_Expõe Antonio Nebrixa a segunda causa da pedantaria: motivos de
haverem tantos Professores inhabeis: entre os de ler saõ raros os bons:
como se póde isto remediar: os de Latim ainda saõ bastantes: muitos
particulares enganam os pais de familia: os rapazes devem frequentar as
aulas públicas, &c._
Sahindo Marco Fabio todo consternado daquelle assento para o seu
primeiro, logo para alli se foi chegando Antonio Nebrixa: estava elle
embrulhado em hum pellote cor de fogo de feitio mui exotico, com hum
gorro pardo na cabeça, que lhe chegava ao meio das costas: e apenas se
assentou deixou cahir hum sobreolho taõ feio, que parecia huma carranca
de navio. Mas cuidando eu que elle ficaria eternamente severo, naõ
foi assim: por quanto, feitas as suas continencias, soltou taes
gargalhadas de riso, que Crates Mallotes lhe disse com muita brandura:
Eu vos escolhi para que ajudeis a fazer a caridade aos Professores
pedantes e isto he o ponto do maior melindre, e da mais alta
importancia: dizei a verdade, e deixai as risotas para occasiaõ competente.
Ainda bem naõ tinha o velho Mallotes concluído taõ judiciosa
admoestaçaõ, quando Nebrixa, compondo o seu comprido barrete assim
começou: Se os pais de familia saõ mui culpados na pedantaria dos fins
deste seculo, os mestres lhes ficam a perder de vista. De toda a Europa
vos referiria exemplos, se a minha commissaõ naõ fora muito mais
estreita. Naõ penseis todavia, que hum homem como eu, depois de deixar
sepultados os enganos, e as mentiras com os despojos da humanidade, que
a terra engolio, se atreva a satyrisar muitos Professores Portuguezes,
os quaes com as suas obras, e com as suas lições, que os eruditos
bem conhecem, ainda hoje servem de honra, e de lustre áquella naçaõ; a
qual desde o Reinado do grande D. Diniz, dignissimo neto do nosso D.
Affonso Sabio, até ao presente tanto da escola de Minerva, como da
escola de Marte, tem offerecido ao mundo heróes taõ prodigiosos, que a
fama, tendo cem bocas, apenas os póde contar. Dirige-se pois a justiça
de minhas queixas, contra milhares de Professores ignorantes; e desejára
fazelos conhecer, para que naõ deshonrem os benemeritos, sendo
confundidos com elles.
He justo, disse Filippe Melanchton, que sejam conhecidos os zangãos
pelos effeitos, e que se restitua o mel ás sabias abelhas.
Saõ mui verdadeiras as vossas expressões, disse Antonio Pereira: já
antes da minha passagem para a vossa companhia observei muitos
presumidos a enganarem os pais de família, com ditos apanhados aos
sabios, feitos Catões pelas assembléas, e pelos botiquins, a fim de
ajuntarem hum bom rebanho de rapazes, os quaes com prejuízo da bolsa
paternal vem a ser os semeadores da charlatanaria, e ignorancia de seus
Mestres.
Sim, disse Nebrixa, semelhantes Professores saõ primos co-irmaõs do
çapateiro, que naõ tendo geito para fazer çapatos vendia saccos de
antidoto, mas antídoto no nome; porque lhe custava menos a ser Medico
dos simplices, do que a fazer calçado a casquilhos, e a peraltas.
O Augustissimo Rei D. José, continuou Pereira, Nome, que proferido fará
vir aos labios de Portugal saudosas, e ternas lagrimas, sempre que se
lembrarem do que lhe devem, escolheu para educaçaõ da mocidade os homens
mais benemeritos, e naõ sei como tem graçado tanto o pedantismo.
Ninguem melhor que tu o sabe, respondeu Nebrixa; porque foste hum
respeitavel membro da Meza Censoria; por isso bem conheces a causa de
tantos Professores ignorantes: fugiram acaso do mundo as
_Instrucções_ appensas justissimo _Alvará_ de 1759? E naõ determina elle
que senaõ ensine nem publica, nem particularmente sem rigoroso exame?
Naõ dá bem a entender quaes devam ser os conhecimentos dos Professores?
O Augustissimo D. José para os animar naõ os incorporou em Direito
Commum, fazendo-os Nobres? Naõ vês estudantes de Latim, para que eu naõ
falle em os de outras faculdades, feitos Mestres sem outros principios
mais que os do teu Compendio, ou da Arte de Felis Mendes, e, se muito,
do teu Novo Methodo? Podem por ventura similhantes Mestres desempenhar
as suas obrigações?
