III

Entretanto, a bella Kinnara tinha um plano engenhoso e secreto. Uma

noite, como o rei examinasse alguns papeis do Estado, perguntou-lhe ella

se os impostos eram pagos com pontualidade.

--_Ohimé!_ exclamou elle, repetindo essa palavra que lhe ficara de um

missionario italiano. Poucos impostos têm sido pagos. Eu não quizera

mandar cortar a cabeça aos contribuintes... Não, isso nunca... Sangue?

sangue? não, não quero sangue...

--E se eu lhe der um remedio a tudo?

--Qual?

--Vossa Magestade decretou que as almas eram femininas e masculinas,

disse Kinnara depois de um beijo. Supponha que os nossos corpos estão

trocados. Basta restituir cada alma ao corpo que lhe pertence. Troquemos

os nossos...

Kalaphangko riu muito da idéa, e perguntou-lhe como é que fariam a

troca. Ella respondeu que pelo methodo Mukunda, rei dos Hindus, que se

metteu no cadaver de um brahamane, emquanto um truão se mettia no d'elle

Mukunda,--velha lenda passada aos turcos, persas e christãos. Sim, mas a

formula da invocação? Kinnara declarou que a possuia; um velho bonzo

achára copia d'ella nas ruinas de um templo.

--Valeu?

--Não creio no meu proprio decreto, redarguiu elle rindo; mas vá lá, se

fôr verdade, troquemos... mas por um semestre não mais. No fim do

semestre destrocaremos os corpos.

Ajustaram que seria n'essa mesma noite. Quando toda a cidade dormia,

elles mandaram vir a piroga real, metteram-se dentro e deixaram-se ir á

tôa. Nenhum dos remadores os via. Quando a aurora começou a apparecer,

fustigando as vaccas rútilas, Kinnara proferiu a mysteriosa invocação; a

alma desprendeu-se-lhe, e ficou pairando, á espera que o corpo do rei

vagasse tambem. O d'ella cahira no tapete.

--Prompto? disse Kalaphangko.

--Prompto, aqui estou no ar esperando. Desculpe Vossa Magestade a

indignidade da minha pessoa...

Mas a alma do rei não ouviu o resto. Lepida e scintilante, deixou o seu

vaso physico e penetrou no corpo de Kinnara, emquanto a d'esta se

apoderava do despojo real. Ambos os corpos ergueram-se e olharam um para

o outro, imagine-se com que assombro. Era a situação do Buoso e da

cobra, segundo conta o velho Dante; mas vede aqui a minha audacia. O

poeta manda calar Ovidio e Lucano, por achar que a sua methamorphose

vale mais que a d'elles dous. Eu mando-os calar a todos tres. Buoso e a

cobra não se encontram mais, ao passo que os meus dous heróes, uma vez

trocados continuam a fallar e a viver juntos--cousa evidente mais

dantesca, em que me peze á modéstia.

--Realmente, disse Kalaphangko, isto de olhar para mim mesmo e dar-me

magestade é exquisito. Vossa Magestade não sente a mesma cousa?

Um e outro estavam bem, como pessoas que acham finalmente uma casa

adequada. Kalaphangko espreguiçava-se todo nas curvas femininas de

Kinnara. Esta esteiriçava-se no tronco rijo de Kalaphangko. Sião tinha,

finalmente, um rei.

Historias Sem Data · 第 70 / 72 题