Mollemente deitado aos pés da bella Kinnara, o joven rei pedia-lhe uma
cantiga.
--Não dou outra cantiga que não seja esta: creio na alma sexual.
--Crês no absurdo, Kinnara.
--Vossa Magestade crê então na alma neutra?
--Outro absurdo, Kinnara. Não, não creio na alma neutra, nem na alma
sexual.
--Mas então em que é que Vossa Magestade crê, se não crê em nenhuma
d'ellas?
--Creio nos teus olhos, Kinnara, que são o sol e a luz do universo.
--Mas cumpre-lhe escolher:--ou crêr na alma neutra, e punir a academia
viva, ou crêr na alma sexual, e absolvel-a.
--Que deliciosa que é a tua boca, minha doce Kinnara! Creio na tua boca:
é a fonte da sabedoria.
Kinnara levantou-se agitada. Assim como o rei era o homem feminino, ella
era a mulher mascula--um bufalo com pennas de cysne. Era o bufalo que
andava agora no aposento, mas d'ahi a pouco foi o cysne que parou, e,
inclinando o pescoço, pediu e obeteve do rei, entre duas caricias, um
decreto em que a doutrina da alma sexual foi declarada legitima e
orthodoxa, e a outra absurda e perversa. N'esse mesmo dia, foi o decreto
mandado á academia triumphante, aos pagodes, aos mandarins, a todo o
reino. A academia poz luminarias; restabeleceu-se a paz publica.