÃO

Carmelitas, 144-Porto

1909

O _accordo_ assignado no Rio de Janeiro, em 9 de Setembro de 1889, entre

o Brazil e Portugal, assegurou o direito de propriedade literaria e

artistica em ambos os paizes.

A presente edição está devidamente registada nas _Bibliothecas

Nacionaes_, de Lisboa e Rio de Janeiro.

Imprensa Moderna, de Manoel Lello

R. da Rainha D. Amelia, 61--PORTO

Grande premio na Exposição do Rio de Janeiro de 1908

PERSONAGENS

TALITHA, céga 18 annos

JOÃO FULGENCIO, cura da aldeia 80 "

DR. RUY DE ORNELLAS, medico 25 "

JOAQUINA, irmã do cura 65 "

MARQUEZA DE RILMA 50 "

Um escudeiro--Camponezas--Lavradores

A acção passa-se em uma aldeia da Provincia de Traz-os-Montes, Portugal

ACTUALIDADE

INTERPRETAÇÃO

NO RIO DE JANEIRO EM 1906

Talitha Maria Falcão

Joaquina Jesuina Saraiva

Marqueza de Rilma Barbara Wolckart

João Fulgencio Chaby Pinheiro

Ruy de Ornellas Henrique Alves

NO RIO GRANDE DO SUL EM 1907

Talitha Maria Falcão

Joaquina Maria Pinheiro

Marqueza de Rilma Olivia de Almeida

João Fulgencio Chaby Pinheiro

Ruy de Ornellas João Lopes

A _Talitha_ subiu á scena, pela primeira vez, no Theatro Apollo, do Rio

de Janeiro, em Agosto de 1906, na festa artistica da eximia actriz Maria

Falcão.

E tomando a mão da menina disse-lhe:

--Talitha cumi:--Filhinha levanta-te.

_Novo Testamento._ S. Marcos, V. 41.

PRIMEIRO ACTO

Jardim, na residencia do Cura.--Á direita, um banco de pedra junto a um

poço: á esquerda, frontaria da casa. Grade ao fundo, com portão.--Vista

de estrada e campo.

SCENA I

Joaquina e Ruy

Joaquina

Louvado seja Deus! Como está bello e forte!

Ruy

É verdade, Joaquina, o clima aqui da terra

encheu-me novamente o coração de alento.

Posso dizer que entrei neste bondoso lar

vigiado, sem dó, pelos olhos da morte.

E agora, a luz do Sol, os perfumes da serra,

as aguas desta fonte, o sadio alimento,

o seu cuidado santo, amigo e tutelar,

fizeram-me robusto.

Joaquina

E Deus não lhe fez nada?

Ruy

Foi elle quem salvou a minha mocidade,

porque a divina mão que fez os céos e os montes,

que deu flores á terra e deu frescura ás fontes,

que faz vibrar a luz e a voz da passarada,

que impelle a nuvem branca em plena immensidade,

um dia vos creou as almas caridosas

que vivem nesta casa, humildes e serenas,

felizes com o Bem, suaves como as rosas,

mais simples do que o trigo, a neve e as açucenas!

Joaquina

Então, menino, crê tambem que Deus existe?!

Ruy

De certo, minha amiga.

Joaquina

E não é um hereje,

dessa raça maldita e negra que desmente

as obras do Senhor?

Ruy

Ingenua creatura!

É tão alegre a crença e não crêr é tão triste,

que mesmo sem querer o coração da gente

acredita num Deus que todo o mundo rege,

num Pae que assim te deu alma simples e pura!

Faz tanto bem, Joaquina, acreditar em Deus

e adormecer á noite abrindo a consciencia

aos beijos do luar, sorrir de madrugada

á frescura que vem do azul ethereo e vasto,

que o nosso olhar ascende ás amplidões dos céos

sem esforço nenhum, como a espiral da essencia

que se evola da flôr, se a abelha delicada

lhe poisa na corolla o vôo leve e casto!

Joaquina

Bemdito seja Deus! Não póde imaginar

como eu fico contente ouvindo assim fallar!...

Ruy

Mas que idéa fazia então de mim? Julgava

talvez que eu fosse atheu?

Joaquina, _benzendo-se_

Deus me perdôe... pensava!

Ruy

Como poude a sua alma angelica e tão boa

fazer-me, sem motivo, essa enorme injustiça?

Joaquina

Ah! mas não foi por mal, nem o pensei á tôa:

eu nunca o vi rezar, eu nunca o vi na missa...

E a gente vê só cara e não vê corações...

Ruy

E se o visse, Joaquina!...

Joaquina

E que é que me servia

o ver-lhe o coração?

Ruy

Nada, é certo. Entretanto

conheceria bem as minhas intenções,

a esperança que faz brotar, em cada dia

que passa, um pensamento alegre, puro e santo...

Joaquina, _interrompendo_

É, mas diz o rifão que está o inferno cheio

de boas intenções!...

Ruy

Tem razão; mas não minto

se lhe disser tambem, lealmente, o que sinto:

ás vezes mais parece um verdadeiro inferno

este peito infeliz...

Joaquina, _benzendo-se_

Abrenuncio, menino!...

Mas que blasphemia a sua e que peccado feio!...

Um homem que acredita em Deus, bondoso e eterno,

em Deus Nosso Senhor, não diz tal desatino!...

Virgem Maria! Credo!

Ruy

Alma boa de santa!...

A tua vida inteira adormeceu. A aurora

já para ti não tem aquelle brilho vivo

que a primavera, em luz, alastra pelos campos...

Tudo se transformou em outra vida; agora

a fonte já soluça, a brisa já não canta;

aos teus olhos a lua é d'um fulgor esquivo,

o sol não tem calor, o céo já não é glastro,

as estrellas febris parecem pirilampos;

trazes o teu olhar constantemente a rastro;

sómente a fé te anima; é por isso que extranhas

o inferno abrasador que muita vez domina

a minha mocidade.

Joaquina, _com sorriso_

Isso me bacoreja

algum amor perdido ahi por essas eiras...

Ruy

É possivel, quem sabe? Os ares das montanhas

tem caprichos assim, póde bem ser, Joaquina!

Joaquina, _cariciosa_

E diga-me, que olhar é esse que negreja

a sua vida alegre? Ha tantas feiticeiras!...

Ruy, _enleiado_

Que olhar?

Joaquina, _interrompendo_

Mas é segredo?

Ruy

É, por ora é segredo...

Joaquina

Ah! não confia em mim?! bem sei, bem sei, tem medo

que eu descubra o mysterio, a princeza encantada

que assim lhe traz a vida em tantas amarguras...

Ruy

Não é mysterio, não. É... cousa complicada!...

Joaquina

Faz muito bem zelar a flôr dos seus amores;

não os conte a ninguem; se acaso as desventuras

lhe roubarem o somno agarre-se com Deus...

_tomando-lhe a mão e fallando-lhe ao ouvido_

Reze constantemente á Senhora das Dôres.

Acceite este rosario e tenha-o por bordão.

É bemaventurado aquelle que padece,

porque é delle, menino, o reino azul dos céos...

E Deus a quem promette estende sempre o pão;

reze e será feliz... Essa alma bem merece...

Ruy

Santa velhinha, santa...

Joaquina, _tapando-lhe a bocca_

E nem um ai, silencio...

Olhe quem vem ali...

Ruy, _voltando-se_

O Padre João Fulgencio

e Talitha; meu Deus!... Pobre, infeliz Talitha!...

