_Expõem Marco Fabio a primeira causa da pedantaria: erros de educaçaõ:
bandalhices: desprezo da literatura: funestas consequencias, &c._
Quando todos os Grammaticos defunctos estavam com a maior attençaõ, fez
huma grande reverencia Fabio, e deu com o queixo no peito huma tamanha
pancada, que todo o edificio tremeu, e eu de medo cahi sem sentidos; nem
por certo o meu desmaio foi similhante aos fenicos das damas, que fingem
diabruras para terem occasiaõ de fallarem aos casquilhos: Sanches que
era bem versado em Medicina, logo me chegou ao nariz hum estimulante, o
qual me tornou taõ esperto, e huma memoria taõ feliz, como podereis ir
observando em todo o processo destas arengas.
Mas tornando ao proposito: Depois daquella ceremonial venia, que taõ
cáro me custou; voltou Quintiliano successivamente a cabeça para os
lados de toda a assembléa, do mesmo modo que fazem os Oradores em o
principio de seus discursos; e entaõ assim principiou: He sem duvida
serem os pais de familia a primeira causa da pedantaria. Apenas os
infelices meninos nascem, logo entram a puchar por elles para o curral
da ignorancia, e pelos caminhos do vicio he que vaõ arrastrando aquellas
innocentes victimas para os altares da charlatanaria, e da maldade.
O peor he, disse Francisco de Brito, que muitos pais ensinam aos filhos
as mais ridiculas extravagancias, e estaõ persuadidos, que só elles
sabem dar boa creaçaõ a seus filhos. A esses, disse Nicodemos
Frischilino, a sua tolice os desculpa; mas nenhuma tem os que praticam
todo o genero de maldades sem pejo da sua familia ser testemunha, e
quereram que ella seja virtuosa?
Taes, disse Lucio Joaõ Scopa, com suas amoestações, conseguem o mesmo,
que a mãi dos caranguejos, a qual mandando aos filhos, que naõ andassem
ás avessas, elles responderam: Andai vós ás direitas, e nós vos seguiremos.
Bem sabeis, disse Fabio, que eu fui o primeiro Mestre público que em
Roma ensinou, e nunca cessei de clamar contra a má educaçaõ, que os pais
daõ aos filhos; mas os homens de hoje saõ infinitamente mais culpados.
Que Romano, disse Samuel do Prat, naõ entranhou com o seu exemplo em o
coraçaõ dos filhos o amor da patria, e das letras?
Ora pois, continuou Fabio, os idiotas nunca em Roma figuraram, senaõ em
os seculos da escuridade; por isso os pais procuravam pela sciencia a
fortuna dos filhos, e a sua.
Mas em que pontos principalmente, diz Elias Maior, peccam hoje os
pais em a educaçaõ de seus filhos? Dois extremos viciosos, respondeu
Quintiliano, saõ as causas primitivas. Huns os tratam com excessivo
mimo, outros com excessivo rigor. Daqui nasce, serem estes clausurados
em casa, como Freiras, e serem aquelles largados sem freio para onde
querem. Todavia accresce a tudo o mau exemplo: porque, como a virtude,
anda fogindo destas guerras, e destes desaforos modernos, se o menino
naõ a encontra lá por fóra, muito menos a achará em casa, aonde nem se
falla em Doutrina, nem em Religiaõ, nem em temor de Deos, nem amor da
patria, do Soberano, das sciencias, &c. Ora vede agora que taes doutores
seraõ os filhos de taõ bons pais? Por isto, disse Buchnéro, o mundo está
cheio de paraltas, e estadistas, como nunca.
E que vos parecem, disse Barnabé de Busto, estas bandalhices da moda?
estes çapatos de bico mais comprido, que corno de boi? Estes
calções, que custam mais a saccar das pernas, do que a cobra a
largar a sua pelle? Estes dois relogios? Estes chapeos de zabumba? Por
ventura os Romanos senhores do universo praticaram no meio do seu luxo,
e das suas riquezas, similhantes extravagancias?