Sempre clamei, disse o sabio Portuguez, em o Tribunal contra esta
tolerancia de Professores inhabeis, sendo aliás excluidos muitos
sujeitos de merecimento; porém a culpa....
Bem sabemos (disse Crates Mallotes, apressado para cortar o fio) bem
sabemos aonde se dirigem as tuas queixas: nós naõ queremos, que
nenhum vivo diga, que os mortos tiveram a deshumanidade de lhe pôr a par
de seu nome os seus defeitos. Os nossos discursos saõ sagrados tanto,
como os dos Prégadores; por isso devem só ser dirigidos contra o erro em
geral. Em todos os estados do mundo ha bom, e máu, e só algum idiota
quando nos vir fallar contra o máu, he que poderá cuidar, que nós
fallamos contra o bom. Pelo que, meu Nebrixa, ide discorrendo em
primeiro lugar sobre os Professores de ler: que he negocio de grande
ponderaçaõ.
Nebrixa, que estivera applicando o ouvido a taõ justas expressões,
continuou dizendo, de cem Professores de ler, se achardes hum capaz
tendes feito huma descuberta, digna de avultadas alviçaras. Ide pelas
escólas, e ouvireis desconcertados berros de rapazes: que naõ só vos
faraõ chagas nas orelhas, mas até vos encheraõ da mais profunda melancolia.
Todos esses incómmodos, disse o Barbadinho, se poderiam bem soffrer,
se os moços dahi naõ sahissem gagos toda a vida. Porque por certo quando
estaõ a ler, nada differem de quem nasceu com a lingua travada: só
alguma palavra deshonesta he que pronunciam expeditamente. He taõ raro
como mosca branca o que ensina os meninos a destinguir bem as syllabas,
a pronunciar naturalmente as palavras, a respeitar pontos, e virgulas.
Se similhantes homens naõ sabem que coisa seja nem syllaba, disse todo
agastado Marciano Capella, nem que coisa seja fallar, nem para que sirva
a pontoaçaõ, como haõ de ensinar o que ignoram?
Pode acontecer, respondeu Lancelot, que qualquer saiba para si, e naõ
para ensinar; porque saõ coisas bem differentes: e que acontecerá a quem
ensina, sem saber nem o que, nem o como deve ensinar? Que acontecerá?
respondeu Sciopio, encher o Publico de babosos, e pedantes; porque os
erros da escóla quasi sempre saõ incuraveis; e os melhores
Professores de Latim, pondo todas as suas forças para os remediar, raras
vezes o conseguem.
He huma dor de coraçaõ, proseguio Nebrixa, ver engenhos taõ raros, que
continuamente se vaõ perdendo por culpa de Professores de ler.
Ainda Antonio Nebrixa mal havia acabado a sua queixa, quando Remmio
Palemaõ se levantou com toda a arrogancia, e disse: Porque naõ mandam
similhantes homens guardar pórcos?
Ouvindo isto Terencio Varro, o qual havia sido insultado em Roma por
aquelle mordaz, assim lhe respondeu: Fazes mais favor a esses homens, do
que em outro tempo me fizeste, quando por toda a parte me andavas
chamando o Porco das Letras, e queres que similhantes pedantes sejam
porqueiros, em vez de os mandares comer farellos?
Todos gostaram muito daquella singeleza Romana, mas Antonio Nebrixa,
que foi hum Hespanhol honrado, disse com toda a inteireza: Ainda naõ he
taõ mau, que haja quem ensine a ler; e aquelle que sabe, e executa a sua
obrigaçaõ faz mais serviço ao Publico do que se pensa lá no mundo: e bem
vedes quanto estimamos estes poucos de quem nos prezamos muito de serem
nossos companheiros, e a pena he virem para cá taõ poucos deste calibre!
Entaõ abaixaram a cabeça os Professores elogiados, e Crates Mallotes
louvou muito o relator, que assim proseguio: Os Professores Regios de
ler apenas tem salarios para o aluguel de casas; e por isso ou haõ de
ser homens incapazes, ou haõ de procurar o sustento por outra via. Se se
dessem os mesmos ordenados, e as mesmas honras aos Professores de ler,
que se daõ aos de Rhetorica, haveriam muitos eruditos que servissem ao
Estado de boa mente, neste ramo: entaõ se ensinaria a Grammatica da
Lingua materna na escola, aprender-se-hia qualquer lingua com muita
facilidade, e naõ morreriam de trabalho os Professores de Latim em o
ensino de gente bruta.
Tivessem elles dinheiro, disse Dionisio de Syragoça, que honra lhes dei
eu, porque naõ me desprezei de ensinar meninos, depois de ter sido o que
sabeis. Mas já que tendes fallado tanto na pedantaria dos Professores de
ler de quem fui collega, dizei tambem alguma coisa dos de Latim para
consolaçaõ da minha tristeza.