Joaquina, _a Ruy_

Parece que ficou um tanto atrapalhado...

Ruy, _encobrindo a verdade_

Sempre que a vejo, assim tão cheia de bondade e

céga...

Joaquina

Então, que sente?...

Ruy

Uma dôr inaudita,

que reveste de luto as minhas alegrias:

Ha tanta luz espalhada

na concha astral dos espaços!

E os olhos della tão baços!

E a fronte tão macerada!

SCENA II

Os mesmos, Padre João e Talitha

_Talitha vem apoiada ao braço de padre João_

Padre

Pois Deus Nosso Senhor nos dê muitos bons dias.

_assenta Talitha: a Ruy, apertando-lhe a mão_

Como passou a noute?

Ruy

Assim; mais descançado...

Sonhando... E o Senhor Cura?...

Padre

Eu? Ah! na minha idade

já se não dorme; eu passo a noute toda em claro,

de rosario na mão, pedindo a Deus por nós!

E quando surge o dia e mal o Sol desponta,

dando o braço a Talitha, encaminho-me á Egreja.

Talitha

Diz a missa que ou ouço...

Padre

E é raro, muito raro,

voltarmos ella e eu, da Egreja a casa, sós.

Ás vezes vem comnosco esse infeliz sargento

que arrasta por ahi o longo soffrimento,

velho e cego tambem, e eu, mortiça candeia,

a conduzir os dois pelas ruas da aldeia!

Talitha

Mas o senhor doutor, por mim nunca dei conta,

nem uma vez, sequer, nos acompanhou! Veja!

No emtanto está comnosco ha sete mezes, não?

Joaquina

Isso mesmo eu já disse...

Ruy

Eu dei a explicação...

Talitha

E poder-se-á saber? Não é curiosidade?

Padre

Talvez seja, talvez...

Ruy

Não é!

Talitha

Então ouçamos!...

Ruy

Eu rezo no silencio o santo sacrificio,

no fundo de minh'alma elevo o meu altar,

sob o docel azul das minhas esperanças!...

Padre

E eu sem conhecer mais essa novidade!...

Talitha

Qual?

Padre

Esta que o Doutor nos deu, mas aprendamos...

Ruy

Padre não é sómente aquelle que a rezar

esgota uma existencia ao peso do cilicio

e vae pelas manhans, feliz como as creanças,

curvar humildemente a fronte e a consciencia,

na sombra da capella, aos pés do Redemptor...

Talitha

Mas ha d'outros, então?

Padre

Eu não conheço, filha!

Ruy

Sacerdote é tambem aquelle que tem culto

ao qual offereceu toda a sua existencia.

Padre, quem se dedica um dia com fervor

a amar alguem na terra a cujos pés se humilha,

tambem é sacerdote...

Padre

E eu, sacerdote, exulto

ouvindo do seu labio esta expressão severa.

Joaquina, _que tem guardado silencio, enlevada pelas palavras de Ruy_

Bemdito seja Deus! menino, quem me dera

conhecer a mulher que tem um filho assim...

Talitha

Só eu não posso vêl-o!...

Ruy, _entre alegre e enleado_

Obrigado, Talitha!

Talitha

Não tem que agradecer, disse-o sinceramente!

Que póde desejar mais uma céga, diga?...

Padre

Mas conforma-te, filha, espera que o Senhor,

ouvindo-me a oração, tenha pena de mim

e acuda com remedio ao mal dessa desdita!

Ruy

Como eu fôra feliz...

Joaquina

E eu seria contente!...

Ruy

Se pudesse voltar, ó minha boa amiga,

aos seus olhos de céga o perdido fulgor!...

Talitha

Nunca mais, nunca mais...

Padre

Porque é que te condemnas

se toda a nossa vida é uma esperança apenas?...

Talitha

Se é toda de esperanças esta vida,

já me fugiu aquella que voava

bem junto do meu seio e que roçava

sobre a minh'alma a aza foragida.

Nem sei onde ella vae, talvez perdida

nao volte a mim por não morrer escrava

na escuridão da noite immensa e cava

dos meus olhos sem luz e sem guarida...

Nunca mais fulgirás, dôce promessa,

na minha treva densa e prematura,

como o branco luar em noite espessa.

Se vive, o olhar dos cégos não fulgura,

dorme na sombra e de sonhar não cessa

na tristeza sem fim da noite escura!

Ruy

Não descreia, Talitha, as suas illusões

não fugiram, por ora, esparsas na lufada!

Quem foi que lhe roubou a ultima esperança,

que braços sem caricia, ou duras privações

lhe puderam vibrar tão rude punhalada?

Pois bem, toda a minh'alma alegre se abalança

a dizer-lhe, Talitha:--o seu formoso olhar

tão cheio de fulgor, um dia ha de voltar...

Joaquina

Só milagre de Deus!

Padre

E Deus póde fazel-o:

é Pae de todos nós!

Talitha, _com desanimo_

Tenho rezado tanto!

Ruy

Implore mais ainda, espere, tenha crença!

Talitha

Tenho pedido muito e tanto me flagello

que banho as orações nas bagas do meu pranto

e aqueço-as ao calor da minha dôr immensa.

A mesma escuridão tremenda me apavora,

nem um raio do luz, nem um vago lampejo;

nunca mais hei de vêr o campo que se inflora

nem do luar terei um luminoso beijo...

Padre

A tua redempção ainda não surgiu...

Joaquina, _pondo as mãos_

Eu tenho tanta fé!

Ruy

O meu presentimento

não sei o que me diz...

Talitha

Que o coração sentiu,

que a sua alma pensou nessa dôce ventura,

eu creio porque sei quanto é nobre e bondoso.

Mas eu creio tambem que o meu cruel tormento

sómente acabará no chão da sepultura,

onde tudo tem fim, embora tenebroso!...

Padre, _olhando o céo_

Perdôa-lhe, Senhor, ella ignora o que diz...

Se tem soffrido tanto esta pobre infeliz!...

Talitha

Eu sei bem o que disse; a minha crença é essa.

Ha muito que eu imploro ao céo a protecção

e rezo com fervor á dôce Conceição,

pedindo-lhe, a chorar de dôr, que não esqueça

a minha noite escura e tristemente agreste

como a sombra que faz a copa de um cypreste.

Aos pés do seu altar curvei-me como escrava

e emquanto pela igreja o incenso espiralava,

e as simples orações subiam na espiral,

fechei-me na mudez do meu fervor mental

e fiz uma promessa...

Ruy, _com interesse_

E então qual foi, Talitha?

Talitha

Votar a minha vida ao divino serviço,

se um dia terminasse o meu padecimento;

nem peço mais a Deus, é tudo o que cubiço.

Ruy

E se tornar a ver?

Talitha

Entrarei num convento

a vestir o burel de freira Carmelita.

Padre, _crente, pondo as mãos_

Se Deus te ouvisse, filha!

Joaquina, _com uncção religiosa_

E o Bom Jesus quizesse!...

Ruy, _com amargura_

Se tivera valor a minha humilde prece!...

Talitha, _curiosa_

Se tivera valor, que lhe faria, Ruy?

Ruy

Não pediria a Deus esse milagre extremo...

Talitha

Porque?

Ruy

Porque seria arrancal-a da treva

e lançal-a de novo em mais cruel negrura.