Naõ chameis, respondeo Fabio com muita brandura, naõ chameis a isso
extravagancias, chamai-lhe falta de bóla. Os Romanos foram muito sabios:
todas as ordens tinham seu modo de trajar; e o mesmo homem em as suas
differentes idades usava de vestido accommodado a cada huma dellas.
Os nossos antigos Reis, disse André de Resende, foram inimigos
declarados do luxo: e estavam taõ persuadidos serem estes os sentimentos
de todos os seus vassallos honrados, que D. Affonso o Bravo deu hum
grande golpe no luxo para adoçar a magoa publica, que nasceo das
desavenças, que elle tivera com seu irmaõ: e o que foram os Portuguezes
daquelle tempo, prova-se com a batalha do Salado, cuja memoria, faz
parecer, todas as que depois houveram, brincos de rapazes.
Mas ainda dado, replicou Barnabé de Busto, que entre os antigos,
apparecesse alguma vez o luxo, esse lobo faminto, que devora a honra, a
virtude, e o dinheiro, vio-se em alguma época taõ enfeitado de
redicularias como hoje? Os çapatos de espeto, naõ mostram quanto he
romba a cabeça de quem os traz? Os calções de talas fariam menos
deshonestos os antigos Faunos, quando dançavam nús em os theatros? Os...
Basta, disse Manoel Alvares, o peor he o custo do feitio, e da peça, que
dura tanto, como aquelle animalinho, que nasce pela manhã, e morre á
noite. Eis-ahi a causa, diz Taberio, de huma enxurrada de caloteiros, e
de meritrizes, que tudo varrem.
Naõ houve seculo, continuou Manoel Alvares, nem mais farto de
viveres, nem mais abundante de gente honrada que o meu; ensinei no
pateo de Santo Antaõ, e nesse tempo o ornato dos estudantes naõ passava
de huma sotaina, e capa de baeta, assim como todo o luxo dos Cidadaõs
consistia em huma casaca de saragoça de abas entrouxadas, e canhões de
barbas até aos joelhos.
Mas essas casacas, disse Quintiliano, nunca eu approvaria pelo muito
panno, que consumiam. Naõ tendes razaõ, tornou o velho Portuguez, essas
casacas ficavam dos avós aos netos, e vinham a ser hum respeitavel
morgado das familias: eram as melhores insignias de hum homem honrado;
nem havia precisaõ de outro distinctivo: hoje porém naõ sabereis
differençar nem hum ridiculo, nem hum homem de bem, senaõ com muito
trabalho.
Dizeis bem, disse Caspar Sciopio, os homens honrados algum dia naõ
andavam com penicos na cabeça, nem com brincos nas orelhas, salvo, se
por desgraça se faziam escravos da Rainha da Lidia; porque entaõ naõ
só seriaõ capazes de fiar na roca, mas tambem de levarem huma albarda ás
costas com muito gosto.
He certo, proseguio Quintiliano, que os pais erram muito em consentir
similhantes loucuras aos filhos, e ainda mais em praticalas; porque
estes erros abrem a porta a infinitos males, os quaes perturbam a
sociedade. Mas os procedimentos a respeito do espirito tem consequencias
tanto mais funestas, quanto he mais attendivel a parte do homem, a qual
só o póde fazer feliz, ou desgraçado.
Isso he, disse Curcio Nicia, ao que menos se attende: entrega-se o
menino commummente a huma mulher para o ensinar a ler, ou vai a escóla,
ou vem Mestre a casa. Porém como o ensinar a ler, sendo coisa bem
trivial, naõ he todavia para ignorantes, ahi se vai condemnar o
innocente ao trabalho inutil de seis, sete, e mais annos, e por fim he
tal a sua leitura, que faz vomitar a quem ouve. Perdido este tempo,
assim como havia de ser o resto da vida se em taes lições fosse gasto,
vem entaõ Mestre Francez, já o moço sabe fazer seus comprimentos
naquelle idioma, o pai, e a mãi se estaõ babando a ouvir o seu novo
Monsieur. Entaõ julgam terem em casa hum sabio da Grecia; mas naõ sabe o
_Padre nosso_!