Tem havido optimos Professores de Latim, continuou Nebrixa, e ainda hoje
os ha; porém para fallar com a sinceridade de defuncto, naõ me posso
dispensar de dizer, que saõ muitos mais os idiotas. Depois que se deram
Provisões de favor, isto he, sem se fazer rigoroso exame, ou depois que
muitos entraram a ensinar sem faculdade alguma do Estado, entaõ tambem
começáram apparecer nuvens de falladores, que sendo huns Professores
diminutivos, sem a mais leve tinctura nem de Logica, nem de Critica,
andam feitos censores dos melhores livros, por onde podiam aprender
(a terem os conhecimentos que a lei delles requer) e vaõ surrando o
entendimento da mocidade com os cartapacios defumados, que sem offensa
de seus autores, deviam ser condemnados a embrulhar adubos.
He forte cegueira, disse Gaspar Sciopio, ver ainda hoje homens mais
afferrados á opiniaõ dos livros por onde aprenderam, do que os
Pythagoricos a de seu Mestre!
Mas esses pedantes, disse o Barbadinho, neste tempo escuro, em que mui
poucos aprendem Latim, he que trazem mais algum estudante.
Esses Mestres, continuou Nebrixa, pela maior parte saõ particulares
(reparai, Guliver, que naõ digo, _Todos_) e como o estudante traz a
mezada em o fim do mez, he preciso fazer a boca doce aos pais; murmurar
dos estudos Regios, e persuadir-lhes ser coisa menos decente mandar os
filhos ás aulas dos pobres.
Pobres de juizo, disse Antonio Pereira todo agastado, pobres de
juizo saõ os que accreditam similhantes novelleiros. Como se os
estudos do Rei naõ fossem a honra de todos os vassallos? Ou como se
fosse desprezo acompanhar com seus irmãos aquelle que tendo melhor
fortuna, naõ tem outra natureza?
Ainda se servem, proseguio Nebrixa, de outro estratagema mais sagaz, que
he apregoarem, ou por si, ou por seus devotos, que as aulas Regias andam
cheias de moços mal procedidos.
Este seculo, disse o Barbadinho, está cheio de corrupçaõ, e como as
aulas particulares, trazem alguns estudantes mais que as outras, tambem
vos podeis persuadir, que trazem muito peior gente.
De casa, disse Quintiliano, já os moços trazem os máos costumes, nem he
preciso que os venham buscar ás aulas.
Mas ainda dado, e naõ concedido, proseguio Nebrixa, que de casa venham
innocentes; nem por isso he justo que a mocidade deixe de frequentar
as aulas Publicas. Os pais devem vigiar sobre a conducta, e companhias
de seus filhos; mas tambem devem fazer a vista grossa a certas coisas,
que naõ offendendo a virtude, he necessario que os rapazes em quanto saõ
rapazes as pratiquem: aliás em idade incompetente seraõ os peiores
homens, segundo a triste experiencia o tem mostrado.
Parece seria melhor, disse o Conde de Castel-Branco, ensinar em casa aos
meninos os Estudos menores, para lhes evitar os laços, que a seus tenros
annos o mundo costuma armar.
Nada, nada, respondeu Antonio Pereira, porque em idade maior he que se
conhece o erro; por isso que ficam estupidos: engolem todas as petas,
naõ prestam para a sociedade: a sua brutalidade os conduz para os vicios
mais grosseiros; e ficam em tudo huns perfeitos Sardanapálos.
Bem: concluio Nebrixa, hum tal encerramento, he mui bom para mulheres,
para homens naõ tem geito. Pouco vale clausurar os rapazes para
evitar más companhias, em casa mesmo acharaõ quem os estrague: e oxalá
fossem mentirolas estas nossas expressões! E deixai murmurar os
pedantes, esses que ensinam a conhecer as sylabas pelos fôlegos; e que
toda a sua sciencia consiste em affeiar, e corromper o verbo _arcabuzear_.
Acabando o Hespanhol de dizer isto, e entrando por algum tempo a engolir
em secco, exclamou: Professores pedantes, Professores idiotas, tratai de
outro officio; naõ augmenteis o charlatanismo com os desconcertos da
vossa ignorancia. E tu ó mortal (virou-se para mim) muito bem tens
ouvido os justos louvores, que aos benemeritos havemos dado.
Entaõ todos lhe abaixaram profundamente a cabeça em signal de parabens;
e elle se levantou, sahindo com a mesma cara com que principiára a sua
commissaõ.