Juntando toda a fé que de minh'alma flúe

eu iria pedir, como um favor supremo,

que as almas alevanta e os corações eleva,

que me guiasse a mão na lucida aventura

de devolver-lhe um dia ao seu olhar perdido

aquelle brilho antigo e aquelle ardor de outr'ora

que faziam inveja ao proprio olhar de Flóra!

Padre

E seria capaz?

Joaquina

Credo!

_Sae_

SCENA III

Padre João, Ruy e Talitha

Ruy

E tão convencido

estou de que o Senhor a mão me guiaria

nesse instante feliz, que não hesitaria

um momento sequer... A simples catarata

é facil de operar e em dez dias exactos

Talitha voltaria á luz que o céo desata

e que dá vida á terra, aos fructos e aos regatos!...

Pense, Talitha, pense e permitta que eu faça

esse dôce milagre.

Talitha

E eu tornarei a vêr

o presbyterio, a fonte, a madrugada, as aves,

as abelhas sugando o mel dos jasmineiros?

Ruy

Os seus olhos verão a luz da eterna graça

no sorriso gracil da alvorada, ao nascer

nas bandas do oriente em nuvens tão suaves,

como um rebanho astral de timidos cordeiros!

Talitha

E que mais hei de vêr?

Ruy

Que mais? Verá tambem

um velhinho a sorrir com lagrimas na face,

e uma velhinha branca e trémula a chorar,

e ao pé delles, alegre, o olhar de mais alguem,

numa dôce oração tão leve e tão feliz,

como se a propria brisa aqui se demorasse

um momentinho só tambem para rezar!

Talitha, _alegre_

E eu voltarei de novo aos encantos da luz?

E hei de vêr tambem o jardim do mosteiro

onde floresce a fé que a nossa vida arrima,

as rosas enfeitando a Virgem que as anima,

o corpo de Jesus exanime e trigueiro,

entre cirios a arder, deitado sobre a cruz?...

E então assim feliz...

Ruy, _interrompendo_

E então, Talitha, e então?

Talitha

Rezarei pelo Ruy, tão bom, tão generoso,

que trouxe ao meu olhar escuro e tormentoso

a esmola angelical d'um lucido clarão!

SCENA IV

Os mesmos e Joaquina

Joaquina, _entrando_

Padre Cura, uma carta.

Padre

Uma carta? Mas donde?

_recebe-a e examina_

Hum! e de quem será?

Talitha

Joaquina, dê-me o braço...

_Joaquina dá-lhe o braço. A Ruy_

Dr. Ruy, até já.

_ao cura_

Até já, meu Padrinho...

Ruy, _que se tem conservado triste_

Talitha!...

Talitha, _voltando-se_

Meu Senhor!...

Ruy, _indo a ella_

Perdão, Talitha... nada!

Talitha

Arrependeu-se, não? E tambem não responde...

Desconfia de mim?... Outro tanto eu não faço

Doutor, a seu respeito; eu bem sei, adivinho...

Ruy, _com interesse_

Que foi que adivinhou?

Talitha, _com malicia_

Uma coisa adorada...

que só tres corações conhecem bem: o seu,

o della, e o Senhor que tudo vê do céo...

Ruy, _admirado_

Della, Talitha, quem?

Joaquina, _com intenção_

Daquella princesinha

d'olhos da côr do céo, vestida de andorinha...

Talitha

Ouviu, Doutor, ouviu?

Ruy

Juro...

Talitha, _interrompendo_

Não jure falso!...

_a Joaquina_

Vamos, Madrinha, embora: é tempo de almoçar.

_sahem_

SCENA V

Padre João e Ruy

_Desde que recebe a carta, Padre João lê com a maior attenção. Pela sua

face corre toda a expressão de espanto que vae recebendo. Quando sahem

Joaquina e Talitha, o Padre conclue a leitura e fica a meditar. Ao

approximar-se Ruy, suspende-se._

Padre

Esta agora é que foi!

Ruy

E que foi, Senhor Cura?

Padre

Quem sabe? Póde ser um pequeno precalço,

mas póde ser tambem que venha de mistura

alguma dôr maior. E não posso evitar!...

Ruy

O que essa carta diz deixou sua alma afflicta:

um segredo talvez que vive no seu seio?!...

Padre

Foi, sim, mas ja não é. Agora só receio

que m'a levem daqui...

Ruy

Que a levem? quem?

Padre

Talitha...

Ruy

E quem a levará deste remanso augusto?

O convento, a promessa?...

Padre

Oh! não...

Ruy

Não tenha susto!

E quem mais poderá, nesse caso, arrancal-a

do lar em que nasceu?

Padre

A Mãe...

Ruy, _surprehendido_

Ah! mas... então...

Padre, _baixinho_

Então... já percebeu?! Ella foi engeitada...

Eis aqui o segredo em que esta vida abraço.

_baixa a cabeça, scismando_

Ruy, _depois de uma pausa_

Oh! meiga creatura!

Padre

E não poder salval-a!...

Ruy

Engeitada!...

Padre

Sim, sim. Ao romper da alvorada.

Ha muito tempo já. Inda no céo brilhava

a estrella da manhã; vieram procurar-me;

bateram ao portal com desusado alarme...

Ergui-me e fui abrir; a neve branqueava

os campos e eu pensei que um pobre moribundo,

no momento supremo em que deixava o mundo,

quizesse receber da minha propria mão

o balsamo final da santa extrema-uncção,

e abri desta choupana a porta sempre franca.

Parecia o jardim uma toalha branca.

Era um frio cruel, cortava como fôsse

o gume de uma faca e o fio de uma fouce...

Sahi, olhei em roda e já não vi ninguem.

No céo luzia só a estrella de Bethlem!

Não sei porque a fitei nesse feliz momento.

Um silencio profundo amordaçava o vento;

dormia a natureza um somno indefinido,

vibrou então no espaço um timido vagido...

Estremeci de horror...

Ruy, _com anciedade_

Era a pobre Talitha?!

Padre

Approximei-me e vi, aqui junto do banco

um cestinho de verga envolto em panno branco.

Banhou-me o coração uma dôr infinita.

Na tragica mudez da alvorada deserta

tomei nas mãos, tremendo, a delicada offerta

e agasalhei-a ao peito, assim, para aquecel-a

como quem agasalha o corpo de uma estrella

que tombasse do céo...

Ruy, _com mais anciedade_

E esse penhor amigo?!...

Padre

A meu lado cresceu e formou-se o thesoiro,

alma rica de luz, feita de amor e d'oiro.

Parece que ao romper daquella madrugada

tão fria, tão cruel, mas tão abençoada,

que eu lembro com saudade e que inda hoje bemdigo,

teve o banho castalio, o baptismo de luz

da mesma estrella exul que baptisou Jesus.

Por isso é que minh'alma agora não sopita

a magua de perdel-a...

Ruy

E quem terá coragem

energica e viril de arrebatar Talitha

ao seu amor leal e bom, dôce miragem,

no deserto feliz desta velhice austera?

Padre

A mãe que a vem buscar...

Ruy

A mãe não tem direito...

A mãe que engeita a filha é peior que uma fera!

Padre

Mas é mãe!...

Ruy

Sim, será, sem coração no peito.

Padre

Engana-se, doutor, a mãe que hoje a reclama,

depois de tanto tempo, é que lhe tem amor...

Ruy

Como a engeitou, então?

Padre

A fera tambem ama...

Quem sabe o que terá soffrido essa mulher?

Sabe-o sómente o céo, calcule-o quem puder.

E diz-me o coração que vou perdel-a em breve.