Isso, disse Sciopio, he só para aquelles, cujos pais tem boas mezadas,
que dem aos emigrados, que se naõ contentam com bagatellas: que os
outros quasi todos vaõ para o Collegio aprender Mathematica sem fumos de
literatura.
Naõ fallemos nisso, proseguio Quintiliano, quando o Lente os manda á
pedra, entaõ conhece, que nem sabem fallar. Mas a pezar de tudo, disse
Sciopio, saõ os chefes dos estadistas da moda: elles pelas assembleas, e
pelos botiquins, de tudo fallam, de tudo decidem, para tudo tem bellos
planos; e com o seu luzidio compasso tudo sabem medir. Porém estes, e
muitos outros falladores similhantes, de que por desgraça abunda
toda a Europa, saõ huns fracos, e a deshonra dos racionaes, assim como o
jumento he a dos brutos.
O pai, disse Antonio Pereira, que manda seus filhos a essas sciencias,
sem bons principios de literatura, he similhante ao que obriga o
Architecto a fazer huma alta torre sem nenhum alicerce, a qual mais
hoje, mais amanhã ha de cahir. Ora vede quaes seraõ as consequencias da
sua quéda!
Esse era o justo motivo, disse Antonio Feliz Mendes, de tu fazeres
alardo das tuas artes de Grammatica Latina, quando nenhum fazias das
outras infinitas obras, de que tambem foste autor.
Era essa, continuou Fabio, huma vaidade digna do sabio Pereira, e teria
feito a Portugal hum eterno serviço, se em vez do trabalho de algumas
das suas obras, que o naõ honram, aperfeiçoasse o seu Novo Methodo, e o
seu Compendio, para o que tinha forças de sobejo. E certo, o homem
que, naõ sabe Grammatica, sejam quaes forem os seus estudos,
nenhumas Bullas o pódem dispensar de ser pedante. Como poderá perceber
os lugares da Historia, como entenderá os authores, quem ignora a
sciencia das palavras? Como dará o juiz a sua sentença? Como fará o
Theologo as suas analyses.
Mas as aulas publicas de Latim, diz mui agastado o respeitavel Pereira,
estaõ quasi vasias de estudantes, que dizeis? Digo, proseguio o Romano,
que toda a culpa he dos pais; e por isso vereis cada vez mais idiotas,
mais ociosos, mais presumidos, mais gárrulos.
He huma piedade, disse Antonio Félis, ouvir a muitos pais as causas
futeis de naõ mandarem os filhos ao Latim. Naõ pertendemos, dizem elles,
que sejam nem Frades, nem Clerigos: nem taõ pouco se necessita de Latim
para ser bom Cidadaõ.
Naõ se necessita de Latim, disse o grande Diogo de Teive todo fóra do
seu sério, naõ se necessita de Latim para qualquer ser bom homem,
mas necessita-se delle para naõ ser asno. Ainda que a lingua Latina naõ
fosse a lingua dos sabios, bastava para ser estimada o ter muitas filhas
na Europa, que herdaram muito cabedal da sua mãi, do qual nunca já mais
saberá dar conta quem ignorar as riquezas della. Assim he que estaõ
infinitos sujeitos em empregos publicos, ganhando salarios enormes, os
quaes nem escrevem coisa direita, nem sabem atar duas palavras juntas, e
o mais por modestia fique no silencio.
Tudo isso, disse Joaõ de Barros, he fructa deste tempo tenebroso. O
mundo em suas mudanças tambem vai variando os seus registos, e por força
alguma vez sahiraõ os desaffinados. Até agora tendes bem mostrado as
doenças literarias; naõ he porém da nossa caridade deixalas sem algum
remedio. Julgo pois, que se deve entregar o menino a hum Mestre erudito,
para o ensinar bem a ler, e a amar a sua Religiaõ, e os seus deveres:
depois disto deve aprender a Grammatica da sua, lingua materna;
porque, naõ embargante, que em a Latina se acham os principios geraes de
todos os idiomas, naõ devem todavia ignorar-se os particulares daquelle
que mais que nenhum ha de servir aos interesses, e ás utilidades da
vida. Entaõ vá aprender Latim, e por fim Filosofia Racional. E sem estes
subsidios escuza de avançar a outras sciencias; porque he melhor naõ
saber, que saber mal as coisas.
