Entretanto, a bella Kinnara tinha um plano engenhoso e secreto. Uma
noite, como o rei examinasse alguns papeis do Estado, perguntou-lhe ella
se os impostos eram pagos com pontualidade.
--_Ohimé!_ exclamou elle, repetindo essa palavra que lhe ficara de um
missionario italiano. Poucos impostos têm sido pagos. Eu não quizera
mandar cortar a cabeça aos contribuintes... Não, isso nunca... Sangue?
sangue? não, não quero sangue...
--E se eu lhe der um remedio a tudo?
--Qual?
--Vossa Magestade decretou que as almas eram femininas e masculinas,
disse Kinnara depois de um beijo. Supponha que os nossos corpos estão
trocados. Basta restituir cada alma ao corpo que lhe pertence. Troquemos
os nossos...
Kalaphangko riu muito da idéa, e perguntou-lhe como é que fariam a
troca. Ella respondeu que pelo methodo Mukunda, rei dos Hindus, que se
metteu no cadaver de um brahamane, emquanto um truão se mettia no d'elle
Mukunda,--velha lenda passada aos turcos, persas e christãos. Sim, mas a
formula da invocação? Kinnara declarou que a possuia; um velho bonzo
achára copia d'ella nas ruinas de um templo.
--Valeu?
--Não creio no meu proprio decreto, redarguiu elle rindo; mas vá lá, se
fôr verdade, troquemos... mas por um semestre não mais. No fim do
semestre destrocaremos os corpos.
Ajustaram que seria n'essa mesma noite. Quando toda a cidade dormia,
elles mandaram vir a piroga real, metteram-se dentro e deixaram-se ir á
tôa. Nenhum dos remadores os via. Quando a aurora começou a apparecer,
fustigando as vaccas rútilas, Kinnara proferiu a mysteriosa invocação; a
alma desprendeu-se-lhe, e ficou pairando, á espera que o corpo do rei
vagasse tambem. O d'ella cahira no tapete.
--Prompto? disse Kalaphangko.
--Prompto, aqui estou no ar esperando. Desculpe Vossa Magestade a
indignidade da minha pessoa...
Mas a alma do rei não ouviu o resto. Lepida e scintilante, deixou o seu
vaso physico e penetrou no corpo de Kinnara, emquanto a d'esta se
apoderava do despojo real. Ambos os corpos ergueram-se e olharam um para
o outro, imagine-se com que assombro. Era a situação do Buoso e da
cobra, segundo conta o velho Dante; mas vede aqui a minha audacia. O
poeta manda calar Ovidio e Lucano, por achar que a sua methamorphose
vale mais que a d'elles dous. Eu mando-os calar a todos tres. Buoso e a
cobra não se encontram mais, ao passo que os meus dous heróes, uma vez
trocados continuam a fallar e a viver juntos--cousa evidente mais
dantesca, em que me peze á modéstia.
--Realmente, disse Kalaphangko, isto de olhar para mim mesmo e dar-me
magestade é exquisito. Vossa Magestade não sente a mesma cousa?
Um e outro estavam bem, como pessoas que acham finalmente uma casa
adequada. Kalaphangko espreguiçava-se todo nas curvas femininas de
Kinnara. Esta esteiriçava-se no tronco rijo de Kalaphangko. Sião tinha,
finalmente, um rei.