_Erguendo as mãos ao céo_

Não me tires, meu Deus, esse gentil penhor!

Repara que já tenho os cabellos de neve,

tão tremulas as mãos, e os labios descorados,

como sonhos que vão batidos e levados

num extremo soluço... O que eu tenho no mundo,

pouco mais é que um ai e o golpe agora é fundo!

_Enxuga os olhos e sáe_

SCENA VI

Ruy e Talitha

_Ruy vê sahir o Padre e fica pensativo, fitando os olhos no chão,

sentado no banco de pedra. Depois de uma pausa, Talitha desce,

tacteando, até junto delle._

Talitha

Padrinho, então não vem?

Ruy, _sobresaltado_

Ah! Talitha...

Talitha

Perdão!

Pensei que estava aqui...

Ruy

Já se foi...

Talitha

Obrigada...

_Vae retirar-se_

Ruy

Talitha!

Talitha

Senhor Ruy!

Ruy

O seu bom coração

inda não lhe contou, baixo, muito baixinho,

quasi a tremer de medo e susto, um segredinho,

diga, não lhe contou?

Talitha, _com muita simplicidade_

Que pergunta engraçada!

Ruy

E vive então sereno?

Talitha

Ah! Sim, tenho certeza!

Ruy

É bem feliz, Talitha, a sua singeleza!

Outro tanto, porém, ao meu já não succede

que o sinto palpitar acceleradamente,

como quem vae fallar e o soffrimento impede.

Talitha

Eu bem lh'o disse ha pouco...

Ruy

Entretanto eu lhe juro...

Talitha, _interrompendo_

Não jure que é peccado a jura de quem sente

que não diz a verdade. É mais bello e mais puro

não negar.

Ruy

Tem razão, mas eu não disse, ainda

qual era o juramento...

Talitha, _ingenua_

E qualquer que elle seja...

Ruy

Diga, diga o que sente...

Talitha

Ha de ser...

Ruy, _curioso_

Ha de ser?

Talitha

Não digo...

Ruy

Diga, sim, a sua voz bemvinda

ha de me dar a esmola honesta e bemfazeja

que a minh'alma sem luz precisa de viver.

E do seu labio casto apenas um sorriso

vale mais que uma estrella e rasga um paraiso.

Talitha

Assim o quer, direi; jamais o seu protesto

póde ser verdadeiro...

Ruy

E porque não, Talitha?...

Talitha

Não sei, não sei porque. A jura é como o gesto

que abala fortemente, a nossa vida agita,

mas passa e foge...

Ruy

Ah! sim, quando falla sómente

o labio, sem fallar tambem o coração...

Ah! de certo que assim o labio sempre mente.

Mas quando o sangue estúa e faz tremer a mão

de quem jura, Talitha, ou quando a fronte em braza,

apenas num momento, empallidece e tomba,

bem como se a roçára a ponta fria da aza

feita de gelo e dôr de alguma extranha pomba,

quando um homem que sempre olhou de frente o sol

tem medo de encarar o olhar de um rouxinol,

e treme até de ouvir-lhe a voz encantadora,

quem sempre ouviu sorrindo a furia rugidora

do vento e dos trovões...

Talitha, _interrompendo_

Então?...

Ruy

Assim revela

que é grande, generoso e casto o sentimento

que apenas se traduz e que tão mal se vela

na gaze pueril d'um simples juramento!

Talitha, _ingenua_

Quem foi que o ensinou a fallar assim?

Ruy, _timido_

Digo?...

Talitha, _ingenua_

E porque não? Quem foi?...

Ruy, _timido_

Nem mesmo eu sei, Talitha!

Talitha, _insistido_

Nem sabe onde aprendeu?

Ruy, _sorrindo_

Quer aprender commigo?

Talitha, _ingenua e triste_

Não me quer responder, nem confessa, nem nega...

Se eu pudesse aprender, de que valera á céga

saber fallar assim?

Ruy, _triste_

Á céga?

Talitha, _simples_

E á Carmelita?...

Ruy, _ancioso_

Á Carmelita!... e quem lhe disse que os seus olhos

recuperando a luz, como duas estrellas,

irão illuminar as fragas e os escolhos

das montanhas da Syria, entre as monjas Carmellas?

Quer sepultar-se em vida?

Talitha

E não é cemiterio

maior a escuridão deste pavor funereo,

sem vêr o sol que doira as nuvens do poente,

sem vêr a lua assim como um berço dolente

embalando no azul um sonho que não morre,

não vêr duma colmeia o mel que filtra e corre

como um rio de luz nascendo num enxame,

sentir e adivinhar a suprema belleza

da madrugada em flôr, das noites constelladas,

dos mares e do céo, de toda a natureza,

ter olhos e não vêr, inda haverá quem chame

vida a tal vida? Não! Mais negras, mais cerradas

do que esta noite immensa e triste, sem estrellas,

não póde ser, de certo, a solidão das cellas,

e o sol que tudo aquece, aquecerá de leve

a macerada fronte á monja que não teve

nem um seio de mãe que um dia a amamentasse,

nem a luz d'um olhar na pallidez da face,

e nem um coração...

Ruy

Talitha!

Talitha, _ingenua_

Meu doutor!

Ruy, _com intenção_

Um coração?

Talitha, _ingenua_

Qual foi?

Ruy, _tomando-lhe a mão_

O meu...

Talitha, _comprehendendo, envergonhada_

O seu?

_Retira a mão_

Ruy, _enleiado_

Perdoe.

_Pausa prolongada_

Talitha, _implorando_

Que mal lhe fiz?

Ruy

Rasgou-me o coração, Talitha;

e pensará, talvez, que não me fere a dôr

de vêl-o assim rasgar?

Talitha, _humilde, implorando_

Mas creia, Ruy, que foi

sem que eu desse por isso. E se o mal está feito

seja agora gentil e não me rasgue o peito.

Esqueça a minha falta, esqueça esta maldita,

não se lembre da céga e deixe-a definhar

na torva escuridão desta noite polar...

Ruy

E se eu não conseguir tirar do pensamento

o seu casto perfil, celeste e macilento,

se a minh'alma quizer viver escravisada

unindo o meu destino á corrente doirada

que me prende, sorrindo, ao seu cruel martyrio,

se o meu olhar prefere esse apagado cirio

dos seus olhos de céga á lucida manhan

do amor sentimental de alguma castellan,

como esquecel-a então?

_Joaquina apparece ao fundo_

Talitha, _triste_

Não creio...

Ruy

Mas porque?

Já tão cedo a sua alma angelica descrê

da minha que, arrastada á fimbria azul da sua,

por toda a parte a segue e a seu lado fluctua?

Não recorda, Talitha, o dia amargurado

em que eu entrei aqui perdido e quasi morto?

Não se lembra da noite em que eu fui condemnado?

Não se lembra talvez das horas de conforto

que os seus olhos sem luz e a sua bocca em flôr

me trouxeram a rir, como um remedio santo

da minha vida enferma á cruciante dôr?

Não recorda talvez que esse supremo encanto,

essa graça divina, aligera e bemdita

a vida me salvou?

Talitha

Não creio...

Ruy, _curioso_

É tão cruel!

Porque razão não crê, a minha alma fiel

simplesmente traduz o que a sua entendeu?

Talitha, _com intenção_

Só porque a sua mão na minha não tremeu.

Ruy

Entretanto, Talitha, eu amo-a...

Talitha, _tremula_

Ruy!...

Ruy, _apertando-lhe a cintura_

Talitha!