O conhecimento da Grammatica da lingua materna, continuou Fabio, tem
sido recommendado pelos sabios de todos os tempos: nós a ensinavamos em
Roma juntamente com a Grega, e veio assim a fazer-se a nossa linguagem
taõ bella, e taõ universal pelo mundo, que só entre póvos selvagens, se
acharia, e com muita dificuldade, quem naõ entendesse alguma coisa do
idioma Latino. O Imperador Carlos Magno julgou naõ ter ainda alcançado a
immortal gloria com a multidaõ dos seus triunfos; por isso em a sua
velhice compoz para as suas gentes huma Grammatica Tudesca.
Por mais que clamei, disse Barros, já em o feliz Reinado de D. Joaõ III.
por introduzir nas escolas a Grammatica Portugueza, nunca o pude
conseguir; nem depois sobre isto foram observados os Decretos do sempre
Augusto D. José I.
Amigos, proseguio Quintiliano, isso pertence aos Professores, e se os
pais nisto tem alguma culpa, he só em entregarem seus filhos a Mestres
pedantes. Elles os procurariam bons, se hoje houvesse a lei que
desobrigava os filhos de soccorrer aos pais, que tendo posses, naõ os
mandavam instruir nas letras. Em quanto esta lei durou foi a Grecia em
tudo respeitavel, e se ainda agora revivesse em os póvos civilisados,
naõ seria a substancia publica devorada por infinitos glutões, que tudo
engolem, e que de ordinario saõ os menos fiéis á sua patria.
Hum homem erudito, e Christaõ, disse Duarte Nunes, vendo o
ignorante, e inhabil a cevar a gula com o comer ao seu merecimento
devido, póde sim por alguns momentos queixar-se; he com tudo impossivel
moral esquecer-se da gratidaõ dos beneficios; mas o idiota presumido
cuida, que mais se lhe deve, e ingrato desdenha de quem o farta.
Tudo isso he verdade, disse Joaõ Rivio; mas reparei, que Barros naõ
fallou em aprender Francez, quando alguns autores mandam que o seu
estudo seja antes do Latim. Esse Portuguez, continuou Fabio, he mui
douto, e naõ devia favorecer a pedantaria: quer justamente que logo que
se saiba ler, se aprenda a Grammatica da lingua materna, e depois a
Latina, por ser mãi da Franceza, da Portugueza, da Italiana, da
Hespanhola, e de outras, que facilmente aprenderá quem souber a lingua
dos sabios. E digo-vos que o Francez tem estragado bellissimos idiomas.
No tempo em que ensinei letras humanas em a Universidade de Coimbra,
disse o honrado Teive, poucos, ou ninguem estudava Francez. Porém he
certo, que nunca Portugal teve nem mais sabios, nem melhor gente. Naõ
possuia entaõ a nossa lingua nem outra formosura, nem outras riquezas,
que as herdadas da sua respeitavel mãi: e hoje apparece de quando em
quando com a sua capa de remendos, mais ou menos despresivel, segundo os
retalhos, e os pontos do alfaiate, que a cozeu.
Mas tendo os Franceses, disse Mariángelo, vertido as obras dos outros,
como fica notado, naõ será inutil saber esta lingua. Sempre saõ versões,
respondeo Julio Cesar Escaligero, melhor he ler os originaes. Naõ sou
contra este idioma; confesso que nelle estaõ escriptos bons, e máos
livros. Com tudo estou pelo sentimento commum dos sabios, que o seu
estudo naõ deve ser o primeiro; e até julgo naõ ser presentemente grande
perda ignoralo, em quanto que naõ chegam das duas Anticeras navios, e
mais navios carregados de helleboro para curar a funesta loucura,
que se apoderou das cabeças daquelle povo infeliz.
Pais de familia; pais de familia exclamou Fabio, vós sois a primeira
causa da pedantaria geral, e oxalá o naõ fosseis tambem dos horrores
deste seculo de lagrimas.
Assim acabou Quintiliano, deixando ver em seu triste semblante a magoa
de seu peito.