_Beija-lhe docemente a mão_

Talitha

Ah! E eu sem poder vêr o labio que me beija!...

Que destino fatal, que desgraçada eu sou!

Ruy

Não foi a minha bocca ardente que a beijou.

Foi o dôce rumor da abelha que voeja

sugando á sua mão de branca flôr de liz

o magico licôr, o aroma delicado,

que vem do rosicler florido e perfumado,

no sangue que palpita em vibrações subtis!!

Talitha

Mas, Ruy, o seu amor não ve como eu sou pobre!!

Ruy, _interrompendo_

Pobre sou eu que peço a esmola angelical

desse affecto gentil que a vida transfigura.

Talitha

Tão pobre que não tenho um Pae que me conforte,

nem caricias de mãe que veja esta tortura...

Ruy

A sua alma divina essa tortura encobre...

Talitha

Tão pobre que este olhar perdido é glacial

como um floco de neve, e a desfazer fluctúa...

Ruy

Os seus olhos sem luz tem mais fulgor que a lua.

Talitha

Engeitada ao nascer vivo esperando a morte...

Ruy

Alma branca de luz que illuminaste

a ventura das minhas esperanças,

bemdito seja o véo de negras tranças

que sobre a minha vida desnastraste!

Bemdito seja nesse dôce engaste

das palpebras subtis brancas e mansas

o mesto olhar que cobre de bonanças

a vida deste amor que tu salvaste!

És para mim a linha do horisonte,

curva do céo, á noite, constellada,

agua lustral de uma sagrada fonte,

toda a ambição dest'alma allucinada,

e a nuvem que circumda a minha fronte

como um disco de treva avelludada...

Talitha, _de mãos postas_

Meu Deus, e nunca mais, nunca mais hei de vêl-o!...

Ruy

Sim, Talitha, verá; o meu maior desvelo

ha de ser o fulgor do seu formoso olhar.

SCENA VII

Os mesmos e Joaquina

Joaquina, _que tem ouvido tudo, feliz e contente, vem descendo com

lentidão e junto de ambos exclama:_

Caia a benção de Deus neste formoso par...

_Ruy e Talitha, surprehendidos, afastam-se_

Ruy, _recuperando a serenidade_

Talitha assim o quiz!

Talitha, _perturbada_

A culpa não foi minha...

Joaquina, _sorrindo e acariciando-a_

A culpada fui eu que te deixei sósinha!

CAE O PANNO

SEGUNDO ACTO

Sala de visitas em casa do Cura; tudo muito simples. Janellas e portas.

Um oratorio com lampada. Um pequeno orgam.

SCENA I

Joaquina e Padre João

_Conversando alegremente_

Joaquina

Graças a Deus, chegou por fim o grande dia...

Padre

É verdade, é verdade! irmã, quem nos diria

que a linda pequenita...

Joaquina

A formosa engeitada...

Padre

Que Deus nos enviou naquella madrugada

inclemente de inverno...

Joaquina, _interrompendo_

E parece-me ainda

vêr a neve a cahir num pó macio e branco

no cestinho de vime, ali, ao pé do banco...

Padre

E eu tenho aqui no ouvido aquella prece linda

que rezaste ao Senhor quando ella adormeceu

depois de ter mamado...

Joaquina

E, lembras-te, que fina!

Tão branquinha, tão loira, a rir, tão pequenina!

Padre

Se me recordo, irmã!?... Pois então, se fui eu

quem primeiro velou, durante o dia inteiro,

o somno encantador da candida innocente!...

Se me recordo, então?!...

Joaquina, _sorrindo_

Mansa como um cordeiro!...

Mas uma coisa eu sei que esqueceste...

Padre, _curioso_

Qual é?

Joaquina

Não te digo, adivinha...

_Pausa prolongada_

É do primeiro dente...

Padre, _alegre_

Ó Joaquina! É verdade! O que se fez!... Até

parece que a alegria andava á tentação;

e nós a rir, a rir, a rir perdidamente...

Sempre ha coisas, meu Deus!...

Joaquina

A vida é uma illusão,

ligeira como o vento, ás vezes nem se sente,

não é verdade?

_Pausa_

Falla?...

Padre

É, de certo, Joaquina.

Joaquina

Pois então que mal faz que a gente esteja agora

a rir do que lá vae por essa vida fóra?!...

Pois agora é que é rir, que passou a desgraça,

quando a gente é feliz té na morte acha graça.

Padre

Por causa desse dente esteve a pequenina

tres dias por um triz...

Joaquina, _triste_

Bem ás portas da morte...

Padre

Valeu-lhe a vela benta...

Joaquina

Inda foi uma sorte

eu ter guardado aquella...

Padre, _rapidamente alegre, interrompendo_

Ó! mana, e o baptisado?...

Que festa! E que jantar! Aquelle frango assado,

com rodellas de paio; inda me estão lembrando

aquelle arroz de forno e aquelle vinho brando...

Recordas?

Joaquina, _com malicia_

Bem me lembro, até nesse jantar

o vinho começou a subir e a trepar...

Padre, _interrompendo, com gravidade_

Ó mana...

Joaquina, _saudosa_

E já lá vão uns bons dezeseis annos...

Padre, _pensativo_

Mas como corre o tempo!

Joaquina, _nostalgica_

E como a gente muda!...

Padre

A vida não é nada! A magua, os desenganos,

a enfermidade e a dôr fazem a gente velha;

e não ha santo algum no céo que nos acuda!

Joaquina

Pois sim, sim, mas depois os filhos vão crescendo

e os paes a cada instante, a rir, vão-se revendo

na luz do seu olhar em que tambem se espelha

o tempo que passou...

Padre, _interrompendo_

Como o tempo é cruel!

E aquelle immenso mal que um dia nos feriu?...

Recordas? Que manhã! Mais amarga que o fel!

Joaquina, _olhando o céo_

Se me lembro, Senhor, quando ella ficou céga,

que só podia andar guiada por alguem!...

Não hei de recordar? Recordo muito bem!

Quanta vez, coitadinha, a chorar me pediu

que lhe fôsse comprar dois olhinhos melhores

para trocar os della...

Padre, _limpando os olhos_

Até se me despega

o coração de dôr!...

Joaquina

E nenhum dos doutores

atinou de a curar, nem sequer as promessas

deram com ella a vêr...

Padre

Quantas vezes subi

os tres degráos do altar e rezando pedi

ferventemente a Deus, por amor de Jesus,

que lhe tornasse a dar aos seus olhos sem luz

a visão que perdera...

Joaquina

E agora tu confessas

que a sorte a perseguiu sem dó nem piedade,

apezar de ella ser um mimo de bondade?

Padre

Confesso. Até que Deus mandou a desventura

da sua juventude a alvorada feliz

desse primeiro amor...

Joaquina

E se Elle assim o quiz!...

Padre

Que seja feita a sua energica vontade,

nos céos como na terra e que um dia a tortura

tenha fim!

Joaquina

Pois não teve, afinal?...

Padre

Eu não sei...

Dizem vocês que teve e a operação deixou

o melhor resultado...

Joaquina

Elle diz que a curou!

O que elle fez não sei, nem mesmo perguntei

mas que ella torne a vêr...

Padre

É isso o que deseja

a minh'alma sincera, é vêl-a venturosa!

Entretanto, meu Deus, por que Talitha o seja

é preciso, talvez, que a vara da desgraça

me toque o coração e a fonte caprichosa

das lagrimas estale. A dôr que me ameaça

enche-me de pavor. Tenho um presentimento

que me não abandona um dia, um só momento!

Joaquina

Isso não vale nada...

Padre

Entretanto eu medito

naquelle casamento.

Joaquina, _interrompendo_

O casamento?...

Padre

Sim;

o casamento, sim, que vae arrebatal-a

á nossa pobre vida... Está, porém, escripto,

e Deus que o destinou ha de por fim leval-a

e nunca mais trazel-a aqui, junto de mim.

Joaquina

E quem nos diz a nós que essa desconfiança

não seja apenas medo?

Padre

O coração, irmã!...

Joaquina

Ah! Sim o coração... o coração tambem cança!

Já não regula o teu, nem serve de evangelho,

é coração de padre e padre muito velho...

Padre

Pois bem, não servirá, mas inda esta manhã,

por occasião da missa, as lagrimas vertidas

tombaram-me da face ao calix consagrado,

ao recordar, então, que um dia, angustiado,

hei de vêl-a partir! Como fôram sentidas

essas bagas leaes que, em silencio, chorei

e que juntas ao vinho eu mesmo consagrei!

Eu creio em Deus e espero o golpe do destino

como um favor do céo purissimo e divino!

Joaquina

Descança, meu irmão! O Ruy é bom rapaz,

tem muito amor á gente, ha de ficar, verás!

Parece alma de santo e só pensa no bem.

Padre

Póde ser, póde ser, mas recorda tambem

a promessa que fez a nossa pequenita

e, se ella conseguir outra vez a visão,

lá se nos vae embora a meiga Carmelita...

Joaquina

Ah! disso eu não receio; então crês que o convento

tenha força capaz de virar-lhe a razão

o fazel-a esquecer, assim, o casamento?

Padre

Mas se não a levar o voto de noviça

ha de a levar o amor que quanto vê cobiça.

De certo a chamará, talvez para bem longe,

a palavra inspirada e convicta do monge

que nos fez o milagre e deu olhos á céga...

É por isso, meu Deus, que est'alma não socega!

SCENA II

Os mesmos e Ruy

Ruy, _entrando_

Bons dias, Senhor Cura.

_A Joaquina_

E a mãe Joaquina, então,

como passou a noute? Aposto que sonharam

muito commigo, sim?

Padre

Foi tal qual!...

Joaquina

Pois eu, não;

tive mais que fazer, dormi regaladinha

durante a noite inteira...

Ruy

E bem conchegadinha?

Joaquina

Nem mais!...

Ruy

E claro então que nem, sequer, cuidaram

de Talitha...

Joaquina

Cuidei, sim senhor...

Ruy, _prazenteiro_

Não entendo...

se dormiu toda a noite...

Padre, _a rir_

É, eu não comprehendo

tambem como se possa, a um tempo só, dormir

e velar!... É bem certo o rifão: mais depressa

se agarra um mentiroso...

Ruy, concluindo

Exacto; do que um coxo...

_Ambos riem muito_

Joaquina

Mas eu é que não sei que tanto tem que rir!

_A Ruy_

Nem é da sua conta

_ao Padre_

e nem da sua! Peça

a Deus Nosso Senhor que dê mais tento aos dois:

_batendo com um dedo na testa_

talvez haja por lá um parafuso frouxo...

Padre, _com gravidade comica_

Ó mana, isso é demais...

Ruy, _abraçando-a_

Não vá subir á serra;

deixemos essa historia a resolver depois

e vamos conversar da luz que se descerra

e que hoje ha de fazer toda a nossa alegria...

Padre

Fallava eu nisso mesmo antes da sua entrada.

Joaquina

E quer saber, menino, o que elle me dizia?...

Ruy

Pois diga, francamente, e não esqueça nada...

Padre

Não havia segredo, era tão natural

e tão simples, meu Deus, o que eu dizia ha pouco...

Joaquina

Deixe-o fallar, menino, anda que é mesmo um louco;

não diz coisa com coisa, a tudo julga mal

e já pelo peior!

_Contando pelos dedos_

Primeiro, que a pequena

breve nos deixará, que o Ruy vae desposal-a,

e depois, o convento: ora veja se cabe

uma cantiga assim na cabeça d'alguem?

Se ella ha de preferir aquella quarentena

á casa dum marido!... A mim já não abala

essa ideia!...

_Ao Padre_

Você nunca soube, nem sabe

um marido bonito os encantos que tem...

_A Ruy_

Finalmente, receia...

Padre, _interrompendo_

Eis onde pega o carro!...

E sabe Deus, Doutor, que se não fôsse a crença!!...

Ruy

Pois bem, Joaquina, diga, em que é que o Cura pensa?

Joaquina

Que depois de casada...

Padre, _interrompendo_

Ouça-me então, eu narro:

Receio, é natural, que ella siga o marido,

e venha a solidão morar nesta choupana

onde eu mesmo não sei como tenho vivido!

E que será de mim e que será da mana,

diga-me, Ruy, tambem o que será de nós,

dois velhos, nesta casa, enfermos e tão sós?...

vendo, a cada momento, a lucta nos escolhos

da saudade e da dôr, sem ter no dia extremo

aquella mão leal que feche os nossos olhos?!...

Fique sabendo, Ruy, porque motivo eu tremo...

Ruy

Sim, mas não tem razão, pensemos na ventura,

nessa immensa ventura...

Joaquina, _interrompendo_

É mesmo assim que eu penso...

Ruy

Que vae sentir Talitha ao vêr a luz do sol,

tantos annos depois de longa noite escura,

envolto o dôce olhar num véo pesado o denso!

Vamos fallar de nós, deste novo arrebol

que nos ha de banhar o coração e a alma,

como um luar de outomno, uma alvorada calma,

quando ella abrir á luz a languida pupilla

dos olhos ideaes, tão doces e tão flavos,

que são como um casal de abelhas que assimilla,

nas flôres dos jardins, o loiro mel dos favos.

Pensemos na expressão que o seu olhar vae ter

quando ella vir ao sol tão brancos os cabellos

do Senhor Cura...

Padre

Assim como a neve a descer

sobre a minha cabeça, em flócos e novellos...

Joaquina, _saudosa_

E nós dois a curvar ao peso da nevada,

o corpo já pendido, a procurar a estrada

que váe á eternidade...

Ruy, _interrompendo alegremente_

E já pensou, Joaquina,

no famoso jantar?

Joaquina

Não, depois se combina.

Como faltam ainda uns dias ao Natal

vamos tratar primeiro...

Padre, _atalhando_

Isso! do nosso almoço,

porque eu já estou sentindo um enorme alvoroço

cá por dentro.

_A Ruy_

Que diz?

Ruy

Tudo quanto fizer

a mãe Joaquina, está bem feito.

Joaquina, _ironica_

Agradecida!

Eu já volto.

_Sae_

SCENA III

Padre e Ruy

Padre

Então, Ruy, pensou no resultado

que vae ter para nós a sua operação?

Ruy

Tenho pensado muito e só me felicito:

parece que se abriu um vasto rosicler,

enchendo de perfume o lar da minha vida;

descanta-me no peito o coração alado

tão viva, tão alegre e limpida canção,

que me parece ouvir palpitar o infinito

e a dôce voz de Deus abençoar-me o nome...

Padre

Pois bem, Ruy, entretanto a duvida consome

os meus dias; medito e tenho muito medo

de uma lucta que vae ser travada, em segredo,

no seio de Talitha...

Ruy

E então que lucta é essa?

Padre

O encontro, á luz do Sol, do amor e da promessa.

Conheço-a muito bem. Alma branca de pérola,

possue alguma coisa assim divina e cérula.

Foi creada por mim, na dôce região

em que repoisa a crença á sombra da oração...

e sei que a pobresinha, um dia, prometteu

professar e vestir o burel carmelita,

se a Virgem lhe voltasse o seu perdido olhar.

A Mãe de Deus ouviu a prece, mas agora

que um novo dia aponta a curva azul do céo,

mostrando-lhe o porvir numa formosa aurora

de amor e de ventura, a angelica Talitha

verá, na sua frente, erguer-se e fluctuar,

constante, pertinaz, energica e severa,

a promessa que fez, a consciencia austera

a exigir-lhe que a cumpra e o seu primeiro amor

a sorrir e a tental-a...

Ruy

Esse mesmo receio

tambem me preoccupa. Eu já presinto a dôr

que vae, como um espinho, amargurar-lhe o seio.

Assim a Providencia ás vezes desconhece

o proprio mal que faz e como que se esquece

da victima innocente e nessa lucta enorme

a desgraça feroz que não cança, nem dorme,

de certo vencerá, se nós que a divisamos

ao longe, no horisonte, a deixarmos crescer

tão alto, que domine aquelle pobre ser.

E preciso pensar e vêr bem se afastamos

da sua intelligencia a ideia do convento,

como se afasta a flôr dos impetos do vento.

Padre

E quem terá prestigio e força de arrancar

áquella consciencia, a dôce, a delicada,

a candida expressão da promessa sagrada

que ella espontaneamente ergueu junto ao altar?

Ruy

Nao desejo arrancar essa illusão formosa

á crença da sua alma... A raiz dessa rosa

não é muito profunda, apenas esbraceja

á flôr do coração, por isso não viceja

ainda como o seio altivo e perfumado

de uma corola aberta!... Um botão delicado

agora principia a despertar á luz...

Dessa casta missão, que moverá Jesus,

sómente, Senhor Cura, a sua phrase austera

se póde encarregar; o prestigio da idade,

a alvura de luar das cans alabastrinas,

a palavra de amor, piedosa e severa,

do seu conselho bom, tão cheio de amizade,

a sua consciencia e as affeições divinas

que avizinham do céo o seu viver de santo,

a fé que o seu olhar inspira a quem o fita,

hão de estancar, por certo, a dôr, fonte do pranto,

nos olhos virginaes da mimosa Talitha.

Padre

Sacerdote de Deus que o serve, ha tantos annos,

nas duras provações, na dôr, nos desenganos,

sem nunca haver mentido uma só vez na vida,

tenho medo que a voz de commoção me trema,

que me fuja o valor á hora assim blasphema

de entregar á mentira esta fiel guarida...

Ruy

Caridosa mentira, ó culpa dôce e casta

que salva uma esperança e mais um anjo afasta

á amargura cruel de um grande sacrificio!

Responda, Senhor Cura, em sua consciencia,

acredita que Deus condemne uma existencia

purissima de flôr, a tamanho supplicio?

Que peccados terá Talitha a redimir

que precise descer em vida á sepultura,

agora que brilhou a estrella do porvir

aos seus olhos, sem luz, na densa noite escura?

Não mente, Senhor Cura, o labio quando salva:

é aspera a mentira e tem a côr terrena,

ao passo que a sua alma é branca, de açucena,

e a sua phrase é sã, é redemptora, é alva!

Em vez de sacerdote, a confessar a freira,

seja Pae que dirige o coração da filha!

Aquelle olhar sem luz, durante a vida inteira,

desviou-lhe a razão para diversa trilha.

Estenda-lhe o seu braço, ampare-a no caminho,

traga de novo a rola ao palpitar do ninho!

Padre

E pensa, Ruy, que um Pae, se tiver consciencia,

deva pedir que a filha afaste da lembrança

a promessa que fez, com tanta segurança,

quando implorava a Deus piedade e clemencia?...

Ruy

Meu amigo, nao vê que esse immenso fervor

nascia do tropel da magua e do pavor?

Que, assim feita, a promessa, além de não ser santa,

as almas enlanguece e os corações quebranta?

Não vê que faltou luz áquella intelligencia?

Que aquella alma vergou á estolida exigencia

do desespero intenso e bárbaro, que a ancia

de revêr inda o sol da sua alegre infancia

envolver-lhe a cabeça em nimbos de ventura

a levaram, talvez, nessa hora de tortura,

á extrema tentação de dar a mocidade

por um dia feliz de viva claridade?

Levita, cuja mão diariamente eleva

ao throno do Senhor a hostia consagrada,

levanta esse sacrario á curva constellada,

a flôr que pede sol não viverá na treva!...

Padre, _depois de uma pausa_

Pois seja assim, meu Deus! e tu que o vês perdôa,

porque ha no meu peccado uma intenção tão boa,

tão pura e tão leal, que eu sinto adormecido

o velho coração por nunca haver mentido...

SCENA IV

Os mesmos e Joaquina

Joaquina, _entrando_

Que grandes trapalhões, aqui a badalar

numa palrice enorme e toda a gente á espera

que o doutor mais o cura acabem de fallar...

Ruy

Por que ha de ser assim tão má e tão severa?

Padre

Rabugice de velha!...

Joaquina

É só meu o proveito...

Ruy, _abraçando-a_

Deixe-o fallar, Joaquina, aquillo é tudo inveja...

da sua mocidade!...

_Riem ambos_

Joaquina, _entre risonha e severa_

Ai, ai! o malcreado!

Esquece a obrigação e falta-me ao respeito!

E a culpada sou eu! Ora não ha! Pois veja

que emquanto está gastando o seu palavreado,

seria bem melhor que cuidasse da enferma,

que vive ali no escuro abandonada e erma.

Padre

E você que fazia?

Joaquina

Eu fui tratar do almoço;

não andei de conversa á espera que o maná

nos cahisse do céo.

Ruy

Por isso falla grosso!

Joaquina

Não é da sua conta, ouviu?

Ruy, _com a maior gravidade_

Ouvi...

Joaquina

Pois vá

tratar do seu dever porque não faz favor...

Padre

Então que succedeu?

Joaquina, _amenisando a voz_

É que a pobre pequena

já cançou de esperar e quer vêr se o doutor

lhe permitte que venha até aqui á sala.

Padre

Que diz, Senhor Doutor?

Ruy

Que se Talitha ordena...

Padre

Pois faça-se a vontade...

Joaquina

Então, eu vou buscal-a...

_Joaquina sae.--O Padre, ancioso, passeia ao longo da sala; Ruy,

encostado á meza, olha para a porta por onde sahiu Joaquina.--Pausa

cheia de anciedade._

SCENA V

O mesmos, Joaquina e Talitha

_Talitha entra de olhos vendados, pelo braço de Joaquina. Ruy e Padre

vão ao seu encontro e tomam-lhe as mãos para conduzil-a a uma cadeira.

Joaquina, deixando-a, vae cerrar as janellas e portas. Senta-se Talitha

e conversam um pouco._

Padre

Como te sentes, filha?

Talitha

Afflicta, muito afflicta

por ver a luz do dia...

Ruy, _tomando-lhe a mão_

A mesma curiosa

de sempre!...

Talitha

Se parece á sua intelligencia

que não tenho razão!... Ha tantos annos céga!...

Joaquina

Deixa-o fallar, Talitha, isto é mais tagarella

do que as creanças, vês?

Ruy

Pois não creia, Talitha!...

Padre, _tomando Ruy á parte_

Prepare o coração e veja que anciosa

aquella vida está... tenha a maior prudencia!

Ruy

É muito natural; só emquanto não chega

o instante de tirar a venda que lhe vela

o dulcissimo olhar...

_A Talitha_

Diga, Talitha, ainda

sente alguma dôr?

Talitha

Não! apenas a impressão

do lenço que me causa a maior afflicção,

a vontade feliz, viva, crescente, infinda

de vêr de novo a luz...

Ruy

E não ha quinze dias

que lhe descubro a vista?

Talitha

Ha, sim, mas lá no escuro,

onde eu não vejo nada...

Padre

Assim é que convem...

Depois de tanto tempo, então, já pretendias

vêr livremente o sol? Seria prematuro...

Joaquina

É muito perigoso!...

Ruy

E sentia-se bem?

Chegou a distinguir, alguma vez, o aspecto

ou a forma geral de qualquer um objecto?

Talitha

Muitas vezes, pois não; primeiro vagamente,

depois com nitidez.

Padre, _alegre_

Mas então a doente

Recuperou a vista!?

Joaquina

Abençoada a hora

em que o menino entrou nesta pobre choupana!...

Ruy

Agradeçam a Deus!

Talitha

Doutor, porque demora

esta venda cruel que o meu olhar empana?

Ruy

Pois diga-me primeiro o que pensa de mim.

Talitha

Que é muito feio e máo...

Joaquina

Bem feito!

Ruy

E da Joaquina?...

Talitha

Penso della que é santa e que tem de setim

côr da neve o cabello, a pelle muito fina,

como eu creio que são as santas da capella.

Ruy

E o nosso Padre-cura?

Talitha

Um velhinho bondoso,

que vive para o bem e sobre os pobres vela!

Supponho que elle tenha a cabeça bem branca,

o olhar muito suave e d'expressão tão franca,

que appareça na face enrugada e senil

a dôce candidez da sua alma infantil...

E, cogitando assim, parece-me que vejo,

dos altos de uma torre, a uma enorme distancia,

como um jardim florido, a minha dôce infancia

vicejando a sorrir, a sombra do seu braço,

e o seu olhar de Pae enchendo todo o espaço

de luz, de muita luz, tão dôce e tão leal,

como o luar banhando as ondas de um trigal

numa noite estreitada, e o sangue me palpita

no seio, e o coração ardentemente agita

na immensa anciedade afflicta e pressurosa

de poder innundar a sua mão rugosa

de lagrimas febris e de beijos sem fim.

Ruy

Tantas coisas ao Cura e nada para mim!...

Talitha

Exactamente, Ruy; a saudade de vêl-o

augmenta a cada instante o meu triste flagello,

porque nos braços delle um dia adormeci

e não despertei mais... e ao Ruy...

_baixando a voz_

eu nunca vi...

Ruy, _com caricia_

Pois vae tornar a vêr a boa da Joaquina

que a trouxe ao collo, a rir, quando era pequenina.

_Aproxima-se de Talitha para tirar-lhe a venda_

Vae vêr o Padre-cura e matar os desejos

de lhe cobrir a face e as mãos de muitos beijos...

E vae me conhecer...

_Tira-lhe a venda_

_Silencio. Commoção geral. Talitha, acostumada á treva, não supporta a

luz; tapa os olhos com as mãos; depois habitua a vista, levanta-se,

olha, procura anciosamente. Antes de Talitha distinguir cada uma das

pessoas, encanta-se com a luz e com os objectos._

Talitha, _á luz, correndo á janella_

Céos! Vejo novamente

a luz que me faltou durante a meninice!

Ó Sol da minha infancia, a sorrir de contente

torno a vêr-te de novo. Azul do céo, meiguice

que ha muito não beijava o meu perdido olhar,

como deves ser lindo ao dôce despontar

da madrugada clara!

_Ao oratorio_

Oratorio velhinho,

junto ao qual, em pequena, eu tanto vez rezei,

como sinto vontade, agora que revejo

o teu branco Jesus, do amor e do carinho

com que pela manhã e á noite eu te beijei,

e hoje, meu velho amigo, a estremecer te beijo!

_Passa as mãos nos olhos, como para certificar-se que vê bem_

Mas parece-me um sonho!

_Pausa. De novo esfrega os olhos_

Eu já não sou a céga...

_Pausa_

Eu vejo tudo...

_Estaca; olha as paredes_

Sim, sim tudo...

_Olha para o tecto, baixa os olhos ao chão, volta-se para os lados,

palpa as cadeiras, palpa a meza, corre á commoda_

Eu não me engano.

Eu vejo a minha mão!

_Olha para as mãos_

Mais branca do que o panno

_pega o avental e examina_

do meu lindo avental!

_Põe a mão sobre o peito, como que desmaiada_

Ah! coração, socega...

_Neste momento Joaquina, receiando que Talitha caia, corre para

amparal-a, dizendo_

Joaquina

Credo! Jesus, Senhor!

Talitha, _como que acordando aos gritos de Joaquina, ao vêl-a tem uma

commoção e exclama_

Joaquina! ó boa e santa

velhinha, dôce mãe que tanta dôr e tanta

lagrima derramaste, aos pés do meu bercinho!...

_Vendo o Cura, lança-se a elle, soluçando; abraça-o, beija-o, vê-o,

chora, ri, torna a abraçal-o, doida de alegria_

Mas como eu sou feliz, meu Pae, meu Avôsinho!

_Deixa afinal o Cura e corre para Ruy_

E Ruy que me salvou...

_Vae para abraçal-o, estaca: o pudor impede-a; baixa os olhos, em silencio_

Ah!... Ruy... eu nunca o vi!...

Padre, _soluçando e enxugando as lagrimas, aproxima-se della, toma-lhe a

mão e leva-a junto de Ruy_

Beija-o, Talitha; beija, elle é digno de ti,

emquanto eu vou render a Jesus Christo, filha,

graças por essa luz que nos teus olhos brilha.

_Sae, enxugando os olhos_

Joaquina, _a Ruy_

Á Virgem prometti uma lampada accêsa

durante uma semana, e por sua intenção,

se Ella daqui levasse as dôres e a tristeza,

fazendo este milagre. Hei de accender o azeite

e rezar a seus pés, com toda a devoção,

pedindo á Virgem Mãe que este meu voto acceite.

Louvado seja Deus! O Céo vos abençôe!

_Sae_

SCENA VI

Talitha e Ruy

_Depois de uma pausa prolongada_

Talitha, _sempre pudica_

Porque me encara assim? Offendi-o? Perdôe.

Ruy, _caminhando para ella_

Fitei-a porque sinto o brilho desse olhar,

como um rio de luz suavissima, innundar

a minha mocidade inhospita e sombria,

num banho redemptor de dôce calmaria.

E parece-me vêr a sombra avelludada

da sua fronte branca, e pura, e macerada,

fugir espavorida á luz desse clarão...

Talitha

Que eu devo tão sómente á sua compaixão...

Ruy

Esqueça que fui eu...

Talitha, _interrompendo_

Não sei como se esquece...

Ruy

Então recordará, por toda a sua vida,

o nosso amor feliz?

Talitha

A sua alma duvida?

Ruy

Talitha: evangelho em tres actos · 第 1 / 7 段